Quem acompanha este Blog, sabe que não costumo fazer divulgação. Mas neste caso decidi abrir uma excepção para divulgar a primeira imagem/teaser de Balada para Sophie, o próximo livro de Filipe Melo e Juan Cavia. Um livro que tem tudo para ser o melhor livro de autores portugueses (não é erro, pois apesar de ser Argentino, o Juan Cavia adquiriu recentemente nacionalidade portuguesa) publicado em 2020.
O mais ambicioso trabalho da dupla, com quase 300 páginas (a última versão que li tinha 277 e o Filipe é conhecido por ir acrescentando coisas à história) deverá estar pronto em meados do próximo ano e a versão que li, com a planificação e diálogos terminados e bem mais de 100 páginas completamente desenhadas e uma meia centena já com as cores planas, não me deixa dúvidas de que estamos perante o melhor trabalho de Filipe Melo e Juan Cavia, o que tendo em conta o alto nível de Os Vampiros e de Comer/Beber, não é coisa pouca!
Centrada na rivalidade entre dois pianistas, Balada para Sophie é uma história simultaneamente épica e intimista. Uma grande história sobre música, escolhas e o mais que os leitores verão em 2020.
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domingo, 22 de setembro de 2019
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
Comer/Beber, de Filipe Melo e Juan Cavia
Depois da pièce de resistance que foi Os Vampiros, Filipe Melo e Juan Cavia regressam à BD com dois belos aperitivos, Majowski e Sleepwalk, reunidos no livro Comer/Beber, lançado em meados deste mês na Comic Con Portugal, onde a dupla de criadores tem sido uma presença regular.
Na origem deste projecto, diferente até no formato de histórias (mais ou menos) curtas, por oposição aos relatos de maior fôlego, como a trilogia de Dog Mendonça e, sobretudo, Os Vampiros, está um convite de Carlos Vaz Marques para que Melo e Cavia produzissem uma BD para o nº 9 da revista Granta, que tinha precisamente como tema Comer e Beber. Embora a pretensão dos autores fosse fazer, não uma, mas duas histórias para a Granta, os condicionamentos dos prazos de produção da própria revista limitaram (temporariamente) a ambição dos autores e apenas Sleepwalk, a primeira das duas histórias previstas, foi publicada na revista, completando-se o projecto meses depois, com a publicação do mini-livro que motiva este texto e que reúne, embora numa ordem diferente à que o próprio título faria esperar, Majowski e Sleepwalk, as duas histórias profundamente humanas dedicadas à comida e à bebida, ou mais exactamente a uma tarte de maçã e a uma garrafa de champanhe.
Passada na Alemanha nazi, durante a Segunda Guerra Mundial, Majowski parte de uma história real, contada por Beatrice Schilling, a avó de arquitecta e cantora (e amiga do Filipe) Nádia Schilling, sobre uma garrafa de champanhe que o seu avô, proprietário de um dos melhores restaurantes de Berlim, guardou para beber numa noite especial. Já Sleepwalk é uma história de ficção, que podia muito bem ser um filme de série B americano, ou a letra de uma canção de Bruce Springsteen, sobre um homem que faz uma longa viagem pelos Estados Unidos para levar uma tarte de maçã a um amigo.
Para mim, a mais conseguida das duas histórias, é Sleepwalk, cujo ritmo lento e contemplativo e a utilização de uma música como título, tem paralelismo com Os Vampiros. Muito bem contada e magnificamente desenhada, Sleepwalk sugere mais do que mostra, obrigando o leitor a pensar e tirar as suas próprias conclusões, um pouco à semelhança do que também acontecia em Os Vampiros. Além disso, toda a estética da história remete-nos para uma América cinematográfica, que vai de David Lynch a Wim Wenders, que nos leva a pensar que, mais até do que alguns projectos anteriores de Melo e Cavia, pensados originalmente para o cinema, também esta BD daria uma belíssima curta-metragem. Algo que, tendo em conta as ligações da dupla ao cinema, quem sabe se não se virá um dia a concretizar…
Já Majowski, usando uma metáfora apropriada ao tema, é uma bebida que precisava de mais tempo de maturação e também de mais páginas para ser contada, de modo a que a história pudesse respirar melhor. Se os horrores sofridos pelos judeus em território alemão são bem conhecidos, em Majowski surgem demasiado em pano de fundo, o que, provavelmente, não teria acontecido se os autores tivessem tido mais tempo e mais espaço para a história. Do mesmo modo, o momento surreal (mas que aconteceu na realidade) do elefante que deambulava por entre os destroços da Berlim bombardeada, teria outro impacto se a sua presença não se limitasse apenas a dois quadrados. Também em termos de planificação há diferenças entre as duas histórias. Se Sleepwalk tem um fôlego cinematográfico, já Majowski está mais próximo de uma série televisiva, com panorâmicas pontuais que permitem ao leitor identificar os locais, passando-se o resto da história em estúdio, em interiores filmados em planos médios e grandes planos.
