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sábado, março 14, 2026

Linha do tempo de um dia tranquilo

 

Geralmente é o meu marido que, de manhã, levanta a persiana do quarto. Levanta-se bem antes de mim, toma o pequeno-almoço, vai acordar o pobre do cão e arrasta-o até à rua, a seguir vai podar árvores, árvores e arbustos ou causar estragos que não lhe perdoo pois corta sempre demais e, quando já não sabe o que mais fazer, vai até ao quarto e pergunta-me se ainda não são horas. Isto para dizer que, quando levantou a persiana, vi que estava sol. Pensei: 'Vou mas é pôr já a roupa a lavar'. E assim fiz. Lençóis, toalhas, panos das mãos e o mais a que deitei a mão (compatível com temperaturas e cores, bem entendido), tudo para a barrela. 

Depois tomei o meu pequeno almoço. Laranja, depois um copo de kefir natural com sementes e latte dourado. A seguir um café.

Depois de estendermos a roupa, tarefa que dividimos, fomos para o ginásio. E, a propósito disso quero aqui deixar um apontamento: no outro dia, se calhar por causa duns stresses que vieram bater-me à porta (e de que já me livrei), estava com um torcicolo, acho que falei nisto aqui, o pescoço tolhido, a nuca apanhada e dorida. O meu marido pensou que eu não ia ao ginásio e, para dizer a verdade, ainda hesitei. Mas depois resolvi que ia na mesma. Não abusei muito, mas fiz o habitual, embora não tivesse puxado demais pelos ombros ou braços. Não piorei. E voltei. E pus-me boa. Sem tomar um comprimido. 

Aqui há algum tempo li um artigo científico em que se concluía que, para osteoartrites e inflamações de articulações e/ou artroses, o melhor remédio é o exercício. Não o repouso ou contenção de movimentos mas, justamente, o oposto, o exercício. Não sei se é para todas as situações, mas o que me tem parecido é que, pelo menos comigo, parece ser verdade. Em contrapartida, sinto que estar muito tempo sentada, andar pouco, fazer pouco exercício, isso é que dá cabo do corpo todo.

Bem.

Vindos do ginásio, tomámos banho, apanhámos a roupa e fomos almoçar. E não sei se foi a essa hora que ouvi a notícia que me pareceu a mais estúpida do dia. No meio das desgraças inomináveis das guerras absurdas e cruéis que estão em curso e de todas as implicações que já aí estão e as muitas mais que por aí virão, ouvi novidades da mais recente e espectacular operação da Polícia Judiciária, a Rigor Mortis: que as buscas à morgue do Hospital Santa Maria e às casas das pessoas, aparentemente, têm por base o facto de os funcionários da morgue receberem verbas entre 5 e 30 euros por cada corpo que preparam antes de os entregar às funerárias. Ouvi isto e só me apeteceu atirar um copo de água à cabeça do maluco que mobilizou investigadores da Judiciária para uma treta destas. É que não sei quem é que fica prejudicado com isto. Se os pobres coitados que têm como profissão lidar com mortos preparam minimamente os respectivos corpos e, com isso recebem uns trocos, que mal há nisso? O hospital fica prejudicado? Alguém fica prejudicado? E, mesmo que haja aqui qualquer coisa de vagamente ilícito, é caso para mobilizar tanta gente, tantos investigadores que custam caro, para uma coiseca destas? Não andariam melhor a apanhar traficantes de droga? Não andariam melhor a apanhar traficantes de armas de todo o tipo? Não andariam melhor a caçar pedófilos? Não andariam melhor a prestar atenção a bandidos que praticam violência doméstica e ameaçam as mulheres caso estas os denunciem? E a comunicação social também não tem neurónios? Que sentido dar tanto destaque uma notícia destas que nem se percebe que raio de notícia é? Não bastaria dar uma rabecada aos pobres coitados que, pelos vistos, ganham uns trocos indevidos? Era preciso tanto aparato? 

Bolas, só maluquices. Caraças.

Adiante.

Depois de almoço, estava um sol bastante jeitoso. Pensei que não era cedo nem era tarde: boa ocasião para a vitamina D. Vesti uns calçõezitos e uma tshirtezita e estendi-me numa espreguiçadeira. E senti-me abençoada por poder receber assim, em liberdade, um calorzinho tão bom. Ser reformada tem destas coisas: não ter horários nem obrigações, não ter que estar enfiada em escritórios de manhã à noite, a respirar ar condicionado e a resolver problemas e a aturar gente em contínuo, por telefone e em pessoa, sem possibilidade de pôr o pescoço de fora para curtir um raiozinho de sol.

Pois, pois. Foi mas foi sol de pouca dura. Veio uma nuvem e foi-se o verão. Logo depois estava frio. Tive que vir para dentro, mudar de farpela.

Tenho ainda a dizer que cá em casa praticamente não se comem doces: o meu marido não aprecia e eu aprecio mas, por cada 10 gramas de açúcar que ingiro, aumento 1 quilo. Além disso, não gosto de fazer sobremesas. Mas, de vez em quando, apetece-me. E o meu marido, volta e meia, diz: 'devia haver qualquer coisa que se comesse entre refeições, quando nos apetecesse, para não ser só frutos secos'. Pois bem. O Instagram tem-me trazido coisas com piada. No outro dia apareceu-me um japonês que dizia que se pode fazer um doce sem farinha e sem açúcar. 

