Mostrar mensagens com a etiqueta JV. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta JV. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, agosto 23, 2019

E o cristal vai crescendo, com as memórias que acodem, com as notícias que não tinhamos tido, com a descoberta de vergonhas escondidas...

Quiçá um mundo onde humanos deixarão de existir e dar lugar a outros melhores que nós.

O conhecimento é cumulativo e ferramentas analíticas do passado servem muitas vezes no presente


[A palavra a três Leitores de Um Jeito Manso]


Hoje é daqueles dias em que os assuntos se atropelam, fervilham. Mas são todos daqueles em que tenho que ter largueza mental e disponibilidade, toda eu entregue a cada um. Só que, como são vários, teria que ter engenho e arte para os cerzir de forma natural, sem costuras e pontas à vista, para não estar a escrever sobre um e, desconcentrada, a pensar noutro.

Mas não é hoje o dia até porque os comentários entretanto recebidos meteram o pé à porta, querem entrar, passar à frente. E têm razão. Não desfazendo, bons demais para ficarem na cave.

Por isso, agradecendo cada um dos comentários de ontem, permitam que, em vez de responder e agradecer a cada um em particular, opte antes por repescar três para os quais peço a vossa atenção.

O que aqui transcrevo em primeiro lugar emocionou-me muito. Se isto se tem passado ao vivo, seria daquelas vezes em que, depois de ouvir palavras tão tocantes, eu ficaria calada, a olhar em silêncio para quem as proferiu, sem saber o que dizer. Talvez, para disfarçar, me limitasse a dizer que sim, um Museu da Liberdade. E ficaria a pensar no que se esconde por detrás de cada palavra dita, sem saber como estender a mão até elas.

Depois o segundo. Tão desanimado, tão lúcido, palavras de uma clareza tão cristalina, tão cortante. O que diria eu? Tenderia talvez a falar em esperança, sabendo eu que a esperança, nestes tempos, é luz distante, difusa, dir-se-ia que morrente. Em esforço, talvez dissesse que não podemos baixar os braços, fechar a porta à esperança. Em esforço, quase descrente.

E o terceiro também quase descrente mas disposto a pegar nos tijolos, na pá de pedreiro, começar a construir caminhos, disposto a puxar velhos e novos para a roda, para que, juntos, cantando e dançando, de mãos dadas, ergam um novo edifício moral onde caibam todos.

Não me perguntem porque escolhi pinturas de Sidney Nolan, Sir Sidney Robert Nolan, um australiano que viveu entre 1917 e 1992, ou Daiqing Tana, nascida em 1983, para nos acompanhar com a sua voz que canta palavras que não compreendo. Não me perguntem porque não saberia o que responder.




A palavra a Abraham Chevrolet


Com mais tempo agora, quero contar-lhe o seguinte: preso pela PIDE ainda na Universidade e logo obrigado a fazer a Guerra Colonial, como combatente, quase 30 meses no mato angolano numa guerra cruenta...

Difícil não ter uma firme posição tomada. Posição que cristaliza em camadas sucessivas de desprezo... um núcleo original de desprezo, recoberto segundo as regras estritas do sistema de cristalização. E o cristal vai crescendo, com as memórias que acodem, com as notícias que não tinhamos tido, com a descoberta de vergonhas escondidas...

Falar em Museu do ditador antes de se falar do Museu da Liberdade? Museu da Liberdade onde se demonstrassem todos os atentados que Ela sofreu!!!

Desprezo, desprezo,desprezo...

A vida trouxe-nos para um patamar claro e quase limpo. Temos que ser alegres, solidários e felizes...





A palavra a JV


Infelizmente, o problema não é Pardal. Nunca é Pardal. Chame-se Trump, Bolsonaro ou Mussolini... 


O mundo de hoje é um mundo cheio de oportunidades. Um mundo novo, de partilha imediata, de uber à mão de semear, de apartamento em Amesterdão à distância de um clique. É um mundo de onde será possível nascer uma civilização melhor, mais avançada, mais interligada. 

Quiçá um mundo onde humanos deixarão de existir e dar lugar a outros melhores que nós. 

Por enquanto... até esse mundo novo emergir, milhões, milhares de milhões de pessoas vão ficando para trás. 

Sem oportunidade de entrar no mundo onde as oportunidades surgem como os cogumelos que brotam em redor das árvores. Cada vez mais para trás. Sem voz e sem escape. 

Então outros, oportunistas de má índole, idiotas cujo mantra se limita a fazerem pela sua vidinha, usarão cada vez mais a vida desgraçada dos outros para se auto-promoveram na sua caminhada em crescendo de agigantamento da idiotice mascarada de ódio.




A palavra a Paulo Batista


Apesar de o meu discurso parecer ancorado no passado, não sou um saudosista de soluções engendradas em contextos históricos. 

No entanto, o conhecimento é cumulativo e ferramentas analíticas do passado servem muitas vezes no presente, ainda que com as devidas correções. A divisão da riqueza e do poder são elementos estruturais e quase invariantes, sendo nesses que urge atuar. As soluções não são fáceis e exatamente por se colocar tanta energia a destruir estruturas sociais, supostamente "do passado", ao invés de ir construindo soluções de futuro.

Eu percebo e aprecio a energia que os jovens podem imprimir à sociedade, mas os jovens, infelizmente, parecem cada vez mais tolhidos financeiramente, atomizados e avessos ao risco social. De qualquer forma discordo. Esta é uma responsabilidade intergeracional, até porque não podemos abandonar os mais velhos. E eles estão a ser abandonados em larga escala.

