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janeiro 25, 2009

para além disso estava frio e o quarto vestia um papel de parede encarnado como nos filmes do Lynch

“Ainda pensei que o velho tivesse a alma do crime”. Sim, foi isso que ele disse. Perguntei “alma do crime?..”. “Sim, e a voz atrás do cigarro, claro”.  

Conversas surrealistas com Alfredo.

janeiro 17, 2009

a clara concordância de uma ilha

Dizia o Alfredo para os seus botões (ruidosos), alheado da realidade, e valorizando o desconhecimento do mundo como uma das belas artes, que trinta e sete invernos bastam para renunciar à análise custo/beneficio da concretização plena de uma vida. Depois, ou já antes, os botões ter-se-ão recusado a desmistificar a conjuntura actual perante cenários ímpares, ou mesmo pares, atestando um desdém enorme pela crise, entre outras coisas, não gerando, dessa forma, força suficiente para uma comemoração, a qual, dir-se-ia, extemporânea. Ia-me matando (nas questões de fundo). E noutras, claramente. Apenas retorqui, não sei bem se para os botões dele se para os meus que se tratava de o sentimento de um acidental… 

New Order, "Ceremony"

outubro 20, 2008

"nunca seremos muitos"- lido algures na baixa-mar

"Dom Quixote atacando um rebanho de ovelhas"(1956)
Candido Portinari
“Baseado em estórias verídicas,o caos insosso em que vivemos pastoreia, sem dúvida, uma vingança futura, pois, para além dos portões, o desviado, o atropelado, voltará, sim voltará, já sem a ternura a carregar o banjo”, dizia o Alfredo à imprensa fraudulenta que o não ouvia, recorrendo-se de um manual manuscrito de teoria suburbana encontrado algures durante a maré baixa. Eu passava perto e lembrei-me daqueles que nos vêm comer à mão, de beicinho, por estradas tão parecidas com as nossas, numa redundância de arrabaldes intermináveis e silêncios que de tanto ensurdecer se tornam maduros e velhos, até que por fim o murmúrio escorre das paredes brancas sem mais arte que uma casa vazia.
Aos passos inflamados injectei alguma ousadia e entrei na padaria com a trova toda a escurecer lá fora. Expressamente para mim, a igreja insinuava-se como uma silhueta recortada em fundo laranja e amarelo, sinal que a noite se avizinhava e a terra continuava a fluir, apesar de naquele oeste o sol morrer de memória, todos os dias. Alimentei a voz com esse aconchego que nada mais é que um lugar sem ninguém, e gritei: deserto! Salvaram-me os sinos, a criptografia das relações sociais e um acrescento: “três pães de água, por favor, torradinhos”…

setembro 11, 2008

O amanhecer da bola

O meu amigo Alfredo azougou-me a manhã com a manchete do Público onde se observava que “Portugal joga bem mas perde com a Dinamarca”, e da Bola “À antiga portuguesa”. 
“Não se trata (apenas) de morrer na praia”- avançou, “é uma questão civilizacional e muito nossa”. “Como?”, perguntei, sem perceber nada. “Voltamos ao jogo como uma das nossas belas artes: bonito, singelo, envolvente, ilusório e, claro, de preferência sem balizas, com falhanços estrondosos à frente e atrás, já para não falar no azar e na injustiça. A coisa, enfim, não é nova, é velhinha de anos e anos.”
Ainda me deu para esboçar, num gesto imperceptível, não sei bem, uma resposta, mas Alfredo continuou de dedo em riste: “A passeata e o desdém não são para aqui chamados. O jogo, esse, tem 90 minutos e o “mestre” lá no banco é, oh, é um cientista com o pé gelado e sem ícones que lhe valham. Nos últimos dez minutos quando se está a ganhar esquecem-se os escrúpulos e a beleza… e aquela última substituição foi uma prenda de anos, que foi aquilo afinal?”Antes de sair ainda teve tempo para me recordar “o europeu de 1984, o expoente máximo do desperdício”…”Não te levantas?”,concluiu, e saiu.
Quanto aos paralímpicos, queria eu dizer-lhe, depois da visita de um secretário de estado inexistente, e da partida com alguma fumaça, eis que chegamos à normalidade: dois pesos, duas medidas, a mesma bandeira.
E voltei a adormecer...

