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quarta-feira, maio 01, 2024

Novo (FC) Porto?

Não é de todo a minha "colectividade", mas vivo no Porto e a coisa não me é totalmente indiferente. Obviamente não desejo felicidades desportivas a André Villas Boas. Mas só o facto de não ter sido apoiado por Macacos, Pidás e restante súcia e de se ter rodeado de gente minimamente normal já valeria sempre a pena. Espero que corte de raiz com isso, o que parece provável vistas as ameaças que recebeu, e que tenha sido o canto do cisne para certas pessoas que só davam mau nome à cidade e região do Porto. Já tardava.

terça-feira, fevereiro 27, 2024

Artur Jorge


Recordando Artur Jorge, falou-se sobretudo da sua carreira como jogador e treinador e dos títulos que ganhou, nomeadamente do facto de ter sido o primeiro treinador português a sagrar-se campeão europeu, pelo FCP, e o primeiro a ser campeão noutro campeonato europeu, pelo PSG - e infelizmente, também aquele que iniciou a maior crise desportiva de sempre do Benfica, quando chegou com aura de vencedor, entrando também a sua própria carreira de técnico em declínio. Falou-se menos de outras facetas, como a sua formação em filologia germânica, de ter lançado um livro de poesia nos anos oitenta e a sua colecção de arte e de discos de jazz e ópera.

E ainda havia a dimensão política: foi o primeiro presidente do sindicato de jogadores, com menos de 30 anos, e nas eleições para a Constituinte, em 1975, chegou a ser candidato nas listas do MDP/CDE, um partido sobretudo de intelectuais de esquerda que haveria de ser canibalizado pelo PC (provavelmente por isso é que depois tirou o curso de treinador na RDA, em Leipzig). Eis uma prova disso mesmo: Artur Jorge num comício do Campo Pequeno. Introvertido como era, custa a imaginá-lo a discursar, mas aposto que ao dirigir-se às massas, terá dito qualquer coisa como: "votem no MDP para assim podermos fazer coisas bonitas!




segunda-feira, dezembro 19, 2022

A final

 O Mundial não terá sido memorável por inúmeras razões, mas a Final deve ter sido a melhor desde 1986, e com o mesmo vencedor. Diga-se o que se disser, os argentinos, quando estão bem, trazem emoção e garra ao futebol. E ganharam com mérito (sim, alguns não souberam ganhar, mas não foram os únicos).

Estaria até há dias mais pela França, mas o facto de já serem campeões mundiais em título - ainda por cima com um conjunto muito parecido com o actual - levou-me a apoiar os albicelestes. Há, claro, o facto de haver jogadores benfiquistas no onze, que assim se tornaram os primeiros campeões do Mundo a jogar em Portugal ao tempo da conquista do troféu. Além do mais, esta era uma oportunidade que a Argentina tinha e que dificilmente se repetirá nos próximos anos. Se não ganhassem agora, sabe-se lá quantas mais décadas teriam de esperar. Sim, porque quando Messi se retirar, a selecção argentina será apenas mais uma boa equipa, mas sem nada de transcendente. Já a França irá por certo dominar o futebol na próxima década.

Assim, fica o título bem atribuído. Na disputa para ver quem ficava com a terceira taça, os sul-americanos levaram a melhor aos franceses, mas algo me diz que estes vão conseguir a tripla num dos próximos mundiais, salvo que questões internas de balneário os impedir.







terça-feira, novembro 29, 2022

 As semanas mais recentes trouxeram-me um ligeiro travo aos anos trinta e quarenta.

As imagens da libertação de Kherson, das ruidosas manifestações de alegria dos seus habitantes e da visita de Zelensky trouxeram-me de imediato à memória as da libertação da França, em 1944, e da chegada de De Gaulle a Paris, recriada na tela e com alguns testemunhos fotográficos. O presidente da Ucrânia tem sido comparado a Chrchill, mas naqueles momentos transfigurava-se mais como a voz da liberdade e da libertação dos ucranianos, aquele que parecia perdido na início da invasão mas cujas palavras soam a esperança diante do temível Inverno que está a chegar. E tal como a libertação de Paris não significou o fim da guerra, a de Kherson está longe do termo do conflito.

 

Entretanto decorre o criticado Mundial do Qatar (embora seja exagero chamar-lhe "o Mundial mais controverso de sempre", se recordarmos o que decorreu na Argentina em 1978, sob o infame regime militar que despejava corpos para o mar a partir de aviões, e que até levou à história, apesar de falsa, de que Cruyff não comparecera em sinal de protesto). Os estádios no meio do deserto tiveram a autoria, entre outros, como Zara Hadid, de Albert Speer. Sim, o filho com o mesmo nome do célebre arquitecto de Hitler e co-autor do estádio Olímpico de Berlim. O descendente não seguiu definitivamente as preferência políticas do pai, apesar de algumas controvérsias, explanadas neste artigo da New Yorker. Mas não deixa de causar algum frisson que um evento tão criticado pelo tratamento local dos Direitos Humanos tenha tido o dedo do filho, com o mesmíssimo nome, de um dos autores dos Jogos Olímpicos de Berlim e do projecto da demencial Germania.

sexta-feira, maio 27, 2022

Triunfo onde já se dominou


A Roma, clube mais popular da Cidade Eterna, ganhou o seu primeiro título em muitos anos e o primeiro troféu da Conference League, essa nova competição do futebol europeu. E também a primeira final internacional em Tirana, capital da Albânia.

