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sábado, outubro 08, 2022

Dúvidas existenciais. Velhos hábitos. Coisas de casais.

 



Comecei o dia a fazer análises. Agora, de vez em quando, para aí uma ou duas vezes por ano, tenho que ser vigiada. O que vale é que não me faz impressão nenhuma que me tirem sangue. Aliás, já fui dadora. Só deixei de ser por mero comodismo. Quando iam lá à empresa, era só descer até ao posto médico. Quando deixaram de ir, perdi a noção de onde ir ou quando. 

Pensei que aproveitaria para ir, a seguir às análises, num instante, tentar descobrir livros da Annie Ernaux. 

Mal me levantei, organizei-me. Tudo arquitectado: arranjei um saquinho de papel da farmácia para levar o frasquinho com a primeira urina da manhã e pus o saquinho à vista para não correr o risco de me esquecer da urina.

Tinha também pensado guardar uma banana e uma maçã lavada para comer enquanto conduzia, a caminho da livraria. Contudo, estava na dúvida: onde guardar a banana e a maçã? A maçã estaria lavada, tinha que ir num saquinho de plástico, daqueles de congelação. Estando num saco, talvez também pudesse ir no saco de papel da farmácia. Mas a banana? Não ia à solta dentro do saco de papel, ao lado do frasquinho da urina. Portanto, por via das dúvidas, coloquei o frasquinho da urina dentro de um saco e dei-lhe um nó. Portanto, seria assim: um saco de plástico com o boiãozinho da urina, um saco de plástico com a maçã. E, à solta no saco de papel, a banana.

Também não podia esquecer-me da prescrição. Fui à procura, guardei-a na carteira. Nem da chave do carro. Fui buscar.

Arranjei-me. Disse ao cãobeludo: 'A dona já vem. Fica a tomar conta da casa que a dona já vem'. Estava enroscado a dormir, levantou uma orelha e deixou-se ficar.

Saí apressada a ver se o tempo me dava para tudo. 

Quando ia a meio do caminho, dei por ela: com tanta dúvida, esqueci-me de guardar a maçã e a banana. Caraças. Detesto andar em jejum. Mas já não dava para voltar a atrás.

Portanto, lá fui. 

Quando me despachei, saí com o carro do parque na dúvida: iria em jejum ou voltaria para casa? Abrandei. Avaliei a situação. Fome, fomeca, a tensão certamente baixa. Sem uma bananinha, sem uma maçã, sem um aconchego. Voltei para casa. 

Tomei o pequeno almoço, trabalhei, telefonei, fiz o que tinha a fazer. À hora de almoço, fui fazer o passeio higiénico com o dog.

Almocei a correr e ala moça, lá vai ela, antes que se fizesse tarde. A caminho do shopping. Quando estacionei, tomei nota do lugar, da cor, do piso e enviei uma mensagem para mim própria. Não quero correr o risco de ficar no mato sem cachorro, sem saber onde deixei o carro e sem ter quem me ajude. Quando frequentava assiduamente estes locais, já tinha lugares mais ou menos orientados. Agora não, agora é onde calha e, por isso, tomo providências.

Encontrei o 'Acontecimento'. 

Lá, para rentabilizar a ida, resolvi entrar numa ou noutra loja. A ideia é a de sempre: 'Não é para levar, é só para ver, não preciso de nada'. Mas, no canto da consciência, a vozinha matreira do costume: 'Só se for uma oportunidade imperdível'. E assim foi. Encontrei duas blusinhas bonitas, tecido com bom cair, padrão bonito e... a cinquenta por cento do preço. Quase black fruday. Negócio irrecusável. Fui provar. Ah, céus, que sensação boa: estar sozinha às compras, num provador... Ainda assim, a santa-madre poupadeira que existe no tal canto sacristeiro da minha mente alertou: 'Mas que falta é que isso faz?'. Respondi de mim para mim: 'Nenhuma'. Beatamente, pendurei-as nos respectivos cabides e fui devolvê-las ao expositor. Mas eis que passa a empregada e me tenta: 'Hoje está com dez por cento adicionais'. Pronto. Varreram-se-me as dúvidas existenciais. Trouxe-as. Baratíssimas. Vou ter aí umas reuniões presenciais, coisa decisiva de ou vai ou racha. E tudo num sítio todo xpto, tudo gente ultra xptosíssima, e agora vou parecer toda elegante com umas calcinhas brancas, saltinho alto e umas blusinhas todas fashion a preço de uva mijona. Ou seja, regressei contente com a vindima.

