20.2.18

Tudo sobre Elina Fraga

Por Ferreira Fernandes
Devem ser das palavras mais sábias: "Não percebo..." Assim, com reticências, que é a forma sábia de sublinhar que se admite que deve haver por aí uma resposta, mas eu não sei qual. 
Aconteceu-me tantas vezes nesta profissão em que me pagam para escrever, não perceber. E é tão importante. Algumas vezes, poucas, mandaram-me cobrir congressos de partidos e eu, de lá, mandava dizer o que via: a autoridade e solidão de Mota Amaral, a frouxidão de Seguro, a perfídia brilhante de Portas, o tanto que Marcelo gosta de si... 
Aparentemente este género tão subjetivo de olhar para os protagonistas dos congressos nunca foi muito popular entre os meus diretores quando tocava mandar cobrir aqueles fins de semana que empolgaram sempre as redações e bastante menos o país. Tenho de admitir que o desdém talvez fosse fundamentado: eu não entendia as moções, escapavam-me os jogos de bastidores. Mas continuo a achar que num lugar onde se escolhem os chefes dos partidos vocacionados para mandar no país, nos congressos partidários, o mais interessante é caçar os protagonistas ou, ainda mais, assinalar os mistérios. Ah, estes últimos, o acidente, o acessório, o epifenómeno que sai da cartola como quem não quer a coisa... E, de repente, toda a gente a falar dele (ou dela) - houve vaias, deu indignações ("traição!", disse ex-ministra) e levou Marques Mendes a fingir o espanto: "Mas porquê Elina Fraga?!" 
No estrebuchar que se seguiu encontraram-se logo investigações em andamento e anátema fácil: "Populista!" Recolham pois o acidente, o acessório e o epifenómeno: há razões maiores para esta propulsão, tanto mais que a senhora vem de um setor pestífero, a justiça. 
Tal como um esquecimento é tantas vezes um sintoma de boa memória, dizer-se "não percebo" para a escolha de Elina Fraga revela que se percebe bem demais porque ela foi escolhida. É aí que eu estou: aqui há gato. Eu não sei ainda é qual.
DN de 20 Fev 18

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19.2.18

Os recasados de Alvalade

Por Ferreira Fernandes
Por estes dias, como benfiquista, preocupam-me mais leituras de sentença em tribunal do que boicotes de leitura em assembleia geral dos outros. Quando soube daquelas excomunhões anticelulose (sportinguistas, nada de jornais em papel!) e anticatódicas (nem tevês!), pensei que era só o Sporting a dar-se conta da avalancha da era digital. Ontem, porém, vi o diretor de comunicação do clube - Nuno Saraiva, eu fazia-te o adeus amigo do costume, mas podes olhar para mim? - a aumentar a amplitude das proibições. Estas estendem-se também à rádio e às plataformas digitais. 
No Sporting entraram em vigor os quatro macacos sábios: um tapa os ouvidos aos relatos, outro, os olhos à transmissão televisiva, o terceiro tapa o nariz à tinta impressa e o último entrapa as falanges contra a tentação de frequentar a internet... 
Sou liberal, cada um faz o que quer entre os seus. Mas também sou egoísta e assustei-me por poder ser privado da escrita de Rogério Casanova no Expresso. Ele é um fanático sportinguista que de tão bem escrever me dá gozo até nas derrotas benfiquistas. Porque o meu temor era: se os sportinguistas não podem ler jornais, também não podem escrever neles, certo? E não me tranquilizava que o anátema do Bruno de Carvalho fosse contra "jornais desportivos". Como horas depois se confirmou, isto de proibir é como as cerejas... 
Corri ao Twitter do Casanova a saber se ele suspendia a sua escrita no Expresso mas o meu ídolo nada dizia. Ele próprio estava a digerir a notícia de que um sportinguista também não podia fazer links dos textos dos jornais. Apesar de abalado, ele disse que ia escrever no Twitter, "sem os ler", sobre os textos dos famigerados jornais. 
Então, a minha esperança renasceu: talvez ele continue a escrever os seus textos no Expresso, mesmo sem os ler - ainda assim serão bem acima da média. 
E depois desta esperança acabo esta crónica com uma certa lascívia: vai ser excitante imaginar os sportinguistas como os recasados do cardeal. A comprar A Bola, mas a não a ler; a espreitar pelo canto do olho o Pedro Guerra, mas a não o ouvir. O pecado é tão enredado e tentador...
DN de 19 Fev 18