Não deixa de ser uma extraordinária coincidência: é que o estádio, um imóvel vanguardista recente com uma torre lateral que à primeira vista, de fora, nem se percebe ser um recinto desportivo, fica situado numa zona urbana construída por italianos e que alberga grande parte dos edifícios públicos e administrativos da capital. Todas aquelas construções datam do tempo da anexação da Albânia pela Itália, nos anos trinta, e são de típica arquitectura fascista, racionalista e monumental. O exemplo perfeito é o edifício da universidade de Tirana, ao fundo de uma larga avenida, tendo o estádio do seu lado esquerdo, para quem está de costas para a fachada, e as construções das imediações e da dita avenida obedecem ao mesmo plano. Nem o singular regime marxista/maoísta que se lhe seguiu mudou a sua configuração. E a praça de entrada para o estádio chama-se mesmo Praça da Itália.

É muito natural que com tanta construção dos seus patrícios, e parecida com outras que há em Roma, os romanistas nem se tenham sentido no estrangeiro. Até porque na Albânia muita gente fala italiano e não faltam gelatarias.

 
Ah, e Mourinho voltou a ganhar um troféu, continuando 100% vitorioso em finais internacionais. Isso também é familiar.
 








quinta-feira, agosto 19, 2021

Cinema com visão

Com o ingresso de Messi no PSG, lembrei-me de uma cena do filme Le Concert, uma comédia em que uma hilariante orquestra russa constituída por judeus e ciganos vai tocar a Paris. A meio, quando um oligarca se prontifica a financiar a viagem da dita orquestra em troca de poder tocar a meio, a mãe do milionário surge de rompante e descompôr o filho, aconselhando-o antes e meter-se no futebol, qual Abramovitch, a investir no Paris Saint Germain e a comprar Messi para o clube francês. O filme é de 2009, ainda Messi tinha 22 anos e o PSG estava longe de ser milionário.

12 anos depois tudo se concretizou. A única diferença é que os investidores são árabes Qataris, não russos. O cinema pode adivinhar o futuro ou é uma deliciosa coincidência fruto de uma imaginação fervilhante que se tornou real?

sábado, julho 17, 2021

A redenção pela bola

 Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.

Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, nunca a Inglaterra tinha ganho um jogo nos 90 minutos na fase a eliminar dos Europeus. Normalmente ficava-se pelo primeiro jogo (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em em solo inglês e ultrapassaram a Espanha nos penaltys. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.

Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).


Não estava propriamente a apoiar os Three Lions, mas confesso que me interessava a ideia da redenção de um homem, que, 25 anos depois, naquele mesmo espaço, poderia conduzir a sua seleção à vitória na competição como treinador, depois de o impedir como jogador. Mas como sabemos, a história não acabou assim, e mesmo tendo chegado à final, a Inglaterra perdeu em Wembley com a Itália, de novo nos penaltys - e aqui sim, Southgate falhou pela escolha dos marcadores.

Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira  de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurra, sofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.



sábado, maio 29, 2021

Para uma final britânica perfeita

Uma pena que estejamos na situação em que estamos, com o distanciamento, as máscaras e etc, senão, como aperitivo para final da Liga dos Campeões, podíamos ter uns cantares ao desafio entre Mr. Damon Albarn, dos Blur e do Chelsea, e Mr. Noel Gallagher, ex metade dos Oasis e do Manchester City. Não sendo possível, Go citizens.



(Isto é mesmo ficção, porque se não fosse a pandemia a final seria em Istambul).

terça-feira, maio 11, 2021

O Sporting de Amorim e Varandas

 

E confirmado o titúlo de campeão, resta dar os parabéns ao Sporting. São justíssimos vencedores, com uma equipa de miúdos e um ou outro jogador experiente, treinados por um também novíssimo Rubén Amorim (é só a parte que me custa, um confesso benfiquista levar o Sporting ao título) que, com mais ou menos dificuldades conseguiram fazer dos lagartos novamente campeões ao fim da maior seca de sempre - 19 anos.

