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sexta-feira, dezembro 15, 2023

Tentando recolocar-me nos carris em que gostaria de me mover

 

O dia foi tão duro que a minha fragilidade ficou muito mais patente do que eu desejaria, e não apenas perante os outros como perante mim mesma. Por isso, percebi que não havia volta, tinha mesmo que tomar um ansiolítico. Tomei metade agora à noite e vamos ver se resulta. Por vezes, tomando um ben-u-ron para alguma dor, durmo como uma pedra durante horas. Com este meio ansiolítico, com sorte dormirei umas doze horas de seguida. Bem precisada estou. A noite passada, antevendo (ou temendo) as notícias que o dia me traria, mais uma vez praticamente não dormi e, nos escassos minutos em que dormi, foi para ter pesadelos.

Uma coisa sou eu a opinar a propósito das situações difíceis pelas quais os outros atravessam: ouço, aconselho, penso com todos os neurónios disponíveis. Ainda ontem, em conversa com uma amiga, cuja mãe, idosa e naturalmente vulnerável, está a atravessar aquele momento delicado em que se percebe que, apesar de ser essa a sua vontade, já é arriscado continuar sozinha, falei acho eu que ponderadamente, alertei para os prós mas também para os contras. Nesse papel sou não apenas compreensiva como racional.

Mas quando sou eu aquela que se encontra perdida e assustada, a minha racionalidade evapora-se. Fico incapaz de me posicionar de forma objectiva e corajosa. Felizmente tenho quem me apoie e ampare neste doloroso exercício de me manter de pé e de cara sorridente para tentar transmitir a possível tranquilidade a quem dela precisa muito, muito, muito mais que eu. É que, objectivamente, o drama maior não sou eu que estou a vivê-lo e, por isso, não posso portar-me como a parte mais frágil desta situação.  Pelo contrário, eu deveria ser a pessoa com mais força para ser capaz de transmiti-la. Mas não estou a ser capaz de sê-lo. Sozinha eu cairia.

Quem passa por estas situações sem ter quem o/a ajude a manter a cabeça no sítio, os pés na terra, o corpo erguido, o coração inteiro, e, ao mesmo tempo, boa cara, deve chegar a ponto de sentir que está a lutar pela própria sobrevivência. Imagino que as forças faltem com muita frequência.

[Tão avessa que sempre fui a falar dos meus problemas, desta vez, por muito que tente impedir-me, não tenho conseguido. Pode ser que o ansiolítico e que alguma racionalidade que consigam enfiar-me na cabeça consigam voltar a colocar-me nos meus próprios carris. 

Por isso, não tenho conseguido responder e agradecer aos comentários (e, por isso, vos peço desculpa) nem tenho conseguido escrever sobre assuntos divertidos ou diversos e, apenas a custo, tenho conseguido escrever sobre a actualidade. Felizmente, de vez em quando, o meu marido, ao insurgir-se com o que se passa na nossa vida política, resolve escrever ele. Bem lhe agradeço.]

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Estive a ver se descobria vídeos interessantes para partilhar pois custa-me que aqui venham e apenas encontrem esta recorrente ladainha. Mas nem para isso tenho paciência. Vou aqui colocar um apenas pelo título pois, a bem dizer, só o espreitei por segundos. Pode ser que, a seguir, vá ver se vale a pena.

O que liga Rothko e Mozart?

Mark Rothko was obsessed with Mozart's music, considering him the 'alpha & omega' of composers. But what can we learn from this obsession? In this essay, I look at the parallels between Mozart's music and Rothko's paintings and consider how both artists aim to achieve the same goal - the simple expression of the complex thought.

quarta-feira, setembro 27, 2023

Mais um daqueles dias....

 

O meu dia começou cedo, bem mais cedo do que o habitual. Começou com um telefonema. Embora não fosse bom, tenho este meu jeito optimista de ser. E, enquanto ouvia, pensava: 'enquanto for ela a ligar-me, menos mal'. É que as más notícias de verdade nunca são dadas pelos próprios.

De qualquer forma, toda a manhã estive em suspenso sem saber se era para avançar de imediato ou se não. E de tarde fui para lá. 

Em acréscimo à óbvia preocupação, esta circunstância de não poder ser dona da minha agenda traz-me alguma ansiedade. 

Receio afastar-me, receio combinar coisas a que não possa comparecer. 

E outra: agora estou sempre naquela de, quando tenho algum tempo livre de crises, tratar de tudo por atacado não vá o diabo tecê-las e depois não ter tempo. E isto também é um bocado estúpido. Mas parece eu que adivinho. Tendo várias coisas para tratar, na segunda-feira foi uma overdose. Estava saturada mas parece que pressentia que o melhor era aguentar pois poderia surgir alguma coisa que me impedisse de diluir por vários dias. Afinal fiz bem. Agora já estou despachada.

Mas, enfim, é verdadeiramente aquilo que se costuma dizer de um dia de cada vez. Até porque, na realidade, tenho sempre a sensação de que é tudo mais psicológico do que fisiológico. Mas depois, não percebo como, os exames confirmam que há mesmo qualquer coisa e isso é que é pior.

Eu deveria mesmo ter estudado psicologia para saber lidar melhor com estas coisas.

Uma amiga médica, no outro dia, falava-me na dificuldade que é para eles, médicos, conseguirem extrair a raiz do problema de doentes que somatizam, chegando lá a relatar sintomas e mais sintomas, dramas em cima de dramas. Muitas vezes, dizia-me ela, ao fim de estar na conversa uns minutos, já passou tudo, já tudo foi relativizado. Involuntariamente, as pessoas assim transformam o medo em sintomas. 

Tirando isso, ainda consegui, durante uma meia hora, passear à beira mar e apanhar algum sol.

Sinto falta de ter tempo para escrever. Há um fenómeno estranho a dar-se na minha vida. Quando trabalhava, trabalhava mais do que as oito horas por dia, perdia tempos infinitos no trânsito e, apesar disso, tinha tempo para tudo. Agora falta-me o tempo e isso é inexplicável. 

Também há esta coincidência de as coisas com a minha mãe se estarem a complicar com uma frequência algo inesperada justamente agora que tenho disponibilidade para andar a acompanhá-la e a tratar de coisas para ela. Se fosse há uns meses como é que teria sido? Pergunto-me mas, na volta, tal como conseguia arranjar maneira de fazer tudo também acomodaria mais isso. Não sei.

O que sei é que ando um bocado psicologicamente esgotada. Para além disso, também um bocado fisicamente cansada. 

Mas, enfim, todos os males fossem estes. Portanto, bola para a frente.

E, enquanto escrevo, estou a ouvir este vídeo que aqui partilho. E estou a gostar muito. Se tiverem ocasião, não deixem de ouvir. É mesmo uma maravilha.

Barenboim & Argerich : Mozart Sonata for Two Pianos, K.448


Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Alegria. Paz.

sábado, novembro 19, 2022

Umas ceninhas cá minhas, incluindo uma culinária a la minute
-- Isto e, na voz de quem a sabe toda, a Liberdade e a Segurança --

 


Ando atrasada na resposta aos comentários e a alguns mails (e peço desculpa por isso), ando com várias leituras atrasadas, ando com sono atrasado, ando com vontade de escrever várias coisas e receosa de não ser capaz por temer adormecer a meio. Ando assim.

