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segunda-feira, janeiro 16, 2023

Vitoria Bueno - voar sem asas

 

Hoje, quando fazíamos a nossa caminhada, cruzámo-nos com um casal que, um de cada lado, dava o braço à filha, uma adolescente que presumo que sofresse de paralisia cerebral. Os movimentos da jovem eram irregulares, a cabeça inclinava-se para um lado, a voz deformada, quase incompreensível, as pernas não direitas fazendo com que tropeçasse nos próprios pés. Iam muito devagar e, de vez em quando, a mãe ajeitava-lhe as pernas. Pareceu-me que ela protestava mas os pais estimulavam-na, insistiam. O esforço dos três comoveu-me. Enquanto nós andávamos sem qualquer dificuldade nem nos ocorrendo a sorte que temos, para aqueles três tudo era notoriamente uma luta.

O vídeo abaixo também é comovente. Vitoria Bueno tem 18 anos e nasceu sem braços. Mas, do que aqui se vê, nada que a impedisse de tentar levar a vida tão normal quanto possível pois desde pequena que usa os pés em vez das mãos. E nada que a impeça de fazer uma coisa que adora fazer: dançar. 

Dir-se-ia que os braços são indispensáveis ao equilíbrio em todos os movimentos em que os pés saem do chão ou em que o corpo se inclina no ar. Não para Vitoria Bueno. Ela mostra que tudo é possível quando a vontade desafia as leis da física e sai a ganhar.

Vitoria Bueno's INSPIRING Dance Performance Might Make You Emotional 

| AGT: All-Stars 2023


Desejo-vos um boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Paz.

sexta-feira, março 15, 2019

Quem é Sophie de Oliveira Barata?


Não é novidade para ninguém: ele há coisas. E se há quem ainda duvide pois saiba que é bom não duvidar. 

Ontem falei de Viktoria Modesta, a bela mulher biónica cuja sensualidade é temperada com os requintes de sofisticação da sua perna artificial. E contei como a perna, seja em transparente luminoso, seja um opaco negro, seja como for é sempre uma peça de arte.

Pois bem. 

Nestas coisas que para mim sempre me surpreendem,aconteceu que hoje, ao ir espreitar a caixa de correio, tinha lá um mail de alguém que nunca antes me tinha contactado. Fui ver e, nem mais, era de uma familiar da autora das ditas obras de arte. E, de novo nem mais, a dita autora é uma artista luso-inglesa: justamente Sophie de Oliveira Barata. Dizia-me a Leitora: as sua próteses são uma obra de arte, cientificamente concebida e executada. E sugeria que eu pesquisasse. E, curiosa, fui mesmo pesquisar. E aqui estou a confessar a minha surpresa e admiração. 

Transcrevo do site da sua empresa:
Sophie Oliveira Barata
THE ALTERNATIVE LIMB PROJECT was founded by Sophie de Oliveira Barata, using the unique medium of prosthetics to create highly stylised wearable art pieces.
Merging the latest technology with traditional crafts, Sophie’s creations explore themes of body image, modification, evolution and transhumanism, whilst promoting positive conversations around disability and celebrating body diversity. 
Sophie collaborates with specialists in fields such as 3D modelling, electronics, and cutting edge technology to create each piece. Clients have included Paralympic athletes, music performers, models and video game companies.

Recomendo a navegação pelo site pois há mundos alternativos que devem ser conhecidos. Se a amputação de um membro é uma coisa naturalmente assustadora, acho que é bom saber que a perturbação motora e estética e de auto-estima que daí resulta pode ser mitigada através de um membro ergonomica e esteticamente concebido que se use com orgulho.


Desejo que nenhum dos meus Leitores ou de amigos ou familiares seus tenha problemas desta natureza mas, seja como for, se há coisa que tenho aprendido ao longo da vida é que mais vale estarmos informados do que, admitindo que a nós nunca nada acontecerá, levantarmos a crista e seguirmos em frente sem nos determos a conhecer o mundo dos outros.

Para melhor conhecermos quem é Sophie, o que faz e como vê o seu trabalho, junto um vídeo onde poderemos ouvi-la na primeira pessoa.


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Há pessoas com uma vocação, um engenho e uma arte especiais e Sophie de Oliveira Barata é uma delas. 
Um orgulho alheio.

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E muito obrigada à Leitora que me deu a conhecer a Sophie. E, se puder, diga-lhe que vai daqui um abraço e mil agradecimentos para ela.

quarta-feira, março 13, 2019

Viktoria Modesta
-- a sensual rapariga biónica que o Crazy Horse vai ter em palco em Junho





Viktorija Moskaļova, nasceu na Letónia, na antiga União Soviética, há trinta e um anos. Se há pessoas cujo destino parece traçado à nascença, a bela menina de pele muito branca e cabelo muito preto, foi uma delas. 

O parto correu mal. Houve negligência médica. Fruto disso, passou anos a entrar e a sair de hospitais, acabando por ficar com uma deficiência grave numa perna. 

Para fugirem da sociedade condicionada da antiga União Soviética, tinha ela doze anos quando foram para o Reino Unido. Não viveram, de novo, tempos fáceis -- agora no mundo underground de Londres.

Depois de várias cirurgias sem sucesso e com o futuro comprometido, aos vinte anos Viktorija tomou uma decisão dramática e, de certa forma, muito corajosa: na esperança de passar a ter uma vida 'normal', não fez por menos e resolveu amputar a perna do joelho para baixo.

