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quarta-feira, novembro 23, 2011

O Amor em Visita

(...)

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

(...)


Herberto Helder

segunda-feira, novembro 21, 2011

De um dever

Imagem daqui

É o actual dono da minha livraria predilecta, onde me perco de cada vez que vou a casa dos meus pais, faz hoje 80 anos mas conta com 165 anos de prática de livraria - 50 do avô, 50 do pai e 65 seus.

Pelo seu justo reconhecimento, está a aberta uma subscrição aqui até às 24.00 de hoje.

Participem!

terça-feira, outubro 11, 2011

Funchal

Tomas Tranströmer (1931 - )
Imagem daqui

O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca,
construída por náufragos.

Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim as
rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num
cubículo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga
receita da Atlântida, pequenas explosões de alho.

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o
oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos
as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansaço.
Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, não
envelhecemos. Mas já suportámos tantas coisas juntos,
lembramo-nos disso, horas em que também de pouco ou nada
servíamos ( por exemplo, quando esperávamos na bicha para
doar o sangue saudável – ele tinha prescrito uma transfusão).
Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se não nos
tivéssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado,
esquecemos – mas eles não nos esqueceram!

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um
mosaico desordenado.

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o
mosaico nasce.

Ele espera por nós. Do cimo da parede, ele ilumina o quarto de
hotel, um design, violento e doce, talvez um rosto, não nos é
possível compreender tudo, mesmo quando tiramos as roupas.

Ao entardecer, saímos. A poderosa pata, azul escura, da meia
ilha jaz, expelida sobre o mar. Embrenhamo-nos na multidão,
somos empurrados amigavelmente, suaves controlos, todos
falam, fervorosos, na língua estranha. “ um homem não é uma
ilha.“ Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de
nós mesmos. Por meio daquilo que existe em nós e que os outros
não conseguem ver. Aquela coisa que só se consegue encontrar
a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula
contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante que
propaga o silêncio.

Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. Um
livro que só no escuro se consegue ler.

Tomas Tranströmer
(Trad. Luís Costa a partir de Hans Grössel)

sábado, outubro 01, 2011

quarta-feira, julho 06, 2011

sábado, janeiro 15, 2011

Perto do coração: Tellus et Mare


Excerto do terceiro andamento da obra, Cantiga dos Borracheiros

Tellus et Mare - 4 Reflexões Instrumentais sobre as Tradições Musicais Madeirenses é uma composição para clarinete, violino, trompa e piano da autoria de Nuno Jacinto que estreou ontem num concerto integrado no '35 Minutos com...', um ciclo de concertos pedagógicos promovido pela instituição de ensino onde lecciona e que têm por tema 'A Influência da Música Popular na Musica Erudita'. Composta por quatro andamentos: Solidão/ Saudade; Charamba dos Velhos/ Canção da Erva; Cantiga dos Borracheiros e Mourisca (Santa Cruz e Campanário), a obra claramente se baseia em melodias populares madeirenses no intuito de tornar conhecida e acessível alguma etnografia e a música tradicional da ilha.

Mais sobre o compositor e a obra aqui.