O dia foi, de novo, pesado, cheio de suspeitas e, ao fim do dia, com uma revelação bombástica que me fez fazer um telefonema denunciador. Dia pesado, repito.

Faz-me falta ter algures, a meio do dia, uns minutos de descanso. Não sei se é da idade, se é de, este ano, apenas ter conseguido tirar cinco dias de férias, se é da sucessão de maçadas a que esta fase me obriga, se é de tudo isto junto. Mas, seja pelo que for, o facto é este: preciso de intervalar.

Soube bem, no meio disto, caminhar à beira da praia. Aliás, no meio não porque isto aconteceu já à noite. Um frio de rachar. Digo-vos: de rachar. Ainda por cima, com vento a potenciar o frio. Aproveitei para fazer os meus telefonemas enquanto andava. Por isso, nem deu para contemplar o reflexo da lua no mar. Se calhar nem havia lua para reflectir. Não faço ideia. Às tantas, a ver se aquecia, dei uma corrida. O bicho não costuma ver-me a correr. Veio também a correr e a saltar como se aquilo fosse uma brincadeira a dois. Como estava com a trela, embora extensível, o meu marido mandou-me parar de correr para não ter que vir também a correr atrás de nós.

Antes de irmos à praia, fui, numa corrida, ao supermercado. Comprei uma dourada grande. Isto para além de fruta, legumes, kéfir, pão, queijo. 

Quando chegámos da praia, atirei-me aos tachos. Fiz assim:

Chamo chapa mas é aquela coisa às ondinhas que se põe no fogão e que tem uma pega comprida. Aqueci a dita ao máximo. Juntei um fiozinho de azeite, uns salpicos de sal, folhas de louro. Quando tudo bem quente, coloquei a dourada, também salpicada de sal e de orégãos e levemente regada por um fio de azeite. Passado pouco tempo, virei-a. Ao lado, num tacho com um pouco de água, coloquei batatas com casca cortadas aos bocados, feijão verde e brócolos. Quando cozidos, escorri e coloquei-os na chapa ao lado do peixe. Virei os legumes para ganharem o sabor. 

Quando servi, coloquei por cima um pouco de sumo de lima. Tudo bem bom. 

(Gaba-te cesta)


Abro ainda um parêntesis no meu estado de fadiga para contar só mais uma coisa. Desde a semana passada o dog andava com um cheiro estranho. Não identificávamos. Cada vez pior. Cada vez mais notório que era o hálito, um hálito diabólico. Uma coisa cavernícola. Não compreendíamos que raio de cheiro fétido era aquele, cada vez mais impossível. Ao princípio, como tínhamos aberto um saco novo de ração e embora fosse da mesma marca e de frango, admitimos que qualquer coisa na composição produzisse um estranho efeito, misto de peixe podre, de lixo fora de prazo. Mas já era demais e cada vez pior. Há dois dias, à noite, ainda fomos comprar daqueles sticks para higiene dental. Efeito zero. 

Pesquisei na net, e, avaliada a evolução da coisa, resolvemos marcar consulta no veterinário.

Face ao temperamento tumultuoso do bicho-fera quando estranhos tentam fazer coisas de que ele não gosta, já estávamos a imaginar o stress de ter que açaimá-lo, provavelmente ter que ser anestesiado para ser observado.

Mas eis que ao fim do dia ouço o meu marido a dizer que lhe tinha visto um pau no céu da boca, ao fundo, entalado entre os dentes, de lado a lado. Nem consegui perceber. Pensei que ele tinha visto mal. Fui tentar inspeccionar. Não foi fácil mas, ao fim de algum tempo, confirmei. Uma coisa inacreditável. Um pau atravessado, entre os últimos dentes de cada lado do maxilar superior. 

Mas, forte como é, um baita cão pastor, o valentão não se queixava de nada e comia e bebia normalmente. Isto com um pau daqueles, ainda grosso, quase como um lápis, preso no céu da boca.

Atalhando: o meu marido tentou fazer a extirpação, o bicho saltou, o meu marido tentou enfiar-lhe a mão na boca, ele furioso já a reagir um bocado à bruta, o meu marido muito calmo... até que conseguiu mesmo e lhe sacou o pau. Fétido. Há mais de uma semana na boca, o pau devia estar podre, exalando um cheiro nauseabundo. 

Não há explicação.

A boca deixou instantaneamente de cheirar mal. Portanto, saiu-nos esse peso de cima. 

Posso ainda deixar aqui um outro insignificante apontamento. De manhãzinha, vendo que estava um ventinho de feição e um solzinho modesto mas quiçá efectivo, fiz uma máquina de roupa em velocidade rápida. Em boa hora pois não choveu e secou que foi um mimo. Roupa seca ao vento e ao sol é de uma super-eficiência. Fica lisinha e fresca, boa para guardar directamente.

E, pronto, já chega de prosa solta, fico-me por aqui. Posso apenas ainda dizer que o dia teve outra coisa boa: não tive que me empoleirar em saltos altos. E outra: não tive que falar em inglês nem em espanhol. Isto de uma pessoa poder passar um dia inteiro a falar português é daqueles prazeres que não deve ser dado por adquirido.

Finalmente: uma vez mais, as minhas desculpas por não agradecer ou responder aos comentários e aos mails mas estou pedrada de sono. Pedradérrima. Juro.

Mas deixem que, antes de me ir, partilhe um pequeníssimo vídeo com umas palavras que fazem algum sentido e talvez vos tenham alguma utilidade. Ou seja, haja por aqui alguém que diga coisas assisadas...

"Escravidão e caos" | Zygmunt Bauman


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Fotografias respectivamente de Boguszak, Thaddäus "hozzography" Biberauer, Wendy Stone uma vez mais daqui
Acompanha-nos Mitsuko Uchida que interpreta Piano Concerto No. 25 in C Major K. 503 de Mozart

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Um bom sábado
Saúde. Bom descanso. Paz.

quarta-feira, novembro 16, 2022

A saudade dos três doces bárbaros na partida de uma deles

 


Hoje soube da morte de uma pessoa que conhecia. Conhecia-a apenas de vista mas, de todas as vezes que estive com ela nos mesmos eventos, via-a sempre vibrante, cheia de alegria e de vida. O seu próprio rosto irradiava. Sempre alegre, entre amigos, rindo, na paródia, ela era daquelas pessoas que não passava despercebida. Soube há algum tempo que estava doente, mais recentemente soube que estava mesmo mal, ontem soube que estava por pouco e hoje soube que o seu sofrimento tinha acabado. 

Fez-me muita impressão. Há pouco vi uma fotografia sua e a sua morte parece-me ainda mais impossível.