Desde pequena que tinha tido aulas de música e que cantava. Apesar de todos os problemas, aos quinze tinha-se estreado como modelo. Mas foi, justamente, a partir do momento em que se libertou das amarras das dores que deu asas à sua incomum criatividade. A deficiência viria a transformar-se no seu maior trunfo. Reparando que as próteses que simulavam os membros nunca se confundiam com pernas de verdade, decidiu optar pelo oposto: arranjar uma prótese estilizada, nada que pretendesse ser uma perna de carne e osso. E a partir daí não parou de inovar. 

Com um corpo espectacular, um rosto bonito e uma pele perfeita, todo o seu erotismo se evidencia de uma forma que acaba por ser superlativa quando, em acréscimo aos dotes naturais, se junta o apontamento gótico da perna artificial. E a prótese pode ser em acrílico transparente, pode ser em negro opaco, pode ser luminosa -- mas tem sempre um toque de arte futurista.


Viktorija chama-se agora Viktoria Modesta e é um sucesso. Canta, dança, desfila. É uma performer talentosa, orgulhosa, inovadora.

Viktoria mostra bem ao mundo como há fatalidades que, afinal, são reversíveis. Ou conversíveis. E mostra que a beleza não se cinge a estereótipos. E mostra também que a vida pode ser aquilo que quisermos.

Viktoria, na senda de outras 'bombas' como Dita Von Teese ou Pamela Anderson, vai ser cabeça de cartaz entre 3 a 16 de Junho no Crazy Horse no célebre cabaret parisiense. Claro que é para quem pode: os bilhetes custam 127€ (no entanto, calma, dão também direito a uma garrafa de champanhe).

Mas agora suspenda-se, meu Caro Leitor. Suspenda-se e veja bem as imagens que aqui partilho consigo. E esqueça, por favor, esqueça tudo o que julgava saber sobre incapacidade física. Esqueça. Olhe de frente. Sem pudor.


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Viktoria Modesta, próxima Bionic Showgirl no Crazy Horse, Paris 2019



Viktoria Modesta - Prototype


[Vídeo de 2014 que já conta com quase 12 milhões de visualizações]

(A não perder a parte final)


E viva a vida.
Viva a vida, meu Querido Leitor.

domingo, março 10, 2019

Escuta-me





No outro dia, para guardar a lenha mais recente, resultante dos infindáveis desrames, o meu marido andou a limpar a mais antiga e, para despachá-la mais rapidamente e para aquecer a sala, encheu a salamandra. Acontece que aquilo desatou num fogaréu dos diabos, fez quase imediatamente um calorão insuportável, num ápice aqueceu esta sala e todas as divisões da casa e, tanto o calor, uma prateleira vergou e derramou a pilha de livros que tinha em cima, aqueceu-me estupidamente o estojo da máquina fotográfica que estava a mais de um metro e, de repente, percebemos que, se não interrompessemos rapidamente aquilo, todas as coisas da sala e, se calhar, também nós próprios derretíamos.


Então, o meu marido abriu a porta da salamandra e a porta da sala e, com uma daquelas pinças de lareira, tirou, um a um, todos os troncos que estavam a arder e pô-los lá fora. Depois, foi buscar a mangueira e apagou-os. Assunto resolvido. A casa manteve-se quente até ao dia seguinte, até nos irmos embora.

Hoje voltou a acender a salamandra mas com uma quantidade normal de lenha. Estávamos aqui sossegados, no sofá, eu a escolher umas lãs e a estudar a progessão do bordado, ele a ver televisão, quando começámos a sentir o cheiro da madeira mais intenso do que o costume, depois os olhos a quererem arder. E, de repente, olhámos em volta e reparámos que a sala estava a encher-se de fumo. E, ao mesmo tempo, vimos o que estava a acontecer. O tubo que leva os fumos da salamandra e que atravessa o tecto até à chaminé tinha-se desencaixado e o fumo saía livremente para a sala. Num salto, em simultâneo, abrimos porta da sala e ele, de imediato, voltou a tirar os troncos e a pô-los na rua. 


Presumo que, com o calor excessivo da semana passada, o tubo deve ter dilatado demais e, ao arrefecer, rachou e, ao rachar, desencaixou e deu no que deu. 

O que acontece é que, durante o tempo em que durou até que dessemos por isso, não foi apenas a sala que se encheu de fumo: foi toda a casa. De repente, por todo o lado, uma nuvem densa, o ar irrespirável. Portanto, tivemos que estar com portas e janelas todas abertas, o frio da noite a entrar para a casa, tivemos que ir para o lado de fora abanar as portas para ajudar a sair o fumo. No meio disto, uma coisa boa: a noite límpida, estrelada, um céu planetário, luminoso, lindo.

Até fui buscar a máquina e disparei-a contra a noite. Quando olhei as fotografias, não estavam as estrelas, estavam, sim, os ramos nus das árvores. Mas, uma vez mais, a preguiça impede-me de me levantar para as importar para aqui.


Agora ainda cheira imenso a fumo e temo ficar com as roupas e os livros e tudo o mais a cheirar a fumo mas, pelo menos, já não se sente, não se me choram os olhos, já não há névoa dentro de casa.

De tarde, depois de termos vindo de casa dos meus pais, estivemos, de novo a cortar ramos de árvores. Um dia ainda as árvores ficam descaracterizadas, apenas um penacho no alto da cabeça. Antes gostava de ter um bosque denso. Agora, com a consciência do risco dos incêndios, transformámos a nossa floresta num conjunto de seres disciplinados, aperaltados. Custa-me um bocado. Mas contra factos não há argumentos e eu adapto-me à força das circunstâncias. Tem que ser, pois que seja. Heaven pode ser lindo e, ao mesmo tempo, um lugar seguro, onde não cheguem as chamas dos infernos.


