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quinta-feira, setembro 16, 2021

Jorge Sampaio

 



A propósito da morte de Jorge Sampaio, discordei dele em váriadas ocasiões, mas tinha aspectos de que muito poucos políticos se podem gabar. Claro que vai ficar como uma das figuras políticas cimeiras das últimas décadas, desde o seu papel de líder estudantil e advogado, depois como líder da oposição (de início parecia-me Vítor Constância de cabelo ruivo) e presidente da CML até Belém. Curiosamente a sua maior derrota aconteceu em 1991 contra Cavaco Silva - que lhe rendeu agora um dos elogios mais sentidos - e a sua maior vitória, nas presidenciais de 1996, também. Teve como ponto alto o seu papel na crise de Timor, e como ponto mais baixo a trapalhada com Santana Lopes, antes e depois de o nomear. Como legado mais recente deixa o seu trabalho em permitir que refugiados pudessem continuar os seus estudos.

Mas para além disso era um gentleman da política, naquele registo que parecia racional, low profile e legalista (no 25 de Abril resolveu ficar em casa, quando estava tudo na rua, porque era isso que o MFA estava a pedir, e chegou a dizer que se escolhesse lema seria "dura lex sed lex") mas que facilmente se emocionava. Deixo dois exemplos: numa visita à faculdade onde eu estudava, ouviu-me a perguntar, quase irado e à sua frente, porque é que o 1 de Dezembro não tinha mais destaque, ao que respondeu serenamente, com uma resposta que aceitei, dando a entender que também o lamentava. E quando ganhou as presidenciais pela primeira vez, ao chegar à varanda onde iria discursar à multidão que o vitoriava, mandou antes de tudo com autoridade retirar um enorme gigantone que representava e ridicularizava Cavaco Silva.

Sobre o momento mais polémico da sua presidência, a nomeação de Santana Lopes e a dissolução do Parlamento seis meses depois, convocando as eleições que depois dariam o poder a Sócrates, relembro que apesar das críticas que a direita lhe teceu então, ficaram ainda assim aquém das que a esquerda lhe disparou ao decidir convidar Santana a formar governo. Provavelmente a maioria acha hoje que ele faria melhor em convocar logo eleições (e o PSD em escolher a então segunda figura do governo, Manuel Ferreira Leite, para o liderar, quatro anos do que sucedeu mais tarde). Mas decidiu não o fazer e com isso atraiu a fúria da esquerda. Ferro Rodrigues demitiu-se da liderança do PS nesse mesmo dia, indignado com a decisão presidencial. Saramago disse que "a democracia acabara em Portugal". Francisco Louçã afirmou que era "o princípio do fim do 25 de Abril". Na festa do Avante desse ano usaram-se t-shirts anti-Sampaio. E como na noite seguinte, precisamente, morreu de súbito Maria de Lurdes Pintassilgo, não faltou quem dissesse explicitamente que se deveria ao desgosto da decisão de Sampaio. Em suma, provavelmente nunca nenhuma figura da esquerda (nem da direita) portuguesa atraiu tanto os ódios do seu espectro político como Jorge Sampaio. Curiosamente, muitos destes correligionários aplaudiram dez anos depois a constituição da "geringonça", que, tal como no governo Santana, se baseava numa maioria parlamentar.

Que o "cenoura", como lhe chamavam carinhosamente, descanse em paz.

terça-feira, janeiro 26, 2021

Depois das presidenciais

Notas:

Marcelo ganhou. Esmagou. Não tem o melhor resultado de sempre em presidenciais mas é o primeiro a vencer em todos os concelhos. Tudo isto praticamente sem campanha. O seu mandato sai reforçado. Na noite eleitoral revelou enfim o seu programa, coisa que não tinha feito nas semanas anteriores, e teve o único verdadeiro discurso presidencial. Resta saber se vai actuar como noutras coabitações com um partido diferente no segundo mandato - em competição hostil com o governo, como vimos sobretudo com Soares e Cavaco.

Ana Gomes consegue o segundo lugar mas não a segunda volta. Difícil colocá-la entre vencedores ou perdedores. Em teoria é vencedora, porque alcança o segundo lugar apenas com os apoios oficiais de PAN e Livre, e é talvez responsável por impedir que Ventura fique em segundo. Mas teve uma campanha pouco substantiva, nunca conseguiu ter um assunto-âncora, triando talvez a justiça, e sem aspirações dentro do PS ou a lugares de relevo, não se sabe o que ganhará realmente depois disto.

André Ventura tem um resultado agridoce (mais doce do que acre, é verdade). Obtém um resultado excelente em números, cilindra a esquerda nalguns dos seus feudos, particularmente no Alentejo, fica em segundo em quase todo o interior, queda-se a pouca distância de Ana Gomes. E no entanto esta diferença para a diplomata tem peso, já que esse era o objectivo primordial declarado, a ponto de o obrigar a demitir-se. Claro que na prática o dano será nulo, porque voltará à liderança já a seguir por aclamação. Mas ao ouvir aquele discurso alucinado, a colocar a Iniciativa Liberal na extrema-esquerda e a afirmar-se como "enviado de Deus", fica-se na dúvida se está demasiado deslumbrado ou se é conversa para galvanizar a assistência. Convém lembrar que os votos das presidenciais não são deles nem duradouros, como aprendeu Manuel Alegre ("o meu milhão de votos") e Basílio Horta, que em circunstâncias parecidas teve 14% dos votos, para meses depois o CDS alcançar pouco mais de 4%. E que o desafio das autárquicas, completamente diferentes de eleições nacionais, penaliza agudamente os novos ou pequenos partidos. O Bloco que o diga.

Apostei que João Ferreira teria um resultado superior ao de Marisa. Acertei por pouco. Teve também mais do que Edgar Silva, há cinco anos, o que não é consolo nenhum. O resultado de Ferreira é menos que medíocre, incipiente (e inferior a Ventura) no Alentejo, coloca em causa o futuro do seu partido junto de populações que lhe eram tradicionalmente fieis e mais até, coloca em risco a sua ascensão a futuro secretário geral do PCP, quando era o mais bem colocado para isso. A rever: teve a campanha com maior orçamento de todas, o que demonstra que, principalmente em tempos de pandemia, não vale a pena andar com grandes gastos.

Marisa Matias é a outra grande derrotada da noite. Não só tem um resultado substancialmente inferior às candidaturas que encabeçou, há cinco anos e nas últimas europeias, como perde aquele particular  combatezinho com o PCP para ver quem tem mais votos. É possível que tenha perdido um pouco para Ana Gomes, mas pareceu sempre estar a cumprir um papel que lhe tinham pedido. Perdeu o efeito novidade e também o de ser mais simpática que Catarina Martins e as manas Mortágua. Talvez não influencie assim tanto o futuro do Bloco, que já caiu e já se reinventou, mas a avaliar pelo discurso da "coordenadora", causou alguma preocupação entre a esquerda radical.