agosto 18, 2008

Perdidos

Sem pistas e sem rumo o jantar demandou, por fim, um melão a suspirar os “nossos melões”. Puro desvario. Sem mais, o bacalhau optimizado (passe o acordo ortográfico) ressurgiu ainda como o âmago do repasto. O verão não é forte. Sonho com a padaria do costume e o invólucro nefasto sem deuses que o valham. Entretanto, a dona Custódia não foi ao Pontal. Era longe. O Sr. Eng. voltou, animado, com as hostes e os sacos de propaganda a estrumar o quintal. Das esquerdas, mais à frente, depois da festivalada, ainda a meio gás, ruminasse (diz-se) três ou quatro investidas ao capital de nome próprio.
Acossado, e com o Alfredo a congeminar outros paradeiros, escolho um vinho impróprio para consumo. Mais, mais tarde, uma cerveja despida de intenções. E, depois, o domínio dos Deuses!

agosto 12, 2008

Um PS (não confundir com partido socialista – existe tal?):

“Não tenho ouvido Death In June”, dizia-me Alfredo à saída da padaria, com a Dona Custódia a assinalar que não ia de férias por volúpia emigrante. “Nem eu”, disse-lhe(s). 
Mas em compensação, acrescento, como muitos croissants do Minipreço, chouriço das beiras e algum queijo. De peras maduras e farinhentas passo. Acresce muito polvo, muito peixe e bananas da Madeira. Sinto-me pendurado numa corda de material incerto a puxar para o duvidoso. Tudo regado com algum vinho e outros placebos alcoólicos. Milhões de dólares não chegam para pagar esta inoperância inalada a cada segundo. Dos ecrãs, bem se vê, morre-se. Aqui, as películas juntam-se na madrugada infame de cada palavra. Vi-o também (julgo) numa série da TV. 

A música a esmiuçar a noite

Não sei como, recordo os Go-Betweens e ouço-os num soslaio emocionado entre membranas de fumo a pesar na brancura da sala. Sem desejar mais, digo a Alfredo (alguém mais terá escutado?) que gostaria de ter tudo do Jeff Buckley, Neil Young e do Nick Drake. Bebo mais uma cerveja enquanto não recordo outros. 

agosto 02, 2008

O regabofe eterno

Com o país a banhos e a padaria a meio gás, eu e Alfredo vagueamos resolutos sem destino ou rota. Na verdade praticamente não saímos de casa. Da colina, a casinha desprende-se sem freio e, por vezes, dizem-nos, por vezes, deixa mesmo de ser vista. É desse ponto, num canteirinho com vista para uma parede branca que vos escrevo. À minha esquerda, dois pássaros resistem numa intifada inútil contra o betão. Coisas importantíssimas aqui assomam trazidas, diz quem o sabe, pelo vento. Importantíssimas como a "plataforma de reflexão estratégica" do ex. eterno presidente da JSD e ex. candidato a presidência dos seniores: "construir ideias", elucida-nos Passos Coelho. 
Parece também que o Moutinho quer sair do grandíssimo Sporting, alegando (a palavra não é minha), motivos pessoais. Vá lá não são psicológicos. Na padaria o Adolfo refila que o deviam por a apanha bolas durante o resto do contrato. Alfredo, terá acrescentado, sem mérito, diga-se, que o cagãozinho se não fosse o clube andava a vender bolinhas nas praias do Algarve. Mas isto já se passou há uns 2 ou 3 dias. 
Acresce, segundo fontes próximas, que andam aí uns tipos a roubar carros e que um tal de “Magalhães” terá voltado à pátria. Mais, só a pancadaria e bebedisse entre rissóis e panadinhos, que de Rio Tinto terá alastrado a toda a nação lusa.
Raciocínio teve o sr. Presidente da República, oh se teve, quando afirmou enlevado numa reunião do Star Tracking (com uma colecção de talentos(?) a assistir) que “ Os portugueses não devem desistir e devem acreditar nas suas capacidades”. Já estamos mais descansados!

