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25 março 2012

Antonio Tabucchi (1943-2012)



Num curto espaço de tempo Itália perde dois nomes maiores da sua literatura: Tonino Guerra e Antonio Tabucchi.


Ambos com ligações a Portugal. Tabucchi talvez fosse o escritor italiano mais português, tanto que, ao que se sabe, morreu hoje em Lisboa. Antonio Tabucchi dedicou um livro aos Açores, A mulher de Porto Pim:

Post Scriptum
Uma baleia vê os homens

Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

in A mulher de Porto Pim, Difel, págs. 94-5

05 fevereiro 2012

Fernando Lanhas (1923-2012)


Pintura [Óleo sobre Cartão], 1960

"A arte é um fenómeno intrínseco à espécie humana. Um voo liberto e incontido pelo homem. A arte é um princípio ajustado àqueles que a fazem. É um fenómeno de intimidade ainda não entendido. Em suma, muitas vezes a arte não parece, mas é".

Wisława Szymborska (1923-2012)

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.


AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves

02 dezembro 2011

Christa Wolf (1929-2011)


Morreu ontem, em Berlim, Christa Wolf, autora de "Cassandra" e "Medeia. Vozes", "Três Histórias Inverosímeis" (publicados em Portugal pela Cotovia) e "Acidente: notícias de um dia" (Publicações D. Quixote).

«A curiosidade é um mau hábito das mulheres e dos gatos, ao passo que o homem é ávido de conhecimento e tem sede de saber.» (THI, pág. 94)

Nas obras da escritora, as mulheres estão sempre no centro das atenções. Mulheres que se sentem estranhas, desajustadas num mundo masculino e que questionam os lugares comuns da dominação e do poder.

10 julho 2011

Jorge Lima Barreto (1949-2011)

Fernando Jorge da Ponte de Lima Barreto nasceu em Vinhais a 26 de Dezembro de 1949. Foi professor, músico e musicólogo, compôs peças para poesia, teatro e cinema e realizou programas de rádio. Fundou a Associação Música Conceptual (com António Pinho Vargas e Carlos Zíngaro, 1968), a AnarBand (por onde começou Rui Reininho, 1969) e Telectu (com Vítor Rua, desde 1982).
Gravou vários discos e CDs, tendo tocado com J. Berrocal, D. Kientzy, Elliott Sharp, C. Cutler, L. Clavis, Sunny Murray, G. Schiaffini, G. Hemingway, Evan Parker, T. Hodgkinson, B. Altschull, H. Robertson, Prévost, T. Chant, G. Sommer, K. Bauer, I. Mori, P. Rutherford, P. Lytton.
Foi autor de livros como “Revolução do Jazz” (1972), “Jazz-Off” (1973), “Rock Trip” (1974), “Rock & Droga” (1982), «JazzBand» (1985), “Música Minimal Repetitiva” (1990), “JazzArte” (1993), “Música e Mass Media” (1996), “Musa Lusa” (1997) ou “B-Boy” (1998), “Zapp, Estéticas do Rock” (2000), entre outros.












24 junho 2011

Just one more thing

Morreu Peter Falk (1927-2011), actor que fez de Colombo um caso especial nas séries policiais, a par de Sherlock Holmes, Hércule Poirot e Miss Marple. O tenente desajeitado e feio que resolvia os casos segundo um peculiar interrogatório, além de ser um tipo completamente vulgar, como se pode ver pelo excerto que incluímos a seguir.



Uma amostra do peculiar interrogatório




Falk ganhou quatro Emmys pela sua interpretação na série Colombo: um inspector de gabardina bege, humor mordaz e cigarro ao canto da boca, com gestos muito próprios e as referências à sua mulher que nunca aparecia na série.
Essa série seria, a partir de 1968 e durante cerca de 35 anos, o seu grande trabalho como actor. Refira-se que o primeiro episódio foi realizado pelo jovem Steven Spielberg.