Tiago Mayan. Sou suspeito, mas acho quase impossível não o considerar um dos vencedores da noite. Partiu para a corrida como um elemento apoiado pela Iniciativa Liberal desconhecido do grande público, entrou nas entrevistas tímido e a calcular as palavras, mas aos poucos ganhou confiança, não teve receio de afrontar quem quer que fosse (até houve quem o considerasse demasiado ríspido), explanou as suas ideias e a sua ideologia e ganhou muito com isso. Não sendo uma votação fabulosa, é superior ao que as sondagens lhe davam (as primeiras atribuíam-lhe 1%), sem dispôr de grandes gastos nem figuras de primeira água a apoiá-lo. Ganhou o seu próprio espaço e o seu partido, mais estruturado e menos fulanizado que o Chega e com mais aura de novidade que o Bloco, ganhará certamente com isso. 

Vitorino de Rans - fica em último mas consegue novamente um resultado honroso, não muito abaixo do de 2016, salvo que agora não ganhou em Rans. É sem dúvida uma personagem que consegue atrair a atenção, a simpatia - e alguns votos. Resta saber se vai fazer alguma coisa com esta popularidade. É bom lembrar que tem o seu próprio partido, o RIR, que tem estabelecido ligações a outras pequenas formações. Desconfio que as suas candidaturas não vão ficar por aqui.

Abstenção: muito grande, mas não extrema. Um obrigado a todos os delegados às mesas e a todos os que trabalharam no processo eleitoral.



domingo, janeiro 24, 2021

Presidenciais 2021


A CNE que diga o que quiser. Desde que a Net espalhou a palavra o dia de reflexão perdeu a sua utilidade.

Como deixei claro no post anterior, estas eleições não podiam calhar em pior altura. No pico do Inverno e nos dias mais negros de uma pandemia fatigante e galopante, numa eleição presidencial em que o incumbente concorre a um segundo mandato (e praticamente nem teve campanha eleitoral nem ao menos um programa presidencial), a abstenção prevê-se elevadíssima. Ao menos que não haja filas extensas.

Marcelo, em condições normais, estaria reeleito. Sendo tudo menos normais, e mesmo que seja de todo improvável que não fique em primeiro, uma segunda volta não é de descartar, o que tornaria mais interessante a luta pelo segundo lugar, que está em aberto. Ana Gomes quer consolidar o seu lugar de "justiceira" actual do regime, com a sua oposição implícita a António Costa e mais ainda a Marcelo. Não sei o que tem exactamente a ganhar nesta altura da sua vida, mas a resposta pode ser algo entre o sentido do dever e o chamamento do protagonismo.

Já André Ventura não quer de forma alguma ir para Belém, mas tenta aqui a prova das sondagens e a consolidação do seu movimento para tentar no futuro influenciar uma maioria de direita. Fá-lo com uma campanha de declarações estrondosas, como a dos "portugueses de bem", de vitimizações constantes e de tentativas de se fazer notar, facilitada com os manifestantes que protestam à sua passagem. 

À esquerda, as habituais candidaturas do PCP (quase nunca falha) e Bloco. Condições diferentes em relação a 2015: Marisa não traz nada de novo, parece conformada, e nem o seu ar "genuíno" e mais simpático do que Catarina Martins e as manas Mortágua a sustenta. Ainda é nova, e talvez precise de novos desafios. Por outro lado, João Ferreira, já não exactamente um desconhecido, tenta segurar e medir o eleitorado PCP numa candidatura que tresanda a futuro secretário geral do PCP. Note-se o percurso exactamente igual ao de Carlos Carvalhas, que também foi candidato à câmara de Lisboa (ficou em segundo), cabeça de lista às europeias e candidato à presidência da república, antes da tarefa digna dos sete trabalhos de Hércules de substituir Cunhal na chefia do "Partido". No geral, teve uma campanha competente, apesar de ter sido o candidato que mais gastou (para quê?). Ficarei surpreendido se Ferreira não ficar à frente de Marisa, até porque o eleitorado desta que não seja tão fiel ao Bloco tenderá a votar em Ana Gomes.

E por falar em Carvalhas, a grande novidade da campanha chama-se Tiago Mayan Gonçalves. Ao contrário da generalidade das pessoas, não era para mim o candidato mais desconhecido, antes pelo contrário. Conheço o Tiago Mayan há mais de vinte anos, já lhe chamei presidente numa associação estudantil internacional à qual pertencemos e aliás estive com ele em situações que já partilhei neste blogue (como esta). A alusão a Carvalhas reporta à parecença física com o antigo SG do PCP, e a uma situação, há já vários anos, em que alguém apontando para um cartaz comunista com a fotografia do seu líder, exclamou: "olha, o Tiago no cartaz", para desespero do agora candidato liberal. A verdade é que sem notoriedade anterior e sem ser uma figura pública (confessou a Miguel Sousa Tavares que aquela era a primeira vez que era entrevistado para a televisão), revelando algum nervosismo inicial e a inexperiência natural, conseguiu passar a sua mensagem de candidato liberal, dirigindo-se sem punhos de renda a Marcelo, traçando um fosso com Ventura e fazendo contrastar as suas ideias com as da esquerda. Para primeira experiência política em nome próprio, sem ser a fazer campanha por outros, leva nota positiva.

Por fim Vitorino Silva, como agora é chamado pelo nome próprio o "Tino de Rans". Sem ofensa, acho que podia ser o modelo do Zé Povinho para os nossos dias, em versão mais educada, e palpito que ele até nem desdenharia. A sua candidatura parece não fazer lá grande sentido, até por ser repetida, e terá previsivelmente menos votos do que há cinco anos. Mas é possível que arrebanhe alguns eleitores fartos da partidocracia e convencidos por um candidato com aura genuína, que não sendo um génio está longe de ser parvo e que é o "que se dane" possível para quem se dá ao trabalho de ir votar não se reconhecendo no candidato incumbente e nos candidatos partidários.

Pode desde já dizer, sem surpresa, que o meu voto, não me reconhecendo em tdoas as suas ideias, vai para Tiago Mayan. Não fosse ele e não saberia em quem votar: no presidente actual que nem programa tem, na candidata justicialista que tudo põe em causa, nos candidatos da esquerda mais dogmática, que o fazem pelos seus partidos, na candidato da direita populista que apregoa a ideia aberrante de que não seria presidente "de todos os portugueses", no candidato "do povo" de que poucas ideias concretas se conhecem...?