Até há uns anos quem morria eram avós, tios de idade, depois mais recentemente começaram a morrer alguns pais -- pessoas de outra geração. Mesmo fazendo-nos impressão e sentido a saudade e a dor da separação, inevitavelmente aceita-se. É a lei da vida, diz-se nestas ocasiões. E é verdade. 

Lembro-me de andar no primeiro ano do liceu e de ter morrido uma colega, vizinha e amiga. Toda a gente sofreu imenso e a mim causou-me uma aflição muito grande. Contudo, desde pequena que eu ouvia dizer que ela sofria do coração e que havia nela uma bomba sempre prestes a explodir. Lembro-me de ouvir dizer que, antes de morrer, tinha tido muitas hemorragias e, para mim, pensei que tinha mesmo acontecido, o coração dela tinha mesmo explodido. 

Mais tarde, mas ainda no liceu, foi um vizinho da minha avó, colega de escola desde a infantil e amigo que também morreu. Tinha asma e sempre o conheci com uma tremenda falta de ar, sempre com pieira e sempre arfante, sem poder brincar, por vezes quase sem poder falar ou mexer-se. Falava-se da bomba como se vivesse dependente dela. Quando morreu foi uma pena muito grande mas foi quase como se fosse uma morte anunciada, a fatalidade que todos receavam.

Foram mortes muito precoces mas, em ambos os casos, no meu mais íntimo foi quase como se a natureza tivesse feito a caridade de reparar um erro irreparável

Não vou falar das mortes da minha família e que muito me custaram. Mas vou falar de uma morte que me fez mesmo muita, muita impressão. 

Volta e meia falo aqui dela. Quando no outro dia andei a limpar mails, passei várias vezes pelos dela e não fui capaz de apagar um único. Nenhum era de trabalho. Eram todos mails de anedotas, vídeos divertidos ou bonecada frequentemente maliciosa (muito maliciosa, muito mesmo, para dizer a verdade). Era uma pessoa que estava sempre de bem com a vida, que brincava com tudo e com todos. Ainda me lembro dela, uma vez, nos contar que uns dias antes tinha estado com um ministro e que ele a tinha olhado de alto a baixo. Mas logo acrescentou: 'Mas não era com ar de quem queria comer, era mais ar de 'onde é que ela terá comprado esta roupa?'. O meu marido desconcertado, o marido dela a rir, já mais que habituado, eu perdida de riso. Ou quando contava toda a espécie de safadezas entre colegas de trabalho, explicando: 'Sabem como é, há muitas camas...'. Até que um dia ele me contou, preocupadíssimo, que ela tinha pedido a um colega que lhe fizesse um exame e, nesse exame, o colega confirmou o que ela temia: um tumor. Depois foram os dias de expectativa em relação à biopsia. E depois o que se seguiu, ela sempre optimista, os tratamentos, ela optimista, o marido reticente mas, depois, o mal erradicado, já confiante. Os anos seguintes foram anos tranquilos, ela bem. Os filhos casaram, veio um neto, eles felizes. Por vezes, a medo, eu perguntava-lhe a ele: 'E ela, bem?'. E ele: 'Felizmente'. Há pouco tempo, andava eu e o meu marido a passear em Óbidos, entre o Natal e o Ano Novo, toca-me o telemóvel. Ele. Conversámos. O bebé dormia a sesta. Disse que a mulher estava 'aqui ao lado, manda-vos beijinhos. E um feliz ano novo'. Ouvi a voz dela. Retribuí. Não sei se no primeiro ou segundo dia do ano, eu a trabalhar, o telefone. Ele. Num fio de voz, se calhar ela tinha que ir para os paliativos. Não percebi. Ele disse que também não. Ela tinha escondido que estava muito mal. Tinha-se medicado. No hospital, os colegas contaram-lhe: sabiam, ela tinha dores mas tinha-lhes pedido para não dizerem nada. Intrigada, eu: 'Mas a semana passada disseste que estava bem... '. E ele: 'Estava cansada mas foram as festas, a miúda lá em casa, pensei que era normal, ela dizia que era normal'. Mas na véspera não se conseguia mexer, estava sem forças, levaram-na ao hospital, teve que ir ao colo. Estava no fim. Ele ainda incrédulo. No dia seguinte, em lágrimas, ligou-me de novo: ela tinha morrido. Não quis estragar as festas à família, não quis que a família e os amigos sofressem com o seu sofrimento. O que ela sofreu nem imagino. Da sua coragem nem encontro palavras para falar. Mas viveu até ao fim como sendo ela própria e não como uma doente terminal e acho isso extraordinário. No velório, o meu amigo estava inconsolável, destroçado. Ela era a sua força, ela era o motor da família.  E a mim fez-me muita impressão. Quase como se não conseguisse assimilar, não conseguisse perceber, não conseguisse aceitar que tinha mesmo acontecido. Ainda hoje me espanto. 

E agora foi esta... (ia dizer esta rapariga). Está a meio caminho entre a idade da minha filha e da minha. Tão jovial, tão saudável. Parece que não se pode acreditar.

Há situações em que parece que, ao desaparecer uma pessoa, se abre um buraco negro que jamais será ocupado. Pessoas luminosas. Deixam um rasto que perdura na nossa memória, que continua a brilhar.


Não há ninguém que cá fique pelo que, racionalmente, deveríamos encarar estas situações com alguma naturalidade, aprendendo a aceitá-las melhor. Mas nisto das emoções nem sempre se consegue ser racional.

Não é fácil.

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Caetano Veloso e Maria Bethânia falam sobre Gal Costa: 'Nossa história é amor'

A voz de Gal, apesar de única, sempre esteve perto de outras três vozes: as de Gil, Bethânia e Caetano. Juntos, eles transformaram a amizade em arte. A repórter Renata Ceribelli ouviu duas dessas vozes. Elas falam de lembranças doces e de uma bárbara saudade.


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A primeira pintura é Death on a pale horse, J. M. W. Turner. A segunda e a última são algumas das fantásticas mulheres de Armanda Passos. A terceira é da autoria de Gary Hume.
Lacrimosa - Mozart
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Um bom dia
Saúde. Ânimo. Paz.

quarta-feira, junho 30, 2021

Solitude. The Loneliness of Grief. A Quiet Connection

 


A fotografia de pessoas, quando o fotografado sabe que está a ser fotografado, não é fácil. Se se quer a naturalidade, pode ser difícil o fotografado despir-se da teatralidade encenada que tende a surgir quando se tem pela frente a câmara tal como pode difícil, ao fotógrafo, persistir o tempo suficiente até que o instante se desenhe, perfeito, quase autêntico. Se, pelo contrário, não se quer a naturalidade tem que se ter a inteligência e o bom gosto de obter o ângulo menos óbvio ou a estética depurada que permita chegar à essência da pessoa fotografada.

Não sou fotógrafa, sou uma mera diletante acidental. Mas, desde muito cedo, comecei a fotografar. Penso que é, na minha cabeça, uma forma de tentar captar o momento, registando os vestígios do tempo que passa. Como em tudo em que sou amadora, não gosto de me preparar ou de usar o tempo a disfarçar a artificialidade, prefiro a naturalidade ou a imperfeição que não é ensaiada. Ou seja, não gosto mesmo de fazer retratos preparados, prefiro a espontaneidade. Mas, como geralmente me acontece, admiro o que me é oposto. Neste caso, gosto de ver o retrato estudado.

