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domingo, 24 de novembro de 2013

O NARIZ de SHOSTAKOVICH / THE NOSE — MetLive in HD, Culturgest, 23.11.2013

(Review in English below)


O Nariz é uma ópera russa escrita por um dos mais influentes compositores do século XX, o génio russo Dmitri Dmitriiyevich Shostakovich (1906-1975).


Completou-a em 1928 com apenas 22 anos de idade, um feito alcançado por muito poucos, sobretudo pela enorme novidade e riqueza criativa que atingiu e que usou como base da sua importante obra musical como, por exemplo, nas suas sinfonias.


O libreto foi elaborado por Yevgeny Zamyatin (escritor russo na linha gogoliana), Georgi Ionin, Alexander Preis e pelo próprio Dmitri Shostakovich. Mas foi este último quem, de facto, mais se lhe dedicou. O libreto é a adaptação do conto satírico O Nariz (1836) de Nikolai Gógol (1809-1852), genial autor russo de uma sagacidade, intrepidez e sensibilidade de análise social assinaláveis, autor de Almas Mortas e pai de uma geração literária com nomes onde pontificam Tólstoi e Dostoiévski.
A adaptação é, podemos afirmá-lo, perfeita: não faltam cenas, não faltam os comentários mordazes do autor, não falta o ambiente de loucura absurda e surrealista, ou a agitação de uma São Pertersburgo azafamada, quase caótica. Houve uma atenção ao detalhe imensa ao ponto de quase se poder “dispensar” a leitura do conto original, o que, todavia, não aconselhamos.


A história poderá ser lida com mais detalhe no site do Metropolitan, mas fica aqui um resumo:

Acto I: Num sonho ou na realidade, o barbeiro Ivan Yakovlevich faz o seu trabalho num estado inebriado. Ao acordar, quer comer o pão com cebola que a mulher prepara. Mas quando o parte, encontra, estupefacto, um nariz (“Hoc!”, exclama). Atrapalhado, o barbeiro sai de casa para se desfazer do nariz, mas depara-se sempre com algo que o impede. Entretanto, o assessor de colégio, ou antes, o major Kovaliov acorda e, olhando-se ao espelho, verifica que o seu nariz desaparecera. Perplexo, parte à sua procura. Na Catedral de Kazan encontra um cavalheiro com farda de Conselheiro de Estado que é, nem mais, nem menos, que o seu próprio nariz. Tenta chegar-lhe à fala, mas da conversa nada resulta.

Acto II: O atrapalhado Kovaliov vai à polícia dar parte do desaparecimento do seu nariz e queixar-se de que o seu nariz se faz passar por conselheiro de estado e se anda a passear pela cidade. O polícia recebe-o com maus modos e não lhe dá importância. Kovaliov segue para o jornal. Quer colocar um anúncio sobre o desaparecimento do seu nariz, mas no jornal recusam-lhe a publicação do anúncio. Kovaliov regressa a casa desesperado.

Acto III: O chefe da polícia ordena a captura do homem-Nariz. Correm imensas e contraditórias notícias pela cidade de que um homem na forma de nariz se anda a passear pela cidade. A população mobiliza-se para os diversos locais onde tem havido relatos dessa presença invulgar. Entretanto, o inspector da polícia vai a casa de Kovaliov entregar-lhe o nariz que tinha sido encontrado. Kovaliov tenta em vão colar o nariz. Na sua impossibilidade, chama um médico que lhe diz que, apesar de o poder fazer, não o faz porque o resultado seria pior. Kovaliov, muito aborrecido, envia uma carta a Podtochina acusando-a de lhe ter lançado um feitiço (ela queria casá-lo com a sua filha, mas Kovaliov só queria o flirt). Esta responde-lhe e Kovaliov conclui que ela está inocente. O povo reúne-se e discute este estranho caso quando, entretanto, aparece Kovaliov, satisfeito, já com o nariz de novo no lugar. "Digam o que disserem, acontecem coisas destas no mundo - raramente, mas acontecem."


A música que Shostakovich compôs para esta ópera é notável. Recuando ao ano de 1928, a sua música é extremamente ousada e inovadora, predominando a dissonância. São mais de 500 páginas de música para 30 instrumentos (1 por cada naipe mais percussão, domra e balalaica — instrumentos de cordas russos). Os instrumentos são virtualmente usados como leitmotif: o Nariz é uma flauta alto, Kovaliov é uma corneta e um xilofone, Ivan é uma balalaica.