Três desejos mais, votem em quem votarem: que a abstenção não seja tão grande como alguns prevêm; que não piore o estado caótico da pandemia; e que não haja segunda volta. 

terça-feira, janeiro 19, 2021

Porquê em Janeiro?

Admito que fosse difícil, ou mesmo legal e constitucionalmente impossível, alterar as datas das eleições presidenciais para mais tarde. A questão é: porquê em Janeiro? Por causa do prazo da tomada de posse do Presidente? Isso não é alterável? Recordo que as primeiras eleições presidenciais tiveram lugar em Junho (de 1976). E que há uns anos, as autárquicas, que eram tradicionalmente em Dezembro, passaram a ser em Outubro também com o argumento, se não estou em erro, do frio. Então porquê essa obstinação em manter estas eleições no mês mais gélido? Decididamente, a república e os seus actos de afirmação não ajudam nada.

sexta-feira, março 11, 2016

Marcelo presidente

 
É oficial: Marcelo Rebelo de Sousa é o novo chefe de estado, já começou a quebrar o protocolo e as medidas de segurança e tem taxas de popularidade gigantescas. Não haja dúvida, é mesmo o oposto de Cavaco Silva, que exigia medidas securitárias exageradas em todas as situações e em todos os momentos. Mas é impossível não exibir pelo menos um sorriso nestes dois dias de Presidente Marcelo. Quebra as expectativas ao chegar a pé pelo lado oposto ao previsto, organiza um concerto nas ruas, homenageia mais portugueses do que era habitual e ainda estende a tomada de posse à segunda cidade do país. Hoje, na sua vinda ao Porto, na saída da câmara, na sua passagem no automóvel (a dada altura queria fazer o percurso entre os Aliados e o Palácio de Cristal a pé) e na visita ao bairro do Cerco, ficou visível a empatia que tem com o público e a espontaneidade dos gestos (digo não só pelas imagens mas também pelo que me contou quem esteve na cerimónia). Resta saber como será o mandato propriamente dito e a sua relação com todos os problemas que previsivelmente aí virão. Mas é sempre salutar ver um chefe de estado com tal à vontade e com um discurso de esperança. Quase que me concilia com a república. Mas falta o quase.
 
 
 
E só mais uma nota: aquelas bancadas do BE, do PCP e apêndices podem não ter aplaudido (julgo que com a excepção de uns BEs cá do burgo) porque "compreenderam bem o discurso de Marcelo que os desarmou e se aplaudisse freneticamente isso não caía bem entre as suas bases", segundo Freitas do Amaral. Mas quem passa o tempo a defender a Constituição, a república, e quando lhes convém, a democracia, devia ter um mínimo de coerência e aplaudir alguém eleito por mais de metade dos eleitores, que representa a república e que jura perante a CRP. Ao não o fazer, desrespeitam tudo aquilo por que se dizem bater. Mas não espanta nada vinda de formações com base no marxismo-leninismo, no maoísmo e noutros -ismos pouco recomendáveis, e que nunca tiveram o mínimo de respeito pelos seus adversários e ignoram olimpicamente o que seja a educação democrática. E pensar que desde Outubro que dizem que "a direita está raivosa". Nesse caso, a extrema-esquerda está esquizofrénica. Que sirva de aviso ao PS.

terça-feira, março 08, 2016

Sobre a retirada de cena de Cavaco Silva

 
 
 
Agora que Cavaco Silva está a poucas horas de se reformar fazem-se os balanços da vida sob o político que mais anos dominou esta terceira república. Na maior parte dos casos bate-se no homem. Não sou cavaquista e nem nunca votei nele, até porque em parte das ocasiões nem sequer tinha idade para tal. Nunca fui grande devoto do cavaquismo, que marcou uma década em Portugal, do seu triunfalismo, do arrivismo e do novo-riquismo que espalhou, ainda por cima com a sensação de que apanhou o poder no regaço e o manteve com uma boa dose de sorte e com uma grande dívida para com o PRD e a CEE. E muito menos gostei da sua face mais ressabiada e manipuladora em Belém, que revelou uma suceptibilidade e uma incapacidade de perceber inúmeras situações que não são dignas de um chefe de estado.

Dito isto, é bom recordar que se Cavaco esteve tanto tempo em S. Bento e Belém é porque alguém o colocou nas respectivas cadeiras. Ganhar três eleições legislativas, duas delas com maioria absoluta (e com 50%), não é para todos. Junte-se a isso duas vitórias nas presidenciais à primeira volta. Nem Mário Soares, com a sua alardeada popularidade, chegou a tanto. Como disse, o PRD, em 1985, ao roubar votos ao PS, e em 1987, ao canalizá-los para a enorme maioria laranja, a entrada na Europa, com os seus dinheiros, e a política de austeridade do Bloco Central ajudaram em muito à edificação do cavaquismo. Hoje é de bom tom criticar-se aqueles tempos, as construções faraónicas, o desperdício de dinheiro, a "destruição da pesca e da agricultura", etc. O que é certo é que a partir de 1986 houve uma sensação de melhoria, de começo de prosperidade e de paz social muito bem gerida pelos governos PSD. Construiu-se muito? Verdade, mas as auto-estradas, que servem em conversas jocosas como símbolo da "betonização" desse tempo são hoje em dia essenciais na vida do país, até porque as que foram então construídas ligavam os principais pontos do país. Ou alguém imagina a fazer Porto-Lisboa na velha Nacional 1? Ou a ir às capitais de distrito do interior nas velhas estradas às curvas? Quanto à agricultura e pescas, bastava que se recusasse o dinheiro oferecido em troca do abandono dessas actividades. Ainda me lembro de aprender que os países que se dedicavam mais ao sector primário eram os mais subdesenvolvidos. Na altura, poucos foram os que protestaram. em suma, grande parte da população sentia-se bem com o cavaquismo, ainda que o criticasse. Talvez porque se reconhecesse no governo e no político de Boliqueime e até no seu modo de vida.

A esquerda nunca gostou nem um bocadinho dele, responsabilizando-o por tudo, desde as acusações de ter pertencido à PIDE (uma acusação falsa e rancorosa, embora Cavaco não tivesse ajudado com a concessão de reformas a antigos pides) até ao tal despesismo (como se a esquerda fosse poupada), ou, ultimamente, de ter feito uma presidência de apoio ao governo de Passos Coelho, não se quedando assim "abaixo dos partidos" (quando Jorge Sampaio nomeou Santana Lopes, Ferro Rodrigues demitiu-se do PS acusando-o do oposto: de não ter sido fiel ao eleitorado de esquerda). A direita, sobretudo a mais classista e particularmente a que rodeava O Independente, nunca lhe desculpou o suposto provincianismo, a vulgaridade, o desdém pelas letras e as origens sociais de muitos vultos do cavaquismo (como aliás pôde ser comprovado com maior amplitude no recente livro sobre o jornal).
 