E mostrava: esmaga-se batata doce cozida, mistura-se um ovo, leite de amêndoa e cacau em pó, bate-se e leva-se ao forno. E ficava com bom aspecto.  Então resolvi fazer. O pior é que não tinha quantidades. Tudo a olho. Não tinha leite de amêndoa mas tinha kefir. Pensei que, com o kefir, ainda deveria ficar menos doce. Então, antes de vazar a mistura para a forma, juntei algumas, poucas, tâmaras e nozes cortadas aos bocadinhos. Levei ao forno. 

E, se querem que vos diga, acho que ficou razoável. O meu marido não ficou extraordinariamente convencido e diz que com mais tâmaras talvez fique melhor pois assim parece que ficou com pouco sabor. É que, quando a gente vai comer um bolo -- e este fica macio, com um ar até a modos que apetitoso -- vai à espera de lhe saber a doce. E este doce, doce, não é. Para a próxima junto-lhe ou uma colherzita de mel ou mais tâmaras e talvez, até, algumas passas e arandos. Contudo, há pouco reparei que, apesar de lhe saber a pouco, até já comeu um bom bocado.

E depois fomos fazer uma caminhada e vi umas florzinhas amarelas muito lindas, lindas mesmo, um amarelo torrado, mais do que dourado, quase a querer alaranjar, mas tão perfeitas, tão harmoniosas, as pétalas quase translúcidas... Umas florzinhas ali, nascidas do nada. Nunca as tinha visto. Fiquei fascinada. 

A natureza é uma coisa repleta de mistérios. Tira-os da manga a toda a hora. Fotografei-as e filmei-as e depois coloquei o vídeo no instagram. Não sei se quem vê estas minhas platitudes pensa que, se não tenho nada de mais original para partilhar, mais valia estar quieta. Talvez. Mas, para mim, estas coisas não são vulgaridades, são, isso sim, verdadeiros milagres. E milagre que é milagre deve ser louvado e, se é para louvar, que o seja com testemunhas. Por isso, partilho.

O pior é que, quando estava a pôr aquilo no instagram, recebi uma chamada. Interrompi o processo, Quando acabou a chamada, carreguei na coisa de partilhar ou publicar ou lá o que é. E lá vai disto. Fui à minha vida. 

Há bocado, fiquei perplexa: vi que publiquei duas vezes. Ou seja, quando recebi a chamada, sem querer devo ter publicado. Depois dupliquei a dose. Agora quero apagar um deles e não consigo pois têm ambos visitas. Quem vê deve achar que sou maluca, publicar duas vezes a mesma coisa. 

E, pronto, vou ficar por aqui, não vou pôr-me ainda a falar do jantar nem da minha magnólia -- que está espectacular, coberta de um manto de flores belíssimas -- nem da nova bebé da família, fofa, fofinha, fofésima, uma ternurinha, por sinal minha homónima, nem do meu tio que está cada dia mais confuso, o único sobrevivente daquela geração, nem de mais nada que isto já vai para aqui um lençol que não se aguenta.

[Nota: Dei o título de 'linha do tempo de um dia tranquilo' pois agora está na moda isto da linha do tempo: por tudo e por nada, lá sai a linha do tempo à cena. E eu embirro solenemente com estas coisas que viram virais e só tenho pena que a ironia não se perceba bem sem uma expressão facial de malícia ou desdém. E aqui, a escrever, e ainda por cima num título, sem verem que isto tem ironia à mistura,  penso que, sem eu acrescentar esta nota, não perceberiam que claro que isto não é nenhuma linha do tempo, é um simples desfiar de tarefas irrelevantes ao longo de um dia normal, bom mas normal.]

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Mas, antes de ir pregar para outra freguesia, toma lá mais esta, ó Chalamet, vê lá se percebes que meteste a pata na poça.

Jiří Kylián: Sechs Tänze

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Desejo-vos um belo sábado

quarta-feira, junho 08, 2022

Algumas receitas para uma feliz sobrevivência

 

Espero que, muito rapidamente, a indústria avance com processos de electrólise invertida ou de dessalinização ou de formação artificial de nuvens ou o escambau ou o diabo a quatro. Tecnologia e técnicos que saibam da poda há-os por cá. Têm é que ser lançados programas de investimento virados para isto. E tem que ser rápido. Entre o business case, a mobilização do capital, o desenho e projecto da solução, o procurement, a construção, os testes e tudo o que é preciso até que uma fábrica comece a produzir vão anos (ainda mais com a escassez de materiais que há). E há que ter operadores e técnicos de manutenção - e não os há. Ou rapidamente o país aposta intensivamente em escolas técnicas ou arranja maneira de 'importar' gente com esse tipo de formação. Tudo isto leva tempo.

A subida da temperatura média, a seca, o facto de vários dos nossos rios virem de Espanha (e, como seria de esperar, Escassez de água leva Espanha a reduzir caudais dos rios que entram em Portugal) fazem perspectivar que o que, em tempos, parecia um cenário apocalítico longínquo já comece a bater-nos à porta. Temos que interiorizar que sem água não há vida e que, se não há água, temos que fazê-la. Tal como temos que produzir energia a partir dos recursos naturais e renováveis, temos também que produzir água a partir do que há à mão de semear e que, tão cedo, não se esgota.

Espero que consigamos viver em paz, salvar o planeta, salvarmo-nos a nós da insanidade de alguns e vivermos, de forma sustentável (ou sustentada?), com recursos sabiamente geridos. Se é com carne produzida em fábrica de carne a fazer de conta, se é com insectos ou legumes que hoje desconhecemos, se é com algas e outros produtos do fundo do mar, eu não sei. Mas o engenho e a arte têm que se virar rapidamente para a nossa subsistência e para a do terroir que nos coube em sorte.