julho 28, 2008

Dos sonhos e da memória

"O cão amarelo" de Rafael Trevisol: bohemiosdebar.blogspot.com
A memória de Alfredo está fraca. 
Depois de mais uma viagem em terras lusas, desta feita, sem desprimor, acompanhando os montes e vales da Beira interior até Espanha, por entre esqueletos de castelos e memórias cauterizadas pelo fogo e pelo sol, Alfredo rejubilou, ninguém sabe bem porquê, com o regresso. Alfredo é bem capaz de ser um conservador altivo com laivos de anarquista desprendido. Às vezes é outra coisa qualquer olhando-se ao espelho. Fui a sua casa e a inicio nem uma palavra. “A memória de Alfredo está fraca”, disse-me a sua companheira. Rimo-nos os dois. Entrementes, Alfredo poisava a mão na palmatória. “Que tal?” arrisquei, curvando-me para o observar no seu nicho acolchoado. Alfredo olhava a janela. “Sabes, hoje vim para trás duas vezes, a casa, duas vezes, observa bem, para verificar o verificado: se a puta da torradeira estava desligada?... se o não estivesse, oh, sim, se não estivesse devidamente desligada, não estaria a casota a arder, a arder como uma desvairada, não me dizes? Fechei todas as torneiras, fechei a água no exterior da casa, estive quase para remediar-me, bem o sabes, a tolher-me de coragem e sem escrúpulos incentivar a caracoleta do andar de baixo ao crime. A senhora arcaria com as consequências, ficaria responsável pela casa, que até é sua, e eu planearia ao pormenor a destruição da dita. E estaria a milhas. E estaria livre”. Alfredo, ao acabar de falar, em êxtase, levantando-se de um trago, dirigiu-se-me com um olhar triste de cão amarelo: “ O pior, sabes, o pior, é que não passou tudo de um sonho, inclusive o retorno a casa, mas que depois não chegou ao concreto, isto é, a coisa não chegou a rebentar, mas o plano estava traçado, definido ao pormenor do osso”. “E então”? perguntei em piloto automático. “ E então, meu amigo, não me recordo de mais nada…”
Saí de casa do meu amigo Alfredo com um rumo definido. Contornei a padaria fechada e segui a rua do costume, sem pressas, recordando, não sei bem porquê, apenas um olhar triste de cão amarelo. Agora, aqui sentado, não sei bem se não terei sonhado tudo isto. 

julho 05, 2008

Não confirmo nem desminto...

Dizia-me Alfredo há pouco, com o seu ar desmaiado de quem moí um pensamento que, “este país de bananeiras (e bananas) não oferece sombra que as valha”. Isto a propósito de um conjunto de nadas que ocuparam (e ocupam) o ruminar silencioso indígena dos últimos dias. Quando saiu, vociferando, dirigindo-se (bem o sei) para a biblioteca central, fiquei encaixado e sombrio no terraço. O gato fugiu. É inútil.

julho 01, 2008

Aconchego sem asas

“É a vidinha”, repete-se em sonolência nas ruas. Hoje acomodei-me à porta da padaria. Não entrei. Evoquei, por momentos, o meu bom amigo Alfredo, sinalizando os dias com um “nunca pouso a vida por detrás das costas”. Dostoiésvski enxerga-o quando concebe que a vida é o menor dos sacrifícios. Ia neste enlevo, marejado de final de tarde, tinindo ainda na minha cabeça os invariáveis dias, assentes no “tempo que está a mudar”, ou “não tarda trovoa” ou “eles [da meteorologia] dão chuva”, quando decidi acarretar um novo tinto bruto Cabriz (do Dão) para acariciar o palato saudando a noite.
Assaltei depois uns pensamentos óbvios sobre a bovina e oleada matriz da poesia portuguesa: poetas sistema; poetas bolsa; poetas a receberem em casa poetas; bibliotecas resma e mais familiares poetas - a poesia hereditária. Celebrei de memória Alfredo, sem nuvens, recusando-se poeta e escondendo a verve na caneta alheia. Cheguei a casa e recolhi o tinto ao desmaio do frigorífico. Encontrei Alfredo na prateleira da alma. Telefonei-lhe. “Que tens?” disse-me. “Um poema teu”…entre dentes, respondi.

