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quarta-feira, junho 29, 2011

As Moralistas da Slutwalk

Se passeio na Cracolândia à noite com um relógio de ouro à mostra falando no meu iPhone 5, há uma boa probabilidade de ser roubado. Se eu for roubado, a culpa é do assaltante, e não minha. Contudo, quem negará que a minha conduta aumentou a probabilidade de um roubo acontecer? Só alguém cego de ideologia.

Cego como as partidárias da slut walk (e alguns partidários, se bem que o apoio desses costuma ser faca de dois gumes: de um lado, o direito das mulheres; do outro, ver gatinhas com pouca roupa), incapazes de fazer essa simples distinção: uma coisa é ser moralmente culpado de algo; outra é aumentar ou diminuir a probabilidade que esse algo aconteça. Vestir-se de maneira a atiçar o desejo sexual masculino (por exemplo, com um decotão bem grande para mostrar os peitos, com nanossaias, tatuagens à mostra que direcionem a visão para a genitália, dizeres sugestivos na camiseta e atrás da calça como “bitch” ou “fuck me”; e outras puritanices do gênero), bem, isso atiça o desejo sexual masculino. Também há certos locais ou circunstâncias em que os homens ficam naturalmente mais propensos a desejar sexualmente e de forma indiscriminada qualquer mulher que se lhe apareça na frente. Um baile de funk carioca (dos quais resultam não poucas gravidezes), uma balada com muitas drogas e dançarinas sensuais, etc.

Infelizmente, alguns homens (por culpa própria, salvo em casos de doença mental) dão vazão a seus desejos sexuais sem se importar em saber se a mulher que será alvo de suas investidas deseja ou não tal honra. Alguns se limitam a comentários ofensivos e dirty talk em geral – o que já é aviltante -, outros buscam um contato físico indesejado e alguns outros estão dispostos até mesmo à violação sexual forçada, que é dos piores crimes possíveis. Devemos fazer todo o possível para que os homens não fiquem assim, e punir severamente aqueles que perpetuam qualquer violência sexual. A culpa é deles.

Contudo, sabendo dessa realidade, as mulheres podem agir prudencialmente, por exemplo não usando roupas que incentivem os homens a vê-las como objetos sexuais; vestindo-se de forma a realçar sua humanidade. Talvez a maioria das mulheres ignore o quanto é fácil para um homem olhá-las como um mero objeto sexual e nada mais. Há, infelizmente, algo de desordenado na natureza humana, e essa desordem mexe também com nossa sexualidade. Cabe a cada um educar, domar e, quando a porca torce o rabo, barrar seus ímpetos mais descontrolados (sejam ligados à violência, à comida, ao sexo, etc.). Por isso a culpa do estupro é sempre do estuprador, e não da vítima. Contudo, a vítima pode agir de maneira a diminuir a probabilidade do estupro. Ao se vestir de forma provocante, a mulher aumenta a chance que ela provoque algum homem sexualmente; o homem sexualmente excitado está mais propenso a praticar alguma forma de violência sexual.

As manifestantes da slut walk parecem querer, ao mesmo tempo, atiçar o desejo sexual masculino e não sofrer violência sexual. Infelizmente, embora no plano das idéias as duas coisas pareçam perfeitamente distintas, no mundo real elas frequentemente caminham juntas. Isso não quer dizer que a culpa do estupro seja das mulheres; mas elas têm à disposição algumas condutas fáceis para diminuir a probabilidade do estupro (embora nada possa garantir a segurança total).

Quando você sai na rua, não procura, se possível, deixar celulares e objetos de valor fora da visão de todos? Não olha para os dois lados antes de atravessar, e se vê um carro desloucado à toda velocidade, não espera ele passar antes? Tanto no roubo quanto no atropelamento, a culpa é de quem rouba e atropela. Mas o celular é seu, e a vida é sua; trate de não facilitar! Por que no estupro o pensamento mais “iluminado” ignora isso? Mulheres, há dentro de cada homem heterossexual um forte desejo sexual pelo corpo feminino; esse desejo pode se manifestar de maneira sadia e positiva, que enfatize ao invés de negar a humanidade da mulher; ele pode também, contudo, se expressar de maneira bestial e violenta. Quando essa segunda opção lamentavelmente ocorre, a culpa é sempre do homem. Mas não a facilitem!

Já falei que a culpa do estupro é do estuprador? Repito-o agora: a culpa do estupro é sempre do estuprador e nenhuma mulher merece ser estuprada.

Assim, espero que as respostas fujam do usual “CULPANDOAVÍTIMACULPANDOAVÍTIMACULPANDOAVÍTIMA!!!!!111um”.

terça-feira, outubro 19, 2010

Um conto de duas farmácias

Motivos médicos têm me mantido um tempo nos EUA. Nessa temporada, tive a oportunidade dúbia de freqüentar muitas farmácias, e posso dizer que a experiência americana nesse quesito é muito diferente da brasileira. Querem saber em qual dos dois países as farmácias são melhores? Aposto que não, né? Mas mesmo assim acompanhem comigo esta disputa que, embora menos emocionante que a Copa, guarda uma lição.

Comecei a pensar no assunto farmácia ainda em São Paulo, quando tive que comprar lentes de contato e não as encontrei. Na segunda tentativa frustrada, perguntei à atendente da farmácia se alguma outra próxima teria (tenho memória recente de comprá-las). A resposta? Farmácias estão proibidas de vender lente e óculos. Interessante. Lá fui eu para uma ótica. Imagino que ter uma visão boa seja algo perigosíssimo ao indivíduo e à sociedade, e por isso as autoridades tenham decidido dificultar nosso acesso a ela. Agora, cada idoso pobre com vista cansada tem que marcar consulta com oftalmologista e apresentar receita médica para comprar óculos. Os consumidores já podiam, antes, consultar um médico e pegar a receita. Quem achava que isso tomava muito tempo e dinheiro e que o benefício dos óculos um pouco mais precisos não valia a pena podia comprá-los direto. Não mais.

A lente de contato é um pequeno passo na crescente restrição ao que as farmácias podem vender. Lembro de uma matéria do Jornal Nacional uns anos atrás sobre outros produtos cuja venda seria proibida (já não lembro quais) em que perguntavam a um comprador numa farmácia se ele aprovava a nova lei. Sim, claro, aprovava. Ironicamente, na cesta desse consumidor consciente estavam vários produtos que a lei proibiria. Para vocês verem como pesquisas de opinião e voto nas urnas refletem fielmente as preferências reais da população... O resultado é que hoje em dia nossas farmácias só vendem remédios, cosméticos e algumas coisas de banheiro. Em breve alguém vai perceber que shampoo é bem diferente de remédio, vai achar “irracional” juntar os dois produtos numa mesma loja e vai querer que a lei separe o que o bem-estar dos consumidores uniu. Devem existir motivos muito bons para proibir as farmácias de vender produtos em geral, fazendo com que os cidadãos percam tempo à toa indo a várias lojas diferentes. Será? Vejam a justificativa dada pelo presidente da ANVISA, Dirceu Raposo de Mello (ADVERTÊNCIA: o pensamento de quem trabalha com o Ministério da Saúde pode ser prejudicial a sua saúde mental): “A farmácia é um estabelecimento diferenciado, não se pode banalizar esse ambiente com produtos que não têm relação com seu objetivo”. Precisa criticar?

