Vivendo intensamente o dia a dia de uma realidade completamente urbana, é sempre com impaciência que não vejo a hora de fugir da grande cidade na qual me esforço por não me esgotar. Nem é tanto a actividade profissional passada entre reuniões e vivida em climatizados e modernos escritórios, que a isso mal fora que ainda não me tivesse habituado: é sobretudo o ambiente permanentemente condicionado, é o trânsito, é o não dispor de tempo útil, à hora do sol, para estar perto da natureza.
Por isso, de quando em vez, dois ou três dias encostados ao fim de semana (mesmo um já é bom), permitem-me entrar no país e percorrer os caminhos das serras, os rios, as águas espelhadas, as árvores que se erguem nas encostas ou se debruçam nas águas.
Desta vez os caminhos levaram-nos até ao miolo do País: a Sertã e terras circundantes.
Várias vezes já andei por estas bandas e de algumas já aqui dei conta. Mas uma pessoa pode andar por uma região e dedicar-se às aldeias de xisto, ou às praias fluviais, ou às barragens ou a algumas terras em concreto e, de cada vez que volta, percebe que inexplicavelmente nunca tinha estado em lugares tão belos que parecem de sonho e não de verdade.
Ou então é uma outra coisa: é este prazer de ver tudo como se fosse a primeira vez, sempre descobrindo uma beleza muito primitiva, muito original.
Se sinto um encantamento pelo ambiente de floresta, por aquela sombra fresca das árvores, por aqueles cheiros que se misturam, por aquele ambiente quase morno que me faz ter vontade de me adentrar por lá, para andar sem pressa, sem tempo (e sem medo de me perder), tenho também uma atracção quase animal pela água. Onde veja uma serrania, logo procuro o vale, logo tenho vontade de descer, descer até onde as águas correm. E desço, desço até estar rente à água, até onde as árvores se despem para mergulharem raízes e troncos no leito farto dos rios.
Depois retomamos a estrada e eu contemplo a luz que se reflecte nos espelhos, e contemplo as cores, as flores, a moldura elegante das serras em volta.
Almoçámos na Sertã. E permitam que divulgue onde. Já sabíamos ao que íamos: Restaurante da Ponte Romana, mesmo em cima da água. E permitam que divulgue também o que almoçámos e o custo do que comemos. Há uma coisa que adoro: bucho e maranhos. Por isso, claro está que escolhi um misto de maranho e bucho. O meu marido escolheu feijoada. Havia meias doses e doses completas. Contudo, dado o preço, ele receou que a comida não fosse muita. Por isso, pediu meia de feijoada para ele e uma dose inteira do misto, para também comer.
Pois vos digo que sobrou, claro. A feijoada estava deliciosa, a carne muito macia, tudo muito no ponto, pouco puxada, mesmo boa. E o bucho e o maranho, minha santa, que bom. Tudo muito bem servido. E com direito a uma deliciosa salada, daquelas em que a alface sabe muito bem, a cebola não é agreste, tudo bom. Pois bem. A meia dose da feijoada custou 3,5€ e a minha dose inteira de misto custos 6€. Para quem come toda a espécie de coisas mal paridas a valores altos, uma refeição destas é um verdadeiro manjar dos deuses. E isto num restaurante sobre as águas, a música da água a correr em fundo, uma vista linda (corresponde às duas primeiras fotografias). Custa a acreditar mas é verdade.
E depois por ali andámos, descendo até à Foz, parando aqui e ali, nomeadamente em Trízio, vendo o elegante voo das grandes aves de rapina que atravessam os grandes espaços, espreitando as paisagens.
Depois até Cernache do Bonjardim. Aí, à entrada, numa estação de serviço, fiz uma pergunta que gosto de fazer para perceber o que é que os 'locais' valorizam: 'o que há por aqui de bonito, que recomende que eu visite?'.
A resposta foi surpreendente: 'Ai querida... por aqui... não estou a ver... não há assim nada... Olhe, há o Lar da Terceira Idade mas isso acho que não vale muito a pena lá ir... também há uma loja ali mais na entrada... mas se calhar não... olhe, querida, uma coisa que se calhar vai gostar é a gruta no Seminário, experimente pedir ao Pde Amadeu que a mostre... a Nossa Senhora... só se for isso...De resto, não...'
De facto, mesmo na vila não haverá muito a ver. Fui visitar a Igreja, muito bonita. Fico sempre surpreendida com a riqueza da arquitectura e arte sacra um pouco por todo o lado no país.
Já a Igreja do Seminário não tem muita graça, é estranha. Nem é por ser simples, talvez austera, acho que é mesmo destituída de alguma graça. Nunca me tinha acontecido isto numa igreja: ficar-me pela porta e ter logo vontade de me ir embora.
Mas depois, ao irmos na estrada, vimos a indicação de uma ermida no alto de um monte: S. Macário. Lá fomos.
