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quinta-feira, 3 de julho de 2014

O martírio como ato dramático e equivalente ao suicídio (ou não)

Olá!

Quando redigi meu texto em que eu falava sobre a dimensão estética do suicídio, que pode ser lido neste link, meu leitor e colaborador Vitor Bertalan levantou um questionamento sobre a questão do martírio. Ele teria o mesmo efeito estético que pretendi atribuir à minha dissertação, ou há algo de diferente no ato de entrega da vida em nome de uma causa, de uma convicção? Pois bem, dois anos depois, vou tentar responder.
O primeiro ponto a ser discutido é que não temos um só tipo de martírio, e por aí já adianto que há também diferenças no modo com os quais devem ser encarados. A palavra “mártir” acabou por se tornar muito genérica, e desde já vou excluir deste texto sua aplicação simbólica. Para definir bem que exclusão é esta, vou contar mais uma historinha da minha vida, um tanto fútil, mas perfeitamente significativa para exemplificar.

Na segunda metade da década de oitenta, eu trabalhava com custos e contabilidade (vida emocionante...) em uma empresa de metalurgia, mais especificamente uma fabricante de máquinas-ferramenta para deformação de metais, mais especificamente ainda uma fábrica de prensas. Era uma época em que a indústria nacional ainda era pujante, dados os caríssimos impostos de importação, que faziam com que valesse a pena produzir no país. Acontece que, tão logo se deu a virada para a década de noventa, o então presidente Fernando Collor, julgando os carros produzidos no Brasil autênticas carroças, resolveu mudar a política econômica, barateando a importação de quase tudo. Por outro lado, o crédito industrial foi limitado e os investimentos em aplicações financeiras, até mesmo inocentes cadernetas de poupança, foram confiscados por um bom tempo. O efeito foi devastador para a indústria nacional, e foi particularmente cruel para a indústria pesada, como a que eu trabalhava em particular. Muitas portas baixaram e os empregos foram se tornando raridade. Bom, não vou entrar em grandes discussões do gênero neste momento. Para a compreensão geral, isso basta.
As empresas em geral começaram a partir para cortes de gastos, e, além do cafezinho, as primeiras afetadas eram as cabeças dos empregados. É evidente que aqueles funcionários que mais incomodavam eram os primeiros a ser desbastados, mas, para tentar amenizar os impactos dos cortes, eram realizadas semanalmente reuniões entre gerência e funcionários para tentar obter alguns consensos. Alguns eram bastante impactantes, como a redução temporária da jornada e de salários, com a garantia de que não haveria dispensas durante o período. Outras eram um pouco menores, como a diminuição de benefícios. Tínhamos até então um refeitório farto, com prato principal, saladas, guarnições, sobremesas e máquina de refrigerantes, além do direito de opção para quem não pudesse/gostasse de consumir determinada iguaria. Para reduzir esse custo, foi estabelecido que o contrato com a empresa fornecedora de comida seria rescindido, e seria oferecida uma refeição bem mais simples: arroz, feijão, uma mistura qualquer e salada, sem direito a opção, guarnição ou refrigerante. No lugar deste último, foi colocada uma daquelas maquininhas de suco, tão presentes nos botecos que servem churrasquinho grego nos arredores da Praça da Sé. Resignados, porém conformados, aceitamos de bom grado o declínio alimentar. Na reunião seguinte à primeira semana das medidas culinárias, um dos funcionários fez um pedido sucinto porém justo, e silenciosamente apoiado por toda a galera: o suco das maquininhas era horrível – açúcar pintado com algum corante, cheio de resíduos. Este funcionário pediu apenas e tão somente que fosse trocada a marca do suco, ou algo semelhante. Estava melhor beber água ou nada. Pois muito bem. Na reunião, a gerência falou iria rever o produto que estava sendo utilizado, se o problema não estava no preparo ou coisa congênere. No dia seguinte, nosso desventurado amigo foi colocado em aviso prévio... Ficou conhecido como “o mártir do suco”, aquele que entregou o emprego pela nobre causa de um acompanhamento digno para a gororoba diária. Perceberam que é um mártir simbólico? Pois é, deste tipo de mártir não vou tratar, nem do termo ainda mais genérico, que indica qualquer sofrimento intenso. Tipo: “Ai, essa dor nas costas é um martírio”, “Meu chefe é um martírio”, “Subir essa ladeira é um martírio” e outras metáforas do estilo.

