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sábado, 23 de julho de 2022

HC ENTREVISTA: Dengue, o baixista da Nação Zumbi, fala sobre o Manguebit, a banda Nação Zumbi seu novo projeto solo "Volta do Soturno" e muito mais...

Dengue por @darue_fotografia.

No quinto programa da temporada em vídeo do HC Entrevista, batemos um papo com Alexandre Maranhão, o Dengue, baixista e fundador da Nação Zumbi. No papo, além de contar histórias do dos 30 anos de Manguebit, ele também fala sobre seu novo projeto solo, a Volta de Soturno II, da sua relação com o baixo, do momento atual da Nação Zumbi, dos álbuns inéditos do Los Sebosos Postizos, do Praia Futuro e do 3 na massa, entre outras coisas. 

Saca o papo ai e dissemina com seus amigos, deixa seu comentário pra engajar e curte ai!

O HC ENTREVISTA em vídeo é um projeto feito na raça, criado por Diego Pessoa, que ainda tá meio verde nesse negocio de entrevista por vídeo, então peguem leve. O programa tem edição, efeitos especiais e vinhetas feitas pelo videomaker paraibano Riegulate.

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Eis o programa abaixo, em breve também nas plataformas de stream de podcast (precisa?).Bom programa:

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segunda-feira, 27 de junho de 2022

HC ENTREVISTA: Dante Augusto (RN), fala sobre a música potiguar, a vida como produtor e músico indie, a banda Calistoga, veganismo e muito mais!

Dante Augusto por Manuela Lamartine

No nosso quarto HC ENTREVISTA, batemos um papo com o músico e produtor potiguar Dante Augusto, de Natal. Dante já passou por várias bandas de natal, como a Calistoga, Camarones Orquestra Guitarristica, The Sinks, Fukai e mais um monte que não vou lembrar. Além disso, trabalhou durante anos no estúdio e festival DoSol, gravando uma galera do Rio Grande do Norte por lá. Hoje em dia Dante toca o estúdio e selo  SENO, atua na cena eletrônica potiguar e integra a banda Sample Hate e toca seu projeto solo, lançado pelo nosso selo.

No papo, Dante fala sobre suas influencias musicais, as bandas por onde passou, o álbum solo, a cena potiguar, vegetarianismo e mais um monte de assuntos em quase 1h e meia de papo.

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sábado, 4 de junho de 2022

HC Entrevista: Munha da 7 (DF), fala sobre a bad, o Satanique Samba Trio, seus trabalhos solos, a experiência de quase morte e muito mais!

Munha da 7 por Astor Braz

Não perca as contas, esse é o terceiro episodio da primeira temporada em vídeo do HC ENTREVISTA. Dessa vez falamos com o músico brasiliense Munha da 7, membro e fundador da Satanique Samba Trio, uma das bandas favoritas da casa. A entrevista acaba de estrear no nosso canal do Youtube, que você acha abaixo (se inscreva no canal, comente e dissemine pra mais gente sacar).

No papo de pouco mais de uma hora, Munha falou sobre a história da banda, turnês no Brasil e na Europa, seu projeto solo e os solos dos outros integrantes, ser músico em Brasília e no Brasil, como conviver com a bad, o ato de improvisar e muito mais! Vale lembrar que boa parte dos trabalho do Satanique estão aqui no blog, bem como os do Munha e dos outro integrantes.

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domingo, 22 de maio de 2022

HC ENTREVISTA: Daniel BIG JESI, beatmaker radicado na Paraíba, fala sobre suas bandas, a função como beatmaker, o #30dias30beats, os sons solos e muito mais

Daniel Big Jesi por Rafael Passos

No segundo episódio em vídeo do HC Entrevista, batemos um papo com o músico, produtor e beatmaker radicado na Paraíba, Daniel BIG JESI. O papo estreia agora no nosso canal no Youtube (se inscreva no canal, que é de graça e você ainda ajuda a gente a engajar).

Em mais de uma hora, Daniel fala sobre sua carreira na música paraibana, na qual integrou bandas como Dalila No Caos, Dalva Suada, Burro Morto e banda Rieg na função de baixista. Com a Burro Morto, criou e inaugurou o estúdio Mutuca, importante espaço de criação da cena paraibana nos último 20 anos. Atualmente, integra junto com Riegulate o BBS Studio, onde produz uma enorme diversidade de artistas da novíssima cena paraibana. Agora, também na função de beatmaker, integra o coletivo Ferve, toca com nomes como Bixarte, Mari Santana, Filosofino (Boa parte dessa galera e dos projetos do Daniel, você acha aqui no blog pra download e em todos os serviços de stream).

Ele também desenvolveu o projeto #30dias30beats, onde todo mês de abril diversos beatmakers do Brasil produzem beats diariamente e postam em suas redes, num exercício de troca, aprendizagem e produção musical. Na conversa, falamos também sobre os processos de composição de beats, estilos sonoros e muito mais!! O papo termina sem se despedir, por que começou a chover pesado aqui, mas o que interessa é o conteúdo e acho que vocês vão curtir bastante.

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sábado, 7 de maio de 2022

HC ENTREVISTA: o cearense Fernando Catatau fala sobre o Cidadão Instigado, o trabalho solo, o inicio da música e muito mais

Fernando Catatau, Crédito: Jamille Queiroz.

Na pandemia tivemos a ideia de revisitar algumas entrevistas massas que postamos dentro do altnewspaper.com nos 10 anos em que esteve online e atuante. Foram 2 HC Entrevistas com papos revisitados (Munha da 7 e Thiago França) e um inédito com um papo foda sobre o primeiro álbum e a história da banda pernambucana Devotos (Confira os 3 clicando na tag HC ENTREVISTA).

Agora, apresentamos mais um papo inédito, com o mestre, guitarrista e produtor cearense Fernando Catatau, inaugurando uma série de HC Entrevista's no formato de VIDEO, que serão lançados no nosso canal no Youtube (se inscreva no canal, que é de graça e você ainda ajuda a gente a engajar). No papo de pouco mais de uma hora, Fernando falou sobre o inicio na música, a carreira com a Cidadão Instigado (acabou ou não?), o incrível novo álbum solo (que você ouve aqui), a expectativa pra volta dos shows, as influencias o que ele tem escutado de novo, entre outros papos que você saca dando play no vídeo abaixo.

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Também disponível no formato de áudio editado, nos podcasts de stream: Spotify | Amazon | Deezer

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sábado, 15 de agosto de 2020

HC Entrevista: As mil faces musicais de Thiago França...


Quando pensei em começar a realizar entrevistas por aqui, a ideia era ser mais ativo, mas o momento tá tão distópico, que as entrevistas estão rolando devagar. Como o altnewspaper.com tá off (RIP) e aproveitando que neste sábado tem Show e Oficina de criação com o saxofonista Thiago França (saiba mais e participe aqui). Estou disponibilizando aqui uma entrevista que fiz com ele e saiu originalmente no altnewspaper em 2013. É uma das minhas entrevistas favoritas, pelo fato dela soar atemporal, pela paciência do Thiago em responder tudo de maneira bem franca e pelo artista interessante que ele é até hoje. Aproveitei pra linkar todos os álbuns e bandas do Thiago citadas nessa entrevista com os links dos posts pra download. Confere ai:

O músico Thiago França é uma das figuras mais ativas do independente nacional no momento. Integrante do grupo Metá Metá, também tem vários projetos próprios, como o Sambanzo e o trio de improviso MarginalS. Além disso, participou do disco Nó na Orelha do Criolo, toca com Rômulo Froes e fez parte do disco Bahia Fantástica, do Rodrigo Campos. Em todos eles produzindo criativamente e fazendo parte de todo o processo. Para ele, o mais importante é criar e produzir, não tendo interesse na simples reprodução das coisas.