Do auto-retrato nem falo. Não consigo fotografar-me. Quanto muito, fotografo a minha sombra. Gostava de ser conhecida por não mais do que as a shadow, aquela que é conhecida pelo rasto que deixa e não pelo que é. Um rasto esquivo, efémero, quase inexistente. 

Mas, também aqui, admiro as pessoas que fazem do seu rosto o seu projecto estético. Jorge Molder é um caso muito próximo. Fotógrafos que se auto-retratam têm a tarefa mais difícil de todas: desvendam-se, investigam-se, desafiam-se, revelam-se. Ou não: ou ocultam-se, mascaram-se, disfarçam-se. Seja como for, a sua persistência, minúcia e despojamento são, de modo geral, fantásticos. 

Forough Yavari é australiana, tem um rosto que é uma página em branco sobre a qual ela própria pode escrever mil histórias -- e tem recebido diversos prémios pelo seu trabalho. 

A fotografia lá mesmo em cima, Solitude, a todos os títulos uma extraordinária fotografia, foi a vencedora absoluta do 2021 International Portrait Photographer of the Year. Os muitos rostos da solidão. Uma mulher sozinha, cercada pelas suas personas. Todas e nenhuma. A solidão sem remissão.

E foi também para ela o segundo prémio da categoria portrait story com a igualmente fantástica fotografia The Loneliness of Grief. A solidão do luto. A tristeza a céu aberto. A lamúria a cercar uma mulher que vive para além da morte que testemunhou. 


Já o terceiro lugar da categoria family sitting foi para Nancy Flammea e é a encenação de uma pintura viva: A Quiet Connection, fotografia que eu gostava que alguém tivesse feito comigo e com os meus filhos ou que eu gostaria de fazer com a minha filha ou com a minha nora e os respectivos filhos. A intimidade e o amor incondicional entre mãe e filho aparece aqui amorosamente retratada.




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Mulheres fotógrafas. Mulheres fotografadas. 
O eterno mistério, a total intimidade.
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Junho está a chegar o fim. Meio ano dobrado. Que a metade que se segue seja melhor do que a anterior.
Mas vamos com calma: um dia de cada vez. 
Desejo-vos um dia feliz. 

terça-feira, março 09, 2021

Compartimentos secretos, momentos mágicos, mulheres

 


Ando naquela fase em que, depois de um dia de trabalho tão preenchido, chego aqui e só me apetece pôr-me a ver televisão, seja lá o que for -- ou, melhor, não prestando atenção a nada -- ou ver os vídeos que me apareçam à frente. E não é só isso, confesso: é que, ao fim do dia,  colocaram-me questões que não sei bem como resolver e não me apetece pensar nisso pois as soluções costumam aparecer sozinhas mas, por outro lado, acho que devo pensar nelas pois as implicações são tantas que receio tomar decisões erradas por me ter esquecido de alguns factores. Depois, a noite passada dormi mal.  Fui para a cama sem sono e isso é trágico. E é igualmente trágico passar um dia com défice de horas dormidas (e logo a uma segunda feira).

E agora tenho sono. Sono, temas rodopiando na minha cabeça, e, pairando, vontade de ir ver como se pintam móveis de madeira, vontade de me entreter com coisas que me ocupem sem me trazerem preocupações. Estou aqui com a cabeça nas nuvens e os pés a quererem puxar-me para chatices terrenas. 

Não tenho respondido a comentários e bem sei que isso parece impossível. Deveria ter tempo de sobra para tudo e o que me parece é que não estou a saber geri-lo bem. Desculpo-me dizendo a mim própria que isto se deve à minha nova ocupação, àquela que abracei há uns meses, e que sabia de antemão que seria assim, tomador de todo o meu tempo e energia. Mas o facto de esta fase coincidir com este período de teletrabalho é propício a que o trabalho se expanda absorvendo toda a minha disponibilidade.

Por isso, chego a aqui e sinto-me quase vazia, sem nada de nada nada para dizer. Não sei de assuntos dos quais se possa fazer conversa. Das notícias que leio em diagonal pouca coisa me suscita vontade de opinar. Há aquilo de o medicamento que tem estado a provar bem no combate ao corona ser um que é usado no combate aos piolhos. Acho isso de uma ironia extraordinária. Pois não se está mesmo a ver que o corona é um bicho tinhoso, piolhento? Mas, para falar do assunto, deveria ter pedigree e não tenho. Farmaceuticamente falando, sou rafeira. Por isso, mais vale que fique caladinha.

Também li hoje que uma mulher, em Nova Iorque, sentindo frio em casa e sentindo que o frio era maior quando estava na casa de banho, como que uma aragem que até lhe fazia esvoaçar um ou outro cabelo,  resolveu tentar descobrir de onde vinha. Parecendo que a aragem vinha de dentro da parede, resolveu investigar. Até que percebeu que parecia vir do espelho. Então, resolveu tirá-lo. E aí, para sua surpresa e susto, descobriu um buraco. E, de lanterna na cabeça e esquecendo todos os riscos, fez o que não devia: entrou. E foi dar a um apartamento secreto de três divisões. Ao ver uma garrafa de água ainda mais se assustou. Mas depois percebeu que ninguém poderia sobreviver num apartamento sem janelas. Claro que não sei se será bem assim já que alguma corrente de ar deverá haver, senão não sentia a aragem. Mas, enfim, façamos de conta que sim.

Parece que quem lhe vendeu a casa também não tem explicação. Nem a empresa de construção a tem. 

E esta história verídica, sim, esta dá-me alguma vontade de me deter um pouco.

Quando viemos aqui visitar esta casa, caí de amores à primeira vista. Assim caio sempre quando caio de amores: à primeira vista, de caixão à cova, sem apelo nem agravo. Não há cá isso de não ficar muito convencida e de a coisa só lá ir aos poucos, à medida que se vai conhecendo melhor. Treta. Comigo não, eu sou mais de cair de amores na base do desconhecido. Total blind date com um instantâneo coup de foudre. Saímos daqui, fizemos logo uma proposta, passado um bocado veio a resposta e, assim, na hora, a coisa deu-se. Mas, dizia eu: estavam a mostrar a casa e tudo batia certo, o santo da casa a cruzar-se com o meu, tudo na mouche.

Na segunda vez, já o negócio feito, viemos para a minha filha conhecer e para eu tirar dúvidas. O meu filho tinha podido vir na primeira vez. Mas eu estava baralhadíssima. Queria descrever a casa e não atinava. Na minha cabeça, tudo se tinha misturado do ponto de vista geográfico. Não sabia onde estavam os quartos, onde estava a porta, como se ia para o piso de cima. Então, a dona, que eu estava a conhecer nessa altura (na primeira visita não estavam cá), ao mostrar-me tudo, ao chegar ao sótão, perguntou se eu já tinha visto um certo compartimento. Eu achava que não mas não sabia. E, então, para meu espanto, dou com um compartimento que parecia secreto, a biblioteca privada do marido, uma biblioteca toda feita por ele. Estava cheia de documentação técnica ligada à profissão dele. Foi a última coisa que foi esvaziada, contaram-nos eles depois. Quando os meninos vieram conhecer a casa, fui logo mostrar-lhes aquilo: deliraram. Parecia coisa de filme, um compartimento mesmo secreto, só quem sabe dá com ele. 