Vou por em discussão dois outros tipos de martírio, desta vez reais, que implicam na morte do pobre coitado. E a base que os separa é simples: se se trata ou não de um ato de livre vontade. Temos mártires voluntários e mártires involuntários. Mas antes, vou conceituar a palavra.
Sua origem data do advento do Cristianismo, que, em seus primeiros séculos, tinha o duplo dissabor de ser uma dissidência do Judaísmo e uma oposição ao Paganismo imperial romano. Era um termo aplicado às pessoas que, por não abdicar de sua fé, preferiam serem mortos, dando assim seu testemunho. Este testemunho (martys) tinha origem nos primeiros discípulos de Jesus, que o conheceram pessoalmente, presenciando seu julgamento e condenação, e praticamente todos eles tiveram algum tipo de fim triste similar: crucificação, esfolamento, apedrejamento, decapitação, essas coisas. Faziam isso por um ideal – manter sua fé diante da opressão de um sistema que lhes tolhia a liberdade de escolha.

Com o passar do tempo, o termo foi se aplicando a qualquer pessoa que colocava sua causa acima de sua própria vida. Mas, no caso dos mártires involuntários, isto é, aqueles que tiveram sua vida ceifada sem sua própria asserção, não podemos equipará-los a suicidas. Caso mais clássico que posso fazer remissão agora é o de Tiradentes, o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Rapidíssima revisão: Tiradentes fez parte de um movimento chamado Inconfidência Mineira, que pretendia se libertar da dominação portuguesa, que se apropriava das riquezas produzidas pela extração de ouro em Minas Gerais. Pela delação de um dos partícipes, o movimento foi desmantelado e seus membros punidos, com penas que passavam por prisão, desterro e enforcamento, esse último aplicado apenas para o infeliz dentista/militar. Sua execução foi explorada à exaustão por artistas e patriotas vários, muitas vezes baseados em uma visão mítica (em momento oportuno, posso tentar falar algo sobre a “barba de Tiradentes”), mas o fato é que seu martírio foi imposto, o que não tira sua aura de heroísmo, mas reduz significativamente sua dramaticidade, pelo menos no que diz respeito ao ato em si como sinônimo de entrega extrema a uma causa.
Partamos, portanto, para a análise do martírio como suicídio. E, para tanto, vamos abordar dois filósofos, este que é um espaço destinado à Filosofia. Um é megaconhecido, até por leigos; outro, nem tanto. Mas quem estudou Filosofia ou História o conhece, sim.

Sócrates é, provavelmente, o mais célebre dos filósofos. Não deixou escritos, principalmente pela força da oralidade de seus métodos, e sua vida é conhecida, principalmente, pelos relatos deixados por Platão e Xenofonte, que têm inspiração mais doutrinária do que histórica. No entanto, alguns pontos de sua biografia são consensuais, o que permite deduzir que, ao menos na essência, estes relatos são dignos de fé. Sócrates renovou decididamente a maneira de pensar dos antigos gregos e, por extensão, de todo o ocidente. O princípio básico de suas ideias aponta para a identificação da essência do homem com a sua alma, mas em um sentido diverso do religioso. Alma, para Sócrates, é o logos, a razão, o eu consciente. O corpo já não é o mais importante, ele é apenas um instrumento para por em prática as ações deste logos. Desta forma, a busca do homem não deve ser calcada no poder ou no prazer, mas na areté, a virtude. E, para tanto, é fundamental o autoconhecimento (nada de auto-ajuda, por favor). Se o homem não se conhece, não saberá buscar essa virtude.
Dessas assertivas derivam todas as demais doutrinas socráticas. Para que a virtude seja atingida, é preciso exercitar um domínio sobre si mesmo: o homem-razão deve preponderar sobre o homem-animal, a racionalidade tem que saber dominar os instintos, e é preciso cada vez menos tornar imperativas as necessidades do corpo. A sabedoria consiste, assim, em fazer com que esse domínio sobre as paixões aproxime o homem das divindades. Os deuses bastam a si mesmos; o homem deve buscar o mesmo.

