Ossos longos, ossos chatos, ossos curtos, ossos irregulares. O osso é uma estrutura exclusiva dos animais vertebrados - a única que lhe sustenta o corpo e apoia os músculos para o movimento. É osso o que protege cada órgão vital do nosso corpo: o crânio protege o cérebro, as costelas, o coração. SUB-STANTE.
terça-feira, dezembro 05, 2006
A perfeição
O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
Clarice Lispector
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Catálogo de Saudades - 3
Porto.
Esta não é do Natal. É de um bem-estar. Do bem-estar que apenas esta cidade me dá.
(Claro que estar a ouvir o Não queiras saber de mim do Rui Veloso ajudou... um bocadinho... assim... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...)
Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou
assim
domingo, dezembro 03, 2006
Elenco de Manias – vindo da Amarga
Não gosto de chain-letters. Abomino o “Se não mandares isto imediatamente a um zilião de pessoas serás de hoje em diante e para sempre azarada, triste, doente e pobre!” No entanto, a esta corrente não resisto. Assim o determina a natureza da blogosfera, a qual, pelo mistério que um blogname sempre confere, pela distância – geográfica, etária, profissional, ideológica – entre bloguistas, e por outras coisas mais de que me não recordo agora, mas que todos sabem e sentem bem, aguça o voyeur que há em cada um de nós.
“Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do “recrutamento”. Ademais, cada participante deve reproduzir este “regulamento” no seu blogue.”
1. Mania joanina da Pontualidade.
A Pontualidade joanina não é um qualquer chegar a horas. A Pontualidade joanina caracteriza-se pela chegada ao evento sempre dez minutos antes da hora.
Claro que isso gera em mim sempre um stress, uma angústia e uma inquietação incomensuráveis, mas felizmente interiores, não-verbais. “Será que este não é o sítio?” “Será que me enganei no dia?” “Será que mudaram de sítio, ou de dia, e se esqueceram de me avisar?” Depois, à hora marcada, quando uma ou duas pessoas – portugueses extraordinários que chegam bem à horinha – se junta a mim na espera da maioria, atrasada, ensonada e portanto com cafézinho por beber, “Joana, não quer vir também?” o desassossego dá lugar à exasperação novamente interior: “Que falta de consideração! Marca-se às 9.30 para começar às 10.00, por isso é que estamos assim, país de lentos, sonolentos e preguiçosos!... Argh! Note-se ainda que o mesmo acontece quando o evento é um encontro de índole pessoal. “Será que era este o sítio e a hora?” “Será que se esqueceu de mim?” Pior, como sou sempre pontualíssima, nunca deixando ninguém à espera: “Será que isto quer dizer alguma coisa que me está a escapar de momento?” “Ora vejamos…” Escusado será dizer que, quando chega realmente – na generalidade com poucos minutos de atraso da hora efectivamente marcada – já está o caldo entornado!
2. Mania joanina da Segurança.
Pauta-se pela aversão à mudança. Em todos os campos. (Só sosseguei, quando li que o Kant, do mesmo signo que eu, padecia do mesmo: dobrava a esquina todos os dias à mesma hora – as pessoas acertavam o relógio por ele!) Corte de cabelo, cores da roupa, estilo, disposição dos móveis, dos livros, dos lugares na mesa, do material na secretária, da roupa nos armários, escolhas de menu, programas, passeios… imutáveis, ou melhor, dificilmente variáveis. Qualquer alteração da ordem (por mim) estabelecida provoca um apocalipse na minha cabeça e, consequentemente o Apocalipse nos ouvidos de quem vive comigo… Isto não quer dizer, todavia, que me recuse a ir a sítios diferentes e/ou experimentar coisas novas, quer dizer apenas que, das poucas em que o faço, estou inexplicavelmente com o coração nas mãos, pelo que a experiência da novidade fica sempre pela metade, na melhor das hipóteses!
3. Mania joanina do Consumo.
Livros, livros, livros, roupa-malas-sapatos e jóias. Exactamente por esta ordem. Acho que preciso de acompanhamento especializado – o dos amigos e familiares não serve – porque de cada vez que vou à Fnac e/ou à Bertrand não consigo sair nunca de mãos a abanar… In Houston, sem Fnac nem Bertrands, mais do mesmo com a agravante de que os preços praticados pelas inúmeras Borders, Barnes and Nobles e Half Price Books são muito mais atractivos! Roupas-malas-sapatos não me parece tão grave, consigo coibir-me de comprar algumas vezes, mas também dói quando se verifica o saldo dos cartões ao fim do mês, ou, alternativamente, quando alguém, com mais do dobro da nossa idade e estatuto e autoridade parentais, deita uma olhadela ao armário e tem quase uma apoplexia ao contar por alto a quantidade de acessórios de várias cores, tamanhos e feitios, que de lá transbordam. De referir ainda que idêntica sintomatologia apresentam outros alguéns, mais ou menos da minha idade, mas do sexo oposto. A das jóias teve início quando comecei a coleccionar camafeus, desde então extrapolei-a para uma data de outras obras-primas de joalharia (e artesanato urbano) - por que me perco, loucamente...
4. Mania joanina da Maternidade.
A Maternidade joanina é especial porque universal. Abarca tudo, desde os três siblings, por acaso todos mais novos, manas e mano do meu coração; passando inexplicavelmente pelos pais, do meu coração também mas com mais do dobro da minha idade…; pelos alunos das escolinhas e da Faculdade – aqui explica-se melhor, mais claramente no que diz respeito aos primeiros, menos relativamente aos segundos, mas se pensarmos que andei a formar professores que engrossam cada ano as filas dos Centro de Emprego, talvez se perceba melhor; pelos amigos, não se explica, mas confere – e eles não se queixam, bem pelo contrário; e terminando nas pessoas que não conheço, mas de quem gosto, ou pelas quais nutro especial simpatia – franja privilegiada: empregados de mesa – especialmente se situados numa faixa etária inferior à da escolaridade mínima obrigatória (podiam ser meus alunos, pois claro!), se forem estrangeiros (brasileiros, de Leste…– sei bem o que é viver em terra alheia e ser olhado de canto!), se demonstrarem, quase sem querer, conhecimentos que vão para além da actividade (universitários em regime de part-time, licenciados resignados e/ou com alto sentido de pragmatismo…) E então, como resolvo todos os problemas da minha éntourage, family and friends bem entendido – sou muito boa nisso!, acho que tenho por missão resolver os problemas world wide, e tento, muito, muitas vezes, com aquilo que posso – quase sempre palavras – somente, não dá para mais! – às vezes não consigo, claro, mas a maior parte do tempo recebo, pelo menos, um sorriso de volta, o que já não é nada mau!...