Pensemos em algo mais agradável do que a ANVISA, o que não é difícil. Vamos aos EUA! Lá, as farmácias vendem de tudo: remédios, eletrônicos, utensílios domésticos, brinquedos, livros, comida e mais, muito mais. Procuro um pouco e ali estão: óculos de até 3,5 graus por 15 dólares livremente expostos (é, a saúde americana ainda não chegou no nível invejável da brasileira, embora avanços importantes estejam sendo feitos nesse campo). Enquanto espero meu remédio ficar pronto (mais sobre isso abaixo) compro guloseimas. Não tenho a menor dúvida: farmácia banalizada é muito melhor.

O outro lado da pílula

Talvez você esteja pensando algo nessas linhas: “canalha liberal vendido ao capitalismo ianque!” Se for o caso, acalme-se. Na competição pela melhor farmácia ainda sobra um quesito no qual poderemos resgatar a honra brasileira. Notem que até agora eu falei de tudo, menos de remédio.

A farmácia americana goza de muita liberdade exceto quando o assunto é remédio; aí ela é o sonho de qualquer burocrata. Registrem bem: para comprar qualquer remédio de receita, é preciso dar a receita (que é nominal, numerada e tem um papel especial com várias marcas para não ser falsificada) ao farmacêutico, apresentar documento de identidade e dar endereço e telefone; daí o farmacêutico registra tudo no computador, faz algumas ligações e depois coloca a quantidade exata de remédio que a receita prescreve num potinho. Da primeira vez, o atendente me disse que estaria pronto em vinte minutos. Fiquei pasmo; vinte minutos? No Brasil a venda é instantânea (fora para remédios tarja preta - nos EUA é assim para quase todos): o atendente olha o seu papel e te dá a caixa. Uma lei nova que proíbe que o próprio consumidor pegue o remédio atrapalha um pouco as coisas, mas o serviço ainda é rápido. Bom, como dito, usei o tempo de espera para comprar sorvete, Coca-Cola e outros remédios da alma. O que eu nem suspeitava era que aquele fosse um dia de sorte; o normal é que o remédio demore uma hora para “ficar pronto”. Perguntei a um farmacêutico que conheci por aqui e ele me contou que a demora deve-se à checagem da receita e à negociação com as seguradoras. Falha de mercado? Mais para falha de governo: o mercado de seguros americano é dos mais regulamentados do mundo, e as seguradoras são obrigadas a dar muito remédio de graça sem aumentar o preço da mensalidade; naturalmente, lutam com unhas e dentes para não dar um centavo além do exigido por lei. O resultado é que os pedidos vão se acumulando e forma-se uma fila imensa. Esse farmacêutico lamenta que ele não tem mais tempo de ajudar nenhum cliente, conversando e tirando dúvidas sobre sintomas. Todo ele é consumido por tarefas burocráticas.

Se o sistema brasileiro já é desnecessariamente complicado, o americano é uma piada de mau gosto. Contei a um atendente aqui nos EUA como funciona a venda de remédios no Brasil. “É, aqui era assim também. Mas tinha muita receita falsa.” Não tive a presença de espírito de retrucar um “E daí?”. No Brasil também tem muita receita falsa. E daí? Se receita não fosse obrigatória, o número de receitas falsas cairia muito, pode apostar. E elas cumpririam sua função legítima: informar ao paciente e ao atendente da farmácia qual o remédio e a dosagem prescritas pelo médico; não servir de controle legal de quem pode ou não ingerir uma substância. Mas, você me dirá, e os perigos de se tomar um remédio errado e morrer? Será que vale a pena encarecer (em tempo e dinheiro) toda a nossa relação com a saúde porque algumas pessoas são temerárias o bastante para tomar remédios perigosos sem ter a menor idéia se ele é ou não indicado a seu caso? Ironicamente, muita gente que defende a saúde regulamentada admite que descumpre a lei corriqueiramente, por exemplo pedindo indicação de remédio ao farmacêutico (ou mesmo à mãe), o que é ilegal (talvez isso mude parcialmente; notem o medo dos médicos de perderem sua reserva de mercado).

Perto do FDA, órgão do governo americano que decide que substâncias podem ser vendidas e quais devem ser controladas, a ANVISA é benigna e liberal. O FDA já quer, por exemplo, limitar legalmente a quantidade de sal em todos os alimentos. Muitas grandes empresas já se adequaram voluntariamente. Para elas é uma boa: via de regra, qualquer nova regulamentação será mais facilmente colocada em prática por uma grande empresa (para a qual o gasto extra é relativamente pequeno) do que por uma pequena, para quem o novo gasto pode comprometer a existência do negócio. Depois não venham reclamar de monopólios e cartéis...

Estou me estendendo; hora de anunciar o vencedor. Quem ganha na comparação de farmácias; Brasil ou Estados Unidos? And the winner is... o mercado. EUA e Brasil têm prós e contras diferentes; mas nas farmácias de ambos os prós devem-se à liberdade das pessoas de transacionar voluntariamente para melhorar suas vidas e os contras às ações dos governos que decidem melhorar a situação.

terça-feira, julho 06, 2010

Meditações Futebolísticas

Um dia negro foi a sexta passada nesta maldita Jabulândia. Queria ver bandeiras a meio-pau, roupas pretas e luto público; revolta popular e banho de sangue cairiam bem. Os jogadores que voltam para casa são desertores vergonhosos, culpados de alta traição; já para o pelotão! Minha geração nunca tinha passado por duas derrotas seguidas na Copa; é desumano. Naqueles últimos minutos... ah, os últimos minutos! No peito, o desejo de estourar uma bomba e estragar o dia de alguém. Calma. Respire fundo e conte até dez. Quase que a alma vai embora junto do hexa.