No meio disto teremos que nos blindar para podermos cuidar dessas premências e não corrermos o risco de, nos entretantos, ser invadidos e destruídos por assassinos tresloucados. O que até há uns três meses nem nos passava da cabeça, afigura-se agora ser de extrema relevância. Um doido varrido pode deitar a perder anos de desenvolvimento e anos de esperança de vida (das pessoas e do planeta).

Casa Do Penedo, 1972, Celorico de Basto

E, last but not least, teremos que continuar a ser felizes e a tentar inebriar-nos com a arte, com a elegância, com a beleza, com a doçura dos bons momentos, com a melodia das palavras, com o voo dos corpos e dos pássaros, com a memória do passado e o sonho no futuro, com a ternura do afecto, com as mil e uma pequenas coisas da natureza.

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No estúdio com Claire Tabouret


Um vestido feito de vidro -- Iris van Herpen


Georgijs Osokins interpreta  Fragile e conciliante do Lamentate de Arvo Pärt 



Um quarto dos poemas é imitação literária / Herberto Helder dito por Fernando Alves



"Petite Mort", Pas de Deux numa coreografia de Jiri Kylian


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As fotografias pertencem a World Beauties And Wonders

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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Saúde. Imaginação. Vontade. Paz.

segunda-feira, janeiro 13, 2020

Primavera a caminho






Não há estações que representem especificamente o nascimento, o esplendor da vida, o ocaso e a morte pois, em todas as estações, existem, em simultâneo, nascimentos, o gozo do esplendor da vida, ocasos e mortes. E nenhuma morte é definitiva pois o que parece morrer é, afinal, a semente e o terreno fértil onde a vida há-de florescer. É um contínuo, um devir. Contactar de perto com a natureza é perceber a magnífica e permanente coreografia de transmissão de vida que em todas as formas e em todos os momentos se manifesta. 


Encanto-me com tudo na natureza e, para melhor observar o que, quando desatenta, não vejo, baixo-me, olho longamente, ando muito devagar. E dentro de mim é quase uma oração que nasce, um agradecimento, e quase tento tornar-me parte do que me é dado ver.


E fotografo. O acto de fotografar dá-me o pretexto para me debruçar sobre a infinita beleza das coisas naturais. Parecem-me um milagre a beleza, a perfeição, a harmonia cromática, a delicadeza do que nasce, cresce, e, que, uma vez tendo embelezado o mundo, regressa à terra onde novas formas de vida já fazem o seu percurso.

Tendemos a achar que somos sapientes, habilidosos, seres superiores. Não somos. Somos meros elementos de uma longa cadeia de vida que habita o planeta. E se nem de nós sabemos tratar quanto mais do resto e, por maioria de razões, quanto mais sermos capazes de perceber a génese de todos os elementos. Somos, sim, elementos de uma longa cadeia. E nem de longe nem de perto somos os mais fortes ou os mais inteligentes. Aparentemente a única diferença é a nossa capacidade de abstração, capacidade que, aparentemente, os outros animais não têm. Pelo menos, o Harari acha que sim. Tenho é dúvidas que a saibamos utilizar bem. Mas isso, como é agora moda dizer, são outros quinhentos.


Tal como à noite contei, no sábado andei no campo, in heaven, e não conseguia parar de me deslumbrar com as cores, com a luz sobre as cores, com a delicadeza requintada das flores, dos perfumes, com a harmonia entre tudo, com a paz tão absoluta, quase palpável.

À medida que a tarde ia avançando, uma poalha dourada ia pousando sobre as flores e quando veio o pôr do sol a luz ficou quase rosada, quase etérea, e foi com subtileza que se foi despedindo do perfume das flores.


Estive há pouco a ver as fotografias feitas e escolhi umas quantas para partilhar convosco. Depois reduzi. Ficam estas que aqui estão. Não quero maçar-vos pois, quando a realidade é distante, quem vê pode não perceber a razão do encantamento e achar uma maçada tanto êxtase, tanto arrebatamento.


Até já

domingo, agosto 04, 2019

E eis que já aí estão os figos de comer e chorar por mais.
E a invenção ocasional.
E um certo olhar pousado em mim.
E outras coisas.




Nos últimos dias interiorizei que a trajectória não augura nada de bom. Tenho que fazer dieta. O apetite é o eterno adversário, o maior desafio a vencer. Apetite e alguma gula também. E, provavelmente, a falta de exercício também não ajuda. Portanto, tem que ser mesmo na base da abdicação, do sacrifício. Por muito que seja adversa ao sofrimento, já assimilei que terei mesmo que sofrer. Ver uma travessa de belo arroz doce caseiro e, em vez de não lhe resistir, virar a cara para o outro lado; em vez de um suculento risotto, não senhor, três folhas de alface; em vez de um luminoso sumo de laranja, chá verde e é se queres; bolo de anos seja de quem for e por muito delicioso que se anuncie, apenas três migalhas. E isto foi o que eu pensei ao longo da transacta semana ao perceber que as blusinhas do ano passado estão a ficar indecorosamente justas, os decotes indecentemente reveladores.