É também uma bofetada desportiva nos Pintos, nos Vieiras e nos Salvadores, nos Conceições e Jesus e em todos os que se achavam donos do futebol, e last but not least, nos Brunos de Carvalho e nos seguidores que ainda tem, os mesmos que agora andam a comemorar despoletando confrontos e pancadaria, a ralé brunista da invasão ao centro de estágios. É bom não esquecer que Bruno de Carvalho é que era o modelo de "líder", o "vencedor", o que ia fazer do Sporting campeão...E afinal de contas o seu sucessor e opositor, Frederico Varandas (o Dr. Watson português, já que como o fiel assistente de Sherlock Holmes também tem o posto de capitão e esteve em missão no Afeganistão como médico do exército) recolheu os cacos, teve de montar nova equipa, apostou com grande risco em Amorim e agora colhe os louros. Uma grande lição de como se pode ser vencedor sem andar com discursos incendiários, bravatas ou truques baixos, e, espero eu, com seguidores no futebol português.

PS: só tive pena que o Sporting se tenha sagrado campeão vencendo o Boavista, que ganhou o seu único título de campeão há exactamente vinte anos, em 2001 (isto da passagem do tempo...) e que agora está numa situação periclitante no campeonato. Espero que os do Bessa se aguentem.

segunda-feira, setembro 14, 2020

Já não se fazem campeões como (nas pandemias de) antigamente

Estava há dias a ver imagens do jogo do campeonato francês entre o PSG e o Marselha, treinado por André Villas-Boas, que acabou com a vitória deste último em pleno parque dos príncipes, e que acabou com uma animada sessão de pancadaria. Mesmo com o regresso de Neymar, Di Maria e de outros que ficaram uns dias fora por terem acusado positivo para o covid (impressionante como esses jogadores recuperaram depressa), mostraram muito pouco e o craque brasileiro ainda levou um cartão vermelho, pelo que mais valia que não tivesse jogado. Como seria de esperar, os marselheses comemoraram à chegada dos seus jogadores, o que não espanta visto o ódio meridional local a tudo o que é parisiense, tanto que até há quem envergue camisolas com o símbolo do Olympique e, no lugar do nome, um lacónico "anti-PSG".

Já é a segunda derrota do Paris Saint-Germain, apenas três semanas após jogar a final da Liga dos Campeões, depois de ter perdido na semana passada em Lens, com uma equipa desfalcada dos melhores jogadores devido à covid (ontem já não tiveram essa desculpa). Mas reparei numa grandessíssima coincidência. É que tinha lido há tempos uma memória que me apareceu do clube dominador do futebol gaulês nos anos 50, o mítico Stade Reims, que em 1957, em plena pandemia da gripe asiática (já aqui estabeleci paralelos entre essa epidemia e a actual), se apresentou precisamente em Lens com a equipa "dizimada" por causa da gripe, tendo de jogar com vários amadores. Ainda assim conseguiu ganhar num terreno adverso, o mesmo em que o PSG, só com profissionais bem pagos, falhou. Ou seja, aqui podemos suspirar pelos "outros tempos": é que já não há campeões franceses com estofo como antigamente.




quinta-feira, abril 09, 2020

Da glória à tragédia no espaço de dias


Decididamente há tristes ironias. Aquilo que se passou num curto espaço em Bérgamo é uma delas.

Como se sabe, a província de Bérgamo e a cidade que lhe dá o nome estiveram no epicentro da pandemia do Covid-19 na Lombardia, que por sua vez era a região com mais casos e mortes de Itália, que era o país mais atingido da Europa, que substituiu a Ásia como epicentro da pandemia no Mundo. Ou seja, a província de Bérgamo durante algumas semanas foi o coração da epidemia que corre o globo, a zona onde os doentes não paravam de chegar aos hospitais, já de si em ruptura, o local para onde todos olhavam com temor e espanto. Causaram especial comoção as imagens de camiões militares a transportar caixões, a meio da noite, quando as morgues estavam já ocupadas. A situação dramática de Bérgamo e da Lombardia está a aliviar aos poucos, embora longe de estar controlada. Mas os difíceis dias de Março vão deixar marcas na cidade e na região, uma das mais ricas de Itália e da Europa.

E no entanto, nas semanas anteriores à chegada da doença à Europa, Bérgamo era notícia por razões bem mais felizes. O clube de futebol da cidade, a Atalanta Bergamasca Calcio, já tinha tido uma prestação soberba na época passada, de tal forma que se classificou para a Liga dos Campeões em terceiro lugar no campeonato, à frente do mais poderoso vizinho Inter de Milão, e teve o melhor ataque da prova. Este ano ainda assombrava mais o Calcio e a Europa, proporcionando um futebol de ataque como raramente se vê no tão defensivo campeonato italiano, obrigando os seus adeptos a levantar-se vezes sem conta, tantos eram os golos marcados. Na série A esmagava - e não apenas vencia - boa parte dos seus adversários. Vejam-se estes números: 7-1 à Udinese, 7-2 ao Lecce (fora), sete a zero ao histórico Torino, em pleno Comunale de Turim, e cinco humilhantes secos ao muito mais prestigiado vizinho, o outrora poderosíssimo A.C. Milan. Para além disso, estava a fazer boa figura na Liga dos Campeões. Depois de um arranque em falso, em que perdeu os três primeiros jogos por números esclarecedores, virou completamente e conseguiu, por uma nesga, classificar-se para os oitavos de final da Liga dos Campeões, atrás do Manchester City. Nunca nenhum clube o conseguira perdendo os três primeiros jogos do grupo. E já nos desafios a eliminar, os de Bérgamo deram 4-1 ao Valência no S. Siro, casa emprestada pela exiguidade do seu estádio, e 4-3 na segunda mão, na cidade espanhola, em jogo à porta fechada, já com o Covid a fazer estragos. Festejou-se entusiasticamente o resultado da primeira mão, com milhares de adeptos a vitoriar a equipa, e os jogadores também comemoraram a passagem aos quartos de final. Que por causa disso poderão nem vir a acontecer.