12 novembro 2010

Henryk Górecki (1933-2010)


Henryk Górecki, compositor polaco, morreu hoje em Katowice. É comparado a compositores como Olivier Messiaen ou Arvo Pärt, pela estrutura musical, pelo temperamento romântico e pelos temas religiosos.
A sua música, inicialmente marcada pelo serialismo e pelo modernismo de Webern, Xenakis e Boulez, revela-se numa Sinfonia nº1, de 1959, recebida com entusiasmo na Polónia. A Sinfonia nº2 surgiria 13 anos depois, para celebrar o 500º aniversário do nascimento de Copérnico. O vanguardismo inicial dá lugar a um lirismo mais acentuado e a um investimento melódico mais tradicional.
Católico devoto, procuraria a partir dali incutir na sua música um sentido espiritual profundo, que atingirá o auge na sua obra mais conhecida, a Sinfonia nº3, construída sobre um lamento do século XV, as palavras que uma adolescente escreveu nas paredes de uma prisão polaca da Gestapo e uma história do folclore da Silésia, em que uma mãe chora o filho perdido na guerra. Conhecida como "Sinfonia das Canções Tristes", tornaria Górecky um caso raro de sucesso, com os mais de um milhão de discos vendidos em 1992.
Na sequência desse êxito, o polaco colaborou com o Kronos Quartet e a Orquestra Sinfónica de Londres.


13 julho 2010

Harvey Pekar (1939-2010)



Filho de imigrantes polacos, nasceu a dia 8 de Outubro de 1939 e morreu ontem, em Cleveland, Ohio. Pekar tornou-se bastante popular quando a sua série de BD, publicada inicialmente em 1976, foi adaptada para o cinema em 2003, com Paul Giamatti no papel do autor. Filme que conquistou o Grande Prémio do Júri de drama no Festival de Sundance.
"American Splendor" é um retrato de Harvey Pekar, que revela o seu pessimismo crónico e cómico, a relação que tinha com os amigos, com a mulher e a sua rotina como arquivista de hospital e coleccionador de discos de vinil.
Pekar era o argumentista. Os desenhos corriam pelas mãos de amigos, como Robert Crumb.
O artista tinha, além de problemas de cancro da próstata e hipertensão, graves crises de depressão. Foi encontrado morto pela mulher.

18 junho 2010

1922-2010 José Saramago


Eram 12h45 em Lanzarote, a mesma hora de Portugal continental, (11h45 nos Açores) quando foi declarado o óbito do escritor, na casa em que residia, na localidade de Tias, na ilha espanhola de Lanzarote.
A última década e meia trouxe-lhe o reconhecimento internacional, como podem ver aqui.

08 junho 2010

António Manuel Couto Viana (1923-2010)


[imagem daqui]

Morreu hoje em Lisboa. Aqui ficam alguns poemas seus.


O poeta e o mundo

Podem pedir-me, em vão,
Poemas sociais,
Amor de irmão p'ra irmão
E outras coisas mais:

Falo de mim - só falo
Daquilo que conheço.
O resto... calo
E esqueço.

[in Uma vez uma voz, Verbo, 1985, pág. 44]

A poesia está comigo

Queres cantar fados, ler sinas
Por ruas tortas, escusas?
Ou tens pretensões mais finas?
- Não me esperem nas esquinas:
Não marco encontros a musas.

Cantem outros a desgraça
Em quadras fáceis, banais,
Cheias de mofo e de traça:
Soluços de fim de raça,
Com vinho, amor, ódios, ais.

E dos parques silenciosos
De estátuas, buxo e luar,
Cresçam sonetos cheirosos,
Requintados, vaporosos
Qual uma renda de altar.

Para mim basta o que tenho:
Umas rimas sem valia,
Mas próprias, do meu amanho;
Minha colheita, meu ganho
- Poesia! Poesia!

[idem, págs. 63-4]

Fora de moda

Versos antigos, de antigos poetas,
Tão esquecidos, fora de moda,
Ao lê-los, leio, numa outra era,
Meus próprios versos. E a alma chora.

Bem pouco entendo, dos novos cantos,
O que me dizem, o que sugerem,
Que fim apontam, com que diálogo
Falam da vida, como a interpretam.

Só vejo imagens, oiço palavras
Belas, sim, belas, mas sem sentido.
E desce a sombra, e os sons apagam-se
Sobre os meus olhos, nos meus ouvidos.