Fez sua marca na música ao recolocar o sax em evidencia e, porque não, como destaque nos projetos no qual participa. Um trabalho que ele vem realizando desde que se descobriu músico e apaixonado pelo saxofone, colocar o sax como uma parte importante da música e não apenas um adendo de momento.

Quando você percebeu que queria trabalhar com música? Em que momento isso aconteceu? E por que o sax?

Nem sei, desde sempre. Comecei com as aulas de saxofone aos 11, mas desde antes já queria tocar. Eu lembro que tinha muita vontade de tocar sax, não sei porque. Não sei nem se eu sabia o que era um saxofone, mas queria. Tinha uma referência: minha avó, Ignez (que gravou uma música comigo no meu primeiro disco Na Gafieira - ouça aqui) sempre cantou e ouviu muita música, e lembro bem dela ouvindo umas big bands, Tommy Dorsey, Benny Godman, Glenn Miller, Count Basie. talvez seja daí, mas não tenho certeza.

Pra complementar a pergunta sobre o sax, dizem que você tem um estilo diferenciado de tocar, existe uma origem para isso?

Existe sim. Durante os primeiros anos de contato com a música, grande parte das coisas que eu ouvia era de saxofonistas e eu sempre prestei muita atenção nas características de cada um, o jeito, o timbre, repertório, o que um fazia e outro não. E, sem saber o quanto isso era importante, busquei personalidade própria, causar a sensação que eu tinha ouvindo Coltrane, Brecker, Dexter Gordon, Charlie Parker, Branford Marsalis, ser identificável com uma nota. Só que o contato com o mundo acadêmico me causou uma certa aversão ao estudo formal, mesmo nas faculdades não existem professores preparados pra lidar com as particularidades do aluno, quando essas estão meio fora do padrão. De certa forma, quando eu tô tocando, tenho vontade de destruir tudo isso, destruir o senso comum, o padrão, os modelos: o saxofonista gato que aparece no clipe fazendo o solinho no meio da música; o estudioso geniozinho do "jazz" que toca tudo perfeitinho, limpinho, afinadinho, chatinho pra caralho. Quando dei conta disso, parei de ouvir saxofonistas por muito tempo, fui buscar informação em outros sons. Eu tocava muito samba, comecei a pensar em frases que imitassem os padrões rítmicos dos instrumentos de percussão. Ouvia músicas que não tinham saxofone e imaginava caminhos para me inserir dentro da "banda", e não simplesmente como "solista".

E essas influências latinas e africanas, quando apareceram? Isso também influencia no saxofone?

As influências latinas são bem anteriores. Lembro de um K7 da minha avó com umas cumbias e uns boleros que eu ouvia muito na casa dela, eu devia ter uns 6 anos. Esse som, sempre me pegou. É dessas coisas inexplicáveis. Quando eu tinha uns 12 anos, tive uma queda por Guns n' Roses, que passou no ano seguinte. De alguma forma, a gente não escolhe o que a gente gosta. O interesse por música africana veio depois, quando eu comecei a me interessar (tocar) samba. A "África", como um lugar místico e fantasioso da origem do samba ficou na minha imaginação até que inventaram o Youtube e eu pude descobrir o que era (ainda estou descobrindo). Existe uma interseção forte entre esses dois pólos de música, um jeito de tocar, mais percussivo, com melodias mais intuitivas, menos "desenhadas", como as de origem e influência europeia. A sensação que eu tenho é que a música tem outro propósito: o encontro, a celebração, a vida em comunidade, a dança/transe; diferente da música feita para "apreciação", em que foco é o músico (intérprete ou compositor) a quem se dá o título de gênio, acima dos demais.

Isso tudo me influencia, como artista-criador e também no lance técnico, de músico-instrumentista. Logo que me aventurei pelas rodas de samba e choro, passei a prestar muita atenção nos desenhos rítmicos dos instrumentos de percussão e transportá-los para o saxofone. Aos poucos, fui descobrindo outro instrumento dentro dele, com barulhos e outros sons que se distanciassem do original. Começou a me interessar muito mais as texturas e as dinâmicas do que as escalas e os arpejos.

É interessante ver como você é multi-facetas: toca tanto o saxofone de forma mais 'normal', quanto de um jeito muito mais louco, como no MarginalS. Você prefere tocar um lance mais clássico ou desconcertando tudo, bem free-jazz? Existe a preferência?!

Não tenho preferência, existem momentos diferentes e pra mim são complementares. Gosto das duas coisas, ouço Sun Ra e Paulinho da Viola no mesmo dia. Estar em contato com sonoridades e linguagens diferentes deixa a criatividade mais aguçada. Esse ano eu vou lançar um disco chamado Malagueta, Perus e Bacanaço, inspirado no livro homônimo do João Antônio. Tem 11 faixas e um improviso só no disco inteiro, o resto é só melodia (tema) e arranjo, e é basicamente um disco de samba, tem até um bolero, tudo tradicionalzinho, caretinha. Mais parecido com o meu primeiro disco, Na Gafieira.

Já que você falou em careta. Na nossa cabeça sempre existe uma diferença entre o experimental e o de "tocar de qualquer jeito". Não tocamos sax, mas parece que precisa ter certa técnica para ir pro lado do free e da improvisação, mesmo ela sendo sem amarras. É isso ou eu to viajando e querendo colocar regra de quem toca 'certinho, afinadinho, chatinho pra caralho'?

Tocar "errado" é tão complexo quanto tocar "certo". Acho que o free (jazz) exige mais criatividade do que técnica, vide Ornette Coleman, e isso é muito mais difícil. Nos formatos mais tradicionais é permitido você se apoiar em coisas prontas como escalas, arpejos, frases que você tirou do solo de alguém, "licks" (clichês universais). Não devia ser assim, isso é anti-artístico, mas enfim, essa é outra discussão. No free não tem espaço pra isso, porque você não controla o que as outras pessoas estão tocando. O que também abre outra discussão: o free não precisa ser fritado o tempo inteiro. Se for livre, você tem liberdade tanto pra fazer barulho quanto pra tocar uma melodia bonita, longa, em cima de um acorde tranquilo, repousado. O desafio muda pra cada músico. No MarginalS, o mais legal é sair improvisando passando por tudo que a gente curte fazer, seja com pouca ou muita nota, com ou sem groove definido, e deixar no ouvinte a sensação de "não é possível, isso aí foi combinado". Outras vertentes ficam mais na onda do noise... Sei lá. Cada um com seu cada qual.


Já que falamos de improviso, e você falou do MarginalS, que trabalha em cima do livre improviso, eis uma pergunta que eu sempre faço para quem trabalha com isso. Gravar, não seria um limitante de tal ato?

Não. Porque quando a gente grava é um registro da época, da sonoridade, daquele momento específico. Não é o registro de um repertório, aquilo ali não vai ser reproduzido, não vai virar "tema" nem um "clima" obrigatório, que tem que ter em todo show. A gravação tem o mesmo espírito do ao vivo, a gente grava tocando junto, como se fosse um show e sem se impor nada.

Ainda no improviso, porque tentar sempre não se repetir? Já que você disse que seria difícil inclusive provar tal repetição. É proibido (re)produzir no MarginalS?!