Atalanta, boom di abbonamenti Oltre 5mila in soli tre giorni in ...

É que esse momento mágico da Atalanta estará directamente ligado às semanas de chumbo que se abateram sobre a Lombardia. O vírus já tinha entrado dissimuladamente no Norte de Itália, e o jogo em que a Atalanta recebeu o Valência, com mais de quarenta mil adeptos no S. Siro, a festejar ruidosamente cá fora depois, muito contribuiu para a sua disseminação - se é que não terá sido o detonador e causa principal do que se seguiu. Tanto que dias depois vários jogadores do Valência ficariam contaminados no jogo à porta fechada, embora curiosamente só um dos da Atalanta tenha sido atingido.

Assim, um feito que trouxe a pequena cidade lombarda para as bocas do mundo pelas melhores razões acabou por ser completamente ultrapassado por uma situação dramática no espaço de dias, situação para a qual concorreu. Do céu ao inferno num curtíssimo espaço de tempo. Uma queda imprevisível mas especialmente amarga. Precisamente por isso, e adivinhando a dificuldade de se concluírem os campeonatos interrompidos, já há petições em Itália para que a Atalanta seja declarada campeã da série A, mesmo que não estivesse em primeiro no campeonato (mas tinha o melhor ataque, com setenta golos marcados), e até há quem lhe queira dar o troféu mais desejado, a Liga dos Campeões. Se dar o título de campeão europeu parece exagerado e até de gosto duvidoso, a atribuição do campeonato italiano à equipa que mais espectáculo deu parece justíssima, à imagem do que aconteceu ao malogrado Gran Torino em 1949, cujo futuro radioso acabou entre destroços na colina da Superga. Seria um magro consolo para tudo o que Bérgamo sofreu, mas para além de compensação, seria um reconhecimento justo aos que respeitaram o público não se rendendo ao futebol cínico e resultadista e um pequeno incentivo, ainda que amargo, para o futuro.

Atalanta: 6 Players You Should Know After Their Historic Champions ...

sexta-feira, julho 20, 2018

Vitórias e derrotas simbólicas no Mundial


Acabou há dias o Mundial da Rússia. Vai deixar saudades, até porque o próximo vai decorrer no Qatar, sabe-se lá em que condições. Aparentemente o Mundial correu bem aos país anfitrião. Houve transportes terrestres de graça para os adeptos, tal como prometido quando a Rússia ganhou a organização do evento, grandes festas e animação, e hooligans e pancadaria nem vê-los, como também já se previa. O país ficou mais bem visto e até a equipa russa, envelhecida e sem novos grandes talentos, progrediu para além do que se esperava, tendo deixado a candidata Espanha pelo caminho. O presidente da FIFA disse mesmo que tinham sido "o melhor Mundial de sempre", mas pode ser uma daquelas frases feitas que se usam sempre nestas ocasiões (na altura também disseram que Portugal tinha organizado "o melhor Euro de sempre"). De qualquer das maneiras, Vladimir Putin tem razões para sorrir, mas os fundos gastos por vezes com grande derrapagem orçamental haviam de produzir frutos. Os únicos espinhos foram os mais simbólicos: as quatro selecções semifinalistas foram de países cujos regimes - os de Londres, Paris, Bruxelas e Zagreb - não se dão particularmente bem com o de Moscovo, seja por razões conjunturais, políticas ou históricas. Assim, fico a pensar por quem é que os russos terão torcido, ou querido mais que perdesse. Mas talvez se tivesse havido um Rússia-Inglaterra, tendo em conta o momento presente, essa dúvida seria provavelmente desfeita.

