Fotografia, Carlos Vieira
…Veio até mim sem saber como…aproximou-se…observou, sorriu, gracejou…acariciou-me o rosto, colocou as suas mãos sobre os meus olhos e fechou-os, tirou a capa que lhe cobria a nudez e colocou-a sobre os meus ombros, quente, segura, cravou as unhas na minha pele, pescoço, derramou uma gota de sangue…bebeu-a, mordiscou o seu pulso, beijou-me os lábios e engoli o seu…sorriu uma vez mais e sussurrou…”Abre meu querido…não tenhas receios…não os escondas, abre a tua alma escondida e vê o Mundo por breves momentos não pelos teus, mas sim pelos meus olhos…”
…
“…Confusão, desordem, sem regras, sem saber como olhar, reagir, pensar…fiquei. Senti algo diferente…senti-te a ti, talvez a mim, de uma forma estranha, algures… algo utópico e imortal, belo e triste, sem regras, com limites. Olhei para o teu rosto, para o meu, vi a pureza dos teus sentimentos… o espelho de uma alma, envolta em reflexos de pressentimentos confusos agrupados e arrumados de forma diferente a que me habituei…o erotismo e o erudito do tempo, as memorias, as tristezas em volta de olhares imperfeitos mas sabedores de cruéis e simples realidades, que no confronto da sua fidelidade se confortam na dor.
…A beleza …poderá até nem sequer existir…são apenas ilusões de sentimentos espelhados no nosso olhar… que o nosso eu protege de algo… de um modo imperfeito que nos sabe e assemelha-se inconscientemente à perfeição. O saber, a realidade, torna-nos frios, ou conhecedores de princípios… fruto daquilo que somos genuinamente e do que nos tornam sem palavras, reacção… nervosos, frágeis…e o silêncio? …esse… são meras sentenças de Amor…no qual saboreamos a sua altivez, plenitude e insignificância…e quando não o temos ou podemos perder…Aí sim! … De braço dado com a dor…São apenas palavras de silêncio o nosso Amor…
…É o bater de um coração… o nosso… desesperado por uma Paixão cúmplice que de sucesso tenha muito e que de felicidade se inunde…É saber sentir o que sabemos que conseguimos sentir, ser maior e mais alto do que outros, conhecedores de um sentimento, aproveitar o que ele nos dá na sua essência, beleza, pureza…e ocultar o seu sofrimento, tristeza. É saber ser diferente, utilizando a nossa mágoa, em beneficio de nós…saber sofrer e fazer parecer dor…e se o soubermos…logo saberemos beijar e tocar…se soubermos morrer, saberemos matar, amar…seremos assim poetas de inúmeras palavras que da verdade apoderamo-nos da mentira e conhecedores da vida podemos como ninguém beijar, tocar e arrepiar…ou…morder, seduzir e ferir…
…Conseguimos tocar a mão do Diabo sem ter que a agarrar, beijar os lábios de Deus sem ter que os sentir…somos e podemos ser o melhor da nossa essência sabendo as limitações e qualidades do nosso ser, olhar como quem ama, sentir como quem beija, amar como queremos ser amados…ter a diferença de um sucesso banal… de se ter o que se quer, pela ousadia de apossar a felicidade… e querer o que se tem…”
…
…Foi… saiu de mim como quem de poeira lava o rosto com agua doce e limpa, foi…olhou para mim no fragmento de uma imagem bela marcada pelo tempo, muros de gáudio, dores, marcas de vida no espelho que a invade e se reflecte em mim, inclina-se para a inocência que ainda preserva…e sorriu…”Abre…doce amigo, os teus olhos e vive como podes viver, como consegues ser…forte e verdadeiro, alegre e melancólico, romântico e louco, vive como desejas, num mundo que podes alcançar sem ter que o compreender…vem ser o Sol que ilumina e a Lua que se esconde…abre…os teus, os meus já estão…e gosto de os sentir bem abertos…e tenta em ti próprio alcançar o que desejas…que talvez seja o que todos nós almejamos…e só quem pensa como nós consegue…
…e o que será?…
…eu sei, eu vi… e não digo…
Segredo…”