Chegámos aqui ao seguir ao almoço e, depois de arrumar algumas coisas e abrir as janelas, deitei-me num sofá e foi tiro e queda. Nem deu tempo a adormecer, foi apagamento directo. Quando acordei tive a sensação de que tinha queimado a tarde, que já deveria ser tardíssimo. Tinha dormido profundamente. Contudo, ao ver as horas, percebi que, afinal, tinha dormido pouco mais que uma hora. O resultado foi que acordei fresca e pronta para ir passear. E fomos, eu de máquina fotográfica ao pescoço, feliz por degustar os cheiros e os sons e a beleza campestre deste pedaço de terra que sinto como parte de mim. 

Primeira decepção. Cachos e cachos de uvas perdidos, as uvas secas. Os calores intensos recozeram os bagos. Este ano não terei as minhas uvas tão doces. entristeci-me com isso. A natureza sabe ser cruel: anda feita animal aos coices tantos os maus tratos que sofre por parte das bestas humanas.


Caminhei, então, em direcção às figueiras, 'será que já há figuinhos bons?' e o meu marido 'ainda não é altura deles' mas eu, sempre optimista, apesar de vê-los pequenos e rijos, adentrei-me pela figueira grande que já dá aquela fresca e cheirosa sombra de que tanto gosto.


E, então, comecei a descobrir que um ou outro temporão já estavam com ar de quem queria adoçar-me a boca. Os chamados figues amuse-bouche.


Saí lá de baixo com uns quantos e, logo ali, os inaugurei. Doces, doces, ainda quase sem aquele pinguinho de mel que costuma escorrer-lhes do olhinho mas, ainda assim, felizes e doçudos. Fotografava-os e pimba, para a veia.


E foi um e outro e outro e outro. Nem sei quantos. O meu marido, que é um insuportável  desmancha-prazeres, tentou estragar o momento: 'Mas não ias começar a fazer dieta?'. Claro que não respondi, que não sou de me deixar influenciar, e continuei a manducá-los, a lambuzar-me. Carnudos, macios, brandos. Vai a casca quase toda e tudo. 

E ainda trouxe dois para comer à sobremesa. Pimbas. Mas antes fotografei-os sobre o banco azul, inteiros e inocentes, sem saberem o que os esperava. Aqui parecem pequenos porque a folha engana e, na proporção, não se lhes antevê a verdadeira dimensão. Mas a folha era grande e eles de bom tamanho. Eram. No passado. Porque já foram. Papados, I mean.


Por isso, não estranhem a minha brandura mas é que, a esta hora a que vos escrevo, com tanto figuinho, rescendo ainda mais a doçura do que habitualmente.

[Claro que, provavelmente, engordei mais uma tonelada mas, enfim, perdoa-se o mal que fazem pelo bem que sabem]


Entretanto, entre o passeio e a hora de jantar, estive na rua, repimpada na minha cadeira verde, à porta desta sala, a fotografar a luz na folhagem, o musgo dourado sobre a pedra grande, a sentir a aragem dourada na pele. E a ler A Invenção ocasional, livro que trouxe na sexta-feira da livraria para onde me esgueirei outra vez, à hora de almoço, quando, num ápice, fui dar um passeiozinho no parque.


O livro contém a colectânea das crónicas da Elena Ferrante no The Guardian. Não me deixei ainda seduzir pelas histórias da Ferrante e ainda não percebi se é porque as acho banais, se é que estou tocada pelo preconceito de serem best sellers. O que sei é que pego nos livros e, pouco tempo decorrido, os largo, desmotivada. Mas crónicas é outra coisa. Uma crónica é um sopro, um desabafo, uma lembrança, um apontamento, um quase nada. E disso eu costumo gostar quando é bem escrito e despretensioso.


E devo dizer que, quando o vi, o que me deu vontade de o trazer não foi apenas a perspectiva de ler, com calma e em português, o que tinha lido, tantas vezes apressadamente, em inglês, mas, também, a bela encadernação. Uma capa elegante, um papel espesso e macio ao toque, uma cuidada paginação, as impecáveis ilustrações que Andrea Ucin fez para cada crónica do The Guardian. Um belo objecto, este livro.

E, depois, voltei a dar mais um passeio. Gosto muito de andar e, enquanto fazia os telefonemas do dia, ia observando a dança da folhagem. Entardecia, a aragem estava mais fresca, mais agitada, a luz mais coada e mais serena.

E, então, como por vezes aqui acontece, senti-me observada. É aquela sensação que me faz sentir como que um arrepio, um leve sobressalto. Olhei em volta e dei com ele a espiar os meus movimentos, aquele olhar silencioso e quase transparente pousado em mim.


Lentamente, muito lentamente, aproximei-me. Não se mexeu. Fotografei-o. Deixou-se fotografar. Não sei o que pensa mas sei que pensa. Sei também que me aceita e fico contente por isso. São deuses? Disseram-me um dia que sim e nunca mais me esqueci. Há coisas que me dizem e que não esqueço. Aliás, há pessoas que não esqueço pelas coisas que me dizem.

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As fotografias foram feitas este sábado in heaven. Apeeceu-me estar ao som de One I Love pelo Shawn James e acabar com mais uma coreografia do meu bem-amado Jiří Kylián’s, "Return to a Strange Land".

E desejo-vos um feliz dia de domingo. 

sexta-feira, junho 07, 2019

Antídoto


E nem vale a pena dizer para quê porque para tudo: para dor no osso, para chato que teve que se aturar, para trânsito em estrada molhada, para corpo a pedir descanso, para monte de livro a pedir para ser lido e tempo viste-lo, para saudade de lobo, para quilo a mais, para chateamento por reuniões já a serem marcadas para o mês que vem, para falta de tempo para veranear em dia útil, para falta de ouvir dizer poema, para bardajolas que se acham melhores que os outros e a quem a gente não pode dizer que .... (e, até, não pode dizer aqui o que era bom era ter dito a eles), etc.