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22.1.18

Disto hoje não se vai ouvir falar

Por Ferreira Fernandes
Estou em Luanda. Conheci um homem que persegue os emails que ele próprio envia. Palmilha Angola a estudar as estradas a construir. Depois manda um email para o ministério correspondente. Logo a seguir, vai lá. Diz à secretária: já recebeu o meu email? "Já." Já fez seguir? "Ainda." Mana, faz lá seguir... "Vou fazer." Mana, não espera, faz agora. 
Depois, o homem sobe ao chefe de gabinete: já recebeu o meu email? "Acabei de receber." Já mandou para o diretor? "Vou mandar." Manda agora... "Ok"... 
E assim por diante, o homem que ajuda a construir estradas, sobe escadas. Ele usa a @ tal como Fidípides, o maratonista de Atenas, usava as pernas: perseguindo, para o seu trabalho prosseguir. Bendito. 
Como aquela quitandeira luandense que ontem vi subir uma calçada com uma carta na cabeça. Em cima da carapinha, um tabuleiro, em cima, um envelope e em cima deste uma pedrinha para a carta não voar. Ela levava sacos de fruta e os dedos estavam impróprios para levar a carta à mão. Então, ela arranjou-se para cumprir o que a encarregaram de fazer... 
Eram histórias destas, de sal da terra, que eu gostaria de contar da minha terra. Histórias que nunca se ouvem, não é? Angola está sequestrada por uma ideia verdadeira e desgraçada, mas incompleta — se a julgamos só por ela, treslemos aquele país de gente que merece respeito. E de quem nunca se ouve falar. 
No sábado, na televisão do Estado, a TPA, ouvi um debate entre quatro mulheres - uma socióloga, uma jornalista, uma ativista e uma advogada. Eu já ficaria encantado só de ouvir a minha língua falada da forma tersa e limpa, como o meu querido amigo Joaquim Pinto de Andrade me ensinou ser próprio dela. Mas foi mais do que isso. As quatro mulheres discutiam a corrupção. 
Uma lembrou que falar de corromper pode deixar só vaga ideia, urge é falar de factos: corromper é menos escolas, uma indecência! 
Outra avisou que já passou o tempo da pedagogia, hoje quer-se saber quem e o quê. 
Outra, ainda, falou do inominável que é "roubar fundos do combate à malária." E outra fez o retrato de corpo inteiro da corrupção. Era o saque do bem comum, era a irresponsabilidade mas era também a traição. Uma nação a construir-se precisa de orgulho: "Outros países fazem-nos doações, coro de vergonha quando alguém de nós rouba até o que nos dão." Eu sorri, agradecido. 
Quatro mulheres desencarceravam Angola da corrupção — não acabar com esta, mas lembrar que aquela é muito mais. Por exemplo, uma mulher com uma carta à cabeça subindo a calçada.
DN de 22 Jan 18

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11.1.18

Manifesto pela canibal

Apelo à legalização da canabis, numa loja de brinquedos, em Lagos - Foto CMR
Por Ferreira Fernandes
Eu estou bem colocado para dar um pontapé no Pedro Marques Lopes caído no chão: somos amigos. Ele é amigo, dos melhores, daqueles que se conhecem tarde e se escolhem. Amigo com quem discuto tanto e com o consolo, meu, de ficar quase sempre claro, para mim, que sou eu a ter razão. É bom ter amigos assim. 
Ontem, o Pedro escorregou como só ele, de forma original e com estardalhaço, com a ponta dos dedos. Escrevia ele um tweet sobre a momentosa questão expressa num título do Público, "Carta aberta pede legalização da cannabis para fins medicinais", e, então, ele postou: "Só há uma explicação para a canibal ainda não ser legal para fins terapêuticos: uma imensa ignorância." 
Eis um assunto (refiro-me ao tratado pelo jornal Público) sobre o qual eu não tinha nada para dizer, mas com a incómoda suspeita de falhar a ocasião de defender uma causa justa. Porém, outro assunto (refiro-me ao tweet do Pedro) veio libertar-me da indecisão. Sei que vou aproveitar-me da partida que o corretor ortográfico lhe pregou e vou juntar-me à turba (quase toda risonha e simpática, aliás) que gozou ontem com o Pedro e a sua defesa de uma insólita causa: a inalienável urgência de tornar a canibal legal para fins terapêuticos. Em doses pequenas, simples mordidelas, também acho que a canibal devia ser legalizada. Até digo mais, não vejo a necessidade de qualquer doença para o consumo, moderado, da citada mesinha. O tipo de marcas que a canibal deixa é imediato, ao contrário do álcool que só tarde nos previne com um nariz vermelho, já quando é irremediável a decomposição de órgãos internos. Prevenidos com as dentadinhas dela, à canibal nunca a deixaremos chegar ao fígado. 
Parabéns, pois, querido Pedro, pelo manifesto que ousaste, embora sem quereres. E voltando ao assunto de que eu não sabia como escrever por ignorar tudo, o aparecimento da canibal vem acompanhado de uma vantagem sobre a canábis: não vejo como aquela traga qualquer dependência.
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Um Ponto é Tudo - DN 11 Jan 18