Mas o que é incrível é que apesar de tanta oposição, tanto achincalhamento e tanto desprezo (temperados por muitos "adesivos" e apoiantes oportunistas, em especial autarcas de outros partidos e artistas), e muitos o terem dado como acabado politicamente quando perdeu as presidenciais de 1996 para Sampaio, Cavaco Silva acabou por ser o político com mais sucesso do actual regime. Talvez não tenha sido directamente o sucesso de um país, mas resultou directamente de uma vontade popular que se reviu em Cavaco e no que ele representava. Bom ou mão, Cavaco é um produto do Portugal democrático. Reforma-se amanhã, finalmente. Os estudiosos vindouros aclararão o que realmente constitui o cavaquismo mais nas décadas que se lhe seguiram do que nos anos em que dominou o país.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Presidenciais - rescaldo dos outros



Depois de Marcelo, fica aqui uma pequena resenha sobre os outros candidatos.

Sampaio da Nóvoa teve um resultado mediano. Fraco por nem chegar a fazer cócegas a Marcelo e por não ser nada de especial com os apoios recebidos (três ex-presidentes, como repetiu vezes sem conta, e o grosso do PS), e ao mesmo tempo forte pela sua escassa notoriedade fora dos círculos académicos até há pouco tempo e pela imagem construída à pressa, mas que ainda assim lhe valeu ser o principal candidato da esquerda e o melhor colocado para ir a uma hipotética segunda volta. O que fará Nóvoa fora da universidade só ele o saberá dizer. Mas se tem ambições políticas, deverá evitar a tentação de fazer dele os votos que recebeu, como Manuel Alegre com o "seu milhão" há dez anos, e já agora, de dar alguma substância ao discurso.

Maria de Belém, um erro de casting desde o início, teve o tombo destas eleições. Um resultado vergonhoso, dados os apoios e as expectativas, quando se pensou que ficaria em segundo, e todas as sondagens lhe davam mais de 10%, no mínimo dos mínimos. A morte súbita de Almeida Santos, dois dias depois de a apoiar publicamente, era um mau prenúncio para o episódio lamentável do pedido de fiscalização das subvenções vitalícias, em que esteve envolvida e de que se defendeu da pior forma possível. O comício quase vazio de Lisboa fazia antever isso mesmo. Com uma enorme dívida de campanha por nem sequer ter chegado aos 5% (pior, por exemplo, do que os do CDS do "táxi"), a derrota de Belém marca os mais que prováveis fim da sua carreira política e afastamento dos "venerandos" do partido, como Alegre, Alberto Martins ou Vera Jardim (sem falar em Almeida Santos), além de um golpe para o sector segurista, que apoiou timidamente Belém, enfraquecido mas não desaparecido.

Marisa Matias repetiu o bom resultado do Bloco de Outubro. Apesar da habitual volatilidade dos seus votos, os bloquistas consolidaram-se como terceira força política, pressionam mais o PS e ganharam a habitual batalha pela "esquerda da esquerda" ao PCP. Mas os números devem-se antes de mais à personalidade combativa e empática de Marisa e ao morno ou nenhum entusiasmo com as candidaturas de Nóvoa e Belém.

Edgar Silva, o escolhido do comité, com a campanha mais partidarizada de todas, teve o pior resultado de sempre dos comunistas nestas eleições. Um candidato simpático mas politicamente fraco e pouco conhecido fora da Madeira só não teve números piores graças aos votos do arquipélago, onde o PC é pouco mais que residual. Apesar do eufemismo dos"objectivos não alcançados", a cara e os desabafos de Jerónimo mostraram bem o desastre desta candidatura, ainda por cima a mais dispendiosa de todas, com uma campanha tão igual às habituais do PC que só faltava mesmo o símbolo partidário. Escassos votos, comparação vergonhosa com o Bloco, Marcelo a ganhar à primeira: um pesadelo para o velho PCP, que só não piorou porque ficaram à frente do Tino de Rans. Mas não será avisado afirmar que o declínio dos comunistas é irreversível e que perderam o lugar definitivamente para o Bloco. Em Portugal, como se sabe, o PC tem muitas vidas.

Tino de Rans, o "independente" com melhor votação. Ficou pouco atrás de Belém e de Edgar Silva. Animado, simplório, brincalhão, verdadeiro, muitos  - sobretudo entre Valongo e Penafiel - se reconheceram nele. Antes de reduzir o homem ao palhaço que não é, convinha estudar melhor os eleitores antes de orçamentos excessivos para campanhas "à americana". Fará alguma coisa com mais este balão de notoriedade?

Paulo Morais teve uma votação ao nível do que as sondagens revelavam. O discurso da corrupção fica sempre bem, mas isolado torna-se excessivo e cansativo. Veremos que meios é que vai utilizar para a sua campanha, sendo que se arrisca a ficar com uma imagem demasiado moralona.

Henrique Neto teve provavelmente o resultado mais injusto de todos. Os escassos 0,8% foram de menos para uma candidatura respeitável (a primeira a ser lançada, aliás), com algumas ideias e um pensamento estratégico, com uma interessante lista de apoiantes e que não dependia de partidos nem de apoios financeiros obscuros. Vítima provavelmente de votos úteis, espera-se que perto dos oitenta anos, Neto continue a intervir, e já agora, a servir de modelo para outros empresários.

Jorge Sequeira ganhou a liguilha dos últimos a Cândido Ferreira. Apesar de tudo, o psicólogo optimista de Braga mereceu mais que o irritante e enfatuado médico de Leiria, ou de Cantanhede (fiquei sem perceber), que lançava acusações sobre todos em cada dia e que se ufanava de ser o único candidato que tratava António Costa "por tu". Serviu-lhe de muito.

E sinceramente, acho que não se podem tirar muitas mais conclusões políticas sobre estas eleições, excepto a de que António Costa continua a perder (já é a terceira seguida como secretário-geral do PS) sem que isso lhe faça grande mossa. Mas convinha para seu próprio bem não ganhar o hábito).


segunda-feira, janeiro 25, 2016

A hora de Marcelo





Acabou a dúvida. Marcelo ganhou mesmo à primeira volta, como se calculava. Ainda havia a ligeira hipótese de segunda volta (que estou convencido que ganharia na mesma), mas fomos poupados a mais semanas de campanha a dois.