Finalmente, a opção por um formato inferior ao A5, e até ao da revista Granta original, não deixa que o desenho respire devidamente, algo mais evidente até em Majowski, pelo que me parece que o livro só teria a ganhar em ser impresso num formato superior - antes de o receber em papel, já tinha tido oportunidade de ler o livro num Tablet com um ecrã de doze polegadas e a arte não só aguentou perfeitamente essa ampliação, como até beneficiou dela) - até porque o facto de se tratar de uma edição com tiragem limitada, encareceu bastante o produto final, o que, acredito que mesmo assim não irá afastar os muitos leitores fiéis da dupla.
Em conclusão, e voltando às metáforas culinárias, Comer/Beber é como aqueles pratos de nouvelle cuisine: requintado, extremamente saboroso e bem apresentado, mas a exiguidade da dose (neste caso, do tamanho do livro) faz com que o preço que o cliente vai pagar por ele pareça demasiado elevado…
Comer/Beber, de Filipe Melo e Juan Cavia, Tinta da China, 72 págs, 15€
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quinta-feira, 26 de maio de 2016
Os Vampiros - Texto de antevisão para o blog galego Metrópoles Delirantes
Este ano, a propósito do Dia das Letras Galegas, o blog galego Metrópoles Delirantes convidou uma série de críticos de BD a escolherem um livro para destacar no Blog. Este ano, para além dos críticos e bloguers galegos, o convite foi estendido a dois críticos portugueses.
O Pedro Cleto, que escreveu sobre O Poema Morre, de David Soares e Sandra Oliveira, e eu, que escrevi sobre Os Vampiros, o novo livro de Filipe Melo e Juan Cavia, que vai ser lançado no sábado no Festival de BD de Beja.
Com um limite bastante rígido de 200 palavras, o texto que podem ler a seguir é apenas uma primeira abordagem , sem spoilers , a um livro cujo processo acompanhei de perto e que merece um destaque bem maior, pelo que voltarei a ele depois do Festival de Beja.
Aqui fica o texto escrito para as Metrópoles Delirantes:
Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia
Conhecidos graças à série Dog Mendonça e Pizzaboy, o maior sucesso da BD portuguesa dos últimos cinco anos, a dupla Filipe Melo e Juan Cavia regressa à Banda Desenhada com Os Vampiros, uma novela gráfica de grande fôlego que será lançada no final de Maio no Festival de BD de Beja.
Centrada no destino de um grupo de comandos portugueses destacados na Guiné, enviado para uma missão secreta no Senegal, que se revelará uma viagem ao coração das trevas, Os Vampiros é claramente um passo em frente no percurso dos dois autores. Apesar do título poder evocar o universo sobrenatural das aventuras de Dog Mendonça, essa evocação é enganadora.
Este livro é algo completamente diferente, onde o terror é agora sobretudo psicológico e tremendamente humano, sem o humor presente em Dog Mendonça. Se quisermos estabelecer um paralelo com o cinema, área em Filipe Melo também dá cartas (tal como Dog Mendonça, Os Vampiros também começou por ser um guião para cinema) podemos dizer que, se Dog Mendonça estava mais próximo de um Indiana Jones, ou das Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim, Os Vampiros é o Platoon, ou talvez até mais, o Apocalipse Now de Melo e Cavia.
Uma obra tremendamente ambiciosa e perturbadora, sobre o horror da guerra e os demónios que existem dentro de cada homem, muitíssimo bem contada e maravilhosamente desenhada por um Juan Cavia que se revela igualmente um colorista de excepção. O ano ainda agora vai a meio, mas não tenho grandes dúvidas que Os Vampiros é a melhor BD portuguesa de 2016.
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
A última aventura de Dog Mendonça?