O que tem o futebol que mexe assim com os ânimos? Há o gosto universal pela competição e pela adesão a um grupo, claro. Mas por que o futebol e não outro esporte? Algumas características o distinguem. É um jogo de times (representam algo maior do que um indivíduo, como um tenista, que só muito secundariamente representa seu país), dinâmico, barato de jogar, estratégico mas com espaço para o talento individual. Acho que o aspecto essencial, contudo, é que pontuar é difícil. Um gol no futebol vale muito mais que uma cesta no basquete ou um ponto no vôlei. Nesses, a não ser que seja no momento da decisão, pouco importa uma pontuada, e por isso o jogo é menos empolgante. No futebol, há muito menos pontos, mas a possibilidade do gol sempre existe, o que cria uma tensão permanente. Um gol muda tudo, e por isso a explosão de alegria (ou ódio, ou frustração) quando acontece. Uma consequência disso é a possibilidade real da zebra: pequenos deslizes aqui ou ali dão a vitória ao time mais fraco; um gol na hora errada desmoraliza uma equipe forte e bota tudo a perder. A garra e a raça importam tanto quanto o talento, a estratégia e a técnica. O único que pode concorrer com o futebol em matéria de espetáculo público é o futebol americano - a tática amarradíssima e o mérito individual extraordinário na corrida rumo ao triunfo que é o touchdown; um jogo de gigantes. Mas o alto custo é um grande obstáculo a sua universalização.

Só consigo torcer de verdade na Copa. Cada seleção representa uma história, uma cultura, um povo, uma raça. Cada povo coloca ali os seus melhores para um duelo altivo, orgulhoso, uma verdadeira guerra patriótica onde nada menos que a honra de nações inteiras está em jogo. Claro que essa bela ilusão só perdura enquanto olhamos de longe. Chegando perto, que diferença! Quem são os franceses da França? E os alemães da Alemanha? E, mais grave, que tipo de gente compõe essa aristocracia esportiva? Olhem a cara de um Rooney e digam se ele aparenta qualquer traço de civilidade. De hedonismo troglodita talvez? A gota d’água é a glorificação das imagens dos craques nas campanhas publicitárias, na FIFA e na ONU. Beckham, Zidane, Ronaldo, astros Nike e Pepsi, modelos da juventude, nossos heróis; pose, atitude, aparência, mediocridade; a essência do marketing. A maioria deles nem sequer leva o país a sério, dando mais valor aos contratos com os times comerciais. Se Kaká se quebra na Copa, adeus Real Madrid.

O que me traz ao tema insondável da relação do torcedor com seu time, que não se associa a nenhuma população ou a o quer que seja. O que leva um paulistano a ser são-paulino, corintiano ou palmeirense? Os jogadores de cada time não obedecem a nenhum critério de origem; não há divisão por bairro, por etnia, por profissão, por nada. No passado, o Palmeiras era um time da imigração italiana; fazia todo sentido, então, que o descendente de italianos fosse palmeirense. Hoje ninguém representa nada. Quem ontem era de um time hoje é de outro. São só camisetas coloridas e publicidade. Simples assim. Quando assisto a um jogo de times, descubro para quem torço só durante a partida, o que pode inclusive mudar ao longo do jogo, tão subjetivo e aleatório é o torcer. É como escolher uma marca, Coca ou Pepsi, sem que haja refrigerante a ser provado. Prefiro Coca porque acho o gosto melhor; quem torce prefere seu time porque... o prefere; porque os pais torcem, porque os amigos torcem, porque ganhou um campeonato; nenhum motivo diretamente ligado ao torcedor. Devo admitir: sou santista - mas santista não-praticante! Se ouço dizer que o Santos vai bem, meu coração é tomado de uma leve alegria, que beira a indiferença. Há quem chore, grite, urre de alegria, brigue, mate e morra de frustração. Ou o homem é um bicho irremediavelmente esquizofrênico, ou há aí uma carência por algo maior, mais real, pelo qual sonhar, matar e morrer.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Consumo não é consumismo, ou Apologia do shopping center

As atitudes contemporâneas acerca do consumo são totalmente equivocadas. Quais são as duas coisas que se costuma dizer? 1) o consumo é um vício, algo que destrói o indivíduo; 2) entretanto, ele ajuda a economia a crescer e nos torna mais prósperos. As duas estão erradas; o consumo não causa crescimento econômico nenhum - ele é apenas consequência do crescimento, e pode inclusive significar retração econômica se for aumentado às custas da poupança. Mas mais importante do que isso é que o consumo não é mau e nem degrada o ser humano; antes, ajuda-o a chegar à plenitude de sua existência.

O que é consumir senão utilizar algum meio externo (isto é, distinto do próprio agente) para atingir alguma finalidade? Comer um hamburger é consumir, vestir uma roupa é consumir, ouvir uma sinfonia é consumir, ler um tratado filosófico é consumir. O que muda é a finalidade. Por acaso é algo mau se alimentar, estar bem vestido, apreciar uma obra de arte ou ponderar sobre as grandes questões da existência? São coisas boas? Então também são bons os meios pelos quais chegamos a elas.

Ademais, repare no seguinte: quem considera o consumo um mal deveria, conseqüentemente, ter a mesma opinião acerca do trabalho, pois todo trabalho visa ao consumo; seja o consumo do próprio trabalhador ou o consumo de outros, por meio da troca. Não faz sentido, portanto, louvar um e condenar o outro, a não ser que o ideal do sujeito seja o trabalho supostamente praticado por alguns monges, que teciam cuidadosamente cestos de vime para depois desmanchá-los e tecê-los novamente. Não conheço a origem dessa história, e nem se é verdadeira; sei que os primeiros monges e eremitas do Cristianismo, os chamados padres do deserto, que abandonaram o mundo para meditar e orar no deserto, faziam cestos que eram vendidos no mercado, e com o dinheiro compravam seus víveres (muito poucos, obviamente, pois sua vida era de abnegação). O mesmo vale para a imensa maioria dos monges, aos quais mesmo os ateus são gratos pelas cervejas e bolos. Fim do parêntese histórico-teológico. Tudo isso para dizer que consumir é, em si, um bem, uma necessidade humana.

Coisa muito diferente é o consumismo, a doença do consumo, que é o desejo excessivo de comprar. Acho que há uma série de motivações por trás dele: o apego aos prazeres sensíveis de curto prazo; o gosto superficial da novidade pela novidade; o desejo de aparecer e ser admirado pelo que se tem. Todos eles, creio, fluem de algo mais profundo, um vazio da alma que não será preenchido nem por dez mil acessórios Louis Vuitton.

É muito fácil fazer a acusação de consumismo genérico. Compra-se muitas coisas supérfluas; para quê ter um celular que tira foto? No caso particular, contudo, cada compra parece ter sua razão de ser. De perto, o que parecia um aglomerado de zumbis arrastado por campanhas de marketing rumo ao shopping revela-se uma família normal (no bom sentido) satisfazendo suas necessidades de forma razoável e eficiente. É ótimo e prático ter um celular que tira foto; assim posso registrar e partilhar momentos que de outra forma perderia; por que não? Pois é; é muito fácil bater no peito e dizer que se é consumista no geral, mas difícil identificar quais compras são realmente desnecessárias e prejudiciais.

