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quarta-feira, novembro 05, 2014

O paradoxo de John Malkovich. Casanova, Conde de Valmont, Lord Rochester, o sedutor que precisa de silêncio, o homem que recorda a dor como uma sombra ou como um vestígio a esbater-se, o perverso tranquilo que acha que o Porto é fisicamente deslumbrante e que Lisboa é luminosa, o homem com uma voz tremendamente envolvente.


No post abaixo transmiti a minha opinião sobre o aparente desacato da Merkel a propósito de Portugal ter licenciados a mais. Percebo-a. Quando firmo um acordo, também eu faço tudo para forçar o seu cumprimento. Mérito o dela, é o que me ocorre dizer perante a cambada de capachos que vendem Portugal e os Portugueses por dez réis de mel coado e ainda se deixam pisar como servos estúpidos.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.




(Sobre o filme Casanova Variations que está prestes a estrear)


O que é que aprendeu?

Aprendi muito acerca do próprio Casanova que era o assunto da biografia dele ("Histoire de ma Vie"), embora ele tenha escrito de modo interessante acerca das viagens, das experiências, das pessoas, do século em que viveu. A sua autobiografia é uma grande leitura, e um registo muito interessante sobre o século XVIII. 
Ele pode ser engraçado... Tem uma memória fantástica para os detalhes, e expressa-se de um modo muito belo em muitas passagens.
Mesmo que, por hipótese, algumas situações nunca tenham acontecido, como alguns defendem, não se pode negar o interesse do que ele escreveu.

Aprendeu alguma coisa acerca da crueldade?

Não penso que ele fosse cruel.

E acerca do amor?

Não tenho a certeza de quanto é que cada um de nós pode saber acerca do amor. 
O que Casanova diz a propósito da dor é tremendamente certeiro.
Quando ele descreve o duelo ("O Duelo") que tem com o conde polaco conta como os dois ficam feridos e depois amigos. Esse episódio é recontado, de certa maneira, no filme, e o papel do conde é interpretado pelo grande tenor alemão Jonas Kaufman. Casanova diz que se lembra da dor no braço onde foi atingido, mas depois corrige [cita de cor]: "Ou melhor, lembro-me de que houve uma dor, um forte ferimento, como um clarão, um ferrão. Não conseguimos lembrar-nos da dor em si. Uma coisa natural é lembrarmo-nos de tudo relacionado com a dor que sentimos, mas a dor em si só pode ser recordada como a sua própria sombra, como um vestígio a esbater-se. A memória ilumina a maior dor com uma luz suportável. Do mesmo modo, não temos recordação da felicidade, apenas do seu reflexo".



Casanova Variations, por Michael Sturminger com John Malkovich


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(Sobre outra das suas várias facetas)


Começo a ficar curiosa acerca do tipo de direcção que dá aos actores.

Há um documentário, "Le Paradoxe de John Malkovich", sobre esse assunto. Vai passar em Portugal. Não lhes digo o que fazer e isso deixa-os loucos.



LE PARADOXE DE JOHN MALKOVICH 

um filme de Pierre-François Limbosch (França, 2014)




É um manipulador, como as suas personagens?

Não. Apenas não lhes digo o que fazer.

Porque não sabe ou porque espera ser surpreendido?

Adoro ser surpreendido. Sei o que quero, mas não sou eu que estou a interpretar. Que diferença faz eu saber ou não? Eles é que têm que saber. 
As pessoas não sabem as coisas apenas porque nós lhas dizemos. As pessoas sabem coisas quando emocional e intelectualmente as compreendem. Se lhe disser como conduzir aqui, você não sabe do que estou a falar. Saberá no momento em que estiver a conduzir aqui. Se disser aos meus filhos para não fazerem isto ou aquilo, eles não vão querer saber do que lhes digo. 
Porquê perder o fôlego? Tenho que deixá-los descobrir quem são as suas personagens, qual é a situação, o que é que aquela personagem sente... Consigo-o dando-lhes confiança, observando-os atentamente e dando-lhes atenção... 
Qual é a percentagem de realizadores que sabem o que é dirigir actores? Menos de cinco por cento! É muito raro encontrar algum que saiba. Eles não sabem nada. Sabem de filmes, de imagens, e podem saber um pouco sobre comportamento humano, mas não muito... Não sabem nada do que realmente significa construir uma performance passo a passo. Eu trabalhei com 78 ou 79 realizadores de cinema e poucos o sabiam.

Vejo algum paralelismo entre o cinema de Oliveira e a forma como fala, nesta conversa como nos filmes. Os longos silêncios, as pausas, o uso do tempo...

Sim, o que não se diz é tão importante como o que se diz. 
O silêncio é sempre muito importante, no cinema como no teatro. 
Não podemos cortar e colar tudo. Vou a um ginásio, não muito longe daqui, e não suporto a maior parte daqueles vídeos dos canais de música.... Cortam, cortam, cortam... São parvos de qualquer maneira. Aqueles vídeos estão editados como se todos tivessem transtorno do défice de atenção. Não tenho isso.

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(Sobre Portugal)


Foi Manoel de Oliveira que o levou a querer filmar no Porto?

Não. Tinha lá estado e pensei... o Porto é um lugar tão sonhador. Tem tanta beleza e ao mesmo tempo decadência e perda. Diria que é fisicamente deslumbrante.

Gosta mais de Lisboa ou do Porto?

Não consigo escolher. Gosto das duas cidades. São tão diferentes. 
Lisboa é tão luminosa, e o Porto não é luminoso, tem um núcleo de uma grande dureza. Há partes do Porto muito, muito bonitas, mas nelas não há luz. O Porto é o oposto da luz. Adoro essa natureza.

E porque é que ainda não se decidiu a mudar?

Para o Porto ou para Lisboa?

Qualquer um deles...

Oh, falamos nisso muitas vezes. Pode acontecer.

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O que acima se lê são excertos não sequenciais de uma invulgar entrevista que John Malkovich concedeu a Cristina Margato para o suplemento Actual do Expresso de 1 de Novembro de 2014. Está de parabéns a Cristina Margato: uma grande entrevista.



(As fotografias que aqui coloquei não são as que acompanham a entrevista. As primeiras duas são imagens do filme Casanova Variations e as restantes foram escolhidas a partir do vasto número de fotografias que os mais diversos fotógrafos têm feito dele.)

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Para finalizar - e porque a voz de Malkovich a dizer poesia é qualquer coisa - permitam que partilhe convosco:

A drowning swimmers dream - poema dito por John Malkovich 


(desconheço o autor do poema que aparece no filme Klimt, sobre Gustav Klimt)





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Relembro: se descerem até ao post seguinte, poderão ler a minha interpretação acerca da desagradável boca de Merkel sobre haver licenciados a mais em Portugal. E desculpem se não sou politicamente correcta mas não, não é na Merkel que eu bato.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira. 
Be happy.