5. Mania joanina da Fuga.
Se não fizesse menção a esta mania, chamar-me-ia a minha irmã mais nova logo à atenção… e teria razão, basta contar os posts neste blog alusivos ao Vítor Baía. Meu ídolo da adolescência, blá, blá, blá…
Todos conhecemos pessoas com problemas. Todos somos essas pessoas, porque pura e simplesmente todos temos problemas. Todos arranjamos um escape para fugir aos problemas. Lê-se, ouve-se música, dá-se um passeio, vai-se comer fora ou se come uma caixa de bombons ou uma embalagem de gelado inteirinha, ou não se come pura e simplesmente. Urge o tele-transporte para um mundo, outro, em que nos sintamos realmente bem. Por isso, cumulativamente ou não, erigimos todos, creio eu, bem, eu pelo menos, para nós mesmos, um “santuário do faz-de-conta” em que tudo é perfeito, nós inclusivé, para aquelas horas em que o dia-a-dia se torna pesado, sensabor e monótono. Para aqueles momentos em que sermos nós não chega, em que o destino ou o acaso nos pregam uma partida, em que a desilusão ou o desamparo batem à porta. O sono para o Stéphane (The Science of Sleep), o Hotel Existence para o Tom (Brooklyn Follies), a Malásia para o meu amigo Di, o Vítor Baía dos meus nove, ou dez, ou onze anos para myself… (Como todas as fugas, de Bach pelo menos, a repetição ad eternum do mesmo compasso não pode ser nunca encarada como falta de recursos ou de imaginação, mas evidência, a cada vez, de maior entendimento, de um sopro regenerador!)
Amarga, invejo a graciosidade com que descreveste as tuas manias. Além de nua, sinto-me completamente freak!
“Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do “recrutamento”. Ademais, cada participante deve reproduzir este “regulamento” no seu blogue.”
1. Mania joanina da Pontualidade.
A Pontualidade joanina não é um qualquer chegar a horas. A Pontualidade joanina caracteriza-se pela chegada ao evento sempre dez minutos antes da hora.
Claro que isso gera em mim sempre um stress, uma angústia e uma inquietação incomensuráveis, mas felizmente interiores, não-verbais. “Será que este não é o sítio?” “Será que me enganei no dia?” “Será que mudaram de sítio, ou de dia, e se esqueceram de me avisar?” Depois, à hora marcada, quando uma ou duas pessoas – portugueses extraordinários que chegam bem à horinha – se junta a mim na espera da maioria, atrasada, ensonada e portanto com cafézinho por beber, “Joana, não quer vir também?” o desassossego dá lugar à exasperação novamente interior: “Que falta de consideração! Marca-se às 9.30 para começar às 10.00, por isso é que estamos assim, país de lentos, sonolentos e preguiçosos!... Argh! Note-se ainda que o mesmo acontece quando o evento é um encontro de índole pessoal. “Será que era este o sítio e a hora?” “Será que se esqueceu de mim?” Pior, como sou sempre pontualíssima, nunca deixando ninguém à espera: “Será que isto quer dizer alguma coisa que me está a escapar de momento?” “Ora vejamos…” Escusado será dizer que, quando chega realmente – na generalidade com poucos minutos de atraso da hora efectivamente marcada – já está o caldo entornado!
2. Mania joanina da Segurança.
Pauta-se pela aversão à mudança. Em todos os campos. (Só sosseguei, quando li que o Kant, do mesmo signo que eu, padecia do mesmo: dobrava a esquina todos os dias à mesma hora – as pessoas acertavam o relógio por ele!) Corte de cabelo, cores da roupa, estilo, disposição dos móveis, dos livros, dos lugares na mesa, do material na secretária, da roupa nos armários, escolhas de menu, programas, passeios… imutáveis, ou melhor, dificilmente variáveis. Qualquer alteração da ordem (por mim) estabelecida provoca um apocalipse na minha cabeça e, consequentemente o Apocalipse nos ouvidos de quem vive comigo… Isto não quer dizer, todavia, que me recuse a ir a sítios diferentes e/ou experimentar coisas novas, quer dizer apenas que, das poucas em que o faço, estou inexplicavelmente com o coração nas mãos, pelo que a experiência da novidade fica sempre pela metade, na melhor das hipóteses!
3. Mania joanina do Consumo.
Livros, livros, livros, roupa-malas-sapatos e jóias. Exactamente por esta ordem. Acho que preciso de acompanhamento especializado – o dos amigos e familiares não serve – porque de cada vez que vou à Fnac e/ou à Bertrand não consigo sair nunca de mãos a abanar… In Houston, sem Fnac nem Bertrands, mais do mesmo com a agravante de que os preços praticados pelas inúmeras Borders, Barnes and Nobles e Half Price Books são muito mais atractivos! Roupas-malas-sapatos não me parece tão grave, consigo coibir-me de comprar algumas vezes, mas também dói quando se verifica o saldo dos cartões ao fim do mês, ou, alternativamente, quando alguém, com mais do dobro da nossa idade e estatuto e autoridade parentais, deita uma olhadela ao armário e tem quase uma apoplexia ao contar por alto a quantidade de acessórios de várias cores, tamanhos e feitios, que de lá transbordam. De referir ainda que idêntica sintomatologia apresentam outros alguéns, mais ou menos da minha idade, mas do sexo oposto. A das jóias teve início quando comecei a coleccionar camafeus, desde então extrapolei-a para uma data de outras obras-primas de joalharia (e artesanato urbano) - por que me perco, loucamente...