Lançado durante o último Festival da Amadora, com o mais que previsível sucesso comercial a ser confirmado pela tournée nacional que se seguiu e que passou também pela Livraria Dr. Kartoon, “Requiem”, o 3º volume das aventuras de Dog Mendonça, está desde o final do ano nas livrarias de todo o país, isto se a primeira edição não tiver esgotado entretanto…
Indiscutivelmente a mais popular criação da BD portuguesa das últimas décadas, o carismático detective/lobisomem criado por Filipe Melo, tem desta vez de defrontar um inimigo oriundo do seu passado, ao mesmo tempo que se confronta com um adversário muito mais concreto e difícil de vencer, o sistema fiscal português.Com efeito, embora a temática fantástica seja dominante, o nosso herói não escapa à crise bem real que nos oprime. Muito menos ao longo braço do Ministério das Finanças, vendo a sua mansão confiscada por fuga ao fisco e sendo despejado do seu escritório por não ter pago o IMI…
É pois um Dog Mendonça transformado em sem-abrigo, que vai ter de apelar à caridade do seu amigo Eurico, o Pizza Boy, que vai ter que o alojar a ele e à Pazuul, o que permite uma divertida homenagem ao filme “The Big Lebowsky”, dos irmãos Coen. No que já é uma imagem de marca da série, as piscadelas de olho ao cinema e à Banda Desenhada não se ficam por aí, havendo referências, mais ou menos óbvias, ao “Kill Bill” de Tarantino, ao “Marte Ataca” de Tim Burton (numa sequência em que o Dr. Aranha faz ao Primeiro Ministro, Passos Coelho o mesmo que muitos portugueses lhe gostariam de fazer…) ao filme “Iron Sky” e ao “Sin City” de Frank Miller, embora a sequência inicial do filme dentro do livro, que nos mostra o primeiro encontro de Dog Mendonça com Pazuul, se cole, não ao traço de Frank Miller, mas ao do mestre argentino Domingo “Cacho” Mandrafina, colaborador habitual do saudoso Carlos Trillo. O que tem a sua lógica, tendo em conta que Juan Cavia e Santiago Villa, os responsáveis pela parte gráfica de Dog Mendonça, são argentinos.
Com um tom mais sombrio do que os volumes anteriores, em que são patentes os sinais de um ciclo que se fecha, este “Requiem” concilia essa dimensão mais melancólica, com momentos de humor e cenas de acção espectaculares. Isto para além de continuar a explorar muito bem os cenários de Lisboa e arredores, com o poço iniciático da Quinta da Regaleira, em Sintra, a ver finalmente exploradas todas as suas extraordinárias potencialidades cenográficas.
Em termos gráficos, são cada vez mais evidentes os progressos, tanto no traço de Juan Cavia, como nas cores de Santiago Villa, que assinam algumas páginas verdadeiramente espectaculares, desta vez acompanhada por uma impressão finalmente à altura da altíssima qualidade de produção deste trabalho que, não sendo para mim a melhor história de Dog Mendonça (continuo a preferir os episódios publicados na revista Dark Horse Presents) não deixa de ser uma história muito bem construída e um final perfeitamente adequado para a aventura iniciada no primeiro álbum.
É importante referir ainda a muito bem orquestrada campanha de divulgação, aproveitando o dinheiro angariado numa muito frutuosa campanha de crownd funding, que provou, se dúvidas ainda houvesse, a popularidade do projecto. Uma campanha que incluiu um vídeo de um falso noticiário no You Tube que rapidamente se tornou viral e provocou alguma controvérsia (desajustada) e que ajudou a dar ainda maior visibilidade à mais popular série da BD nacional que, ao que tudo indica, agora chega ao fim.
Embora, como todos sabemos, na BD e do cinema, o regresso dos heróis, mesmo dos que estão mortos, é sempre uma possibilidade em aberto, Filipe Melo e os seus amigos argentinos consideram que a história de Dog Mendonça já está contada. Esperemos que descubram rapidamente outras histórias para contar, com ou sem Dog Mendonça, pois como já tive ocasião de escrever neste mesmo espaço: “pelo entusiasmo contagiante que trouxe a este projecto e por ter provado que é possível fazer BD comercial de qualidade no nosso país, Filipe Melo foi, muito provavelmente, das melhores coisas que aconteceram à BD portuguesa nos últimos anos!”.