Está vazio. Ainda não pus lá nada. Para já, não preciso, tenho agora muito espaço para livros e para tudo. Mas também é outra coisa: parece que assim tem mais graça, um compartimento secreto, mágico, à espera do seu destino. Talvez seja ali que um dia vou pôr objectos especiais, velharias que resgate por aí, peças que eu construa. Não sei ainda. Só sei que não devemos precipitar as coisas. O que interessa acontece por si. Não temos que forçar nada.

E, pronto, não sei que mais dizer. 

Foi dia da mulher mas não ia pôr-me para aqui a deitar foguetes. Não é um dia que faz qualquer diferença. Mas tinha pensado contar qualquer coisa relacionada com a minha condição de mulher e o que me ocorria era falar do nascimento dos meus filhos. O parto que, das duas vezes, a meu pedido, foi a sangue frio. Eu a sentir o corpo a despedaçar-se por dentro, temendo não conseguir aguentar tantas dores, até que as crianças me foram arrancadas a ferros e vieram para os meus braços. Não há sensação melhor no mundo do que termos nos nossos braços os seres que se geraram dentro de nós. Aliás, há sim. Há sensação tão boa ou melhor do que essa: é vermos o amor, a realização e a sensação feliz dos nossos filhos com os seus filhos nos braços e é, a seguir, termos nos nossos braços os filhos dos nossos filhos. Amor maior, sem explicação, coisa visceral.

Mas depois resolvi que não, que não deveria falar nisso: há mulheres que ainda não tiveram filhos ou que não tiveram nem vão tê-los e que nem por isso são menos mulheres do que as que já tiveram a bênção de os ter. Por isso, deixei-me dessa conversa. E depois, acreditem, estou mesmo cansada, com sono, sem assunto. Que me desculpem os queridos Leitores que generosamente me deixam as suas palavras. Não levem a mal. Leio com gosto mas a esta hora já só dá para deixar que os dedos para aqui andem no vício. A cabeça já está encostada às boxes há algum tempo.

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Pensei: pelo menos podia colocar aqui um vídeo com uma mulher e peras. Pensei: Paula Rêgo. Depois pensei: uma escritora. Depois pensei: uma médica. Depois: uma engenheira. Depois: uma sem abrigo. Depois pensei: uma professora. Depois: uma bombeira. 

Depois deixei-me disso. 

E resolvi colocar a Meryl Streep que gosta de se divertir e que não se leva a sério que é como as mulheres de bem devem ser.

E, portanto, cá está ela.

Meryl Streep's the most iconic moments



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As fotografias foram obtidas em: Women: an exhibition of British press photography.
Fotógrafos -- Teri Pengilley, Lindsey Parnaby, Ray Tang, Kiran Ridley, Katja Ogrin, Charlotte Graham

Maria João Pires interpreta Mozart: Piano Concerto No. 20, K. 466: II. Romance

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Desejo-vos uma terça-feira feliz

terça-feira, setembro 08, 2020

O Requiem e Las causas




Há quem se emocione com o Requiem de Mozart. Também me emociono mas não a ponto de chorar. Mas emociono-me, por vezes com lágrimas, ao ouvir ler Las Causas -- como se estivesse perante uma inesperada antevisão da perfeição da vida, como se estivesse perante a descrição do melhor destino que se pode desejar, 

Mas digo isto sabendo que não sei explicar. 

Porque chora alguém ao ouvir o Requiem de Mozart? 
Porque acorda na sua alma sofrimentos adivinhados, saudades fundas, dor cavada e incumprida? Porque se levanta da terra o sopro de espíritos antigos, porque convergem no seu peito lágrimas de sofridas despedidas, gritos de dor longamente calados? Porque todas as cordas da alma, em uníssono, choram a finitude do corpo, a finitude do amor? Porque depois da perfeição que se ouve apenas pode sobrevir o vazio e o vazio é o tenebroso abismo em que se afogam os desesperados? Ou porque, no fim, se percebe que poderia ter havido alguma coisa e, em vez disso, houve nada e mesmo esse nada acabou? Porque tudo é tão efémero, tão frágil, tão difícil de agarrar e tão fácil de perder?
Não sei. Se alguém sabe que o diga.

Seguramente, não serão as mesmas razões que me levam a emocionar-me com Las causas. Enquanto no Requiem o rio avança, belíssimo e nobre, para se perder lancinantemente no mar, talvez até no céu, em Las causas os braços do rio caminham, desconhecendo-se, caminham cegos, inocentes, para inesperadamente confluirem e se tornarem um rio único, belo, forte e destemido. É a celebração do acaso e das diferenças que se ajustam entre si, é a emoção do caos feito ordem, é a harmonia que surge quando menos se espera, é o encontro virtuoso que justifica o acto de viver.



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E a todos desejo um dia feliz, com muita vontade de celebrar a vida

sábado, agosto 15, 2020

Casa nova, vida nova




É verdade, Francisco: mudei de casa. Não foi para a tal, foi para esta. Não é uma casa invulgar, de uma arquitectura espectacular. É apenas uma casa bonita, ampla, luminosa, com um jardim à volta. A outra era uma casa de revista. Esta é uma casa de família. Agora, quando a casa se enche, para estarmos à vontade, não temos que ir para o campo. No apartamento, quando toda a miudagem se juntava, estando confinados, gerava-se ali uma tal turbulenta energia que os adultos ficavam todos com a cabeça em água. Ou íamos todos para o campo, que, ainda assim, não é ao virar da esquina ou tínhamos que nos preparar para a confusão.

O confinamento provou-nos também que, para estarmos mais circunscritos a casa, não nos sentíamos bem estando 'presos' muitos metros acima da terra, sem um bocado de chão onde pôr os pés, sem verde por perto. Por sorte, temos a possibilidade de ter para onde ir quando queremos evadirmos da cidade mas a verdade é que viver em permanência numa casa com jardim sempre foi a minha vontade. 