É de leitores que são avaros
Estes poetas do meu presente?
Tanta poesia só para raros!
(Ou sou o raro que não a sente?)

[idem, págs. 430-1]

01 junho 2010

Louise Bourgeois (1911-2010)







Foi durante décadas uma escultora silenciosa, recatada, ignorada. A partir dos anos de 1980 aparece em cena e a década de 1990 consagra-a. Londres, Nova Iorque, Paris promovem-na e Louise Bourgeois é internacionalmente catapultada para ícone de um tipo de arte.
O nicho familiar, povoado de negros fantasmas, surge como célula carcerária. O sexo, a sexualidade e a maternidade surgem sob irónicos e críticos ângulos. As suas grandes aranhas são, ao mesmo tempo, “mães” em cuja teia preservam o mais íntimo da vida, e fantasmas “vingadores” que vogam no inferno urbano, passeando a sua medonha solidão pelas praças dos lugares.
Como disse Paulo Herkenhoff, "Louise Bourgeois desenvolveu uma lógica das pulsões, importando vincular sua obra aos grandes temas do conhecimento ou da literatura e não aos sistemas da arte. Melhor falar então de um material extraído de recalques e embates da vida como abandono e ira, desejo e agressão, comunicação e inacessibilidade do Outro. No confronto permanente entre pulsões de morte, angústia, medo e as pulsões da vida, a obra de Louise Bourgeois é uma dolorosa e triunfante afirmação da existência iluminada pela libido. Nessa obra biográfica e erotizada, transformar materiais em arte é uma conversão física, não no sentido religioso, mas como a conversão da electricidade em força. (...) Digamos então que a obra de Louise Bourgeois caminhe pela territorialização de imensidões. São assim o corpo, a casa, a cidade e o desejo. Ou a geometria, a família e a insularidade. Obra antiplatónica, não se satisfaz com o mundo das idéias e conjecturas. Deseja ter um corpo."

30 junho 2009

Pina Bausch (1940-2009)


A coreógrafa alemã Pina Bausch, que fundiu o teatro, a dança moderna, a pantomima e o musical, moldando um novo estilo, morreu. Tinha 68 anos. Disse numa entrevista: "Todos os pormenores são tão importantes! Tudo é pormenor."
António Pinto Ribeiro, ensaísta e consultor da Fundação Gulbenkian, diz: “Pina Bausch deixa um reportório absolutamente invulgar e único; é uma das artistas e autoras mais criativas do século XX, cuja obra ultrapassa largamente o domínio da dança. Um dos aspectos mais notáveis é ela ter começado pela dança tradicional e, depois, ter ultrapassado todas as fronteiras, tornando-se numa das heroínas da cultura do século XX. É uma obra atravessada por um grande humanismo, no modo como retrata as contradições da natureza humana, e no olhar sábio que lança sobre o homem e sobre a mulher”.


26 junho 2009

R I P


Morreu, ontem. Por overdose. Coitado. Era e não era. Em quase tudo. Ganhou milhões. Perdeu milhões. Deu o seu contributo. Chamam-lhe rei. Já lhe vimos chamar nomes piores. Cada um tem os insultos que merece. Talvez quisesse (a pequena moral é sempre tão alarve e cómica) ser o que todos somos, um Zé-Ninguém. Mas era o Michael Jackson. Tinha 50 anos. Que descanse em paz.
E que os vivos apurem a gula, pois à custa do era e não era factura-se um pouco mais. E os que ainda há pouco escarneciam do pedófilo enaltecem agora o artista. Isto de ser artista é quase o mesmo que ser e não ser. Mas Shakespeare não é para aqui chamado.

23 junho 2009

Memórias de um Portugal antigo.