O som do MarginalS é experimental. Se você faz uma coisa que você já conhece, não é uma experiência. Isso pode soar bobo, mas não é. A música experimental é aquela que te força/permite/instiga a tentar coisas novas todos os dias. Não significa que é um lance de cientista maluco num laboratório cheio de tubo de ensaio, é no sentido mais puro (talvez ingênuo) da expressão. Se num momento dum groove pesado, denso, que seria óbvio eu usar o sax eu troco e pego a flauta, eu tô experimentando. Não se repetir é a graça da parada, senão não tem desafio e você engessa o processo. A ideia é deixar a coisa sempre solta, sem forma ou nenhuma obrigação, e é o que nos mantém instigados a continuar fazendo esse som. Na verdade não é tão difícil não se repetir porque, por mais que eu reutilize uma ideia de um show passado, o Cabral e o Tony podem entender aquilo de outra forma e levar pra um lado completamente diferente. E ao contrário das escolas mais tradicionais, em que o improviso fica focado em escalas e arpejos, a gente tem muitos outros elementos pra usar além desses, como dinâmicas, texturas, barulhos, timbres... Ou seja, a repetição não chega a ser uma neura.

Em outros projetos, como o Sambanzo e o Metá Metá, os improvisos tem outra função. Por exemplo, na música "Orunmilá", do Metal Metal, eu gravei um improviso, ideia do Kiko, só com notas graves, num duelo com a percussão, que me coloca como o "rum", o tambor grave do candomblé. Eu não repito os ritmos, as notas, mas repete-se o conceito, cria-se uma história. Na música "Etiópia" do Sambanzo, no momento do improviso, eu faço um lance batendo nas chaves laterais do sax que dão uma sonoridade meio oriental, o sax vira uma flauta exótica com um som meio podre, e isso compõe um todo, dá identidade à música. Improvisar só por improvisar, pra eu mostrar que eu sei alguma coisa, não me interessa. Eu acabei de gravar um disco, Malagueta, Perus e Bacanaço, que tem um único improviso, numa música só, e ainda assim, o improviso é uma parte da história, não é gratuito.


Por que Mulatu Astatke e não Kenny G?

Pô, essa é a pergunta mais rasa ou mais profunda do mundo, porque a resposta pode ser um mero "porque sim", baseado no meu gosto pessoal, ou pode ser uma pequena enciclopédia, que passa por mil questões, da estética à política. Ou porque o Kenny G tá na comedinha romântica hollywoodiana da Julia Roberts e o Mulatu tá no filme do Jarmusch. Porque o mundo não é cor-de-rosa, eu não sou um babaca com cara de capa de caderno, não prego o bom-mocismo-bunda-mole, não sou água com açúcar, não faço "música boa pra gente bonita", porque eu tenho pavor do clichê do saxofonista gato "tocando um blues" na janela. Eu sou fruto do terceiro mundo, da imperfeição, do incômodo e da inquietação. A arte tem que propor a reflexão, tirar da zona de conforto, incitar discussões, aguçar a sensibilidade, enriquecer a alma e a mente do ser humano. Bicho, isso vai longe. Agora, se o mano sabe que a música dele toca no elevador, se ele compõe uma canção-jingle que vai ser esquecido daqui a 6 meses e ele dorme tranquilo à noite, parabéns.

Você toca e já tocou com diversos novos artistas e em projetos que são bem vistos para público e critica. Tu se sente responsável em ter colocado novamente o sax em destaque de uma maneira positiva na música brasileira? O sax ficou meio queimado depois do Kid Abelha...

Não acho que é culpa do Kid Abelha, até porque, antes disso, o saxofone já não era muito presente no universo da canção. Assim como muitos outros instrumentos, ele é ligado fortemente a um estilo específico (jazz, no caso) e você começa a estudar dentro de um padrão rígido. Eu aprendi que o saxofone era um instrumento de solo, por isso, a forma de se relacionar com a canção seria se em algum momento da música, houvesse espaço pra fazer um solo. Tirando uma intro ou um final, ocasionais frasezinhas de naipe de metais, é o que é designado ao instrumento. Desde sempre eu quis fugir disso, sempre gostei de canção, quando era adolescente, ouvia tudo o que encontrava mais a mão: Tom, Elis, Gil, João Gilberto, João Bosco, Chico Buarque (eu não saia muito nessa época, 93, 94, não sabia o que rolava na rua). Em casa, tocando junto com os discos, eu ficava sempre tentando dar um jeito de tocar a música inteira, porque era o que eu queria: tocar a música toda, como parte da banda, não como o forasteiro que aparecia pra fazer o solo, depois sumia. As coisas que rolam no Metá Metá, de tocar junto com o violão, junto com a voz, fazendo contrapontos, abrindo vozes, eu faço desde sempre, intuitivamente. Só que todo mundo odiava! As cantoras brigavam comigo "você tá roubando a atenção da voz!", ou "isso não é jazz pra você ficar tocando a música inteira!", mas eu sabia que era isso que eu queria fazer e que uma hora alguém entenderia. Não vejo nenhum instrumentista de sopro fazendo algo do tipo. Acho ruim no sentido de que as pessoas não se questionam, não buscam caminhos pra criar seus próprios diálogos com a música. Agora, o que eu faço ou deixo de fazer para A Música Brasileira, putz... Sei lá. Se você tá falando...

Os trabalhos falam por si. Você tocou no Nó na Orelha (dito um dos discos do ano de 2011), toca com o Romulo Fróes e participou do Labirinto em Cada Pé, ainda tem dois belos trabalhos com o MarginalS. Tem o Metá Metá com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, que querendo ou não, tirou um pouco da "frescura" ou da "divindade" do samba, já que deixou ele um pouco mais sujo. Metal Metal só piora a situação pro samba. Sambazo traz muita coisa em um disco só, de África a América Latina. Apenas aqui, citei projetos que circulam pelo hip hop, rap, samba, gafieira, MPB, rock, instrumental, improviso, jazz, experimental, afrobeat, pop, entre outros. Ou seja, versátil você é com toda a certeza, criativo também. Eu sei que você é humilde, mas é sério que você não se vê como alguém que está mudando um pouco da história do sax na música brasileira atual? Fala um pouco dos processos nos trabalhos com outros nomes, você cria neles também?

Man, não é questão de humildade, é questão de ponto de vista. Se você conhece todos esses trampos que eu participo, com certeza eu ocupo uma parcela grande do tempo que você passa ouvindo música. Mas tem muita gente que não faz ideia quem eu sou, tem gente que nunca ouviu o Criolo, o que dirá o MarginalS. Tá tudo em aberto, acontecendo. Se eu achasse que já tivesse feito alguma coisa, que já conquistei, eu podia parar por aqui, e eu acho que tá só começando.

Em todos esses trabalhos eu participo como criador, porque é o que me interessa. Nunca fui e nunca quis ser músico de naipe, o cara que chega e lê o arranjo. Sempre gostei de me envolver e de ter liberdade pra tocar do meu jeito. Estando à vontade é que saem os melhores resultados, e eu só toco com toda essa galera porque essa é uma premissa em comum. O que muda na prática, de um trabalho pra outro, é o estágio em que a gente contato com a coisa. Por exemplo, no Metá, às vezes o Kiko chega com uma composição nova, só um groove de violão, eu tenho bastante liberdade pra interferir, sendo só nós dois tocando. No Bahia Fantástica, o Rodrigo já tinha as músicas bem desenhadas quando apresentou pra gente, e como haviam várias pessoas envolvidas no processo, cada música foi de um jeito, às vezes eu esperava os caras definirem o groove de baixo/bateria pra depois pensar em alguma coisa, ou ia criando algo em cima do violão do Rodrigo. Pro Sambanzo, algumas músicas eu já tenho bem definidas, groove, estrutura; outras, saia tocando e deixava cada um chegar à sua própria conclusão, depois a gente amarrava as idéias. Varia, mas a gente sempre tenta falar o mínimo possível e fugir das soluções óbvias e "pressetadas" (se não existia isso em português, agora existe!), tipo, tocar o samba "como o samba deve ser", ou um funk, ou cumbia, enfim...