Desde que nasci até sair de casa dos meus pais, a casa em que vivíamos era assim. E sempre foi de uma casa assim que andávamos à procura. Mas primeiro casámos ainda miúdos, fomos para onde calhou. Depois nasceu a minha filha e queríamos era estar perto da escola dela e dos acessos para o nosso trabalho. Depois já eram dois e era mais prático estar ao pé das escolas. Depois era mais prático que pudessem ir e vir a pé para casa. Depois já tinham querer e recusavam-se a sair de perto dos seus amigos. E depois recusavam-se ir para um sítio para onde fosse complicado ir quando saíssem à noite. E depois, quando saíram e já não tínhamos a 'imposição' deles a forçar-nos à cidade, habituámo-nos, ficámos preguiçosos. Os meus filhos diziam que nos mudássemos, que já não havia razão para vivermos no meio da cidade, que seria melhor para todos se fossemos para uma casa com jardim (... e com um cão). 
De facto, esta do cão sempre foi um tema. Eles cresceram com a nossa doce boxer. Sempre tiveram muita vontade que voltássemos a ter um cão. Mas uma coisa era ter um cão quando eles viviam connosco e, durante o dia, iam à rua passeá-la, e outra, muito diferente, é sermos só nós dois numa torre e, quando vamos trabalhar, deixar o pobre do animal sozinho em casa todo o dia. E eles: mudem de casa. 
Há uns anos, fizemos uma tentativa nesse sentido. Tínhamos uma casa em perspectiva, projecto de arquitectura e engenharia prontos. Mas a empresa em que eu trabalhava mudou de sítio, não faria sentido ficarmos a morar mais longe.

Agora, comigo a querer mudar de tudo, com a família a apoiar, incluindo a minha mãe, uns por umas razões, outros por outras -- mas tudo se conjugando -- foi desta. 

Mas mudar de casa é obra. Era coisa que eu, quando os meus filhos nos tentavam convencer, sempre dizia: nem pensar em metermo-nos na trabalheira de uma mudança. Olhava para tanto livro, tanto bibelot, tanta coisa, e achava impossível. Muito sinceramente, não me via com energia para encaixotar uma vida inteira e voltar a recomeçar numa outra casa. Mas, sei lá porquê, nesta minha disposição de mudança, arranjei energias para me abalançar a tão hercúlea tarefa. Claro que o trabalho mais pesado não é o meu. Livros foi coisa para o meu marido. Não sei como conseguiu. Mas conseguiu. Eu fiquei com o trbalho mais leve mas, em minha opinião, mais melindroso. Copos, louças, bibelots, tudo embrulhadinho em plásticos de bolhinhas. 

Pode contratar-se serviços de embalamento, mas não quisemos isso. Não me imaginava, durante uma a duas semanas (que foi o tempo que as empresas de mudanças estimaram), a ter uns quantos camaradas lá em casa, a mexer nas minhas coisas. Ainda por cima, em tempos de covid. Portanto, tudo feito por nós. Tudo para fora de gavetas e prateleiras. Tudo arrumado em caixas. E, à medida que íamos arrumando em caixas, ia limpando móveis por dentro, íamos deitando coisas fora. Uma canseira mas, ao mesmo tempo, um consolo.

E, nos dois últimos dias, entraram os homens. Hércules. Homens com força de touros. Estes, Paulo, eram mesmo touros. Quais bois? Não, touros. Possantes. Eu não conseguia sequer arrastar uns centímetros no chão cada caixa. Eles pegam nelas, põem-nas ao ombro e aí vão eles. Ou pegam em móveis brutais e aí iam eles escada abaixo. Uma força do além.

Agora cá estou. Caixas e caixas e caixas. Uma tarefa brutal para os próximos dias. 

Teria mil peripécias para contar, incluindo coisas do Marinho ou do Dudu, mas já é tarde para além da conta e, portanto, vou dormir numa caminha nova, num quarto novo, numa casa nova. E amanhã (que já é hoje) é um novo dia.

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Há mais Monas & Lisas aqui

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Desejo-vos um belo sábado

quarta-feira, julho 22, 2020

Casas.
As minhas. As dos outros. As vossas.





Depois de me ter casado, já vivi em quatro casas. Uma é esta em que estou, no campo, uma casa que, depois de muito procurarmos, descobrimos no meio do nada e pela qual todos nos apaixonámos imediatamente. As outras são casas de cidade. A primeira era um pequeno ninho no alto muito alto de uma muito alta torre, um apartamento dentro do céu de onde se via Lisboa de ponta a ponta e a margem sul também de ponta a ponta. Quando nasceu a minha filha não apenas a casa se tornou pequena como eu temia que ela, ao começar a andar, algum dia se aventurasse mais do que devia e sofria vertigens e pavores só de pensar nisso. Saímos de lá para uma casa mais espaçosa, que compensava a falta de boa vista com o facto de ser bem situada e de ter uma arquitectura acolhedora. Até que os livros começaram a transbordar sem terem para onde. Já não havia onde colocar mais estantes e não houve como não procurar uma casa maior. Aquela em que agora vivemos pareceu caída do céu. Ampla, com uma vista fantástica, cheia de luz, com uma distribuição harmoniosa. Os meus filhos eram adolescentes, tínhamos coonosco a nossa querida cãzinha. Uma casa à nossa medida.

Apesar de eu ser grande admiradora de arquitectura e apesar de haver arquitectos na família, apesar de eu própria não me importar nada de ter sido arquitecta, nunca comprar um terreno e, como num projecto greenfield, conceber e construir de raiz foi opção. Também nunca nos sentimos atraídos por casas novas, acabadas de construir. 

As razões dele eu não sei, nunca falámos sobre isso, mas as minhas eu sei. Gosto de sentir nas casas a vida dos que nos precederam, dá ideia que me faz mais sentido dar continuidade à ideia que outros, antes de mim, tiveram. Gosto, em especial, de casas com um cunho muito pessoal, porventura reabilitadas, acrescentadas. Esta em que agora estou tem uma parte com centenas de anos. Gosto de pensar em toda a gente que, ao longo de séculos, por aqui passou. Paredes com quase dois metros de espessura, feitas de pedras, grandes pedras. Depois o anterior dono concebeu a sua ampliação, construíu-a quase com as suas próprias mãos. Foi tudo feito com projecto aprovado e vistoriado pela Câmara mas foi numa altura em que os projectos não tinham que ser feitos por arquitectos. Foi ele que a imaginou e, com a ajuda de um engenheiro civil, converteu as suas ideias em projecto. Contudo, a mulher nunca se habituou a viver no campo. Ele gostava de ir melhorando a casa, tinha sempre o que fazer, fez armários, forrou um tecto a madeira. E ela odiava. Sentia-se presa, queria era viver na cidade. Os vizinhos contaram-nos que ela, por vezes, saía a correr e que ele ia a correr e a chamar por ela, buscá-la. Tinha o mesmo nome que eu. Até que se separaram. E ele teve tamanho desgosto que pôs a casa à venda.

Deixou cá tudo: mobílias, louças, bibelots. Acho que só roupas é que não. Mudei o lugar de tudo, escondi algumas coisas mas creio que não deitei nada fora. Durante anos, dormíamos no quarto mobilado por eles. Disfarcei algumas coisas, mudei de candeeiros, coloquei um espelho que arranjei num antiquário. Mas era o quarto deles. Essa mobília agora está no estúdio. O candeeiro da sala de jantar e o da cozinha ainda são os deles bem como a mesa e as cadeiras da cozinha bem como a mobília da sala de jantar.