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domingo, agosto 31, 2014

'E se os bárbaros vierem desta vez?' e 'A palavra no osso' - Ana Cristina Leonardo no seu melhor no Actual e o Expresso de parabéns por saber valorizá-la. Os leitores agradecem.


Eu sei que, no post abaixo - no qual falei na oposição a sério ao Governo feita este sábado por Marques Mendes na SIC (e agora até me estou a lembrar que o PS e o PCP bem que poderiam aprender com ele em vez de andarem na brincadeira, como andam) - disse que o post seguinte seria sobre o que andei a fazer durante o dia e que ia mostrar fotografias e tudo.

Mas, como também referi, pelo meio ainda ia dar uma espreitadela ao Expresso. E assim fiz. E aqui estou para dizer uma coisa que me faz adiar para amanhã a reportagem fotográfica prometida.









E o que quero dizer é que gostei muito da crónica da Ana Cristina Leonardo 'E se os bárbaros vierem desta vez?'. Muito justamente o seu espaço no suplemento Actual do Expresso chama-se Isto anda tudo ligado pois de liaisons, geralmente pouco inocentes, se constroem os textos de Ana Cristina. 


Desta vez, começa por ir buscar a abertura de 'Este país não é para velhos' para citar Cormac McCarthy e para depois perguntar, ela própria, Como se enfrenta o Mal sem arriscar a alma?

Um pouco mais adiante, Ana Cristina  prossegue: É impossível para quem esteja minimamente atento ao que acontece no mundo, não ter dado conta dos profetas da destruição. Perseguições e limpezas étnicas e religiosas, mortandade desenfreada, violações de mulheres, raptos de jovens e crianças, execuções sumárias, gente enterrada viva, conversão ou morte! Como uma onda gigante que se adivinhou muito ao longe e que vem galgando o mar já próxima das margens. No terreno onde tudo isto germina jorram poços de ouro negro, estende-se uma manta de petróleo. Convém não esquecer. Perante isto há quem olhe atónito a televisão, leia, incrédulo, as notícias, vá sabendo coisas de que preferia continuar ignorante. Há cerca de 70 anos, a Europa despertava do pesadelo nazi levado a cabo em nome da superioridade rácica. Hoje o que se ouve são gritos de 'Allah Akbar'. A burocracia da morte foi substituída pelo tumulto guerreiro mas depois de Auchwitz ninguém terá perdão se desviar o olhar.


Mais uma crónica marcante de Ana Cristina Leonardo. 

Têm sido variadas e todas muito boas as suas crónicas. No outro dia escreveu uma outra cheia de sul, de sol, de cheiro a figos, de sons da infância. Sendo eu neta de algarvios que rumaram a norte mas que conservaram lá as suas raízes, revi-me naquelas palavras. São assim, como ela as descreveu, as recordações que tenho das estadias nas casas das tias e primas que por lá ficaram. Lembro-me das casas caiadas rodeadas de campo, da quietude noctívaga das casas, do latido abafado dos cães, da sombra de um gato a equilibrar-se num muro, da robustez das figueiras, do leite viscoso dos figos, do aroma inebriante das alfarrobas na zona de Loulé, lembro-me de uma casa grande e fresca numa rua de Faro, do olhar reptiliano das gaivotas e do gingado nervoso das andorinhas-do-mar, de faróis, do horizonte iluminado por traineiras, da rouquidão dos motores que passam ao largo apontando à barra, lembro-me de outras casas, de outras vozes, de outros calores. Estava lá tudo, na bela crónica de Ana Cristina.

Esta semana assina também uma excelente recensão: deu-lhe o título A palavra no osso e fala do livro Ouro e Cinza de Paulo Varela Gomes. Ultimamente têm sido bissextas as suas incursões nesta área e é pena. Esta de hoje não apenas está muito bem escrita como dá uma visão muito clara do que deve ser o livro e, lendo a sua opinião, dá vontade ir conhecê-lo. Quando regressar à cidade, irei certamente comprá-lo.


Transcrevo parte do seu texto: O rigor da informação presente na frase serve-nos de trampolim: (...), não existe na escrita de Paulo Varela Gomes uma palavra a mais nem uma palavra a menos. Apenas a palavra (eticamente) justa. Ao rigor da sintaxe alia-se o rigor semântico. Em contracorrente, o edifício de palavras construído por P.V.G. não corre o risco de se desmoronar no vazio. Aqui não há crochet, há carpintaria. Não há frases em bicos de pé, há proposições com sentido. 


Os seus textos e os de Pedro Mexia, quer nas crónicas quer nas breves (e irregulares no caso dela) recensões críticas são das razões que me fazem ter vontade de ler o Expresso, fidelizam-me como cliente do jornal em papel.

Depois de no outro dia ter criticado a falta de critério na selecção de alguns colaboradores para o Expresso Diário não posso agora deixar de felicitar o Expresso pela valorização de Ana Cristina Leonardo como crítica literária. E, se me é permitido, aqui deixo uma sugestão:  bem que a sua crónica semanal Isto anda tudo ligado poderia ter mais espaço e estar em lugar de maior destaque.



Critico quando acho que devo criticar, louvo quando acho que devo louvar. E isto aplica-se a tudo e a todos.


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A música lá em cima é Big My Secret de Michael Nyman e faz parte da banda sonora de The Piano. Acho que liga bem com a Ana Cristina Leonardo.

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E por tudo e por todos, permitam que vos diga que, caso queiram saber o que achei da charla semanal de Marques Mendes na SIC e do que acho dos socialistas e comunistas que nem a brincar sabem fazer oposição, deverão descer até ao post já a seguir.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores um belo dia de domingo.



sábado, junho 14, 2014

In heaven com o perfume do alfazema (e, porque 'isto anda tudo ligado', também com a Ana Cristina Leonardo, no Expresso, a propósito de Herberto Helder e do 'vírus da poesia')


A quem goste de casas de sonho, vidas de luxo, mordomos eficientes, fiéis e jeitosos, mesas postas como deve ser, cãezinhos amorosos e muito glamour, recomendo que, depois deste, desça até ao post seguinte onde mostro três das casas de Valentino, o célebre, rico e bem penteadinho estilista.


Mas isso é mais lá para baixo. Aqui, agora, a conversa é outra.


Lavender hills, se faz favor




Eu não tenho mordomo nem demais criadagem (e bastante falta me faziam), cãezinhos fofos, castelos fabulosos, iates em Veneza, mas tenho uma casa no campo. É onde estou agora.

Chegámos com uns abrasadores 37,5º, mal se conseguia estar na rua. Mas a casa estava fresca. As paredes são espessas e, fechada, a casa conservou a frescura da última vez que cá estivemos.