4. Mania joanina da Maternidade.
A Maternidade joanina é especial porque universal. Abarca tudo, desde os três siblings, por acaso todos mais novos, manas e mano do meu coração; passando inexplicavelmente pelos pais, do meu coração também mas com mais do dobro da minha idade…; pelos alunos das escolinhas e da Faculdade – aqui explica-se melhor, mais claramente no que diz respeito aos primeiros, menos relativamente aos segundos, mas se pensarmos que andei a formar professores que engrossam cada ano as filas dos Centro de Emprego, talvez se perceba melhor; pelos amigos, não se explica, mas confere – e eles não se queixam, bem pelo contrário; e terminando nas pessoas que não conheço, mas de quem gosto, ou pelas quais nutro especial simpatia – franja privilegiada: empregados de mesa – especialmente se situados numa faixa etária inferior à da escolaridade mínima obrigatória (podiam ser meus alunos, pois claro!), se forem estrangeiros (brasileiros, de Leste…– sei bem o que é viver em terra alheia e ser olhado de canto!), se demonstrarem, quase sem querer, conhecimentos que vão para além da actividade (universitários em regime de part-time, licenciados resignados e/ou com alto sentido de pragmatismo…) E então, como resolvo todos os problemas da minha éntourage, family and friends bem entendido – sou muito boa nisso!, acho que tenho por missão resolver os problemas world wide, e tento, muito, muitas vezes, com aquilo que posso – quase sempre palavras – somente, não dá para mais! – às vezes não consigo, claro, mas a maior parte do tempo recebo, pelo menos, um sorriso de volta, o que já não é nada mau!...
5. Mania joanina da Fuga.
Se não fizesse menção a esta mania, chamar-me-ia a minha irmã mais nova logo à atenção… e teria razão, basta contar os posts neste blog alusivos ao Vítor Baía. Meu ídolo da adolescência, blá, blá, blá…
Todos conhecemos pessoas com problemas. Todos somos essas pessoas, porque pura e simplesmente todos temos problemas. Todos arranjamos um escape para fugir aos problemas. Lê-se, ouve-se música, dá-se um passeio, vai-se comer fora ou se come uma caixa de bombons ou uma embalagem de gelado inteirinha, ou não se come pura e simplesmente. Urge o tele-transporte para um mundo, outro, em que nos sintamos realmente bem. Por isso, cumulativamente ou não, erigimos todos, creio eu, bem, eu pelo menos, para nós mesmos, um “santuário do faz-de-conta” em que tudo é perfeito, nós inclusivé, para aquelas horas em que o dia-a-dia se torna pesado, sensabor e monótono. Para aqueles momentos em que sermos nós não chega, em que o destino ou o acaso nos pregam uma partida, em que a desilusão ou o desamparo batem à porta. O sono para o Stéphane (The Science of Sleep), o Hotel Existence para o Tom (Brooklyn Follies), a Malásia para o meu amigo Di, o Vítor Baía dos meus nove, ou dez, ou onze anos para myself… (Como todas as fugas, de Bach pelo menos, a repetição ad eternum do mesmo compasso não pode ser nunca encarada como falta de recursos ou de imaginação, mas evidência, a cada vez, de maior entendimento, de um sopro regenerador!)
Amarga, invejo a graciosidade com que descreveste as tuas manias. Além de nua, sinto-me completamente freak!
Remeto o desafio para os seguintes:
1. Anabela – http://oquefoiqueeudisse.blogspot.com/
2. Maria de Lourdes – http://sineste.blogspot.com/
3. Rui – http://pestanamadeira.blogspot.com/
4. Cemremos – http://cemremos.blogspot.com/
Edu - http://www.prelario.blogspot.com/
5. Cientista - http://testaravida.com/
sábado, dezembro 02, 2006
Catálogo de Saudades - 2
Etnicidade e calçado
- Jo, do ya know how to tell if someone is an American or an European?
- ?! No, but I bet you do and are gonna tell me right now!
- Simple! Actually quite "elementary, dear Jo", it all depends on the tennis shoes he/she is wearing!
-???
- See, Americans wear Nike, Europeans - like you, Martin and Chris - Puma tennis shoes.
-...
- ?! No, but I bet you do and are gonna tell me right now!
- Simple! Actually quite "elementary, dear Jo", it all depends on the tennis shoes he/she is wearing!
-???
- See, Americans wear Nike, Europeans - like you, Martin and Chris - Puma tennis shoes.
-...
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Catálogo de Saudades - 1
Decidi agora fazer um Catálogo. Um Catálogo de Saudades, este mês apenas, porque desde há uns dias - desde que faltava um mês para o dia de Natal -, tenho andado com uns vipes, do tipo flash, de situações, imagens, pensamentos e memórias que não me largam. Sei bem porquê: o Natal esta aí e o meu "aí" é "aqui". E este "aqui" no seu melhor, com projecto de ida a NY, convite para conhecer New Orleans, convite para Consoada brasileira e Final de Ano brasileiro incluídos, não chega aos calcanhares do meu "aí" madeirense.
Hoje é o primeiro dia de Dezembro e finalmente está um frio decente de Natal. Ontem: 8h30m - 25 graus; 10h30m - 10 graus; 16h30m - 4 graus; 18h30m - algo entre os 2 e os 4 negativos.
Hoje: 10 graus, relativamente constantes.
Ontem dormi pela primeira vez com edredão e de janela fechada.
Hoje acordei com saudades do pão torrado com manteiga, do café com leite e dos quadradinhos de laranja com açúcar da minha avó.
É isto que o frio do Natal faz à gente. Traz memórias do frio de outros Invernos, outros Natais.
Aqui
Não entro na onda de euforia militante e consequente participação nas actividades, mas, porque reconheço e me assusta a dimensão do problema, e respectivas implicações, convem lembrar.
According to UNAIDS estimates, there are now 39.5 million people living with HIV, including 2.3 million children, and during 2006 some 4.3 million people became newly infected with the virus. Around half of all people who become infected with HIV do so before they are 25 and are killed by AIDS before they are 35.
Around 95% of people with HIV/AIDS live in developing nations. But HIV today is a threat to men, women and children on all continents around the world.
Started in 1988, World AIDS Day is not just about raising money, but also about increasing awareness, fighting prejudice and improving education. World AIDS Day is important in reminding people that HIV has not gone away, and that there are many things still to be done.
