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domingo, 9 de outubro de 2022

L’ELISIR D’AMORE, Teatro de São Carlos, Outubro / October 2022

(review in English below)

A ópera L’Elisir d’Amore de G Donizetti abriu a temporada lírica do Teatro de São Carlos. Uma produção nova com encenação e cenografia de Mário João Alves.


Duas escadas, umas mesas, cestos e caixas com (muitas) laranjas e pouco mais foram os adereços usados. A encenação foi simples mas com várias partes interessantes e de bom efeito visual, tendo tonado o espectáculo agradável de ver. 


Passa-se num ambiente rural, numa quinta de produção de laranjas ou similar. Antes da sua chegada (de pára-quedas) o Dr. Dulcamara lança panfletos sobre a plateia a anunciar as suas façanhas. 

No final são também lançados sobre a plateia enormes balões simulando laranjas.


O maestro Antonio Pirolli ofereceu-nos uma boa orquestração, mas por vezes pouco viva. A Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve muito bem. Destaco o fagote (David Harrison) e a harpa (Carmen Cardeal) na famosíssima aria Una furtiva lagrima

 


O Coro do Teatro de São Carlos, sob a direcção de Giampaolo Vesselia teve uma prestação excelente.

Os solistas eram todos jovens, o que é óptimo, mas as interpretações não foram ao mesmo nível. O Nemorino foi interpretado pelo tenor espanhol Antonio Garés. Tem uma boa figura mas a emissão foi irregular, alternando períodos em que era bem audível com outros que mal se ouvia. O timbre é peculiar e, no registo mais agudo, parece cantar em falsete. 



A soprano Rita Marques foi a Adina, que não começou bem mas melhorou ao longo da récita e no final do 2º acto teve um desempenho marcante, com um registo agudo seguro e afinado. Em palco, não transmitiu qualquer atracção nem pelo Belcore nem pelo Nemorino, situação idêntica da parte deles.



O barítono Ricardo Panela, cantor que muito aprecio, foi um Belcore vocalmente correcto, mas a figura não se ajusta à personagem. É demasiado jovem e franzino para o papel do sargento. A encenação e o guarda-roupa também não ajudaram.


O melhor da tarde foi o o baixo chileno Ricardo Seguel como Dulcamara. Tem uma voz poderosa, sempre bem audível, timbre muito bonito e em cena  foi o mais credível.


A Giannetta cantada por Joana Seara foi uma presença agradável.









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L'ELISIR D'AMORE, Teatro de São Carlos, October 2022

The opera L'Elisir d'Amore by G Donizetti opened the lyrical season at Teatro de São Carlos. A new production with production and staging by Mário João Alves.

Two ladders, some tables, and baskets and boxes with (many) oranges were the props used. The staging was pleasant, had several interesting parts and good visual effect, making the performance pleasant to watch. It takes place in a rural setting, on an orange farm or similar. Before his arrival (by parachute) Dr. Dulcamara throws pamphlets over the audience announcing her achievements. At the end, huge balloons simulating oranges are also thrown over the audience.

Maestro Antonio Pirolli offered us a good orchestration, but sometimes not very lively, and the Orquestra Sinfónica Portuguesa played very well. I highlight the bassoon (David Harrison) and the harp (Carmen Cardeal) in the very famous aria Una furtiva lagrima. The São Carlos Theater Choir, under the direction of Giampaolo Vesselia, had an excellent performance.

The soloists were all young, which is great, but the performances weren't on the same level. Nemorino was interpreted by Spanish tenor Antonio Garés. He has a good figure but the vocal emission was irregular, alternating periods in which he was very audible with others that were barely audible. The timbre is peculiar and, in the highest register, he seems to sing in falsetto.

Soprano Rita Marques was Adina, who did not start well but improved throughout the performance and at the end of the 2nd act she had a remarkable performance, with a secure and in tune high register. On stage, she didn't show any attraction for either Belcore or Nemorino, a similar situation on their part as well.

Baritone Ricardo Panela, a singer I really appreciate, was a vocally correct Belcore, but the figure of the singer doesn't fit the character. He's too young and skinny for the role of sergeant. The staging and clothes didn't help either.

The best singer of the afternoon was the Chilean bass Ricardo Seguil as Dulcamara. He has a powerful voice, always very audible, very beautiful timbre and scenically he was the most credible.

Giannetta sung by Joana Seara was a pleasant presence.

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domingo, 31 de janeiro de 2021

LA WALLY, Teatro de São Carlos, Lisboa

 


O Teatro de São Carlos disponibiliza hoje às 16h00 (no site do Teatro) a transmissão da ópera La Wally (em versão concerto) de Alfredo Catalani, com libretto de Luisi Illica, dirigida pelo maestro António Pirolli.

