Um dos grandes factores responsáveis pelo excessivo endividamento da economia portuguesa prende-se com o elevado nível de consumo nacional relativamente ao nosso rendimento médio. Por outras palavras, e como muita gente tem advertido, nos últimos anos temos andado a consumir acima das nossas possibilidades. Interessa salientar que todo este consumo se deve não só ao Estado (que, ainda assim, e segundo os cálculos que revelo no novo livro, é responsável directa e indirectamente por quase 50% do endividamento nacional), mas também a todos nós, famílias e empresas. E é importante igualmente perceber que este fenómeno não é inteiramente recente, mas sim já se vem a manifestar nos últimos 15 a 20 anos.
É exactamente isso que podemos observar nos gráficos abaixo, que retratam bem o que se passou na economia nacional desde os meados da década de 1990. Comecemos com uma comparação do nível de consumo português e europeu (UE-27) no ano de 2008. Escolhi este ano, não só porque às vezes atribuímos os nossos problemas à crise internacional para tentar esquercer que não prestámos a devida atenção aos desequilíbrios internos e externos da economia portuguesa que já se vinham a acumular há pelo menos uma década, mas também porque os valores de 2009 são muito afectados pelo rápido crescimento do consumo público.
Ora, como podemos ver no Gráfico 1, Portugal é um dos países da União Europeia que mais consome em percentagem do PIB nacional. O gráfico dá-nos o valor do consumo final (isto é, o consumo privado mais o consumo público) em percentagem do PIB, e é visível que só a Grécia e o Chipre têm níveis de consumos mais elevados do que os nossos em relação do PIB. É igualmente de notar que o consumo final português é de 87,9% do PIB, enquanto a média europeia é somente de 78,3% do PIB. Países como a Espanha, a Alemanha e a República Checa têm consumos finais em percentagem do PIB ainda mais baixos do que a média europeia.
Gráfico 1 _ Consumo final em percentagem do PIB, 2008
Fonte: Pordata
Mais uma vez, é de realçar que este elevado nível de consumo não se deve somente ao nosso Estado, mas sim tanto ao sector público, como ao sector privado. Ou seja, temos andado todos a consumir em demasia. O Estado tem exagerado (até porque o consumo público tem crescido bastante mais rapidamente do que o consumo privado), mas nós também.
É igualmente importante referir que este elevado consumismo não vem de hoje nem de ontem. Assim, se recuarmos aos meados da década de 1990 (quando ninguém suspeitava o que nos iria acontecer), Portugal já registava então valores de consumo final em percentagem do PIB superiores à média europeia. O problema é que, nos 15 anos seguintes, nós não só mantivemos os nossos consumos em percentagem do PIB acima da média europeia, como até agravámos essa diferença. Assim, enquanto em 1995, o nosso consumo final em percentagem do PIB era 4,4 pontos percentuais mais elevado do que a média europeia, enquanto mas essa diferença subiu para 7,1 pontos percentuais (gráfico 2) no ano em que a crise internacional eclodiu. Ou seja, se já andávamos a consumir acima da média europeia, nos últimos 15 anos o consumo nacional em relação à riqueza do país cresceu ainda mais depressa do que na Europa.
Isto é, se os nossos consumos já eram elevados, nos últimos 15 anos tornaram-se notoriamente excessivos, se não mesmo insustentáveis para o nosso nível de riqueza (e para o crescimento económico medíocre que tivemos na última década). E é exactamente este um dos grandes factores que explica o nosso elevado nível de endividamento.
Gráfico 2 _ Consumo final em % do PIB em Portugal e na UE-27, 1995 e 2008
Fonte: Pordata
Moral da história: nos próximos anos, teremos de inverter esta nefasta tendência, sob pena de sofrermos consequências muito graves se não o fizermos. Como é que podemos fazê-lo? Consumindo menos e canalizando as poupanças acrescidas para o abate da nossa elevadíssima dívida externa e para um aumento do investimento privado.
Independentemente da estratégia a seguir, de uma coisa podemos estar certos: o caminho trilhado nos últimos anos não é sustentável. E quanto mais tempo levarmos para invertermos os nossos comportamentos excessivamente consumistas, mais riscos correremos de o nosso endividamento externo ficar definitiva e irremediavelmente fora de controlo.