(E há bocado comecei a ler 'O acontecimento'. Escrita corrida, a gente pela mão da Annie.)

E é isto.

Contar mais o quê? Fomos caminhar para a praia, o entardecer lindo, imensos bichos negros na água a cavalgar as ondas, os areais cheios de gente, tudo na maior boa onda. O sol a mergulhar nas águas e um mundão de gente a curtir a paz do mar e da maresia e da vida ao ar livre.

Enquanto caminhávamos, telefonei à minha mãe que me contou que viu a entrevista à Júlia Pinheiro conduzida pelo marido. Muito amorosos, amigos um do outro, disse-me ela. Há bocado a minha filha enviou mensagem a dizer que tinha posto para trás e estava a ver o mesmo, para eu ver também.

Deu luta. O meu marido não queria alinhar, que era bater no fundo: entrevista de Júlia Pinheiro e marido, tema sentimental, coisa lamechas, era o que faltava pormo-nos a ver coisa mais brega. Não disse brega. Deve ter dito pior. Mas não sou de desistir tão facilmente. Vimos. Gostei de ver. E acho que ele também pois não adormeceu nem se levantou nem dirigiu impropérios nem ao casal ali derretido nem a mim por estar a querer ver aquilo.

No fim, quando se levantou e ia a sair da sala, disse-lhe que ele devia ser como o Rui Pêgo, assim romântico, a dar presentinhos, a ser amoroso e fofo. Ele disse que também não viu a Manuela a mandar vir com o marido. Perguntei: 'A Manuela?'. Já ia no corredor. Voltou atrás: 'Ao que chegámos, a ver uma entrevista ao casal Pinheiro'. E lá foi.

E agora, porque nada melhor que rir, aqui ficam momentos de atrapalhação e risota nas gravações do The good doctor.

The Good Doctor Bloopers

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E porque se não nos levantarmos por algumas coisas, cairemos por coisa nenhuma, o Dude with sign juntou-se-nos uma vez mais.

Maro e Salvador fizeram-nos companhia com We've been loving in silence

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Um bom sábado
Saúde. Boa sorte. Boa disposição. Paz.

quinta-feira, junho 30, 2022

4 programas de televisão. 4 vídeos. 5 pinturas. 1 canção.

 


American Master Chef Junior -- fico espantada, intrigada, comovida. Não percebo como é possível aquelas crianças saberem tantas técnicas, conhecerem tantos ingredientes, instantaneamente terem tantas boas ideias, terem tanta perícia, tanta força, tanta perseverança, tanta rapidez, tanta confiança, tanta generosidade. Pasmo, pasmo, pasmo. E, quando a Eva saiu, chorei. E quando vi o Grayson atrapalhado, atrapalhei-me também. E, quando ele ficou choroso, eu fiquei chorosa também. Outra coisa: depois das minhas barrigas gigantes não tinha visto coisa semelhante até ver a da Daphne. Não sei como não lhe cai a criança aos pés. Tento não perder.

Pantanal -- a vida na natureza. Os grandes espaços. As águas correndo com mansidão. As verdejantes margens do rio. O encantamento mágico. As histórias populares. A música. Os preconceitos postos a nu. A graça da forma como falam, a língua portuguesa adoçada com o tempero das terras perdidas nas lonjuras. As personagens tão cheias de evolução nas suas histórias. A valentia vulnerável dos homens-macho. A sabedoria das mulheres. A irresistível paixão entre Juma, filha de Maria Marruá, e Jove, filho de José Leôncio, o jovem desengonçado de quem a peãozada diz ser flosô, uma paixão que é tão real que fez com que os seus protagonistas, bissexuais assumidos, virassem um apaixonado par amoroso. 


