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Não, eu não sou só uma garota legal

12.11.2016 -

Mickey, de Love, é a mina mais ~cool girl que não é cool coisa nenhuma da ficção: antes de tudo, ela é real.

E no fim das contas, não adianta: eles firmam algo sempre com minas mais quietas, mais sãs; menos curvilíneas, menos problemáticas. Do que me vale ser a mina gostosa e massa com quem eles pensam exclusivamente em se divertir?"

O ~mito da cool girl~ é desses forninhos pesados de segurar. O crush vê você no rolê, tão sem amarras e muito menos escrúpulos e logo calcula: com essa daí rola umas loucuras. Na cabeça desses boys, o lance vai ser leve, apenas quando eles tiverem afim e cheio de horas na cama, ideias ilógicas e entorpecentes.

Fosse Jessa uma pessoa de carne e osso, também cairia nesse rolê errado que é ser considerada daora, mas só até a página 2.

Parece fácil, rápido e leve. A liga é quase que imediata: você curte os mesmos sons que o cara, usa maquiagem mas não muita e investe na sensualidade, porém sempre com aquela quebra tomboy. Você é garantia de falta de tédio, você prima pela igualdade, você mantém as suas opiniões com firmeza. Come o tanto quanto ele, bebe ainda mais e carrega aquela sede de aventura ad eternum.

Você gosta de esportes, você consegue ter papos complexos, você chama ele pro rolê e é benquista pelos amigos da rodinha. Você sensualiza até onde não cabe e não perde a classe quase nunca. Reclamar que ele dá perdido, esquece de responder ou desmarca em cima da hora? Isso não existe entre vocês. Assim como algum rótulo do que é/se tornou a relação. Supimpa.




Parece um capítulo à parte escrito por Hemingway e dirigido por Scorcese, até que: você lembra que junto dessa maravilhosidade que é, possui sentimentos. E assim que o queridinho nota, já era. Por mais boa gente que você seja ou foco não esteja nele e num possível relacionamento. Mostrou a pontinha de um coração receptivo, quente e confy, cabou. Se tiver uns desgraçamentos da cabeça então, fodeu. Evita falar que vai ao psiquiatra, esquece aquele papo de kardecismo. Mina firmeza é mina des com pli ca da, entende?

E é aí que a gente percebe: legal pros caras é aceitar demais e encher pouco o saco e muito o copo. Fulana não me dá dor de cabeça parece frase de senhor casado  há eras, mas nunca foi tão contemporânea entre os caras de 25-35. Porque, sim: você não é só uma garota legal que age tudo nos conformes pra ganhar biscoito de macho.

Você também chora fácil, baba em cima de crianças pequenas e curte bordado, colagem, tricô. Você conhece o seu lugar de fala e acabou de se encantar com uma nova religião. E segue apenas a você mesma nesse jogo de o mestre mandou da modernidade. Quer atitude mais massa que essa?

🍦

Uma calça de cintura alta é um elemento empoderador!

12.09.2016 -
Num é que nois ainda fica gatinha, mesmo de calça jeans? Até que rola.

É de ciência mundial (risos) que não sou fã de calças. Passei anos com um ou dois modelos no armário - e só. Já muito falei sobre isso, já muito discuti o assunto, já inúmeras vezes ouvi interrogações enormes e fui taxada de estranha/complexada por ser tão apegada a meias-calças, vestidos e saias. Tudo bem. Tudo mudou a primeira vez que experimentei um desses jeans de cintura altíssima que andam sendo vendidos por aí. Me rendi.

Pra que você, talvez, me entenda precisamos voltar algumas casas. Décadas. Além de ser a menina mais alta de todas as turmas que estive no Ensino Fundamental, era agitada demais. Tenho pernas compridas, coxas grossas e essa inquietação de querer ser livre. Ou seja, fazia birra pra não usar fusôs, cottons e nada que atravancasse os movimentos. Pobre da minha mãe, que todo inverno comprava meias de lã e era obrigada a ceder às mimações de uma tiraninha em criação.

A adolescência nos anos 00' foi ainda menos prazerosa. Pra quem eram feitas aquelas calças de cintura baixíssima se não para uma Britney de barriga chapadíssima em Slave 4 u? Para mim, abarrotada de hormônios, corpulenta demais e rebelde até o último fio é que não. Toda vez que era arrastada para comprar roupas novas era o mesmo suplício. Me faltava licença poética pra estar por fora daquelas modas cheias de suplex, bolerinhos e tamancos (bleargh).