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9.1.18

O desbaste Santana-Rio

Por Ferreira Fernandes
Nada mais incerto do que o prazo de um governo. Uma solução governamental nunca pode dormir sobre as boas notícias, mesmo sendo elas sobre aquilo que conta para toda a gente, os índices económicos. Um sopro de incêndio estival - ou, pior, outonal - pode abalar todos os otimismos. António Costa sabe disso, ficou outro depois de Pedrógão e a maldita sequela. Então, porquê o vazio de oposição, desde que o PSD perdeu a liderança? Refiro o vazio do PSD, não conto com o arreganho do CDS, que Assunção Cristas (apesar da performance para a Câmara de Lisboa) não corre para primeira nem para segunda, mas tão-só para um maior bocado de menos de metade da direita. Então (quero eu dizer, não havendo nada mais incerto do que o prazo de um governo), tendo Passos Coelho abandonado, porque não houve candidatos a sério a substituí-lo? Santana é refogado e Rio é acanhado. E a campanha mostrou, deste, não mais do que julgávamos e, daquele, ainda pior do que nos lembrávamos (já nos tínhamos esquecido do que ele em eleições era capaz). 
À direita, a desesperança; à esquerda, o desejo errado na política: "Espero que ganhe, nos outros, o pior..." É que o pior dos outros nunca é garantido ser o adversário mais frágil contra nós - e, no caso de ele nos ganhar, perde o país. 
Contra este dilema geral, porquê, num partido que se arrisca sempre a ganhar, não houve entre os bons um calejado que agarrasse, enfim, a oportunidade? Ou um novato que a ousasse já? 
Chateia começar desasado 2018 quando as eleições são só para o ano.
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DN de 9 Jan 18

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8.1.18

Um regresso de saudar!

Entre 20 de Dezembro de 2009 e 3 de Novembro de 2014 o Sorumbático publicou nada menos do que 1075 crónicas de Ferreira Fernandes, como "autor convidado" [*].
A certa altura, deixaram de estar online, perdi o seu endereço de e-mail e número de telemóvel, e saí de Lisboa (onde às vezes nos encontrávamos, num café perto do Diário de Notícias).
Agora, vejo que é possível retomar a publicação... e aqui estamos!
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[*] - Estão todas aqui disponíveis, bastando clicar na "Etiqueta F.F" que se vê em rodapé.

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A manada desceu à cidade

Por Ferreira Fernandes
Não nos deixemos influenciar pelo grupo patibular escoltado por robocops de capacete e viseira, pela rua pública aos gritos ou, mais assustador, marchando em silêncio. 
Na luz molhada do fim da tarde parecia o fascismo de botas cardadas conquistando a cidade. Parecia, mas era só uma manada. Uma manada pendular, de um para outro estádio da Segunda Circular, segundo o calendário desportivo. 
Desportivo, ofende tanto dizer isso... Tanto quanto dizer da manada que é do futebol. Ela desmente a tradição daquelas cores defrontando-se, que já foram de Espírito Santo e Peyroteo, cada um em nome do vermelho ou do verde, e da elegância de Jordão que fez sonhar, à vez, os fãs dos dois clubes. 
Como pode aquela manada reclamar-se do flash que é o Gelson ou, se o percurso fosse inverso, do saber fazer do Jonas? Como podem os brutos usurpar, dos artistas, a atenção? 
Ontem, uma escola fechou mais cedo por ser vizinha da Luz e outra, também por jogo, perto do estádio do Boavista. A miúdos de uma e de outra abrir-se-iam os olhos de deslumbre se vissem passar um jogador, mas tiveram de recolher a casa por causa do tropel da manada. As televisões foram interrogar uma diretora e foi constrangida que ela disse não querer expor os seus alunos ao perigo... 
Pois nem assim se foi perguntar aos da manada se não tinham vergonha, nem à polícia o despropósito de guardarem chantagistas. Nem ao sr. Vieira e ao sr. Carvalho se pediram explicações pelo repetido absurdo. 
Enfim, as manadas existem e ocuparam a cidade. E muita sorte têm as escolas por, ao fechar, não serem acusadas de causar danos psicológicos às botas cardadas ou cascos ou lá o que é.
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"Um Ponto é Tudo" - "DN" 4 Jan 18