Estive a ler o Expresso e agora que estou a escrever isto e a tentar recordar-me do que li - apesar do tema da escravatura que claro que me impressionou, parece até impossível, e apesar das trafulhices do 'impoluto' Ricardo Salgado do GES que mereceriam um post inteiro - aquilo de que, assim de repente, me apetece falar é do artigo da Ana Cristina Leonardo em que escreve sobre o mercantilismo em volta da edição do último livro de Herberto Helder, começando a crónica por recordar Cesariny que se terá, a dada altura, desfeito de um quadro da Vieira da Silva, dizendo que o tinha trocado por uma carcaça, relacionando ela isso com o valor que talvez tenha no mercado negro um livro esgotado de HH. 


A propósito, tenho pena que o Expresso recorra tão pouco ao trabalho de Ana Cristina Leonardo. Já aqui o disse: posso nem sempre ter concordado com o que escreveu - o que é normal (o consenso permanente é malsão) - mas reconheço nela uma acutilância e qualidade de escrita bem acima de alguns dos que agora escrevem na secção de livros do Actual. 

Para além disso, temo que esta sua escassa participação se traduza numa redução dos seus rendimentos. Há tempos ela falou que, por causa da crise, teve que mudar de casa e a semana passada falou que tomara que não lhe cortem a luz. Para meu próprio sossego, ao ler coisas assim, prefiro pensar que são metáforas mas, aqui o confesso, fico sempre com medo que seja verdade. Pessoas ligadas à cultura deveriam sempre ser acarinhadas e nunca descartadas. As televisões estão cheias de porcaria, pimbalhada e estridências, e eu penso que, em vez dessas inenarráveis tretas, haveria público para muitos mais programas culturais. E os jornais e as revistas também - mas é certo que cada vez as pessoas compram menos papel e, na internet, as pessoas querem ler sem pagar. Há aqui questões por resolver e penso que a resolução que se anda a procurar vai sempre pelo caminho mais fácil - que não é, forçosamente, o melhor.
Agora estou a lembrar-me que Herberto Helder também escreve, neste seu último livro, que tomara ter dinheiro para comprar a próxima garrafa de gás, ele que, segundo também escreve, tem uma reforma de pilha-galinhas. Também não sei se são metáforas, se é uma escrita por simpatia, se é a triste realidade.

Dizia eu que li o Expresso e li-o todo, de ponta a ponta, (saltando as páginas de desporto e, em parte, as de política internacional) mas, pelo meio, adormeci e dormi o sono dos justos. Tenho a sorte de adormecer facilmente e deve ser um sono profundo porque, mesmo que seja curto, é reparador. Acordo sempre como nova.

Apenas por volta das 8 da noite fui capaz de ir lá para fora e, mesmo assim, ainda estava calor. Disse 'da noite' mas disse mal: estava sol e as abelhas andavam doidas em volta de um bocado de água junto à mangueira. Estive a regar algumas flores mas não reguei um décimo do que devia. Devíamos também cortar a erva que, em alguns sítios, cresceu e se transformou em matagal, devíamos aplicar bondex nas portadas, nas portas e nos bancos de madeira, que já estão tão secos. Meses de chuva e agora um calor destes estragam as madeiras. O alumínio não é tão bonito mas, ao menos, não dá trabalho a manter. E antes de se aplicar o bondex dever-se-ia lixar tudo mas onde é que há tempo e energia para uma coisa dessas, a preceito? O tempo é sempre tão escasso e, quando cá chegamos, vimos a precisar de descanso. Nem sei quando o poderemos fazer. Amanhã de manhã já estou de volta à cidade, vai ser um fim de semana cheio de programas familiares. As férias são poucas e, mesmo assim, também sempre cheias de afazeres. De qualquer forma, com calores destes também não é possível estar-se na rua a fazer trabalhos assim.

Os figos ainda estão pequenos, as ameixas também. Já só há uma ou outra nêspera no alto das árvores, nem se consegue lá chegar e, aquelas a que consegui chegar, doces como mel, já estavam bicadas pelos pássaros.

De tarde, com o calor que estava, o perfume das flores estava bem presente, era um perfume doce, uma misturas de vários odores. Os loendros, as sardinheiras, os tamarindos, os pinheiros, os cedros, o tomilho, o rosmaninho, todos os perfumes se misturam. As abelhas não largam as flores e eu ando de volta delas a tentar fotografá-las mas, mal as consigo focar, elas levantam da flor em que estão e vão para outra.

Mas, de todas as flores, nesta altura, a que mais perfume liberta para o ar, a mais suave, a mais sublime na sua perfeição tão simples, é o alfazema. É um perfume tão limpo, tão bom, um perfume que dá vontade apanhar com as mãos, guardá-lo nas gavetas, entre os livros, e, sobretudo, enviá-lo entre estas palavras para que chegue, com toda a minha estima, lilás, inocente e fresco, até vós.


Alfazema in heaven


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Ainda não é hoje que aqui partilho convosco o artigo sobre o braço da NSA na Europa e sobre o que lá se passa. A ver se amanhã o consigo pois penso que talvez achem interessante saber um pouco dessa realidade paralela - eu, pelo menos, achei.


Relembro:  caso gostem de ver casas espectaculares e ver o que é uma verdadeira vida de rico, desçam, por favor, até ao post a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim de semana!

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domingo, fevereiro 09, 2014

Por causa da morte de Lady Sybill fiquei sem vontade de vos falar d' A Casinha dos Prazeres






São quase duas da manhã, Lady Sybill acabou de dar à luz uma menina e, logo agora que eu queria saber se está tudo bem com a jovem mãe, fizeram intervalo. Publicidade, publicidade.

Aproveitei para ligar o computador. Eu deveria hoje nem pegar nisto que não são horas decentes. 

Há bocado, depois de ter chegado a casa bem tarde e, de seguida, ter jantado um iogurte com nozes, um queijo fresco com mel e um diospiro (gosto de alimentação crudívora; já o meu almoço tinha sido suchi e sachimi), deitei-me no sofá a ler o Expresso e ainda consegui ler o tocante texto de Clara Ferreira Alves sobre uma mulher de aspecto digno que pedia esmola à porta da ópera, depois o do José Tolentino de Mendonça e as suas saborosas massas e, a seguir, fiquei incomodada com a tendência que o Pedro Mexia tem para se rever nos solitários, tristes, desalentados e desafortunados personagens que a vida e a literatura vai deixando na nossa memória. Pessoas talentosas deveriam saber dar-se mais valor e aprender a viver mais felizes. Mas as pessoas são como são e eu pouco mais posso fazer em relação a isso do que ficar um bocado triste. Gosto de saber as pessoas felizes e, em especial, gosto de saber felizes as pessoas que admiro. Mas parece que as pessoas muito talentosas têm mais consciência das suas limitações e finitude e isso parece tirar-lhes a alegria de viver (que, se calhar, é própria dos simples de espírito). Enfim.