Agora temos um mar de ramos cortados e não os vamos poder queimar enquanto não nos inscrevermos no site das queimas. Tentámos mas a aplicação ainda não está afinada, identificou o local como se estivessemos no portugal insular. Sugeri que ligássemos para os bombeiros mas o meu marido não lhe apeteceu. Espero que consigamos resolver isto a tempo. 

Enquanto escrevo, estou a ver a Proposta Indecente. Apesar de já o ter visto há séculos, estou, na mesma, a achar-lhe piada. Ainda por cima, é uma história de amor e eu gosto de histórias de amor.

Tenho tantos assuntos atrasados para falar. Por exemplo, gostava de vos falar de um tema que está na base de um filme sobre o qual vi a entrevista com a actriz principal. É um tema meio misterioso, coisa muito fruto dos tempos actuais, coisa pela qual já me fizeram passar. Mas a verdade é que muito hard work no campo, algumas contrariedades no dia a dia da cidade, tudo muito longe umas coisas das outras, muito trânsito, muita agitação -- tudo junto faz com que, aqui chegada, não tenha grande vontade de navegar em águas profundas. Por isso, sobrevoo de mansinho, saltito por entre folhagens, palavras breves, aflorações, não mais que isso. Os temas da actualidade vão passando, pouco rasto deixam e eu mal lhes toco, apenas espreito e é quando é. Hoje, à vinda, pensei: um dia deixo-me disto, um dia, em vez disto, escrevo só para mim, escondo a escrita, escrevo sobre desactualidades, sobre suposições, ficções, pensamentos à toa, sobre coisas cá minhas, só minhas.


E assim é que, sendo duas da manhã e nada tendo de concreto para vos falar, vou apenas partilhar um vídeo que me pareceu bonito e que aborda um tema que me interessa: o da tolerância inclusiva. Segregar alguém ou, pior ainda, parodiá-la, menosprezá-la ou, de qualquer outra forma, fazê-la sofrer não apenas me parece indesculpável como, na medida das minhas possibilidades, faço tudo para o evitar.
Apenas tenho dificuldade em ser assim com os estúpidos, os cagões, os burros armados em doutores. Com esses, se puder, sou tudo menos inclusiva. Provavelmente, quando atravessar a célebre parede de luz branca e me crescerem asinhas etéreas nas costas, a entrada no céu ser-me-á barrada como paga por todos os pecados que cometi, nomeadamente por cada um dos estúpidos relativamente a quem fiz de tudo para guardar distância. Mas não faz mal, mais vale ficar in hell, de shortinho e alcinha (por causa do calor), do que ficar sentada em cima de uma nuvem a receber medalhas por ser boazinha para gente que não vale uma casca de caracol furada.

Mas da gente boa que é posta de lado apenas por ser diferente, da gente que sofre por não se sentir integrada, dessa eu quero estar perto, quero escutá-la mesmo quando a sua voz não se faz ouvir. 

Listen to me



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As imagens mostram arte japonesa e Camões aparece-nos através da voz de Amália

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A todos desejo um belo dia de domingo

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domingo, dezembro 31, 2017

2017
-- A vida. A beleza. O humor. O amor. --




Mas, se não faço balanços e se não me considero competente para fazer selecções do que de melhor e pior se passou no ano e, se não guardo apenas recordações boas deste ano que está a chegar ao fim, a verdade é que, apesar de tudo, tenho algumas coisas a dizer. Nada de extraordinário, claro. Insignificâncias.


Por exemplo, continuo a achar que viver é um privilégio e que não devemos fazer a desfeita de não desfrutar a vida o melhor possível. Também devo confessar que aprendi a aceitar um pouco melhor que a decadência pode ser uma parte natural da vida, a aceitar a naturalidade de, ao mesmo tempo que num quarto, o corpo de um homem, no seu leito, caminha inexoravelmente para a anulação da vida, na sala ao lado várias crianças riem e brincam rodeadas de adultos que as olham com alegria e agradecimento. Constatei -- e isso foi importante para mim -- a forma inteligente como as crianças brincam depois de terem aceitado com verdadeira sabedoria que alguém da família se foi.

Uns vão, outros chegam. Um permanente devir que tem qualquer coisa de mágico, de maravilhoso. Mesmo que, por vezes, triste, é quase sempre maravilhoso. De 2017 guardo todos os momentos em que a vida me marcou.


E, depois, há a beleza. Parte da minha vida dedico-a à procura da beleza. Diria que me alimento de beleza. Seja numa paisagem, no tronco de uma árvore, na erosão de uma pedra, no revolteio de uma onda, na quietude de um veleiro que cruza o rio, na delicadeza de uma flor, no sorriso de uma criança, numa pintura, nas cores imprevistas que afloram uma parede, numa música, numa sombra ou num golpe de luz, num voo de uma gaivota ou no de uma bailarina, num harmonioso e elegante cerzir de palavras, no canto de um pássaro ou de seres humanos, no suave curvar de uma montanha recortada no horizonte, num simples gesto. Para mim a beleza é fundamental e de 2017 guardo todos os momentos em que a beleza me tocou.