São interpretes a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e os solistas Zarina Abaeva (La Wally), Luiz-Ottavio Faria (Stromminger), Patrícia Quinta (Afra), Joana Seara (Walter), Azer Zada (Giuseppe), Luis Cansino (Vicenzo) e Nuno Dias (almocreve).

Um espectáculo de qualidade onde é possível ouvir uma das mais belas árias para soprano "Ebben? Ne andrò lontana" e uma intérprete de nível excepcional, a soprano russa Zarina Abaeva,  que recentemente destacamos na interpretação do Requiem de Verdi em Milão, na leitura de Currentzis:

http://fanaticosdaopera.blogspot.com/2020/11/messa-da-requiem-verdi-na-leitura-de.html


La Wally, Teatro São Carlos, Lisbon

The Teatro São Carlos makes available today at 4 pm (on the Theater website) the broadcast of the opera La Wally (in concert version) by Alfredo Catalani, with libretto by Luisi Illica, directed by conductor António Pirolli.

The Portuguese Symphony Orchestra, the Choir of the São Carlos National Theater and the soloists Zarina Abaeva (La Wally), Luiz-Ottavio Faria (Stromminger), Patrícia Quinta (Afra), Joana Seara (Walter), Azer Zada (Giuseppe), Luis Cansino (Vicenzo) and Nuno Dias (muleteer).

A quality performance where you can listen to one of the most beautiful soprano arias "Ebben? Ne andrò lontana" and an exceptional interpreter, Russian soprano Zarina Abaeva, which we recently highlighted in the interpretation of Verdi's Requiem in Milan, directed by Currentzis:

http://fanaticosdaopera.blogspot.com/2020/11/messa-da-requiem-verdi-na-leitura-de.html



sábado, 16 de junho de 2018

LA TRAVIATA – Teatro de São Carlos, Lisboa / Lisbon, Junho / June 2018




(review in English below)


A opera La Traviata de Verdi encerrou a temporada do Teatro de São Carlos em Lisboa. Felizmente que se abandonou a concretização da nova produção (ao que se soube a Violeta seria um travesti com SIDA!) e se recuperou a encenação de Pier Luigi Pizzi, clássica, digna e que cumpre perfeitamente. Foi talvez a melhor encenação da temporada.

Já muito foi escrito neste espaço sobre esta ópera pelo que farei apenas um pequeno apontamento sobre os cantores e o público.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

A soprano russa Ekaterina Bakanova foi uma Violeta de excelente qualidade, muito acima dos restantes cantores e do melhor que se tem ouvido em São Carlos nos últimos tempos. Voz bonita, potente, sempre bem colocada e coloratura eficaz. A cantora tem uma figura que ajuda muito no papel, é alta e magra, embora no último acto mais parecia que estava a morrer com uma peritonite do que com tuberculose pulmonar (mas a culpa não foi dela). Esteve sempre bem, mas no 2º acto foi fabulosa!

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

O Alfredo foi o jovem tenor português Luís Gomes. O timbre vocal não é bonito, a figura também não ajuda, mas conseguiu cumprir com dignidade este grande papel, que será um marco na sua carreira.

O barítono britânico Alan Opie não esteve bem. Foi irregular na emissão, parecia perder o controlo vocal com frequência, a voz foi excessivamente nasalada e, ocasionalmente, tinha muito “grão”.

Dos cantores secundários, destacaria a boa prestação de Carolina Figueiredo como Annina. Os restantes cumpriram sem deslumbrar,  João Merino como Marquês d’Obigny, João Oliveira como Dr. Grenvil e Joana Seara como Flora. Mário Redondo como Barão Douphol e João Cipriano como Gastone foram os mais apagados.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

Uma nota final para o público, pelo menos no local onde estive. Para além das tosses contínuas, uma mulher sentada atrás de mim teve o telemóvel a vibrar durante grande parte do 2º Acto. Apesar de estar no silêncio, ouvia-se perfeitamente a vibração e ela nada fez, ou melhor, logo depois resolveu desembrulhar demoradamente um rebuçado, perturbando a audição de algumas das partes mais dramáticas da ópera. 
Tivemos ainda como surpresa adicional o maestro Michele Gamba a trautear a área Addio, del passato enquanto a Bakanova a cantava!
Não há paciência!!

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LA TRAVIATA - Teatro de São Carlos, Lisbon, June 2018

Verdi's opera La Traviata closed the São Carlos Theater season in Lisbon. Fortunately, the new production announced was abandoned (in which Violeta was known to be a transvestite with AIDS!) and recovered the production by Pier Luigi Pizzi, classic, dignified and that perfectly fulfils the staging of the opera. It was perhaps the best staging of the season.