A Orquestra do Metropolitan esteve em elevadíssimo nível dirigida pelo maestro Pavel Smelkov.


O barítono brasileiro Paulo Szot foi um Kovaliov estupendo. A sua voz tem um timbre muito bonito e pareceu sempre muito confortável na ultrapassagem dos muitos e difíceis desafios que a partitura lhe exigiu. As suas capacidades como actor já foram premiadas pelas suas interpretações em musicais e Szot fez jus aos prémios: foi um Kovaliov a todos os níveis irrepreensível, muito convincente. Mostrou-se cómico, sedutor, atrapalhado e desesperado sempre que se exigia.  A sua cena no jornal, só para dar um exemplo, com todo aquele desespero chorado foi extraordinária. Foi uma actuação digna de um Oscar.


O tenor russo Andrey Popov como Inspector da polícia esteve, também, em muito bom nível. Os seus agudos nunca saíram gritados, foi sempre muito equilibrado e o timbre é muito agradável. Aliou à prestação vocal, uma interpretação cénica de bom nível.

Podíamos falar de muitos outros cantores, mas são tantos... Tiveram todos desempenhos de elevada qualidade e acabamos por destacar o papel de enorme comicidade do médico (o baixo Gennady Bezzubenkov), a beleza tímbrica da soprano Ying Fang (filha de Podtochina e voz feminina na Catedral), o racional funcionário do jornal (o barítono James Courtney),  ou o atrapalhado barbeiro Iakovlevitch (o baixo Vladimir Ognovenko).


O melhor fica para o fim. A encenação do artista plástico sul-africano William Kentridge é absolutamente genial. A observação ao vivo desta encenação deve ser um espectáculo memorável. Conseguiu transportar-nos para o ambiente da Rússia dos anos 20, com todo aquele rebuliço revolucionário: com colagens, incontáveis recortes de jornais, frases em russo e em inglês projectadas, inúmeras projecções em vídeo do compositor, de cavalos projectados usados para “puxar” os cenários das diversas cenas, até de Estaline, do nariz omnipresente... Só visto.


Fica um vídeo com uma entrevista a Kentridge e vários outros do ensaio geral que poderão ajudar a ter uma ideia da dimensão artística notável desta criativíssima encenação.





E não resisto a deixar-vos, também, o link para o vídeo desta produção apresentada anteriormente no Festival d'Aux en Provence com a Opera de Lyon.


Se o magnífico desta ópera fosse só a música moderna de ritmicidade espectacular de Shostakovich, já tinha valido a pena. Se o magnífico desta ópera fosse só a adaptação exemplar do conto de Gógol, já tinha valido a pena. Se o magnífico desta ópera fosse só a encenação hipercriativa de Kentrigde, já tinha valido a pena. A conjugação destes três elementos, aliados às excelentes interpretações com um Szot estelar, tornam esta produção um marco inesquecível.

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(Review in English)

The Nose is a Russian opera written by one of the most influential composers of the twentieth century, the Russian genius Dmitri Dmitriyevich Shostakovich (1906-1975). He completed it in 1928 with only 22 years of age, a feat achieved by very few, especially because of its huge novelty and creative richness that he used as the basis of his later major musical works, for example, in his symphonies.

The libretto was written by Yevgeny Zamyatin (Russian writer in gogolian way) , Georgi Ionin, Alexander Preis and Dmitri Shostakovich himself. But it was the latter who, in fact, was the most dedicated to it. The libretto is an adaptation of the satirical short story The Nose (1836) by Nikolai Gogol (1809-1852), Russian writer of a brilliant social analysis sagacity, intrepidity and sensitivity, author of Dead Souls and father of a literary generation with names where Tolstoy and Dostoevsky pontificate.
The Nose short story adaptation is, we can state it, perfect: there are no missing scenes, the author’s biting comments are all them present, the ambiance of absurd and surreal madness, or the excitement of a bustling and almost chaotic San Petersburg are touchable by our senses. There was an immense attention to detail to the point of almost being able to "waive" the reading of the original tale, which, however, we don’t recommend.

The story can be read in more detail in the Metropolitan website.