A melhor proteção para os mais desprotegidos é exatamente integrá-los neste processo de transformação imparável, trazendo-os para as decisões, para as reflexões. Isso implica capacitar as pessoas com os recursos básicos (e isso só o consegue fazer quem tem poder para tal...). 

E sim, passa também pela cultura: a este respeito, em Lisboa, sois uns priveligiados!

Um exemplo de um interessante laboratório de energia criativa intergeracional que merecia mais projecção? Isto, por exemplo: http://www.outfest.pt/



-------------------------------------------------------

Muito obrigada ao Abraham Chevrolet, à JV e ao Paulo Batista e a todos os que aqui vêm por bem e comentaram ontem e nos outros dias e a todos os que, não comentando, aí estão desse lado a fazer-me companhia. 

_____________________________

E talvez queiram ainda descer um pouco mais para verem o presidente de um Parlamento civilizado, em plena sessão, a dar biberão ao bebé de um deputado. Imagens Ímpares.

domingo, abril 07, 2019

JV e Paulo Batista: les beaux esprits se rencontrent

A palavra a dois millennials de excepção






Junto dois textos que aparentemente nada têm a ver um com o outro. Calhou serem os dois últimos comentários que a JV e o Paulo escreveram. São textos muito bons, escritos por dois jovens especiais que ilustram bem a qualidade excepcional da nova geração.

A JV e o Paulo são ambos cultos, engagés, despertos para as circunstâncias concretas que enformam a sociedade em que se inserem. Se, jovens como são, pensam e escrevem assim, imagine-se quando a vida depositar neles mais e mais camadas de conhecimento, de aprendizagem de que, quanto mais se sabe mais se percebe o que há para descobrir, de novas emoções, de novos deslumbramentos.

Sempre que recebo comentários ou mails deles fico contente pois trazem-me sempre uma visão nova, fresca e pujante da vida.

Transcrevo, então, palavras de ambos e, como forma de agradecer a sua generosidade por escreverem aqui o que pensam, junto algumas fotografias feitas hoje de tarde in heaven. Todas menos uma: esta aqui abaixo foi-me enviada pela própria JV e mostra a floresta onde gosta de se perder.





Palavras da JV

Há uma palmeira na avenida da liberdade da qual emana uma chilradeia que chega a mais de trinta metros. Devem ser dezenas de passarinhos aos guinchos por comidinha! Já tenho visto muito turista a parar e tentar fotografar as avezinha lá no alto. 
As árvores são lugares fantásticos, povoadas de vida. 
Há uma árvore num jardim da nossa cidade que é minha. Não por título de propriedade, mas porque quem gosta tanto de uma coisa deve considerá-la sua, sob pena de cometer uma injustiça. 
É uma propriedade que não é exclusiva, partilhada com quem lá está quando não estou eu.  
Mas não é menos minha. 
Quando estou debaixo dela ou empoleirada nela (eu ainda subo às árvores) é como se tivesse entrado num mundo que parece ser todo meu. 
Mesmo num dia de fim de semana, uma tarde de sol radioso, com o jardim cheio de gente, o recanto onde aquela árvore fica é um espacinho isolado com uma vista desafogada lá do alto onde não se avista vivalma. 
Fora desse recanto, pessoas a tropeçar umas nas outras, velhos, crianças, namorados, solitários, amigos, um sem fim de gente. 
Tenho fotos de uma tarde dessas em que parece que estou imersa numa floresta sem ninguém.

===============================================

Palavras do Paulo Batista

... eu acho que parte dessa desagregação do sistema político e da sua dificuldade em construir respostas eficazes não deve tanto à inadequação de um conjunto de "velhos" que comanda um sistema (político e económico) anacrónico e inadequado para a malta nova, mas talvez deva mais à incapacidade da malta nova, saltar efetivamente da sua rede social, colocar-se no lugar do outro (diferente de si) e procurar construir respostas colectivas, integradoras, da crescente diversidade de grupos, de indivíduos e de condições de vida que co-habitam os seus territórios. 
Não quero com isto parecer um millennial "velho do restelo" (embora tenha fama disso). Eu acho que esta (a minha) geração tem as condições e as ferramentas para construir uma sociedade melhor. No entanto, talvez inebriados pela intensidade que os novos e velhos meios de comunicação colocam na ligação e integração do indivíduo numa dada rede social, tem aumentado a criação de "bolhas" de (ir)realidade. 
Os algoritmos de recomendação e dos serviços de "redes sociais" na internet são só a face mais vísivel disso mesmo - mecanismos simples mas poderosíssimos na criação desse efeito "bolha social".
Apesar da atitude aberta e liberalizante dos "millennials" perante a vida (maior abertura às redes "fracas"), paradoxalmente, o efeito material e imaterial é uma fragmentação desses mesmos grupos sociais (as redes fortes têm uma dimensão cada vez mais reduzida). Desta forma, o arquipélago de grupos sociais torna-se de tal forma complexo e "ingovernável" que resulta num crescente imobilismo coletivo. 
A fragmentação do sistema político e dos partidos tradicionais, num cada vez maior número de grupúsculos, parece-me resultar deste fenómeno de fragmentação dos "millennials" - e o Brexit, por exemplo, é mais um sintoma dos "defeitos" da geração emergente do que como uma consequência do anacronismo e "antanho" das gerações passadas.