E depois há o humor. A irreverência, a insolência, a graça e a inteligência. A síntese perfeita de tudo isso consubstanciada no riso. Ou apenas no sorriso. O condimento da vida sem o qual não passo. A vida sem beleza e sem humor poderia ser muito maçadora. Procuro o humor. Sinto-me bem junto a quem me faz rir. Não tenho muita paciência para pessoas incapazes de me fazerem rir. 2017 trouxe-me bons momentos de risota. Festejo-os -- e desejo que nunca o sentido de humor me abandone.


E, depois, claro, o amor. A cola que me une àqueles que justificam a minha existência. Em 2017 como desde que me lembro de mim, o amor esteve presente na minha vida. Não há uma (uma única, quero eu dizer) forma de amor: há muitas. E tenho tido o privilégio de muito amar e de muito me sentir amada e de muitas maneiras. Não saberia viver sem isso. De 2017 guardo os gestos e as palavras de amor que para sempre ficarão guardadas no meu coração.




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Todas as histórias em que a generosidade de alguns e o trabalho pela inclusão de todos, em especial daqueles a quem a vida de alguma forma desfavoreceu, me merecem atenção e carinho e é com muito gosto que me despeço de 2017 com cinco dessas histórias.


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A primeira, a segunda, a quinta e a última imagens são obras de Sofia Bonati

A criança é uma refugiada  rohingya fotografada por Marko Djurica

O homem que contempla a natureza no Japão foi fotografado por Eugene Hoshiko

O homem-regador em função junto da mulher-flor representa o amor, o deixar o outro florescer, a necessidade de cuidados numa relação de amor e é da autoria de Wang Xingwe

Lá em cima Sabine Devieilhe e Marianne Crebassa interpretam Delibes no Duo des fleurs da ópera Lakmé

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E 2017 foi um ano bom para mim também por uma outra razão: o número de visitas a Um Jeito Manso continuou a aumentar e isso é, para mim, muito recompensador. Estar aqui a escrever e sentir que, do outro lado, está alguém que gosta de ler as minhas palavras deixa-me confortada, agradada. A todos quantos aqui me acompanham deixo o meu sentido agradecimento. 

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Penso que ainda aqui voltarei antes que 2017 acabe mas, pelo sim, pelo não, vou já adiantando que a todos desejo que 2018 venha com saúde, sorte e alegria. 

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domingo, março 02, 2014

"E ainda querem falar de natalidade? Haja vergonha!" diz Paulo Baldaia a propósito da suspensão da atribuição de subsídios a crianças pobres com necessidades especiais ou deficiências. "O que mais perturba (...) é ter um primeiro-ministro que tem como principal aliado, como alma gémea, (...) alguém que está na política para fazer outra coisa qualquer que não política" explica Pedro Marques Lopes, referindo-se, claro, ao regresso do fantasma Vai-Estudar-Ó-Relvas oas cargos dirigentes do PSD. Ambos os artigos no DN.


Não gosto de transcrever artigos na íntegra pois pode parecer que quero usurpar o mérito alheio. No entanto, dois artigos que acabo de ler merecem-me tal apreço que me permito transcrevê-los quase na íntegra. Ou melhor, o primeiro deles, o de Paulo Baldaia, vou mesmo divulgá-lo todo pois tenho dificuldade em extrair parágrafos sem lhe retirar a força.

Lidos pela ordem que aqui vos mostro, talvez fique clara a explicação para a estupidez e desumanidade, para a canalhice política que tem o seu corolário na situação descrita por Paulo Baldaia: talvez tudo resulte, sobretudo, da maneira de ser dos fautores de toda a demencial e sangrenta estratégia que, tão laboriosa e insensivelmente, vem sendo levada a cabo, fautores esses de quem Pedro Marques Lopes fala no seu artigo.

*

Para acompanhar a leitura destes dois textos, que venha Yo-Yo Ma e interprete Bach 

(Sarabande of the Six Suite for Unaccompanied Cello)


Dança sobre o gelo a cargo de Jane Torvill e Christopher Dean.




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Sexta, às nove - por PAULO BALDAIA


Sexta-feira, às nove da noite, estava em casa a ver um programa de reportagem na RTP com o nome que dá título a esta crónica. A essa hora fiquei com a certeza de que a sociedade faliu por decisão política. Há crianças pobres com necessidades especiais e com deficiências a quem o Estado está a recusar subsídios, que até aqui fornecia.

Para que não pareça apenas mais uma crónica contra a austeridade, devo recordar que eu sou dos que entendem que Portugal viveu acima das suas possibilidades, dos que entendem que o Estado tem de deixar de ter défices para poder pagar o que deve, dos que entendem que os cidadãos não podem exigir do Estado o que Estado não for capaz de pagar.

Mas não é do pagamento em auto-estradas que um dia foram grátis que estamos a falar. Nem sequer de cortes nas pensões e nos salários ou da brutal carga de impostos que queima em lume brando a classe média. É pior, muito pior. É a desistência de seres humanos que, pela sua fragilidade, mais precisam da nossa ajuda.

Eu pago impostos e pago-os com gosto por ver neles a vantagem de estar a contribuir para uma melhor redistribuição da riqueza, mas, acima de tudo, porque sei que há determinadas coisas que só o Estado pode resolver e que para isso precisa de dinheiro.

Na reportagem da RTP havia, por exemplo, uma criança de seis anos que estava a dar os primeiros passos no mundo das palavras (apenas dizia carro). A família, com um rendimento de 900 euros, viu recusado um subsídio de 300 para pagar uma das terapias de que a criança precisa. E a outra família com um rendimento de 620 também foi retirado o subsídio. Não estamos, portanto, a falar de o Estado recusar ajuda a uma família que tem rendimentos que dispensam esse apoio.