Para dificultar a questão, a diferença entre o consumo e o consumismo é apenas indiretamente ligada à quantidade de produtos comprados. Em geral, tudo mais constante, o consumista tenderá a comprar mais do que o consumidor temperante. Mas mesmo alguém que não consuma tanto ou de forma tão extravagante pode ter sua atenção inteiramente voltada para sonhos de consumo ao qual ele não tem acesso (carros, iates e mansões que ele não tem dinheiro para comprar). E há o consumismo alternativo, o desejo por produtos raros e únicos (o artesanato da tribo perdida, o CD da banda que ninguém conhece); aqui não se busca a quantidade e nem alguma qualidade do produto em si, mas uma sensação socialmente atribuída a ele (a raridade, a sensação de superioridade intelectual ou cultural, etc). Em suma, é fácil valorizar exageradamente os bens materiais, mas não é fácil identificar as ocasiões em que isso ocorre.

Já repararam que muita gente fala mal de shopping center e bem de museu, mas frequenta sempre o primeiro e quase nunca o segundo? É que o shopping ganhou a fama de símbolo do consumismo, então pega mal dizer que se gosta dele. Eu, apreciador assumido do bom shopping center, tendo passado diversos bons momentos em suas dependências, sinto-me moralmente compelido a defendê-lo; que não mais se confunda consumo com consumismo!

Vejam só: sempre que é preciso fazer uma compra ou que se quer ir ao cinema, lá está o shopping como a opção mais prática, na qual ainda pode-se tomar um lanchinho ou saborear uma boa refeição. Ora, por que não ir a uma rua de comércio? Porque o shopping simplifica e facilita muito a nossa vida. Reúne várias conveniências num mesmo ambiente com ar-condicionado, pouco barulho (passeie pela Teodoro Sampaio e me diga se uma trilha easy-listening não é preferível à barulheira dos ônibus, e o ar condicionado ao sol de rachar, ou à chuva), é muito mais fácil de parar o carro e bem mais seguro. Isso permite uma alta concentração de lojas num local agradável o bastante para permitir que os consumidores passeiem com calma; e é aí que descobrem novas oportunidades de compra.

O shopping é um templo do consumo? Só para quem faz do consumo seu deus. Para quem tem suas prioridades em ordem, é onde se resolve com pouco gasto de tempo as necessidades de consumo, sem falar na boa sociabilidade e nas opções de lazer oferecidas. Um ponto concedo de bom grado: o shopping é palco de muita cafonice. Ele reflete, afinal de contas, o gosto dos consumidores; e hoje em dia, por algum motivo que desconheço, imitações baratas de arquitetura neo-clássica e orquestras de papais Noéis tocando standards americanos passam por elegantes (bom, até aí, Campos do Jordão é muito pior). Além disso, algumas de suas qualidades geram defeitos: a segurança relativamente confiável, por exemplo, faz com que os pais deixem seus filhos lá sem grande medo. A conseqüência é termos que aturar a euforia boçal das trupes de pré-adolescentes que experimentam, no shopping, seu primeiro gostinho de liberdade (eu bem sei; já fui um deles).

Mas nada disso deve inibir o consumidor virtuoso. Vá lá ao shopping com seus amigos (ou desacompanhado - o estranhamento de ir ao cinema ou a um restaurante sozinho ocorre somente na primeira vez; a partir daí, vira um ótimo programa - tenho experiência nesse departamento), tenha uma tarde excelente e, quando um pseudo-intelectual ou um “geração saúde” vier com aquele olhar reprovador, lembre-se de que a diferença de hábitos pos si só não os torna imunes ao consumismo.

terça-feira, novembro 17, 2009

Tá tudo Controlado

Meu pára-brisa ganhou um novo adesivo. Sim, sou mais um orgulhoso dono de um veículo devidamente inspecionado pela Controlar. Paulistanos, respirem aliviados, e se a fuligem ou o monóxido os intoxicarem, saibam que não fui eu: o adesivo verde está lá para provar. Fiz minha inscrição ontem e consegui vaga para hoje. Entrei no site uma vez, vi que os dois pontos de inspeção da região centro-oeste (Jaguaré e Barra Funda) estavam sem vagas, então fui ver se na zona sul tinha lugar. Ter, tinham, para daqui alguns dias, mas... Cidade Dutra? Sacomã? Acho que não. Meio desencantado, voltei para a zona centro-oeste. Supresa! Apareceu vaga na Barra Funda, mas para um mês depois só. No tempo que fiquei considerando se me inscrevia ou não, a vaga foi embora. Mas o conhecimento principal eu já tinha: vagas novas aparecem; é só ficar entrando e saindo do site até que apareça um horário conveniente. Eventualmente, apareceu para hoje no Jaguaré. Negócio fechado.

Devo dizer, antes de tudo, que o serviço na Controlar foi muito eficiente. Cheguei alguns minutos antes do meu horário (que era 10:54 - precisão nanométrica), já preocupado. Temia esperar horas, e, como sempre acontece nas minhas raras e sofridas interações com o governo, tinha certeza que um burocrata ia me informar (sorrisinho cínico nos lábios) que um documento essencial estava faltando, que eu teria que marcar outro dia e ainda levar a multa, já que minha chapa é 8 e o prazo terminou mês passado. Muito pelo contrário: os atendentes foram todos profissionais e rápidos. As 11:03 eu já estava de saída.

Alguém consegue imaginar a causa dessa eficiência? Sim, a Controlar é uma empresa privada (bem, mais ou menos - foi criada pelo consórcio vencedor da licitação governamental - essa eterna geradora de monopólios). Foi a única boa surpresa de um processo nefasto. Da noite para o dia, algum político demagogo decidiu que todos os carros precisariam passar por uma inspeção desnecessária para a maioria deles (meu caso). E para quem não fizesse isso dentro do prazo, multa de 500 Reais. Para o governo é muito cômodo. Os burocratas e políticos, que via de regra já não trabalham, não precisam fazer esforço nenhum. Bolam um novo requerimento, contratam uma empresa (nosso dinheiro) para o serviço, cobram de nós uma taxa, e decretam multa para quem não fizer tudo certinho.