A casa da cidade em que agora vivo foi uma coisa também assim. O dono gostava muito da casa. Tinha sido ele, enquanto jovem engenheiro, que tinha colaborado na construção do prédio e o último piso foi logo preparado para si já que o pai era o construtor. Mas separou-se e a mulher seguinte não queria viver na casa onde ele tinha sido feliz com outra mulher. Então ele pensou remodelar a casa de alto a baixo a ver se a convencia. Tudo novo. Mas a mulher não queria nem escolher acabamentos nem dar ideias quanto à remodelação e ele, certamente para a pressionar, pôs a casa à venda. Foi aí que soube dessa casa, por mero acaso. Ele dizia que não queria vender a casa mas deixava-me escolher todos os acabamentos, sem qualquer restrição de valor, tudo totalmente a meu gosto mas sempre na esperança que a mulher retrocedesse e aceitasse lá ficar. Quando percebeu que a decisão da mulher era definitiva, decidiu-se a vender. No dia da escritura estava inconsolável, chorou. A mulher disse-nos que ele não se conformava e que a filha também não, gostavam os dois muito daquela casa mas que ela era incapaz de ir começar uma vida ao lado de alguém numa casa tão cheia de memórias para ele, memórias das quais ela não fazia parte. Contou que estava grávida. 

E eu gosto de estar em casas que foram tão amadas por quem lá viveu, que foram imaginadas nos mínimos detalhes. E penso agora quer na da cidade mas, também, nesta aqui no campo, in heaven. Parece-me que me sinto herdeira de alguém que deixa um testemunho, alguém que sonhou, imaginou, se sentiu emocionado a ir para lá viver, que lá teve as suas múltiplas vivências.

No decurso dos processos de escolha de uma casa, vêem-se muitas casas alheias. Uma pessoa pasma com muito do que vê. De forma geral, a ideia com que fico é que a maior parte das casas são feias ou porque são fechadas sobre si próprias, ou têm pouca luz ou, então, porque têm decoração escura, ensimesmada, triste. 

Há excepções. Há tempos vi uma casa extraordinária: muito ampla, paredes quase todas de vidro, clarabóias, vários níveis acompanhando o desnivelamento natural do terreno, um corredor do qual se viam dois níveis abaixo e de onde se subia para dois níveis acima, cada nível separado do seguinte por meia dúzia de degraus. Casa magnífica. Um mobiliário minimalista mas de boa qualidade, uma mesa e umas cadeiras de extraordinária qualidade e design. Não estava à venda. E era uma magnífica excepção. 

Há um outro aspecto a referir: as casas das pessoas conhecidas, família ou amigos. Nessas eu não gostaria de viver e, de resto, fazem-me alguma impressão pois é como se detectasse ali sinais da sua intimidade. A casa das pessoas espelha a alma de quem lá vive. Pode ser árida, triste, banal, desconsolada, uma casa à espera de ser habitada. Ou requintada, reveladora em pequenos apontamentos, acolhedora, vibrante.

E, talvez por tudo isto, gosto imenso de ver casas - dantes era através de revistas de decoração, agora é através de vídeos. Gosto muito. Não me canso. Inspiram-me.

Se eu tivesse aptidão para escrever poesia, escrevia poemas sobre a casa. A minha. A primeira de que me lembro, a dos meus pais antes de terem construído a que viria a ser a sua casa, uma casa de que me lembro estranhamente bem, depois a actual, a casa onde fui criança, depois adolescente, onde levei os meus namorados, onde me casei e onde a minha mãe agora vive sozinha. As minhas casas, mesmo minhas, onde foram feitos e cresceram os meus filhos, onde eles viveram até irem construir as suas vidas, onde agora regressam com os seus próprios filhos. A que nos envolve e traz cá para fora o que temos de melhor. A casa que, um dia, será a nossa última. E a casa dos outros. As casas de quem me lê, as vossas casas. As casas que vos acolhem. E esta minha casa, esta vossa casa.

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E deixem que partilhe dois vídeos dos vários que estive a ver






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E um dia feliz para si que aí está desse lado.

domingo, setembro 22, 2019

Que fazer quando a nossa casa está em chamas?





Seria fácil se a solução estivesse apenas na florestação. Mas, infelizmente, não é bem assim. Florestar é importante, muito importante, mas, tal como se refere no vídeo que partilhei no outro dia (o segundo do post), não haveria superfície terrestre suficiente para todas as árvores necessárias para produzir o efeito indispensável. Além disso, não é qualquer árvore, em qualquer sítio. É preciso muito, muito mais que isso. 

A questão é complexa: a globalização pôs as coisas a percorrerem longas distâncias. Queremos muita oferta, muito barata. Para isso, os produtores fazem o que podem. Onde são produzidas as peças de roupa que compramos na Zara ou em qualquer outra grande marca? No Paquistão, no Chile, onde calhar. E as matérias primas para fazer essas peças? Sabe-se lá de onde vêm. Da Índia, de Marrocos, you name it. Tudo percorre grande distâncias. Compra-se a matéria prima onde for mais barata, transporta-se de lá, leva-se até onde a mão-de-obra for mais barata, depois transporta-se de lá até onde existir consumo. E quem diz roupas, diz ténis, diz carteiras, diz brinquedos, diz electrodomésticos...  diz quase tudo. 


E as empresas e demais organizações, para terem escala e 'eficiência', têm que ter os serviços centralizados e as pessoas que antes estavam noutras repartições mudam de local de trabalho, se calhar ficando a quarenta ou cinquenta quilómetros da sua residência e para a qual terão que se deslocar pendular e diariamente, usando transportes, tantas vezes viatura individual.
E não me ponho de fora. Não, sou um dos pequenos seres que, em toda a linha, se integra nesta cadeia. 
E, por isto, aquilo ou o outro, a poluição aumenta, aumenta, aumenta.

E isto já para não falar no crédito fácil e nos hábitos de consumo que fizeram com que as cidades fossem devoradas pelos carros. Um carro para a mãe, outro para o pai, outro para cada filho.

Ou o crédito também fácil para viajar que criou a procura necessária para as viagens de avião low cost com os aeroportos saturados e os ares cheios de ruído e porcaria.


E os hábitos da picanha brasileira, da carne argentina, e os restaurantes de all you can eat cheios de carnes e enchidos e trinta por uma linha vindos sabe-se lá de onde mas, certamente, de longe... e tudo a oito ou nove euros. E, portanto, tudo tem que ser barato pelo que os criadores de gado têm que baixar o preço da carne, ter muitas cabeças de gado e, para isso, têm que ter espaço e vá de acabar com florestas. E isso e o escambau, porque estou a dar meros exemplos mas isto é generalizado.

E é tudo descartável porque não é prático andar a aproveitar coisas, ter que lavá-las. Nem se vendem coisas a granel. Mais simples e barato tudo de plástico. E como não? Como compraríamos o gel de banho, o detergente, o shampoo, a água, tudo, tudo, tudo? E tanta coisa que não se recicla, que vai para o lixo, ficando por aí, poluindo mares, terras.

E nem falo da indústria que, por cá, vai sendo menos poluente mas que, em tantas partes do mundo, é criminosamente poluente. Tintas, resinas, metais pesados, produtos altamente poluentes a irem para os leitos de rios ou para a atmosfera. Em tanto lado.