E já que era preciso escolher alguém, então que fosse Marcelo. Porque era apesar de tudo o melhor dos candidatos, porque é uma personalidade divertida e inteligente (com essa dupla personalidade professoral e pantomineira), que sem dúvida vai animar mais Belém do que o inquilino cessante, porque não tem casos obscuros de ilegalidades a manchar a sua carreira, porque suportou acusações patéticas de "amigo do grande capital", "conspirador", "fascista", e outras analfabetices jurássicas, e porque já merecia uma consagração política assim. O sonho de Marcelo de chegar à presidência já tinha uns anos e era um segredo de Polichinelo. A única dúvida seria se Guterres teria idêntico plano, o que há partida era duvidoso, mas afastada a interrogação, o professor de Direito pôde ir preparando serenamente a sua corrida de fundo triunfal. Conseguiu enfim aquilo que já lhe tinha escapado noutras ocasiões, com alguma pouca sorte à mistura nos timings: quando se candidatou à câmara de Lisboa, em 1989, pelo PSD e CDS, teve de enfrentar uma coligação inédita e quase imbatível entre PS e PCP presidida pelo então líder socialista, Jorge Sampaio; mais tarde enquanto líder do PSD precisamente na ressaca do cavaquismo e quando Guterres estava em estado de graça, ou seja, na pior altura, viu o seu efémero construção de uma nova AD estourar à conta dos casos e indiscrições de Paulo Portas. Falhados estes dois projectos, e visto então como mau estratega, acertou em pleno na sua aposta a Belém, vendo assim recompensada uma espera paciente e frutífera, ainda para mais com o nariz torcido dos líderes partidários da sua área política. Chegou a sua hora, e logo como chefe de estado.


Os outros ficam para amanhã. Tal como reservei um post só para Marcelo antes das eleições, faço o mesmo agora.



quarta-feira, janeiro 20, 2016

Uma espécie de campanha


Apesar de não ser republicano, tenho seguido esta espécie de "campanha" eleitoral com o interesse que ela merece. Hoje, no debate com quase todos (embora não tenha dado pela falta compreensível de Maria de Belém, que de resto só iria despoletar mais dedinhos apontados inúteis entre quem é ou não o verdadeiro candidato do PS), tirei as confirmações que se impunham. Que Edgar Silva, pese toda a estimável carreira social, é uma cassete e das mais soporíferas. Que Paulo Morais é monotemático e mesmo parecendo que sabe do que fala, confunde as funções do poder judicial com as do moderador. Que Tino ( e também Jorge Sequeira) é bem intencionado e não é parvo, mas como lhe dizia uma vendedeira idosa no bolhão, com autêntica sabedoria popular, "ó filho, tu até és inteligente, mas cada macaquinho no seu galho..."; que Marcelo, entre o afável e o doutoral, se esquiva bem e está mais que preparado para a função de estado; que de Henrique Neto esperava mais, e mais ideias do queixas, apesar de tudo, e a Sampaio da Nóvoa achei-o pouco ousado e mais discreto do que se esperava para alguém que realmente ambiciona o cargo. Marisa Matias surpreendeu-me pela positiva, genuinamente combativa e menos ideológica do que o costume. Ah, e outra confirmação: Cândido Ferreira limitou-se a dizer parvoíces e a lançar ataques ineficazes e supra-calúnias, que é a única coisa que tem feito na sua patética campanha.

 Que regressem os últimos dias de cumprimentos, beijos, "esclarecimentos" e carne assada.

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Presidenciais 2 - os outros candidatos (os que não se sabe o que andam ali a fazer, os partidários e os mais a sério)



Como disse no anterior post, é extremamente curioso que dez candidatos tenham obtido todas as assinaturas necessárias para concorrer às eleições presidenciais. Nunca se tinha visto semelhante coisa, já que implicam uma certa máquina de campanha que não está ao alcance de todos, muito menos de quem não é apoiado por estruturas partidárias.
Mas à parte isso, e além de Marcelo Rebelo de Sousa, temos mais nove candidatos. Alguns despacham-se num instante. Jorge Sequeira não parece desprovido de juízo, mas não percebo a razão da sua candidatura. O mesmo se diga do socialista Cândido Ferreira (em dez candidatos há dois socialistas de Leiria, o que é extraordinário dado que o PS nem tem uma grande base eleitoral nesse distrito), que ainda não percebi se desiste ou não. O Tino de Rans, calceteiro e "cantor", ex- presidente de junta, ex-congressista do PS, ex-concorrente de reality-shows, concorre provavelmente para ganhar mais algum protagonismo (nada contra se trouxer algo de positivo à terra). Paulo Morais parece mais bem preparado e fundamentado do que quando lança atoardas abstractas sobre a corrupção, mas também não fala de outro assunto, ainda que aquilo de que fale seja de primeira importância. Edgar Silva  e Marisa Matias não são reais candidatos à presidência, mas sim, como sempre, peões dos seus partidos para marcar posição. E o ex-padre madeirense nem parece conhecer bem as funções presidenciais. Também Marisa traz demasiada ideologia para a campanha.


Henrique Neto, o primeiro a lançar a candidatura, já teve sondagens interessantes, mas com a chegada dos concorrentes afundou-se nas intenções de voto. Ainda assim tem alguns nomes interessantes na sua lista de apoiantes, reunindo gente do PS, PSD e CDS. A experiência como empresário de real sucesso e a credibilidade pelas denúncias internas no PS dão-lhe algum prestígio. Pode ser prejudicado pela abundância de candidatos nas mesmas áreas, embora seja "polivalente" o suficiente para pescar em vários sensibilidades partidárias.


Restam então Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa. A ex-Ministra da Saúde e da Igualdade foi uma jogada estranha de certos sectores do PS, alguns para aborrecer Costa, outros porque lhe eram devedores de apoios passados (Alegre, por exemplo), e ela própria porque se julga com uma importância política bastante superior à real. Se as suas sondagens são favoráveis e nalguns casos até a colocam em segundo lugar, deve-se provavelmente a importantes apoios de quadros, a apoiantes do PS que não se revêm em Nóvoa nem em Neto e numas franjas do centro. Demasiado para alguém de currículo político mediano e que francamente, só com muita imaginação se consegue imaginar como chefe de estado. Para ser mauzinho, depois de Miguel Sousa Tavares a dar o exemplo da revista presidencial às tropas, a ideia de Maria de Belém a fazer um comunicado da maios alta importância à Nação é algo do domínio do surreal.