Alguém me contestará, dizendo que a qualidade do ar é importante. Olha, concordo. O que não gosto é o modus operandi do governo: jogar todo o peso nas nossas costas e ainda faturar uns trocados (com as multas vindouras e taxas que não serão requeridas de volta). Num sistema de ruas privadas, os donos das ruas (em geral empresas) procurariam saídas que não impusessem custos na vida dos motoristas, sob pena de perder clientela. Como as ruas são do governo, é a ele que cabe bolar um jeito de melhorar a qualidade do ar. Se é para apelar para a punição - como é de seu feitio -, então os únicos punidos deveriam ser os carros desregulados. É dever do governo avisar, identificar e possivelmente punir os infratores; e não declarar punição universal e obrigar a todos a ir para bem longe fazer uma inspeção desnecessária e custosa. Entrei e saí do Controlar em 10 minutos, mas do meu lado estava uma mulher cujo carro funcionava a gasolina e a gás. Infelizmente, seu tanque de gás estava bem vazio e acabou no meio do teste. Enquanto eu saía para enfrentar o trânsito da Marginal e da Pedroso de Moraes, ela ficou lá, numa conversa bem frustrante com o técnico. Espero que tenha acabado bem, mas temo que ela terá que fazer tudo de novo. E aposto que, no fim das contas, estará tudo certo com o carro dela. Pune-se inocentes aos montes para pegar alguns infratores. Punir apenas os infratores; não seria mais justo?

Mas nosso governo opera sob outro princípio. Poluição, violência, acidentes, a solução é universal: medidas draconianas de proibição e regulação, e que se danem os prejudicados. O pior, o mais odioso, é que a maioria da população, mesmo amigos meus, condicionada por toda uma vida de liberdades tolhidas e mistificações acerca da importância do Estado, acha isso lindo, na crença equivocada de que estamos contribuindo para uma sociedade melhor. Do jeito que as coisas estão, daqui a pouco vão declarar obrigatório, para controlar o efeito estufa, medidor de pum enfiado vocês sabem onde. E tem muito otário que vai colocar - e pagar - sorrindo.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Educação privada para os mais pobres dentre os pobres

Volta e meia, ao pensar ou defender os méritos da educação privada, me punha a imaginar as possibilidades educacionais num mundo sem regulamentações, onde qualquer um pudesse dar aulas ou mesmo abrir uma escola. Assim, alguém que soubesse um pouco mais do que aqueles à sua volta (digamos, um senhor que leia e escreva razoavelmente bem e que mora numa favela de iletrados) poderia usar a sala de casa como sala de aula; os preços seriam baixíssimos, de forma que mesmo gente muito pobre poderia pagar. Esses devaneios cessaram depois que li The Beautiful Tree, de James Tooley, pois agora sei que se trata de uma realidade.

A história do livro começou por coincidência. Tooley, que trabalha com educação desde os anos 80 (tendo inclusive se voluntariado como professor de matemática no regime de Mugabe no Zimbábue, quando ainda acreditava no sonho do socialismo), foi mandado pela universidade de Newcastle para Hyderabad (Índia), onde ele deveria estudar os colégios privados da elite. Num dia de folga, decidiu conhecer a maior favela da cidade, pois sua preocupação sempre foi com os mais pobres. Lá, no meio da favela, descobriu algo fascinante: literalmente centenas de escolas privadas para os pobres. Muitas tinham, com efeito, começado com um professor dando aulas em sua própria casa; com o tempo, e o aumento da demanda, expandiram-se, contrataram mais professores e anexaram construções vizinhas. Verdadeiros empreendedores da educação, pessoas com real vocação ao ensino, dedicam suas vidas para ensinar crianças a um custo baixíssimo, unindo serviço social a lucratividade. Não é para menos que se tornaram figuras respeitadas da comunidade. Os pais não têm dúvidas: as escolas privadas são mais próximas de casa, os professores mais dedicados (não faltam nunca, bem diferente das escolas públicas), o número de alunos por sala é menor e as crianças aprendem mais. Impressionado com o que viu, Tooley viajou o mundo (Zimbábue, Gana, Quênia, Nigéria, China) para verificar se Hyderabad era exceção ou regra. Para sua surpresa, e para nossa, a descoberta repetiu-se sempre: escolas privadas existem em grande número nas favelas e vilas rurais mais miseráveis, e prestam um serviço importantíssimo à população por preços que a maioria pode pagar (e, de quebra, dão aula de graça para quem não tem condições: órfãos e exilados, por exemplo).

Em cada novo país, os estudiosos de educação, os encarregados da educação pública, os representantes da ONU, Banco Mundial ou das grandes ONGs, enfim, os “experts de desenvolvimento”, recebiam-no com desdém e condescendência. Juravam de pés juntos que, naquele país, não havia escolas privadas para os pobres. “A população é muito pobre. Em nosso país, escolas privadas são para os ricos.” Errados sempre. O ensino privado já é uma realidade estabelecida, embora tenha que lidar com todo um sistema desenhado para eliminá-la. Em quase todos os casos, a escola precisa subornar fiscais para ser tolerada, já que é simplesmente impossível uma escola de pequeno porte, e que atende à população carente, se adequar às incontáveis regulamentações impostas pelo governo (tamanho do playground, número de banheiros, certificações dos professores, etc).

Mesmo quando admitem a existência de escolas privadas em grande número, os experts insistem em que elas não são parte da solução para o problema da educação, pois “visam o lucro”. Ora, nos mostra o livro, é exatamente porque visam o lucro que as escolas privadas são mais confiáveis do que as públicas. Tooley mostra muito bem como o desejo de lucrar e o de servir à comunidade não são contraditórios; pelo contrário, reforçam-se mutuamente. Na escola privada, os professores dão aula bem e raramente faltam, mesmo ganhando salários muito inferiores aos da escola pública, cujos funcionários têm todo tipo de regalias e “direitos adquiridos”. A diferença está em que, na escola privada, a remuneração do empreendimento depende da qualidade do serviço prestado, que é avaliada pelos próprios pais; quem falta ou ensina mal pode ser demitido. Na escola pública, o dinheiro vem dos impostos (e de doações bilionárias de países ricos) e ninguém corre risco de demissão. Para quê se esforçar? Um pai, cidadão pobre do Quênia, explica assim a diferença: “Enquanto a maioria dos professores na escola do governo fica descansando, na escola privada nossos professores estão ocupados dando o melhor de si, porque eles sabem que somos nós que pagamos. (...) A gente consegue [dinheiro] com nosso suor, não podemos jogá-lo fora, porque dinheiro não nasce em árvores, você tem que trabalhar pesado para receber, e o professor precisa trabalhar ainda mais pesado com as nossas crianças para ganhar o sustento dele.” (p. 122) - e assim um homem simples, sem nenhuma educação formal, revela um entendimento mais refinado de ciência econômica do que experts da ONU e do Banco Mundial.