Depois ainda me aventurei por outras páginas mas caí num sono profundo. O dia foi bem preenchido e o corpo, quando tem oportunidade para se apagar, apaga-se mesmo. Foi um sono breve mas retemperador. Acordei já a meio de O Fim de uma Época mas ainda vi o suficiente para me deliciar. 

E a seguir ainda vi o Eixo do Mal e agora já vou no 2º episódio de hoje de Downton Abbey e só mesmo o meu gosto por partilhar dois dedos de conversa convosco me traz aqui.

Acabo agora de ver aqui, em cima de uma destas pilhas de livros que me acompanha na mesa em que escrevo, uma caixa de bolachinhas para crianças, Figurines Assortment. São bolachinhas em forma de árvores de natal, renas, pais natal e são revestidas a chocolate de leite. Sobraram do Natal. Os meus pequenos gulosos trouxeram-na para aqui e nem dei por isso.

Downton Abbey recomeçou.

Meu Deus.


Lady Sybill sempre estava com eclampsia e acaba de morrer, que horror. 


A família está devastada e eu também estou chocada, não estava psicologicamente preparada para isto. 

Sou assim, impressiono-me facilmente. E gosto desta família, estou envolvida com estas pessoas, que hei-de eu fazer?



Ia falar-vos de um livro muito bonito, capa de veludo carmim. Gosto de livros bonitos. Passo a mão pela capa e sinto a sua macieza. Tem uma mulher na capa. 

O livro é A Casinha dos Prazeres de Jean-François de Bastide com desenhos de Álvaro Siza Vieira, tradução e apresentação de António Mega Ferreira, revisão de Dóris Graça Dias, da editora ABySMO.


Tinha ideia de transcrever uns excertos, intercalá-los com os desenhos de Siza e até, antes de abrir o blogue, tinha estado a ver se escolhia uma música a condizer, andava pelo burlesco, mas agora, a sério, acho que já não me apetece. Ficará para outro dia.

Daqui a nada são três da manhã, não tarda tenho que estar a pé que outro dia preenchido me espera, e fiquei desconsolada com o que aconteceu à bela Sybill e com o peso da culpa que vai atormentar os pais por não terem dado ouvidos ao médico de família que percebeu o que se estava a passar e tinha querido levá-la para o hospital.

Até fui procurar uma outra música. Não fazia sentido manter aqui uma cena de burlesco. Optei, pois, por F. Mendelssohn com Song Without Words - Gondellieder.

Já não vou poder responder aos comentários e bem gostosos eles são, que pano para mangas dariam. Mas é tarde e eu tenho que me recolher aos meus aposentos. Vou contagiada pela tristeza da família (na qual incluo os empregados) de Downton Abbey.

Sei que grande parte das pessoas acompanhou a série pela Fox e já sabiam disto há que séculos. Mas eu acompanho na SIC (até porque quando estou in heaven só tenho os quatro canais e ver a série na SIC assegura continuidade) e nunca quero que me contem o que aconteceu ou vai acontecer. 


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo. 
Parece que vai estar um tempo desabalado e só espero que não faça muitos estragos. 

terça-feira, dezembro 17, 2013

Listas (da 'Poética do et caetera' de Pedro Mexia a 'Uma lista mas sem exemplo, o Umberto Eco que me perdoe' da Ana Cristina Leonardo), listas para todos os gostos. E logo eu que não sou nada dada a listas.




*

Não sei o que deu nas pessoas, parece que desataram todas a pensar em listas. 

Neste Actual do Expresso pelo menos o Pedro Mexia e a Ana Cristina Leonardo estiveram para aí virados nas suas crónicas hebdomadárias (palavra mais engraçada esta: hebdomadária). 


Diz Pedro Mexia que, chegados ao fim do ano, toda a gente faz ou comenta listas. Mas depois diz uma coisa que me tira logo o tapete para o que eu me preparo para dizer. Diz ele do alto da sua sapiência: Os espíritos sofisticados detestam listas, acham-nas hierarquizantes, conformistas, mercantis. E depois, num assomo de auto-indulgência (e lá está: mais um fishing for compliments) diz que as defende sempre e continua o texto arranjando uma claque do caraças: Homero, Proust, Umberto Eco, Barthes, etc, etc, e até aos autores da Bíblia ele vai buscar apoiantes.

À Ana Cristina Leonardo parece que deu uma coisinha má e faz uma lista de efemérides, uma para cada dia do mês de Dezembro até ao dia 25 em que, com graça, acaba com uma interrogação, uma data por confirmar, a do nascimento do Menino Jesus.

Agora ligo o computador e percorro a galeria lateral e vejo a Joana Lopes a invocar as listas de efemérides para chegar à  Liv Ullmann.

E há as listas dos livros bons para oferecer, a lista das músicas que têm que se ouvir, os livros de que jamais se deverá esquecer, as listas de recados, as listas de palavras. 

E logo eu que acho que nunca fiz uma lista na vida.

Sou atípica, eu sei: não faço anotações nos livros, não tomo apontamentos, não faço listas, não guardo nem nunca guardei bilhetes de cinemas, de museus, de comboios, bilhetinhos de amor, nada, nada, nada.

Acho que já o confessei. Vou para as reuniões de mãozinhas a abanar. Chego lá e vai tudo com valises cheias de dossiers, pastas com pastas dentro, iPads, portáteis, tudo. E eu como se fosse fazer turismo.

Sentam-se à volta da mesa, cada um puxa do seu arsenal - e eu nada.

Depois escrevem, escrevem, e eu nada. Por vezes lá há um ou outro assunto que me parece merecer registo. Então pego numa folha A4 daquelas que há em cada lugar e escrevo um ou outro tópico, não mais que uma meia dúzia de palavras por junto. A maior parte das vezes quando a reunião chega ao fim dobro e rasgo discretamente e fica ali mesmo. Outras vezes, raras, raras, dobro bem, meto na carteira. Quando chego ao gabinete faço um ou outro telefonema ou um ou outro mail, o assunto é esclarecido ou posto em marcha e a folhinha rasgada.

Atrás de mim tenho armários fechados até ao tecto. Praticamente vazios. Já mudei de empresa e de local de trabalho várias vezes. Ao princípio, quando me mudava, enchia vários caixotes. Havia trabalhos de que achava que não me devia separar até ao resto da minha vida (trabalhos no âmbito de uma linha de apoio do Banco Mundial, reestruturações de envergadura, relatórios Mckinsey ou Boston Consulting Group ou outros relativamente a projectos complexos em que participei, etc, etc). Aos poucos fui achando que tudo aquilo era datado, irrelevante e fui deixando para trás. Os meus caixotes foram-se reduzindo. A última vez trouxe apenas dois mal cheios e quase tudo coisas pessoais, uma pedra que apanhei na praia, um bocado do tronco de uma árvore, uma caixa metálica com o Fernando Pessoa, um bonequinho com um grande coração nas mãos, uma caixa com canetas (que nunca uso), umas meias de reserva, coisas assim.