Sampaio da Nóvoa, enfim. O reitor que se tornou conhecido do público pelos seus discursos, empolgantes e arrebatadores para alguns, líricos e vazios para outros. É salutar que haja pessoas sem uma carreira partidária como suporte a candidatar-se ao cargo, mas a verdade é que Nóvoa, tirando uma respeitável carreira como académico, e a sua tarefa de unir a Clássica à Técnica formando assim a Universidade de Lisboa, não tem um currículo político (que nunca teria de passar pelos partidos) particularmente notável. Para isso já tivemos Fernando Nobre, com uma carreira mais estimável, mas que se revelou um desastre na política. O seu "Tempo Novo" significa exactamente o quê? Uma achega do V Império? Ou um conluio demasiado próximo do actual Governo? Outro aspecto singular mas nem assim positivo da campanha de Sampaio da Nóvoa é a profusão de mandatários por cada causa, ainda por cima num sistema de paridade, o que na realidade dá dois por causa, havendo mesmo lugar a uma "coordenadora das causas", Gabriela Canavilhas. Tudo isso dá-lhe um travo demasiado burocrático, o que a juntar ao seu discurso enigmático não deixa entrever quem é na realidade Sampaio da Nóvoa e qual o seu real valor. Francamente, custa-me a imaginá-lo como chefe de estado de Portugal, ainda que tenha o apoio de três anteriores PRs. Mas Soares já teve escolhas estranhas além dele próprio, e Eanes esteve por duas vezes na comissão de honra de Cavaco. Mas para conhecer melhor Nóvoa, se é que isso é possível, talvez uma segunda volta não fosse pior. Senão, resta a curiosidade de saber o que fará ele depois das eleições.





quarta-feira, janeiro 06, 2016

Presidenciais - Marcelo



Não tinha escrito uma linha ainda sobre o evento que está marcado para dia 24 de Janeiro. Como monárquico, a escolha do chefe de estado é-me apenas importante para designar quem representará ao mais lato nível a vida da nação, mas de facto será sempre a eleição de um chefe de facção nunca visto como independente ou como o "seu"presidente pelas outras partes. Nunca me abstive de votar, embora já o tenha feito com efeitos nulos, e voltarei às urnas.


Olhando o panorama, constato que esta eleição, ao contrário do que desejaria, está mais popular que nunca. Dez candidatos é um recorde assinalável. Nunca antes tanta gente tinha apresentado assinaturas suficientes e válidas para se apresentar a usufrutuário de Belém, o que me leva a crer que ou as presidenciais estão realmente muito populares, ou os candidatos sem suporte partidário têm uma máquina eleitoral maior do que aparentam. Pena é que mais uma vez Manuel João Vieira, o "candidato vieira", tenha ficado de fora, mas há sempre a hipótese de que nem sequer ter tentado reunir assinaturas.



À cabeça, Marcelo Rebelo de Sousa, claro está. Há anos que se suspeitava que a grande objectivo de Marcelo era Belém, depois de corridas falhadas como a câmara de Lisboa ou a liderança do PSD e da oposição cortada a meio. Disfarçou-o enquanto pôde, construindo uma imagem de tudólogo e pedagogo com empatia perante o público. O surgimento em pleno Congresso do PSD de 2014, onde não era muito benquisto pela direcção, para os aplausos, com o pretexto de que estava a vir do aeroporto quando resolveu ir ver o que se passava no evento, seria o primeiro sinal. O passeio à Festa do Avante em Setembro último, com a televisão atrás e militantes comunistas entusiasmados a pedir para tirarem uma fotografia com ele, desfaria qualquer dúvida. Ainda não tinha dado o anúncio oficial (em Celorico de Basto, evidentemente), mas só os mais distraídos é que duvidariam que Marcelo era candidato às presidenciais.


Apesar de todo o mediatismo, é um erro considerá-lo um mero comentador lançado à sorte pela força das câmaras. Marcelo tem experiência académica, jornalística e política (governativa e partidária) e é duvidosos que não tenha aprendido com erros antigos. Já anda na política nacional há quarenta anos, pelo que subestimá-lo é um gravíssimo murro na parede. E é exactamente isso que os adversários têm feito. quanto mais dedicam o seu tempo a atacar um único candidato, mais votos ele tenderá a ganhar, ou conservar.
Tenho para mim que Marcelo ganhará mesmo Belém, seja na primeira volta, seja na segunda, já que penetra facilmente no eleitorado de esquerda, demasiado fracturado, e mais ainda no de centro, que nos últimos tempos tem sido esquecido. Por isso mesmo, esta primeira crónica sobre a eleição para a presidência, escrita no Dia de Reis, é apenas sobre Rebelo de Sousa. Sobre os restantes, incluindo o possível principal adversário, Sampaio da Nóvoa, pronuncio-me mais tarde.


terça-feira, janeiro 20, 2015

Contradições republicanas



Depois das "manifestações republicanas" em França, em que todos "foram Charlie", vários foram os reparos ao repentino amor que a França a o regime republicano começaram a demonstrar pela liberdade de expressão, como se fosse um dado adquirido desde tempos imemoriais. No entanto, e tal como em todos os outros países, a liberdade de expressão francesa é em muitos aspectos mais letra morta do que outra coisa.

De notar, desde logo, que se ouviu por mais do que uma vez que "o terrorismo é contrário aos valores da república". Não deixa de ser irónico, já que a palavra "terrorismo" tem a sua origem no Terror que emergiu com a Revolução Francesa e a 1ª República francesa, o bordão "Liberté, egalité, fraternité", o barrete frígio, etc. Um terrorismo de estado, neste caso, que levou milhares para a guilhotina por não serem reconhecidos pelos tribunais revolucionários como "bons cidadãos". Pergunto-me se muitos dos que exaltam a Revolução Francesa contra a inquisição pensarão bem nisto.

A verdade é que há opiniões que em França são consideradas crime. A negação do Holocausto, por exemplo, já levou alguns negacionistas para a prisão, o que significa que não há liberdade para se negar ou omitir o Holocausto. Da mesma forma, a negação do Genocídio Arménio passou a ser crime no hexágono há poucos anos (há quem diga que estas leis são influência das importantes comunidades judias e arménias de França e do seu peso político e social, e porque não, eleitoral).

Já na Turquia, cujo modelo republicano é em grande parte copiado do de França (embora nos últimos anos Erdogan o esteja a modificar, sobretudo no que toca ao laicismo até há pouco característico do regime), há curiosamente uma lei em sentido contrário: é crime declarar-se que existiu um genocídio do povo arménio - pelos turcos, evidentemente. Os valores republicanos chocam de frente na mesma questão.