(As extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem”, de Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa,, Tinta da China, 112 pags, 16,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 11/01/2014
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domingo, 6 de novembro de 2011
O regresso de Dog Mendonça
Lançado com estrondoso sucesso durante o Festival da Amadora, o 2º volume das aventuras de Dog Mendonça, prepara-se para conhecer o mesmo sucesso nas livrarias de todo o país. Orgulhoso representante de uma espécie rara na BD portuguesa, a dos heróis, o carismático detective/lobisomem criado por Filipe Melo, tem desta vez como missão evitar o fim do mundo, num percurso que o leva (e aos seus companheiros habituais) de Lisboa a Fátima, onde tem que enfrentar o anti-Cristo, com a ajuda de uma Bíblia infantil e de um demónio de seis mil anos, que finalmente mostra a sua verdadeira face.
Se a escala é muito mais épica do que no livro anterior, com pragas bíblicas, um monstro de sete cabeças na Rotunda do Marquês de Pombal, zombies e os quatro cavaleiros do apocalipse, a deixarem Portugal (ainda mais) de pantanas, o humor mantém-se em alta, ao serviço de uma história divertidíssima e que se lê de um fôlego. Se na primeira aventura, o destaque maior entre os secundários, ia para a gárgula (cujo verdadeiro nome é finalmente revelado) desta vez é Pazuzul a roubar o protagonismo, mesmo que ainda fique muito por contar sobre este demónio que se esconde no corpo de uma menina. Numa série que joga abertamente com o conhecimento do leitor da cultura pop, desta vez as referências ao cinema já não são tão dominantes, abrindo também espaço a homenagens ao mangá (o anti-Cristo e a sequência final em Fátima evocam o “Akira” de Katshuiro Otomo) e a piscadelas de olho a outros trabalhos de Filipe Melo, de I’ll See You in My Dreams” a “Um Mundo Catita”.
Em termos gráficos, são evidentes os progressos, tanto no traço de Juan Cavia, como nas cores de Santiago Villa, que assinam algumas páginas verdadeiramente espectacularese, a que a impressão do livro nem sempre faz justiça, com algumas páginas demasiado escuras e até, aparentemente desfocadas, o que é uma pena num trabalho com uma qualidade de produção altíssima.
Desde o Jim Del Mónaco de Louro e Simões, nos anos 80, que a BD portuguesa se tem caracterizado por ser uma BD de autor, o que tem dado origem a alguns trabalhos de grande qualidade, mas de impacto comercial bastante limitado. Por isso, são trabalhos como a muito bem conseguida homenagem de Filipe Melo e “sus muchachos” (os argentinos Juan Cavia e Santiago Villa) à BD e ao cinema de terror, que poderão levar o grande público a (re)descobrir a BD nacional. E este sucesso comercial evidente (o primeiro volume já esgotou 3 edições) não parece que vá ficar limitado a Portugal. Além de uma série de 4 histórias inéditas, que desvendam a origem de Dog Mendonça, feitas para a revista americana “Dark Horse Presents”, onde o trabalho de Filipe Melo e Juan Cavia surge ao lado de autores como Mike Mignola, Richard Corben, Neal Adams, ou Dave Gibbons, a preparar o caminho para a edição dos álbuns nos EUA, a Devir já adquiriu os direitos do 1º álbum para o mercado brasileiro.
Este sucesso comercial só é possível porque as pessoas sabem que a série existe, o que nem sempre acontece com muitas outras BDs de igual, ou até superior qualidade, mas que passam despercebidas nas livrarias. E isso deve-se a uma bem orquestrada campanha de divulgação, que engloba uma tournée pelo pais, que passa pela Livraria Dr Kartoon, no dia 9 de Novembro pelas 18h30m, mupis, um novo site e um trailler da BD em que Nicolau Breyner dá a voz a Dog Mendonça, tudo isto suportado pelo próprio Filipe Melo que, como a editora não tinha orçamento para este tipo de divulgação, em vez de se lamentar, decidiu ele próprio deitar mãos à obra, com o mesmo dinamismo e simpatia com que conseguiu convencer George Romero a assinar o prefácio do 2º volume.
Pelo entusiasmo contagiante que trouxe a este projecto de Banda Desenhada, para o qual conseguiu arrastar pessoas de diversas áreas e por ter provado que é possível fazer BD comercial de qualidade no nosso país, com sucesso, Filipe Melo foi, muito provavelmente, das melhores coisas que aconteceram à BD portuguesa nos últimos anos!