Antídoto e dos bons. Na volta até para picada de vespa, chupão de melga, mordida de formiga-cavalo, olho gordo de vizinha, rui rio na tv, cocó de passarinho a cair na cabeça de careca, buraco no dedo grande da meia, fio de couve preso ao dente da frente, nuvem escura sobre a cabeça. 

Antídoto para tudo, portanto. Vê-se uma amostra pequenina e fica-se bom de tudo. Confirmem, por favor.

Kylián4 all


In the programme KYLIÁN4ALL Introdans proudly presents a selection of highlights from the oeuvre of master choreographer Jiří Kylián. The family show takes you on an attractive and fun journey through time and through the multifaceted work of the maestro: from theatrical Trompe L'Oeil, by way of the humorous Sechs Tänze, to the amazing Indigo Rose. And as the cherry on the cake, Introdans dances the exuberant Chapeau, a premiere for the company.


Trop good

domingo, abril 07, 2019

JV e Paulo Batista: les beaux esprits se rencontrent

A palavra a dois millennials de excepção






Junto dois textos que aparentemente nada têm a ver um com o outro. Calhou serem os dois últimos comentários que a JV e o Paulo escreveram. São textos muito bons, escritos por dois jovens especiais que ilustram bem a qualidade excepcional da nova geração.

A JV e o Paulo são ambos cultos, engagés, despertos para as circunstâncias concretas que enformam a sociedade em que se inserem. Se, jovens como são, pensam e escrevem assim, imagine-se quando a vida depositar neles mais e mais camadas de conhecimento, de aprendizagem de que, quanto mais se sabe mais se percebe o que há para descobrir, de novas emoções, de novos deslumbramentos.

Sempre que recebo comentários ou mails deles fico contente pois trazem-me sempre uma visão nova, fresca e pujante da vida.

Transcrevo, então, palavras de ambos e, como forma de agradecer a sua generosidade por escreverem aqui o que pensam, junto algumas fotografias feitas hoje de tarde in heaven. Todas menos uma: esta aqui abaixo foi-me enviada pela própria JV e mostra a floresta onde gosta de se perder.





Palavras da JV

Há uma palmeira na avenida da liberdade da qual emana uma chilradeia que chega a mais de trinta metros. Devem ser dezenas de passarinhos aos guinchos por comidinha! Já tenho visto muito turista a parar e tentar fotografar as avezinha lá no alto. 
As árvores são lugares fantásticos, povoadas de vida. 
Há uma árvore num jardim da nossa cidade que é minha. Não por título de propriedade, mas porque quem gosta tanto de uma coisa deve considerá-la sua, sob pena de cometer uma injustiça. 
É uma propriedade que não é exclusiva, partilhada com quem lá está quando não estou eu.  
Mas não é menos minha. 
Quando estou debaixo dela ou empoleirada nela (eu ainda subo às árvores) é como se tivesse entrado num mundo que parece ser todo meu. 
Mesmo num dia de fim de semana, uma tarde de sol radioso, com o jardim cheio de gente, o recanto onde aquela árvore fica é um espacinho isolado com uma vista desafogada lá do alto onde não se avista vivalma. 
Fora desse recanto, pessoas a tropeçar umas nas outras, velhos, crianças, namorados, solitários, amigos, um sem fim de gente. 
Tenho fotos de uma tarde dessas em que parece que estou imersa numa floresta sem ninguém.

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Palavras do Paulo Batista

... eu acho que parte dessa desagregação do sistema político e da sua dificuldade em construir respostas eficazes não deve tanto à inadequação de um conjunto de "velhos" que comanda um sistema (político e económico) anacrónico e inadequado para a malta nova, mas talvez deva mais à incapacidade da malta nova, saltar efetivamente da sua rede social, colocar-se no lugar do outro (diferente de si) e procurar construir respostas colectivas, integradoras, da crescente diversidade de grupos, de indivíduos e de condições de vida que co-habitam os seus territórios. 
Não quero com isto parecer um millennial "velho do restelo" (embora tenha fama disso). Eu acho que esta (a minha) geração tem as condições e as ferramentas para construir uma sociedade melhor. No entanto, talvez inebriados pela intensidade que os novos e velhos meios de comunicação colocam na ligação e integração do indivíduo numa dada rede social, tem aumentado a criação de "bolhas" de (ir)realidade. 
Os algoritmos de recomendação e dos serviços de "redes sociais" na internet são só a face mais vísivel disso mesmo - mecanismos simples mas poderosíssimos na criação desse efeito "bolha social".
Apesar da atitude aberta e liberalizante dos "millennials" perante a vida (maior abertura às redes "fracas"), paradoxalmente, o efeito material e imaterial é uma fragmentação desses mesmos grupos sociais (as redes fortes têm uma dimensão cada vez mais reduzida). Desta forma, o arquipélago de grupos sociais torna-se de tal forma complexo e "ingovernável" que resulta num crescente imobilismo coletivo. 
A fragmentação do sistema político e dos partidos tradicionais, num cada vez maior número de grupúsculos, parece-me resultar deste fenómeno de fragmentação dos "millennials" - e o Brexit, por exemplo, é mais um sintoma dos "defeitos" da geração emergente do que como uma consequência do anacronismo e "antanho" das gerações passadas.

