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quinta-feira, 20 de março de 2014

Os primórdios do Gmail

Esta coisa das memórias é como as cerejas: pegamos numa e vêm-lhe irresistivelmente agarradas mais umas quantas.

Ontem, em conversa relacionada com o princípio da Internet em Portugal, lembrava-me o meu amigo Harvey — outro pioneiro — que o seu convite para abrir uma conta Gmail lhe tinha sido enviado por mim, corria o ano de 2005. Porque, no princípio (o Gmail arrancou em Março de 2004), só se acedia a uma conta Gmail por convite. Recebi o meu da minha querida amiga Carla, em Janeiro de 2005, e passei eu própria a dispor de 50 para enviar a meu bel-prazer.

Há dias, a propósito do triunfo das mensagens de texto nos Estados Unidos, falei aqui de Buzzmarketing, de Mark Hughes, de 2005. Foi nesse mesmo livro que encontrei esta interessante passagem sobre o Gmail:

«Maxim 6: Push the Secrets Button to Start Conversation
How many times has someone said to you, "I'm not supposed to tell you this, but..."
Secrets are currency.Revealing a secret is a definite conversation starter. People love to talk about secrets, and when they do, they become "in the know". They become part of an exclusive circle, and exclusivity is the cousin of secrecy.
Sometimes withholding can work better than flooding. Limit supply and everybody's interested. Limit those in the know of a secret, those not in the know want the currency of knowing — they want to be part of the exclusive circle. Withholding a secret can push people's buzz buttons, and get people talking.
While not intentional, Google's Gmail created secrecy and exclusivity in its Gmail account. At one point, people were paying $200 on eBay for an account (I admit I paid for one on eBay myself). But the crazy thing is... it's a lousy e-mail account (yes, it does have one gig of storage... perhaps enough for twenty years of one person's e-mail archives) [o bold é meu]. But you can get e-mail accounts anywhere.
Although it's standard practice in the world of technology to create a very small list of beta test users, Gmail was kept a secret. It became exclusive to have an address like Joe@gmail.com. Limit supply, create exclusivity, know the secret, and more people want to know also. They get interested in what they can't really have, and people talk. Shhh... push the secret button.»

Estive ligada à Netcabo desde sempre e até ao ano passado, mas deixei de lhe usar a caixa de correio algures pelo princípio de 2007, quando ficou completamente entupida e não me conseguiram resolver o problema. Passei então resolutamente para o Gmail, julgo que ainda a funcionar por convite (lembro-me de ter recebido uma mensagem de um espanhol, que não sei como terá chegado até mim, a perguntar se lhe poderia disponibilizar um), e que entretanto já tinha dobrado a capacidade, passando para uns inacreditáveis dois gigas. Suficiente para vinte anos de arquivos, como diz Mark Hughes? Está bem, abelha! Já tive de comprar espaço adicional, até por causa das interligações com o Blogger, o Picasa, etc., e só recentemente, depois de muito trabalho, consegui baixar o atascanço da caixa para valores toleráveis.

Presentemente, o Gmail disponibiliza 16 gigas grátis de espaço, a partir daí é preciso pagar. O preço actual para uma capacidade de 100 gigas é de §1,99 por mês. Alguma dúvida em como será divertido revermos estes números daqui por uns cinco anos?

quarta-feira, 19 de março de 2014

Down the memory lane


Algures pelo princípio de 1997, o Rui emprestou-me uma cassete de vídeo com as gravações de dois programas de televisão em que tinha participado como convidado, e que eu não tinha podido ver. O tempo passou, nunca mais me lembrei de lhe devolver a cassete, ele nunca mais se lembrou de ma pedir. Passou mais tempo ainda, o VHS acabou, chegou o DVD, e a cassete continuava a morar na minha estante. E depois, quatro dias a seguir ao 11 de Setembro, o Rui morreu. Foi a enterrar no dia dos 15 anos da Marta, a filha mais nova, que eu quase vi nascer (estava no corredor, à porta da sala de partos), e que nunca mais poderá dissociar o dia dos seus anos dessa tragédia que tão cedo se abateu sobre ela.

Nos anos seguintes, o meu desconforto sempre que dava com os olhos na cassete ainda na estante foi aumentando mais e mais. Aquilo tinha de ser preservado, para começar; e, principalmente, aquilo não devia estar comigo, devia estar com a família. Um belo dia, decidi pedir ajuda ao meu querido amigo Zé Luís, que me fez a conversão de VHS para DVD, e depois esperei duas ou três semanas, o tempo de fazer chegar o inesperado presente às mãos da Marta no dia dos seus 20 anos.