------------------------------

E como é bem verdade que les beaux esprits se rencontrent, termino com uma bela coreografia de Jiří Kylián sobre música de Mozart e com Sylvie Guillem num momento de 'petite mort' com Massimo Murru. Um prazer.


Para ambos, os mais sinceros votos de felicidade nas suas vidas e de que saibam encontrar a formar de fazer deste mundo um melhor lugar para se viver.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Com os parabéns à JV pelo trocadilho do ano:
se um pato gostar de patos, mas não de patas, poderá ser um pato antipática?,
aqui fica, à laia de presente, um homem que dança bem que se farta.


Tinha avisado: alvorei. Ainda era madrugada quando desarvorei. Foi, pois, ainda de noite, parte da viagem. Ninguém merece. Tive um dia do esbeleleu. Estou incapaz de pegar num gato pelo rabo -- coisa a que, mesmo que estivesse transbordante de energia, não me arriscaria. E, como moral da história, apenas consigo concluir que é uma pena não haver feriados tão cedo.

Mas, às tantas, no meio de coisas sérias, arranjei maneira de espreitar -- e, juro, não consegui deixar de rir de gosto com a pergunta da erudita JV: 
Será um pato que sofre de antipatia?? Já que se está a tornar expert em adivinhas e coisas do género, pedia-lhe então que me elucidasse quanto à seguinte questão, que me está a dar a volta à cabeça: se um pato gostar de patos, mas não de patas, poderá ser um pato antipática? 
Claro que logo, logo, tive que fechar o semblante e fazer de conta que tinha acabado de ler um mail muito importante mas, por dentro, tenho andado divertida com esta do pato bicha, antipática.

E agora, com muita pena por não conseguir contrapor um outro  trocadilho, limito-me a perguntar à JV: a menina dança?

É que, se dança, tem aqui um par à altura.


Thanks, JV, pelo bom humor que enxertou no meu dia.

sexta-feira, outubro 21, 2016

JV versus Bea


Duas mulheres falam da sua forma de sentir e viver o amor




E, como sempre fui completamente a favor de relações abertas, sem exclusividade, e crente de que é possível amar duas ou mais pessoas de forma igualmente poderosa, em simultâneo ou em momentos distintos da nossa vida, também não me custa a crer que alguém - Miterrand, no caso - tenha amado Anne Pingeot imensamente. 

Sou contra pensarmos que para amar alguém é preciso amá-la em exclusivo (e desde sempre tive a ideia de que aceitar uma relação aberta era dar o maior voto de confiança e amor a outra pessoa), mas para mim tem de ser tudo às claras: se há enganos, mal entendidos, uma (ou cada uma das várias mulheres) acha que é mais que as outras, mas na verdade não é, então esse "tudo" que cada uma julga que é, pode ser, afinal, muito menos que isso, talvez mesmo quase nada. [JV]
As relações humanas - e sobretudo as amorosas - são coisa muito complexa para ser ajuizada do exterior. O melhor é não julgar, quem as vive já sofre por vivê-las, não precisa de juizos; e isso mesmo que julgamos pode ainda vir ao nosso encontro.
Relações abertas e com várias pessoas em simultâneo parecem-me extravagâncias. Mas podem não ser. Talvez haja maneiras - difíceis - de existirem em coexistência. [bea]

Quanto às relações abertas, vejo-as com a maior naturalidade. É claro que quando penso em relação aberta não penso em alguém estar constante e perpetuamente à procura de novos companheiros de vida (tipo ter muitos namorados/namoradas), se bem que isso é um fenómeno em crescimento, por exemplo, no Brasil (paradigmaticamente, o poliamor, em que vários homens e mulheres partilham uma vida em conjunto). Não me oponho obviamente a nada disso, mas aquilo a que me referia quando falava em relação aberta era apenas à possibilidade de uma pessoa, mesmo estando numa relação séria com outra, ter sexo com outra (com quem terá maior ou menor grau de intimidade). Recuso a ideia de que estar numa relação implica dar a alguém o controlo e o exclusivo do nosso corpo, implica abdicar da nossa liberdade sexual, da possibilidade de, querendo, ter relações sexuais com outra pessoa. Em minha casa, nunca foi segredo que o meu pai teve relações sexuais com mulheres para além da minha mãe e nunca me passou pela cabeça que isso fosse algo que me dissesse sequer respeito, quanto mais pôr em causa o seu comprometimento com a família. [JV]

Serei antiquada. É possível. Mas tenho para mim que pior que ser conservador é fingir ser quem não somos. Portanto aí vai: 
Se quando fala de relação séria está a falar de amor mútuo, que tem condições de realização, digo-lhe que ele dispensa terceiros. Por norma não é sequer pensamento que aflore à mente. Mas há quem saia da norma. E quem saia até com alguma inteligência prática, como o dito arquitecto que refere. Ou, quem sabe, o próprio Miterrand. Se os intervenientes as aceitam, por que razão os outros não hão-de fazê-lo?!
Mas lembro-me de um livro de Gabriel Garcia Marquez, não sei precisar, mas parece-me que "Amor em tempos de cólera", em que o protagonista leva a vida apaixonado por uma lady. O que se passa com um e o outro durante a maior parte da vida amorosa dos dois, cada um para seu lado - e na maior parte do livro -, não macula o que, pelo menos no caso dele, os prende. Ele não se coíbe de ter mulheres, ela casa com outro, tem filhos, envelhecem ambos separados... e, no caso dele, é como se essa existência quotidiana seja qualquer coisa de paralelo, que não inibe nem incentiva. Porque está aquém. São dimensões diversas.
Não me parece que essa seja uma relação aberta. Era a que podia ser. Mas apeteceu-me contá-la. [bea]