Aqui em casa é a mesma coisa. 

Listas? Zero. 

Detalho. Listas de presentes? Zero. Listas de compras para a casa? Zero. Listas de tarefas para cumprir? Zero. Listas de ideias para pôr em prática? Zero. Lista de palavrinhas? Zero.

A única coisa que me interessa é o que me ocorre no momento. Apontamentos ou listas são para mim sempre coisa do passado e do passado só me interessa o que me fica de cabeça, o que a minha memória possa temperar livremente.

Mas vá lá. Já que toda a gente anda numa de listas, não vá haver por aí algum picuinhas que ainda ache que estou a fingir que tenho um espírito sofisticado, vou fazer, por uma vez, uma tentativa.

Lista de palavras: suculenta, sibilina, esfínge, palaciano, intravenosa, oscilante, dormente, arrojada, truculento, desnudada, artemes, artemísia, diana a caçadora, brincos de princesa, brocado, macio como a carne de um diospiro, bagos de romã, grevílea robusta, musgo macio como uma fresca penugem, gruta, silêncio, falacioso. 

Não tem graça. Vou parar. Não dá, isto não é para mim. Serve para quê? Para daqui por uns anos olhar para estas palavras como flores secas cheias de pó? 

Que as pessoas normais as façam. Eu desisto. Não sou normal - e não, não estou fishing for compliments porque estou bem assim, aqui sentadinha a assistir às listas e às conversas das pessoas normais. Eu sou mais dada a ouvir e imaginar blackbirds, a inventar manchas ocasionais de cor, impressões passageiras - e sempre disponível para o que der e vier, sem laços, livre de listas ou outras amarras.


*

As pinturas são de Joan Snyder. A fotografia é de Franco Fontana.

A canção é Blackbird e aqui é interpretada por Sarah McLachlan


domingo, dezembro 01, 2013

'Aquilo que me perturba em Portugal é a mansidão' diz Rui Nunes, o filósofo. Não sei o que deu nos seniores, todos a apelarem à violência. É este, é o Mário Soares, é o Papa Francisco (o mais explícito, o mais radical de todos). Isto só visto!




A Europa, tal como está organizada, chefiada por burocratas cínicos, destituídos de cultura, no sentido mais profundo do termo, funciona como uma pátria concentracionária (...)

(...) Porque a Europa vai sentir um dia a ira daqueles que viram morrer os seus como lixo às portas dessa pátria mítica. A Europa vai pagar isto. 

- Quando regressa a Portugal também encontra essa ira dos excluídos?

Não. Aquilo que me perturba em Portugal é a mansidão. Isso é terrífico. Este povo foge, não enfrenta.


[Breve excerto da entrevista concedida por Rui Nunes a Alexandra Carita no Actual do Expresso.]


Rui Nunes tem 66 anos e se calhar também seria classificado como um velho do Restelo pelos ignorantes que assim têm designado Mário Soares e as pessoas que estiveram na Aula Magna (ignorantes esses que notoriamente nem sabem quem foram esses senis, apalermados do Restelo, na volta uns 'tios' já gagás). Digo ´seria classificado' porque sei que a esses ultra-montanos e a essas virgens ofendidas nunca lhes passaria pela cabeça ler esta entrevista de que aqui falo.

Adiante.

E já que parece que os anciãos estão todos a virar uns perigosos revolucionários, uns trauliteiros de primeira, venha daí mais um: Fausto.

O caso é que a minha amiga Leonor manda dizer que tem estado a ouvir as músicas recomendadas pelo seu amigo Dr. Lampião e que, para aqui hoje, vem a calhar o 'Eis aqui o agiota' do Fausto, rapaz com 65 anos acabados de fazer.



*

O autor da fantástica fotografia é Spencer Tunik,  fotógrafo muito conhecido por fotografar grandes grupos de pessoas nuas.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Escrever, pintar, sonhar, trabalhar. A palavra aos artistas. Amoz Oz em entrevista a Luciana Leiderfarb e Helena Almeida em entrevista a Clara Ferreira Alves. No Actual do Expresso.


Amoz Oz

Quando percebeu que queria ser escritor?

Muito cedo.
Mesmo quando não tinha a certeza de querer sê-lo,
passava o tempo a contar histórias.
Aos 5 anos já inventava histórias de detectives e de ficção científica
para os meus amigos e para impressionar as raparigas.
Eu não era um rapaz bonito,
não era bom nos desportos nem era brilhante na escola.
A única forma de impressioná-las era a contar histórias,
o que faço ainda hoje.

(Nota minha:
podia não ser muito bonito aos 5 anos mas, aos 74, é um gato).
As suas motivações para escrever devem ter mudado com os anos.

Tornei-me cada vez mais curioso sobre a natureza humana, sobre as pessoas. penso que a minha urgência de escrever tem a ver, sobretudo, com a curiosidade. A curiosidade é uma virtude moral. Uma pessoa curiosa é melhor pessoa, melhor vizinho, melhor pai, até melhor amante do que alguém que o não é.

(...) para um escritor, o centro do universo é onde vivemos. Não é preciso conhecer o mundo, é preciso olhar para as pessoas que nos rodeiam.


Toda a história pessoal tem um lado universal.

O mundo está cheio de histórias. Ainda hoje, se tiver que esperar numa clínica ou num aeroporto, não leio os tablóides, ouço as conversas dos outros. Observo as expressões, as roupas, os sapatos - os sapatos contam sempre muitas histórias. tento adivinhar quem são, de onde vêm, que tipo de vida vivem...


[Entrevista de Luciana Leiderfarb a Amos Oz no Actual do Expresso de 23 de Novembro de 2013.]


*


Helena Almeida parece-me por vezes um pássaro,
um desses pássaros raros que esvoaçam e logo desaparecem,
dotados da velocidade das coisas precárias.

Olho para ela e vejo uma mulher bonita.
em jovem, tinha uma cara belíssima, fortíssima.
O problema é que anda tudo a dormir. As pessoas nunca dizem o que pensam. Ou então estão mortos e não sabem que estão mortos. (...) Nunca há escândalo.

O meu mundo é outro, preciso de estar sozinha, a desenhar, e é o que me dá prazer. Fazer o que quero, ser livre, não ter gente à volta. Ter a cabeça livre. 


Ao mundo exterior vai buscar tudo o que lhe interessa, e interessa-lhe tudo. `


Às vezes, é uma pessoa que passa e diz uma frase. Por exemplo, 'Banhada em Lágrimas' eram duas mulheres que iam a falar: 'Ela anda banhada em lágrimas'. Ficou-me a trabalhar. Pode ser uma coisa vulgar, um vestido, uma pessoa, uma sombra nos objectos do meu ateliê... E por ali vai o resto'


Admiro e tenho muito respeito pelos artistas, é um trabalho muito difícil.
Mesmo os que não são bons, respeito.
É uma profissão muito solitária. É preciso paciência.
Para mim, tem sido uma bênção. Mas não se pode esperar recompensa.