(“As extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II: Apocalipse”, de Filipe Melo e Juan Cavia, Tinta da China, 112 pags, 16,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 5/11/2011
Se a escala é muito mais épica do que no livro anterior, com pragas bíblicas, um monstro de sete cabeças na Rotunda do Marquês de Pombal, zombies e os quatro cavaleiros do apocalipse, a deixarem Portugal (ainda mais) de pantanas, o humor mantém-se em alta, ao serviço de uma história divertidíssima e que se lê de um fôlego. Se na primeira aventura, o destaque maior entre os secundários, ia para a gárgula (cujo verdadeiro nome é finalmente revelado) desta vez é Pazuzul a roubar o protagonismo, mesmo que ainda fique muito por contar sobre este demónio que se esconde no corpo de uma menina. Numa série que joga abertamente com o conhecimento do leitor da cultura pop, desta vez as referências ao cinema já não são tão dominantes, abrindo também espaço a homenagens ao mangá (o anti-Cristo e a sequência final em Fátima evocam o “Akira” de Katshuiro Otomo) e a piscadelas de olho a outros trabalhos de Filipe Melo, de I’ll See You in My Dreams” a “Um Mundo Catita”.
Em termos gráficos, são evidentes os progressos, tanto no traço de Juan Cavia, como nas cores de Santiago Villa, que assinam algumas páginas verdadeiramente espectacularese, a que a impressão do livro nem sempre faz justiça, com algumas páginas demasiado escuras e até, aparentemente desfocadas, o que é uma pena num trabalho com uma qualidade de produção altíssima.
Desde o Jim Del Mónaco de Louro e Simões, nos anos 80, que a BD portuguesa se tem caracterizado por ser uma BD de autor, o que tem dado origem a alguns trabalhos de grande qualidade, mas de impacto comercial bastante limitado. Por isso, são trabalhos como a muito bem conseguida homenagem de Filipe Melo e “sus muchachos” (os argentinos Juan Cavia e Santiago Villa) à BD e ao cinema de terror, que poderão levar o grande público a (re)descobrir a BD nacional. E este sucesso comercial evidente (o primeiro volume já esgotou 3 edições) não parece que vá ficar limitado a Portugal. Além de uma série de 4 histórias inéditas, que desvendam a origem de Dog Mendonça, feitas para a revista americana “Dark Horse Presents”, onde o trabalho de Filipe Melo e Juan Cavia surge ao lado de autores como Mike Mignola, Richard Corben, Neal Adams, ou Dave Gibbons, a preparar o caminho para a edição dos álbuns nos EUA, a Devir já adquiriu os direitos do 1º álbum para o mercado brasileiro.
Este sucesso comercial só é possível porque as pessoas sabem que a série existe, o que nem sempre acontece com muitas outras BDs de igual, ou até superior qualidade, mas que passam despercebidas nas livrarias. E isso deve-se a uma bem orquestrada campanha de divulgação, que engloba uma tournée pelo pais, que passa pela Livraria Dr Kartoon, no dia 9 de Novembro pelas 18h30m, mupis, um novo site e um trailler da BD em que Nicolau Breyner dá a voz a Dog Mendonça, tudo isto suportado pelo próprio Filipe Melo que, como a editora não tinha orçamento para este tipo de divulgação, em vez de se lamentar, decidiu ele próprio deitar mãos à obra, com o mesmo dinamismo e simpatia com que conseguiu convencer George Romero a assinar o prefácio do 2º volume.
Pelo entusiasmo contagiante que trouxe a este projecto de Banda Desenhada, para o qual conseguiu arrastar pessoas de diversas áreas e por ter provado que é possível fazer BD comercial de qualidade no nosso país, com sucesso, Filipe Melo foi, muito provavelmente, das melhores coisas que aconteceram à BD portuguesa nos últimos anos!
(“As extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II: Apocalipse”, de Filipe Melo e Juan Cavia, Tinta da China, 112 pags, 16,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 5/11/2011
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domingo, 17 de abril de 2011
À (re)descoberta do Quim e Manecas
Ilustrador, caricaturista e pintor de génio, Stuart Carvalhais é também um nome maior da arte portuguesa da 1ª metade do século XX no que se refere à Banda Desenhada, muito por força da criação da dupla Quim e Manecas, os dois mais populares heróis da história da BD nacional.
É a fase inicial (e a mais interessante) dessa BD mítica, publicada no "Século Cómico", entre 1915 e 1918, que agora se recupera, numa excelente edição da Tinta da China, coordenada por João P. Boléo, tornada possível pelas comemorações do Centenário da Implantação da República, que se cumpriu em 2010.