E o que de lá se vê é estarrecedor de tão lindo. Nós no centro do mundo, serranias a toda a volta, um horizonte circular que se desdobra em montes que se vão esfumando com a distância, um rio correndo pelos vales. E lá em cima eu pensei: 'Como é possível que a Senhora da Estação de Serviço não me tivesse dito que uma coisa não poderia eu perder de jeito algum: o Monte de S. Macário?' Com um lugar de uma beleza tão superlativa ali ao pé, será que os seus habitantes não o veneram? Ou terá sido apenas lapso face a uma pergunta inesperada?
Quando estou num lugar assim, custa-me muito vir-me embora, ando por ali de um lado para o outro, fotografando. Depois olho o que já olhei e descubro novos recortes, uma casinha perdida num desvão do monte, uma claridade que não sei o que é, espreito, aproximo a lente. Maravilhada. Penso sempre que eu viveria tão bem num lugar assim, eu isolada no meio da natureza, contemplando diariamente a majestade original do planeta, este nosso cantinho aqui tão pequeno, um insignificante rectângulo que a Europa parece empurrar para o oceano e nós aqui resistindo, com as nossas montanhas tão belas, fortalezas inexpugnáveis que nenhuma civilização ainda conspurcou. Este ar tão puro. Estas cores tão limpas. O tempo que aqui é tão generoso, que contempla connosco aquilo que existe para além dos tempos.
Mas viemo-nos embora, tinha que ser.
No entanto, ainda outra paragem. O nome não nos era estranho. Talvez já aqui tivéssemos estado. Mas vamos lá. Afinal, que nos lembremos, não. E um lugar assim não se esquece. Tão belo também. Pensei que aqui, numa casa aqui, debruçada sobre o rio, protegida pelos montes, eu podia viver, escrever, bordar, pintar.
Dornes. Um lugar que quase diria mágico. Se eu me pusesse a ficcionar um lugar por onde eu andasse perdida pelos montes, onde depois descesse até às águas, onde visse o nascer e o pôr do sol, onde ouvisse o canto dos pássaros, onde me deitasse no chão, na terra, a sentir a aragem nas folhagens ou a sentir o sol na pele á beira do rio, ou onde me deitasse nua na varanda nas noites de lua cheia, seria num lugar assim. Dornes.
É uma terra pequena, de ruas empedradas que vão até ao rio, que sobem até à torre. Mas, senhores, que terra é esta que eu não conhecia e que é tão linda?
Numa casa vi este pequeno painel de azulejos que achei uma graça. Tenho uma visão bucólica e idílica destes lugares mas, para quem lá vive, imagino que possa ser opressivo. Todos se conhecem e daí até à crítica intimidante pode ir um pequeno passo. Talvez por isso o destaque dado à 'inveja'.
Vi que o Cavaco também por lá andou, o que muito me surpreendeu. Se tivesse lido que, já no decurso do seu mandato, o Marcelo já lá tinha estado, não me tinha admirado. Agora que a múmia do Cavaco se tivesse dignado a estar presente em Dornes achei surpreendente. E que tivesse estado para assistir à antestreia de um filme cómico lá rodado, Dot.com, ainda acho mais extraordinário. Mas, enfim, talvez um dia descubra a agenda secreta do ex-Cavaco.
E dali iniciámos o caminho de regresso.
Claro que os lugares me retêm, temos que parar muitas vezes, um troço de floresta que é muito bonito, um tronco de árvore que é de especial elegância, umas flores que nascem brancas ao pé de umas rochas que se puseram também brancas e que inserem um apontamento de inesperada alvura num ambiente cinza, castanho e, sobretudo, verde,
ou até uma flor especialmente vibrante a que um insecto guloso não resiste como eu não resisto a tudo o que é simples, genuíno e belo.
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Enquanto andávamos pela serra, a rádio na Antena 2, tocou Espelho no Espelho, talvez a música que aqui no Um Jeito Manso já teve mais encores. Espelho no espelho. Alguém que se revê na imagem de outro que se revê na imagem do primeiro, a árvore que se vê na água ou o reflexo que olha a árvore, alguém que pensa os pensamentos do outro que pensa os pensamentos do outro. Enquanto por ali andava a ver as árvores, a sombra fresca, os cheiros íntimos da terra desejei que a música não acabasse. Ou que não me esquecesse de aqui a ter enquanto vos mostrava as fotografias destes lugares tão bonitos, mesmo no centro de Portugal.
Lá em cima Filipe Melo · Ana Cláudia Serrão interpretam Spiegel im spiegel de Arvo Pärt
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Permitam agora que vos convide a descerem até ao post seguinte para lerem o comentário do leitor Fernando Ribeiro no qual ele refere a importância que o seu blog teve na forma como ultrapassou uma luta tramada contra o cancro, luta que felizmente superou.
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