E as pessoas são todas diferentes. No meu caso, daquilo que já descobri de mim própria, não consigo estar com alguém (sexualmente) de quem não me sinta próxima, a nível sentimental. Mas há quem separe as águas (sexo e amor) com grande facilidade, o que é mais frequente (ainda que não exclusivo) nos homens. Por isso, não acho que alguém ame menos outrem apenas por ter vontade (desejo!) de estar com outra. Se alguém se compromete a não estar com mais ninguém, é claro que fazê-lo é cometer uma traição, quebrar uma promessa. Mas isso é outra história: cada um é responsável por aquilo a que se compromete.

Quanto a ciúmes, também todos somos diferentes. E podemos ter ciúmes de um(a) amante, de um(a) amigo(a), do tempo que o nosso parceiro dedica ao trabalho, a um hobby, de um animal de estimação, etc. 

Por fim, não creio o cerne da questão relação séria(aberta esteja em ela "dispensar terceiros": com certeza que esse "sacrifício" será/é possível. E, para alguns, nem é sacrifício nenhum, porque simplesmente só querem estar com uma pessoa. Mas exigi-lo, exigir que alguém renuncie à escolha de estar com outra pessoa, que nos ofereça essa sua liberdade, parece-me quase uma brutalidade. E que, na verdade, não serve de nada, porque se alguém se apaixona por outra pessoa, não é por não estar ou não poder estar com ela que se vai desapaixonar (aliás, quase sempre o efeito dessa proibição será o inverso: estilo o fruto proibido é o mais apetecido). [JV]

Todos nós somos uns ases teoricamente e na prática grandes aselhas. 
Ninguém, suponho, exige fidelidade. Confia-se que ela exista. E cobra-se se não existe. Por ser uma quebra de confiança, a traição é um golpe profundo numa relação e no amor que lá exista. Pelo que representa. Mas também porque o pior de cada um, aquilo que o amor iludiu ou afastou, se expressa em força. Não é montanha fácil de escalar. 
E não vejo que Miterrand fosse assim um mentiroso por dizer a várias mulheres que eram o seu sol; se o disse em tempos diversos, por que razão não estaria falando verdade?! Quase diria que pertencia ao género amores seriados, se não fora manter a legítima cuja existia fora da seriação.  
Também não vejo o cristianismo com esse peso negativo. É verdade que não estudei a seita nos seus tempos iniciais, ma fiquei curiosa, o que a faz ser menos higiénica que outras? As relações de um para um continuam a parecer-me saudáveis. E, ainda que a promessa seja arrojada, é exactamente assim que ela é sentida na altura: para sempre. Não o sendo, mais vale nem começar.[bea]


______

A itálico as palavras da Leitora bea.
A direito as da Leitora JV
(Em comentários lá mais para baixo)

:::::

Fotografias de Rosendo Ayala Dávila

______

Não posso adiar o amor 
(António Ramos Rosa dito por José-António Moreira)


_____

E caso tenham vontade de padecer, queiram, agora, descer até ao meu comentário a propósito do Sérgio Figueiredo, esse insuportável basófias, que, com o pretexto de entrevistar António Costa, foi para ali, para a TVI, encher a paciência dos telespectadores.


_____________________________________________

segunda-feira, junho 09, 2014

Viver ou amar. Ler ou fazer amor. Esperar ou procurar.



Da Leitora JV recebi um comentário que me parece merecer algum destaque e, por isso, tomo a liberdade de o transcrever aqui para depois, sobre ele, me pronunciar.





Olá UJM,

Falou em pianistas e deu-me um pretexto para lhe falar de um filme francês que deu ontem na RTP2, A Pianista (2001).


O filme começa com um mulher (a protagonista), com cerca de 40 anos, a chegar a casa. 

A mãe, que vive com ela, chateia-a por causa de um vestido que ela comprou e elas brigam, a mãe bate na filha e esta dá de volta e puxa-lhe os cabelos. Depois, já calmas, a mãe queixa-se de que ficou com uma pelada e a filha diz num tom absolutamente carinhoso "maman, je suis désolée, je t'aime". Abraçam-se e fazem as pazes.

A protagonista é uma pianista, professora no conservatório. Muito rígida. Muito fria. 

Vê um aluno a olhar para revistas pornográficas no quiosque e chateia-o terrivelmente na aula seguinte. Mas vai àquelas cabines em que se vê vídeos pornográficos quando se põe uma moeda e cheira o lenço com o sémen de alguém que esteve lá antes. Vai ao cinema de rua, à noite, aproxima-se de um carro onde 2 jovens estão a fazer sexo e, excitada, urina ali mesmo. E corta a vagina, acho que para reprimir os desejos sexuais.

No meio disto tudo, há um rapaz, bonito, louro, extraordinário pianista, que se inscreve nas suas aulas no conservatório porque a ama. Diz-lhe que a ama e pede-lhe para saírem da aula e irem passear. Ela pode fazer todas aquelas coisas que antes referi, mas não tem de entregar-se ao primeiro que lhe aparece.