Pra você, quantos por centos de nato é criatividade e quanto é adquirido (seja pelo simples conhecimento do instrumento ou expansão mental por cultura)?

(isso dá uma tese de doutorado) alguma coisa a gente tem na genética, alguma inclinação pra fazer o que faz, mas não passa disso, uma inclinação. O resto é ralação, todo o resto se aprende, ainda mais hoje, que o artista não tem mais o aparato duma gravadora pra se ocupar só de fazer música. O instrumento é a porta de entrada pra música, daí vem um monte de outras coisas, como compor, arranjo, produção, fazer trilha, mil coisas que você toma conhecimento bem depois de começar a tocar. Eu mudo muito de opinião sobre esse assunto, pra responder essa pergunta, cada hora eu pensava numa coisa. Ao mesmo tempo em que acredito muito nessas coisas invisíveis que nos cercam, não gosto de pensar que algo vai acontecer sem você correr atrás, sem esforço.

Você já falou que tem feito trilhas. Eu queria saber se muda muito o processo criativo e de composição para seus projetos em bandas e trilha.

Muda, e varia com o processo. Por exemplo, o Kiko e eu fizemos uma trilha pra um documentário, só sax e violão, improvisando assitindo as imagens. Tem um outro doc, sobre a rivalidade entre as seleções brasileira e cubana de vôlei feminino na década de 90, do Fábio Meira, que ele usou as músicas do Sambanzo. Nesse caso, como as músicas já estavam prontas, eu só ajudei encaixar. Também fiz uns trampos com o Gui Amabis e com o Instituto, pra cinema e pra uma série da HBO. Há um tempo, antes de começar a correria dos shows, fiz uns experimentos filmando com o telefone e usando o MarginalS como trilha, me diverti bastante. É um campo que me interessa quando dá pra gente trabalhar assim, fazendo música, criando, gostaria de fazer mais. Jingle, com todo respeito a quem faz, mas não me interessa.

E como é o Thiago França produtor? Interfere criativamente também?!

Antigamente, você tinha as funções muito bem definidas porque a música era feita assim, havia um mercado e haviam empregos: um cara compõe, alguém canta, alguém toca; um cara escolhe os músicos, alguém escreve o arranjo, e o produtor era quem encomendava o "produto" ou transformava em algo. O produtor encarregava de chegar pra um compositor e pedir uma marchinha pro carnaval, pra fulano de tal gravar, enfim. Hoje, isso tudo mudou, não existe mais o emprego, não existe função definida. O que rola, como eu já disse, é que tanto a música quanto o mercado estão mudando, um interfere na mudança do outro, e hoje a gente faz um pouco de tudo, procuramos olhar o todo. Por exemplo: o Etiópia do Sambanzo é um disco sem arranjo escrito, todo tocado, solto. A "produção" do disco foi dizer pros caras ficarem à vontade, pra extrair ali a personalidade de cada um. No Bahia Fantástica, todo mundo assina como produtor, porque além de tocar cada música, todo mundo pensou no todo. Eu via que já tinha rolado uma música com solo de sax, na próxima eu fazia alguma coisa com a flauta, mais discreto. Cada som é de um jeito.


Um adendo a entrevista original, junto aqui as 3 perguntas que fiz pro Thiago na época que ele tocou com o Tony Allen, também em 2013. O papo sobre essas músicas aconteceu antes do lançamento do "Compacto SP", registro que reuniu ele, o metá metá e o Tony.

Para você, como foi tocar e compor com Tony Allen? Como foi criar com o cara? Como se deu tal contato?

Porra, man!!! "como foi"?! essa é a pergunta proibida!!! "ah, meu, tipo assim, foi mó emoção" (risos)

Conheci o Tony em 2012, depois de um show do Criolo em Paris. Ele veio no camarim e disse que tinha ficado impressionado, queria muito fazer alguma coisa junto. Fiquei na maior expectativa e, em março, depois dumas trocas de e-mail, recebi o convite pra produzir três faixas no seguinte esquema: ele mandava os tracks de batera abertos e aqui, eu faria o que quisesse.

Que foda. Então, são essas faixas? Vem dessa ideia ai?

(cronologicamente) a primeira foi "São Paulo No Shakin'", eu produzi com o Marcelo Cabral e o Daniel Bozzio, um tema instrumental meu. O nome faz menção ao disco "Lagos No Shaking" do Tony, preferido da rapaziada aqui. A segunda, chamei o Kiko Dinucci e a Juçara pra gravar essa cantiga, "Alakorô", que de vez em quando a gente tocava na versão trio do Metá, bem diferente do que ficou. Foi a primeira experiência de produzir algo do Metá que não fosse ao vivo, foi divertido, gostamos muito do resultado. A terceira eu fiz com o Tejo Damasceno e vai sair no disco do Instituto, fizemos só nós dois, eletrônica, bem pesada. As três faixas tiveram contribuição do Maurício Bade na percussão.

Essas músicas vão pra uma compilação chamada Afrobeat Makers, vol 2, do Comet, selo francês que lança as coisas do Tony. Todas as músicas da compilação são produzidas da mesma forma, com músicos do mundo inteiro dando seus pitacos sobre as bateras.

E sobre o Tony Allen, te influencia/influenciou? Qual tua relação com ele (antes de conhece-lo)?

O genial do Tony é que ele toca sempre uma força inesperada. Quando toquei com ele em Fortaleza esse ano, conversei bastante e ele me explicou um pouco como a cabeça dele funciona. Eu tinha a sensação (e confirmei com ele) que sempre que ele senta na batera, ele descarta a primeira ideia que vem na cabeça. Geralmente é algo óbvio, embasado em algo que você já fez. Talvez, a influencia seja mais uma inspiração, no meu caso.

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domingo, 26 de janeiro de 2020

HC Entrevista: Munha da 7, a bad, a música experimental e o Satanique Samba Trio...

Satanique Samba Trio por Thais Mallon

Ano passado resolvemos começar a soltar uns papos por aqui. Começamos a sessão com um papo massa com o trio Devotos falando sobre seu primeiro álbum, lançado mais de 20 anos atrás (saca o papo ai). Finalmente soltamos o segundo papo dessa sessão atemporal, atemática, entre outros as.

Trocamos uma ideia massa com Munha da 7, regente e uma das cabeças pensantes do quinteto candango Satanique Samba Trio, uma das bandas favoritas da casa. Neste LINK, você consegue acessar e baixar todos os álbuns da banda postados aqui no blog e ainda tem um bootleg deles de brinde (só não postamos o Mó Bad, um misto de compilação e algumas inéditas).

A Satanique tem mais de 15 anos de vida, já levou a bad da música tradicional brasileira para o além mar, se destacando com um dos grupos nacionais mais criativos, com muita ousadia e tristeza. No papo que vocês devem ler abaixo, falamos sobre a banda, Brasília, até onde a bad pode ir, experimentações sonoras, entre outras ideias.

Tirando o Xenossamba, o Sangrou e o Misantropicália, todos os outros álbuns tem BAD no nome. E os caminhos para onde o Brasil está andando (em todos os sentidos possíveis) só deixam a situação ainda mais bad. A minha pergunta é: Quão bad a Satanique ainda consegue ser? Vocês assumem alguma responsabilidade pelo nosso momento atual?