10 anos mais jovem, Reino Unido -- as pessoas chegam derrotadas, a vida passou por cima delas e elas chegam com o rosto amassado, os dentes estragados, a pele gasta, o cabelo velho, o corpo cansado, a vontade esgotada, o sorriso escondido, os gestos envergonhados. E, então, pegam nelas, e refazem tudo o que podem, tatuam os rebordos dos lábios, alisam a pele, florescem as sobrancelhas, cortam, pintam, amaciam e penteiam os cabelos, descobrem a roupa que melhor se adequa, disfarçam e maquilham... e, no fim, as pessoas estão mais novas, mais bonitas, mais confiantes. E sorriem, felizes da vida. 

Original é a Cultura - pessoas que falam com tempo, outros que escutam calados e atentos, observações interessantes, temas vistos sob perspectivas diferentes, apontamentos que se escutam com curiosidade. Carlos Fiolhais, Dulce Maria Cardoso, Rui Vieira Nery sob moderação de Cristina Ovídio. Do melhor a nível de conversas em televisão. Devia passar em horário nobre.

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Dermot Mulroney, além de ser um actor conhecido, é um violoncelista talentoso. Sentou-se para ser pintado por pintores no Paul Schulenburg Studio em Cape Cod Massachusetts, e tocou para eles num intervalo.

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No deserto do Arizona, pode visitar-se uma das casas do famoso arquiteto Frank Lloyd Wright. Mas nos últimos meses, o local também abriga uma instalação do artista de vidro Dale Chihuly. O correspondente especial Mike Cerre analisa como o trabalho desses dois artistas se uniu na paisagem acidentada.

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Um retiro familiar tranquilo numa vila no Vietname


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Pinturas de Alberto Burri na companhia de Maro com We've been loving in silence (com o Salvador para despistar)

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Motivação. Alegria. Paz.

quinta-feira, abril 28, 2022

Varrer, podar, fotografar



Acabei de fazer zapping por todos os canais portugueses. Nas telenovelas portuguesas nem paro, não tenho pachorra. Em quase todos os demais vi gente com um certo ar de maluquice. Cada um fala de sua coisa, desde cantigas, a economia ou política, mas alguns estão com olhos demasiado abertos, outros falam como se quisessem convencer-nos que são inteligentes e há um que tem um cabelão de impor respeito, um ceo de uma coisa com nome curioso. Não sei porquê mas tenho para mim que saíram de algum ninho de cucos. 

Não sei se por isso, não consigo estabilizar em nenhum. Não estou com cabeça para tanto. 

Estou é a pensar se a mangueira que trouxemos encaixará bem na torneira que está ali do outro lado. É daquelas que parece uma serpentina e não sei se estica até onde quero. Em vez de regar os vasos com regador, seria bom regar com mangueira. Como me fio sempre na virgem, encho o regador até acima a fim de minimizar o número de idas e vindas. Mas o regador cheio leva dez litros. Ora andar cá e lá com dez quilos nas mãos, às vezes deriva para uma tendinite no ombro sacrificado. O meu marido hoje, a propósito de ser difícil darmos cabo de tanto mato, disse: 'Sabes o que é? Se calhar já não temos idade para tratarmos de tudo sem ajuda'. Fiquei a olhar. Temos tanta como antes. Não é uma questão de idade ou não idade. 

Não quero é que me arranquem os orégãos ou o rosmaninho ou o alecrim e já sei que se contratamos alguém para arrancar o mato tenho que pôr o coração ao alto pois já sei que vai tudo à frente. Conversa mais recorrente... Todos os anos por esta altura temos esta divergência.

Enfim.

Também tenho que arranjar adubo para citrinos porque as laranjeiras aqui, in heaven, também estão bem precisadas. O limoeiro já se foi e as laranjeiras estão desvitaminadas, fraquinhas.