Não tendo como negar a realidade do ensino privado e o poder de atração que ele exerce, esses mesmos experts argumentam que ele seria de baixíssima qualidade; uma ferramenta de explorar a pobreza e a ignorância da população (claro, tal argumento parte do pressuposto de que os pais pobres são burros e/ou não ligam a mínima para a educação dos filhos - um mito preconceituoso mas estranhamente popular). Tooley pôs-se, então, a testar essa tese. Preciso dizer o resultado? As escolas privadas vão melhor do que as públicas; testes padronizados confirmam o que os pais solícitos já sabiam conversando com seus filhos, comparando-os e observando as salas de aula. E reparem bem: as escolas privadas têm resultados melhores com custo por aluno muito menor. Orçamentos vultuosos dos governos, doações bilionárias de países ricos e ONGs multinacionais têm resultado pior do que escolinhas que funcionam em casebres da favela, com professores da própria comunidade e que se financiam exclusivamente de 2 dólares por mês de cada aluno.

Conforme avança a leitura, outra revelação: o ensino privado não é novidade. Havia - e isso é bem documentado - na Índia, antes da colonização britânica, educação privada bem extensa. O governo britânico, sob o pretexto de dar aos indianos uma educação nos padrões ingleses, acabou com o sistema nativo e implantou a rede pública. É por isso que, em 1931, Gandhi podia afirmar: “Digo sem medo de que contestem meus dados que a Índia hoje é mais iletrada do que era cinqüenta ou cem anos atrás” (p. 212). A educação pública, por ser gratuita ao consumidor (ou, em outros casos, ter um preço bem inferior ao seu custo), atrai grande parte da população, ávida por pagar menos, destruindo assim as alternativas privadas, que eram sustentáveis. E, no fim das contas, o resultado educacional é negativo, devido ao problema de incentivos de todo serviço gerido pelo governo. O mesmo se aplica ao próprio Ocidente; quem se interessa em olhar os dados descobre que a educação inglesa já era universal antes da provisão estatal. Alternativas privadas de educação, melhores e muito mais eficientes, foram também tiradas do mercado por meio de regulamentações infinitas, cujo único resultado foi eliminar o ensino privado de baixo custo e conformar as poucas opções restantes ao modelo estatal.

Tooley não deixa de observar que há ainda muito a se fazer, por exemplo, nos métodos de ensino (embora, como ele bem mostra, é no mercado que os novos métodos nascem e se desenvolvem) e nos currículos (ainda muito presos às provas oficiais do governo e distantes das necessidades reais da população). Não quer dar respostas prontas, elaborar um “Grande Plano de Educação”, pois é exatamente esse o erro que os governos têm cometido; ele apenas propõe idéias, esboços, de como governo e mercado podem cooperar para dar educação de qualidade a todos. Concorde-se ou não com essas propostas, elas manifestam, sem dúvida, uma mente honesta em busca de soluções práticas para problemas reais.

Que o governo deva prover educação gratuita e compulsória para todos é um dogma das ciências econômica e política contemporâneas. Mas e se a própria educação se beneficiar de um papel maior da iniciativa privada? The Beautiful Tree nos alerta que talvez seja hora de rever alguns dogmas... James Tooley não é um defensor ardoroso do liberalismo econômico; tampouco é particularmente afeito ao intervencionismo estatal (a experiência pessoal direta com o socialismo do Zimbábue ensinou-lhe boas lições). Sua única agenda é a melhora da educação. Para ele, mais importante do que uma escola ser particular ou pública, é melhorar a educação da forma mais eficaz e eficiente possível. Seu livro nos dá os resultados de anos de pesquisa por vários países, mas vai além disso. Ele abre uma janela para mundos completamente desconhecidos da maioria de nós (as favelas de Lagos, vilarejos rurais em Ganzu, China) e alguns dos personagens cativantes (professores, alunos, pais) que os habitam. A imagem tradicional dos pobres como pobres coitados, miseráveis passivos e ignorantes, totalmente dependentes da caridade externa, dá lugar à realidade de um povo dinâmico, de empreendedores, com muitas carências sim, mas dispostos a lutar, trabalhar e estudar para melhorar de vida; e é exatamente isso que fazem quando têm a liberdade necessária. É uma verdadeira aula de sociologia e geografia contemporâneas e uma bela amostra da nobreza do espírito humano mesmo sob as condições mais precárias.


Resenha originalmente publicada no Instituto Millenium.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Seria, a propaganda, do mal?

Qual é o grande problema com as propagandas? Por que é que todo mundo tem alguma propaganda que gostaria de proibir? O que está por trás dessa mentalidade, que vai aos poucos corroendo nossa liberdade de expressão?

Vimos recentemente a tirada do ar da infeliz campanha publicitária da Vovó Safalda, que fez sucesso entre a molecada conscientizada com seu sábio conselho à netinha: “Mas quem falou em casamento? Eu tô falando em sexo!”. Claro que é bem triste ver uma senhora, que devia ser respeitada por sua experiência e sabedoria, por sua capacidade de ir além dos desejos de curto prazo, capitular para a mentalidade de um adolescente tarado e hedonista. Se bem que, perto do que se vê na televisão, essa propaganda era até bem casta. É no mínimo curioso que sensibilidades que agüentaram incólumes décadas de Malhação e Xuxa tenham sido mortalmente feridas ao ouvir uma vovó dizer a palavra “sexo”.

Bom, não quero perder o foco. O fato é que alguém achou a propaganda ofensiva e ela foi tirada do ar. Isso já traz à mente vários outros casos parecidos: a Zeca-feira, a tartaruguinha cervejeira, as propagandas de cigarro. Nem sempre é a lei que proíbe; as próprias empresas já se auto-policiam e, temendo represálias do governo ou de grupos da sociedade civil (leia-se ONGs), controlam o que vai ao ar, buscando um equilíbrio meio dúbio. Coloca-se, em fast forward, o aviso “aprecie com moderação” depois de uma propaganda inteira, ou melhor, de uma cultura inteira, que grita com toda a força “beba SEM moderação”, “persiga o seu prazer SEM moderação”. “Ah sim!” deve exclamar o espectador; “eu iria ao bar para encher a cara, mas depois deste aviso sensato, acho que um copo é o bastante”. Chegou-se ao extremo ridículo em que as companhias de cerveja não mostram pessoas bebendo em seus comerciais. O ator olha a garrafa, segura a garrafa, sorri para a garrafa, e brinda; beber, nunca. Agora sim, a moral e os bons costumes estão a salvo!

As companhias entraram no jogo semântico de seus adversários. Sinto muito, mas a propaganda não visa apenas “garantir o direito à informação”. A empresa quer sim influenciar o público e aumentar suas vendas. Se se aceita a premissa de que a propaganda manipula o espectador, transformando-o num zumbi sem alma que quer apenas consumir, então não tem jeito, a empresa já perdeu. A defesa mais honesta da propaganda é a seguinte: sim, queremos influenciar o consumidor, mas ele vai comprar nosso produto apenas se quiser; a responsabilidade é dele. O mesmo com a propaganda de brinquedos. Há uma campanha crescente para que ela seja proibida e limitada de todas as formas, pois as crianças não têm discernimento para escolher. Ainda bem que não é a criança que tem poder de decisão sobre a renda da família, né?