Sexta, às nove, fiquei a pensar em jornalismo e a desejar que aquela reportagem seja suficiente para os governantes corrigirem o tiro. Não consigo perceber como alguém consegue dormir tendo responsabilidade nesta matéria, nem entendo como pode algum político aceitar como opção cortar nos subsídios a crianças que, tendo nascido com necessidades especiais ou deficiência, vivem em famílias com carências financeiras.

Sim, eu sei, sabemos todos, que o dinheiro não chega para tudo.

Num país que tem mais de 300 mil desempregados sem qualquer rendimento ou subsídio do Estado, é evidente que, pelo menos temporariamente, deixar pessoas para trás e sem qualquer apoio é uma opção política que alguns consideram válida. Incluir neste pelotão de deserdados crianças que tiveram a dupla infelicidade de nascer com deficiência e em famílias carenciadas não é apenas uma questão política, é uma questão civilizacional.

E ainda querem falar de natalidade? Haja vergonha!


No DN

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A alma gémea - por PEDRO MARQUES LOPES



O Congresso do PSD da semana passada não teve propriamente muitas novidades.

(...)

Apareceu Marcelo Rebelo de Sousa, que fez questão de se rir na cara de Passos Coelho, como quem diz: "Podes-me chamar cata-vento e tudo o que tu quiseres, mas não tens outro remédio senão apoiar a minha candidatura à presidência." Assim se encerra definitivamente o dossier candidato do centro-direita, para desgosto dos barrosistas e dos assessores políticos mais próximos de Passos Coelho que adorariam criar uma espécie de Sarah Pallin à portuguesa.

E, claro, o regresso de Miguel Relvas à política. Imagino que para quem teve tanto trabalho a tornar minimamente interessante um congresso sem assunto, a dar-lhe dinâmica e a tentar criar factos políticos, será duro perceber que o grande tema do evento foi o regresso de Relvas. Mas foi. As más notícias batem sempre as boas, já se sabe.

Há quem tenha dito, com alguma piada, que Passos Coelho está tão preocupado com uma eventual derrota, ou vitória demasiado curta, de António José Seguro, nas eleições europeias, que trouxe Miguel Relvas de novo para a política. 

De facto, o antigo ministro é, para todos os portugueses e para grande maioria dos congressistas do PSD presentes no Coliseu - como se percebeu pela votação na lista que ele liderava -, o símbolo de algo que ninguém quer na vida política. 

Ao contrário do que o primeiro-ministro possa pensar, ninguém se esqueceu das mentiras ao Parlamento, do patético processo da licenciatura, da inexistência dum pensamento político minimamente elaborado, dos truques, da RTP, da TAP, dos ditos por não ditos, dos negócios mal explicados. 

Francisco Assis talvez não o faça, mas nada melhor para que Paulo Rangel perca votos do que recordar amiúde que Miguel Relvas o está a ajudar na campanha.

Agora parece que, afinal, estávamos todos enganados. Miguel Relvas encabeçou a lista, patrocinada por Passos Coelho, ao Conselho Nacional do PSD, principal órgão do partido entre congressos, mas não está de regresso à política. 

Foi o próprio ex-ministro que o afirmou, na última sexta-feira, ao semanário Sol.

A pergunta impõe-se: se Miguel Relvas vai para primeira figura dum órgão político mas não vai fazer política, vai para lá fazer o quê?


Há um lado quase ingénuo nas declarações do ex-político mas principal figura dum órgão político, atual consultor de empresas mas sem que se saiba que tipo de consultoria faz. Sim, obrigado pela lembrança, nós sabemos que há muita gente que está na política para tudo menos para fazer política. 

Homens e mulheres para quem a política é uma maneira de arranjar contactos, oportunidades de negócio, empregos. Até para vender consultoria, às tantas.

(...)

O que mais perturba, porém, é ter um primeiro-ministro que tem como principal aliado, como alma gémea, como compagnon de route, alguém que está na política para fazer outra coisa qualquer que não política.


No DN


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As três últimas imagens são, como é fácil ver, da autoria do responsável pelo inspirado blogue We Have Kaos in the Garden


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quarta-feira, fevereiro 12, 2014

"Ser gay é uma desgraça", escreveu alguém no google e veio parar ao Um Jeito Manso. E eu digo: desgraça coisa nenhuma. Porque haveria de ser? E relembro a história do gago que me tirou do sério. Nada a ver, claro. Mas é que ser gay ou gago não tem mal. Já eu ser maluca é capaz de ser um problema (pelo menos às vezes é).


A frase que referi no post anterior foi a frase que escrevi em epígrafe. Quando a li nas estatísticas de acesso, fiquei um pouco triste por pensar que alguém deveria estar a sentir-se infeliz e tentou encontrar algum amparo na internet, alguém que lhe dissesse que não tinha por que se sentir desgraçado(a).

Talvez a pessoa que escreveu isso queira esconder a sua orientação sexual e conviva mal com o disfarce ou talvez o tenha assumido e sinta alguma recriminação social. O que eu posso dizer é apenas a minha opinião mas o que diria se estivesse a falar com essa pessoa seria que assumisse e vivesse a sua vida sem vergonha ou constrangimentos. Com dignidade. Com segurança para que ninguém se sinta no direito de troçar.

