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sábado, 24 de maio de 2014

Performances I Fucking Love #03: Naomi Watts in Mulholland Drive

Betty é uma aspirante a actriz optimista, enérgica e esperançosa. Muda-se de Deep River, Ontario para a cidade dos sonhos com o objectivo de concretizar os seus. Diane é o total oposto. Amarga e vingativa, está presa na sua própria descendente espiral de auto-destruição.

As duas personagens são interpretadas por Naomi Watts, naquele que foi o desempenho que a colocou nas luzes da ribalta e que pavimentou o início da sua carreira em Hollywood.

Interpretar uma personagem fragmentada num filme não linear (presumo) que não deva ser uma tarefa particularmente fácil. Fazê-lo, demonstrando uma tremenda naturalidade e vulnerabilidade parece-me ser ainda mais complicado. Mas Naomi Watts sobrepõem-se ao desafio e deixa registada uma performance, que não só comprova o seu enorme talento, que seguramente resistirá ao teste do tempo.

A inocência, o desespero, a jovialidade, o derrotismo, o optimismo e a culpa coadunam-se num singular e magnético desempenho que serve de âncora para um filme que – por si só – é magistral. Naomi Watts é a mais sumarenta cereja em cima do bolo.



BETTY ELMS It’s strange calling yourself...
Bonus Link

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

The Impossible (2012, Bayona)


Em 2004, um dos maiores e mais significativos terramotos alguma vez registados teve o seu epicentro no sudeste asiático. Seguido de um massivo tsunami, a memória desse Natal, para inúmeras famílias, fica marcada pela dor e fragmentada pelos destroços da enorme catástrofe. The Impossible relata a experiência de uma família (Naomi Watts, Ewan McGregor e Tom Holland assumem, brilhantemente, os papeis centrais) que se viu envolvida no meio de todo aquele caos.

Cinco anos após o surpreendente El Orfanato, Juan Antonio Bayona volta à carga e transporta para o grande écrã os eventos acima mencionados e, com The Impossible, cria um afectante, poderoso e tocante filme. Recorrendo a um irrepreensível uso da sonoplastia, a segunda longa metragem de Bayona causa arrepios em diversos momentos e, nesse campo, a chegada – ou até mesmo os breves instantes antecedentes – da monstruosa onda figura-se como uma das cenas mais tensas do ano.

Nas suas interpretações, Ewan McGregor (a chamada telefónica é dolorosa de ser ver) e Naomi Watts (só de lembrar a simples imagem dela a agachar-se para se proteger do iminente choque é razão para sentir aquele frio arrepio) mantêm o alto calibre com que nos têm vindo a brindar ao longo das suas ilustres carreiras, conferindo uma grande empatia às suas personagens. Tom Holland é revelatório e, caso decida prosseguir com a carreira de actor, poderá vir a ser uma das futuras estrelas de Hollywood.

É fortemente emocional, ainda que tenha a ocasional cena em que a intelectualidade (forçada) venha um pouco mais à tona. Contudo, estas poucos momentos não põem em causa a experiência que o filme pretende transmitir, dado que The Impossible se alimenta, em primeira instância, da agonia, desespero e falta de rumo das suas personagens, e em segunda instância, dos laços que as unem.


9/10.

domingo, 3 de julho de 2011

Fair Game (2010, Liman)


Baseado em acontecimentos reais, Fair Game relata a forma de como a identidade de Valerie Plame (Naomi Watts) – funcionária da CIA – foi exposta ao Mundo e de como é que isso afectou a sua vida profissional e pessoal. Um sofisticado thriller político que figura como um dos filmes mais refinados de 2010.

Afastando-se do género de acção a que se tinha acostumado, Doug Liman (realizador por detrás de filmes como Mr. And Mrs. Smith, Jumper e do terrífico The Bourne Identity) opta por assumir um tom mais low-key neste seu filme comparativamente com as suas prévias obras: deixa a narrativa fluir naturalmente, deixa os seus actores jogar com aquilo que lhes é dado. Fair Game é um filme bastante natural e que refrescantemente adopta uma postura política bastante neutra, tendo em conta que o filme tem como pano de fundo o infortuno acontecimento que foi o 11 de Setembro e toda aquela tensão directa que os EUA e o Iraque viveram nos anos seguintes.