Mas nisto do simbolismo houve um país que ficou mesmo a ganhar - além de reconquistar o troféu principal e voltar a vencer finais: a França. É que depois de tantas piadas à Alemanha pela sua eliminação prematura na fase de grupos (das quais a mais corriqueira era "Pela segunda vez na história, a Alemanha volta a ir mal preparada para a Rússia"), havia que relembrar o óbvio: que a França triunfou enfim em Moscovo, sem precisar de bater em retirada, e fogo, se o houve, foi só o de artifício - aparentemente houve mais chuva. Tinha de ser no Verão, claro. Lá do seu enorme túmulo, Napoleão pode repousar em paz.
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sexta-feira, julho 06, 2018

Maradona e o síndrome de impunidade dos artistas


Não há Campeonato do Mundo de Futebol que não traga estrelas das competições passadas. No que está a decorrer agora já pude ver o dinamarquês Schmeichel, o alemão Lotthar Matthaus, o brasileiro Ronaldo (o "Fenómeno") e os colombianos Higuita e Valderrama. E Maradona, claro. A fumar charuto em locais proibidos, a insultar adversários, a criticar opções dos treinadores ou a entrar em transe quando a Argentina marca um golo (ou a sofrer uma vertigem quando sofre outro), a estrela dos anos oitenta e campeão do México 86 está lá sempre.

Confesso que tenho pouca paciência para Maradona, para a impunidade dos seus actos e para a ideia que transmite de que pode fazer tudo e ainda assim é um injustiçado. Era o maior jogador do seu tempo, sim, e um dos maiores de sempre. Mas nunca vi Zidane ou Beckenbauer, tal como não via Eusébio e Cruyff, a fazer semelhantes figuras (Pélé é outro caso, diferente mas não necessariamente exemplar). Maradona critica tudo e todos, não raras vezes insultando, faz o que lhe dá na real gana, arma-se em entendido na matéria, quando como treinador se revelou um desastre, e para piorar as coisas ainda passa por moralista, quando as suas aventuras com a droga  - não esquecendo que no seu último Mundial acabou afastado por doping - não o aconselhariam. Para mais, não se exime a exprimir as suas ideias políticas, que passam por usar tatuagens de Che Guevara, tendo sido visita frequente de Fidel Castro, ou por oferecer os préstimos a Nicolás Maduro, participando em comícios do protoditador venezuelano ou oferecendo-se como "soldado da revolução bolivariana" para "libertar a Venezuela e combater o imperialismo", isso numa altura de fortíssima repressão do regime vigente, com visível desrespeito por pelo princípio da separação de poderes, e de uma crise económica generalizada. E como não podia deixar de ser há ainda as suas "opiniões" sobre a Guerra das Faklandsl/Malvinas, considerando que a Rainha Isabel II e o príncipe Carlos têm as mãos "tintas de sangue"; curiosamente, do tempo em que jogava, não se lhe conhecem grandes críticas à brutal junta militar que comandava a argentina e que deu origem ao conflito que seria o início do seu fim, e que só por isso haveria que dar elogios aos ingleses. Parece que finalmente Maradona culpou os militares pelo desastre dessa aventura. Foram precisos mais de trinta anos...

Tudo isso adorado por uma patética "igreja maradoniana", com ritos em tudo semelhantes aos da igreja católica mas colocando o nome do antigo craque no lugar dos santos, assim como em Nápoles o seu culto concorre com o de S. Gennaro. As declarações, imagens e situações descritas podem ser vistas no filme Maradona por Kusturica, em que o realizador sérvio faz uma hagiografia ligeiramente envenenada ao argentino, aproveitando para fazer uma crítica ao ocidente.

Toda esta bajulação não é muito diferente da que é feita a boa parte das gentes das artes e das letras, que por mais barbaridades que digam e façam têm sempre uma desculpa, ou no mínimo vêm os seus actos ou declarações sempre atenuados. Se compararmos com os políticos, verificamos que a tolerância para com os primeiros é sempre muito maior, ou, no mínimo, gera sempre menos indignação, esse sentimento tão comum hoje em dia. Nunca percebi bem porquê. Quanto maior é a notoriedade do artista, do escritor ou do desportista maior é a sua responsabilidade. E a ideia estapafúrdia de que um escritor tem de ser um exemplo moral, e que a sua vida reflecte as ideias contidas na sua obra é uma infantilidade que tarda em passar. É a velha discussão do valor da obra Vs a vida pessoal dos seus autores. Artistas há que criaram obras intemporais e magníficas mas que tiveram vidas a todo o título miseráveis. O mesmo se aplica aos vultos literários, e claro está, aos desportistas. Não percebo nada de psicologia, mas a falta de distinção entre obra e autor parece-me dos comportamentos mais irracionais que imaginar se possa. E no entanto é algo tão comum que quase parece natural. Talvez não valha a pena admirarmo-nos com os panos quentes que são passados nestes casos. Maradona poderá sempre proferir barbaridades enquanto fuma em locais interditos e se oferece como "soldado da revolução" que terá sempre um culto qualquer a louvá-lo. Desde que não nos proíbam de os criticar já não é mau.


quarta-feira, junho 27, 2018

Podia ser pior


Claro que com a surpreendente eliminação da Alemanha na Rússia sobreveio a esperada vaga de piadas com referências à 2ª Guerra. Mas não é catastrófico: apesar de tudo caiu em Kazan, muito a leste de Moscovo. Já é um progresso.
E podia ser ainda pior: olhem se tivesse perdido em Volgogrado/Estalinegrado ou em Kaliningrado/Koenisgberg, berço da Prússia. As piadas tinham logo o dobro do sentido. Citando uma dessas piadas correntes, já é não é a primeira vez que a Alemanha vai à Rússia mal preparada.

sexta-feira, junho 22, 2018

A beleza dos Mundiais fora dos relvados


Os Mundiais de Futebol são uma coisa admirável. Podemos nem ligar muito até ao seu início, mas uma vez começados ficamos ligados a eles durante um mês inteiro. Os melhores jogadores do Mundo (salvo as habituais ausências por falharem a classificação ou por lesão), jogos memoráveis, golos inesquecíveis, surpresas e desilusões, o confronto entre nações, as apostas nos vencedores, etc.