The theme for World AIDS Day
World AIDS Day was originally organised by UNAIDS, who chose the theme after consultation with other organisations. However, in 2005 UNAIDS handed over responsibility for World AIDS Day to an independent organisation known as The World AIDS Campaign (WAC).
The WAC’s slogan for their work is "Stop AIDS: Keep the Promise", which is an appeal to governments, policy makers and regional health authorities to ensure that they meet the many targets that have been set in the fight against HIV and AIDS. This campaign will run until 2010, with a related theme chosen for World AIDS Day each year.
This year's theme, "accountability", is designed to inspire citizens across the globe to hold their political leaders accountable for the promises they have made on AIDS. Targets such as the All by 2010 pledge made by world leaders last year, and the Millennium Development Goal to halt and reverse the spread of AIDS by 2015, are in serious danger of being sidelined or ignored, and much more needs to be done to ensure that these critical promises are kept. By supporting a broad movement of civil society organisations in their campaigning around this theme, the World AIDS Campaign hope to develop a sense of joint identity and common purpose and ensure that more people are made aware of the AIDS epidemic this year than ever before.
AVERT is raising awareness of this year's "accountability" theme by turning the borders and menus on our site black. To find out more about this campaign, please visit our Why Black? page or read our World AIDS Day press release.
Aí
Restauração da Independência. Feriado em Portugal, anualmente no dia 1 de Dezembro, para assinalar a recuperação da independência nacional face à Espanha em 1640, que durante 60 anos ocupou o país e o oprimiu.
Para viver este dia em pleno, com a alegria que ele merece, visitem o Helder: http://raispartamisto.blogspot.com/2006/11/encorrer-os-espanhis.html#comments
quinta-feira, novembro 30, 2006
quarta-feira, novembro 29, 2006
Da utilidade da trela
O meu périplo around the neighborhood a caminho do campus é fonte das melhores coisas que me acontecem todos os dias. Até bem há pouco. Então, achava que ia sentir ainda muitas saudades das caras ensonadas e dos cães, canzarrões e cãezinhos, do costume.
Todas as manhãs o mesmo: é a minha vizinha, dona dos mil e um gatos, que saltam o muro e vêm para o meu jardim, que luta com o sono para me dizer Hi, how are tou doing?; é o jeitoso do jogging, e respectivo cão atlético, que nunca me diz Good morning!, mas ri-se e pisca o olho, divertido; é o vizinho médico, dono do Milu e do Ideafix, que me diz Good morning! enquanto tranca o portão, acena à mulher, que invariavelmente deixa a ler o jornal under the porch, e tenta calar o Ideafix – que faz em gala em esgoelar-se à minha passagem (mas somente de manhã, quando o dono está por perto) – ; é o outro vizinho médico, mais jovem, que se esforça por articular um Good morning! sorridente enquanto faz das tripas coração para segurar a trela do cão – fora de si, de contentamento, quando me vê – sem deixar fugir o carrinho das gémeas mais lindas deste país – sim, o senhor passeia, todos os dias, de manhã, around the block, o cão e duas bebés de uns seis mesitos, bibes rosa e lacinho a condizer no cabelo que ainda não têm; – é o artista antipático que tem três orcas de pelo, perdão, cadelas, do tamanho do mundo que ficam fora de si – mas não de contentamento – assim que me vêem despontar ao longe… E estes são apenas os regulares, há muitos outros que vou vendo de vez em quando, mas que, como a frequência é variável, não conheço tão bem.
Em Portugal cães são, desde miúda, um problema para mim. Reagem todos como as cadelas descomunais do artista. Com a diferença de que aí não há "artista" que os segure. Por isso, fiquei muito satisfeita quando comecei a fazer o meu percurso matinal e notei que, regra geral, todos os cães me ignoravam, excepção feita às três “baleias-panda” e ao Ideafix, com o dono por perto. Tinha finalmente deixado de ter aura de gato! Yupie!!!
Mas não. Sem se fazer anunciar, a minha “felinidade” voltou, não havendo desde a semana passada, pelo menos, cão que me suporte. Agora, até o Milu se junta ao Ideafix no coro de impropérios caninos furiosos dirigidos à minha pessoa! E depois, é como a comichão – ou o choro nos bebés –, começam todos os do block, e depois todo neighborhood, em feroz desassossego. Que bela maneira de me dar os bons-dias!
Porém, a minha primeira experiência de real terror canino por estas bandas foi com o cão de um vizinho até então desconhecido para mim, – vi Portugal tão perto! –, nessa altura atribui o ladrar furioso e a velocidade da corrida na minha direcção à comida que levava para o Departamento. O dono subscreveu a minha hipótese, tornando-a uma espécie de desculpa para a sua incapacidade em dominar o bicho. Não gostei. Are you trying to say that this is my fault? – pensei, não disse, silêncio acompanhado de sorriso esforçado, mandou a consideração pela ausência de cabelo, as rugas, o excesso de peso e o pijama branco do senhor.
A segunda, não se explica, nem comida levava, mas como foi sanada imediatamente pela voz autoritária do dono, ou dona – já nem me recordo, facilmente esqueci.
A pior foi há dias, a terceira, a responsável por ter vindo o rosário todo à memória, e por este post. Oito e meia da manhã de Domingo, o último dia da quadra de Thanksgiving. Quando uma pessoa espera, crê, que toda a gente – e respectivos cães – esteja a dormir. Quando não lembra ao mais pérfido dos seres pensantes que exista alguém – americans! – que tenha já ido ao MacDonald’s buscar o pequeno-almoço e seja dono do belzebu em forma de cão. Pior: que esse alguém até seja simpático, pareça boa pessoa e aparente um estado mental dentro dos padrões da normalidade – Como é que alguém assim coabita com o demo? Primeiro, foi o dirigir-se louco a mim, como se não houvesse dono, nem amanhã; depois, aquele som, vibrante, horroroso… só faltava que espumasse ou metesse o dente! A cada advertência do dono, o ladrar cessava – o que me permitia avançar, mas a cada passo, perdão, passinho, meu, voltava a fúria e a aproximação do cão, que franqueava, despudorado, o meu espaço pessoal – aquele perímetro de menos de um metro que os americanos simplesmente adoram! Bem, qual tom de voz, qual firmeza, qual segurança, qual autoridade, qual Buddy get here now! elevado a todos os quadrados e cubos do mundo, o homenzito tentou de tudo, mas o BigMac que o bicho queria era eu e não havia volta a dar-lhe. Entretanto, sem me preocupar muito com a situação – afinal está sempre a acontecer-me –, mas imóvel, enquanto decorria o diálogo de surdos, perdão, as conversações com sua excelência “O Cão” – Buddy, “companheiro”, só por ironia do destino! –, uma única imagem me vinha à mente: uma trela.