Eis a ~barriga negativa~ que fodeu a cabeça de 9/10 garotas no doismilismo.


Minha redenção, mesmo que tardia, veio só no ano 2010: olha, agora vai ser ~cool usar cintura marcada e fio 40. Passa a não existir mais roupa-de-inverno/roupa-de-verão. Vai, imita a Zooey Deschanel que tá tudo lindo. E, finalmente, eu descobri que tinha umas curvas da hora, uma cintura de pilão e podia ficar bem com peças que não me achatassem. Foi o começo de tudo.

Vi minha autoestima renascer e o consumo desenfrear. Voltei a curtir tudo que fosse rodado, marcado, sensualzinho - e me fizesse sentir bem. Aprendi sobre limites, cartões de crédito e tamanhos. Voltei algumas casas e também consegui me inserir no rolê das compras conscientes. Porém, se ainda penso pouco nos pés e invisto muito nas "brusinhas", mantinha vivo o temor pelas calças; em especial, as denim.

Apaixonada pelos looks sessenta e setentistas, resolvi provar uma. Flare. De um azul bem chamativo e com as bocas largas. High waist, preço ótimo, passa no débito, moça. Saímos juntas algumas vezes, mas não era amor - configura aqui dentro como esses lances mal resolvidos que poderiam ser incríveis, mas por alguma subjetividade, não vingam. Havia poder ali, mas não o suficiente pra me fazer largar mão do calor do náilon preto.


Em casa, porém, ainda sigo sem vontade de usar nada. Acontece.

Foi só na Forever 21 (quem diria!), num sábado à tarde de outubro. Aquele temor da jovenzinha frustrada de um lado, a segurança da recém-adulta-dona-de-si noutro. Vai ficar ótima. Pego 28 ou 29? Essa cor é boa. Nossa, quero! É com esse jeans que eu vou conquistar os boys - as vagas de trampo, os comentários de banheiro feminino, o mundo. Uma calça jeans cintura alta pode ser um elemento muito do empoderador. É tirar a sua do varal, vestir ambas as pernas, sentir o botão perto do umbigo e vencer por aí!




De babaca em babaca

11.28.2016 -




A gente sai de um cara babaca pra outro. Eu, minhas amigas, as meninas que leem o que escrevo, mulheres que sequer conheci esperando algum ônibus na Afonso Bovero. É impressionante.

Minha mãe acha que tenho algum encosto, meu pai pensa que falta ser dura o suficiente e meu irmão aconselha sempre que eu não responda, largue, suma. É ridículo, mas ser mulher e expressar sentimentos, vontades e qualquer indício de VIDA ainda é  um lance com o qual o caras não sabem lidar.

(e aqui, vem cá: a gente também tem traumas, tá? a gente também já se deu mal pra cacete e continua tentando, a cada novo boy que causa rebuliço no estômago. aliás, se tem alguém que tenta aqui, são as criaturas que não contém o cromossomo Y)

E aí que cai no nosso colo lidar com um montão de situação lixo. Do tipo: cara que fala umas coisas lindas e depois vira a Sibéria em pessoa (geralmente quando a gente se apaixona também e demonstra "cedo demais"), umas desculpas mais esfarrapadas que pano de chão gasto,  sumiços e voltas triunfais que ficam cagam a estabilidade das nossas semanas.

É cansativo, é um saco e paciência é artigo de luxo por aqui pra dar chances e apostar de novo as fichas num rolê que murchou. É nojento e até revoltante acompanhar os desdobramentos de amigas que choram porque foram elas mesmas e colocaram um pouquinho de autenticidade e coração sem saber pra onde o relacionamento ia.

(parem, por favor, parem de ser babacas, caras. alertem os amigos, conversem com os primos, deixem de lado essa palhaçada de que mulher boa é a que pisa e precisa ser conquistada. a gente só quer dormir abraçadinha, rir um pouco & dar uns beijos na boca, porra)

Ninguém contou pra eles que um dia a gente tomaria a frente, chamaria pra sair, diria que quer algo casual, faria as vezes da parte interessada SIM e ai do lesado que não compreendesse isso. Enquanto a maioria treme na base, inventa desculpas ou some pra reaparecer meses depois, uns poucos ainda tem coragem de ver até onde vai a graça. É nesses poucos que a gente precisa apostar as fichas, migas.