Há algo de mau na cultura de indulgência e excessos em que vivemos? Sem dúvida. Ela é causada pela propaganda? É claro que não. A propaganda apela para desejos e pulsões já existentes nas pessoas. Se ela criasse esses desejos, manipulando as massas de pobres ignorantes, como afirmam tantos sociólogos conscientizados, então não existiria campanha publicitária fracassada. As propagandas que apelam ao hedonismo e à irresponsabilidade são efeito do hedonismo e da irresponsabilidade já existentes nos consumidores brasileiros. Os jovens querem beber até cair e guiar loucamente na volta para casa; então vamos proibi-los cada vez mais de beber, e proibir as propagandas de cerveja. Os pais já não cuidam mais dos filhos, deixam-nos na frente da TV o dia inteiro e compram tudo o que eles pedem; então vamos proibir as propagandas de brinquedo. O povo fuma sem pensar nos seus preciosos pulmões; então vamos proibir o fumo e a propaganda de cigarro. Isso só alimenta a irresponsabilidade. Quanto mais regras, quanto mais proibições, menor a autonomia individual, e menor a responsabilidade de cada um por suas ações. As pessoas se preocupam apenas em obedecer (para poderem, quando algo der errado, dizer “não foi minha culpa, eu segui as regras”) ao invés de agir da melhor forma possível.

Não adianta proibir a propaganda. Não adianta botar avisos no fim do comercial. Não adianta proibir toda nova atividade que apresente riscos de saúde. Isso é um controle tolo de sintomas que só ajuda o alastramento da doença. O problema real, a causa verdadeira, é moral e espiritual, ou seja, está nos valores pelos quais as pessoas vivem. Fazer escândalo quando esses valores são retratados no comercial é, no mínimo, ingenuidade. E todo o resto da cultura? Não deveria ser proibido também?

A saída moralista fácil (não alterar a realidade, apenas impedi-la de ser mostrada) encontra o anti-capitalismo normal do povo brasileiro (“lucro é mau”). E as empresas entram na dança, aceitando as premissas e o raciocínio, mas negando, sabe-se lá com que malabarismos retóricos, a conclusão: o homem não é responsável por suas escolhas, e portanto não deve ter a liberdade de escolher.

segunda-feira, setembro 14, 2009

15 anos de cursinho

É um fato bem conhecido que a educação no Brasil não está bem, embora nem sempre seja fácil apontar o que, especificamente, está errado. Uma recente pesquisa trouxe um pouco de luz ao problema, cujas origens podem estar no ensino fundamental: em países como Chile e Cuba (até em Cuba!), o professor passa a maior parte da aula voltado para os alunos, elucidando conceitos, respondendo perguntas e discutindo eventuais polêmicas; a lousa é usada como um apoio ao ensino. No Brasil, ela é a peça central da aula. O professor passa a maior parte do tempo de costas para a classe, copiando o que está escrito no livro didático, enquanto os alunos, por sua vez, copiam da lousa para os cadernos. Isso se ainda não perderam o interesse pela aula e, desistindo de anotar, conversam entre si.

A educação brasileira consiste essencialmente na cópia e na repetição dos conteúdos já extremamente simplificados e esquematizados dos livros didáticos. Esse padrão não é, infelizmente, restrito ao ensino fundamental (o que já seria preocupante), mas verifica-se ao longo de todo o sistema. Richard Feynman, prêmio Nobel de física, quando veio ao Brasil, ficou chocado em ver como jovens universitários tão inteligentes preocupavam-se apenas em memorizar, e não em compreender. Concluiu ele: “Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada.” (Tirado do livro “O Senhor está brincando, Sr. Feynman?”.) Isso foi nos anos 50. Desde então, nada mudou.

Como recém-formado de duas faculdades paulistanas, observei a mesma coisa. Pouco entendimento, muito decoreba. Os conteúdos são ministrados visando apenas à prova ao fim do semestre, como se estivéssemos num cursinho pré-vestibular (que já é, por sinal, o modelo padrão do ensino médio). Do livro-texto para a lousa (ou para o slide de PowerPoint), da lousa para o caderno, do caderno para a prova. Vocês podem imaginar o quanto se perde a cada uma dessas passagens. O resultado são alunos bons em recitar informações, mas com enorme dificuldade em integrá-las num corpo de conhecimento utilizável fora da sala de aula. Enfim, do ensino básico ao superior, nunca saímos do cursinho.

Um cursinho que, ironicamente, não produz resultados. Os alunos do ensino básico brasileiro vão consistentemente mal em avaliações internacionais, ficando atrás de países como Jordânia, Tailândia e Bulgária (PISA 2006). E não é para menos: o cursinho funciona quando se tem um objetivo pontual e concreto em mente, como uma prova específica que se queira passar; quando se trata de educação num sentido mais amplo, de longo prazo, o modelo da memorização e repetição torna-se desestimulante, o que talvez explique, em parte, por que os estudantes demonstram tão pouco interesse pelas aulas na maioria dos colégios e faculdades.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Lei seca: eficácia dúbia, incoveniência certa

É provável que a lei seca tenha algum impacto nas decisões das pessoas de guiar depois de ter bebido. Aumentou a punição (que antes era ou inexistente - para pequenas doses - ou menos severa) e, pelo que se tem dito, aumentou a fiscalização. É certo que, se um conhecido for preso, isso será para mim um poderoso indicador de que a probabilidade de ser pego não é desprezível, o que justificará medidas de segurança da minha parte (usar mais táxi ou carona, por exemplo).
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Entretanto, parece que o alarde quanto ao sucesso da nova lei foi, no mínimo, exagerado. Também, o que esperávamos? É natural que, com o terrorismo inicial com que se a anunciava, mais gente receasse beber e dirigir. Contudo, após um período de adaptação (aparentemente curto), o medo deixa de prevalecer.

Mas suponhamos que a percepção das pessoas quanto ao risco de serem punidas tenha mudado significativamente, e que isso de fato resulte num número menor de motoristas alcoolizados, e portanto numa redução do número de acidentes; se tudo isso ocorrer, terá a lei valido a pena?