A rapariga que ela escolheu para tocar no recital é uma tosca, chorosa, nervosa. Antes de um ensaio tem uma crise de diarreia e o rapaz que gosta da protagonista ajuda-a a descomprimir. Esta fica com ciúmes e poe vidros partidos no bolso do casado da rapariga, que corta a mão toda e deixa de poder tocar no recital. 

Pensávamos que só a professora é que tinha pancada, mas o rapaz percebe que foi ela que fez aquilo e vai ter com ela à casa de banho e beijam-se. Mas ela tem mesmo uma pancada sexual muito grande, não me vou por aqui a contar tudo o que acontece entre eles. 

A dada altura ela tenta "atacar" sexualmente a mãe, que dorme numa cama encostada à dela. E acaba o filme a espetar uma faca entre o coração e o ombro.

Não há dúvida de que as pancadas da mãe, da professora e do rapaz são um pouco maiores do que as das maioria das pessoas, mas tirando a parte dos vidros no casaco da rapariga, nada no filme me parece repulsivo, compreendo a dor daquela mulher. Todos temos inibições, complexos, "issues" e tudo depende da forma como as coisas evoluem e como lidamos com eles. Este aspeto da sexualidade é muito problemático: uns nunca tiveram sexo e queriam ter, outros têm demais, etc.

Ontem dizia-me, UJM, para sair, para andar de mãos dadas pela cidade. Mas devo procurar tudo isso? Deve uma rapariga ter complexos por não haver nenhum rapaz que declare o seu amor por ela, se também ela nunca esteve apaixonada por nenhum? Deve mostrar-se disponível? Não pode só fazer a sua vida, sem se pressionar a si própria, sem fechar as portas a nada, mas sem forçar as coisas? Não devemos deixar as coisas correr com naturalidade? E se - como às vezes acontece (com a Susan Boyle, por exemplo, que nunca tinha sido beijada) - nada chegar nunca a surgir, não podemos encarar também isso com naturalidade? Mesmo que não se seja assustadoramente feio...? :)

Abraço,

JV
___





Estimada JV,

Ontem, enquanto estava a escrever, estava a ver e, sobretudo, a ouvir o filme 'A pianista' com a magnífica Isabelle Huppert. Como estava a escrever, ia olhando, volta e meia parava de escrever para olhar com atenção, depois ia seguindo o filme apenas pelo som (e o que eu gosto da língua francesa) e vendo de relance. Frequentemente pensava cá para mim: 'ganda pancada...', referindo-me à torturada professora de piano. Mas que há pancadas assim a torto e a direito não tenho dúvidas. Podem não ser tanto, como diz, mas, se não assim, são variantes. A cena que aflora mas não descreve, via-a com atenção para ver no que aquilo ia dar. Deu no costume, claro: em nada, em crise, em não conseguir chegar ao fim, ao despedaçar emocional. 

Sei de casos assim, em que a mulher, por viver sozinha com a mãe, acaba por viver reprimida, recalcando frustrações, alimentando revoltas surdas. Serão excepções. Não sei. Mas sei que acontece.

A professora de piano notoriamente era uma filha emocionalmente não emancipada e uma perfeccionista, uma amante da pureza (da música), da ordem, da harmonia. Mas ninguém consegue viver uma vida inteira de perfeição, pureza e harmonia. Se não há, pelo menos de vez em quando, algum excesso, algum rasgão na capa de perfeição que cobre a carne, alguma quebra, então, começará a crescer em surdina um desajustamento que, quando surgir a oportunidade, exporá o sangramento interior.

Dou-lhe razão: a vida deve acontecer naturalmente, sem constrangimentos impostos, sem interiorizar questões que são de outros, sem forçar nada. 

A realização de uma pessoa faz-se de muitas coisas - de conhecimento, de dádiva, de partilha, de procura, de conquista, de afecto retribuído, etc, etc - mas não é forçoso que tenham que existir todos estes condimentos em simultâneo. Acredito que uma pessoa pode atravessar a vida entregando-se de corpo e alma a factores que a motivem e que excluam aspectos de que outros não prescindem.

Mas acho que a vida é mil vezes melhor se não for vivida em solidão ou isolamento. Claro que solidão e isolamento não são sinónimos e não são forçosamente negativos. Podem, até, ser procurados como forma de alcançar a felicidade.

Contudo, a minha experiência não é essa e, por isso, falo do que conheço. 

Eu acho que a vida é melhor se tivermos a segurança de um afecto junto a nós, se tivermos o conforto e a alegria de poder dar o nosso afecto a quem lhe saiba dar valor.

Mas isso não se arranja por decreto ou por anúncio (salvo raras excepções, como é o caso, por exemplo, de Agustina que arranjou marido por anúncio num jornal). 

Não é drama não ter nunca tido uma paixão, nem nunca ter recebido uma declaração de amor. Não é drama não ter sentido o frémito interior que acompanha um beijo dado com sentimento.

Sobretudo, o facto de isso não ter ainda acontecido não deve ser causa de ansiedade pois, a todo o momento, pode acontecer.

Agora o que eu acho é que se uma pessoa viver fechada em casa ou no estrito círculo de conhecimentos em que nada de novo acontece, ou seja, se conviver muito pouco, se não partir à descoberta de novos locais, se não usufruir da natureza e dos lugares onde o convívio naturalmente acontece, então menos hipóteses terá de acontecer.

É quase como aquilo de ganhar o euromilhões: só sai a quem apostar. Claro que as probabilidades associadas ao euromilhões são ínfimas e as probabilidades de acontecer um grande amor são razoavelmente acessíveis.