Desse jeito, vai ficar sozinha

6.12.2016 -


Escrevendo essas coisas polêmicas, vai ficar sozinha. Ish, falando de homem então. E, na maioria das vezes, mal. Depois não reclama. Quer se meter a discutir política. Acha que pode chamar você o garçom. Sai com essas roupas que não tapam direito a bunda. Bebe pau a pau com os amigos. Homens. O tempo tá passando. Vai ficar sozinha.

Ah, tem essa de querer viajar sozinha também. Ganhar salários exorbitantes. Homem é inseguro. Imagina, vai casar com quem depois? Claro, por que não se unir em matrimônio com uma pessoa especial? Depois, os filhos. Se sair por aí falando que evita uma coisa e foge da outra, pegou a rota pra solidão. Vai morrer velhinha e cercada de gatos. Vai ficar pra titia, dessas que enche de doces e compra brinquedos caros. Escuta o que tô falando, depois não adianta chorar.

Fica falando de sexo. Fica fazendo reparos na própria casa sem ajuda masculina. Cogita adotar um bebê e ser mãe solteira, consegue chegar ao orgasmo sozinha. O ego deles é frágil, eles gostam de se sentir necessários, importantes. Pra quê dizer que frequenta umbanda e acredita em espiritismo? Tem que mostrar que sabe menos, lê pouco, se despila e resguarda. Cê vai lá e escancara justamente o contrário, deixa claro que ok, se não tem ele, tem outro ou tem um filme, um livro e uns chás e tá ótimo. Já te falei pra ser menos hipérbole e mais eufemismo, cara.

Isso que dá querer tanta igualdade. É esse o resultado de fechar as próprias portas e aprender a abrir os próprios vinhos: que cara vai aguentar tanta potência, minha filha? Eles querem tranquilidade. Eles prezam por paz e quem faça o supermercado. Passam longe de qualquer dor de cabeça, imagine de você, que decidiu ser esse furacão que diz o que pensa e pede o que quer. Vai ficar sozinha.

Com a conta recheada, em plena cidade enorme, um closet que fervilhe opções e criatividade e um ou dois gatos: que mais eu poderia querer mesmo? Ser tratada feito mãe, empregada ou criatura submissa é que não tá nos planos.


Não somos rivais

5.30.2016 -
Sororidade, por Elisa Riemer
Em minha - complicada - adolescência, muito me orgulhei da coleção de inimigas que guardava no peito, após o túnel do rancor e ao lado da válvula do ódio. Aquela fulana que tinha pego um boy que eu andava de olho. A outra, fofoqueira, que espalhou por aí um boato que outro. Uma ou duas gurias que os maus entendidos me tiraram a convivência e criaram essa crosta de rivalidade esdrúxula. Se odeio qualquer uma delas? Nem um pouquinho.

Toda vez que rolo a timeline e me encontro com postagens ou comentários de alguma dessas ex-amigas, ex-namoradas de caras que peguei ou conhecidas que afastei, sinto uma fisgada. Muitas delas se parecem comigo: curtem shows estranhos, festas com gente esquisita e lutam pelos direitos humanos. Curtem o mesmo tipo de homem, bebem cervejas de marcas equipares e possivelmente frequentam o mesmo salão. Tanto em comum, tanto ódio quando nos esbarramos em eventos minúsculos rodeados por pessoas que nos ligam: não sei por aí, mas aqui faz zero sentido que isso continue.

Por isso, miga, vem cá. Quero dizer um negócio importante. Não, a gente não está de lados opostos numa guerra onde você é mais magra e eu mais inteligente. Você fica com o boy, e eu com meu orgulho. Eu sou uma amiga mais divertida e você apenas escuta desabafos. Não, nada disso. Sabe, a gente é iguais e anda lado a lado. Na peleia por uma sociedade mais justa e por salários iguais. Contra o patriarcado e também pelos direitos de minas lésbicas, trans, negras e deficientes. Pra sermos melhor tratadas em relacionamentos capengas e pelo fim dos abusivos. Estamos na mesma, guria. Por que, então, mais golpe que abraço?