Ou seja, pode-se proclamar a liberdade de expressão aos quatro ventos e declará-la como "valor republicano", mas a realidade mostra-nos que também nas repúblicas, e em boa medida na republicana França, há um real condicionamento, por muito imbecil que seja a negação de massacres e genocídios que não deixam a menor dúvida. Mas não é mesmo a liberdade de expressão a possibilidade de ofender e dizer disparates sem se temer ir parar à prisão? Être Charlie é afinal uma moda passageira, ou então o reconhecimento do exercício de liberdade de expressão para apenas alguns assuntos.

sábado, outubro 04, 2014

Bustos


Esta questão patética dos bustos dos presidentes na A.R. é em tudo semelhante áquela recente dos buxos, na sua (ir)relevância, na temática ("o branqueamento do fascismo") e até nos nomes e na fonética. Os seus autores tinham de ser os srs. deputados do PCP e do Bloco, acompanhados por alguns do PS, como o triste Lacão e a alucinada Isabel Moreira. Registe-se o comentário do bloquista Pedro Filipe Soares, que mostrou repúdio pelos bustos de Carmona, Craveiro e Tomaz por serem de " presidentes que não foram eleitos". Caso o pobre líder parlamentar do BE tivesse mais alguns conhecimentos avulsos saberia que quase nenhum dos PRs, tirando Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco, e, no limite, Sidónio, se viu a ser eleito por sufrágio universal. E é esta amostra que quer ser "coordenador" do Bloco, que já de si estava em mau estado. Se querem ver como é que um partido se suicida, olhem bem para os últimos tempos do BE.

Sobre bustos seria melhor perguntar a opinião aos verdadeiros ao invés de se guiarem pelo histerismo de deputados que não estavam minimamente atentos (ou resolveram faltar) na comissão parlamentar em que se decidiu esta exposição.

segunda-feira, novembro 25, 2013

A justíssima homenagem a Eanes


Não haveria data melhor do que a de hoje para homenagear Ramalho Eanes. Quando ouvimos pessoas como Mário Soares, a exigir que o Presidente em exercício de funções se demita "antes que venha a violência", ou ex-chefes de Governo, como Sócrates, tentando lançar a sua vendetta, ou durão Barros, um autêntico cata-vento virado para o sopro do mais forte, o exemplo de Eanes é um autêntico bálsamo moral. O homem que teve grande responsabilidade no 25 de Novembro, que recusou o bastão de Marechal (a que teria direito por ter ocupado a chefia do estado), que tentou mudar o equilíbrio partidário com a inglória aventura renovadora, que já depois dos setenta anos se doutorou em Navarra com base em estudos da história contemporânea portuguesa e na sua rica experiência política há muito que merecia que o recordassem condignamente. Não, não é o novo PRD: são apenas pessoas com memória que lembram alguém que se transformou num exemplo de rectidão e integridade numa época que está bem necessitado deles. E para quem ainda tem dúvidas, deixo aqui a ligação para um texto da autoria de um dos homenageantes, Fernando Dacosta, que já há muito circula pena net. Nunca é demais recordá-lo.
 
 

domingo, outubro 07, 2012

Grosseira falta de memória



Desastradas, as comemorações do 5 de Outubro de 1910. Além do patético (mas simbólico) hastear da bandeira ao contrário, tivemos discursos oficiais em salas reservadas à classe política - nunca o divórcio entre a dita classe e o povo esteve tão escarrapachada - críticas ideológicas a esses mesmo discursos, protestos aos berro ou em forma de canto lírico, manifestações de sindicalistas, etc
 
Entretanto, muita gente se escandalizou porque Pedro Passos Coelho não este presente, trocando as "comemorações" por uma cimeira em Bratislava. Ou sofrem de amnésia, ou são ignorantes ou então são total e vergonhosamente subservientes ao regime imposto em 1910, colocando-o acima de tudo o resto. Afinal de contas há quantos anos é que o chefe de estado e de governo não comemoram oficialmente o 1º de Dezembro, Dia da Independência?
 
 

quinta-feira, maio 31, 2012

Espanha vs França


Público resolveu hoje fazer um artigo sobre as "dificuldades" por que passa a monarquia espanhola, realçando que "os jovens não aceitam que o chefe de estado seja hereditário"  e que Felipe de Bourbon deve suceder brevemente ao pai sob pena de "Juan Carlos ser o primeiro e o último". Razões? As suspeitas que recaem sobre Urdangarin, marido da Infanta Cristina, a famosa caçada aos elefantes, presumidas despesas da Casa Real (nada que se compare às da república portuguesa) e a relação fria com a Rainha Sofia.

Mas se é assim, recordemos França: nos últimos trinta anos, tiveram um presidente que ordenou que afundassem navios e tinha uma família paralela, outro condenado com pena suspensa por financiamento irregular, outro implicado em casos semelhantes, que se divorciou logo a seguir à eleição, mostrando que o casamento já era de fachada, e outro ainda que se separou da mulher logo depois da derrota desta nas presidenciais de 2007 (outra fachada). Proponho por isso que o jornal Público publique um artigo mostrando a urgência em substituir a república francesa pela monarquia, com os Bourbons a reinar também no Hexágono e a flor de lis a voltar à bandeira. Seria sem dúvida equitativo. Senhores jornalistas, estamos à espera.


PS: um comentário de um leitor sempre atento recorda-me que há um ponto acima que pode induzir em erro. Quando me refiro no texto a "outro que se separou da mulher logo após a derrota desta nas presidenciais de 2007", há que fazer a devida correcção: a senhora em causa, Segoléne Royal, é que se separou do marido, Fraçois Hollande, o agora presidente francês, depois da sua (dela) derrota em 2007.

sábado, fevereiro 11, 2012

Os gastos da república francesa



Já sabíamos que a Presidência da República de Portugal gastava mais do que a Casa Real de Espanha. Agora, um deputado socialista francês publicou um livro onde denuncia os gastos exorbitantes de Nicolas Sarkozy. Vejam um excerto:

No orçamento do Eliseu contam-se gastos como 120 mil euros por ano para os seguros da frota automóvel, mais 327 mil euros por ano em combustível. E só na semana passada, os cofres públicos terão perdido 26 mil euros para cobrir o envio de uma equipa de médicos à Ucrânia a bordo do avião presidencial para dar apoio a um dos filhos do presidente, Piérre, e trazê-lo de volta a Paris. E a austeridade, não chega ao presidente?, perguntarão os franceses. Há uns tempos, Sarkozy cancelou a festa anual nos jardins do Eliseu, num passo aplaudido pela opinião pública por poupar quase 600 mil euros dos cofres estatais. Mas desengane-se o eleitorado, diz Dosière, que a poupança fica por aí. O presidente de França gasta tanto, diz o socialista, que o Orçamento do Eliseu ultrapassa as despesas anuais da Rainha Isabel II de Inglaterra. Afirmação suficiente para engasgar o menos republicano da República por excelência.