As nêsperas ´que já estão razoáveis. Apanhei umas poucas, ainda não demasiadamente douradinhas mas já comestíveis. Perguntei ao meu marido se queria e respondeu: 'Devem estar boas... Pela cor... Come-as tu se achas que já estão boas'. É um céptico.

Certo, certo é que varri bastantes folhas, caruma, bolotas. É das coisas que gosto francamente de fazer: varrer. 

O balde grande com rodas agora está com lenha e, por isso, tive que pôr o que apanhava num balde simples, dos das esfregonas. Não rende nada. Tive que fazer não sei quantos trajectos para o despejar. Agora estou aqui a escrever e sinto as mãos um pouco doridas. Alma de camponesa, maozinhas de princesa (vá, Segismundo, ria-se, ria-se...)

Por vezes o acto de varrer é, sobretudo, uma animada coreografia entre a vassoura e o urso peludo que acha que a vassoura é um ser de outro planeta que está ali só para o desafiar. Ladra, salta, quer apanhá-la, finca-lhe. Uma luta.

Para ele isto é o seu elemento. Anda à solta, à larga, à chuva. Claro que depois chega a casa, molha o chão, molha os tapetes e, pior, molha os sofás. Aliás, o pior não é isso, o pior é outra coisa: o pior é que não consigo zangar-me com ele. 

Tenho um coração de manteiga, é o que é.

Supostamente estamos de férias. Mas as férias são bem tão raro que as aproveitamos para fazer tudo o que nos outros dias não conseguimos fazer. Portanto, não descansamos. 

Hoje, a seguir ao almoço, repimpados naquele sofá em que não chego com os pés ao chão mas que se reclina e se transforma numa coisa que me deixa a dormir, pimbas, deixei-me mesmo dormir. 

Mas logo, logo, logo a seguir, tocou o telefone e, ao meu lado, uma conversa sobre os grandes problemas existenciais (estou a gozar... eram problemas bem materiais) despertou-me. Ainda tentei voltar a pegar no sono mas outro tema da máxima relevância assomou à minha mente: onde estaria o podão pequeno, aquele jeitosinho, para ir desbastar os rebentos ladrões das azinheiras? 

E não descansei enquanto não me levantei para ir à procura. Não encontrei. 

O pior é que, ao estar na despensa à procura, rocei com o cabo de um podão gigante numa caixa de ferramentas que caiu ao chão e se entornou. Ora é sabido que entornar-se uma caixa de ferramentas é pior que entornar azeite: não se dá apanhado. Apanhei de arrastão parafusos, pregos, roscas, buchas e toda a espécie de pequenos objectos... e tudo lá para dentro. Nem quero pensar quando o meu marido vir aquilo. É que acho que, de manhã, quando estava a chover e não podia estar a dar cabo do tojo e das sílvias (que é o que ele chama às silvas), tinha estado a arrumar a dita caixa. Mas deve tê-la deixado meio de fora da prateleira, em desequilíbrio. Digo eu (para me desculpar por tê-la atirado ao chão).

Resumindo: andei a podar azinheiras com um daqueles podões que têm umas pegas telescópicas. Não dá jeito nenhum. Mas, enfim, como gosto de podar, andei de gosto. 

Já contei -- não contei? -- que, para mim, podar árvores é como aparar cabelo, coisa que, com a minha veia de cabeleireira frustrada, estou sempre pronta para passar à prática.

E é isto. Nada mais a declarar. Pouca televisão, poucas notícias, tentando não falar do que me atormenta, tentando não ir espreitar os mails, tentando preparar-me para ir dormir. Férias. In heaven.

Antes de me ir, partilho apenas o que tenho estado a ouvir. A voz da Bethânia pega bem nas palavras do Nandinho.