Faz sentindo nenhum perpetuar umas rusgas de décadas atrás ou menos. Muito melhor ter uma amiga pra somar que uma porção de inimizades sem explicação e pessoas de quem fugir, não acham? Deixa as lembranças ruins atreladas àquele babaca pra trás, se preocupa em estar próxima das outras minas no rolê. Sabe aquela garota que você já machucou, ofendeu ou ignorou no passado? Que tal deixar o orgulho bolso e chamar ela, numa boa, pedir desculpas, propagar a paz? No coletivo, todas saem vencedoras.


#NãoSomosRivais 

Você deveria amar a sua bunda grande, sério!

5.29.2016 -

O ano de 2006 foi especialmente difícil pra mim. Tinha 14 anos e era acima do peso. Yeap, consideravelmente acima. Era o ano em que eu completaria o primeiro grau e minha mãe tentou o quanto pode me ajudar a emagrecer, pagando uma academia descolada e buffet natureba durante a semana. 

Meu pior pesadelo daqueles doze meses tinha nome composto: calça jeans. Vestia leegins e suplex pra tentar camuflar a cintura baixa, que me caía tão mal. Ah, e amarrava casaquetos e blusinhas de manga comprida na cintura, claro. Tudo pra esconder o tamanho GG do meu bumbum. Foram dias complicados.

Na escola, os guris adoravam "brincar" de atolar as meninas, uma babaquice de dar tapinha e sair correndo por aí. Ainda que poucos declarassem amor à minha figura grande demais e chamativa em excesso, era quase sempre a escolhida pra que eles afofassem essa parte tão protuberante do meu corpo. 

Os velhos nojentos já se mostravam tarados escrotos, assim como alguns amigos da família pouco disfarçavam olhares desconfortáveis - ainda que tivessem me visto crescer, acreditem. Dez anos se passaram, muitos quilos se foram, uma centena de sessões de terapia me moldou, algumas situações me mostraram que: eu amo a minha bunda grande. De verdade. Com todo o coração.

Ainda hoje, há fases em que meu peso sanfoneia: uma temporada de friaca e já aumentam as curvas. O verão, suas frutas e sucos, suas manguinhas cavadas e macaquinhos e todo os litros de água me ajudam a ficar fininha. Contudo, ela segue ali. Entre o 38 e o 40. Com seus 102, 104, 106 cm de circunferência. Em contraste à minha cintura fininha e com celulite, oras, sim. Redonda e arrebitadinha. Demorei a expressar isso, mas lá vai: amo a minha bunda GRANDE.

Amo jogar ao lado de Kim Kardashian, Iggy Azalea e J.Lo, amo a feminilidade que essa arma - ainda que em formato de escudo - me traz todo santo dia, ao passar creme hidratante. Amo visualizar minha sombra com sinuosidade e perigo. Amo dançar em baladas lotadas e saber que todo o meu protagonismo & força fica na parte de trás; e tem problema nenhum nisso. 

Isso significa que detesto o seu derriére menos favorecido? Nunca. Quer dizer, apenas, que olho no espelho e consigo compreender minha genética, não culpar minha mãe, me apaixonar pelas pintinhas impressas pelo sol de janeiro. Que quando perco peso e a vejo murchar, não me reconheço. E que ando maluca pra malhar novamente e a ver cada vez mais pra cima, chamativa e campeã. 

Mesmo que ela corte pela metade o tempo de minhas trepadas assim que em cena e emperre em brins durões. Ainda que esse acessório da natureza vulgarize toda e qualquer roupa mais colada e ganhe mais atenção que cabelo, umbigo e clavículas juntos. É amor, real, mensurável e adiposo. Mas ainda assim, um sentimento abundante.

Às garotas que se apaixonam fácil

5.22.2016 -


Tá tudo bem. Sério, tudo ótimo. Importa bem pouco o que as outras pessoas pensam. Ou, quando dizem: "Mas outro? Mas de novo? Mas por que?". Nem todo mundo consegue empatizar esse superpoder que é ver o melhor nos outros e querer mergulhar em cada personalidade, corte de cabelo ou história interessante ali, à frente.

Tá tudo bem, mesmo. E que ótimo, olha só: hoje você tá aí, sofrendo por Rodolfo; amanhã passa e sexta-feira você pode até sair com o Carlos - e se apaixonar, e sair do tédio, e sentir alguma coisa novamente. Ou não. Mas, logo, uma conversa sincera demais ou uma química explosiva a fazem ficar de quatro, de peito aberto, de dedinhos ansiosos que mandam mensagens e esperam respostas. Imagina a vida cinza de quem segue tudo na linha e critica cada possibilidade encantadora à frente? Então.

