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02 setembro 2025

Das crenças

A ler vários livros por causa do doutoramento, cruzo-me com esta frase de alguém que se refere a outro alguém que já morreu: rezo pela alma dele todos os dias

O que significa rezar pela alma de alguém que pode ter morrido há 2 anos, ou há 20? Os mortos precisam da nossa oração para ir para o Céu? E o que acontece aos que não têm quem reze por eles especificamente? Confiam na generosidade de uma multidão anónima, porém crente? E o que acontece aos mortos que conhecemos, mas pelos quais nos esquecemos de rezar? E as crianças que morrem, estão também dependentes da nossa oração para encontrar o colo de Nossa Senhora? E a partir de quando se deixa de ser criança e já se requer a oração como uma espécie de bilhete de entrada na pátria celeste?

Estas e outras perguntas têm-me surgido à medida que vou escrevendo sobre o sofrimento e Deus, um capítulo claramente muito exigente do ponto de vista intelectual: conciliar harmoniosamente, e no mesmo texto, Camus, Dostoiévski, Santo Agostinho ou Carla Madeira (uma escritora brasileira moderna) é um exercício desafiante. Esta secção da tese pode ser uma faca, em que tudo depende de como a agarramos: à medida que leio e escrevo, releio e rescrevo, a minha fé não esmorece, torna-se mais clara, mais límpida, talvez mais discernida e, quem sabe, mais forte. Por outro lado, torno-me mais crítico do que fui ouvindo na catequese, nas missas de finados, nas orações pelas crianças doentes, na interpretação das curas aparentemente sem explicação racional, na imperscrutabilidade dos desígnios de Deus. 

Se eu pudesse dialogar com o personagem do livro que reza todos os dias pela alma do falecido, talvez lhe dissesse que o foco da nossa oração deveriam ser os vivos, e não os mortos. Mal de mim se acreditasse que os meus mortos estão dependentes da frequência das minhas rogativas; e quero sossegar os que me sucederem: estou em crer que o céu me será franqueado - ou não - independentemente da quantidade de avé-Marias que rezarem pela minha alma. Rezemos, por isso, por nós e pelos que cá estão ainda. E talvez mesmo, quando lembrarmos os mortos nas nossas orações, que seja para eles nos ajudarem.   

No livro Óscar e a senhora cor-de-rosa, de Eric-Emmanuel Schmitt, há um diálogo entre Óscar (uma criança com cancro) e a Vóvó-Rosa (uma voluntária) que deveria ser mencionado na catequese das crianças e nas conversas de adultos:

“- OK. Então posso pedir-lhe [a Deus] tudo? Brinquedos, bombons, um carro...
- Não, Óscar. Deus não é o Pai Natal. Só podes pedir coisas do espírito.
- Por exemplo?
- Por exemplo: coragem, paciência, esclarecimentos.” 
 

Perceber este diálogo é perceber que Deus não cura as nossas doenças, porque também não as causa; é perceber que os milagres são os da alma, não os do corpo; é perceber que as curas inexplicáveis são fenómenos que a ciência ainda não sabe explicar, e que é melhor que Deus seja bondoso e não omnipotente do que omnipotente e não tão bondoso, porque há crianças que morrem e não se percebe porquê... É melhor compreender isto e inocentar Deus das desgraças que acontecem, do que achar que é Deus que dá as coisas boas, mas que há um mistério nas coisas más...

Digo eu, no fundo...

JdB        

19 agosto 2025

Onde está Deus nestes dias?

Escrevi, no passado dia 4 de Novembro, um texto (pode ler-se aqui) em que os protagonistas, para além de mim, eram três mães que se tornaram minhas amigas: uma grega, que perdeu um filho, e duas outras, uma chilena e uma australiana, cujos filhos sobreviveram a um cancro enquanto crianças. No domingo recebo uma mensagem com carácter de urgência de uma delas: o marido da Kate (australiana) morrera inesperadamente durante o sono. A Kate anda à roda dos 50 anos e tem filhos menores (a mais velha andará pelos 18, se tanto) um dos quais com limitações. 

Por onde quer que se olha para este evento, qualquer que seja a forma como se olha, só se lerá uma palavra: tragédia. Habituado que estou a uma comunidade que aprendeu a tirar um sentido para aquilo que lhe acontece (o sofrimento e por vezes a morte de filhos pequenos para um cancro) não consigo ver nada nesta morte, a não ser a repetição das palavras da Bíblia - vigiai, porque não sabeis dia nem hora - para daí reforçar a ideia de que temos de ter a nossa vida resolvida, sobretudo com aqueles que nos estão mais próximos. Fora isso, nada: nem uma história para contar, nem um ensinamento enriquecedor, nem um momento de inspiração. A ela, depois de um filho pequeno com cancro e uma viuvez precoce, talvez só lhe ocorram as palavras de Bento XVI em Auschwitz-Birkenau: onde estava Deus naqueles dias?