Much has already been written in this blog about this opera so I will only make a small note about the singers and the audience.

Russian soprano Ekaterina Bakanova was a Violet of excellent quality, far above the other singers and the best that has been heard in São Carlos in recent times. Beautiful powerful voice, always well tuned and effective coloratura. The singer has a figure who helps a lot in the role, she is tall and lean, although in the last act more seemed to be dying with a peritonitis than with pulmonary tuberculosis (but it was not her fault). She was always good, but in the 2nd act she was fabulous!

Alfredo was the young Portuguese tenor Luís Gomes. The vocal tone is not beautiful, the figure also does not help, but he managed to perform with dignity this big role, which will be a milestone in his career.

British baritone Alan Opie was not well. He was irregular in the vocal emission, seemed to lose vocal control frequently, the voice was excessively nasal and occasionally had much "grain".

Of the secondary singers, I would emphasize the good performance of Carolina Figueiredo as Annina. The rest performed without being dazzled, João Merino as Marquis d'Obigny, João Oliveira as Dr. Grenvil and Joana Seara as Flora. Mário Redondo as Baron Douphol and João Cipriano as Gastone were the most discreet.

A final note about the public, at least where I've been. In addition to the continuous coughs, a woman sitting behind me had the cell phone vibrate during much of the 2nd Act. Despite being in the silence, the vibration was heard perfectly, and she did nothing, or rather, she soon resolved to slowly unwrap a candy, disturbing the hearing of some of the most dramatic parts of the opera. We also had as an additional surprise maestro Michele Gamba treading the area Addio, del passato while Bakanova was singing!
There is no more patience !!

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domingo, 2 de maio de 2010

AS BODAS DE FIGARO (Le Nozze di Figaro) –Teatro de São Carlos, Lisboa, Maio de 2010

As Bodas de Figaro (Le Nozze di Figaro) é uma das grandes óperas de Mozart que, se bem tocada, bem cantada e bem encenada, proporciona momentos musicais sublimes. Infelizmente não foi o que aconteceu na récita a que assisti no Teatro Nacional de São Carlos.


A Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve sob a direcção de Julia Jones e foi, de longe, o melhor da tarde. A maestrina conduziu a orquestra com garra e conseguiu desta uma muito boa prestação. Ouviu-se Mozart! Foram ambas (orquestra e maestrina) incomparavelmente melhores e mais credíveis do que no Morcego, há poucos meses.
Guy Montavon, encenador com curriculo firmado e muito premiado (conforme assinalado na bio do programa) foi responsável por uma encenação que achei kitsch e de mau gosto. Apenas algumas tonalidades de azul ao longo da récita foram interessantes. No primeiro acto o amontoado de caixotes não resultou em qualquer efeito interessante, apenas dificultou a mobilidade dos cantores (já de si “perra”). No segundo, o quarto da Condessa parecia o da Imelda Marcos, pejado de caixas de sapatos, sem outros atractivos cénicos. No jardim do último acto apareceram retratadas, para o casamento, muitas figuras públicas, desde Lili Caneças à princesa Diana, passando por Berlusconi, Carla Bruni e diversos membros das famílias reais europeias, entre outros. Tudo muito kitsch, repito, e de gosto duvidoso.
O baixo Marco Vinco foi o Conde de Almaviva. Boa figura, a voz fazia-se ouvir com facilidade, apesar de o timbre não ser bonito e a expressividade ficar aquém do desejado. Mas foi um dos melhores em palco. A Condessa (Rosina) foi interpretada pela soprano Jessica Muirhead. Não esteve bem nem cenica nem vocalmente. A voz era aceitável no registo médio mas nos agudos perdia qualquer qualidade melódica, transformando-se em gritos. E foi pena porque a Condessa tem algumas das mais belas arias (exprimindo tristeza) escritas por Mozart. Joana Seara foi uma Susanna interessante, sem deslumbrar, mas melhor que qualquer das cantoras estrangeiras com papeis principais. Figaro foi cantado pelo barítono Leandro Fischetti. Teve uma prestação muito irregular ao longo da récita. Começou mal, foi pouco credível em cena, teve intervenções interessantes mas outras decepcionantes. Cherubino foi interpretado pelo mezzo Kristina Wahlin. Irregular na emissão, timbre aspro, desafinações frequentes e desastrosa em cena, não colocou nenhuma credibilidade na personagem. Em papeis menores ouviram-se alguns dos melhores da récita, nomeadamente Donato di Stefano como Dr. Bartolo e Mário João Alves como Don Basilio.
Foi ainda digno de registo a frequente falta de entrosamento das várias personagens, cada uma cantando para seu lado, fatal nesta ópera, onde os ensembles são tão frequentes e importantes.


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