Olha... quando eu cheguei já estava assim. Nasci durante a ditadura, então o máximo que pude fazer desde sempre foi musicar a bad que paira sobre nós. Note que os álbuns do Satanique Samba Trio foram ficando mais insuportáveis de 2016 pra cá. Não é à toa.

A primeira vez que eu te entrevistei foi após a trilogia da simulação bad trip e uma das ideias após a trilogia era um álbum com vozes e cantores convidados. Essa ideia ainda existe ou vingou? Já tem alguns cantores escolhidos? Pode soltar algum nome?

Essa ideia está em plena fruição, mas logisticamente tem lá seus percalços, por isso vai demorar mais do que eu imaginava. São 11 letristas e 11 vocalistas diferentes, então imagine o quanto é difícil e dispendioso administrar tantos doidões de uma vez só.

Essa empreitada ocorre em dois momentos paralelos: a fase de negociação e a fase contratual. Não posso falar com quem estamos negociando por que pode ser que nunca saia do papel e não posso citar os artistas que já assinaram por causa da cláusula de não-divulgação, mas digamos que o espectro é grande. Vamos de nomes inusitados a parcerias óbvias, dentre ilustres desconhecidos e artistas bem famosos (do Brasil e do exterior, anote aí).

No mesmo papo, eu citei Zorn falando sobre a música instrumental e experimental e você fez uma ressalva sobre o que você considera experimental mudar de década pra década. Já fazem 8 anos desse papo, o que mudou na sua consideração sobre experimentação musical?

Ainda é cedo pra situar um ponto de confluência das experimentações artísticas que marcaram a última década, mas acredito que provavelmente vamos reconhecê-la como o período que repensou o conceito de espetáculo. Muito se fez nesse sentido: as live performances se ramificaram de maneiras bem imprevisíveis e suscitaram discussões que ainda nem terminaram.

Pesquisando matérias sobre o Mais Bad, percebi que existem muito mais falas gringas sobre o trabalho. Existe uma crise no jornalismo cultural brasileiro, isso é verdade, mas como você vê essa ausência de crítica ou até de informes sobre o trabalho novo no Brasil?

Eu não costumo acompanhar a imprensa musical – seja nativa ou estrangeira – então não saberia dizer. Algo que notei no caso específico do Mais Bad foi que, apesar da menor quantidade de reviews na mídia brasileira, a qualidade dos textos foi superior. Em nossas praias há uma propriedade de análise sobre o escopo da banda (a MPB e sua desconstrução) que ainda falta aos gringos. Antes de saber o que é um xote em 9/8, o autor precisa saber o que é um xote, afinal.

A primeira vez que eu li sobre vocês foi em 2005, falavam em "audácia", "ousadia" e "ironia" e estes ainda são termos recorrentes nas matérias sobre a banda. Vocês ainda se vêem realmente audaciosos e irônicos? Pergunto porque é uma audácia que dura muito tempo ou uma ironia que talvez já e não tenha mais volta.

Eu estava conversando sobre isso com o Lupa (Marques, baterista do quinteto) outro dia. Tanto a ironia quanto a audácia são filhas da inquietação. A mim é quase impossível não responder com sarcasmo a certas situações aflitivas, especialmente as artísticas. E, vá lá, a arte só se torna situação quando se repete às raias da acomodação. É aí que eu entro: pra fazer uma piadinha em cima de um chavão repetido à míngua ou comentar um clichê babaca. Se esta compulsão é uma prisão, o Satanique Samba Trio é a cela. Estou de boa com isso. Podia ser pior.

Pesquisando, achei isso aqui: "The satanic samba trio clearly cracked the code of how to make successfully some really cool tunes & get them all successfully squeezed in shorties of time". Vocês acreditam que craked the code? E como vocês acreditam que fizeram isso?

Não cabe a mim avaliar o quanto conseguimos ou não decifrar dos códigos, mas se o fizemos, acho que é graças à organização do mecanismo de composição do SS3. Partindo de um conceito, fica fácil contar uma história em pouco tempo. Se não houver bússola, a tendência é o naufrágio.

Em 2019 vocês lançaram um álbum pelos stories do instagram. Uma parada realmente diferente (ousada talvez?) e lembro de um papo sobre algum selo gringo querer lançar esses microsons. Isso andou ou realmente aquelas músicas morreram juntos com os algoritmos do instagram e apenas o zuckeberg podem ouvir elas agora?

Este é o mais recente castelo a ruir no horizonte do Satanique Samba Trio. Durante o processo de negociação com o selo descobriu-se que alguns “fãs” arrumaram um jeito de baixar as músicas do álbum e estavam vendendo os arquivos em sites russos. Decepcionados com o fim do ineditismo da porra toda, os gringos deram pra trás. Eles queriam relançar música por música no Stories do instagram da gravadora, da mesma forma que fizemos em 2019, só que com um alcance muito maior (pra lá de 200 mil seguidores). Com a música disponível online pra quem quiser baixar, imagino que não valha o esforço, enfim. Tudo bem, entendo os caras, mas agora que tem espertinho ganhando dinheiro com nosso material fiquei puto e caso ninguém faça uma proposta nas próximas semanas vamos lançar de maneira independente mesmo e foda-se.

O que ainda falta pro Satanique Samba Trio fazer em termos musicais? Quais caminhos musicais para abrir a caixa de pandora de bads estão no horizonte da banda? Existe alguma sonoridade que o grupo não tentaria mostrar a bad jamais?

Um MONTE DE MERDA, obviamente. Vocês não perdem por esperar!

De música genuinamente brasileira, não há ritmo que não esteja no nosso radar estético. Em 2020 vamos revirar tradições menos conhecidas, como o Calango Endiabrado, o Quirogo e etc. Talvez em cima de um trio elétrico, quem sabe? (Em continuidade ao projeto Satanique Samba Trio Elétrico).



Existiria a Satanique se vocês não fossem de Brasília? Isso influencia em alguma coisa?

Influencia demais. O aparato musical que ergueu o DF se fixa em algum momento – provavelmente lá pelo começo dos anos 70 -  sobre o diálogo cultural entre o Clube do Choro do Plano Piloto e a tradição do São João de algumas cidades satélites. Aí o assunto “baião versus samba ou baião com samba” tornou-se tradição na academia local, seja no pátio da Escola de Música ou na pracinha do Departamento de Artes da UnB. É até difícil escapar disso, então gerou-se uma tensão estética propícia para o nascimento de frutos pitorescos como o Satanique Samba Trio ou essa nova geração da MPB avant garde (Galinha Caipira Completa, Pedro Martins, etc). É um fenômeno muito típico do quadradinho para assumir que aconteceria em outro lugar, mas a criatividade do artista brasileiro é ímpar, então fica difícil conjecturar a existência de qualquer glosa hipotética. Em se tratando de Brasil, nunca se sabe.

Tu tem um trabalho solo que foge um pouco das ideias da Satanique Samba Trio e lançou um álbum de um minuto via instagram. Como você vê essa ideia da metalinguagem da expressão em intervalos curtos de tempo? Vai sair só online ou pode sair num material físico?

O que entendemos como o tamanho “ideal” de música é fruto de uma convenção, uma cagação de regra meio arbitrária imposta pelas rádios do Século XX. Antes disso, a duração média de uma música era diferente, bem maior, pensada para fruição em casas de concerto, catedrais, etc. Em tempos de atenção dividida, fluxo intenso de informação e tudo mais, me parece válido propor novos limites temporais. Talvez eu tenha exagerado um pouco na discussão, admito, mas estamos todos nos divertindo. Quer dizer, talvez nem tanto assim, talvez não dê tempo pra se divertir. De qualquer forma, por enquanto, sigo aguardando propostas de lançamento físico.