Tão simples. Uma t-r-e-la! Trela. Não percebo a incompatibilidade da generalidade dos americanos com a melhor invenção humana desde a roda! (Que eu saiba, apenas o pai das gémeas e o rapaz do jogging fazem uso disso.)
Pessoalmente sou contra trelas. Psicológicas. Abomino aqueles “Onde é que estás?” que saem nas conversas telefónicas curiosamente sempre antes do “Olá, tudo bem?” Eu acho que nunca importa onde se está, importa é que se esteja bem. Não? Mas precisamente para se estar bem, advogo o diametralmente oposto para os cães. Perigo público sem as ditas, trelas – qualquer paralelismo com a situação anterior é escusado, não há comparação possível! Trata-se, a meu ver, neste caso, de uma questão de segurança, national security - para por a coisa bem ao gosto dos americanos.
E não é como nos filmes, americanos – pois claro! –, em que destes recontros nascem grandes histórias de amor. Nascem antes grandes histórias de terror. Atesta-o a experiência. Claramente.
terça-feira, novembro 28, 2006
Poucas coisas são mais bonitas...
segunda-feira, novembro 27, 2006
Lembra-te - Mário Cesariny (1923-2006)
Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
domingo, novembro 26, 2006
Três Chrises na minha vida
Crises, felizmente, não tenho, mas no Departamento são três, os Chrises. Dois alemães e um americano. Um é Christian (pelo menos de nome), os outros não sei se também, se Christopher.
O Chris nº1 trabalha umas boas dezoito horas por dia e é conhecido cá no Departamento for the abnormal amount of food he eats – pudera, para conseguir trabalhar tanto! É o handsome – epíteto unânime das pessoas (do sexo feminino) daqui, o “loiro-ruivo” de olhos azuis a quem o mulherio enche as salas – de aula, nos semestres em que ele é Assistente – , ou de conferência, quando as dá (com a vantagem de raramente lhe colocarem questões, seja pelo raciocínio que a visão dele transtorna ou pela a baba que transborda até dos olhos da audiência!) Pessoalmente, não o acho um exemplo assim tão transcendente de beleza, mas gosto muito dele. Porque parece não ter bem a noção do quanto é desejado – Portuguese guys, learn! Ou disfarça bem. Porque é cordial com toda a gente, … e particularmente simpático comigo. Foi a pessoa que melhor me recebeu, quando cá cheguei. Falávamos imenso, o riso era fácil. Não me apercebi logo, mas apercebeu-se o mulherio de que ele só tinha olhos para mim. (Tinha?) Bem, o facto é que damo-nos optimamente e por isso trabalhamos muito bem em equipa: seja a escrever um artigo, a fazer um Powerpoint, a transferir as recém-chegadas caixas de livros para o lounge ou a mudar uma lâmpada. E isso não tem nada de mais. Para mim. Mas não para ele. Pensou demasiado. Especialmente quando a namorada, que estava em intercâmbio no Japão, regressou… o Natal passado. Às vezes pensar faz mal. De suposições e más interpretações forjam-se certezas que de certo nada têm. Começou 2006 a fugir à fala e eu entendi. Finalmente, tudo. Agora estamos melhor, ele já percebeu que se precipitou, mas o tempo que passamos sem falar deixou marcas, criou um fosso enorme entre nós. Um fosso que o meu Arroz Doce de há dias fez o milagre de tapar quase totalmente. (Os homens e o estômago!)
O Chris nº2 é outro alemão, bem filho de alemão e japonesa. É uma pessoa adorável – muito generoso e sempre disposto a ajudar em tudo – e de uma cultura francamente enciclopédica. É obcecado por jornais, passa os dias a lê-los, esquecendo-se até de dormir (e de tomar banho, às vezes!) Tem, no entanto, marcado desde o berço o choque de culturas e desde há pouco mais de um ano a morte – apenas para ele inesperada – do pai. Gosta muito de mim, percebi, porque todos os sítios onde me leva são fruto de intensa pesquisa pessoal, às vezes via net. Pela-se por tirar fotografias da minha pessoa junto de todas as tabuletas indicativas de ruas com o meu sobrenome – e são tantas cá! (O sobrenome do meu pai e a Toponímia TexMex dava um bom estudo!) Gosto imenso de falar com ele, ou melhor de o ouvir – tudo o que ele quer na vida é um público atento e interessado, não precisa de ser numeroso – porque desde as declamações de poemas em Latim às mais recentes cusquices das famílias reais europeias, da história do império Otomano ao papel de Ariel Sharon e à crise do médio oriente, dos preços do petróleo, praticados aqui e aí, à rede viária de Houston, do que acabou de dizer o actual Papa ao que fez ontem o Bill Clinton ou o Dick Cheney ou a Diana Krall, o homem está sempre em cima do acontecimento. Sabe sempre tudo de tudo. Castelhano, História da Península Ibérica e percurso político do “European Comission President Barozzo” inclusivé. Portugal fica mais perto, e a Europa ali ao lado, com ele. (Nem que seja pelo jeitinho que os meus cêntimos de euros lhe dão à colecção - na Alemanha, país rico, não há cêntimos…)
O Chris nº3 é a boa disposição em pessoa, de gargalhada grande e vigorosa, a contrastar figura baixinha e com a cara de Hobbit – o paralelismo não é da minha autoria, mas os meus abdominais agradecem o exercício e a minha esperança de vida o aumento pelo riso non-stop do outro dia – é o americano que teve a gentileza de disponibilizar no semestre passado, aquando da minha chegada, a sua secretária. Sure, feel free to use it, I spend most of the time working at home. A secretária ou o office space que partilhamos agora. Às vezes também parece muito português, bom-vivant e galã, no Verão elogia-me os tops, no Inverno as minhas camisolas que são/parecem fofinhas. O pior mesmo são os churrascos do Departamento, quando ele bebe -porventura demasiado e o alcool só o deixa ver-me a mim (isto acontece-me muitas vezes, mudam-se apenas os "bebedores"), só se dirige a mim, só eu é que existo, o que, compreensivelmente, não é do agrado da namorada, uma rapariga linda e simpatiquíssima, com quem ele já vive há mais de quatro anos! Apesar disso, o Chris é um doce! Muito especialmente porque por vezes ocupo o espaço todo, ou melhor ocupam os livros e as fotocópias e o portátil todo o espaço da mesa que é dele para todos os efeitos. E ele não diz nada e recolhe-os para o lado, esforçando-se por não alterar substancialmente a disposição, ou pelo menos a ordem da papelada. Depois chego e ele desculpa-se que não queria desarranjar, mas é que… E eu, sempre sem entender o embaraço, que me parece sincero: Hey, Chris your office, your desk. I should be apologizing for the mess, ok? Porque eu passo as manhãs e ele as tardes no gabinete, sei sempre mais ou menos quando é chegada a hora de ir ou para a Biblioteca ou para o Computer Lab, muito embora ao fim de semana tenha o gabinete por minha conta. Ele nunca aparece. Excepção feita ao dia de ontem.