Esse desligamento do homem com as noções de poder trazia suas consequências. O homem sábio procura se afastar do embate, da guerra e da disputa. Calcando sua vida na busca dos valores racionais, chegaria sempre em uma solução pacífica, bem acordada. Isso ia de encontro à classe dirigente de Atenas, sempre necessitada de soldados preparados para o combate. Dessa forma, pesou sobre Sócrates a acusação de que estava pervertendo a juventude, os braços preferenciais dos exércitos. Além disso, havia a acusação secundária de que Sócrates ofendia os deuses do panteão grego, ao ensinar doutrinas diversas daquelas do entendimento geral, especialmente ao se utilizar o espírito crítico contra verdades prontas para consumo. Em seu julgamento, foram-lhe dadas as opções do exílio, da extirpação da língua ou da morte. Dizendo ser ambas as primeiras um castigo insuportável, opta pela última, que ao menos lhe é desconhecida. Sócrates não só não se retratou das acusações que lhe fizeram como ainda recusou a ajuda de seus companheiros, que queriam planejar sua fuga. Argumentava que, em primeiro lugar, sua condenação era um prêmio por sua vida justa. Mas, principalmente, morria em obediência às leis da polis. Se ele defendeu a virtude como principal objetivo a ser perseguido pelo homem, como poderia ele mesmo se voltar contra suas convicções, tomando uma atitude antiética, ainda que sua condenação tenha sido injusta? Preferiu tomar ele mesmo seu cálice de cicuta, diante do desespero de seus discípulos, como podemos ver na interpretação de Jacques-Louis David, a famosa tela “A morte de Sócrates”.


O martírio de Giordano Bruno tem contornos ainda mais dramáticos. Tinha um espírito difícil de amestrar, sendo a insubordinação uma de suas maiores características. Para falar mais claramente, era um encrenqueiro de mão cheia. Para que se tenha ideia do que estou falando, nosso corajoso porém imprudente filósofo foi beber nas fontes da mitologia egípcia para elaborar suas teses sobre o universo, em um tempo de intensa preponderância do pensamento cristão, que, como bem se sabe, não era muito dado a tolerâncias nos idos do século XVI. Suas ideias constituíam uma retomada, com influência neoplatônica, da tradição de Hermes Trismegisto, Deus da magia e da escrita. Segundo esta doutrina, a mente tem dentro de si um conjunto de imagens que totalizam todo o conhecimento do universo. As sombras das ideias não são, como imaginava Platão, obtidas através das coisas sensíveis, mas de uma impressão mágica que nada mais é do que reflexo das ideias divinas. Como tal, essas ideias estão eternamente residentes nos cérebros humanos, o que faz com que seja possível desenvolver técnicas de memorização que seriam praticamente infalíveis, assim como potencializa o alcance do conhecimento a praticamente qualquer lugar onde ele possa ser obtido, já que este seria nada mais do que a ativação da ideia. A partir destes princípios, Giordano Bruno desenvolve um sistema de mnemotécnica que o torna famoso, e que, no final das contas, foi a causa final de seu martírio.
Há dois pontos de divergência mais significativos do pensamento bruniano com relação ao Cristianismo: o universo infinito e eterno e o deus in rebus, o Deus nas próprias coisas. Bruno imagina que existe uma entidade suprema da qual emana tudo do universo, mas essa própria entidade não pode ser conhecida plenamente. Giordano Bruno concebe a emanação divina como uma distribuição dela própria, ou seja, Deus está em tudo. Mais do que isso: se tudo procede de Deus, se tudo é composto de Deus, se tudo é plasmado pela substância de Deus, então tudo contém o Deus completo, o que inclui não só a matéria, mas o intelecto de Deus. Tudo tem alma: os homens, os animais, as plantas e os minerais. A filosofia de Bruno não é só panteísta; é também panpsiquista.