António Fernandes de Castro era a pessoa mais idosa de Portugal. Tinha 111 anos, era boa boca, ou seja, comia de tudo e morreu ontem. Nascido a 6 de Janeiro de 1898 (século XIX), António Fernandes de Castro viveu mais de 40.800 dias, cumprindo todo o século XX e entrando pelo século XXI.
A sua vida foi repartida entre o trabalho do campo, sobretudo no "ramo" das videiras, onde se revelou um negociante exímio, e o desempenho de vários cargos públicos, tendo sido regedor durante 33 anos. Podia entrar na casa de qualquer pessoa, mas apenas antes de o sol se pôr. Podia até prender quem infringisse as regras da Nação. No entanto, como o próprio relata num livro que a Junta de Freguesia editou aquando do seu centenário, era "um regedor bom", que nunca prendeu ninguém.
Durante dois ou três anos, foi também juiz de paz, com poderes para resolver os pequenos problemas que se passavam no seu território, mas também com autoridade para fazer conciliações em partilhas.
Outro cargo que desempenhou foi o de presidente da Junta, tendo sido no seu tempo que nasceu a primeira escola em Durrães, para evitar que os meninos da freguesia tivessem que "emigrar" para outras terras para tirar a quarta classe.
Integrou a Comissão Fabriqueira de Durrães, ficando ligado ao processo de construção da nova Igreja Paroquial.
Criou 10 filhos, que lhe deram mais de duas dezenas de netos e quase trinta bisnetos, tendo ainda conhecido dois trinetos.

04 junho 2009

David Carradine (1936-2009)


Estava na Tailândia a rodar um novo filme e foi encontrado morto no seu quarto de hotel. Tinha 72 anos.
A infância tem coisas assim, encanta-se com artes marciais e Carradine era o monge Kwai Chang Caine, na série "Kung Fu". Vivi as artes marciais com ele e com Bruce Lee.
Quentin Tarantino, outro nostálgico, deu-lhe um papel em Kill Bill. Papel que, diga-se de passagem, lhe assentou que nem uma luva.
Tinha aquele ar perdido de quem nada sabe, nem nada percebe (um perdedor nato, portanto) que acabava por ter de resolver as coisas à pancada, quiçá porque a adolescência ou a proto-adolescência sente um turbilhão dentro de si e a pancadaria sabe que nem ginjas (sobretudo se for vivida assim, por interposta pessoa, com o fulgor dos anti-heróis). Ainda por cima tinha qualquer coisa de Lucky Luke, com a sua flauta de eremita.

21 maio 2009

João Bénard da Costa (1935-2009)


Escritor, cinéfilo, católico, professor, actor ( nos filmes "O Convento", "Francisca", "Non, ou a vã glória de mandar" e "Amor de Perdição", de Manoel de Oliveira e em "Recordações da Casa Amarela", de João César Monteiro)Bénard da Costa foi sobretudo um leitor da alma humana.
Comecei a lê-lo no falecido O Independente, pelos finais da década de 1980, aprendendo entre “Os Meus Filmes da Vida” e “Os Filmes da Minha Vida” como o cinema é uma porta, uma janela, quando não um edifício inteiro contra o terror que a vida inspira.
Lê-lo era um prazer, ouvi-lo falar outro, não só pelo que dizia como também pela voz peculiar que tinha.
Sobre Bénard da Costa, vale a pena ler o que diz Alexandra Lucas Coelho aqui.

04 maio 2009

Vasco Granja (1925-2009)