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E como é bem verdade que les beaux esprits se rencontrent, termino com uma bela coreografia de Jiří Kylián sobre música de Mozart e com Sylvie Guillem num momento de 'petite mort' com Massimo Murru. Um prazer.


Para ambos, os mais sinceros votos de felicidade nas suas vidas e de que saibam encontrar a formar de fazer deste mundo um melhor lugar para se viver.

domingo, julho 15, 2018

Sábado no campo





Para começar, lembrei-me agora que a receita da Bôla de Carnes leva leite -- e não o trouxe. Cortámos ambos com o leite e, portanto, agora, chapéu. Gaita. O meu marido diz que ponha iogurte. Impossível. Viémos carregados de iogurtes mas é tudo com sabores. E isto aqui não é como na cidade em que se atravessa a rua e há onde comprar tudo o que se precisa. Aqui, se queremos comprar qualquer coisa, temos que nos meter no carro e ir à vila mais próxima. E, como ao fim de semana os pequenos minimercados estão fechados, teríamos que ir não è vila mais próxima mas sim à cidade mais próxima. Não dá. Chegam logo de manhã. E tenho que ter a comida para o dia inteiro pronta antes de chegarem porque, a partir do momento em que chegam, deixa de ser possível estar sossegada na cozinha. 

Chatice. Sempre isto. Por mais carrego que venha há-de sempre faltar uma coiseca qualquer. Outras vezes é o oposto. Por medo de que não haja, trago e depois juntam-se não sei quantos sacos de sal ou pacotes de guardanapos. Mas pronto. Adiante. Nada a fazer. Não há leite, não há. Tenho que improvisar com outra coisa. Talvez com o caldo de estufar as carnes. 

Já tirei as espinhas ao peixe, já desossei as carnes, já cozi ovos, já separei e medi o caldo para o arroz. Portanto, algumas coisas já estão adiantadas. Mas tenho que me levantar cedo.


Ainda queria varrer lá fora que este sábado não tive tempo. No outro fim de semana varri tudo mas já lá vi, debaixo do telheiro, uma data de folhas. Estava a falar com a minha mãe e ela dizia que se as casas se sujam por dentro, fará por fora e que nem vale a pena ter a pretensão de ter tudo impecável porque não é possível. É verdade. Mas gosto de, pelo menos, ter a sensação que tentei.

Sou eu a querer ter a casa limpa por dentro e por fora e o meu marido a ver se dá conta das silvas e do tojo. Andou outra vez com a roçadora a tentar travar o ímpeto desta natureza que tem uma força avassaladora. Desbasta-se e corta-se e, na volta, já está tudo a rebentar por todo o lado. Uma coisa extraordinária.

Andei a passear. Tinha dito: vou fazer uma caminhada. A ideia era andar em passada regular, rápida. Durante a semana foi impossível fazer caminhadas. O trabalho permanente e absorvente, uma praga, cresce pelos dias deixando-me sem tempo para mim. O objectivo era, pois, esticar as mernas, exercitar os músculos, oxigenar o organismo que passa os dias movido a ar condicionado.


Mas não. A tentação de fotografar é constante e tudo me solicita. A ruiva caruma, os arbustos de madressilva, o sol dourado, as sombras, as flores, as árvores, o meu corpo reflectido nos azulejos onde mandei serigrafar 'há palavras que nos beijam como se tivessem boca', os verdes que tudo envolvem, os pássaros que se levantam, a cauda aberta em leque, soltando cantos espantados pelos ares, a dança da folhagem com a aragem leve da tarde.

Portanto, dou dois passos, paro, espreito a corola das flores, foco, disparo, mais dois passos, olho a cor perfumada e doce dos loendros, disparo, mais dois passos, espreito as ramagens a ver se descubro de onde vem o canto dos pássaros, mais dois passos. E assim vou, involutariamente lenta, detendo-me a cada dois passos perante a necessidade de melhor ver e registar o que os meus olhos vêem.


Mas depois foram os orégãos. Floridos, perfumados, aquele cheiro fresco e campestre de que tanto gosto. Todos os dias, uso orégãos na salada que como. Amanhã espalhá-los-ei também sobre a bôla. Por isso, andei a apanhá-los. Estão um pouco por todo o lado. Aos molhinhos fui trazendo cá para cima. Queria andar, não andar a apanhá-los. Pensava: só estes pezinhos, para amanhã e para a semana. E subia, a deixá-los cá em cima. Mas, no fim, estava uma boa braçada deles.


Vou deixá-los depois, durante a semana, sobre um plástico em cima da mesa da cozinha, espalhados, para secarem. Cheirinho mais bom. Tempero mais bom. O cheirinho bom do campo, o cheirinho bom deste pedaço de terra que sinto como o meu heaven, o lugar de onde poderiam ter vindo as minhas raízes.


Depois vim para casa. 
Cozinhei. Li. Adormeci. 
E agora estou aqui convosco.

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Não vem muito a propósito mas deixem que partilhe convosco este vídeo com Lam Duan (que dizem que significa árvore com flores amarelas), o velho e cego elefante, a ouvir música.


sábado, julho 14, 2018

Santana Lopes again? Please.... Poupem-me.
Mas não é só ele que estava bem era no museu. São também quase todos os outros.
Contra isso: inovar, inovar, inovar.