Curiosamente - presumindo que a minha tese não tem importância suficiente para confirmar a ideia Jungiana de coincidência significativa - estou de volta de um capítulo intitulado Sofrimento e Deus. Explicado de forma simplista aqui, nele discorro sobre a forma de conciliar a ideia de um Deus omnipotente e bondoso com a existência do sofrimento de gente inocente, como crianças. Se Deus é bom, como é possível que crianças sofram ou morram? Se Deus é infinitamente bom, como é possível que o marido da Kate tenha morrido, deixando-a viúva e com quatro filhos menores? 

Até onde sei, esta minha amiga australiana está afastada da igreja anglicana, ou nunca esteve muito próxima. Talvez por isso não seja atormentado por esta pergunta existencial de Bento XVI que permanece sem resposta visível, a não ser no coração de cada um. Ou, talvez também por isso, não encontre desconsolo nas frases que se dizem (o paraíso, está num lugar melhor, Deus só dá o que podemos aguentar, etc.) e que nada acrescentam a quem sofre uma perda brutal. Talvez não haja palavras certas para consolar alguém nestas condições. Talvez apenas manifestar uma presença, uma compaixão, e rezar para que a vida retome a normalidade possível com a brevidade possível. 

Onde está Deus nestes dias? é uma pergunta legítima que não sei se se fará do outro lado do mundo. A forma como se responde marcará o ritmo do trabalho de luto da Kate e dos filhos. 

JdB 

19 janeiro 2023

Dos desígnios de Deus

Almoço com amigos - católicos - e falamos de religião: dos santos pelos quais tenho admiração mas não devoção, dos milagres que são os da alma, e não do corpo, de Deus omnipotente, como aprendemos que está - ou não - por trás de tudo aquilo que nos acontece. Falamos também de um certo "politeísmo" (penso que já aqui falei nisto) que é uma devoção pouco credível aos santos. Cada português parece ter o seu santo de eleição, muitas vezes não sabendo porquê, quase nunca sabendo explicar porquê. 

Estranhamente, porque deveria ser ao contrário, pessoas como eu têm uma relação mais desafiante com a religião - ou com a vida. Não é pelo facto de questionar mais, mas pelo facto de não acreditar que Deus está por trás de tudo aquilo que nos acontece e isso, nalguns fóruns, não ser bem percebido. Estranhamente, quem acredita que é assim, só o faz quando o que acontece é bom: se alguém se cura de forma inexplicável, a mão de Deus está lá; porém, ninguém vê a mão de Deus na pessoa que é atropelada na flor da vida. Pessoas que acreditam numa mão permanente de Deus na nossa vida questionam(-se) menos e vivem uma religião toda feita de alegrias. Para elas o milagre não é um acontecimento por explicar, mas um sinal da presença divina. A tragédia faz parte daquilo que alguém referiu como os imperscrutáveis caminhos de Deus. Para essas pessoas a mão de Deus é um instrumento de infinito amor, porque o desamor seria um mistério.

Não tenho a pretensão da verdade. Gostava que me mostrassem que estou errado, não porque isso fizesse de mim um melhor católico, mas porque isso permitiria eliminar uma ideia desagradável: a de que a Igreja Católica - ao longo de muitos séculos - não promoveu a instrução dos seus fiéis, mas alimentou (talvez não a tivesse combatido, melhor dizendo) uma ignorância, uma certa superstição ou crendice. Dir-me-ão que foi por questões de poder, de ascendente sobre o povo, de engrandecimento. Talvez...

A religião tem de fazer de nós melhores pessoas. Se uma novena a S. Judas Tadeu faz do devoto um profissional melhor, um pai mais presente ou um marido mais perfeito, então que se repitam as novenas até à consumação dos séculos. Porém, se a novena tem por objectivo a cura de uma maleita - por mais grave ou injusta que seja - então que pensemos se faz sentido. A cura de uma enfermidade está dependente de muitos factores - socioeconómicos, momento do diagnóstico, estado da ciência, força anímica. Não pode estar dependente da oração, porque há perguntas que ficam por responder. Se o enfermo morrer, isso é sinal de que se rezou pouco.

Rezo pelos "meus" doentes. O meu lado mais incoerente reza pela cura; o meu lado mais "racional" reza para que tenham força para suportar o que tiverem de suportar. Rezo sempre - e vou directo ao "patrão".

JdB 

05 maio 2021

"Que Deus o proteja sempre"

 Sábado fui ao Crisma, seguido de Primeira Comunhão, de um rapaz que me é próximo. Foi sobre ele que escrevi há poucos anos: entrou numa casa cheia de história, de memórias, de energias, de presenças e ausências marcantes, e não sentiu nada: de disco rígido vazio perante a vida e o futuro, tudo era novo e agradável para ele; aqueles dias que passou naquela casa foram mais uma etapa no processo de formação da sua identidade.