Tem mais: partindo do princípio de que o universo é infinito, cada ponto de onde parte uma perspectiva é o centro deste universo. Essa característica, por exemplo, remove qualquer centrismo: nem a Terra, nem o Sol (embora Bruno entenda o Sol como o centro do nosso universo “local”), nem nada – tudo e ninguém são centrais. Bruno, inclusive, não exclui a possibilidade da existência de outros mundos com vida – um proto-ufólogo.
Está mais do que na cara que este tipo de posicionamento confrontaria diretamente o pensamento cristão da época, que era, como sabemos, tremendamente autoritário e pouco propenso a oposições. O universo infinito e eterno dava uma noção de incompletude, e, portanto, de imperfeição, o que era inadmissível para os teólogos de então. O mesmo se dá no panteísmo e no pampsiquismo: as coisas são imperfeitas e possuem muitos vícios. Não é possível conceber, na filosofia cristã, um Deus que não se destaque de sua própria criação, que não se situe em uma posição de paradigma de perfeição, a ser perseguido por suas criaturas.

Bruno foi se virando do jeito que dava – fugia daqui para lá e dali para cá, na exata medida em que arrumava suas altercações. Já era problemático desde adolescente: foi expulso da escola que estudava em Nápoles. Fugiu para Roma, passou por Turim, Nola, Veneza, Savona e Gênova – todas no norte da Itália. Se mandou para a Suíça, onde foi encontrar barulho com os calvinistas de Genebra. De lá foi para a França, onde passou por Toulouse e Paris, onde finalmente conseguiu proteção do embaixador francês. Acompanhou-o até a Inglaterra, sobretudo em Londres, mas também foi à Oxford para se indispor com os acadêmicos da universidade local. Voltando a Paris, percebeu que o antigo clima amistoso havia se esvaído, e migrou para a Alemanha, onde elogiou publicamente os luteranos, que o acolheram em Helmstädt. Adivinhem o que aconteceu em menos de um ano? Sim, ele foi expulso. Foi para Frankfurt, onde parou de tergiversar um pouco para se dedicar à poesia, quando foi convidado pelo nobre veneziano Giovanni Mocenigo para ministrar aulas de mnemotécnica, da qual era mestre. Deu um tiro n’água: retornou à Itália e, claro, foi angariar discórdia com seu contratante, que não pensou cinco minutos em levá-lo preso ao Santo Ofício. Condenado à fogueira, Bruno tinha a opção de abjurar, mas não quis se contrapor às suas próprias ideias, entregando-se à morte, que se deu em 1600.
Temos aí, portanto, duas histórias em que poderíamos fazer uma equivalência real entre martírio e suicídio, já que existia a opção de não morrer. Mas é uma opção meio que falsa: haveria uma perda ainda assim. No caso de nossos caros filósofos mencionados, que não são conhecidos por obras artísticas, ou por realizações políticas, ou por sutilezas físicas, ou por práticas de guerra, mas apenas e tão somente por suas ideias, renegá-las significa manter a vida, mas tirar-lhe totalmente o sentido. Olhando por este ângulo, manter a sobrevivência significaria atirá-la no vazio. É um ato de coragem escolher pela morte, mas a coisa vai mais além: a obra de ambos era, concordemos com eles ou não, maior que a sua própria existência, e, no final das contas, era a melhor coisa a fazer para se manter vivos, permanentes, eternos. Vejam vocês: seria muito menos provável eu estar falando sobre Giordano Bruno neste espaço unicamente por sua Filosofia hoje superada – tanto Religião quanto Ciência concordam que o universo não é infinito e que teve um ponto inicial: a criação para os religiosos, o big bang para os cientistas – do que pelo fato de sua entrega em nome de suas convicções.

E nessa medida o martírio se equivale em dramaticidade ao suicídio, de quem se destaca sem se descolar, porque o suicida “comum” encerra uma tragédia pessoal, enquanto o mártir deixa um legado para a humanidade: morre muito mais aquele que renega o que crê do que aquele que efetivamente se deixa matar. Concordar ou não, é com vocês.
Recomendações de leitura:
Menciono aqui as duas obras que melhor fazem referência à morte de Sócrates, e que citei neste texto. Claro que a linguagem não é das mais fáceis, mas são bem importantes de serem lidas para compreender os motivos pelos quais Sócrates se entrega em martírio.