E tudo nas nossas vidas é assim. Não é de hoje nem de ontem. Tem sido uma longa e estúpida trajectória. 

E nem falo da maior derrota dos nossos tempos, esse flagelo, essa dor que nos crava o coração de mágoa e impotência, essa tragédia que são os desgraçados bandos humanos às portas do mundo dito civilizado, gente que foge à guerra (alimentada pela sinistra indústria de armamento e fomentada pelos mais funestos e gananciosos exemplares da espécie humana, gente que se alimenta de petróleo e de todo o tipo de sórdidas ambições), gente que foge à seca, à fome, a um destino miserável -- deixando para trás terras esventradas ou ressequidas ou mortas.

Por isso, agora que o planeta está como está, a nossa casa em chamas, não é uma medida -- uma medida única, avulsa, voluntarista --  que resolve o que quer que seja. Têm que ser muitas. E bem estudadas, articuladas, planeadas. É toda uma civilização que tem que fazer a agulha num outro sentido.


De novo partilho um vídeo que me parece bem feito, apelativo, credível.

David Attenborough, Greta Thunberg and Jane Goodall 

want to talk to you about climate change


Todos somos poucos para, através de uma consciencialização colectiva, tentarmos ajudar a mudar este triste estado de coisas.
Que cada um de nós seja porta voz desta consciência, desta vontade de salvar o planeta, de nos salvarmos a nós próprios.


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No outro dia falei do espaço e ainda não é hoje que explico porque o digo (digo apenas que se é sabido que dos céus nos vem a luz e o vento -- aproveitados, entre outras coisas, através das fotovoltaicas e das eólicas -- não nos esqueçamos que é também de lá que nos vem a chuva que pode ser estimulada).

Mas hoje falo também do mar. E se Portugal tem mar... Note-se: não é a solução. Mas pode ser uma das soluções. veja-se como um exemplo das muitas possíveis soluções que, volto a dizer, cientificamente estudadas, articuladas, planeadas, etc, podem vir a contribuir para mudar a trajectória de destruição que estamos a percorrer.

This incredible underwater farm could be the future of food



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Fotografias feitas este sábado in heaven nas quais se pode ver uma abençoada amostra de chuva. 

Lá em cima, nuns belos jardins australianos, é o concerto N°24 na interpretação de Piotr Anderszews

domingo, abril 07, 2019

JV e Paulo Batista: les beaux esprits se rencontrent

A palavra a dois millennials de excepção






Junto dois textos que aparentemente nada têm a ver um com o outro. Calhou serem os dois últimos comentários que a JV e o Paulo escreveram. São textos muito bons, escritos por dois jovens especiais que ilustram bem a qualidade excepcional da nova geração.

A JV e o Paulo são ambos cultos, engagés, despertos para as circunstâncias concretas que enformam a sociedade em que se inserem. Se, jovens como são, pensam e escrevem assim, imagine-se quando a vida depositar neles mais e mais camadas de conhecimento, de aprendizagem de que, quanto mais se sabe mais se percebe o que há para descobrir, de novas emoções, de novos deslumbramentos.

Sempre que recebo comentários ou mails deles fico contente pois trazem-me sempre uma visão nova, fresca e pujante da vida.

Transcrevo, então, palavras de ambos e, como forma de agradecer a sua generosidade por escreverem aqui o que pensam, junto algumas fotografias feitas hoje de tarde in heaven. Todas menos uma: esta aqui abaixo foi-me enviada pela própria JV e mostra a floresta onde gosta de se perder.





Palavras da JV

Há uma palmeira na avenida da liberdade da qual emana uma chilradeia que chega a mais de trinta metros. Devem ser dezenas de passarinhos aos guinchos por comidinha! Já tenho visto muito turista a parar e tentar fotografar as avezinha lá no alto. 
As árvores são lugares fantásticos, povoadas de vida. 
Há uma árvore num jardim da nossa cidade que é minha. Não por título de propriedade, mas porque quem gosta tanto de uma coisa deve considerá-la sua, sob pena de cometer uma injustiça. 
É uma propriedade que não é exclusiva, partilhada com quem lá está quando não estou eu.  
Mas não é menos minha. 
Quando estou debaixo dela ou empoleirada nela (eu ainda subo às árvores) é como se tivesse entrado num mundo que parece ser todo meu. 
Mesmo num dia de fim de semana, uma tarde de sol radioso, com o jardim cheio de gente, o recanto onde aquela árvore fica é um espacinho isolado com uma vista desafogada lá do alto onde não se avista vivalma. 
Fora desse recanto, pessoas a tropeçar umas nas outras, velhos, crianças, namorados, solitários, amigos, um sem fim de gente. 
Tenho fotos de uma tarde dessas em que parece que estou imersa numa floresta sem ninguém.

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Palavras do Paulo Batista

... eu acho que parte dessa desagregação do sistema político e da sua dificuldade em construir respostas eficazes não deve tanto à inadequação de um conjunto de "velhos" que comanda um sistema (político e económico) anacrónico e inadequado para a malta nova, mas talvez deva mais à incapacidade da malta nova, saltar efetivamente da sua rede social, colocar-se no lugar do outro (diferente de si) e procurar construir respostas colectivas, integradoras, da crescente diversidade de grupos, de indivíduos e de condições de vida que co-habitam os seus territórios. 
Não quero com isto parecer um millennial "velho do restelo" (embora tenha fama disso). Eu acho que esta (a minha) geração tem as condições e as ferramentas para construir uma sociedade melhor. No entanto, talvez inebriados pela intensidade que os novos e velhos meios de comunicação colocam na ligação e integração do indivíduo numa dada rede social, tem aumentado a criação de "bolhas" de (ir)realidade. 
Os algoritmos de recomendação e dos serviços de "redes sociais" na internet são só a face mais vísivel disso mesmo - mecanismos simples mas poderosíssimos na criação desse efeito "bolha social".
Apesar da atitude aberta e liberalizante dos "millennials" perante a vida (maior abertura às redes "fracas"), paradoxalmente, o efeito material e imaterial é uma fragmentação desses mesmos grupos sociais (as redes fortes têm uma dimensão cada vez mais reduzida). Desta forma, o arquipélago de grupos sociais torna-se de tal forma complexo e "ingovernável" que resulta num crescente imobilismo coletivo. 
A fragmentação do sistema político e dos partidos tradicionais, num cada vez maior número de grupúsculos, parece-me resultar deste fenómeno de fragmentação dos "millennials" - e o Brexit, por exemplo, é mais um sintoma dos "defeitos" da geração emergente do que como uma consequência do anacronismo e "antanho" das gerações passadas.

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E como é bem verdade que les beaux esprits se rencontrent, termino com uma bela coreografia de Jiří Kylián sobre música de Mozart e com Sylvie Guillem num momento de 'petite mort' com Massimo Murru. Um prazer.


Para ambos, os mais sinceros votos de felicidade nas suas vidas e de que saibam encontrar a formar de fazer deste mundo um melhor lugar para se viver.