The music that Shostakovich composed for this opera is remarkable. Retreating to the year 1928, his music is extremely bold and innovative, predominantly dissonant. Featuring over 500 pages of music for 30 instruments (1 for each section plus percussion, domra and balalaika - Russian stringed instruments). The instruments are virtually used as leitmotif: Nose is an alto flute, Kovalyov is a cornet and a xylophone, Ivan is a balalaika.
The Metropolitan Orchestra was at very high level directed by Pavel Smelkov .

The Brazilian baritone Paulo Szot was a remarkable Kovalyov. His voice has a beautiful tone and he always seemed very comfortable in overcoming many difficult challenges the score required. His skills as an actor have been already awarded for his performances in musicals and Szot showed us why: He was one impeccable and very convincing Kovalyov at all levels. Whenever required, he was humorous, seductive, fumbling and desperate. His scene at the newspaper, just to give an example, with all that crying and despair was extraordinary. It was a performance worthy of an Oscar.

The Russian tenor Andrey Popov as Police inspector and he was also in a very good level. He never came out screaming, his performance was always very balanced with a very pleasant timbre. Allied to vocal performance, he offered us a high level scenic interpretation.

We could mention many other singers, but they were so many ... All had high quality performances and we end by highlighting the role of the physician  comic role (bass Gennady Bezzubenkov) , the timbre beauty of the soprano Ying Fang (as Podtchina’s daughter and female voice in the Kazan’s Cathedral scene), the cerebral newspaper official (baritone James Courtney), or jmbled barber Iakovlevitch (bass Vladimir Ognovenko).

The best is to end. The staging of the South African artist William Kentridge is absolutely brilliant. This production viewed live muts be a memorable show. It is able to transport us to the environment of Russia of the 20s, with all that revolutionary turmoil: with collages, countless newspaper clippings, projected phrases in Russian and English, countless video projections on the composer, the projected horses used to "pull" scenarios of various scenes, even Stalin was there, and, of course, the ubiquitous nose... Only seen. Here is a video with an interview with Kentridge and various other from the final rehearsal that may help you to have an idea of the scale of this remarkable artistic and plenty of creativeness imagination production.

If this opera was just magnificent by Shostakovich’s modern music of spectacular rhythmicity, it had been worthwhile. If this opera was magnificent just due to it’s exemplary adaptation of Gogol's tale, it had been worthwhile. If this opera was magnificent only by hyper-creative Kentdrige’s staging, it had been worthwhile. The combination of these three elements plus with excellent performances with a stellar Szot makes this production a memorable milestone.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Boris Godunov de Modest Mussorgsky — Teatro Real, Madrid — 5 de Outubro de 2012


(Review in English below)

A ópera Boris Godunov de Modest Mussorgsky é, sem sombra de dúvidas, uma das óperas mais originais escritas à sua época, não só pelo próprio argumento — focado nas questões políticas do poder e na qual o povo assume um papel-personagem fundamental —, como pelo desenrolar cénico e forma musical.

(fotos do próprio e da internet)

Mussorgsky não era um compositor profissional — foi um militar que aprendeu música de forma auto-didacta. Esse “amadorismo” terá levado Rimsky-Korsakov (notável maestro) a considerar as falhas da partitura original e a mudar mais de 3000 dos 4 mil e tal compassos da obra, oferecendo-nos uma versão muito harmoniosa e de uma beleza extraordinária. Quem não a transporta na sua cabeça através de gravações, por exemplo, como a de Karajan com o sublime Boris interpretado pela voz verdadeiramente única de Nicolai Ghiaurov? Todavia, a partir de 1975, voltou a privilegiar-se a versão original de Mussorgsky com toda a sua inegável força dramática e escrita dotada de enorme modernidade.

Esta ópera conheceu duas versões. A primeira data de 1869 e sete cenas centradas no drama psicológico de Boris Godunov. Foi prontamente rejeitada pelo Teatro Mariinsky por não se conformar na habitual configuração da grande ópera dramática: onde estava o grande amor arrebatador? E o que fazer ao soprano já contratado e aqui sem papel? Iria ficar a assistir? Não! 
Não derrotado, mas entusiasmado, Mussorgsky entregou-se à segunda versão que apresenta definitivamente em 1872 com novas cenas. Apesar de conforme as regras, só foi estreada 2 anos depois a 27 de Janeiro de 1874 no Teatro Mariinsky. A crítica disse “o compositor está louco”, enquanto o público aplaudiu entusiasticamente, obrigando o compositor a vir 20 vezes ao palco.