Como também os DVD se estragam, resolvi acautelar ainda mais os dois segmentos filmados, e é com a autorização e aprovação entusiásticas da Marta que aqui ponho agora um deles. Confesso que deu algum trabalho, nunca tinha extraído ficheiros de um DVD, tive de pesquisar e encontrar (depois de várias tentativas mal sucedidas) os melhores programas para o fazer. Mas acredito firmemente na validade da máxima «se sabes ler, sabes fazer».

Em Janeiro de 1997, no programa da RTP1 Canal Aberto, apresentado por Manuela Sousa Rama, o Rui explicava em linguagem simples e acessível o que era essa coisa nova que andava em todas as bocas mas que muita gente desconhecia o que fosse, como funcionava e para que servia: a Internet.

Fico feliz por poder oferecer hoje à Marta, quase oito anos depois, esta extensão do presente de 2006. Porque hoje é Dia do Pai, e ela tem todas as razões e mais algumas para se orgulhar do pai que Deus lhe deu. 

Recomendo a todos que vejam o vídeo abaixo, porque vão sorrir ao lembrar como as coisas eram nessa altura. E, em simultâneo, vão conhecer um pouco o Rui como eu o conheci, grande comunicador (mal se dá pela presença do outro convidado, professor universitário e especialista em informática), parece que estamos na sua sala com um café em frente. E reparem como o Rui é lúcido e sensato nas coisas que diz sobre o mau uso da Internet, por exemplo, e nas suas mil utilizações diversas e possíveis. Todas essas coisas que para nós são hoje evidentes não o eram nada naquela época, ele é que era um pioneiro.

Vejam, porque vão gostar de lembrar como foi o princípio. Sorriam dos preços, sorriam da primeira informação sobre a Internet: é preciso ter um telefone. E continuem a ver. Aposto que já não se lembravam daquele barulho horrível quando acedíamos à rede.





domingo, 16 de março de 2014

Uma questão de perspectiva


Apresento-vos o meu primeiro computador, o histórico Apple IIc, ainda com disquetes de 5 ¼ (espreitem aqui esses objectos jurássicos). 

Felizmente o tempo do nosso convívio foi muito curto, porque a Apple lançou em Janeiro de 1986 o Macintosh Plus com disco rígido e uma novidade espantosa: um rato! Ora o Rui foi um verdadeiro pioneiro, andava sempre muito à frente de qualquer pessoa que eu tenha conhecido, e o belo Macintosh veio fazer as nossas delícias, maravilhando-nos com o seu incrível desempenho.

Em 1986 estávamos a começar a preparar três livros que foram um trabalho monumental, fotobiografias do Porto, do Benfica e do Sporting. A pesquisa de informação era simultânea, e o nosso Mac foi um amigo inestimável para organizar e ordenar todos os dados, com outro bicho qualquer teríamos levado uns bons quatro anos para coligir tudo. A única decisão a tomar era qual dos livros sairia primeiro, e foi uma enorme sorte o Rui ter optado pelo do Porto, porque em 1987 o clube foi campeão europeu pela primeira vez e o livro, bastante caro , saiu... (tcharan!) dois ou três dias depois, com vendas espectaculares.

Dou agora a palavra ao Rui, no prefácio do livro, para vos contar como a coisa foi feita.


«A PESQUISA E O CRITÉRIO DE PUBLICAÇÃO

Quando pensei fazer esta Fotobiografia do F.C.P. não sonhava as dificuldades que me iriam surgir pela frente. Estava convencido de que tudo tinha já sido dito e redito, escrito e reescrito, publicado e republicado, e que o computador com que faço outros trabalhos de investigação seria o modo de reunir toda essa informação, arrumá-la e ordená-la à minha conveniência.
Estava enganado. Afinal, o jornal A Bola (eventualmente o maior armazenador de dados concretos) só apareceu em 1945; a História do Futebol Clube do Porto, de Rodrigues Teles [três volumes gigantescos, bem me lembro], se bem que reunindo preciosa informação (até 1952), está desarrumada por ter sido publicada em fascículos e perigosamente envolta num mar de gralhas, omissões e sobretudo de contradições de datas e de factos de página para página; e, ainda para maior desespero, o próprio Clube não tinha quase nenhum documento ou informação que não fossem muito recentes.
Tinha pois de começar pelo princípio.
Com um total de doze colaboradores, procurámos na Biblioteca Nacional todos os jornais e publicações desportivas desde 1890, contactámos e entrevistámos particulares que possuíam documentação, lemos todos os livros sobre futebol e sobre o Futebol Clube do Porto e, página a página, extraímos dados dos jornais A Bola, O Século, Diário de Notícias, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Notícias e O Comércio do Porto. Vasculhámos ainda o Clube, os «ferrenhos portistas», velhos coleccionadores, antigos jogadores, etc. [foi assim que conheci dois dos lendários Cinco Violinos, Vasques e Travassos, podem invejar-me, sportinguistas]

