
Por Allyne
Fiorentino
Já reparou que
as formigas não comem mais açúcar puro? Se você deixar alguns grãozinhos sobre
uma superfície qualquer, poderá ver que nada acontece como antigamente. Não
formarão aquele desenho bonito que temos na cabeça, aquele formato de “sol de
formigas” envolta de um doce. Sabe? Isso não acontece mais. Não foram as
formigas que mudaram, foi o açúcar.
Meu cachorro
teima em não comer pão de forma: ele cheira, cheira e identifica com seu olfato
uma gama de químicos que pode ter ali e vai embora sem comer. Se recusa.
Esperto ele. Também nunca vi formiga comer pão de forma, embora deva ser um dos
pães mais consumidos no país. É sábio não comer e beber de qualquer fonte
envenenada, ainda que todos o façam. Ah! Mas é um vício. É mesmo. Vício é
aquilo que você faz mesmo sabendo que te faz mal. É mais do que químico, é
moral e temporal, eu diria. Temporal? Sim, uma formiga comum tem apenas 2 anos
de vida, ela sabe da sua finitude, então não arriscaria ceifar sua vida por
bobagens. Nós temos mais tempo e isso nos ilude. Já a moral, bom, essa sabemos
mesmo que somos precários, principalmente quando se trata de nós com nós
mesmos.
Mas eu vou te
mostrar uma coisa. Está vendo ali, perto daquelas nuvens acinzentadas, aquele
magnífico pote de doces? Uau! É enorme. Sim, e ele é infinitamente abastecido,
de forma que nunca acaba. Que loucura! E o que são aqueles pontinhos? Ah!
Aquilo? São pessoas. Pessoas? Sim, um pequeno grupo de pessoas. Vamos chegar
mais perto pra ver. Estão todas lambuzadas dessa espécie de “mel”. Olha a
barriga deles! Está até grande de tanto comer esse doce maluco desse pote. O
que tem nesse doce? Hum... é uma mistura de muitas coisas, não posso te dizer
exatamente a receita, mas pra ficar mais palatável, nós o tingimos de dourado,
mas a cor original era vermelho-sangue.
Mas o mais
magnífico é o que você vai ver lá embaixo. Tome, use esse binóculo! Embaixo?
Sim, não vê que esse pote está no topo de uma escada? Ah! É verdade, eu nem
tinha reparado. É uma escada longa, está bem suja, nojenta, precária, parece
viscosa de tanta sujeira. Aquilo são ossos? Hum... vamos deixar esses detalhes
pra depois. Olha o que tem perto do início da escada. Um trilhão de
pontinhos... Não vá me dizer que são pessoas. Precisamente, são pessoas! Parece
que vez ou outra elas brigam, vejam como são animalescas! É mais legal quando
estão assim, é meio chato quando estão tristes e cansados. Aí não tem muita
graça, alguns até se matam.
Mas o que eles
querem, afinal? O que eles querem é subir a escada. Pra quê? Pra comer daquele
doce. Eles quase são famintos. Muitos não têm nada pra comer. E o restante,
come o suficiente pra sobreviver. Isso não tem feito muito sentido pra mim. Por
que diz isso? Aposto que você já entendeu. A escada. Isso, exatamente, você
entendeu tudo! Ela é precária pelo que vi. Calculando a quantidade de pessoas
lá embaixo, elas facilmente conseguem derrubá-la, é uma escada podre e frágil.
Assim, o pote cairia lá embaixo e todos poderiam comer. Sim, não é magnífico? E
por que eles não fazem isso? Aí é que vem a nossa maior diabolice. Eles não
querem dividir o pote de doces infinito. São egoístas. Cada um pensa por si,
acham que o único jeito de solucionar esse problema é subir a escada. Em vez de
destruí-la, eles a protegem com todo o fervor, na esperança de um dia conseguir
chegar lá em cima. Isso é diabólico mesmo! Estou impressionada. Nada disso,
você ainda nem viu o maior plot twist desse jogo que inventamos! Vou
pegar um binóculo de maior alcance pra você. Tome! Esse fará você vê-los lá
embaixo, bem de pertinho. Oh! Meu deus do céu magnífico... Isso é terrivelmente
desumano... Genial, não é? Eles não têm pernas.
— Estamos
recebendo uma bordoada de todos os lados. Se aplicarem essa tal lei Magnitisky,
estamos fodidos.
— Desculpa,
sr. Marcelo, eu viajei legal aqui, estava com os pensamentos em uma história
que me veio na cabeça... Sabe como é escritor, né? O que o senhor disse mesmo?
— Que as
coisas funcionam como sempre funcionaram, não tem o que fazer. Já terminei de
limpar sua mesa, fia. Agora vou limpar outros escritórios. Mas depois eu volto
aqui pra gente continuar proseando. Eu li agora a pouco que vão proibir as
pessoas de terem iates! Esses canalhas!
— Mas o senhor
não tem um iate!
— Mas e se um
dia eu tiver, não é?
Crônica publicada
originalmente no Crônica
do Dia.
Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em
São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos
Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em
Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo,
Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco,
mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram:
@fiorentinoallyne.