Uma lei pode ser ruim por ser incapaz de atingir seu objetivo. Uma lei de salário mínimo a 1 milhão de Reais por mês (tudo mais constante), embora proponha um ideal agradável à imaginação, não atingiria seu objetivo de melhorar as condições de vida dos trabalhadores, mas apenas aumentaria o desemprego e a informalidade. Por isso, seria uma lei ruim. Outro motivo de uma lei ser ruim é ter um objetivo em si mesmo indesejável, como seria o caso de uma lei de segregação racial. Mesmo que fosse perfeitamente eficaz em atingir esse objetivo, seria, ainda assim, má.

Entretanto, é possível que uma lei tenha um objetivo bom, seja eficaz em atingi-lo e, ainda assim, não seja uma boa lei. Seria ótimo se nossas ruas fossem mais limpas. Se uma nova lei ordenasse a execução sumária e instantânea de qualquer pessoa que jogasse lixo no chão, e alocasse muitos policiais para fiscalizar seu cumprimento, provavelmente atingiria o objetivo almejado. Essa lei seria boa? É claro que não. Apesar de seu objetivo ser bom e eficazmente alcançado, os meios para alcançá-lo são por demais custosos à sociedade. Perde-se a liberdade e a segurança a um grau tão exacerbado, e a pena é tão desproporcional ao delito, que os benefícios visados são superados por males.

Mesmo supondo que a lei seca tenha alguma eficácia em diminuir mortes no trânsito (algo que os dados estão longe de mostrar...), os meios empregados são por demais custosos à sociedade. Beber alguns chopps não tem grandes impactos na direção. E beber é um hábito tão arraigado no costume popular, que abrir mão dele é altamente custoso. Um jantar romântico no qual o casal toma uma taça de vinho tornou-se impraticável.

É sempre possível diminuir um mal tirando-se a liberdade para praticar um bem. Um toque de recolher às 22:00 diminuiria muito os índices de violência noturna; mas a perda de liberdade que ele acarreta seria muito maior do que o bem conseguido. Da mesma forma, é bem possível que permitir níveis razoáveis de álcool no sangue dos motoristas aumente o número de acidentes (um reflexo levemente pior pode causar uma trombada); entretanto, esse risco levemente maior é preferível à perda da liberdade. O homem, imperfeito, sempre pode usá-la mal. Isso não muda o fato de que, sem ela, seria impossível alcançar qualquer bem.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Impressões da Europa

A Europa não vai bem. Muitos elogios se tecem ao “modelo europeu”. Mas também temos que falar do podre. Não tenho em mente modelos políticos e econômicos, embora creia que eles expliquem parte do problema apontado. Os incentivos por eles criados exacerbam as deficiências espirituais e morais da sociedade, que são a principal causa da crise atual e o foco do meu texto.

Um teólogo inglês resumiu bem a cultura atual de seu país: supermercados e esportes. O mesmo poderia ser dito sobre outras nações. Tem-se a impressão de que as pessoas não têm uma razão maior de viver. Jovens e velhos, todos vivem em função do prazer (exceto os muito jovens e os muito velhos; esses vivem cada vez menos). As aspirações não ultrapassam baladas e viagens. O interesse não vai além da última fofoca sobre o Beckham. Poucas pessoas querem filhos, e as famílias não duram. Muitas crianças e adolescentes já têm como dado que se casarão mais de uma vez.

Essa vida não leva o homem à felicidade. Os níveis de alcoolismo entre jovens são alarmantes, e os adultos estão afundados até o pescoço em dívidas. Depressão, distúrbios psicológicos e suicídio não são incomuns. Muitos percebem que há algo errado, mas não vão à raiz do problema: o desejo de lutar por algo melhor pára no protesto político ou no efeito estufa.

Claro, isso é um recorte muito parcial. Nenhuma pessoa é tão simples ou superficial assim. As aspirações humanas nunca são totalmente apagadas; amizades continuam a ser feitas, encontros felizes acontecem, planos bons ainda vingam. Quem estiver disposto encontra lá os meios para obter a melhor formação espiritual e cultural do mundo. Sem falar que são incontáveis as virtudes que os europeus poderiam nos ensinar: o trabalho realizado com perfeição, a honestidade, o senso de dever cívico. Mas mesmo isso vai se perdendo aos poucos. Escândalos políticos, a nós tão familiares, estão deixando de ser raridade por lá.

Os europeus perderam o sentido de transcendência; perderam sua identidade cristã. Quiseram construir um paraíso na terra, pensando apenas no homem e na vida presente. Mas se esqueceram de que o homem está profundamente desregulado. Que, sem algum auxílio externo, sua tendência é piorar. Pensaram ser possível manter o patrimônio cultural de séculos desprezando sua base espiritual. Enganaram-se.

No século XVIII, por exemplo, havia muitos ateus e deístas; alguns deles geniais, com profunda capacidade de entender a alma humana, e senso estético muito refinado. Contudo, ao se basear em suas idéias, a sociedade tornou-se incapaz de produzir homens da mesma qualidade. Do primado da razão, da sociedade de homens livres e educados, passou-se ao primado da ciência e da técnica e à sociedade planejada nos moldes da física. O que falar dos ateus de hoje, então? A própria distinção entre verdadeiro e falso, bem e mal, belo e feio, não é aceita. Nessas condições, que tipo de aspiração é possível?

Não é questão de culpar ateus ou qualquer outro grupo. Eles são apenas um sintoma radicalizado (e, ao mesmo tempo, parte da causa) de algo que perpassa toda a sociedade. Ao abandonar os valores de base de nossa civilização em prol de um sonho ilusório, não só deixamos de lado nossa real finalidade como não alcançamos este novo sonho e, para completar, tolhemos nossa própria capacidade de sonhar. A vida vai se tornando cada vez mais medíocre, e a concepção de um mundo melhor cada vez mais mesquinha e pequena.

É essa a impressão que a Europa me passa hoje em dia. Um povo que procura desesperadamente a felicidade onde ela não pode ser encontrada, e ao fazer isso mina as bases de sua própria civilização. Os prédios são magníficos, os museus inestimáveis, as bibliotecas verdadeiros universos; mas as pessoas que lá moram seriam incapazes de produzir, hoje em dia, algo semelhante.

Não sou pessimista. Acho que o pior já passou, e sinais de mudança já podem ser vistos. Mas o caminho é longo e árduo. Agora já está mais claro que há escolhas a serem feitas, lados a se tomar. Isso significará mais conflitos, mais debates e menos consenso, o que é bom. Pois ou os europeus acordam de seus devaneios, ou se extinguem; e há quem esteja pronto para tomar seu lugar. O arcebispo anglicano de Canterbury já considera tribunais para aplicar a lei sharia algo inescapável; um cartoon ou um vídeo são o bastante para provocar mortes; o sentimento de revolta e frustração nas grandes periferias é profundo e incontrolável. A Europa passa por uma fase decisiva de sua história, que poderá ser seu fim ou um novo começo.