Boris Godunov é um drama baseado na obra homónima de Alexander Pushkin (1826) e no livro histórico “História do Império Russo” (1829) de Nikolai Karamazín. Foi-nos apresentada no Teatro Real de forma completíssima: com 10 cenas, incorporando a cena da Catedral de São Basílio presente na versão de 1869, mas suprimida na de 1872.


A nova produção do Teatro Real ficou a cargo de Johan Simons. Não trouxe novidades de maior. O cenário omnipresente é um edifício soviético de 3 andares muito degradado e, por sinal e carcateristicamente, muito feio. Aí se desenrola toda a acção, havendo um ou outro plano elevatório e várias janelas que não foram aproveitadas da melhor maneira. O guarda-roupa era actual e nada trouxe à ópera apresentada. A direcção de actores também não foi magnífica, por pouco dramática. A novidade foi a invocação do grupo russo Pussy Riot, tão famoso pela figura contestatária sem rosto ao regime de Putin que aqui foi invocada nalguns elementos, nomeadamente entre o coro. A utilização de uma camera de filmar com projecção no cenário de uma cena filmada em grande plano não foi mais do que um elemento vistoso. O Idiota ou O Iluminado (parece que esta é a tradução mais correcta) transportava um globo de luz: ele trazia a clareza, o esclarecimento, a sabedoria. Em suma, foi uma encenação que serviu o drama, mas cuja modernização nada acrescentou à obra.


A direcção musical de Hartmut Haenchen não tocou o sublime. Foi regular, mas faltou intensidade dramática e, no meu entender, sobretudo na cena da morte de Boris, foi demasiado rápido. Acresce o facto — negativo — de os sinos terem tocado, mas através de colunas de som que reproduziram o seu som previamente gravado... Ainda assim, a obra é magnífica e a qualidade foi muito razoável.

O Coro do Teatro Real ofereceu-nos os melhores momentos da récita: estiveram muito bem nos coros monumentais que esta ópera nos oferece e que são, sem dúvida, um dos seus pontos de maior interesse e destaque.


Gunther Groissbock foi Boris Godunov. Tem uma presença física espantosa e muito adequada ao papel e uma voz que sabe projectar com clareza. Todavia, a sua interpretação de Boris foi algo tensa, pouco dramática e, no meu entender, não suficientemente convincente. Creio que poderá vir a ser um bom Boris, mas ainda não o é.

Fiódor, o filho de Boris, foi interpretado por Alexandra Kadurina. Cumpriu bem o seu pequeno papel. Xenia, a filha de Boris, foi Alina Yarovaya: tem uma bela presença e também se apresentou vocalmente bem.


O príncipe Chuiski foi Stefen Margita que esteve em bom plano, quer vocal, quer cenicamente. A sua voz fez-se ouvir com clareza e tem um timbre adequado.

O tenor Michael Konig foi Grigori, o falso Dmitri. Creio que não tem uma voz cheia e ampla, e os agudos não são o seu forte. Cenicamente não foi perfeito. No seu todo, a sua prestação foi regular e esteve longe de encantar.

Dmitry Ulyanov foi o monge Pimen. Tem uma voz de baixo com enorme amplitude, potência e beleza. Interpretou o seu papel de forma exemplar e foi o melhor da noite! 

Marina Mnishek, a princesa polaca, foi o mezzo-soprano Julia Gertseva. Tem uma voz com um bom timbre e controla bem as notas mais agudas. Desempenhou bem o seu papel e foi uma das melhores da noite.


Yuri Nechaev foi Andrei Chelkalov e esteve bem, o mesmo se podendo dizer da dupla Rangoni (Evgeny Nikitin) e Varlaam (Anatoli Kotscherga). Este último, conceituado Boris, já estará longe daquilo de que foi capaz. A taberneira foi a mezzo-soprano Pilar Vázquez que nos foi apresentada com uma indumentária medonha, o que realçava a sua imagem corporal de enorme porte e nos distraía de uma voz pouco capaz. Já o Idiota foi o tenor Andrey Popov, que tinha uma voz adequada ao papel e cumpriu com destreza cenicamente.


Em suma, foi uma récita que, no seu todo, foi homogénea e interessante de seguir, mas com uma encenação que nada acrescentou (apesar de ser moderna...) e da qual não levamos nenhuma interpretação na memória.