Penso que terá passado a moda dos santinhos que as crianças que faziam a Primeira Comunhão davam aos familiares e amigos. Este rapaz de quem vos falo deu-me uma fotografia dele, com o tamanho de uma cartão de crédito. Segura uma vela sorridente; na orla superior, logo a seguir ao petit nom com que aquela geração me trata, uma frase singela: que Deus o proteja sempre

(Hoje, ao pensar neste texto, dei por mim a duvidar: há diferença entre desejar que Deus nos proteja sempre ou Deus nos proteja para sempre?)

Retomo o tema. Queremos que Deus nos proteja de quê? O primeiro impulso será desejar a protecção dos inimigos externos: as doenças, nossas e dos que nos são mais próximos, a falência, a infelicidade, o insucesso, a morte prematura. Talvez raramente desejemos que Deus nos proteja de nós próprios, apesar do verso (penso que atribuído erradamente a Pessoa): Senhor, livra-me de mim.  

Hoje ouvi uma frase curiosa. Alguém mostrava um grande desconhecimento - ou talvez apenas espanto - por algo. O interlocutor disse-lhe apenas: a sua surpresa é um índice da sua ignorância. Olhando para a fotografia do rapaz que segura uma vela sorridente, talvez eu tenha pensado nas grandes vantagens da ignorância. Na verdade, só o ignorante se espanta, só o ignorante se surpreende, só o ignorante abre a boca feliz por aprender alguma coisa. 

Há dez anos escrevia a um anjo algo que se relaciona com a divagação acima: 

Sabes, cada vez mais tenho a certeza de que não invento nada, não crio nada, não deslindo nada. Uso as palavras que outros inventaram, tenho as sensações que outros já definiram. E, no entanto, sinto muitas coisas como se fosse o pioneiro delas no mundo. Vejo-me como uma criança que usa uma gravata pela primeira vez, e que responde ao fatalismo do "já muitos a usaram antes de ti..." com o prazer singelo da descoberta: "pois eu gosto dela como se fosse o primeiro".

Que Deus o proteja sempre. De quê? De mim, sobretudo. E que não me tire a capacidade do espanto, da surpresa, do riso infantil de quem vê coisas já muito vistas como se fosse a primeira vez.

JdB 

26 novembro 2019

Daquilo que se diz ser verdade ou não

Uma destes dias, por causa da iminente partida de alguém que me era próximo, diziam-me: há-de ser quando Deus quiser. Fernando Pessoa, comentando a morte de Mário de Sá-Carneiro, começava um texto com as palavras: morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. É muito vulgar ouvir expressões como foi Deus que o quis salvar, ou foi Deus que assim o quis. A expressão mais corriqueira será até amanhã, se Deus quiser

Já há muito tempo que, enquanto católico convicto, me confronto com estas expressões. Em bom rigor, o problema não está nas expressões, mas no facto das expressões moldarem (ou poderem moldar) um pensamento. Quando uma amiga me disse há-de ser quando Deus quiser, não resisti a perguntar: acha que é Deus que quer? Quando, em diversas circunstâncias, me falam de crianças que se salvam, acrescentando foi Deus que a salvou..., não resisto a perguntar: falamos do mesmo Deus que não quer salvar outras crianças que morrem?

Deus quer que isto aconteça? Se Deus quer que sim, qual é o Seu critério? Basta-nos dizer que os caminhos de Deus são imperscrutáveis? Como discernimos a justiça que é deixar que malandros vivam até aos 90 anos e que crianças morram aos 7? E como discernimos a justiça entre taxas de sobrevivência em países ricos e em países pobres? Qual é, de facto, o critério de Deus para regular o mundo?

A pessoa que me era próxima morreu há dois dias; não morreu quando Deus quis, mas quando o seu corpo foi incapaz de sobreviver a uma doença grave e ao peso de 94 anos. A criança que morre com 7 anos não morre quando Deus quer, mas quando a técnica existente é incapaz de resolver um problema grave. Acreditar na mão de Deus em tudo o que nos acontece é, confesso, um exercício de enorme dimensão: como concebemos a mão de Deus por trás de um tsunami que mata milhares de pessoas? Onde está Deus no que concerne à Venezuela ou à Coreia do Sul ao à Alemanha nazi ou à Rússia estalinista? Onde está Deus nas disparidades económicas ou sociais ou nas mulheres que morrem vítimas de violência?

A ideia de um deus por trás de tudo não me é agradável. Acredito no Deus que pôs o mundo em movimento, que não está por trás do que acontece, mas que sofre com o que acontece. Dizer que é Deus que salva é dizer, também, que é Deus que não salva. Não sei se estou preparado para acreditar num Deus que permite que um homem doente, demente, ausente, por vezes violento e que desgasta uma família (pai de uma pessoa que me é próxima) viva até ao 80 e muitos, enquanto jovens morrem, bebés morrem, gente inocente morre.

O problema das expressões não está no facto de serem verdade ou não, mas no perigo de elas conformarem o nosso pensamento. Serei um mau católico?

JdB         

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