Se me fosse permitido aconselhá-la, diria que a sua forma de ver as coisas é, a meu ver, correcta: não procure ansiosamente, não se entregue ao primeiro com medo de que seja o último, não aja com a precipitação e falta de jeito típicas de quem está receosa de nunca encontrar um amor. Mas não se feche sobre si própria porque o tempo passa depressa e se tiver a sorte de descobrir alguém que a complete, compreenda, enalteça, acarinhe, empolgue, e que seja uma boa companhia e um apoio incondicional, não a deixe passar.

E, se essa oportunidade chegar para ficar, não complique, não aja com conflitualidade ou desconfiança. O amor deve ser uma coisa natural, simples, é uma coisa que funciona melhor se não for recheada com ciúmes, exigências desnecessárias, recriminações.

Exigente e cultivada como o é - apesar da sua tenríssima idade - não pense que há por aí génios a pontapé que possam ombrear com os seus conhecimentos e interesses. Mas, sabe?, não têm que ser génios nem gostarem das mesmas coisas para que a coisa funcione. Importante, importante é que a pessoa de quem se gosta seja boa pessoa, boa onda.

Gosta muito de ler, não é? 

Pode pegar nos livros e ir estender-se ao sol na Gulbenkian ou à beira do rio a ler, pode ir sentar-se numa espreguiçadeira à beira Tejo ali entre o Terreiro do Paço e o Cais Sodré, pode ir ver museus e levar um livro e instalar-se em frente a um quadro. E pode ser que um dia alguém se deite ou sente ao seu lado.

Pode mil coisas e tudo na boa, descontraída, coração aberto. 

Pode ser que se sinta realizada assim como está e, se ficar assim, continuar a sentir-se muito bem. 

Mas, se puder estar ainda melhor, sem qualquer esforço ou drama, então será ouro sobre azul. Só isso.

(E não é pouco...)

E, de resto, assim ou assado, sozinha ou bem acompanhada, o que lhe desejo, JV, é que tenha toda a sorte do mundo e que se sinta feliz e agradecida pela vida que for vivendo.


___


. O primeiro vídeo é o trailer do filme 'A pianista' um filme realizado por Michael Haneke, e interpretado por Isabelle Huppert e Benoît Magimel


. O segundo vídeo mostra Rod Stewart e Chrissie Hynde interpretando As time goes by.

. As fotografias de paisagens solitárias, o planeta sem nós, foram obtidas aqui

. As fotografias de Marilyn Monroe são de vários fotógrafos e mostram-na a ler. Sendo uma mulher belíssima, inteligente e culta, por inseguranças interiores sempre arruinou as suas próprias expectativas. Adorava ler e são inúmeras as fotografias que a mostram a ler. Escolhi-a para ilustrar as minhas palavras por nenhuma razão especial, queria mulheres a ler e lembrei-me que se há mulher que tenha sido fotografada a ler essa mulher foi a bela Marilyn.


___


quinta-feira, fevereiro 20, 2014

"UJM, o problema não é a raça, não senhor! Os portugueses têm uma coisa que uma vez quando era ainda muito nova ouvi um senhor dizer: passam a vida a "medir piças" - Palavra de JV. Um grande texto. É polémico? É sim senhor. Mas textos assim são os melhores.


No post abaixo já mostrei o tipo de reuniões em que o Moreira Rato e outros aprendizes de feiticeiros devem participar quando se preparam para ser comidos pelos mercados. O Lacerda da Porta dos Fundos mostra como é. Uma fantástica rábula (que as meninas, especialmente as de ouvidos sensíveis, devem ouvir mas com algodões nos ouvidos).

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra. Aqui dou a palavra, a eloquente palavra, à Leitora JV. Um texto que merece uma leitura em espaço desafogado pelo que repesco as suas palavras dos comentários e dou-lhes aqui espaço em página autónoma.


Mas primeiro música, por favor: 
Sangue Oculto, GNR





UJM, o problema não é a raça, não senhor! Os portugueses têm uma coisa que uma vez quando era ainda muito nova ouvi um senhor dizer: passam a vida a "medir piças" (não me censure, por favor, a expressão não é minha :)). 

Isto é, quando em negociação, cada um não quer apenas fazer o melhor negócio possível para si à custa do outro, à inglesa. Não! Os ingleses sabem que se abusarem podem ficar sem negócio, que é pior do que fazer algumas cedências, por isso há um " self-restraint". O objetivo é sempre económico, uma questão de custo de oportunidade: enquanto o negócio vale a pena, fazem-se cedências.

Ora bem, o português é diferente: muitas vezes sacrifica o objetivo económico para ganhar o jogo das "piças". 

Umas vezes, faz uma proposta que nunca ninguém aceitaria e que se lhe fizessem a ele, tomando-o como parvo, se sentiria insultado (isto é quase sempre obra de advogados, que na ganância de defender o seu cliente a todo o custo, estragam negocio atrás de negócio, prejudicando-os sistematicamente). Outras vezes, têm uma boa proposta em mãos, mas em vez de aceitarem, porque não conseguem melhor, armam-se em picuinhas, apontam defeitos ao que o outro está a oferecer, querem sempre poder dizer que deram mais do que o que receberam. Às tantas o outro ofende-se, e lá se foi o negócio. 