Ontem. Bem no momento em que me tinha ausentado para fazer nem sei já o quê e tinha minimizado todos os documentos do o computador. Conclusão: ficou o fundo de écran à vista. O meu fundo de écran. O Vítor Baía no interior do seu CLK concentradíssimo a assinar autógrafos, que a minha irmã mais nova fez o favor de por para minha primeira surpresa em solo americano. Abro a porta do gabinete: dois computadores em cima da mesa, o meu à direita, o dele ao centro. Ooooopppppssss! Que pensará o Chris deste fundo “azul”? - pensei. E não consegui conter o riso. Malandro, assustado, expectante... Depois, arrumei o meu pc, restitui-lhe espaço e fui para a Biblioteca. Quando escureceu regressei, ele não costuma ficar no gabinete até tarde, mas antes de me dirigir para lá ainda parei no Computer lab, respondi a mails, enviei mails, passei pelo blog, pelo Hi5 e quando estava a ver as fotografias das minhas irmãs, com quem por acaso já não falo há séculos, sinto um assobio daqueles… Era ele, a espreitar bem por cima do meu ombro. Hi Chris, still here? These are my sisters! Ele: Really? What about your boyfriend, is he there too? (Não esqueceu o fundo “azul”. Esperto!) Nop, no boyfriend. (Que mania que a Verdade tem de saltar bem para a ponta da língua antes de eu ter tempo para pensar! Argh!) Ele: No boyfriend there, in Hi5 photos, or no boyfriend at all? Me: … Ele: Oh, come on, I saw the guy in your computer!… Me: (Ehehehehe, o Vitinho, era bom, era! Agora que faço? Não vou mentir, mas se digo quem é vai pensar que sou maluca, help!) Bem, a ajuda não veio e à falta de melhor, a verdade: That, that was a prank my sister did to me the day I came, it´s this soccer player very famous in Portugal, I used to worship him as a teenager. Ele: Oh ok. And the boyfriend, how is he? Are they alike? (Que insistência! Então se já disse que não…) Me: Told you. Ele: Yeah, yeah… “no boyfriend at all”. Do you think I believe that? It doesn’t make sense. Me: (Tem muitas certezas este! Not many things in life make sense! Mas ok, vamos lá sossegar o rapaz.) Ok, Chris you win. Boyfriend yes, but not alike. Ele: Do you miss him? Is he coming here for Christmas? (Oh pá! Não tens que ir para casa? Que conversa!) No, cause you see I’m going back home in January. Ele: I hope he’s aware of lucky he is. Not everybody deserves you... know what I mean? Me: Sure, Chris, (e antes que ele se saia com outra) See ya!
São estranhas as certezas. Boas. Quando têm uma sustentação firme. Saudáveis. Dão segurança, esperança no futuro. Impelem-nos a ser mais, melhor, sempre. Más. Quando se fundamentam em interpretações, em suposições. Perigosas. Agrilhoam-nos os gestos. Manietam-nos a naturalidade. Obscurecem o raciocínio. Impedem a clarividência, o progresso.
Gosto de certezas. Tenho algumas. Inocente, nunca pensei que pudesse existir algo como uma certeza errada. Há. Andam por aí na cabeça de muita gente.
sábado, novembro 25, 2006
quarta-feira, novembro 22, 2006
Thanksgiving: é amanhã!
Recebi há pouco no mail uma mensagem do Birthday Alarm a lembrar que quinta-feira é dia de Acção de Graças e que portanto convinha mandar uns cards to family and friends. O Birthday Alarm não sabe que abomino e-cards e só faço uso deles quando as palavras ditas via telefone ou telemóvel e as escritas via Messenger ou e-mail não me são, pelas mais variadas razões, possíveis – o que raramente acontece.
Para os americanos o Thanksgiving é tão importante como para nós o Natal. Da celebração do primeiro ano de prosperidade dos puritanos colonos britânicos, rapidamente passou à celebração da prosperidade e união da família – conceito muito caro à american way of life. É como se se tratasse de uma espécie de ante-câmara do Natal. (Embora por vezes sinta que para alguns este dia é ainda mais importante que o da Natividade.) Suponho que estejam agradecidos pela opulência e pela prosperidade que tão bem caracterizam este país. Note-se porém que a porque a fartura que os puritanos conseguiram deveu-se única e exclusivamente à ajuda dos índios, até então arqui-inimigos, os quais, profundos conhecedores das especificidades do deserto americano, generosamente, transmitiram aos brancos preciosos ensinamentos relativamente ao respeito pela Natureza e sua eficaz manipulação, exploração e uso, nomeadamente no que diz respeito às colheitas a cultivar: milho, batata, abóbora, frutos silvestres... O que por si só dá uma grande lição de valorização das minorias étnicas e da diferença que aparentemente foi obscurecida pelo capitlismo e se perdeu nos caminhos do tempo.