[e agora podem pasmar e rebolar a rir com a informação que se segue. Discordei do Rui, achei que era desnecessário pôr isto no prefácio, e não fui a única, ainda bem que ele levou a sua avante, ou teríamos perdido para sempre o prodígio que se segue]

Toda a informação recolhida em mais de um ano de intensa pesquisa foi então informatizada e tratada num novo computador mais ágil e mais potente (um Apple Macintosh Plus com 20 megabytes de memória), o que permitiu fazer este trabalho em tempo recorde, ordenando, comparando e analisando os dados constantes em cerca de dois milhões de caracteres.»

Para finalizar, apenas alguns apontamentos divertidos que me vêm irresistivelmente à memória. As pesquisas na Biblioteca Nacional (só até 1960, depois tivemos de passar para a Hemeroteca Municipal) tiveram aspectos caricatos. Nos primeiros anos, quando farejávamos as primeiras notícias sobre futebol em jornais ainda do século XIX foram difíceis para mim, tamanha a dificuldade em concentrar-me no que interessava, os olhos a fugirem-me gulosos para outras notícias e, principalmente, para os anúncios. E sim, li todos os números de A Bola entre 1945 e 1987. Quase todos os dias via Vasco Pulido Valente sentado a uma mesa perto da minha na sala de leitura, bem percebia que ele deitava olhares intrigados para os enormes volumes abertos que eu consultava e de que tirava apontamentos — fingi sempre que não o via, tinha sido meu professor (extraordinário, por sinal) e eu embirrava muitíssimo com ele. Num dia qualquer encontrei o Pedro Oom, então a acabar o curso, que pasmou para a minha leitura, entre o atordoado e o invejoso, «Você está a ler A Bola?!»

A tal equipa de 12 colaboradores era mais ou menos coordenada por mim, que era aliás quem depois passava tudo para o computador, e o Rui chegou a apanhar fúrias. O Francisco, que viria a ser seu cunhado, e um outro, um tal Paulo, passavam mais tempo a fumar na varanda ou na cafetaria do que frente aos jornais, o que redundava depois em comentários cortantes e demolidores que resvalavam por eles como água pelas penas de um pato, «mas como é que a Teresa tem vinte e tal páginas de resultados e vocês têm uma e meia e duas?!» E era isto quase todos os dias, foram ambos delicadamente dispensados ao fim de um ou dois meses.

Foi também na Biblioteca Nacional que um dia comecei a reparar que demasiadas pessoas me olhavam disfarçadamente para os pés. Quando percebi o motivo fiquei gelada até à medula: tinha um sapato azul e outro preto (eram de pares iguais), e tive de andar muitas horas naquela penosa figura.

sábado, 15 de março de 2014

Mudar para pior


Cresci com um fascínio autêntico pela linda garrafa do vinho Gatão, maravilhada pelo rótulo com aquele gato das botas de garrafa debaixo do braço, rótulo a conter outro rótulo que, por sua vez, continha mais outro rótulo, e esse mais outro, e assim até ao infinito. Lembro-me de em pequena pasmar sempre, encantada, para um daqueles cartazes publicitários de vidro pintado de outros tempos, na Rua Braamcamp, entalado entre a charcutaria e a Madame Campos (Academia Científica de Beleza Madame Campos, conceituado e célebre instituto de beleza onde fiz a minha primeira limpeza de pele, aos 16 anos, por causa de umas borbulhinhas que me fizeram ter medo de ficar com acne, esse pesadelo da adolescência ao qual graças a Deus fui poupada, ao contrário de algumas amigas minhas).

Sei que, só por causa da garrafa e do rótulo, foi o primeiro vinho verde que provei, e nos anos 80 era sempre o vinho que bebia com o Zé nos nossos jantares no Peipin, o restaurante chinês da Duque de Loulé a que éramos afeiçoados e que tinha um empregado igualzinho a Hercule Poirot.

Não sei quem terá sido a nódoa da direcção dos Vinhos Borges que resolveu, julgo que a meio dos anos 90, mudar as duas coisas, a garrafa e o rótulo, nem quem terá sido autor do ranhosíssimo resultado final. Só sei que, quando dei pela mudança, nunca mais bebi Gatão.