PLATÃO. Diálogos. São Paulo: Nova Cultural, 1991. Col. Os Pensadores.
XENOFONTE. Banquete e Apologia de Sócrates. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2008.

O livro principal de Giordano Bruno é o que menciono abaixo. Saibam que ainda hoje é muito utilizado por esotéricos.
Bruno, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril Cultural, 1992.


A imagem da tela de Jacques-Louis David foi extraída do seguinte site:
http://galeriadefotos.universia.com.br/

terça-feira, 24 de julho de 2012

Sobre o suicídio como forma extrema da estética

"O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo, decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia" – Albert Camus

Olá!

A crise econômica apresenta suas armas. Um dos países europeus mais afetados pela depressão, a Grécia, tem apresentado um alarmante aumento no número de suicídios (noticia aqui). É uma das características dos ciclos capitalistas, infelizmente. Como o dinheiro toca a roda da vida, que não o tem ou perde a perspectiva de tê-lo, tem a tendência a entrar mesmo em parafuso. Mas a reação me parece estremada demais. Vamos analisar.

Émile Durkheim foi um dos primeiros pensadores a estudar o suicídio em seu prisma sociológico. Ele percebeu que há uma taxa razoavelmente mais significativa em sociedades onde há deficiência na integração social dos indivíduos. Os momentos de crise econômica, como no caso grego, são propícios para promover esta fragmentação social, e então o indivíduo se vê mais individual do que nunca, isolado em seu desespero. Mas ciclos econômicos vem e vão, e as pessoas permanecem. Será que só este ângulo existe? Há algum recado embutido no ato suicida? Para tanto, precisamos sair um pouco do âmbito científico.

Na despirocadíssima visão de Antonin Artaud (de quem eu já falei, e bem, neste post), o suicídio não pode ser visto como solução, mas como hipótese. Isso indica que o suicídio não existe para ser descartado, mas para que se duvide de sua efetiva utilidade, já que é impossível estabelecer o momento que o homem morre, ainda que se mantenha vivo. O suicídio como patologia não reserva nada de especial, é preciso que ele seja determinado, seja consciente e bem decidido, para que possa representar o não-ser, e não a morte.

Eis que Artaud, a partir desta visão, deu-me inspiração para pensar o suicídio em termos diferentes do catastrofismo. É preciso considerá-lo para além de suas conseqüências práticas mais evidentes e suas motivações psicológicas. Precisamos validá-lo em sua dimensão estética.



PelamordeDeus, não quero aqui dizer que sou favorável a uma explosão de suicídios para lotar o panteão de artistas que queiram expressar suas tragédias através de atos tresloucados, mas quero demonstrar como estes dão uma conclusão máxima a uma história que clama por alguma forma de divinização.

Isto posto, partamos para alguns exemplos:

Um dos políticos mais conhecidos e polêmicos no Brasil foi Getúlio Vargas. Ele sempre se equilibrou habilmente entre aqueles que o amavam e os que o odiavam. Mas o seu momento de apoteose foi seu suicídio, sem dúvida alguma. Ele se encontrava acossado por todos os lados, havia perdido o apoio tanto das elites quanto da população em geral, e sofreria inevitavelmente um humilhante golpe. Seu ato devolveu à defensiva os seus inimigos, comoveu o país que não lhe oferecia respaldo de outra forma. Foi uma cartada de mestre, mesmo com um resultado fatal. Qual a sua lógica se não considerarmos sua propriedade de restituir a grandiosidade da sua personalidade?

Outro exemplo é o ritual do seppuku (mais conhecido como harakiri), que consiste no auto-sacrifício cometido pelos guerreiros japoneses. No código ético nipônico, a honra de um samurai está acima de sua própria vida. Quando esta honra é maculada, a vida não tem mais razão de ser. A única maneira de restituí-la é oferecer a morte como reparação. A entrega máxima tem o condão de apagar os erros, restabelecer a reputação (sua e de seus familiares) e transformar a vergonha em nova honra.