Mas para além do jogo em si há outro espectáculo que não se fica pelos estádios: a acorrência do adeptos aos países organizadores. E alguns contrastes são dignos de nota.

A minha única experiência num Mundial de Futebol aconteceu no Alemanha 2006, onde assisti ao jogo que se vai repetir agora, o Portugal-Irão, em Frankfurt, que acabou 2-0 para a selecção das Quinas (e bom seria que o resultado na próxima segunda-feira fosse o mesmo, porque estes persas de 2018 comandados por Carlos Queirós parecem bem mais sólidos do que os de 2006). Os iranianos eram então mais numerosos que os portugueses - um dado que se vai tornando comum, já que parece que os lusos estão sempre em minoria nestes jogos - e apoiavam a sua equipa com imensa animação, onde não faltavam mulheres, nenhuma, creio eu, coberta com véu, desobedecendo a duas regras internas do seu país. Mas no Commerzbank Arena viam-se também adeptos de outros países. Japoneses, por exemplo, identificados pelas camisolas azuis da sua selecção e por fotografarem incessantemente, ou um mexicano (certamente um espião, porque o México era do mesmo grupo de Portugal e ainda se iam defrontar) com algo vagamente parecido com um chapéu azteca na sua cabeça que tinha pelo menos o dobro da sua altura.

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E nos outros jogos era a mesma coisa. As "fanzones" de Frankfurt estavam situadas nas margens do rio Meno, no meio do qual instalaram os ecrãs gigantes que passavam os jogos, assentes em barcaças imóveis, que eram visionáveis de um lado e do outro, nos parques que bordejam o rio. Lembro-me de um Gana-República Checa, que decorria em Colónia, mas que tinha vários adeptos dos seus países ali ao nosso lado, com maioria para os checos, evidentemente, que por sinal perderam, para alegria dos ganeses, vestidos com berrantes plumagens africanas. Ou dos poucos angolanos em Frankfurt, a festejar um empate com o México, o seu primeiro ponto em mundiais, aos quais se juntaram os portugueses. E logo à chegada, no aeroporto, estava tudo colado aos ecrãs distribuídos por todo aquele enorme recinto, a ver a Argentina a esmagar a Sérvia (bons tempos, devem pensar hoje os argentinos), e que provocou ruidosos festejos por parte dos croatas, em frenéticas buzinadelas pelas ruas alemãs fora.



A globalização, a tão vilipendiada globalização, é também isto, e não apenas negócios financeiros obscuros ou o "capital sem pátria". É ver uma caravana de bósnios em cidades do Mato Grosso, nigerianos em Brasília, as imensas falanges inglesas em Manaus, no coração da Amazónia (desta não se lembrou Fitzcarraldo) ou os espanhóis a ser copiosamente derrotados pelos holandeses em Salvador, lembrando confrontos mais antigos do século XVII - tudo isto no Mundial do Brasil.



Ou agora, na Rússia, onde podemos ver os senegaleses a comemorar o triunfo tocando djambé nas ruas de Moscovo, os argentinos e seus cânticos em Ninjni Novgorod, dezenas de milhares de marroquinos também na capital russa desgostosos com o golo de Ronaldo, outros tantos peruanos apoiando em vão a sua equipa na renomeada Ecaterimburgo, destino final dos czares ali no meio dos Urais, portugueses e espanhóis a apanhar sol nas margens do Mar Negro, em duelo ibérico mesmo ao lado da antiga região conhecida como Iberia, australianos divertindo-se em Kazan, a capital dos tártaros, os aguerridos adeptos do histórico Uruguai, duas vezes campeão mundial, que apoiarão a sua equipa contra o anfitrião Rússia, nas margens do Volga, em Samara, as "Águias de Cartago", como é apelidada a equipa tunisina, derrotada pelos ingleses não em Zama mas em Volgogrado, a antiga Estalinegrado, onde também se defrontarão os semi-aliados egípcios e sauditas, e lá jogarão também o Japão e a Polónia, o maior aliado da Alemanha nazi e a sua principal vítima, que saíram tão arrasados da II Guerra como a cidade onde se vão defrontar, por incrível coincidência. 