É verdade que toda a gente sente uma vontadezinha infantil de dizer piada ou fazer sorrisinho perante algumas situações que fogem ao padrão: é com o vesgo (conforme o divertido vídeo do post abaixo deste), é com o gago, é com o baixote, baixote mesmo, é com o gay abichanado. Mas isso, de facto, é coisa sem importância. Pode magoar os visados, e acredito que magoe, mas o que eles têm que perceber é que quem ri o faz sem más intenções, por pura parvoíce.

Vou contar-vos. Aqui há uns anos eu estava a ter uma reunião com um grupo no qual se incluíam vários espanhóis. Às tantas, já no fim da reunião, antes de irmos almoçar e já todos cheios de fome, ficámos todos em círculo, de pé, conversando, num registo informal. E, às tantas, um dos espanhóis que tinha estado calado até então, um que tinha ar de mexicano, começou a falar. E, senhores... era gago, gago mas gago. Uma coisa desesperante. Para começar a falar dava balanço e ficava ali quase a gripar, aquilo não pegava de maneira nenhuma. Eu já aflita porque o homem de cada vez que abria a boca ficava ali g...ga....g....ga....ga....ga.... e nada. Todos em suspenso e nada. Por fim, com a língua a esbracejar-lhe dentro da boca, quase como que a pedalar, a coisa lá saía mas, logo a seguir, porque uma frase se faz de várias palavras, vinha mais outro suplício, p...p....pa....p...pa. E todos em círculo, cheios de fome e o mexicano a querer contar qualquer coisa que não saía nem por mais uma. 

E então aconteceu aquilo de que tenho pavor. Começou a dar-me vontade de rir. Temo esses momentos. Começo a tentar conter-me e a vontade de rir vai aumentando quase descontroladamente. 

Não dava para me rir, todos em volta do gago, convidados de cerimónia, uma situação sem escapatória. Podia sair dali a correr como se me tivesse dado uma vontade súbita de fazer chichi mas isso seria ridículo e, além do mais, o terror que acompanha esses momentos tolhe-me o raciocínio. O gago continuava a ganhar balanço para mais uma sílaba e eu vejo toda a gente de olhos postos nele a ver no que aquilo ia dar e ao olhar para os outros ainda mais aterrorizada eu ficava pois sabia, de certeza certezinha, que bastaria detectar algum sorriso contido para eu me desatar a rir descontroladamente.

Então pus-me de olhos no chão e já estava a ver o caso mal parado. Percebia que era absurdo o homem estar a falar e eu de olhos no chão. Às tantas, um colega meu, o que estava ao meu lado, percebendo que alguma coisa se passava comigo (e sem discorrer que tinha a ver com o patinanço do gago), pergunta-me 'Passa-se alguma coisa?'. Claro. O mal nestas coisas é alguém me dar o pretexto. Eu queria ser capaz de lhe dizer em surdina 'passa-se que o gago nunca mais vai chegar ao fim da frase' mas desatei a rir, a rir, mas de lágrimas mesmo. Virei-me de costas e o meu colega virou-se também para me encobrir e para fingir que estávamos a conversar. Eu chorava a rir e até já estava era mesmo cheia de vontade de fazer chichi, e ria, ria, sem me conseguir controlar. E o meu colega, os homens conseguem ser mesmo parvos, não percebia o que se passava 'mas o que foi...?' mas só de me ver rir assim já ele se ria também à gargalhada.




Juro que não sei como foi que a coisa acabou porque estive lavada em lágrimas a rir feita maluca, eu e o meu colega, de costas, um pouco afastados, nem sei quanto tempo.

Por fim, lá vimos o grupo deslocar-se para a saída e lá nos dirigimos para o almoço. Quando respirei ar puro até me parecia mentira, refresquei, passou-me aquela pancada. Ao meu colega também. E lá me voltou a perguntar 'mas o que foi?'. A custo lá consegui articular 'o gago...' e desatei-me outra vez a rir. E ele, ainda sem perceber: 'o que é que tinha o gago?'. Desisti de explicar. Aliás não tinha explicação.

E agora que estou aqui a escrever e a relembrar-me estou outra vez na mesma, a chorar a rir.

Mas digam-me lá: que vontade de rir é que isto dá? Nenhuma, não é? Maluquices, que se há-de fazer?


E até me sinto ainda mais maluca por parecer que estou a comparar a gaguez com a homossexualidade. Sei que não tem nada a ver. Mas a questão é que não há que ter vergonha, esconder, reprimir, etc. Há é que estar psicologicamente preparado para reacções parvas dos outros. E rir com essas reacções, encarar com bom humor, reverter a situação a seu favor.

Mostro-vos um exemplo: uma entrevista de Jô Soares com Cláudio Gaspar Dottori, Claudinho, um político gago com um fabuloso sentido de humor.





E, como já aqui o disse tantas vezes, quanto a políticos gays: sejam eles políticos, deputados, ministros, o que forem, o que interessa é que sejam inteligentes, decentes, competentes e honrados.

Drama é serem parvos, manipuladores, incompetentes.

Ainda se fossem umas bichas descaradas como o Sebastian... ao menos far-nos-iam rir. Agora estes que por cá temos dão-nos é vontade de chorar.

Ora vejam o bom do Sebastian nos EUA com um presidente giro e negro (does it ring a bell?) e um presidente francês, fraca figura (a bon entendeur, salut !)

É Little Britain, uma série that I love, love, love.




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Se descerem um pouco mais, poderão ver mais uma prova do que são preconceitos inaceitáveis, desta vez contra os vesgos. É na Porta dos Fundos, o sítio onde se passam coisas impróprias para consumo.

