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Wednesday, October 02, 2024

Dia 342.


Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele
e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.
Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser
este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida
na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos
para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.
Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti
eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida.
Procura-me com os teus antigos braços de criança
para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável
de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.
Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.
Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,
para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros
pequeninos. Só essa água fará reconhecer
o mais profundo, o mais intenso amor do universo,
e eu quero que dele fiquem a saber
até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.

Friday, September 08, 2023

Dia 225.


Necessito de mim mais do que de ninguém. Mas mentiria se não confessasse o quanto preciso de ti. Tu és o meu vinho e a minha ressaca.  A minha árvore e a minha floresta.  O meu cavalo.  A minha casa, o meu mar, o meu coral.  A minha teimosia e a minha lucidez.  O meu pássaro de chuva e o meu pássaro de fogo. A minha distância, o meu abismo, a minha fuga. A minha sombra e o meu túnel. O atalho para o outro lado de mim.

Tu és a minha estrela e o meu guia.  A minha porta, o meu clarão, a minha injúria. O meu grão, o meu vento, o meu moinho.  O meu sortilégio.  O fim da festa e o meio-dia. O meu carnaval, o meu brinquedo, o meu dia santo. O meu pecado, a minha penitência.  O ouro, a ofensa, o desvario.  És o meu hábito e o meu monge.  A minha espiga e o meu pão.  A minha irmã branca, a minha irmã negra, a minha irmã de novas latitudes. A minha amante e a minha mãe, o meu abraço e as minhas margens. A minha prostituta, o meu combate, o meu sorriso. Tu és o meu cálice.  O meu elixir e o meu veneno. O vinho que dá coragem às medusas.

Necessito de ti mais do que de ninguém.  Mas mentiria se  não te confessasse o quanto preciso de mim. 

Joaquim Pessoa

Wednesday, November 09, 2011

Dia 178


Inventa o que quiseres quando estou entre as tuas coxas.
Tudo o que inventares aumentará o fogo e o fôlego do amor.

E eu serei príncipe, coral, animal devastador, incansável pescador de pérolas.
O que durar uma hora, parecer-te-á um segundo.

Mas nesse segundo cabe a eternidade.


Joaquim Pessoa
(Ano Comum)

Wednesday, July 27, 2011

Dia 349


Ontem fui uma luz. Hoje sou uma luz.
Uma luz serei entre as tuas espáduas e no interior
da tua boca, na tua nuca incandescente, no ombro que
a minha língua percorre, faminta e transtornada.
A tua pele é um doce delírio, um fogo em território de paixão,
percorrido à velocidade desta luz. Sobre ela correm
animais assustados, fugindo da voracidade dos meus lábios,
dos meus dentes que mordem a surpresa.
E em cada centímetro do teu corpo beijo árvores e casas
de uma cidade branca onde Deus habita, e onde esvoaça
para o céu da minha boca um coro de anjos transparentes
que exultam aleluias no meu sangue.
O meu corpo é uma pátria de desejo. A tua boca
um poema manuscrito, dito em silêncio à minha boca
que mastiga as tuas palavras de seda, e de sede. E de incêndio.
Beijo a tua voz, e mordo nos teus gemidos as raízes da água,
as raízes do dia, as raízes da música, enquanto
longe dos nossos beijos, tudo grita, tudo se cala gritando.
Só a noite chegará atrasada à festa do teu corpo
no meu corpo. Da tua voz na minha voz. Das tuas mãos
nas minhas mãos. Da tua pele na minha pele.
E nem mesmo ela conseguirá aperceber-se de qual
de nós é o sorriso que quase a ilumina. Porque
as nossas bocas permanecerão
coladas.


Joaquim Pessoa
(do livro a publicar, ANO COMUM)

Tuesday, June 14, 2011

Dia 37


Não tens de quê! Dei-te o cigarro, o adeus, a água para o deserto, mas não me agradeças, não digas o meu nome.
Quero apenas que me deixes adormecer, que me abandones, que deites aos corvos e aos cães as minhas recordações. Não faz sentido a curva dos teus lábios, a penumbra quente das tuas coxas, a taça de álibis que me serviste.
Não faz sentido nada que tenhas para dar-me. Tira-me.
Apenas isso. Leva o que ainda guardava para ti, sem nada perguntar, sem um lamento ou um sorriso. Depois, parte.
Ficarei apagado, molhado de tristeza, num silêncio hostil e enfermo, procurando merecer-me, tentando ressurgir para lá de ti.
Não deixes nada. Nem a tua sombra, nem o teu cheiro.
A um canto, desolado, como se tivesse frio, quero apenas amar a tua ausência.


Joaquim Pessoa
(Do livro a publicar, ANO COMUM)