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(Review in English)

The opera Boris Godunov by Modest Mussorgsky is, without a doubt, one of the most original operas of time, not only by the argument - focused on issues of power and politics in which the people plays a vital role as a major character - as by scenic development and musical form.

Mussorgsky was not a professional composer – he was a military man who learned music by himself. His "amateurism" has led Rimsky-Korsakov (notable conductor) to consider the flaws of the original score and change over 3000 of the more than 4000 bars of the score, giving us a very harmonious and extraordinarily beautiful revised version. Who does not carry it in your head through recordings, for example, like Karajan’s with the sublime Boris interpreted by the truly unique voice of Nicolai Ghiaurov? However, since 1975, there has been a return Mussorgsky's original version with all its undeniable dramatic power and writing endowed with enormous modernity.

This opera met two versions. The first date of 1869 and seven scenes focused on psychological drama of Boris Godunov. The Mariinsky Theatre promptly rejected it by not settling in the usual setting of great dramatic opera: where was the great love duet? And what do the soprano already hired here and paperless? Would get just to watch? Definitely, no!
Not defeated, but enthusiastic, Mussorgsky delivered to the second version that definitely shows in 1872 with new scenes. Although according to the rules, it was just premiered two years after on January 27, 1874 at the Mariinsky Theatre. The critics said, "The composer is crazy," while the audience applauded enthusiastically, forcing the composer to come to the stage 20 times.

Boris Godunov is a drama based on the homonymous work of Alexander Pushkin (1826) and historical book "History of the Russian Empire" (1829) by Nikolai Karamazín. It was presented to us at the Teatro Real in a very complete way: with 10 scenes, incorporating the 1869 version scene of St. Basil's Cathedral, but abolished in 1872.

Johan Simons handled the new Teatro Real production but he does not brought great new ideas. The scenario is a ubiquitous and very degraded Soviet building of 3 floors and, by the way, very ugly. Then all the action unfolds, with one plan or another elevated, and there were several windows that were not utilized in the best way. The costumes were modern but they brought nothing to the opera. The actors’ direction was not magnificent, by the fact that it was poorly dramatic. The novelty was the invocation of the Russian group Pussy Riot, famous for faceless contestation of President Putin’s regime that has been invoked in some elements, notably between the choir. Using a camera for filming one of the scenes and projecting it in close-up way was not more than a fashionable element. The Idiot or the The Lighted (seems that this is the most correct translation) carried a globe of light: he was the one who brought clarity, enlightenment, and wisdom. In short, it was a performance that served the drama, but whose modernization added nothing to the work.

The musical direction of Hartmut Haenchen did not touched the sublime. It was regular, but lacked dramatic intensity and, in my opinion, especially in Boris's death scene was too fast. Moreover, the fact – negative - that the bells have rung, but through speakers that reproduce its sound previously recorded... Still, the work is beautiful and the quality was very reasonable.

The Choir of the Teatro Real has offered us the best moments of the recital: the choirs of this monumental opera offer us marvellous momentous and are undoubtedly one of its major points of interest and focus.

Gunther Groissbock was Boris Godunov. He has an amazing physical presence well suited to the role and a voice he projects clearly. However, his interpretation of Boris was somewhat tense, and dramatic but, in my opinion, not sufficiently convincing. I think he could be a good Boris, but still he is not.

Feodor, Boris' son, was Alexandra Kadurina. She served well her small role. Xenia, Boris’ daughter, was Alina Yarovaya: she has a nice presence and also performed well vocally.

The prince Chuiski was Stefen Margita who was in good plan, either vocal or scenically. His voice was heard with clarity and has a proper timbre.

The tenor Michael Konig was Grigori, the false Dmitri. He does not have a voice full and wide, and high-pitched notes are not his best. Scenically he was not perfect. Overall, his performance was regular and was far from delighted.

Dmitry Ulyanov was the monk Pimen. He has a bass voice with great range, power and beauty. He played his part in an exemplary manner and was the best performer of the recitation!

Mnishek Marina, the Polish princess, was mezzo-soprano Julia Gertseva. She has a voice with good tone and she controls well the higher notes. She played her role well and was one of the best of the night.