[Excertos da excelente entrevista de Clara Ferreira Alves a Helena Almeida também no Actual do Expresso a pretexto da exposição 'Andar, Abraçar'. Em boa hora o Expresso vem voltando a dar mais palco a Clara Ferreira Alves, uma grande jornalista.] 


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Se deslizarem até ao post seguinte, poderão saber o que David Nunes, congressista nos EUA, e Pedro Marques Lopes, no DN, pensam das privatizações levadas a cabo por Passos Coelho, esse modelo de patriotismo de faz de conta. 

Descendo ainda um pouco mais, conto-vos sobre o filme que fui ver este domingo: Malavita. A não perder.

E ainda vos convidar a virem visitar o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Por lá hoje tenho o violista Benjamin Schmid a interpretar Bach (ou jazz?). E a Maria do Rosário Pedreira aparece para me levar a confessar a minha solidão revoltada.

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E, por hoje, já chega. 
Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.

sábado, novembro 16, 2013

Luís Quintais, o Poeta que não gostou da crítica de José Mário Silva no Expresso a propósito do seu livro 'Depois da Música' e que, furioso, disse (e vocês perdoem o meu francês mas vou limitar-me a transcrever): "Dá-me quatro estrelas. Melhor seria que não desse nenhuma. Que as metesse pelo cú acima! Que merda de país é este?"


No post abaixo interrogo-me sobre o Bruno Vieira Amaral: será um galã? Um actor porno? Um simples malandreco? 

Mas isso é a seguir.

Aqui, a conversa é outra. Dado que esta semana andei com a cabeça noutro lado, só hoje afloro um assunto sobre o qual já poderia ter falado antes.






Tenho o livro de Luís Quintais da Tinta da China, o 'depois da música', e dele já aqui no Um Jeito Manso e no Ginjal divulguei alguns dos poemas. Apenas o conheço deste livro e, como já o referi, gosto: acho que, uma vez mais, o Pedro Mexia está a revelar 'olho' para escolher bons poetas. Esta colecção da Tinta da China coordenada por ele está a revelar grande qualidade.


Luís Quintais parece-me um poeta com uma visão especial das coisas, alguém que vê o mundo com uns olhos livres, que sente e pensa de uma maneira muito própria, dá ideia de ser alguém incomum.

Já aqui o disse algumas vezes: a mim não me faz sentido que se faça crítica literária à poesia. Quanto muito admito que se diga que se gosta, que é especial ou incomum, que é melódica ou inspirada ou que é vulgar, preguiçosa, armada a besta, ou banalidades deste género. Uma pessoa pôr-se a dissecar um poema, a interpretá-lo ou a dizer o que quer que seja sobre um poema é sujá-lo, é ofuscá-lo, é retirar-lhe a música e a beleza intrínseca. E, quanto a significados, pretender atribuir-lhe um sentido ou um propósito parece-me uma coisa contrária à própria essência da poesia. Para mim, um poema é uma coisa aberta, cada um que o leia como entender. Acredito que, ao escrevê-lo, um poeta possa, até, nem lhe atribuir nenhum sentido.

Por isso, nunca leio crítica literária sobre poesia como leio sobre outro género: limito-me a ler os poemas que o crítico transcreve.

Neste caso, conhecendo já o livro e andando com ele aqui ao meu lado para o ir espreitando de vez em quando, ao ver a crítica no Expresso da semana passada, tive curiosidade. E constatei que a crítica feita pelo José Mário Silva não apenas não era apelativa, como o que dizia era redutor, afunilava o sentido dos poemas, fechava-os num espaço fechado.


Achei que não fazia justiça ao livro e que mais valia que a não tivesse escrito.

Mas, neste caso em concreto, embora não tenha grande opinião dele enquanto crítico, dei-lhe um desconto; pensei que quem faz crítica literária a obras poéticas geralmente se espalha e que era o que lhe estava a acontecer: tinha-se espalhado.

Por isso, compreendi a reacção de Luís Quintais. O que me surpreendeu foi que o tivesse publicado e a frontalidade do que disse. Mas admito que, se eu estivesse no lugar dele, tivesse pensado o mesmo ao ler a dita crítica.

Escreveu ele:

Chamaram-me a atenção, e fui ler. Uma recensão crítica de José Mário Silva sobre Depois na música no Actual do Expresso. Uma coisa verdadeiramente incrível de mediocridade, preguiça e desonestidade intelectual. Não tem nada para dizer, e num texto de muito poucas palavras, rouba tudo o que pode do meu livro para preencher a inenarrável coluna. No fundo, domesticam-nos assim. Domesticam-nos através de uma presunção de vaidade. Isto vem de alguém que ainda há semanas dizia que o Fernando Pessoa ortónimo era um poeta «sobrevalorizado». Dá-me quatro estrelas. Melhor seria que não desse nenhuma. Que as metesse pelo cú acima! Que merda de país é este?


Ou, dispondo a última parte do trecho de uma forma mais poética, para termos uma verdadeira exaltação ao lirismo dos tempos modernos:

Dá-me quatro estrelas.
Melhor seria que não desse nenhuma.
Que as metesse pelo cú acima!
                  Que merda de país é este?

Não tem papas na língua. Ou melhor: tem língua afiada este Poeta que, entre outros, gosta de Monteverdi e de Chaplin e que diz de si próprio:

Algum do meu trabalho ensaístico actual sobre arte (e esse é um dos meus territórios de eleição) gravita à volta de figuras como Gordon Matta-Clark e Rui Chafes. Através de Matta-Clark e Chafes, pretendo explorar algumas das propostas de Alfred Gell e Tim Ingold. Proponho-me, assim, e com alguma urgência, pensar o mundo da arte, erguer a minha pessoal codificação ou interpretação antropológica da arte. Uma antropologia da arte? Sem dúvida. Mas uma que seja suficientemente interdisciplinar ou transdisciplinar para interessar não apenas os antropólogos, mas também investigadores de outras áreas.

E ainda:   Sou um homem de esquerda, mas sem ênfase. Estruturalmente agnóstico, acredito mais na redenção do que na revolução. E a redenção será poética ou não será!




Um simbolista vencido


Dor em que crescerás - 
a queda das folhas
a que sem limite cederás.





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Todas as imagens mostram obras de Javier Pérez, excepto a fotografia em versão Warhol do Poeta rebelde. 

A música lá em cima é de Claudio Monteverdi - L'Orfeo, com direcção musical de René Jacobs, Simon Keenlyside como Orfeo e coreografia de Trisha Brown. 

O poema é de Luís Quintais, claro. Para conhecerem outros, poderão procurar lá mais para baixo, do lado direito, a etiqueta 'Luís Quintais'


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E, depois da poesia, a prosa. Se quiserem ver um galã daqueles com olhar de verdadeiro malandro, desçam, por favor, um pouco mais.