Cresci com os programas do Vasco Granja na RTP. É portanto um post onde a nostalgia leva a melhor sobre qualquer outra coisa. Não possuía suficiente sentido crítico para saber se o que ele fazia era excelente, bom ou regular. Sei que a par de animação enfadonha (para a minha idade e gosto) havia autênticas preciosidades (que seduziam e excitavam a minha imaginação).
A partir de certa altura, já não me recordo quando deixei de ver TV e deixei também de seguir as escolhas do Vasco Granja.
Encontro-me assim diante de uma segunda descoberta, a de saber que foi muito mais do que alguma vez imaginara e que forjou o termo que todos usamos: banda desenhada. Quanto ao resto, deixo falar Carlos Pessoa, crítico que comecei a ler no Público há alguns anos e por quem nutro a simpatia de um leitor que não é especialista, mas mero e diletante amador. Espero que ele não leve a mal o excesso de transcrição.
«Autodidacta e com múltiplos interesses culturais ao longo da sua vida, Vasco Granja nasceu em Campo de Ourique (Lisboa) a 10 de Julho de 1925. Começou a trabalhar, ainda muito novo, nos antigos Grandes Armazéns do Chiado, e depois ao balcão da Tabacaria Travassos, na baixa lisboeta, que consideraria, anos mais tarde, a sua universidade. O seu interesse pelo cinema surge na adolescência e aos 16 anos chegaria a ser admitido como segundo assistente de fotografia no filme “A Noiva do Brasli”, de Santos Neves.
No início da década de 50 envolve-se no movimento cineclubista, tendo desempenhado funções directivas no Cine-Clube Imagem. Granja foi preso pela primeira vez pela polícia política do Estado Novo em Novembro de 1954, quando militava clandestinamente no PCP. Esteve preso sem julgamento seis meses e quando foi libertado voltou às suas actividades cineclubísticas e à divulgação cultural na imprensa. Datam de 1958 os seus primeiros artigos sobre o cinema de animação, nomeadamente na sequência da descoberta dos filmes experimentais do canadiano Norman McLaren.
No início da década de 60 arranja trabalho na Livraria Bertrand, onde se manteve até à reforma.
É preso de novo em 1963, julgado e condenado a 18 meses de prisão. Quando foi libertado, em 1965, Vasco Granja retoma a sua actividade cultural, com artigos nos “media” sobre cinema e literatura.
O seu nome é habitualmente associado à divulgação da banda desenhada em Portugal. O termo “banda desenhada” é, aliás, utilizado pela primeira vez por Granja num artigo publicado pelo “Diário Popular” em 19 de Novembro de 1966.
Integra a equipa fundadora da revista francesa de crítica e ensaio de banda desenhada “Phénix”, nos anos 60 e participa regularmente no Salone Internazionale dei Comics, em Lucca (Itália), o mais importante encontro do género nos anos 70.
Em Portugal, a sua actividade de divulgação da banda desenhada intensifica-se a partir do aparecimento da edição portuguesa da revista “Tintin”, em Junho de 1968, onde escrevia e traduzia artigo, além de ter a responsabilidade da secção de cartas aos leitores. Foi director da segunda série da revista “Spirou” (edição portuguesa) e coordenador da edição de banda desenhada da Bertrand. Animou o “Quadrinhos”, um dos primeiros fanzines surgidos em Portugal, em 1972. Esteve ligado à fundação da primeira livraria especializada de BD em Lisboa, O Mundo da Banda Desenhada, em 1978.
Em 1974 e 1975 integra o júri do Salão Internacional de BD de Angoulême. Depois de 25 de Abril de 1974, Vasco Granja mantém um programa regular sobre cinema de animação na RTP, que teve mais de 1000 emissões e divulgou sistematicamente as grandes escolas internacionais do género. Estava reformado desde 1990.»

19 abril 2009

J. G. Ballard (1930-2009)


James Graham Ballard, um dos grandes visionários do século XX, considerado o último dos surrealistas e mestre da ficção científica, morreu hoje, com 78 anos, por causa de um cancro da próstata que há muito o afligia.
Britânico, nasceu em Xangai, onde viveu uma infância exótica e aventureira, tendo sido testemunha da invasão japonesa que o levou, a ele e à família para o campo de concentração de Lunghua. Essa experiência dramática deu origem ao romance autobiográfico O império do sol.
Foi para o Reino Unido já adolescente e custou-lhe a adaptação ao mundo cinzento e fechado da sociedade britânica do pós-guerra. Estudou Medicina, algo que é bem evidente nos seus livros, nomeadamente pelo recurso à anatomia, patologia e dissecação, às vezes de uma perturbadora fisicidade e sexualidade. Esteve na força aérea (RAF), que lhe proporcionou o curso de piloto e um imaginário particular, especialmente o que se relaciona com voos e aparatosas quedas de aviões.
Edifícios desabitados, night-clubs e hotéis abandonados, piscinas sem ninguém, desertos são alguns dos não-lugares que comparecem nos seus contos e romances, povoados pela estranheza e pela desolação.
Alguns dos seus livros foram transpostos para o cinema, como O império do sol, realizado por Spielberg e Crash, por David Cronenberg.