maio 10, 2008

(Des)Liga (d)os últimos-parte 2: o regabofe voador

Se tens a segunda classe e atrais as moscas, junta-te a nós!
Frase lapidar retirada de um pregão publicado no antigo jornal BLITZ (inicio década de 1990)

Enquanto meio mundo cava a própria sepultura e outro meio é emparedado em tijolo sete (felizmente as nossas construções são precárias), o país irreal discute, enlevado, o estado do futebol. Indigna-se. Aplaude. Refuta.
Alfredo observava, uns dias atrás em conversa comigo, que esse denominado futebol português não existia, era uma falácia, e “Uma pantomina de mau gosto. Sem público, carcanhol e, não raro, com actores xungosos, encenadores necrófagos, mafiosos de mercearia e rafeiros em pele pitbull.” E acrescentava: “É um futebolez de tasco, uma tabuleta de cidade fantasma. Um peido no deserto”.
De resto, pouco importa a coisa. Estamos embebidos num séc. XIX em tamancos e cheiro a peixe, com algumas cintas de ligas (é certo), e pouco bidé.
Volta Maradona!

janeiro 23, 2008

Um prefácio Inútil

Vivo abancado como um anjo no barbeiro
Rimbaud

Este prefácio tem origem numa calamidade de contornos inexplicáveis, à luz ajustada da razão: a amizade que me liga inexoravelmente a um tipo e ao seu cão cego de nome Nicha. Conheci-o, oh, num périplo sem memória, enquanto ele escrevinhava nas vidraças da vizinhança, ora bufando, ora escrevendo, ora desenhando. O encontro só terá sido possível por uma conjugação de factores que nada ficariam a dever a um autêntico jogo de espelhos, ao dar-se o caso de acreditarmos em coincidências ou mesmo em tramóias metafísicas. Chama-se Alfredo e o prefácio escapou de sua pena (trata-se na realidade de um aparo dos clássicos e não necessita do apoio de uma vidraça).

Prefácio

A Gabriel devo a vontade inata de estar quieto no meu canto. Chamo o Nicha e o bicho mal ouve falar no respectivo, foge a sete pés, não vá dar-se o caso de estarmos de partida para mais uma exploração ao subterrâneo da vizinha. Ou ao sótão do 4ºESQ.

O blogue em questão, sem embargo, absolutamente inútil, travestiu-se nos últimos meses de inusitada tempestade interior, à qual não será de todo alheia uma vontade indómita do autor para, pura e simplesmente, não fazer nada. Nada mais certinho.

Quanto ao umbigo do referido autor, proporcional à investida, acometeu-se de tosse avulsa e lá estourou em foguetório e velinhas, pois o sei, o sei muito bem, este virar-se-á à primeira estopada um bicho de carapinha com vários olhos e uns pés gigantescos como só se encontrava nas vetustas descrições dos antípodas. Este umbigo farfalhudo e conivente arremete-se à vida e sua poesia como uma das belas artes, poderia também arremeter-se ao assassínio, mas o Quincey já havia pensado nisso. Acredita-se que a própria terra tem um umbigo, variadíssimas religiões passadas e presentes cá andam para o provar, cada qual com a sua localização própria assinalada, mas sem excepções de relevo.

Quis o destino que o caldo se entornasse mas à superfície ainda restasse um pouco de vergonha. Daí o Anjo, mas Inútil pressupõe-se.

Mas fiquemo-nos pelas entrelinhas, não vá a vassoura varar o ar à busca de azeitonas nos caracóis loirinhos da costa. Bem hajam.

Ass: Alfredo e Nicha