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PS: Tinha intenção de escrever hoje também sobre a Ascensão e Queda de Passos Coelho segundo Fernando Moreira de Sá nos conta na entrevista na Visão. Aí ele descreve como este, aquele e o outro (alguns cuja escrita acompanho - ou acompanhava), todos esses que, unidos, ajudaram a difamar e denegrir a imagem de José Sócrates para, depois de forjarem a figura de Passos Coelho e de o ajudarem a aboletar-se no governo, irem eles próprios aboletar-se em assessorias e outras mordomias no mesmo governo, o governo mais indigente, mais incapaz, mais perigoso de que há memória na democracia portuguesa. Foram essencialmente pela mão de Miguel Relvas, esse grande estadista. Quero falar sobre isso mas talvez só amanhã, hoje já não dá.


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E, por hoje, nada mais. Apenas desejar-vos, meus Caros Leitores, uma belo fim de semana.

domingo, outubro 13, 2013

"Barómetro Literário" do Expresso. O PSI 20 dos escritores portugueses segundo os críticos literários do Actual, Clara Ferreira Alves, o dito José Mário Silva, Pedro Mexia, Luísa Mellid-Franco e Ana Cristina Leonardo. Muito bem. Gostei. E belas ilustrações de Gonçalo Viana. Estão de parabéns.






Depois de ter já aqui algumas vezes desfiado o meu desagrado pelos fretes que as revistas e suplementos literários fazem às editoras ou ao público mainstream (que consome tudo o que é vendido com roupagens propagandísticas bem engendradas), eis que hoje o Expresso me surpreende agradavelmente.

Por causa das doze páginas que o Viegas deu ao Valter não comprei este mês a Revista Ler tal como não compro Jornais de Letras ou o que quer que seja que estenda passadeira vermelha a artistas que se convencem que são escritores mas que, hélas, não passam nem por lá perto.


No outro dia fiquei passada com o José Mário Silva no Actual, todo ele a enroupar aquele fulano que gosta de andar nu e assim deveria ser mostrado. Quando um crítico literário louva os Valtinhos desta vida, eu, a partir daí, deixo de considerar a sua opinião e, por arrastamento, descreio dos jornais ou revistas que contratam críticos de gosto tão duvidoso. Não é por nada mas como é que, a partir daí, posso fiar-me no que dizem?

Claro que, em relação ao Expresso, não posso ser tão purista pois, não tendo eu tempo para ler jornais diários, tenho que me desforrar ao fim de semana e, além do Actual, gosto de ler todo o resto (excepto o que se refere a desporto).


Posso achar que o Ricardo Costa gosta de se armar em profeta - e de, a partir daí, se ver na necessidade de provar que tem ou vai ter razão ou de justificar porque é que não a teve - e que, pior ainda que isso, tem pouco sentido crítico, não é intuitivo, se um palerma qualquer diz uma parvoíce qualquer, ele não duvida. Posso também achar que é de gosto muito duvidoso ter lá uma criatura como o Henrique Raposo, que é vulgar e de um reaccionarismo primário, ou um Daniel Bessa que defende uma coisa e o seu contrário, tudo sempre fora de tempo e dando palpites sempre ao lado, ou um Henrique Monteiro que escreve banalidades com ar proficiente, demonstrando que é tão influenciável que até chateia - mas, enfim, tem também uma Clara Ferreira Alves, agora um Pde José Tolentino Mendonça, um Nicolau Santos, um João Garcia, um Fernando Madrinha, um Pedro Adão e Silva e outros cujas opiniões gosto de ler, mesmo que nem sempre concorde com o que escrevem.


Por isso, reportando-me agora apenas à crítica literária, não é uma andorinha como o José Mário Silva que estraga a primavera e, portanto, de forma fiel, lá continuo todos os sábados a ler o Expresso.


Mas, dizia eu, esta semana surpreenderam-me e redimiram-se. Com um trabalho como o de hoje o Expresso fez um favor aos seus leitores.

A ideia do Expresso foi dar oportunidade aos críticos literários residentes de, no que à literatura portuguesa diz respeito,  separarem o trigo do joio, indicando quais, em sua opinião, são os escritores mais sobrevalorizados e quais os mais subvalorizados. 


E, ao fazê-lo, revelaram a sua própria qualidade de críticos literários. 

Os leitores do Actual do Expresso agradecem esta separação de águas.

Não apenas é interessante confrontarmos a nossa opinião pessoal com a deles como ficamos a perceber melhor quais os seus referenciais.



Clara Ferreira Alves coloca Alexandre O'Neill e 'Subvalorizar "novíssimos"' no grupo dos que deveriam merecer mais atenção. 


E, de forma clara, aponta o dedo aos jogos de interesse que proliferam nos pequenos meios literários que sobrevalorizam uns, impedindo a valorização de outros que a mereceriam. 



Refere explicitamente que a LER é um produto de lobby, o de Francisco José Viegas com o seu index de inimigos e desagrados


Concordo com ela.


Por outro lado, coloca Miguel Torga e Valter Hugo Mãe no grupo dos que são sobrevalorizados. Sobre Miguel Torga não sou tão justiceira como ela mas, sobre o segundo, faço minhas as suas palavras: é um dos exemplos mais cómicos do cabotinismo literário lusitano.


Com José Mário Silva não me identifico, excepto talvez no que se refere a Carlos de Oliveira que acha que é subvalorizado face ao que vale. Não me revendo nas suas restantes opções, passo à frente.



Pedro Mexia deixa-me curiosa com as suas escolhas sobre os que acha que mereceriam melhor reconhecimento: Rui Knopfli e Teresa Veiga. Conheço mal o primeiro, não tenho, pois, ideias formada sobre ele, e não conheço Teresa Veiga. Tenho um único livro dela e acho que ainda não li. Tenho que ir averiguar. Prezo a opinião de Pedro Mexia (apenas uma vez achei que estava a fazer um frete mas percebi depois que, a ele, a amizade por vezes tolda-lhe a isenção e, enfim, sendo isso raro e sendo por uma boa causa, por aquela vez passou).


Quanto aos que acha que valem menos do que o valor que lhes é atribuído, acho que Pedro Mexia foi um cavalheiro: sobre Luis Sttau Monteiro cingiu-se à peça 'Felizmente há luar' e, ao referir Florbela Espanca, falou da sua vida complexa e tempestuosa que despertou uma atenção tal que ajudou a sobrevalorizar a sua obra. Concordo.


Luísa Mellid-Franco escolhe Fernando Campos e Pedro A. Vieira como os mereceriam mais atenção mas não posso opinar: não conheço a obra de um e outro. 