NB: Hoje não consigo responder a comentários nem a mails (ando uma gazeteira imperdoável, eu sei, mas não tenho mesmo conseguido) porque ainda tenho que ir trabalhar. A sério. Dá para acreditar? Aliás, entre o post que se segue e este também estive a trabucar.

[Dantes, quando havia trabalho para todos, costumava dizer-se: quem não trabuca não manduca. Velhos tempos.]

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E, assim sendo, despeço-me apressadamente, desejando-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira. 

Nem sei se vai estar de chuva ou não. 
Mas como desde que saio de casa de manhãzinha até que regresso à noite não ponho um pé ao ar livre, na prática nem me faz diferença. 
Isto é que é uma vida... Deve ser por isso que fico com os fusíveis meio curto-circuitados. 

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Vesga? Vesgo? ... Algum preconceito contra isso?


Estou vidrada. Fã. Fãzaça. O que me farto de rir. Para afastar de mim as chatices e as canseiras de dias como o de hoje, ponho-mo a ver isto e o que me rio aqui nem vocês queiram saber. Em menos de dois minutos já se me varreu toda a saturação. Sou mesmo muito primária. Assim é que eu vejo mesmo como sou.

Antes já tinha estado a ler bem os comentários e depois as estatísticas das palavras colocadas nos motores de busca que trazem as pessoas até mim.

Acho um piadão. Carradas de pessoas com dúvidas sobre a sexualidade do ministro. De cada vez que aparece na televisão é isto. 


Até eu, ao ouvi-lo há bocado - e nem era o tom de voz, eram mesmo os trejeitos esganiçados, as coisinhas, as gracinhas que ele deve achar que são tiradas inteligentes - pensei cá para mim: este coisinho só pode ser uma bichinha.

Mas nada contra a bichice, contra mesmo é ser tão parvo. 

Mas depois vi uma frase que me deixou um bocado triste. Talvez volte a ela daqui a nada. 

Apetece-me voltar à paródia. Abro a Porta dos Fundos e é um pagode. Deve ser uma diversão estar ao pé desta gente enquanto está a inventar os textos e a representá-los.


Preconceito

(Os vesgos)



segunda-feira, novembro 11, 2013

Pássaros Livres - A maravilhosa história de superação dos Team Hoyt (Rick & Dick Hoyt)


Transcrevo da wikipedia:

Team Hoyt (Equipe Hoyt) é composta pelo pai (Dick Hoyt) e pelo filho (Rick Hoyt, nascido em 1962) em Massachusetts (EUA). Juntos completaram maratonas, triatlos e outros eventos desportivos. Rick é deficiente desde o nascimento, pois, ao nascer, o seu cordão umbilical ficou preso ao pescoço e o cérebro deixou de ser oxigenado.


Graças aos seus pais, que ignoraram os avisos dos médicos que diziam que ele se tornaria um vegetal, aos 12 anos Rick começou a usar um computador especial para comunicar, usando movimentos de sua cabeça. 

As suas primeiras palavras foram: "Go Bruins!". 


Nessa altura a sua família descobriu que ele era um fã de desporto. Eles ajudaram-no a correr a sua primeira corrida em 1977, uma corrida beneficente de cinco milhas.

Dick é tenente-coronel aposentado da Air National Guard. Rick é graduado na universidade de Boston e agora trabalha na faculdade Boston. Eles continuam a competir em corridas e também são motivadores.


Até Junho de 2005, o Team Hoyt já participou de um total de 911 eventos, incluindo 206 triatlos (seis deles competições Ironman Triathlon), vinte duatlos, e 64 maratonas, incluindo 24 maratonas de Boston consecutivas. Eles também pedalaram e correram a corrida dos EUA, em 1992 (uma jornada de 3735 milhas, completa em 45 dias).

Quando perguntam a Rick que coisa é que ele  gostaria de dar ao pai, ele responde: "A coisa que eu mais gostaria de fazer pelo meu pai seria sentá-lo numa cadeira e poder, eu, empurrá-lo com minhas forças"



Free Birds

sábado, junho 08, 2013

"Lou, je m'appelle Lou" ou a tocante entrega musical e afectiva de um jovem de 14 anos, um ser literalmente excepcional (como dizem os pais) que sofre do síndroma de Morsier. E dois casos de deficiência com quem convivi, um directamente, outra através do pai. Não é fácil.



Uma Leitora enviou-me um filme com um rapazito cego que toca piano de uma forma um pouco diferente e que canta com uma voz bonita. Tocante. Já vi algumas vezes, emocionada. Fui saber mais deste menino, do Lou.

Estive a ler o site onde se fala deste jovem a quem os pais tratam por Petit Prince e que sofre de uma 'rara', estive a ler os sintomas desta doença de que nunca tinha ouvido falar, estive a ler as Cartas a Lou escritas pelo pai ao longo de seis anos, desde os 5 até aos 11 anos do filho, de facto, mais um diário do que cartas.

Descobri que, entretanto, Luc Boland, Bèrlebus, o pai, tem um blogue, justamente chamado LE JOURNAL DE BÈRLEBUS, no qual prossegue os seus relatos, desabafos, queixas sobre o sistema de ensino que, segundo ele, não apoia tanto quanto deveria crianças diferentes.

Quem tem a sorte de ter crianças normais, sem problemas, frequentemente não se apercebe da sorte que é não ter que lutar por tudo o que tenha a ver com a vida de crianças problemáticas. Tudo pode ser um drama: a higiene, o equilíbrio, a locomoção, a aprendizagem, a sociabilização.