O que tu tem escutado de novidade na música? O que ainda chama sua atenção?

Hoje em dia eu praticamente só ouço música para a pesquisa do Satanique Samba Trio. Isso já é coisa pra caramba, mas não tem nada muito recente nesta alçada, acaba sendo um estudo voltado para as décadas anteriores. O problema é que, assim, quando chego em casa, a última coisa que quero fazer pra descansar é ouvir música. Já me despedi há muito tempo do caráter recreativo da música, infelizmente.

De onde vem a sua necessidade de criar?

Talvez seja uma pulsão de desmorte, uma maneira atabalhoada de compensar tudo o que destruí até aqui. Só dos meus próprios ossos tem umas centenas de eventos aí pra recuperar.

A Satanique Samba Trio tá indo pros 20 anos de existência, com mais de 10 trabalhos lançados. Tu já consegue avaliar a carreira da banda? Melhores momentos, piores momentos, acertos e erros? Tu tem um álbum preferido?

São, na verdade, APENAS 16 anos de carreira. O melhor momento até agora talvez tenha sido a semana em que ficamos em QUINTO lugar no itunes da República Tcheca, desbancando o Coldplay. O pior acho que foi o cancelamento da turnê brasileira que agitamos com um medalhão da música de vanguarda brasileira há alguns anos. Foi um baque, aconteceu em dois mil e bolinha, mas ainda não nos recuperamos completamente. Aqui a dor é valorizada.

PESSOALMENTE, arrisco dizer que o meu álbum favorito da banda é o Instant Karma – nosso álbum líquido, que por sinal quase ninguém ouviu.

Você responder Instant Karma me levou a outro questionamento: no que a Satanique realmente ganha com ações tipo esses disco ser lançado através do stories? Rolou um boom de seguidores para melhor o engajamento na rede?

Quando surgiu esse conceito do disco líquido, pensamos em um formato que fosse transitório e barato. A resposta mais óbvia era o stories do instagram. Não tinha outra opção no nosso horizonte, então nem chegamos a fazer uma projeção da repercussão, era só mais um formato disponível para testar mais uma de nossas ideias idiotas, bem como o CD, o vinil, etc. Pra ser sincero não sei nem te responder SE a gente ganhou seguidores ou o quanto o álbum repercutiu, nosso produtor é quem acompanha esses números e eu sempre me esqueço de perguntar. Sei que aparentemente ninguém ouviu. Se bobear, até PERDEMOS seguidores, realmente não faço ideia. 

Pedimos pra ENORME AUDIÊNCIA e os MILHARES DE FÃS da Satanique enviarem indagações sobre o grupo (Você aceitou dar a entrevista, agora aguente):

Tem uma versão ao vivo de Cabra da Peste Negra no Bad Trip Simulator #3 com introdução em francês que foi gravada no Chez Michou. O que é e onde fica o Chez Michou?

Sobre os processos de gravação: existe preferência entre ao vivo ou em estudio tudo bonitinho?

Chez Michou é uma creperia que ficava na 207 Norte, perto do estúdio de gravação do nosso amigo Droguinha. Volta e meia rolava algum show muito louco por ali e numa dessas gravamos essa mixórdia. Não lembro exatamente os detalhes, mas Etos Jeronimo, nosso clarinetista da época resolveu apresentá-la em francês, sabe-se lá por quê. A execução ficou tão “especial” que resolvi incluir como bônus track do álbum físico.

Geralmente prefiro ambientes mais controlados, gravação em estúdio mesmo, instrumento por instrumento, entre copos descartáveis e papéis amassados, mas às vezes nos deparamos com conceitos que exigem todos os músicos na mesma sala. “Luciferi Tum Tum”, do Bad Trip Simulator #2, por exemplo, foi gravada desse jeito, vagabundo olhando pra cara de vagabundo.

Em Natal você disse que o show pra 40 pessoas foi mais animado do que alguns na Europa pra milhares. No geral como funciona a receptividade do público?

O show de Natal teve de tudo: gente caindo de cabeça de cima do balcão do bar, maluco dançando xaxado, briga na plateia e fãs do Roberto Leal. Isso nunca nos aconteceu na Europa, até por que a faixa etária dos públicos é muito diferente. Enquanto aqui arregimentamos uma audiência de jovens desgraçados da cabeça, na Europa é só coroa - muito músico das antigas e ex-doidões de carteirinha. Em ambos os casos todo mundo se diverte.



Você sabe exatamente quantos álbuns físicos já venderam, desde o primeirão lá em 2004?

Acrescento: Como tem andado o mercado/ business da Satanique em termos de venda? Me refiro aos formatos, já que vocês sempre foram da seara do vinil. Por exemplo, o streaming ajuda em alguma coisa? Digo isso porque o Mais Bad ainda não está nas plataformas todas.

Fazendo um cálculo de cabeça, considerando que os CDs da Trilogia da Putrefação (Bad Trip Simulator #2, Bad Trip Simulator #1 e Bad Trip Simulator #3) foram reprensados 3 vezes, eu diria que vendemos uns 20 mil registros físicos, entre CDs e vinis. Comparando com grandes nomes do passado parece pouco, mas ao levar em conta a época (Século XXI) e a disfagia estética que proporcionamos, me parece razoável. Tão razoável que vamos para a quarta prensagem em breve, inclusive.

Sempre que resolvemos largar de vez esse negócio de CD, aparece algum maluco em algum lugar do mundo oferecendo contrato de distribuição, aí precisamos mandar fazer mais um fardo de disquinho e saímos dizendo por aí que o Satanique Samba Trio é o último projeto do mundo a ainda lançar CD, quando sabemos que não é verdade pois ontem mesmo achei um camelô vendendo CD pirata do Art Popular no centro da Ceilândia (DF). Comprei? Comprei.

Quanto à ausência do Mais Bad nas plataformas de streaming, o motivo é relacionado ao selo que o lançou (Rebel Up - Bélgica). Geralmente, eles sobem os discos primeiro para o Bandcamp, deixam um tempo em uma espécie de “quarentena rentável”, ofertando o conteúdo para fãs dispostos a pagar en directo e depois, se houver demanda, disponibilizam nos streamings da vida.

É meio frustrante para os fãs viciados em Spotify, mas entendo perfeitamente, já que esse negócio de streaming quase não dá dinheiro para artistas e distribuidores de pequeno ou médio porte. Assim, obviamente, os caras vão preferir algo que lhes renda alguns cascalhos sem a mordida do intermediário - por isso o Bandcamp. Lembro que quando estava negociando o lançamento do Mais Bad com outros selos estrangeiros, absolutamente todos os contratos proibiam a disponibilização automática nas plataformas de streaming. Pelo visto é tendência.

Porque o satanique não faz cover?

Boa pergunta. O Satanique Samba Trio não faz cover por que a proposta da banda é, basicamente, esculhambar clichês da MPB sem associá-los a nomes reconhecíveis e, em uma segunda instância, celebrar a inventividade dos gênios anônimos que definiram as tendências que mais tarde viriam a se tornar chavões.

Perguntaram por dm: Tu já foi confundido com segurança da banda em algum show?

Usando a pergunta: o Satanique Samba Trio transita muito pelo erudito da música brasileira, um lugar um tanto elitista e embranquecido, queria saber se essa ainda é a realidade e como é pra você enquanto um não-europeu no meio dessa porra toda.

O circuito da música erudita no Brasil é sim repugnantemente elitizado, justamente por isso também muito restrito a teatros e ambientes específicos. E eu digo isso como espectador esporádico, por que o Satanique Samba Trio em si não circula tanto assim nesse universo, pelo menos não fisicamente. Estamos mais presentes em palcos do que em grandes teatros, então no final das contas nosso público é outro, tem uma cara diferente. Uma cara linda, diga-se de passagem.