Tá tudo bem, também. Ué, nem todos conseguem mutar intermante, costurar feridas rapidinho e sangrar por dois dias, mas estar numa boa na terceira manhã. Dá pra ter os dois pés fora do chão, sim, só que com alguma cautela - as quedas nem dói mais tanto, e você já decorou a rota pra voltar à si mesma. É bonito, é bom, é saudável ter a glândula dos afetos funcionando e se sentir viva a cada par de tênis masculinos grandes demais jogados no chão do quarto.

Tá tudo bem, estou dizendo. Você não precisa equilibrar mais de dois caras como pratinhos chineses, sendo que um deles pouco interessa. Você pode sentir todos esse arco-íris e estar louca pra desvendar ainda mais de uns encontros que foram mágicos. Você não é menos porque suas paixões são intensas e fugazes e quase nunca dão pé. Pelo contrário: você insiste em ser furacão, ainda que todos ao redor estejam acostumados apenas a marolinhas. A grande questão é que os arquétipos aventureiros andam em falta, querida.

Tá tudo errado, acredite em mim. Com aqueles que veem homem apaixonado como fofo, mas mulher que sente qualquer centelha como louca. Com quem critica as galáxias internas alheias sem ter coragem de examinar a sua própria. Com quem foge da raia porque sentiu a profundidade das suas palavras e mensurou o nível de intensidade das suas águas. Tá tudo ótimo aí dentro, e é o que importa: tem sangue correndo, tem frio na barriga, tem umas ilusõezinhas, mas acima de tudo tem quem ache incrível tanto renascimento, risco e fogo.



Khloe é minha favorita

10.15.2015 -


Hoje no banheiro, enquanto secava o corpo e vestia o roupão rosa-choque demais pros meus vinte e três anos de idade, discorri mentalmente sobre a verborragia cagada que Amy Schumer soltou na abertura do último SNL americano. Afinal, além de gostar um pouco da comediante, é de conhecimento geral que das Kardashian, Khloe é minha favorita - já, inclusive, quase comprei camiseta em inglês que estampa essa frase por aí. Gosto da família cheia de Ks, não nego, muito menos escondo ou sinto vergonha: alguma familiaridade com seus corpos cheios de curvas, relacionamentos fracassados e dramas familiares me capta e sinto mais admiração que ódio cego.

Portanto, pode a mais engraçada das irmãs resolver querer ser mais que apenas motivo de boas piadas e ir atrás de um corpo saudável, mente mais sã e, por quê diabos não, beleza? Se for do seu querer, deve, aliás! Dá pra imaginar os anos e anos que passou sendo chamada de "a irmã mais feia do clã", "a Kardashian gordinha", "aquela destrambelhada"? Super consigo. Compreendo e acho natural que ela queira, ainda que um pouquinho, sentir a luxuria dos comentários elogiosos que recebiam as irmãs da bunda mais bela da galáxia ou do corpo esguio de modelo. Amy, optar por secar uns quilinhos ou comer com mais saúde é sinal de que a bonachona Khlone não mais existirá? Duvido.

Compreender a amiga aí do lado, que também sofre ou já sofreu por ser grandona demais, ter flacidez em excesso ou oleosidade pra dar e vender é questão das importantes - e respeitar o momento de cada mina como se fosse nosso é bem mais empoderador que apontar dedos e promover julgamentos públicos. Senhora, você realmente sabe onde começa esse seu ranço quando o assunto são as mocinhas de quadril avantajado e cintura fina, senhora, o que diabos elas fizeram ou deixaram de fazer para receber tanto nojo, desprezo - ainda que sejam quase todas cases de marketing, inspirações de moda (sim, lidem com isso), modelos possíveis de corpos femininos - ou, pena? Ok, nenhuma das seis se formou em medicina, fez doutorado em Harvard e descobriu a cura da Aids, mas, senhora: não é preciso rebaixar alguém para elevar a si mesma, alô, Terra chamando.