O ano passado vivi o Thanksgiving de forma atribulada: tinha chegado há precisamente sete dias, a minha anfitriã foi tudo menos hospitaleira, não conhecia bem as pessoas do departamento – embora fossem todas muito simpáticas, diria mesmo acolhedoras (felizmente, para compensar o pesado ambiente em que vivia). O chefe do Departamento, um ilustríssimo linguista japonês, convidou-nos a todos a passarmos com ele o dia – desde que trouxéssemos, cada um de nós, algo para a refeição partilhada. Estava sozinho, a mulher encontrava-se em Paris numa conferência, e Thanksgiving que se preze não pode ser passado na solidão. Especialmente quando se sabe que sozinhos estariam também as duas dezenas de gradstudents do Departamento. Foi bom. Gostei. Passei a conhecer melhor muita gente, ri-me bastante, conversei muito, e isso – e a ausência da minha anfitriã, que optou por ir a outra festa – fez-me feliz. Mas também fico feliz com pouco, devo dizê-lo, já que toda a gente que me conhece o sabe e mo diz. A felicidade é uma coisa simples. Continuo a afirmar, porque continuo a achar. Para choque sempiterno dos meus amigos.
Este ano não vamos a casa do Professor. Deve ter cá a mulher. Havia inicialmente um projecto para se fazer algo idêntico, a reunião de todos os grads do Departamento, na casa de alguém. Mas até agora nada de concreto chegou a minha caixa de correio electrónico. Este ano também a minha senhoria – colombiana de nascença, mas americana (dos quatro costados!) pelo casamento – convidou-me para o seu Thanksgiving. Agradeci. Significou muito para mim. Não era preciso. Expliquei-lhe a tradição departamental. Percebeu, mas não aceitou isso como um não. Fica à minha espera na mesma. No matter at what time you get here! Este ano ainda, a minha anfitriã de outrora convidou-me a ir com ela à festa que optou por ir o ano passado. Porque muita água passou por debaixo das pontes e eu fechei os olhos a muita coisa. Porque engoli outras tantas coisas e fingi que não percebia, que não entendia sequer e que não ouvia, e durante todo o tempo não fugi à fala, conversei normalmente e sorri. Sempre. Sorri muito, muitas vezes a muito custo, sem querer, muitas vezes só para chamar a mim a alegria que fugia de cada vez que lhe ouvia as indirectas, as piadinhas de mau gosto e os risinhos.
“Vou contigo, claro, deve ser giro passar o Thanksgiving com uma família americana, se não formos a casa do Professor S. e se entretanto a L. não fizer uma coisa idêntica em casa dela.” Não a coloquei em terceiro lugar por qualquer tipo de vingançazinha pessoal ou despeito. Não sou disso. Disse-lhe com sinceridade, olhos nos olhos, qual o programa que mais me agradaria. Porque gostaria de estar com as pessoas do meu Departamento, livre de prazos de entrega, leituras obrigatórias, trabalhos, papers e abstracts... Ela aceitou como se de um sim se tratasse – novamente! What’s wrong with these people? –, ficou feliz e ainda bem. Torço para que a L. acolha o Thanksgiving departamental na sua casa. Mas como me conheço, e sei bem as voltas que a minha vida dá sempre, tenho a certeza de que vou ao Thanksgiving americano com a minha ex-anfitriã.
E vou gostar, vai ser diferente, uma experiência completamente nova, e vou fazer o que mais gosto na vida, observar e tentar perceber o porquê das coisas. E vou ser feliz! Assim. Exactamente assim.
Cá entre nós, o meu Dia-de-Acção de Graças, é todos os dias. De manhã. Vivo-o sempre à frente do espelho (sim, quando estou muuuuiiiiiiittttoooo ensonada!). E agradeço tudo o que sou e tudo o que tenho. Não é que seja ou tenha muito – até porque não me importava de ser como a Katie Holmes (mas com um outro “Tom Cruise”) ou ganhar como os patrões do BCP – é tão somente porque gosto do que tenho. Não que isso me baste – claro que quero ser mais e melhor – mas satisfaz-me e satisfazendo-me dá-me serenidade, esperança e confiança para encarar todos os dias ou como uma continuação, ou como um recomeço. Tudo é mais fácil assim.
Hoje entramos em Thanksgiving Recess, quatro diazinhos de interrupção que vêm mesmo a calhar para recarregar baterias. O campus está vazio, completamente abandonado e entregue a um silêncio sepulcral. Chegou finalmente o frio, as músicas e a iluminação natalícia a estas paragens. Acabo de comer a minha última porção de Arroz Doce e noto que as minhas mãos ainda cheiram às tangerinas do pequeno-almoço. Fecho os olhos. Estou na minha casa, no Natal, com as pessoas que me enchem o coração, no Natal da minha casa lá longe, no Natal que não terei este ano pela terceira vez consecutiva. Lembrei-me de vocês. De todos os que comentam. Dos regulares. Dos esporádicos. Dos do início. Dos de sempre. Dos que só agora param por aqui. Dos que lêem e não comentam. Dos que comentam quase sem ler. De todos. Porque raramente deixam este espaço em silêncio. Porque muitas vezes, mais do que alguma vez pensei, são vocês as pessoas que me enchem o coração. E isso é bom: faz-me bem. Estou-vos agradecida. Dou-vos graças. Por isso. Por tudo.
Amanhã, antes do peru que não comerei (a não ser que seja de tofu), pensarei em vocês. Todos.
terça-feira, novembro 21, 2006
Náusea
em 2007 por falta de verbas
O Centro Cultural de Belém decidiu suspender a Festa da Música em 2007 por falta de verbas, substituindo- a por outra iniciativa menos dispendiosa, indicou ontem o director do CCB, António Mega Ferreira, à TSF.
«Tomámos a decisão de suspender a edição de 2007 da Festa da Música, embora seja substituída por outro evento musical, entre 20 e 22 de Abril, que será proposto pelo CCB e com um orçamento muitíssimo inferior», declarou o responsável à rádio.
Mega Ferreira explicou que a decisão da administração do CCB foi motivada pela falta de dinheiro para uma iniciativa daquela envergadura, acrescentando que o cenário para a continuação da mesma nos próximos anos «não é dos mais favoráveis».