Pois então. Em ambos os casos, temos a subversão da ordem natural. A espécie humana, assim como a quase totalidade das demais (uma exceção é o caso dos lemingues, que fazem uma corrida suicida em massa quando há superpopulação – talvez nossos amáveis e dramáticos roedores sejam possuidores de uma consciência coletiva mais apurada que a nossa...) possui em seu registro atávico o instinto de auto-preservação (já mencionado, por exemplo, neste post). Este instinto faz com que tentemos nos manter vivos em todas as circunstâncias possíveis e imagináveis, favoráveis ou não, porque a vida é fluir constante. É como se a “esperança” estivesse embutida em nossa genética.

Ocorre que o ato suicida tem a força de redimensionar este elemento, que é o máximo de caracterização como ser vivo que temos. O suicídio tem o condão de traspassar os limites do racional e do instintivo ao mesmo tempo; vai além de qualquer noção de belo ou não-belo para atingir o sublime, o inatingível, que, numa contradição extrema, traz a morte violenta e repentina como desfecho válido para a vida, estranhamente justificando-a. Immanuel Kant diferencia o belo do sublime pelo tanto de espantoso e admirável que o segundo tem a mais em relação ao primeiro. A tragédia chega a seu ápice pelo improvável. Sublime é saltar a montanha mais alta, transpor o obstáculo mais difícil, carregar o peso mais pesado. Jogar no chão a parede mais sólida é o que tenta fazer o suicida em seu desespero; fundir sua covardia à sua coragem. É levar a cabo a tragédia com um desfecho mais trágico ainda.

É de se salientar ainda que o próprio método adotado para consumar o suicídio pode estar todo eivado de representações simbólicas. O rito do seppuku expõe as entranhas do guerreiro para que se mostre que no seu interior ainda há algo de pureza que torna sua existência digna. O tiro na cabeça demonstra a vontade de que a memória não se perpetue, que o ser torne-se não-ser. O salto do prédio representa a intenção de se desprender do mundo. O envenenamento coloca a substância utilizada como pharmacon, como poção mágica que cura pela morte. Enfim, o que quero dizer é que o suicídio é mais do que colocar termo à própria vida; no plano simbólico, ele é a busca por um desfecho grandioso para uma vida que já não tem razão de ser.

Agora, a parte disso tudo, e considerando o ato em si em seus efeitos práticos, é preciso que a questão seja levada muito a sério, porque ela é tão subversora de uma ordem natural que qualquer ameaça, mesmo que não seja consumada, deve ser considerada como um grito de alerta de uma pessoa desesperada. Temos a tendência de achar que a pessoa que quer acabar com a própria vida não manda avisos. Não é verdade. A ameaça é um clamor, é preciso ouvir o que a pessoa tem a dizer, compreender o que a incomoda tanto, oferecer um ombro amigo para que a pessoa possa chorar, desabafar, abrir-se. Às vezes nos ocupamos tanto de uma caridade material que nos esquecemos que as desgraças e perturbações podem ser meramente de ordem psicológica, e essas são justamente as mais difíceis de corrigir. O thanatos freudiano (pulsão de morte, devidamente esmiuçada aqui) busca restabelecer uma estabilidade emocional que já não existe mais, e o torvelinho psíquico em que um indivíduo se vê lançado pode estar a tal ponto exacerbado que qualquer composição lógica se desfaz no ar.

A partir de todo o exposto, podemos compreender a máxima camuseana, que diz que o suicídio é a única questão filosófica realmente relevante, o que podemos traduzir como: O que faz com que toda ordem natural e mesmo cultural seja jogada no lixo, e o ato mais contrário à própria vida possa ser encontrado como solução.

Recomendações de leitura:

Durkheim é um dos pais da sociologia. Suas teorias relacionadas aos fatos sociais permitiram a ele fazer um estudo totalmente isento de emoções com relação a esta temática tão complexa. O livro é absolutamente desapaixonado, como convém a um bom trabalho científico.

DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martin Claret, 2008.

Bom, quanto a Artaud... É aquele doido varrido de quem já falei anteriormente. Várias de suas observações podem ser lidas no seguinte livro:

ARTAUD, Antonin. Escritos. Col. Rebeldes e Malditos. Porto Alegre: LP&M, 1983