Quase um século depois da sua criação inicial, as aventuras de Quim e Manecas continuam a surpreender pela sua modernidade e pelo carácter pioneiro do trabalho de Stuart, em termos europeus, utilizando os balões de forma regular, 10 anos antes de Alan Saint-Ogan fazer o mesmo na série “Zig e Puce”. E, se o começo da série mostra apenas dois rapazes traquinas, muito na linha de “Max and Moritz”, de Wilhelm Busch ou dos “Katzenjammer Kids”, de Rudolph Dirks, rapidamente as aventuras do Quim e o Manecas passam a ter uma relação directa com a actualidade do seu tempo, com os dois jovens heróis a terem uma participação activa na I Guerra Mundial, então em curso, ganha pelos aliados muito graças às delirantes invenções do Manecas.
Além disso, Stuart aproveita a série para satirizar artistas e correntes estéticas da época, de Almada Negreiros ao Futurismo, numa série de referências ao seu tempo que a introdução e o útil glossário de João P. Boléo ajuda a descodificar para os leitores do século XXI.
Edição incontornável, que permite ler pela primeira vez na totalidade a fase mais interessante desta pérola da BD nacional, a edição da Tinta da China, servida por um arranjo gráfico superlativo na linha do que Vera Tavares nos habituou, apenas peca pela deficiente reprodução de algumas páginas, que necessitavam de um trabalho de restauro maior do que o efectuado.
Não existindo um único original, a reprodução teve que ser feita a partir dos jornais existentes, dispersos por diversas bibliotecas e colecções, nem sempre bem impressos e muitas vezes encadernados, o que dificulta a digitalização. Além disso, os timings da edição, que tinha forçosamente que sair durante o centenário da República, não permitiram um trabalho mais extenso de restauro das imagens, pelo que, não sendo a edição ideal, esta é a edição possível, e ainda assim, uma bela edição. Edição mais do que necessária de uma obra indispensável, que graças a esta conjugação de esforços, pode finalmente ser descoberta, ou redescoberta, pelas novas gerações de leitores.
(“Quim e Manecas”, de Stuart Carvalhais (Organização, introdução e notas de João Paulo Paiva Boléo), Tinta da China Edições, 240 pags, 44 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 16/04/2011
É a fase inicial (e a mais interessante) dessa BD mítica, publicada no "Século Cómico", entre 1915 e 1918, que agora se recupera, numa excelente edição da Tinta da China, coordenada por João P. Boléo, tornada possível pelas comemorações do Centenário da Implantação da República, que se cumpriu em 2010.
Quase um século depois da sua criação inicial, as aventuras de Quim e Manecas continuam a surpreender pela sua modernidade e pelo carácter pioneiro do trabalho de Stuart, em termos europeus, utilizando os balões de forma regular, 10 anos antes de Alan Saint-Ogan fazer o mesmo na série “Zig e Puce”. E, se o começo da série mostra apenas dois rapazes traquinas, muito na linha de “Max and Moritz”, de Wilhelm Busch ou dos “Katzenjammer Kids”, de Rudolph Dirks, rapidamente as aventuras do Quim e o Manecas passam a ter uma relação directa com a actualidade do seu tempo, com os dois jovens heróis a terem uma participação activa na I Guerra Mundial, então em curso, ganha pelos aliados muito graças às delirantes invenções do Manecas.
Além disso, Stuart aproveita a série para satirizar artistas e correntes estéticas da época, de Almada Negreiros ao Futurismo, numa série de referências ao seu tempo que a introdução e o útil glossário de João P. Boléo ajuda a descodificar para os leitores do século XXI.
Edição incontornável, que permite ler pela primeira vez na totalidade a fase mais interessante desta pérola da BD nacional, a edição da Tinta da China, servida por um arranjo gráfico superlativo na linha do que Vera Tavares nos habituou, apenas peca pela deficiente reprodução de algumas páginas, que necessitavam de um trabalho de restauro maior do que o efectuado.
Não existindo um único original, a reprodução teve que ser feita a partir dos jornais existentes, dispersos por diversas bibliotecas e colecções, nem sempre bem impressos e muitas vezes encadernados, o que dificulta a digitalização. Além disso, os timings da edição, que tinha forçosamente que sair durante o centenário da República, não permitiram um trabalho mais extenso de restauro das imagens, pelo que, não sendo a edição ideal, esta é a edição possível, e ainda assim, uma bela edição. Edição mais do que necessária de uma obra indispensável, que graças a esta conjugação de esforços, pode finalmente ser descoberta, ou redescoberta, pelas novas gerações de leitores.