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Sim, os jogos atraem, mas não me digam que os adeptos à sua volta são um espectáculo menor. São eles que dão vida, cor e música a estes eventos. Que proporcionam momentos de festa e de convívio, desde que não haja hooligans, de que não há ecos neste certame. E talvez até tragam algum cosmopolitismo e tolerância a algumas populações russas, pouco habituadas a lidar com quem vem de fora. Também isto é globalização, na sua face mais positiva. E por tudo isso o Mundial vale ainda mais a pena.

quarta-feira, maio 23, 2018

Sobre uma Taça de Portugal atípica


Os meus parabéns ao Desportivo das Aves pela conquista da Taça de Portugal: pela primeira vez um clube do concelho de Santo Tirso, de onde o meu Pai é natural, ganhou uma prova nacional de futebol. Já não se devia ver uma coisa semelhante desde que o Tirsense, então na terceira divisão da época, eliminou o Sporting dos Cinco Violinos - embora sem o Jesus Correia (desta o meu Pai ainda se lembra).
O Aves merece todo o reconhecimento pela forma inteligente como jogou, pela enorme massa humana que levou ao Jamor (tanta ou mais que a população da Vila das Aves!) e pela forma como o ignoraram durante toda a semana (e, pelo que vi num medley de notícias, em que só falam das reacções à derrota do Sporting, e às "lágrimas dos jogadores", etc, continuam a ignorar).

Uma palavra para Quim, que muitos não se lembram mas que chegou a ser o titular da Selecção: com quase 43 anos, numa exibição magnífica e provavelmente no último jogo da carreira, o bom e velho Quim ganhou finalmente a Taça que não tinha. Já tinha perdido finais, já tinha sido goleado numa meia final há dez anos precisamente pelo Sporting (já com Rui Patrício do outro lado), mas na última oportunidade possível, já quase fora de prazo, agarrou no troféu, e logo como capitão. Talvez Buffon tenha saído da Juventus cedo demais.

Nos últimos anos, o vermelho tem levado sempre a melhor no Jamor. Fica-lhe bem.

Para acabar, Rui Patrício, William e Gelson: limpem as lágrimas e sobretudo a cabeça. Há uma taça do Mundo para ganhar e precisamos de vocês.

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quinta-feira, maio 17, 2018

O "karma" recaiu sobre o Marselha


Voltando ao tema "bola a sério", que parecendo que não é coisa de que não se tem falado, há pouco o Atlético de Madrid venceu tranquilamente o Olympique de Marseille por 3-0 na final da Taça UEFA. Preferia que tivessem sido os franceses (quem eu gostava mesmo que tivesse ganho era o Arsenal, que nem conseguiu chegar à final, porque Wenger já merecia uma taça internacional na despedida), mas pronto. Só que o Marselha caiu quando se lesionou o seu melhor jogador, Payet. Sim, esse mesmo, o que magoou Cristiano Ronaldo na final do Euro 2016, que felizmente acabámos por ganhar. Lá se fazem, cá se pagam.

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quarta-feira, março 14, 2018

Helénicos mas balcânicos


Se acham que o futebol português seja uma acumulação de indignidades, falta de desportivismo e fanatismo, o melhor será compará-lo com o futebol grego para nos animarmos um pouco. 
O campeonato grego é fértil em incidentes que de tão repetidos já são rotina. É o caso das invasões de campo. Ou das recepções violentas a equipas adversárias. Este ano, com a possibilidade do crónico campeão Olympiacos do Pireu ser derrubado, a disputa é entre estes, os seus vizinhos do AEK de Atenas e o PAOK de Salónica, na longínqua Macedónia grega. No encontro recente entre o PAOK e o Olympiacos o jogo teve de ser interrompido pelo arremesso de objectos (um deles acertou no treinador dos do Pireu) e implicou a derrota administrativa dos de Salónica. Agora, no mesmo estádio, no encontro entre PAOK e AEK que muita influência teria no título, a decisão do árbitro, com razão, em anular mesmo no fim um golo dos da casa levou a nova fúria, com a entrada em campo não só do público como do próprio presidente do clube, um grego-russo dono de meia cidade e que não achou nada melhor que interpelar o árbitro de pistola no coldre, fazendo menção de a utilizar. 


Depois disso as autoridades competentes já suspenderam o campeonato. Entrar em campo de pistola à cinta é demais até na liga grega. Mas esta imagem caracteriza ainda mais um país que, por romantismo ou atavismo, muitos ainda acham que conserva a pureza civilizacional da Antiguidade, como se os gregos fossem de pura raça helénica, nada tendo em comum com os povos vizinhos, esses autênticos bárbaros.
A ideia vem de longe, já que ingleses e franceses ajudaram a moderna Grécia a tornar-se independente dos turcos muito por causa do romantismo vigente. Mas a verdade é que o farol civilizacional dos gregos actuais é mais Constantinopla do que Atenas, o cristianismo ortodoxo do que o Olimpo dos deuses, ou o Basileus do que a ágora (neste último caso fazem mal, já agora).
Sim, o "berço da democracia" - esse conjunto de cidades estado e pequenos territórios - mudou muito desde então. Tirando a língua, os nomes e a situação geográfica (e também o facto de não terem ficado sob influência comunista na Guerra Fria), os gregos pouco se distinguem dos seus vizinhos sérvios e búlgaros. E dos macedónios da chamada FYROM, já agora, com quem mantêm um litígio por causa do nome que consideram ser exclusivamente seu.
O irónico da coisa é que os gregos da Antiguidade consideravam a Macedónia uma terra de bárbaros por causa do seu sistema social, político e económico. Agora reivindicam o seu legado e do conquistador Alexandre Magno. No fundo, é terra de balcânicos que não se entendem.


