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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

RUI CAEIRO

1943-2019


[Fotografia de Changuito (Mário Guerra)]

quarta-feira, 22 de abril de 2015

RUI CAEIRO

TUBARÕES


Há nos mares cerca de trezentas espécies diferentes
todas devidamente armadas com os mesmos dentes
(sobre o que se passa em terra não há estatísticas)


Deus e outros animais, Averno, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

RUI CAEIRO

SABEM QUE MAIS?


Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas
e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar
ou morrer: voar é que é muito mais improvável

Sou um homem de áridas certezas e uma esperança
a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas
paro escuto e olho antes de atravessar

com ela. E não lhe sei o nome. E não me preocupo


Sobre a nossa morte bem muito obrigado, 2.ª edição, Alambique, Lisboa, 2014.

domingo, 16 de março de 2014

RUI CAEIRO

[O SILÊNCIO DA TRAVESSA]


O silêncio da Travessa pesa às suas putas como a qualquer passante.
Também elas esperam qualquer coisa, nada de especial, uma palavra. Não necessariamente um convite. Não uma palavra de salvação, ou de violência, ou da habitual e falsa cupidez. Uma palavra simples e banal, que não queira dizer nada mas que lembre que todos fazemos parte da mesma rua inóspita, que o mesmo é dizer da mesma terra obscura.


Travessa dos Remolares, Paralelo W, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

RUI CAEIRO

[ENTRE OUTRAS COISAS QUE OS PAIS SÃO]


Entre outras coisas que os pais são ou costumam ser, o meu pai foi, tem sido, um problema para mim. À semelhança, de resto, do que eu próprio devo ter sido, e penso que continuarei a ser, para ele: outro problema.

Até aqui, nada do outro mundo, eu diria, nada que esteja fora dos moldes comezinhos e tradicionais em tal matéria.

Um problema a resolver, ou tão-só a controlar. Ou tão-só a contornar. Muito bem.

E devo até reconhecer que as coisas entre nós não melhoraram, nem sequer se alteraram significativamente nos últimos anos, isto é, nem com a velhice dele, primeiro, nem depois com a minha.

Nem com a circunstância de a morte dele ter acontecido há já uns pares de anos.


No Martim Moniz com o meu pai, Landscapes d'Antanho, O Homem do Saco, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

RUI CAEIRO

[ENCONTRO EM FRIELAS UM GATO]


Encontro em Frielas um gato
de rua que me olha com desdém
Acho que sabe quem eu sou


Um gato no inferno, edição do Autor, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

RUI CAEIRO

RETRATO


Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem


Rua dos Correeiros, n.º 60, 1.º esquerdo, AA. VV., Paralelo W, Lisboa, 2013.

domingo, 25 de novembro de 2012

RUI CAEIRO

[QUEM VIVE PARA O AMOR ESTÁ LIXADO]


Quem vive para o amor está lixado
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por dentro. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fôra já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
– pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.


Resumo: A poesia em 2011 [de O quarto azul e outros poemas], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Fnac/Documenta, Lisboa, 2012.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

RUI CAEIRO

[O NOSSO AMOR NÃO É COISA QUE SE APRESENTE]


O nosso amor não é coisa que se apresente
a uma sociedade como esta cujas exigências
stop que é do nosso amor que se trata
o nosso amor cheira a folhas podres de Outono
e quanto a reverdecer vou ali e já venho
o nosso amor está de rastos e como há-de ir
o nosso amor coelho esfolado o nosso amor
disco partido o nosso amor rato morto o nosso
amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz
o nosso amor osso esburgado o nosso amor
brinquedo que um menino esventrou e não sabe
agora como é que vai poder consertar
o nosso amor chá de tília choque
anafilático paragem cardíaca
mas nosso amor apesar de ou nosso amor
tudo e mais alguma coisa o nosso amor
cinco sentidos viste-o ouviste-o tocaste-o
cheiraste-o degustaste-o o nosso amor
seja ou não seja e esteja ou não esteja
ele é para já e largamente quanto basta


O quarto azul e outros poemas, Letra Livre, Lisboa, 2011.

domingo, 22 de maio de 2011

RUI CAEIRO

O FÓSFORO


Já tens o cigarro preso nos lábios, buscas
o pau de fósforo que o acenda e justifique
Nesse preciso instante a garantia
do teu futuro ou a salvação da tua
alma não são, se é que alguma vez
foram, o problema crucial da tua vida
sequer uma questão prioritária, o magno
problema é o fósforo, mas onde pus eu
a caixa?, e quando por fim a encontras
se a encontras, extrais dela o almejado
couto de madeira, esfregas não tarda
a cabeça vermelha na lixa da caixa,
aproximas a chama do cigarro, sorves
com avidez e deleite – e essa coisa frágil
absurda, milagrosa, que uma vida
sempre é – e por que raio havia a tua
de ser diferente? – está nesse preciso
momento plenamente justificada.





Resumo: A poesia em 2010 [de Criatura, n.º 5], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

RUI CAEIRO

[TODOS OS DIAS LOGO PELA MANHÃ]


Todos os dias logo pela manhã
as palavras

A cansada surpresa de estar vivo
as palavras


Baba de caracol (2.ª edição), Língua Morta, Lisboa, 2010.

domingo, 25 de outubro de 2009

RUI CAEIRO

[AQUI NA PRAIA DA TORRE PERTO DO LUGAR ONDE]


Aqui na Praia da Torre perto do lugar onde
mataram Gomes Freire de Andrade
aqui onde o Tejo por fim se rende e
se faz mar curvado sobre a areia
apanhando conchinhas e distraído
saboreando palavras lavadas e re
lavadas pela água das marés tais como
praia luz água nitidez búzio manhã
Deus ou Sophia de Mello Breyner Andresen


Olhar o nada, ver a Deus, Averno, Lisboa, 2003.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

RUI CAEIRO

PORCOS – 1


Na minha terra os porcos engordam, engordam
mas são sempre mortos antes de rebentarem
que os alentejanos é tudo gente pacífica


O carnaval dos animais, Letra Livre, Lisboa, 2008.