(“Quim e Manecas”, de Stuart Carvalhais (Organização, introdução e notas de João Paulo Paiva Boléo), Tinta da China Edições, 240 pags, 44 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 16/04/2011
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segunda-feira, 8 de março de 2010
As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy
Depois de dois livros escritos por José Carlos Fernandes, a editora Tinta da China volta a aventurar-se na publicação de Banda Desenhada com “As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”, uma surpreendente Banda Desenhada de Filipe Melo e Juan Cavia, que presta tributo ao cinema e à BD de temática fantástica e de terror, mas centrando a acção em Lisboa.
Projecto pensado inicialmente para o cinema, área onde Filipe Melo deu nas vistas, como argumentista e produtor de “I’ll See You in My Dreams”, o primeiro filme de zombies português, “Dog Mendonça…”, que iria ter Nicolau Breyner como protagonista, acabou por nunca passar da fase de produção. Perdeu o cinema nacional, mas ganhou a BD, pois o resultado é francamente conseguido, com qualidade suficiente para ombrear com o melhor que se faz no género, em França, Itália e Estados Unidos, como bem salienta John Landis no prefácio.
Tendo como protagonistas Eurico, um entregador de pizzas, Dog Mendonça, um investigador do oculto, ex-lobisomem, alcoólico e adepto do Benfica, que tem como assistente Pazuul, um demónio centenário num corpo de uma miúda adolescente e uma cabeça de gárgula, que fala pelos cotovelos (que já não tem…), a história de “As Extraordinárias Aventuras…” gira em torno do misterioso desaparecimento em Lisboa de centenas de crianças. Mistério que vai levar Eurico, o Pizzaboy, que entra em contacto com Dog Mendonça depois de uma gárgula lhe ter roubado a moto, a descobrir uma Lisboa secreta e subterrânea, povoada por monstros, demónios e outras criaturas mitológicas, refugiadas em Lisboa desde a 2ª Guerra Mundial e que agora se vêem ameaçadas por um mal bastante mais terreno.
Divertida homenagem ao cinema de terror e a Bandas Desenhadas como “Hellboy”, The Goon”, e “Dylan Dog” (claramente o modelo para a personagem de Dog Mendonça), a novela gráfica de Filipe Melo e Juan Cavia concilia a acção e o humor, dado não só pela personagem da cabeça de gárgula (uma ideia genial, desenvolvida com muita graça), mas também pelas inúmeras piscadelas de olho e homenagens ao cinema de Hollywood (do “Terminator” ao “Apocalipse Now”, passando pela série “Star Wars”, não faltam as referências).
O desenho de Juan Cavia, cujo traço caricatural evoca ligeiramente Humberto Ramos, funciona perfeitamente para esta história, em que a acção, o fantástico e o humor estão de braço dado. As expressões que desenha são divertidas, a planificação das páginas é espectacular e, além disso, trata com grande dinamismo as cenas de acção, não se poupando a pormenores (veja-se a dupla página em que as criaturas fantásticas, lideradas pelo Dog Mendonça lobisomem atacam os nazis). Quanto ao trabalho de cor de Santiago Villa, está à altura do resto, embora algumas páginas, especialmente na parte final, nos esgotos de Lisboa, estejam demasiado escuras.
Em relação à capa, sem qualquer imagem, algo pouco habitual num livro de BD, e com um lettering claramente inspirado no filme “Regresso ao Futuro”, poderá funcionar precisamente por ser diferente das outras, mas pessoalmente, preferia uma capa com imagens, até porque ao longo do livro não faltam imagens espectaculares que funcionassem bem como ilustração de capa.
Divertimento despretensioso, assumidamente série B, mas feito com grande profissionalismo, bem patente na quantidade de gente que aparece referida na ficha técnica, este é um livro que dá tanto gozo a ler, como o que terá dado a fazer aos seus autores. Cá ficamos impacientemente à espera da próxima aventura de Dog Mendonça e Pizzaboy, em que Filipe Melo já está a trabalhar!
(“As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”, de Filipe Melo e Juan Cavia, Tinta da China, 120 pags, 16,90 €
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 06/02/2010
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