As empresas e demais organizações gastam rios de dinheiro com formações e consultores, já para não falar em horas de trabalho consumidas em sessões disto e daquilo, tudo a bem da inovação. E vem um e explica a diferença entre criatividade e inovação e vem outro e fala de exemplos conhecidos de empresas que se reinventaram e de outras que pereceram por não terem sabido fazê-lo e vêm outros e falam de casos inspiradores e vêm mais alguns que são figuras conhecidas -- uns historadores, outros treinadores, outros maestros, outros alpinistas -- e contam as suas experiências e toda a gente bate muitas palmas. Tudo e mais um par de botas para que a malta desate a ter ideias que façam a diferença, que criem novos negócios, novas maneiras de ver a vida.




E toda a gente se esquece de tudo mal vira as costas. E, assim que chegam aos seus locais de trabalho, todos continuam a fazer igual ao que sempre antes fizeram.

E eu, que ando há anos a ouvir a mesma conversa dita de muitas maneiras diferentes, penso que se fosse eu a organizar estas coisas, estes eventos em que se tenta estimular uma nova atitude que leve à inovação, não fazia nada disto. Colocava era vídeos como estes, que mostram como é possível que do clássico se crie o inesperado ou como do nada se pode fazer o que antes nunca se tinha visto e que pelos tempos afora para sempre ficará como inexplicável e belo.

Mas, quando proponho isto, dizem-me que não, que ideia, que não tem nada a ver, que ninguém ia perceber. É verdade. Quando alguém aponta as estrelas, os idiotas ficam sempre a olhar para a ponta do dedo, incapazes de ver para além dele. Por isso, não insisto. Nem estou certa de que a razão esteja comigo. Cada vez sei menos. Vejo que a qualidade vai rareando e que o mundo parece estar em trajectória descendente -- mas, se me reportar a dados conhecidos da história, talvez tenha que concluir que desde sempre se está a andar a caminho do nada. E, se calhar, é mesmo assim e nada a fazer.

Seja como for, talvez ingenuamente, penso que, enquanto não se perceber que é mesmo do incompreensível que nasce o que é novo, não se conseguirá ver para além do óbvio -- e que só o que está para além do esperado e do óbvio é que rasga caminhos. E novos caminhos são precisos antes que se chegue ao fim deste que estamos a percorrer e que, do que se vê, parece ser um beco sem saída.




Leio percentagens a propósito de crentes em Santana Lopes e pasmo por, nestes tempos incréus, haver ainda quem seja tão crente. Mas é verdade. No outro dia, numa outra cidade, vi um amontoado de gente, os passeios a deitar por fora. Não percebi. Depois olhei com atenção e vi que estavam junto a uma moradia onde vi uma cruz e o nome de uma qualquer igreja. Isso ou as dietas milagrosas que proliferam. Eu própria também, volta e meia, jogo no euromilhões acreditando que um dia pode acontecer comigo. Portanto, está certo. Toda a gente precisa de acreditar em qualquer coisa, mesmo no jogo branco ou nas cartas furadas. Haja lugar para todos, até para os malucos que ainda acreditam que alguma solução governativa de jeito pode sair do maluco do Santana Lopes. 

A seguir, olho para a televisão e vejo a cinzenta bancada do PSD. O líder da bancada descolorida laranja dá-me pena.  A sério. Pena. A criatura está notoriamente infeliz naquele seu triste papel. Um tremendo erro de casting. E está rodeado de outros que tais. Olha-se e vê-se ali, ao vivo e a cores, o reino da estupidez. Não atinam. Mas não admira. O PSD não é nada. A cola que os une é o oportunismo. Talvez tenha começado com gente bem intencionada mas logo esses barões se foram perdendo e o que ficou foram uns quantos nostálgicos que não riscam nada (nem o Marcelo, enquanto líder partidário, alguma vez riscou) e uma malta que anda à babugem do poder. Quando longe disso, ficam como as galinhas sem cabeça.




Mesmo as outras bancadas. Falta ali rasgo e inteligência, falta golpe de asa. 

O PS é António Costa e mais uns quantos capazes e depois um bando de líricos, mais uns quantos saudosistas e uns outros que tentam perceber qual o caminho que estão a pisar e mais uma mão cheia de oportunistas.

O PC já era. Gente que tenta agarrar-se a cordas presas ao passado, um passado idealizado. Gente bem intencionada mas geneticamente traumatizada. Podem ser sérios mas a seriedade deles é cinzenta, baça, longe do futuro. A primeira e a segunda derivada da tendência que percorrem traçam-lhe o caminho: o lento mas inexorável fim.

O BE. Gente que quer ser moderna e ousada mas sem capacidade para sê-lo. Zangam-se, fazem cara de maus, acham-se os donos da verdade. Mas são uns maçadores de primeira. E gente maçadora não vai a lado nenhum.

Resta quem? O CDS? Nem falo desses. Não existem. 

O País precisa de outra gente na política. Mas como irá gente capaz para a política sabendo que, por coisas de nada, podem ser perseguidos pelo Correio da Manhã, pela tropa fandanga da SIC ou do Expresso, pelas tias e pelas beatas do Facebook?

Uma coisa triste, isto.




Solução? 

Inovar de verdade. Ousar. Arriscar.
Procurar a beleza e a simplicidade.
Olhar o futuro e, mesmo sem perceber o que se vê, caminhar nessa direcção.

quinta-feira, junho 01, 2017

Quase em apneia





Regresso tarde. As ruas da bela cidade estão perfumadas. Quando choveu as ruas ficaram cobertas de delicadas florzinhas em lilás. Subsiste o perfume.

Vou com as janelas abertas. Recebo de fora o ar ainda morno, a luz ainda levemente dourada mas já a escoar-se. 