terça-feira, fevereiro 20, 2018

Uma semana de algum gozo


Dá ideia que a semana que passou serviu para gozar com os adversários do Benfica: de um lado o Porto a sofrer cinco golos sem resposta nas Antas, na sua maior derrota caseira europeia de sempre, da parte do Liverpool, depois de alguns prognósticos optimistas e até desdenhosos ("os ingleses vão sangrar"); do outro, a liderança do Sporting a fazer uma triste figura - como se fosse pouco habitual - e a chegar ao cúmulo de ameaçar jornalistas e de "proibir" os sportinguistas de se informar noutros órgãos de comunicação social que não os oficiais do clube, ou os seus comentadores de irem a programas de debate; o responsável pela propaganda sportinguista, o ex-jornalista Nuno Saraiva, indicou mesmo uma espécie de index verde, para indicar o que é que os adeptos do clube devem ou não ver. Pergunto-me se algum jornal, canal televisivo ou rádio dará no futuro emprego a Saraiva depois de toda esta figura triste e inquisitorial.
Para completar, o Sporting consegue uma vitória em Tondela que muito animou as hostes mas que só surgiu aos 99 minutos, quando o árbitro tinha dado quatro e descontado dois pelo meio (ou seja, o jogo acabaria sempre pelos 96 minutos), e para cúmulo, o marcador do golo, o central Coates, tirou a camisola nos festejos e não levou o correspondente amarelo, que o impediria de jogar na próxima semana. Ainda não percebi porque é que as crises de vitimização sportinguistas são tão levadas a sério.

O Benfica tem tido uma época algo amarga. Venda de jogadores essenciais, má preparação do plantel e aquisições duvidosas, um desastre nas competições internacionais, ataques da aliança Porto-Sporting, casos judiciais sobre Vieira, etc. No entanto, e apesar das lesões de jogadores importantes, a equipa de futebol atravessa o seu melhor período este ano. Tem conseguido bons resultados, alguns até com goleada, boas exibições, e alguns jogadores até apresentam uma consistência que ainda não lhes tínhamos visto este ano, casos de André Almeida e Rafa. O "Penta" é um sonho algo distante, mas não custa experimentar lá chegar. Ao menos esta semana de alguma boa disposição já ninguém nos tira.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Bancadas e eleições


Tal como a Grande Enciclopédia do Ludopédio (o único programa de debate futebolístico que realmente interessa), também eu me lembrei do caso da pala de Alvalade a propósito da interrupção do Estoril-FCP, por causa de defeitos na estrutura da bancada. Já em tempos falei de mais este episódio pitoresco do futebol português, que reedito aqui: 

A cobertura datava da construção do estádios, nos anos 50, e um parecer técnico do LNEC (a mesma entidade que o Sporting queria que fizesse uma vistoria à cobertura da Luz), tendo detectado falhas estruturais, determinou a interdição daquela bancada e a remoção da pala. A secretaria de estado da Cultura, com Santana Lopes à frente, decidiu que o espaço teria de ficar suspenso até nova decisão. O sporting protestou e chamou o veterano Edgar Cardoso, um dos autores da obra, que passeando e saltando por cima da pala, afirmou que aquilo era seguríssimo e que não havia qualquer problema. Imediatamente se levantou a suspensão (em vésperas de um importante concerto rock programado para quele estádio), fizeram-se umas pequenas obras de melhoramento e não se pensou mais no caso, até à efectiva demolição do estádio, mais de dez anos depois. Só uma pessoa protestou contra o desfecho do caso: Maria José nogueira Pinto, que era Subsecretária de Estado da Cultura, e que, sentindo-se desautorizada e achando que tudo aquilo era uma insensatez, pediu a demissão.

A memória deste episódio é pertinente: é que se o jogo entre o Estoril e o Porto tivesse ocorrido uma semana antes, em plena campanha para a liderança do PSD entre Rio e o mesmo Santana Lopes, o episódio seria provavelmente recordado pelos apoiantes do primeiro e desvalorizado pelo segundo (que seria aliás presidente do Sporting três anos depois). Mas os dias não se cruzaram, impedindo a coincidência, e o episódio acabou por ser escassamente recordado. É pena, porque seria mais um pitoresco micro-caso a juntar futebol e política.

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