Quando eu era pequena, ao pé de nós pais morava um casal amigo dos meus pais que tinha um filho com uma ligeira deficiência mental e problemas de locomoção. Lembro-me que usava sempre sempre botas ortopédicas e umas talas metálicas nas pernas. Ele andava na escola comigo e era tratado como um menino normal. Mas não era. O seu atraso intelectual foi sendo mais notório à medida que crescia.

Depois, na adolescência ou quando adulto, era um problema para os pais. Fazia coisas complicadas, às vezes punha-se nu à varanda e, como, de aparência, era um homem quase normal, os vizinhos faziam queixa, deixando a mãe destroçada. E desarrumava tudo, e sujava-se. Os pais tinham pavor de morrer antes dele - o que seria dele sozinho? Mas afinal morreu cedo. Os pais tiveram um grande desgosto, filho é filho. Já só vejo a mãe (ficou viúva, entretanto) em circunstâncias tristes, geralmente em velórios. Vem sempre de braços abertos na minha direcção, vem dar-me um abraço muito apertado, 'olha a minha Jicas...' (era assim que ele me chamava e foi assim que fiquei para ela) e gosta sempre de recordar coisas do seu menino e gosta de recordar como eu brincava tão bem com ele. Diz sempre que sente muito a falta dele. Esqueceu os momentos difíceis, apenas recorda a ternura dele, a companhia. Afinal era seu filho e de um filho gosta-se da mesma maneira, seja normal, seja diferente.

Também trabalhei com um administrador, pessoa divertida, que me fazia rir com as suas histórias, piadas, irreverências e com quem muito aprendi a muitos níveis. Tinha sido governante (no tempo em que para governante ia gente do mais competente e conhecedora que havia no país), e depois disso tinha sido administrador de outra grande empresa. Tinha-se separado da mulher a quem amava de coração mas a quem era incapaz de ser fiel. Depois de ter praticado adultério vezes sem conta, cá e nas sete partidas do mundo, foi uma vez apanhado pela mulher numa noite em que ia a sair do prédio da amante da altura, uma directora da empresa da qual era então presidente, uma miúda (como ele dizia) com quase metade da idade dele. A mulher tinha recebido um telefonema anónimo contando o que se passava e dando-lhe as coordenadas. Ela tinha ido verificar. Quando o apanhou, disse-lhe secamente: 'se ainda me tens respeito, faz já hoje a tua mala e sai de casa'. Ele, envergonhado, mortalmente envergonhado e arrependido, assim fez. Foi viver com a amante. Quando o conheci vivia com ela mas já andava a pular a cerca. Estava-lhe na massa do sangue, como ele dizia com malícia e candura.

Aos poucos foi retirando a roupa de casa da amante, uma coisa de cada vez, para ela não dar por isso. Ele tinha uma moradia na Linha, casa de fim de semana, e era para lá que ia levando a roupa. De vez em quando inventava que tinha uma reunião fora ou uma viagem de serviço e ia pernoitar a essa casa. Até que se separou, pois o interesse já tinha esfriado e, sobretudo, nessa casa na Linha tinha uma vizinha italiana que o deixava doido.

No entanto, o tempo todo mantinha-se apaixonado pela mulher com quem se mantinha casado, falava todos os dias com ela e visitava-a sempre que podia. Para além da necessidade em estar com ela, havia outra razão: tinham uma filha com um problema. Dizia-me que a filha era linda, que ninguém diria - mas que tinha uma deficiência mental. Volta e meia a rapariga saía de casa, perdia-se, andavam todos doidos atrás dela. Lembro-me de um dia cheio de reuniões, ele telefonar para toda a gente, aflito, todos a telefonarem-se sem saberem dela, a polícia informada e, depois, aterrorizado, largar reunião e sair a correr. Tinha muito medo, pavor mesmo, do que lhe acontecesse perdida na rua pois era uma jovem muito bonita mas sem tino nenhum. 

Durante o dia ficava na Cercisa, ia e vinha de autocarro, mas as noites eram problemáticas, dormia mal, levantava-se, fazia barulho. Ele tinha também um filho mas o filho já tinha a sua vida, já tinha a sua casa. Gostava muito da irmã e garantia sempre aos pais que tomaria conta dela, se viesse a ser caso disso. Mas o pai tinha também pavor do que seria o futuro dos filhos um dia que ele ou a mulher morressem, porque mesmo que o filho, de facto, ficasse a tomar conta da irmã, teria a sua vida muito sacrificada. Ele, sempre tão animado, ficava quase sem voz, ficava de lágrimas nos olhos, quando pensava nisso.

Reformou-se alguns anos depois e soube que a mulher teve um AVC e não viveu muito mais. Deixei de o ver mas contaram-me que, de repente, ele tão alto e garboso, parecia um velho, curvado, triste. Depois contaram-me que, passado pouco tempo, morreu ele. Não faço ideia do que aconteceu à filha. Talvez o irmão a tenha consigo. Uma angústia.

Mas nem todas os casos serão tão tristes, nem a gravidade é toda igual. Seja como for, o afecto ajuda todos a superar melhor as dificuldades, pais e filhos, e há sempre aspectos que enternecem o coração dos que se amam.

Não digo mais nada. Situações difíceis talvez convivam melhor com o respeito e com o silêncio do que com palavras que podem parecer palavras fáceis.

Fiquemos, pois, com o Lou e com os seus olhos tão lindos e que não lhe levam a cor do mundo.



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Desejo-vos, meus Queridos Leitores, um belo sábado!