E imagino que eu não seja grande o suficiente pra ser confundindo com um segurança, mas te digo que já me chamaram de Vin Diesel do Esgoto por aí.

Quem você chamaria pra produzir um álbum do Satanique se não pudesse ser ele ou qualquer outro membro da banda? 

Nem preciso pensar muito: não havendo restrição orçamentária, seria o maestro Quincy Jones. Manja muito de música brasileira. Com restrições, seria o meu parça Chico PS, pois provavelmente faria de graça.


O SS3 dá dinheiro? O SS3 tem groupies?

Dá dinheiro sim, mas não sei exatamente pra quem. E, poxa, se com “groupies”, a pessoa quis dizer “doidões que compram material da banda e se esquecem de informar o endereço para envio”, sim, tem demais.

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domingo, 2 de junho de 2019

HC Entrevista: Devotos, o Alto José do Pinho e o Agora Tá Valendo

Devotos das antigas: Tirada do Livro "Devotos: 20 anos", do Hugo Montarroyos (editora CEPE)
No final deste mês de junho, este humilde bloguinho completa 10 anos de história. Aproveitando o mês festivo, vamos começar a soltar algumas entrevistas com artistas que curtimos e acompanhamos ao longo de nossa história. Acreditamos que seria legal tentar colocar algumas entrevistas por aqui, mas não sabemos qual será a temporalidade delas.

A primeira que irá sair é com trio punk pernambucano Devotos. Eu tentei emplacar na vice entrevistas com a banda duas vezes nos últimos anos. A primeira foi em 2017, falando sobre os 20 anos de lançamento do Agora Tá Valendo, primeiro disco da banda, lançado pela PLUG/BMG em 1997 (Pra Download aqui). A segunda tentativa foi no final de 2018, falando sobre os 30 anos da banda e o lançamento do O Fim que nunca acaba, sétimo álbum de inéditas da banda (Pra download aqui). Um disco urgente, com sonoridade diferente do punk tradicional do trio e que desvenda o Brasil periférico atual como poucos. Mas a gente fala mais dele na próxima parte do papo. Eu pensei em soltar as duas juntas, mas me lembrei do grande pensador Fafá Zanatto e sua tag favorita: Too long, dont read (muito longo, não li).

Sendo assim, iremos começar pelo primeiro papo, que foi mais rápido e que põe em evidência um dos trabalhos mais legais do punk pernambucano, nordestino e porque não nacional. A Devotos (na época do Ódio) acabou se misturando com o Movimento Mangue ascendeu num momento em que Recife era pura musicalidade, atraindo interesse de pessoas do mundo todo. Foi assim que o trio do Alto José do Pinho conseguiu lançar seu primeiro álbum e direto por uma major (A PLUG da BMG).

Esse papo não saiu na época porque tanto eu, quanto o editor do site onde ele ira sair, achávamos importante falar não apenas com os integrantes da banda, mas com pessoas envolvidas no processo. Eu até tenho contato com Paulo André, produtor da banda na época e consegui o contato do Lúcio Maia (que produziu o álbum), mas com o Maurício Valadares o papo era meio engessado, apenas por mail e pelo visto estava "sem tempo irmão". E ele era peça fundamental para entender ainda mais o álbum, já que parte da polêmica era que sonoramente o disco não parecia com a Devotos ao vivo, como bem disse Hugo Montarroyos no livro "Devotos: 20 anos". Eu poderia ter insistido um pouco mais, mas a questão é que demorou muito e a matéria esfriou.

A questão é que ambos os papos tem falas muito bacanas do Cello, Neilton e do Cannibal.  E seria bobeira deixar isso morrer no meu bloco de notas. Fora que trata-se de um dos discos mais importantes da minha vida (Tá até na lista que fiz pro Flogase). Passei parte da minha adolescência morando bem perto do Alto José do Pinho e como todo jovem, era imprudente o bastante para andar de bicicleta subindo e descendo as ladeiras por toda extensão da Avenida Norte. Bom, segue o papo.


 


Como é ter razão há 20 anos? É frustrante ver que alguns dos problemas tratados no Agora tá valendo ainda existem?

Cannibal: eu acho que o que aconteceu há 20 anos e o que acontece agora é reflexo da própria sociedade. A gente está vivendo num período onde todo mundo tá reivindicando uma nova política, mas eu acho também que as pessoas tem que se cobrar. Não adianta reivindicar nova política, é também você saber o que você quer fazer, saber votar, saber correr atrás e reivindicar as suas coisas. É que às vezes as pessoas trocam seus votos por coisas imediatistas, um emprego, alguma coisa e não pensa no social.

Isso é uma coisa meio cultural do Brasil. Isso sempre aconteceu e vai continuar acontecendo. Então qualquer coisa que você fale ou faça nos anos 80, vai se refletir muito no agora, por que tudo que aconteceu, continua acontecendo. A gente tenta mudar as coisas, mas esquece de mudar nós mesmo e o nosso jeito de viver. Eu acho que a gente pensa muito na gente individualmente, no momento em que a gente começar a pensar socialmente em tudo, eu acho que a coisa começa a melhorar.

Eu acho o “Agora Ta Valendo” um disco sobre o Alto José do Pinho, mais até do que sobre periferia, Recife ou vocês três. Queria que vocês falassem como é retratar um espaço tão pessoal de vocês e ver esse trabalho ser tão bem recebido.

Cannibal: A ideia daquele disco é muito Alto José do Pinho porque, até os 16, 17 anos, que foi quando a gente começou a fazer música, a nossa vida era o Alto José do Pinho, eu não conhecia nada. Eu particularmente não saia do Alto José do Pinho pra quase nada, saia só pra jogar pelada (futebol amador). A minha vida social era no Alto José do Pinho e eu escrevi o que eu vivia e via, eu não escrevia nada sobre o que eu via na TV ou no jornal, não tinha como escrever sobre isso porque não era meu.
Era um cara passando na rua, sentado na calçada sem nenhum centavo tomando cachaça e eu escrevendo a letra naquele momento. E é por isso que a identificação é tão forte com a comunidade. Por causa da nossa vivência dentro da comunidade. A gente pensava muito dentro do Alto José do Pinho. O mundo estava acontecendo, a gente estava no mundo, mas a nossa preocupação maior era com a barreira que estava caindo lá no Alto, era com a falta de segurança no Alto e isso refletia em outras comunidades. E ai que eu entro na história de ter dado certo, principalmente pra quem é de periferia. Porque você falar do Alto era meio que falar dos problemas que aconteciam em todas as periferias. Por isso que aquele disco o “Agora Tá Valendo” é muito Alto José do Pinho. A gente só começou a sair do Alto depois que a Devotos começou a acontecer e ai a gente teve outra visão de mundo, por assim dizer. Mas esse disco é a cara do Alto.