Lembra-se da tal proposta que nunca ninguém aceitaria: pois bem, às vezes, o português está tão desesperado que aceita, e depois, mesmo antes da finalização do contrato, diz que há uns problemazinhos (os tais que levavam ninguém a aceitar a proposta). Ele nunca quis aquele negócio, mas disse que aceitava tudo, que estava tudo bem, para não afugentar o cliente, na esperança de que ao falar nos problemas depois, ainda se faria o negócio. Pois bem: nunca se faz.

Sempre a adiar o problema, sempre a adiar dar a má notícia, mesmo que se saiba que se vai ter de dá-la, andando entretanto a perder tempo com um negócio que está condenado ao insucesso. Ora aqui está o problema da produtividade!

A causa dessa indignidade e falta de civismo no comportamento perante o outro, a falta de boa fé na negociação, não é a raça, porque basta um português passar uns anos em Inglaterra, na Alemanha, na Suiça, ou nos EUA, para os negócios que celebra serem lineares, agir com correção do inicío ao fim e sem dissimulações. Não digo que no estrangeiro não haja dolo e fingimento, tentar lucrar à custa do outro. 

Na Common Law anglo-saxonica nem existe essa coisa da exigência da boa fé nas negociações. Mas todos sabem ao que vão e a melhor maneira de sair a ganhar e dar aos outros a ganhar. Aqui, finge-se que se está de boa fé, dá-se muitos elogios, mas não se abre o jogo: não se diz claramente as condições do negócio. 

Porquê esta mentalidade? É o clima? É a geografia? 

Sabia que vencemos aos espanhóis cerca de 40 batalhas pela independência, desde a formação da nacionalidade até meados do séc. XV, portanto excluindo as pós-1640? Um pequeno país que podia ser uma Catalunha ou um País Basco, reinado a partir de Castela, que existe porque houve um tipo que não queria mais ser vassalo do primo e faltou à palavra que o aio (quiçá pai) deu em seu nome para poder ser rei, jugando sujo, venceu tantas batalhas. Dá que pensar, havemos de estar aqui por algum motivo. E depois os descobrimentos, a expansão marítima, é uma história linda, épica, como não há outra. Como não há outra! 

E então vêm os Padres Antónios Vieiras, os Fernandos Pessoas, os Almeidas Garretts, etc. com a história do 5º império, do sebastianismo, etc., etc. Que raiva me dá essa treta toda! Essas manias de grandeza! 


Todos dizem que somos provincianos, mas vêm com essas teorias, esses mitos e exoterismos (o Pessoa - um tosco, um bêbedo, desculpem-me os admiradores, mas admitindo que nalguns poemas se possa admirar a beleza estética e até uma ou outra ideia interessante que contenham, é um bebedolas xenofóbico, que escreve uma prosa horrível, um doido, no fundo - o Pessoa diz que até o Eça de Queirós era um provinciano, precisamente um dos poucos que portugueses que não o era).


Conhece o movimento da Filosofia Portuguesa do século passado? Que coisa abjeta! Herdeiros da Escola do Porto do Agostinho da Silva e Santana Dionísio dizem que há uma filosofia especificamente portuguesa. 

Não se trata de todos os filósofos portugueses, não, é um modo de filosofar português. Um país que não tem, nunca teve, filósofos, tem um movimento único no mundo que diz que temos uma filosofia só nossa. 

Uma mediocridade tremenda, um provincianismo, que é o que eles próprios dizem que nos caracteriza.

Somos um país periférico e sempre tivemos esse complexo, sempre fomos atrás da Europa, da Moda francesa, das ideologias inglesas, etc., já o João da Ega dizia que importamos tudo e que depois nada nos serve, ficamos com as mangas demasiado curtas ou compridas.

Mas este não é um problema só nosso, também os russo sempre se consideraram periféricos. E outros países que, mesmo no centro da Europa, por serem pequenos e quase sempre ocupados por outros, centram muito as atenções na sua condição específica, por exemplo, a Bélgica. 

Mas mesmo um Dostoievsky muito centrado no específico problema russo (da igreja ortodoxa que destronaria a de Roma, etc.) tem muito de universalidade nos livros que escreve. As suas personagens, muito russas, são também muito humanas. Os problemas por que elas passam, sendo muito russos, são também muito humanos e portanto muito universais. Agora olhemos para o Eça. Acho mesmo que é um dos maiores escritores de todos os tempos, escreve mesmo muito bem, como muito poucos. 

Mas analisando esta questão da especifidade nacional, vemos que as personagens são menos universais, são mesmo só portuguesas. As suas obras são como grandes paradas, grandes cenários, as personagens são secundárias, o ambiente é o principal, aí está a universalidade do Eça, por isso não é tão problemático que os protagonistas sejam tão pouco universais. Não se trata de provincianismo, de maneira nehuma, mas o Eça que era, no fundo, um estrangeirado, olha para Portugal de fora para dentro. 

Sendo o país dos descobrimentos olhamos sempre para Portugal de fora para dentro, e vemos um país de gente inculta, desonesta, feia. É muito difícil um estrangeiro ter paciência para os Maias (sei que para muitos portugueses também, mas digo um estrangeiro culto que goste de boa literatura), mesmo admitindo que o Eça é um grande escritor. 