"Meu coração não aprendeu nada" 

| Fernando Pessoa | Maria Bethânia


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Um dia feliz (na medida do possível, claro)
Esperança. Força. Saúde. Paz.

terça-feira, abril 26, 2022

Fotografias enigmáticas, uma voz de veludo, duas casas extraordinárias e acho que pouco mais

 



Estou a modos que de ressaca e, a bem dizer, nem sei bem porquê porque o sábado e o domingo foram descansados. Às vezes penso que me seria benéfico fazer uma cura de sono. Não precisava de ser nada de muito elaborado. Bastava poder ter uma semana sem ter que pôr o despertador, sem ter que ir aqui, ali ou acolá, sem ter que fazer isto, aquilo e aqueloutro. Esta segunda-feira, dia bom por todos os motivos, inclusivamente por ser dia de descanso (dia de descanso é sempre bom mas coincidir com uma segunda-feira é bom demais), poderia ser um desses dias. Mas não -- e o estúpido é que por nenhuma razão em especial. 

Não pus despertador para ver se punha o sono em dia. 

Mas fiz mal pois fiquei com a preocupação de acordar tarde demais. Não que tivesse muita coisa que fazer mas, apesar de ser dia de descanso, se começasse tarde demais, tudo se atrasaria. E, por isso, acordei cedo demais.

Para além da caminhada, tinha que pôr adubo nas laranjeiras, no limoeiro e na limeira. Depois de aplicado, regar. Depois fazer uns pagamentos. Depois arrumar umas coisas para levar para o campo. Depois almoçar. Depois ir ao supermercado. Depois ir visitar a minha mãe (que continua a levar a sério a sua reciclagem em inglês e faz páginas e páginas de exercícios gramaticais e vocabulares). Depois ir para o campo. Depois... 

Até que, à noite, cheguei ao sofá e, claro, logo me deu o sono.

Inclinei a cabeça para trás, que é o que faço quando o sono me dá com força, e, de imediato, senti que estava a adormecer. Eis senão quando o meu marido me perguntou: 'O que é que aconteceu?'. Abri os olhos, admirada. 'Que aconteceu onde?' E ele: 'Contigo. Sentaste-te, puseste a cabeça para trás e fechaste os olhos'. E eu: 'O que é que tem?'. E ele: 'Está bem, nada'. Não sei qual o espanto. Só se foi por ser instantâneo. Mas, com isto, passou o momento. Não adormeci como deve ser e agora estou a ver se, assim como assim, me mantenho acordada.

Na RTP 1 um programa com músicas do Zeca. Está uma jovem a cantar o Bairro Negro. Canta muito bem. Tem ar de ser fadista. Não conheço mas tem uma voz fantástica e canta com a emoção das almas que sabem interpretar o fado. Tenho que ver se descubro como se chama. 

Ah, já vi. Sara Correia. Não conhecia. Muito boa. 

O Zeca, de facto, é intemporal. Qualquer pessoa que pegue nas suas canções e as interprete com sentido e sentimento torna-as momentos inesquecíveis. 

[Sempre que me lembro dele, lembro-me dele a espreitar e, ao ver que o Abílio estava ocupado, fazer um gesto de desculpa e voltar a fechar a porta. Era, para todos nós, um símbolo, uma pessoa maior.]

Enfim.

Estive a ver as notícias em vários onlines; mas hoje não quero falar da guerra (embora seja o que maioritariamente ocupa o meu pensamento). Tanto que sempre penso que gostaria de deixar aos meus descendentes um mundo melhor que aquele em que fui recebida... e agora acontece isto. E sabe-se lá como e quando é que isto vai acabar. Acredito que os serviços secretos de muitos países andem a trabalhar activamente numa qualquer forma de solução para esta loucura mas compreendo que as condicionantes são mais que muitas. Gostaria também de pensar que, quando isto acabar, estaremos mais esclarecidos quando ao que verdadeiramente importa nesta vida, mais exigentes quanto à paz e à liberdade. Mas já não ouso ser tão optimista.

Entretanto, ando com vontade de iniciar um diário. Escrevo aqui todos os dias e escrevo o que penso e sobre o que quero mas há temas sobre os quais não escrevo, não quero; ou melhor: não aqui em que escrevo a céu aberto para ser lida à vista desarmada. Por isso ocorre-me que poderia ter um diário privado. Ou isso ou um livro de memórias. Há muitas memórias que aqui, no blog, não têm lugar e que, num registo pessoal, privado, estariam bem. Vamos ver. 