Por trás de todas as mudanças dos últimos duzentos anos, permanecem traços imutáveis da velha França. Ao lado do motto "Liberté, Egalité, Fraternité", aparece sempre um presidente que poderia facilmente dizer L´Etat c´est moi, sobretudo desde De Gaulle. No caso de Sarko, é mais um Napoleão sem génio militar, com mal disfarçadas pretensões gaullistas mas sem a grandeza do general, e com o fausto de Luís XIV mas sem um Colbert.
Todas estas notícias, a serem verdadeiras, são mais uma machadada daquele ridículo mito de que "as monarquias gastam mais dinheiro do que as repúblicas".

segunda-feira, janeiro 30, 2012

As perguntas (sobre os feriados) que se impõem

Confirmou-se. Os feriados civis a suprimir são os de 1 de Dezembro e 5 de Outubro. Os religiosos serão, em princípio, o Corpo de Deus e a Assunção de Nossa Senhora (15 de Agosto). Á partida, e apesar de não gostar do significado do que se comemora a 5 de Outubro (que não é o Tratado de Zamora), sou contra a eliminação de feriados, não só porque os efeitos serão escassos na maior produtividade do país - e logo este ano, em que a maior parte calha em fins de semana - mas sobretudo porque meros critérios económicos não podem sobrepor-se à História ou à comemoração de factos tidos como relevantes para a Nação. Só mesmo a caducidade dessas razões, ou motivos que se lhes sobreponham, podem anular feriados.

Mas neste caso, o que eu gostava mais de saber é quais foram os critérios que presidiram à escolha destas duas datas em particular. Sim, se Portugal é independente, porque é que foram logo suprimir o 1 de Dezembro? E se vivemos numa república (com nome oficial de "república Portuguesa), porquê o 5 de Outubro? Não houve qualquer explicação do sr. Ministro da Economia. Esqueceu-se ou não convinha?

Quem também devia ser interrogado eram alguns dirigentes do PS, que ficaram muito indignados (o sentimento da moda) com a supressão do 5 de Outubro. Não lhes ocorreu falar no 1 de Dezembro por ignorância ou porque simplesmente veneram mais a data do golpe republicano do que do corte de ligações com Castela? A mesma pergunta se podia fazer a António Costa, presidente da CM de Lisboa, que prometeu continuar com a cerimónia do hastear da bandeira nesse dia, mas que nada disse sobre a habitual homenagem aos Restauradores. Também se acaba, ou a história começou em 1910?

Outro a quem se podia perguntar que ideia lhe passou pela cabeça era a João Proença. Uma das condições, não aceite, para a assinatura do Pacto de Concertação Social, era a manutenção do 5 de Outubro. Ao que parece, o Governo preferiu a hostilidade da maçonaria à da Igreja (com quem, caso contrário, romperia um acordo) e não cedeu na supressão do feriado da república. Sempre gostava de saber se João Proença preza mais a sua condição de maçon do que de sindicalista. E que explicasse porque é que fazia finca-pé em manter um feriado comemorativo da instauração de um regime tão pouco simpático para os sindicatos, e em que a figura mais relevante ficou justamente conhecida por "racha-sindicalistas".

segunda-feira, dezembro 05, 2011


Quando os republicanos perdem o patriotismo


A princípio ainda pensei que fosse um qualquer exagero, mas é mesmo verdade: para Mário Soares, o 5 de Outubro é (laicamente, pois claro) sagrado, "tão sagrado para os portugueses como o 25 de Abril", porque "a maior parte da população portuguesa é republicana", mas que o fim do feriado do 1 de Dezembro "não é tão grave".



A comparação com o 25 de Abril já de si é disparatada (quem é que ficou livre a 5 de Outubro de 1910?), mas um ex-chefe de estado a afirmar que o dia da independência é menos importante que datas instituidoras de regimes com forte conotação ideológica é particularmente grave. Soares coloca a sua república à frente da existência de Portugal. Afirma claramente que prefere a "república portuguesa" a Portugal. Nem nas suas ideias federalistas tinha ido tão longe. Além do mais, como pode dizer que os portugueses se identificam com a república se esta nunca teve a coragem de se auto-referendar, e ninguém liga às comemorações do 5 de Outubro?


A lamentável ideia de que o 1 de Dezembro é um "feriado monárquico" talvez tenha influenciado esse disparate. Crio-se a ideia de que o 5 de Outubro é o feriado dos republicanos. Na realidade, e dada como certa essa data como a do reconhecimento de Portugal como reino em 1143, até faria sentido que fosse objectivamente comemorado. Assim, o 1 de Dezembro assumiu-se como o dia da Independência.


Reconheça-se que os republicanos deram enfâse ao patriotismo numa certa época, que começou com as homenagens a Camões, em 1880, e tiveram continuidade depois com o Ultimatum. É verdade que mudaram as cores e os símbolos em prol da "república portuguesa", mas também não se esqueceram de dias fundamentais da História. Até agora...

Se o 1 de Dezembro é visto como um "dia de monárquicos", então isso só significa que os republicanos perderam todo o sentimento patriótico e recolhem-se agora às suas velhas "glórias". Bem sei que não são todos assim, mas Soares é um dos últimos representantes do original republicanismo. As suas declarações têm um peso que não têm as de Manuel Alegre ou Almeida Santos, por exemplo. Ao erigir o 5 de Outubro num pedestal acima do 1 de Dezembro, mostra que a Independência é coisa menor do que golpes de radicais. Cai assim o mito, outrora verdade, do "patriotismo" dos republicanos.



O dia da Independência é conotado com a monarquia? Muito bem. Devia ser geral, mas já que assim o querem, que os monárquicos desta país mostrem que são dignos do papel manter Portugal como nação independente e de não deixarem que a memória do glorioso 1 de Dezembro esmoreça.


sexta-feira, outubro 07, 2011

E mais uma vez não houve comemorações oficiais do nascimento de Portugal


A propósito das comemorações do 5 de Outubro, onde acham que houve mais entusiasmo? No casamento da Duquesa de Alba, Grande dos Grandes de Espanha, com os seus 85 anos? Ou nos discursos da Praça do Município de Lisboa, ouvindo Cavaco e aquela pueril estudante da Maia que "convidou os jovens a abraçar os ideais republicanos" (deviam estar imensos a ouvi-la)?


O Nuno Castelo Branco criou um heterónimo/homónimo e colocou-o na Lisboa de Outubro de 1910. Leiam, que vale a pena.