Porque quase nem há história, ninguém quer saber do amor dos dois irmãos, o que importa ali é ver como é o português e isso não interessa nada ao estrangeiro. Qualquer um lê Dostoievsky dez vezes seguidas. É a alma humana que está ali. E repare que o Eça é universal. Há nos Maias aquela personagem inglesa, o Craft, que é um tipo espetacular, mas passa a vida a dizer "curioso" sempre que acontece alguma coisa às outras personagens, as portuguesas, seja trágica ou divertida. O Eça topou muito bem o tipo inglês: que vê todos os outros como ratos de laboratório ou animais do circo, observando-os para ver como reagem, para se divertir, lá do alto na sua superioridade inglesa. Mas é um universalismo muito pouco humano, não sei se é esta a melhor expressão, mas é a que me ocorre.

Se nos deixássemos de 5ºs impérios e sebastianismos, se admitíssemos que temos uma história engraçada, que desempenhámos um papel de relevo na história da Humanidade com os descobrimentos, se pensássemos mais de dentro para fora, como até a nossa geografia propicia - caramba!, estamos virados para o mundo, de frente para o Oceano - podíamos preocupar-nos menos em ser Grandes como os Pessoas dizem que devemos ser, mas sim em portarmo-nos bem uns com os outros, tentar desenvolver este país que tem um sol maravilhoso, ser menos tristes e lamurientos. 

Porque não faz sentido passarmos a vida a dizer que somos provincianos e que temos uma Missão tipo 5º Império do Espírito e da Filosofia a desempenhar. 


**

As imagens são pinturas de Júlio Pomar.

**

Relembro que no post abaixo poderão entrar na Porta dos Fundos, uma verdadeira escola de sacanagem, perdição e má vida.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Um encantamento, um deslumbramentozito, uns calores, uma ternura especial, tudo em graus diferentes consoante as pessoas... Agora amor...


No post abaixo já me insurgi contra o trafulha-mor que nos engana com um descaramento que ultrapassa os limites da decência e também contra os palermas dos jornalistas que lhe dão cobertura; e depois, para ver se me me purificava, já clamei por um silêncio branco, mergulhando na pedra limpa e fria, nessa alvura macia que é como um ventre puro ao qual me acolho quando estou muito incomodada.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

*

Música, por favor




A Leitora JV, num comentário a um post mais abaixo e do qual me permito aqui transcrever uma parte abreviando parte do nome ali referido (mas, lendo o comentário, poderão perceber a que deus adormecido ela se refere), escreveu belas palavras sobre o não-amor.
Mas a que porta veio ela bater, logo à minha que sou toda de amores, amores com todas as letras, amores que começam e acabam ou que duram uma vida, amores de todas as qualidades e feitios.
Eis então as palavras de JV:



O A. é um querido, um homem a sério, romântico até à 5ª casa, só que não mente a si próprio e, como é um tipo decente, também não engana os outros. Não ama, diz que não ama, pronto, aliás o que ele diz é que não há amor. É o que toda a gente pensa e ninguém admite, e depois vêm, a esses sim, as depressões, a procura de um estado de felicidade que não existe e os suicídios, ao que ele responde: amigo, isso é uma parvoíce, puseram-te no mundo para agora te suicidares? Vai à luta, seja ela qual for!

Oh, sim, ele é romântico e apaixonado, agora amor... 

Agora depois de ler o corcunda de notre dame, acho que toda a gente fica a saber que essa coisa do amor não existe. O padre coitado tem falta de sexo, a rapariga convence-se de que um tipo reles, mas bonitito, é um herói de contos de fadas (amor? Não, pura ilusão de mulher que enfia as qualidades que quer ver num homem no primeiro que lhe aparece), o amigo poeta ou dramaturgo, ou lá ou que ele é, gosta mais da cabrinha do que da rapariga, o corcunda também tem falta de sexo e de afeto maternal...

Um encantamento, um deslumbramentozito, uns calores, uma ternura especial, tudo em graus diferentes consoante as pessoas... Agora amor...

*



A Delphica Nº1 acabadinha de pousar no meu sofá
Ó deâmbula alma inquieta,
porque te moves às cegas
nesse ermo que se enovela
entre o que és e o que pareces?
Por que te pões tão secreta,
se debaixo de teus véus
todos logo te percebem
nos mil papéis que interpretas?
Por que temes, alma inquieta,
esse dia em que, perplexa,
souberes que não te hospedem
o paraíso ou o inferno?

(...)


Sê mais sábia, ó alma inquieta,
se concede que te levem
as águas em que navegas
sem bússula ou planisfério.

Sê mais sábia - e não espera
que te curem das mazelas
esses deuses a quem rezas
e que, surdos, te desprezam.









*

O amor em dias de chuva




*

  • A música é Baby, I'm a fool de Melody Gardot
  • O poema é Ó deâmbula alma inquieta de Ivan Junqueira in Delphica, letras & artes nº 1 (publicação a quem desejo a melhor sorte: tomara que vingue!)
  • As imagens mostram a luxuriante cor de 2014, o Orquídea Radiante, um maravilhoso quase lilás de que eu gosto até mais não poder
  • O vídeo mostra um excerto de um dos meus filmes de eleição, o Lady Chatterley
*

Relembro: No post abaixo há fúrias e arte em branco.

Convido-vos ainda a irem até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje tenho Al Berto dito por Guilherme Gomes e palavras minhas que confessam a minha vida dupla.

*

E, com isto e perdida, mas ó senhores, perdida mesmo de sono, incapaz de reler o que quer que seja, e, por isso, desde já me penitenciando por mais do que prováveis gralhas, por agora me despeço. 

Tenham, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira!

E, assim como assim... cherchez l'amour.