E, pronto, isto hoje não dá muito mais que isto. Estou desconcentrada. Recebi na última hora dois mails de trabalho que só não me deixam possuída porque estou a tentar preservar o espírito de dia feriado, keep calm and carry on. Se fosse há algum tempo, a esta hora já tinha soltado os cachorros. Mas agora estou a querer aprender a portar-me como gente grande e, portanto, perante cenas destas, respiro fundo, deixo assentar a poeira, de preferência durmo sobre o assunto. 

Mas, antes de me ir, partilho dois vídeos que estive a ver de gosto. Confesso que, antes, estive vai não vai para reincidir e partilhar um vídeo que me pareceu bastante interessante sobre os meandros da guerra mas não, hoje não, hoje intercalo. 

Enquanto leio e ouço que há reais ameaças no ar de que esta desgraça descambe para uma guerra mundial, forço-me a abrir espaço a duas das minhas benquerenças, a arquitectura e a decoração. 

O primeiro vídeo mostra uma casa que foi reconstruída sobre uma outra, tradicional. É daquelas obras de arquitectura que me encantam: espaço, luz, a paisagem dentro de casa e, ao mesmo tempo, carinhosamente concebida para cada membro da família. Aqui o dono e o arquitecto são a mesma pessoa e todo ele é cool e toda a casa cool é e, tal como ele conta, é uma casa que evoluiu natural e intuitivamente. Uma maravilha.

A fantástica casa de Nick Tobias

A seguir temos o oposto: aqui se mostra como num apartamento pequeno também se podem fazer maravilhas. Haja imaginação, bom gosto, gosto pela vida.

Apartamento parisiense, pequeno mas parecendo espaçoso, no Boulevard Haussmann

Aqui vive Virginie, jornalista de televisão, mãe de 3 filhos. Foram algumas paredes abaixo para criar alguma amplitude. Há objectos antigos, objectos modernos, há bom gosto e graça.


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As fotografias são da autoria de Maïmouna Guerresi e acompanham MARO que interpreta we've been loving in silence

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Vida nova. Força. Paz.

sexta-feira, maio 14, 2021

Tempus fugit. Vita brevis.

 


Não tenho nada de interessante para contar. Tenho muito trabalho e o meu tempo útil é praticamente absorvido por essa insana actividade. Ao telefone, eu disse-lhe: esta empresa esgota-me. Do outro lado nada. Pensei que talvez não tivesse percebido o sentido do que eu tinha dito. Expliquei: parece um mar que passa por cima de mim. Nada. Expliquei melhor: esta empresa é ingerível. Do outro lado, uma gargalhada. Disse: não estou a brincar, estou a falar a sério. Ele disse: havemos de conseguir dar-lhe a volta. Depois reconheceu: é mais difícil do que pensávamos mas haveremos de conseguir. Respondi: acredito que sim. Mas com que esforço? Quanto tempo vai ser necessário?

Depois fomos elencando os nomes em que nos poderíamos apoiar e aqueles que só atrapalham. E aí eu: mas como é que a gente se livra dos que minam tudo, que desestabilizam? E ele: havemos de arranjar maneira.

Queremos aproveitar todos, mesmo os casos perdidos. Mas os casos perdidos são os que mais desestabilizam. Não acrescentam um cêntimo de valor, só destroem. Mas, em cima disso, infectam, inquinam, espalham confusão.

Ao fim do dia liguei para saber como tinha corrido uma reunião da qual tive que sair mais cedo. Contou e, no fim, comentou um mail que ambos tínhamos recebido mas que eu ainda não tinha tido tempo de ver. Ao querer contar-me, desatou a rir, mal conseguia falar, gargalhando de gosto. Quando conseguiu falar, foi a minha vez de desatar a rir. Sabemos que quem o fez trabalhou afanosamente reunindo trabalhos de outros que devem ter igualmente trabalhado com afã. Mas o resultado era uma coisa tão absurda, tão inexplicavelmente descabelada que não parávamos de rir. Como se descalçam botas assim sem ferir susceptibilidades? Fazendo nós o trabalho deles sem que eles se apercebam que o que fizeram foi direitinho para o lixo?