Vejo graça em seletos gracejos da moça Schumer, contudo, rio com os impropérios e atitudes descabidas da Kardashian que gostaria de ser. Fácil discursar sobre feminismo para uma plateia sedenta por piadelas que envolvam outrem, difícil se livrar do ódio e vestir carapuça, segunda pele e o íntimo da outra que insistimos em atingir. É final de dia, chego em casa e desmonto toda a vestimenta que me acompanhou ruas afora. Talvez procure online novamente a tal t-shirt que avisa que Khloe, com toda sua volubilidade e descaramento, é minha preferida. Torçamos para que Kim não queira chorar num cantinho.


Sufragistas: músicas para homenagear as conquistas do voto feminino

10.12.2015 -


A luta contra a desigualdade entre homens e mulheres ainda não teve fim, mas é fato que a situação melhorou muito no último século. Há não tanto tempo assim, o sufrágio feminino – direito de as mulheres escolherem seus representantes por meio do voto – nem sequer era realidade. Esse direito só foi conquistado pelas brasileiras recentemente, em 1932, pelas americanas em 1920 e pelas inglesas em 1928. As suíças votaram pela primeira vez somente em 1971. E, é claro, com muita luta envolvida.

A origem dos movimentos por direitos vem de bem antes, em torno do século 18. Considerada uma das primeiras sufragistas, a segunda primeira-dama dos EUA, Abigail Adams, escreveu ao marido, John Adams, uma carta em que dizia “estamos dispostas a nos rebelar e não obedeceremos nenhuma lei à qual não tivemos voz nem voto”. Apesar da ameaça, o marido sequer a ouviu – assim como todos os homens da época. Filósofos como Herbert Spencer não admitiam nem a hipótese de a mulher estudar, que diria votar. “Cansar demais o cérebro produz moças de busto chato que jamais poderão gestar uma criança bem desenvolvida”, dizia ele.

Mesmo entre os defensores da abolição da escravatura, nos EUA, as mulheres não tinham apoio. Inconformada, a escritora Elizabeth Cady Staton organizou, em 1848, a primeira Convenção dos Direitos da Mulher, realizada em Nova York, lembrado hoje como marco inicial do movimento sufragista americano. Ali foi escrita a Declaração dos Sentimentos, uma versão feminista da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que começa com a frase: “Acreditamos serem estas verdades evidentes: que todos os homens e mulheres foram criados iguais”.

A sociedade, como já era de se esperar, recebeu mal o anseio sufragista. Mulheres agredidas nas ruas, insultadas pela imprensa. Mas apesar do preconceito, elas foram em frente e, em 1851, reuniram-se para a Convenção de Ohio, onde a defesa do voto feminino foi, de uma vez por todas, alardeada para o mundo. A responsável foi a ex-escrava Sojourner Truth, ao subir na tribuna e dizer as palavras até hoje repetidas em reuniões feministas do mundo todo. “Olhem para mim. Olhem para o meu braço. Eu lavrei a terra, plantei e juntei tudo no celeiro e nenhum homem poderia me liderar! E não sou eu uma mulher?”, disse.

Já as inglesas foram muito mais radicais. Lideradas por Emmeline Pankhurst, fundaram, em 1903, a “União Social e Política das Mulheres”, que recentemente a Scotland Yard, a polícia britânica, classificou como a primeira organização terrorista do país. Não é para menos: sob o lema “Ações, Não Palavras”, as suffragettes, como eram conhecidas as integrantes do WSPU, imprimiram um ritmo violento à campanha pelo voto. As ativistas chegaram a incendiar um posto de correio, apedrejar as vidraças da Câmara dos Comuns e dar fim a um ato suicida.

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi decisiva para as mulheres: obrigadas a ocupar os postos de trabalho deixados pelos homens, elas não voltariam mais a posições subalternas. Nos Estados Unidos as primeiras eleições com a participação das mulheres ocorreram em 1920 – mais de 50 anos depois de os escravos libertos adquirirem o direito de votar.

É claro que um momento histórico tão importante como esse não poderia ser esquecido. Em homenagem às primeiras suffragettes, preparamos uma playlist celebrando a emancipação feminina e a conquista dos direitos que vem se consolidando cada dia mais. Ponha os fones de ouvido, prepare o coração e vem se divertir com nossa seleção girl power de músicas!




Original em: http://guiadoestudante.abril.com.br/blogs/curiosidades-historicas/2015/10/08/sufragistas-musicas-para-homenagear-as-conquistas-do-voto-feminino/