Nos que considera sobrevalorizados coloca António Lobo Antunes (com excepção para os três primeiros livros). Eu juntaria às excepções os livros de Crónicas. Os restantes livros são como diz Luísa Mellid-Franco: circulares, déjà vu. Junta J. Rodrigues Santos como um dos que não merece a fama que tem. 


Custa-me ver António Lobo Antunes ao pé do gnomo no jardim, parece-me que, apesar de tudo não há comparação. Mas, enfim, embora guardando as devidas distâncias, concordo que o primeiro é sobrevalorizado no que toca aos romances a partir dos três primeiros e concordo que o segundo não pode ser considerado escritor.





Finalmente Ana Cristina Leonardo. Gostei das suas escolhas. Nos que considera que deveriam ser melhor divulgados, refere Teresa Veiga, tal como Pedro Mexia o fez. E junta Ferreira de Castro, o que me agradou muito. Li a obra inteira de Ferreira de Castro ainda era menina e moça e acho que foi com ele que conheci a vida dos que, vivendo em condições difíceis, conservam a dignidade, dos que têm a sabedoria da vida em tempos de neve, nas serras, entre pedras, mãos calejadas, aventuras e sobrevivência a par de uma vida dura. E a Selva, que tenho em luxuosa edição, capa de pele e ilustrações de Júlio Pomar, que me ensinou o que é natureza humana quando a sobrevivência tem lugar na solidão de uma natureza cuja vida rebenta por todo o lado, a toda a hora. Gostei muito que Ana Cristina Leonardo se tivesse lembrado de Ferreira de Castro.



Como concordo com as duas estrelas de pechispeque que a falta de exigência vigente confunde com estrelas de verdade: José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe. Sobre o primeiro gostei, salvo erro, do Nenhum Olhar e gosto de um ou outro poema. Mas de todos os outros penso que são puro pastiche, lugares comuns, kitch, coisa armada nem sei em quê, uma repetição saturante. Sobre o segundo, o homem do sexo lavável (vá lá, ao menos é limpinho), faço minhas todas as palavras de ACL (nomeadamente quando diz que, se toda a literatura é fake, convém que não se note logo).

Ana Cristina Leonardo é uma arretada do caraças (e agora falo também da sua vertente pessoal, que conheço através do seu Meditação na Pastelaria). Tirando as vezes em que se atira, sem dó nem piedade, à jugular do colega de profissão, Eduardo Pitta - faz-me impressão aquele destratamento impiedoso para com um colega; acho que poderia ser crítica sem ser tão cruel ou, se sente mesmo necessidade de o mutilar, então que o fizesse em privado - geralmente estou de acordo com ela e até acho piada à forma desabrida e destemida como dá o peito às balas. Acho que conserva aquele despudor e aquela irreverência próprios das adolescentes difíceis - e isso tem graça.



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Como referi no título da mensagem, está também de parabéns o ilustrador Gonçalo Viana. Belo trabalho. 


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A música é Sou tua numa interpretação de Marta Dias com António Chainho. Gosto muito da voz de Marta Dias. Escolhi-a porque queria uma música portuguesa pouco conhecida e interpretada por alguém que não fosse maisntream - e foi logo dela que me lembrei


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E, por agora, por aqui me fico. Tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo.

sábado, setembro 28, 2013

José Rodrigues dos Santos e o seu último livro, 'O Homem de Constantinopla', sobre Gulbenkian: 'o Gnomo no Jardim' ou o balde de água fria deitado em grande estilo por Clara Ferreira Alves no Actual do Expresso deste sábado


Actual do Expresso

Gnomo no jardim e, ainda por cima, a cavalo num coelho
(isto dos coelhos é praga que não nos larga, credo -
claro que não tenho nada contra os coelhos de boa índole)


A propósito de gnomos, nomeadamente dos gnomos no jardim da literatura, a semana passada mostrei o meu desagrado pelas quatro páginas concedidas pelo Expresso ao novo livro de Valter Hugo Mãe. Os meios de comunicação social em peso a divulgarem uma coisa que não passa de um produto comercial de fraca qualidade, imprensa que deveria pautar-se pela exigência a dar honras de capa a um chorrilho de banalidades travestida de pseudo-literatura - tudo isso me arrelia imenso. Claro que tratando-se de produtos de consumo, consome quem quer mas a verdade é que toda a gente sabe que o mainstream se faz de conjugações mediáticas e, aos poucos, a exigência e a qualidade vão ficando pelo caminho. Um dia o campo estará minado por erva daninha - e é sabido como a erva daninha impede as outras espécies de vingarem. Estas coisas fazem com que eu me insurja. Num mundo perfeito toda a gente deveria estar sequiosa de obras de qualidade e, em contrapartida, ficar indiferente perante tentativas de aprendizes mal sucedidos.

Mas, enfim, esta semana o Actual do Expresso surpreendeu-me e eu aqui estou para mostrar o meu agrado. Chapeau.



Clara Ferreira Alves vai refinando na pontaria e na acutilância
(e, finalmente, parece ter acertado num look que a favorece bastante:
fica com um ar moderno, interessante, valoriza a sua maneira de ser)

Clara Ferreira Alves, alguém que sabe de crítica literária e mantém uma notável isenção (pelo menos, assim parece), dedica 3 páginas a José Rodrigues dos Santos (J.R.S.). 


Um texto fantástico a que deu o título assassino de O Gnomo no Jardim, título que airosamente assenta sobre a fotografia do ligeirinho e bem-sucedido artista (que vende livros às pazadas enquanto tanto bom escritor não sai do limbo da obscuridade). 






Transcrevo:


Também é verdade que certa crítica literária convencional, que em Portugal labora no equívoco dos compadres, na pressão dos pares e na cumplicidade com os autores, condena ao ostracismo autores populares. 

Não toca em J.R.S. nem com pinças. 

E é verdade que o que muitas vezes é considerado literatura não passa de uma redação de pomposidades e pretensiosismos, literatices embrulhadas numa sintaxe irregular e falsamente pós-moderna. 


E Clara Ferreira Alves termina o seu brilhante artigo referindo que a matéria prima usada na construção do livro - a aventureira e riquíssima vida de Gulbenkian - é da melhor. O pior é mesmo o que José Rodrigues dos Santos fez com ela. Volto a transcrever:

É como se JRS tivesse uma mansão construída com boa carpintaria e bons materiais e, ao acabá-la e decorá-la, não hesitasse em colocar dois leões de pedra na portaria e um gnomo no jardim. Como ele diria em tom conversador, o gnomo lixa tudo.

Com artigos como este de Clara Ferreira Alves, tal como com o de Valdemar Cruz sobre António Ramos Rosa a quem chama, 'O poeta cansado', faço, uma vez mais, as minhas pazes com o Expresso.


Os amores são assim mesmo, cheio de arrufos, briguinhas, estardalhaços... e de reconciliações. Por estas e por outras é que me mantenho fiel ao Expresso desde sempre.

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Já volto.