No fim, concluímos: Enfim...

É que nada mais havia a dizer.

Agora, aqui, já vi mails de trabalho e estou a controlar-me para não continuar a responder e despachar trabalho. Este excesso anda a causar em mim um efeito colateral: todos os meus assuntos pessoais vão sendo protelados. Não tenho tempo, durante o dia, para tratar de coisas minhas. E isto traz-me sempre com uma nuvem de apreensão em cima de mim: o receio de deixar passar prazos, de não fazer o que tinha que fazer. Olho o calendário e está preenchido o suficiente para perceber que nem tão cedo vou ter tempo livre. Uma situação overwhelming.

Praticamente não consegui almoçar. A última reunião da manhã acabou tarde, tinha outra logo a seguir e, pelo meio, tinha que ler uma pasta zipada de documentos complicados, rebuscados e, ainda por cima, em inglês. Ainda estava a mastigar e já a pentear-me, depois a encher um copo de água para a próxima. 

E, estando nessa, outra tourada, vi no whatsapp da família que as meninas crescidas estavam tristes, a  comentar a morte da Maria João Abreu. Fiquei francamente abalada. Mas tive que deixar a emoção dentro de mim e, por fora, continuar igual ao que estava antes de ver as mensagens. 

Vita brevis, tempus fugit. Há qualquer coisa de apelo à lucidez numa morte assim, um apelo para que percebamos quanto somos efémeros e como são absurdos todos os momentos em que desaproveitamos o privilégio de viver.

Nos poucos tempos que tenho livres -- agora só ao fim do dia, quase à noite -- enquanto, andando lá fora, falo com a minha mãe e com a minha filha (o meu filho liga-me mais tarde), vou espreitando as flores. Agora vou ver os vasos que suspendi no gradeamento do terraço da cozinha. Estou desejando de ver se as flores se desenvolvem. Também vou espreitar o 'cágado'. Tenho a impressão que está um pouco mais gordo. Mas deve ser impressão. Fui pôr-me também em bicos de pés, a puxar as folhas da nespereira a ver se baixava a pernada para conseguir apanhar nêsperas. E apanhei uma meia dúzia que comi enquanto falava com a minha filha. A árvore, gigante, carregada delas. Mas tão lá em cima que só de helicóptero. Estão quase boas. As que vejo lá em cima, expostas ao sol, estão mais douradas. 

Há cada vez mais pássaros, maiores, mais próximos de nós. Ainda não consegui ir comprar alpista ou milho ou o que for. A gaiola continua de porta aberta mas, como não há lá nada que se coma, nenhum pássaro lá vai dar-me o prazer de se banquetear e, depois, trinar só para mim e, após uma vénia de agradecimento, sair de cena, voando, dançando pelos ares.

Tenho agora aqui à minha frente, na estante que agora tem a televisão em cima, duas fotografias de quando os meus filhos eram pequenos. Não foi assim há tanto tempo. A minha filha manteve muitas das suas feições. O meu filho mudou mais. Talvez seja da barba. Não sei explicar. Olho para eles e lembro-me do que têm vestido, apesar de não se ver na fotografia da minha filha e mal se ver no caso do meu filho. Não sei como passaram tão rapidamente os anos que os números confirmam que passaram. Sorriem para mim. Gosto de estar aqui com eles a sorrirem para mim. 

No parapeito do pequeno hall à saída do quarto estão as molduras com as fotografias dos mais pequenos. Passo por lá e olho para cada um. Já cresceram muito desde que as tirei. Mas são tão lindos, tão alegres. E são tão amigos uns dos outros. E isso é o que mais me enleva. Amores do meu coração.

E é isto. Ando sem assunto. Nada tenho a dizer senão estes pequenos nadas que a quem me lê nada devem dizer. Sorry.


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Pinturas de Jon Ching ao som de Lua interpretada por Jacob Collier e MARO

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Só não vos digo Carpe Diem porque é coisa fora de moda. 
Mas digo-vos que vos desejo um dia feliz