 
Com uma realização e montagem extremamente sólidas, uma fotografia adequada e um argumento conciso, o sucesso do filme recai nos seus actores. Sean Penn desenvolve a sua personagem em conformidade com o tom geral do filme e surge como o catalisador de toda a estrutura narrativa. Apesar de não ser propriamente um dos pontos mais altos da ilustre carreira de Penn enquanto autor, não deixa de ser também um trabalho eficaz. Naomi Watts, contudo, compreende perfeitamente tudo aquilo por a personagem passou e brinda-nos com a sua melhor interpretação desde 2006 – ano em que protagonizou o The Painted Veil. De destacar a fantástica cena em que Naomi Watts afirma não ter um breaking point.

Concluindo, Fair Game destaca-se dos restantes thrillers políticos pela sua natureza minimalisticamente ancorada e por ter sido especialmente overlooked durante a época de prémios do ano passado.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Mulholland Drive (2001, David Lynch)

*o post tem spoilers*


Tendo sido desenvolvido originalmente como um pilot para uma possível série televisiva, Mulholland Drive foi rejeitado. Face a este acontecimento, o seu realizador optou por reunir os fundos necessários que o permitissem desenvolver o filme com o intuito de ser exibido nas salas de cinema. David Lynch fez, decididamente, a escolha acertada, pois o filme obteve uma recepção crítica excelente, valeu-lhe uma nomeação para Melhor Realizador, e mais recentemente, Mulholland Drive foi ainda nomeado como o melhor filme da década (2000-2009) por uma grande variedade de críticos.

Sendo notório pelo facto dos seus filmes mergulharem frequentemente nas temáticas do surrealismo e de explorarem o mundo do subconsciente, David Lynch manteve a sua expressão de marca e continuou a explorar esses mesmos temas neste filme, aperfeiçoando a sua técnica.

Breve Síntese: Diane (Naomi Watts) muda-se para Los Angeles com o objectivo de perseguir uma carreira como actriz, após ter vencido um concurso de dança. Numa audição Diane apaixona-se por outra actriz, Camilla (Laura Harring). Uma vez que Camilla mantém relações tanto com homens, como com mulheres, os ciúmes começam a apoderar-se de Diane. Durante as filmagens de uma cena de um filme que conta com a participação de ambas as actrizes, Diane apercebe-se da cúmplice relação que Camilla tem com Adam (Justin Theroux), o realizador do filme. Posteriormente, numa festa privada, Camilla e Adam anunciam o seu casamento, o que cega Diane com raiva. Neste estado, Diane contrata um hitman para assassinar Camilla por todo o sofrimento que esta lhe tem causado. A solidão instala-se na vida de Diane, assolando-a, fazendo com que imirja num mundo de fantasia, num sonho, onde tudo acontece da forma que Diane sempre quis. Quando desperta, a culpa derivada dos seus actos consome-a levando-a ao suicídio.


A narrativa do filme não segue uma estrutura tradicional, onde o príncipio, o meio e o fim surgem como ordem natural. A sua não-linearidade confere ao filme um elevado grau de complexidade que requer um enorme grau de atenção por parte do espectador. No final de contas, o filme é um puzzle. Contudo, o grande nível de atenção ao detalhe que o realizador injecta no filme, e o forte simbolismo subjacente às diversas cenas que o compõem dão-lhe um carácter portador de uma grande originalidade.
É um filme sedutor. A fotografia é excepcional e fulcral para a criação de um ambiente misteriosamente sensual. A banda sonora está também em consonância com as temáticas que são exploradas no filme, para além de que desempenha um papel fundamental numa das cenas chave do filme (cena do Club Silencio. O uso do som nesta cena é de uma importância tal que ajuda o espectador a perceber o que está a acontecer).

E não poderia falar deste filme sem mencionar a extraordinária interpretação da Naomi Watts. O Mulholland Drive foi o filme que a catapultou para as luzes da ribalta em 2001, e que lhe abriu as portas necessárias para assegurar uma carreira estável em Hollywood (dois anos depois, Naomi Watts estaria a receber a sua única nomeação para os Óscares até à data, pelo filme 21 Grams). Aqui, Naomi Watts demonstra todo o seu talento interpretando duas personagens que são o oposto uma da outra, de uma forma extremamente natural e credível. Por um lado temos Betty (a personagem do "sonho") – eternamente optimista, determinada, humilde, talentosa, e nobre. No outro lado do espectro temos Diane (a personagem da "vida real") – vingativa, extremamente pessimista, derrotista, sem grande talento e patética. A forma de como a Naomi Watts efectua esta transformação de 180º de maneira tão convincente e precisa é algo  admirável. É, na minha humilde opinião, a melhor interpretação que já alguma vez vi num filme.

Concluindo, ver (preferencialmente, com uma mente aberta) o Mulholland Drive é uma verdadeira viagem ao mundo do subconsciente, que trabalha na razão e na emoção dos seus espectadores. Altamente recomendado.

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