Yuri Nechaev was Andrei Chelkalov and he did well, the same can be said of the Rangoni (Evgeny Nikitin) and Varlaam (Anatoli Kotscherga). The latter, well known as Boris, is already far from what he was capable of. The Innkeeper was a mezzo-soprano Pilar Vázquez presented to us with a hideous outfit, which emphasized her heavy body image and distracted us of her little voice capacities. Idiot was the tenor Andrey Popov, who had a voice appropriate to the role and fulfilled skilfully scenically.

In short, it was a performance that, as a whole, was homogeneous and interesting to follow, but with a staging that added nothing (despite being modernity...) and which does not take into memory any singer interpretation.

domingo, 24 de outubro de 2010

BORIS GODUNOV – Met Live em HD, Fundação Gulbenkian, Outubro de 2010


Na segunda transmissão da temporada do Met para Portugal e primeira ao vivo, a Gulbenkian volta a proporcionar-nos um espectáculo notável.

Baseada na peça de Alexander Pushkin, Boris Godunov é uma ópera grandiosa passada no final do Século XVI e início do Século XVII que narra a ascensão e queda do Czar Boris Godunov. A música e libreto são da autoria de Modest Mussorgsky.

É uma história que retrata o sofrimento e ambição do povo da Rússia, centrada no czar que vive dilacerado pela culpa, por ter mandado matar Dimitri, o herdeiro natural do trono, que ocupou. É um drama de proporções épicas que termina com a morte de Boris Godunov, enlouquecido, acusado do assassínio de Dimitri por um religioso idiota – Simplório – a quem é permitido, pela tradição, falar sem medo. Antes de morrer, nomeia o filho Fyodor seu sucessor. O povo russo lincha nobres da corte e jesuítas e aclama um impostor, Grigory, que se faz passar por Dimitri, que marcha sobre Moscovo acompanhado por Marina, uma princesa católica polaca que ambiciona ser czarina. A ópera termina com o Simplório a chorar pela Rússia.



A encenação de Stephen Wadsworth é algo minimalista, com cenários abstractos (mosteiros, Kremlin, floresta, tudo pouco explícito) mas que não deixa de ser eficaz. O guarda-roupa é rico e variado.

A direcção musical foi do maestro Valery Gergiev. A Orquestra da Metropolitan Opera teve uma prestação que fez justiça à riqueza tímbrica da obra de Mussorgsky.
O Coro da Metropolitan Opera, que nesta ópera é uma das peças mais importantes do espectáculo, foi constituído por 120 elementos. Teve uma actuação de grande nível, tanto vocal como artisticamente.


O baixo alemão René Pape, um dos poucos solistas não russos, interpretou Boris Godunov. Foi autoritário no papel, embora tenha um registo vocal médio mais elevado do que a personagem exige. Mas fez-se ouvir bem e a voz tem um belo timbre. Os dois monólogos foram, vocalmente, emocionantes. Em cena esteve muito bem, a capacidade de transmitir emoção nos gestos e expressões faciais é impressionante. Contudo, no quarto acto, já louco, os movimentos corporais faziam lembrar mais um embriagado que um atormentado.

Mikhail Petrenko foi outro baixo que se destacou. Fez o papel de Pimen, monge ermita que escreve a história da Rússia. Possuidor de uma voz poderosa, segura e, esta sim, capaz de graves profundos e prolongados.

Ainda outro baixo que deu boa conta do papel foi Vladimir Ognovenko que fez de Varlaam, outro monge.

O tenor Aleksandrs Antonenko foi Grygori / Dimitri. É detentor de uma voz potente, com agudos imponentes, mas algo “rígida” e pouco emotiva. Cenicamente foi um desastre.

O meio-soprano Ekaterina Semenchuk foi Marina, a princesa polaca. A voz é escura mas, ocasionalmente, deixava-se afogar pela orquestra.


Evgeni Nikitim, baixo-barítono, foi o jesuíta Rangoni e não convenceu. A voz era banal e o artista mau em palco, cheio de trejeitos bocais a cantar, sempre a olhar para o maestro e não teve qualquer preocupação com a representação.

O contrário pode dizer-se do tenor Andrey Popov que fez de Simplório, numa interpretação curta mas notável tanto cénica como vocalmente.

Merecem ainda uma palavra de elogio os filhos de Boris Godunov (no programa não constam os seus nomes), sobretudo Fyodor, interpretado de forma impressionante por um jovem adolescente de bela voz e grande presença em palco.

(Grande parte das fotografias são de Ken Howard)


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