O que eu posso dizer que mudou de lá pra cá, falando 20 anos depois. Eu acho que o que mudou de lá pra cá é ver a galera com uma autoestima mais forte, de não ter vergonha de ser morador da comunidade. E que pode mudar o seu quadro social com a cultura, com seu trabalho. E isso a gente tem na vivência no Alto José do Pinho, porque depois da gente surgiram vários outras manifestações culturais como o Afoxé, o “Amigos do Alto José do Pinho”, e várias outras pessoas que fizeram e fazem até hoje. Então, a gente viu que conseguiu dar um empurrão, se nós conseguimos mostrar o Alto para o mundo e sair dele com isso, vocês também conseguem. Essa afirmação a gente vê hoje na comunidade. Os problemas continuam acontecendo, a falta de segurança, saneamento, etc. Mas aquela coisa de você dizer: Eu moro no Alto José do Pinho, eu sou morador do Alto, isso a gente conseguiu mudar. Não só como banda, mas como um coletivo de pessoas que queriam mudar positivamente seu lugar. Hoje as pessoas falam que moram aqui, que conhecem o Adilson do Matalanamão, o Zé Brown do Faces do Subúrbio. A referência agora é a música e a cultura. Antigamente antes das bandas, as referências eram o assaltante de banco, o criminoso que descia pra assaltar na Avenida Norte, era o cara que saia nos jornais policiais. Então hoje isso mudou muito.

Cello: Eu acho que o disco sintetiza a autoafirmação do lugar onde você vive e como você vive. Eu acho que o disco resume bem isso, essa identidade com uma estima, ela leva muito essa mensagem de estima.

Vocês pesaram o risco de se expor e ter essa autoafirmação do Alto, da periferia, de seus ideais? Já que o disco saiu por um selo grande, pra todo o Brasil, apresentando vocês.

Cello: Eu acho que a gente nunca pensou nisso não. Com relação à autoafirmação de ser músico, essa a gente já tinha sim. Cada um na sua vertente de rock, mas todos já estavam nessa querer fazer música. Você já vinha desafiando tanta gente na escola, comunidade, casa, você já vem desafiando tanta coisa que quando você acha dois ou três caras pra se juntar com ideias parecidas e tirar um som, você se joga.

Neilton: Tem outra história nisso tudo que é que na época quando a gente começou a tocar, nós nunca quisemos ser exemplo e nem servir de direcionamento pra ninguém. A gente só faz o que a gente gosta. Mas isso reverberou no Alto de um jeito que a gente não tinha noção, porque as pessoas começaram a perguntar como aprender a tocar, onde comprava instrumento, até então isso não tinha força por lá. E isso foi muito importante pra gente entender o que estava acontecendo. E nós sempre nos misturávamos muito, então o pessoal viu uma banda punk tocando junto com um afoxé, com o maracatu, caboclinho e sem querer, passando isso para uma nova geração, sabe? E isso foi muito importante e nos da muito orgulho.

Como foi o contato pra chegar na BMG e lançar o disco, contem ai.

Neilton: A Devotos é do movimento punk, né? E tem muita influencia daquela cena de São Paulo, do Inocentes, Olho Seco, Ratos, Garotos Podres, essa galera. E por consequência, teve influencia até nas letras. Depois de um tempo é que a gente começou a ver que não era só aquilo que fazia parte do ideal de trabalho do movimento punk e nem do futuro como a gente imaginava. A gente começou a perceber isso quando um amigo nosso, que sempre ia pros shows da gente na época, Carlos Freitas, fez uma observação bem positiva, ele falou que a gente poderia falar de qualquer coisa e não só falar que a bomba iria explodir. Que era o tema básico do que era dito pelo punk nos anos 80, por causa da bomba nuclear, e tinha mais a ser dito que isso.

E eu falo isso porque tem tudo a ver com a nossa contratação e o lançamento pela BMG, porque mais uma vez, comungamos sem querer com o que estava acontecendo nos anos 90. Por coincidência com o movimento mangue, o aparecimento de Paulo André como produtor criando o Abril Pro Rock, entre outras coisas que estavam rolando na cidade. E eu acho que a única banda punk a comungar com essa galera fomos nós, sem deixar de ser punk e sem mudar o que a gente falava, sem negar nossa origem ou nossas ideias. E tem muita gente que nessa época nos colocou no velho chavão de traidores do movimento, porque de certa forma a gente estava participando do circuito, do boom do movimento musical que colocou Recife muito em evidência.

O lance do contrato, a gente tinha recebido até outras propostas de outras gravadoras até grande e tal, mas terminamos assinando com o selo PLUG da BMG por causa de um cara foda, que era o Mauricio Valadares, que percebeu o quanto o que a gente falava era verdadeiro, sabe? E o Mauricio tem uma história massa no rock brasileiro porque ele viveu toda aquela cena rock dos anos 80 no Rio, ai era um cara que tinha propriedade pra dizer se valia a pena investir numa banda como a Devotos em uma gravadora grande. A principio fomos muito relutantes, por conta da própria filosofia do punk, por mais que a gente não seguisse nada, a gente ficou meio relutante. Mas a gente pensou primeiro na banda e em como levar o nosso som o mais longe possível e naquela época era através de uma grande gravadora.

O Mauricio veio pro Abril Pro Rock em 1996 e viu a gente ao vivo e chegou no Paulo e disse: eu quero essa banda. E Paulo fez a ponte pra gente assinar com a BMG e acabou sendo o produtor da Devotos na época, vendendo os nossos shows após o lançamento do disco. A gente já tinha contato com ele na época de Chico (Science), nós fomos a banda que abriu o primeiro show da turnê do Afrociberdelia em São Paulo em 1996, e isso ajudou porque estávamos num lugar onde tocavam a nata da música no Brasil que era o Tom Brasil. Eu lembro que os seguranças do espaço ficaram muito felizes porque os cara tinham banda punk e viram uma banda punk tocando na Tom Brasil. Tem várias histórias que nos levam ao contrato com a BMG.

Vocês tiveram que mudar alguma coisa no som de vocês pra gravar o álbum? Por que ele é bem diferente da demo anterior e de como soava ao vivo.

Neilton: Tiveram vários fatores para que isso acontecesse. Sonoramente a gente não gosta muito do disco. Assim que chegou a mostra da mala, a gente ouviu e não entendeu. E confesso a você que eu não entendo até hoje. Por que tem coisa que a gente gravou e não saiu por exemplo. E tem outra coisa que a gente ficou pensando depois, não digo que ficamos arrependidos, mas pensamos muito depois é se a gente escolheu a pessoa certa pra produzir o disco por exemplo. Porque era o primeiro disco produzido pelo Lúcio Maia, principalmente um disco pesado. Por mais que a gente saiba que ele é muito bom na história de timbrar as coisas, pode ser que ele tenha sido podado. A gente não sabe, ficamos meio de inocente no final das gravações, porque quando Paulo chegou com a referência do disco na master pra gente ouvir, a gente ficou achando que ainda era o cru e ainda faltaria fazer alguma coisa e falamos pro Paulo. Mas e ai, quando a gente vai finalizar esse disco? E o que a gente gravou, tá aonde? E ele disse: não esse é o disco já.

E a gente nunca negou que a gente não gosta do som do disco, a gente sabe a importância que ele tem nas letras e nas músicas, mas sonoramente a gente não gosta do disco. Tanto que os discos depois foram bem mais pesados e rápidos, por exemplo. A questão da velocidade das músicas porque na época a galera queira que as músicas soassem não mais lentas, mas que fossem mais longas ao vivo e ai a gente teve que rearranjar algumas faixas, deixar elas mais longas pra gravação, diferente do que a gente fazia nos shows na época. Mas o som como saiu, a gente não tem muita culpa não (RISOS).

Como é manter a mesma formação numa banda há mais de 20 anos, se mantendo relevante?

Cello: Eu acho que a gente gosta de músicas bem diferentes e existe um respeito de todos. E essa mistureba faz bem pra gente, deixa o som interessante. Eu continuo ouvindo as mesmas coisas eu ouvia na época desse disco. O Neilton gosta das coisas estranhas dele e o Cannibal talvez seja quem mais se expandiu nos estilos por assim dizer.

Neilton: Eu acho que a gente nunca pensou muito no tempo não, só foi fazendo mesmo.



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