Sobre o evento que substituirá em 2007 a Festa da Música, Mega Ferreira disse que se chamará "Dias da Música" e será dedicado ao piano, não devendo o seu orçamento ultrapassar um terço do da anterior iniciativa.
in jm.online
segunda-feira, novembro 20, 2006
Amar é...
Alain
Tinha que postar. Não resisti.
Diz-me tanto, tanto, tanto... que dava outro ensaio - que uma vez mais não escreverei.
domingo, novembro 19, 2006
Do Céu?
Talvez.
Cheguei a Houston há pouco mais de um ano. E nunca como nesta última semana andei tão ocupada.
Aparentemente, os referees das conferências em que quero pasticipar (de Maio a Setembro!) congeminaram todos e em concílio acharam por bem estabelecer que o prazo para o envio de abstracts para as ditas – à excepção de uma – fosse esta semana.
Se juntarmos a isso as aulas, os trabalhos para cada aula, as leituras, a família, os amigos e o aviso – à ultima da hora (tão português!) – de que convinha fazer “uns bolos” porque o senhor Manel não sabe cozinhar e a IEW (International Education Week) esta aí e na sexta é dia de Portugal, que, já se está a ver, se não tiver “bolos ou outra coisa assim” a representá-lo, será engolido pelo Brasil via uma avalanche de brigadeiros e um maremoto de guaraná. “E depois tu sabes cozinhar, tens cara disso, anda lá, um intervalo culinário é mesmo o que tu precisas, esses abstracts andam-te a fazer mal, não estás com boa cara.” (“Boa cara.” Como se fosse questão disso, como se isso fosse importante para o caso. Eis o poder da argumentação masculina ou de como o Y sabe bem o que põe o X a mexer!…)
Somos dois os portugueses da Rice: o Manel e eu. O Manel é adorável, mas do alto dos seus vinte e três aninhos, cheiinhos de mimo até aos bordos, não cozinha. Não sabe cozinhar. O geniozinho que o IST mandou para cá não sabe cozinhar! Mas comer sabe (e bem!), além do que se pela por bolos. E pela minha t-shirt de apoio a Selecção no Mundial. (a qual, devo dizê-lo, só no final do dia, a muito custo, e com grande temor (!?) finalmente pediu. “É que (…) eu passei cá o Mundial… no laboratorio… a trabalhar… E cá não há disso (...) não conhecia (…) Mas é para eu ficar, não é emprestada, entendes?!” “Entendo, Manel. Fica.”
Claro que não fiz nenhum intervalo culinário. O meu país merece mais do que um intervalo! Claro que não fiz nenhum bolo – nem quisesse, não podia: não tenho forno. “Manel, arranja outra para te cozinhar bolos!”, pensei. Mas não disse. Claro.
Tinha que fazer algo tradicional que fosse simples, minimamente rápido, que não implicasse forno e cujos ingredientes fossem de acesso fácil por estes lados.
Arroz doce. Nem sei como, mas foi o que me ocorreu logo. Respeitava todos os meu critérios. Canela é o que mais há por aqui. E nada sabe nem cheira mais a Portugal, a Natal e a casa do que um bom Arroz Doce.
Dediquei o meu final de tarde de quinta feira inteiramente à causa da representação de Portugal na IEW. Para isso, socorri-me da Lígia. (http://asreceitasdaligia.blogspot.com/). A blogosfera tem destas coisas. Boas. À distância de um clique. Apenas.
Não segui a receita religiosamente, nunca consigo: enriqueci-a com peras cozidas, à semelhança do que me foi dado a saborear da primeira vez, há muito, muito tempo atrás.
Fiz muito. Defeito familiar: na minha casa cozinhava-se sempre muito. Éramos muitos também. Coisas de família numerosa. Mas aqui também somos, pensei. Muitos sempre, família às vezes. Há a da minha casa, os meus três room-mates – um boliviano, um americano, uma chinesa – e a minha land landy; a do Departamento e a do English Corner… sem esquecer nunca o objectivo principal: a IEW.
Assim sendo, comecei às oito e só terminei, loiça lavada, seca e arrumada, depois das onze. Entretanto, o cheiro da baunilha, dos ovos e da canela, que impregnava toda a cozinha, invadia, sorrateiro, pelo buraquinho das fechaduras, os quartos. Isto a ver pela agitação e constantes visitas do Alejandro à cozinha. Perguntou-me. Finalmente. Expliquei. Disse-lhe também que tínhamos Arroz Doce para uns dias e que, como já estavam a dormir, escreveria um bilhetinho a dar conta disso mesmo aos outros dois – agradeceu-me a generosidade – (generosidade???) – com os olhos marejados de lágrimas. Depois, o doce do Arroz cumpriu a sua função e soprou os projectos de lágrima para longe. “Na Bolívia também tem disso, a gente chama “Arroz de Leite”, é uma sobremesa muito popular, quase diária, mas o seu…, Joana, que delícia!” O Alejandro é da Bolívia e portanto conhece bem o Brasil – resultado: falamo-nos sempre em Português.
Correcção: temos Arroz Doce para dias se ele entretanto não transformar esses dias em horas…
Adiante, no Departamento desapareceu em minutos – para tristeza dos alemães, dos coreanos e até dos americanos, que se desdobraram em sorrisos – os tímidos orientais, who else? – e agradecimentos (agradecimentos???) – os americanos e os alemães despachados, claro!
Na IEW, meu objectivo primeiro, evaporou-se, a uma velocidade verdadeiramente vertiginosa, inversamente proporcional ao tempo que permaneceu quase o único tópico de discussão – com direito a divulgação da receita world widely!
A comida aproxima as pessoas. Realmente. Porque, na realidade, muitas vezes as consola, e consolando-as leva-as para muito longe, para lugares e tempos bons. Ao Alejandro levou para casa, à Suzana, the Portuguese Lecturer, ao Brasil da sua infância, ao Manel aos seus Natais em Lisboa.
O meu Arroz. Gente tão diversa a tantos sítios. E eu que apenas queria levá-los a saborear Portugal no Natal!...
sábado, novembro 18, 2006
Uma flor de verde pinho
Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.
Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.
Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.
Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.
[Letra: Manuel Alegre, Música: José Niza]
sexta-feira, novembro 17, 2006
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