Como quase sempre, sigo na Antena 2 e ouço uma entrevista a uma escritora de que nunca tinha ouvido falar. Chama-se Marina Perezagua e, do que percebi, escreveu um livro que tem dado que falar. Nunca ouvi. Pareceu-me uma mulher bem disposta, simples. Pareceu-me que Luís Caetano estava a ficar refém da alegria dela. Tantas pessoas a escrever. Fiquei curiosa. Ouvi-a falar em mergulho em apneia, que fazia, percebi que nada muito, que gosta de meditar mas que apenas consegue meditar dentro de água, de preferência em paneia -- porque em apneia não se consegue agarrar os pensamentos.

Não agarrar os pensamentos. Deixá-los ir. Apenas respirar. 

Fechar os olhos, ouvir o silêncio ou a música silenciosa dos sonhos, escutar a respiração, não pensar em nada.


Muitas vezes não penso em nada em concreto. Dou por mim a pensar: 'em que é que eu estava a pensar?' e nada me ocorre. Ir apenas, estar. Perguntam-me: 'Como estava o trânsito?'. E eu não faço ideia. 

Se não vou absorta, fora de mim, entrenho-me a olhar e a pensar.

Passei por um grande edifício ao abandono. Um edifício maravilhoso onde fui inúmeras vezes quando ele ainda estava vivo. Diziam-me, na altura: 'Se tivesse visto há uns anos....'. Mas, embora não sendo os seus anos de ouro, em que fervilhava de gente, era, então, ainda um edifício que acolhia diversas valências. E tudo era enorme, impressionante. Uma biblioteca. Das maravilhosas bibliotecas que tive a felicidade de conhecer. Conheci, nessa altura, o encadernador. O meu encantamento com ele. Visitava-o. A sua oficina, as peles, as ferramentas, as prensas, as agulhas e as resistentes linhas. Pedi-lhe que me encadernasse vários livros. Escolhi a pele verde com letras em dourado. Preciosidades.

Depois havia uma ala em que, de facto já não havia ninguém. Apenas valiosos móveis, quadros ainda mais valiosos. Um enorme, um óleo, vários metros por outros tantos. Uma pintura que nos envolvia com o seu movimento, o sol e o calor que dele emanava.

Anos depois, muitos anos depois, entrei numa casa de família, uma casa cuja sala era, ela também, imponente na sua dimensão e decoração. Fui entrando e conversando enquanto era conduzida para um dos vários sofás que existe a meio, na zona da grande lareira. Quando rodei a cabeça, ia ficando petrificada: o enorme quadro. Uma parede inteira com aquela maravilhosa pintura que eu, tantas vezes, tinha olhado. Vendo o meu espanto, perguntaram-me: 'Conhecia?!'. E eu quase não conseguia responder pois pareciam-me tempos tão remotos, uma realidade tão irreal, impossível de nomear.


Agora aquele majestoso edifício está fechado, janelas trancadas. Tem certamente um dono mas, por algum motivo, está assim, uma velha carcaça à deriva numa das melhores ruas de Lisboa. Será, um dia, um grande hotel de luxo ou um esplendoroso museu. 

E, nessa altura, já não devo conhecer ninguém que saiba do que estou a falar se eu disser que estive lá detro tantas vezes, que me perdia por aquelas alas infinitas em que, em cada desvão ou recanto havia qualquer coisa diferente. Uma babilónia em que as pessoas que por lá estavam apenas tinham em comum a identidade de lá estarem. Não me lembro da última vez que lá estive. Apenas sei que não tive a percepção de que era a última vez. Não me passeei pelos seus labirínticos corredores, não me coloquei no centro do seu pátio interior a olhar em volta, não subi à torre para olhar a cidade e o rio.


Não é saudosismo isto, penso eu. É apenas a compreensão de que vamos deixando para trás memórias que um dia não poderemos partilhar com ninguém porque vamos também deixando para trás aqueles que, um dia, viram o mesmo que nós.

No outro dia, uma pessoa que diz que me conhece há muito tempo mas de quem não me lembro senão de ouvir falar o seu nome, veio contar-me que uma pessoa que ela diz conhecer e que conheço há também muito tempo, está muito doente, mesmo muito. Fiquei perturbada com a notícia tanto mais que não há muito tempo falei com ele por telefone e estava feliz da vida como sempre, cheio de ideias e alegria. 

Depois, incomodada que estava, senti necessidade de partilhar essa minha tristeza e não consegui lembrar-me de ninguém com quem eu ainda convivesse e que também o conhecesse.


Mas se calhar é assim mesmo. Nada a fazer. Atrás de nós um cada vez maior cortejo de edifícios esquecidos, de gente com quem um dia partilhámos histórias e que se vai afastando, vestígios cada vez mais ténues de vidas que um dia vivemos.

E isto são coisas em que penso, quando penso, quando venho no carro ao fim do dia. Olhando a rua, ouvindo música e pensando em coisas assim.

E, também por isso, penso também (e cada vez mais): em vez de me pôr a escrever coisas à toa no blog, se calhar mais valia que me pusesse a escrever algumas memórias só para mim para poder contar tudo, com nomes, com datas, com moradas, porque se agora quase já não tenho com quem partilhá-las, qualquer dia posso nem conseguir agarrar esses meus pensamentos. Um dia pode o ar rarefazer-se à minha volta, sentir-me em apneia, não conseguir agarrar recordações, sentir que voaram todas para lugares intangíveis.


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Um dia feliz para quem está aí desse lado.


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