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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Essa mulher dentro de mim



Há uma mulher dentro de mim que não é gramática decomposta nem acento circunflexo. Não é metáfora exagerada, nem vegetação espessa no limite da vírgula. Não é anáfora suada, nem rigor maiúsculo no recuo do parágrafo. Há uma mulher dentro de mim que não é periferia nem superfície transversal. Essa mulher que não outra mulher, esmaga-me as telhas no tecto da boca. Tenho-a calada e encavalitada debaixo das palavras mais fáceis de carcomer. Tenho-a cansada e regrada por cima das feridas menos custosas de sarar. Mas essa mulher que dentro de mim não me permite outra habitação que não esta, não me serena a vontade áspera de romper a madeira dos braços, de moer do úmero a lasca e da acha articular outro galho maior. Há uma mulher dentro de mim que não me reconhece como sua. Há uma mulher dentro de mim que míngua encolhida no cavo do medo. Há uma mulher dentro de mim que ama uma mulher insuficiente de si mesma. 





 Alice Turvo

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Quanto eu gosto de ti



Como eu gosto de ti, ninguém o entenderia. Nem a cama esvaída que me obriga a desprender-me do corpo noutras roturas nocturnas e azedas. Nem a solidão taciturna que escorre devagar nos chuviscos flamejantes do amor. Como eu gosto de ti, nem o mundo o aceitaria. As árvores trépidas, os animais ferinos, a cadência dos lagos, mobília sisuda que ganha a morte sobre o couro crestado. Como eu gosto de ti, só a melodia do poente trova. E se a antemanhã sucumbe nas copas das sequóias - ricocheteando como uma bala célere - perfurando como um comboio alucinado - a incerteza dos teus sinais desmancha-se sobre os meus lençóis na loucura do leito. Como eu gosto de ti, só eu sei, de dentro para dentro, como um confim de baús entreabertos às galáxias chamejantes do céu da boca. Como eu gosto de ti, segredando-me da voz o rasto da tua presença, pernoitando-me de corpo fixo e amor esquivo, a temperança das tuas enchentes. 





 Alice Turvo
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ainda sei o nome da tua rua




Ainda sei a tua morada, quando a releio no soletro dos números e sonetos, confundo-a de encontro aos atalhos do meu coração.
Quanto mais te escrevo, de lugares e quereres divergentes, de saberes e deveres indiferentes,
mais o gasto da memória se disfarça devagarinho na sola dos teus sapatos.




 Alice Turvo

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Perdi


Perdi uma perna, ou um braço.
Ou o tronco na íntegra.
A sensação vazia de um espaço esponjoso que ocupa exponencialmente a
caixa torácica.
Perdi os dedos, as mãos.
O corpo fustigado na guilhotina áspera das palavras. Aquele volume poroso
encurtando-me os alvéolos em nebulosas vítreas.
O corte.
Perdi os olhos e a boca.
Ou o cheiro tenro das primaveras que soletram o rasgo etéreo do Amor no
papel.
Perdi o barco, o comboio, a imensidão das águas e das terras. A vida num
impasse de esperas. Viagens que não conheceram outro feito senão o enfeite
dos meus dedos.

Alice Turvo

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Letters to strangers


Quando já nem do amor eu souber escrever. Quando as palavras forem mais densas que a dimensão dos sentimentos, quando este peso duro alcochoar no musgo o cessar da minha fome. Quando for demasiado tarde no exílio dos meus sentires, quando à caneta lhe faltar a tinta do meu corpo em prosa, e da prosa a frase se fizer desfeita no meu peito em branco. Quando, e quanto amor escalpado, vazio como todas as outras peles que desconsolo no meu abandono. Quando já nem do amor eu souber ler, esquecida na lacuna dos teus olvidos. Quando os lugares que por nós imaginei sucumbirem no vendaval das tuas emoções. Deixa ficar a louça gasta dos anos transpostos, deixa ficar a cama desfiada em tapeçaria bordeaux. Deixa ficar um simples copo de água encadeado no reflexo de um caudal maior. Quando já nem do amor me lembrar que me sucedeste, e de dor atordoada sem dedos que me recortem as palavras, eu fingir esquecer que um dia também eu te aconteci - foi porque morri na reunúncia dos teus sentidos.


Alice Turvo

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Hoje





Hoje és todas as coisas que deixaste para trás

– uma casa abandonada de janelas estripadas –

és todas as coisas que me prometeste e esqueceste.

Alice Turvo