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3.11.14

Oiçam, jornalistas: não se faz

Por Ferreira Fernandes 
O destaque dizia: "Estava sozinho num estado deplorável" - [diz] testemunha." É verdade e é mentira, como se vê nas duas páginas abertas do jornal. José não estava sozinho, estava acompanhado por canalhas que se aproveitaram dele inconsciente para o filmar. O facto imoral - não se abusa de um homem inconsciente - estava demonstrado pela indignidade do jornal que espalhava seis fotos do desacordado José, retiradas do vídeo. Testemunha não era quem falou - testemunha, pessoa que atesta a verdade de um facto, foram todos os leitores com o jornal nas mãos. Testemunha não era, como diz o jornal, "um dos rapazes que partilhou com Zeca uma das últimas noites de excessos, antes do ator decidir internar-se numa clínica de desintoxicação". Esse rapaz é só um chantagista que foi vender as imagens ao jornal, hipótese um, ou um tolo que em nome do sacrossanto direito de todos sabermos tudo foi dá-las ao jornal, hipótese dois. Hipótese dois que o jornal sugere, ilibando o rapaz da venda porca, mas não o iliba a si próprio, jornal, de meter nojo. Deplorável, enfim, não é a palavra certa. Deplorar é respeitar a fraqueza, e não o fizeram com José. Não sei quem ele é, além do que o jornal apresentou: um ator de telenovelas que anda perdido e se internou numa clínica de desintoxicação. As páginas, e não foram só aquelas duas, que o jornal dedicou àquele homem, de quem não ignora a aflição e o grito de socorro, não se fazem. Não se fazem, ponto.
«DN» de 3 Nov 14

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29.10.14

Sobre fobias que atacam coisas boas

Por Ferreira Fernandes
As coisas más fartam-se de nos ensinar coisas. Graças às guerras sabemos geografia, de Donetsk a Kobani, como nunca teríamos imaginado e com os ataques de clowns em França descobrimos o que é coulrofobia, o medo de palhaços. Que os palhaços podem meter medo já sabíamos desde a boca rasgada do Joker, no Batman, ou desde o romance de horror It, sobre um palhaço que vive nos esgotos de uma cidadezinha americana e mata crianças... Ainda não sabemos é se já havia coulrofobia antes do escritor Stephen King ter ido por aí ou Jack Nicholson ter decidido ser mais uma vez excelente. Um dia, se calhar, vamos descobrir que existe o pânico do sexo, um medo que bem poderia chamar-se teresoguilhermofobia, uma fobia que talvez seja antiga mas que o mau gosto da madrinha e os seus acólitos da Casa dos Segredos têm aprimorado como ninguém. A questão é: nem as coisas boas, como palhaços e sexo, podem dizer-se imunes a gente que estrague tudo. Hoje em dia, há crianças e adultos no Sul de França cujo maior receio é encontrarem na garagem um nariz vermelho, tal como em muita cama portuguesa o pesadelo é ser assaltado pela ideia duma metralhadora falante a instigar coitados à canzana. Sobre se o medo de palhaços é para continuar, não sei. Sobre a outra fobia de que falei, também não. Receio é que esta última traga mais outra: a anatidaefobia, o medo de ser observado por patos. De facto, o número de patos a querer ver aquilo é de meter medo.
«DN» de 29 Out 14

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27.10.14

A nossa bandeira e os trapos deles

Por Ferreira Fernandes 
Há dias, um casal de turistas - ela de niqab, só uma frincha para os olhos - estava na primeira fila da Ópera de Paris, na Bastilha. Cantava-se La Traviata, de Verdi. "La traviata" é Violetta, uma cortesã apaixonada pelo jovem burguês Alfredo, que também a ama. Sofrem pressões familiares e ela, para o proteger, afasta-se e morre tuberculosa. Um dramalhão? Certo, mas sobre a liberdade (no caso, de amar) que até uma mulher de má vida tem direito. Em 1853, quando estreou a ópera, Verdi escrevia a um amigo: "Ela é livre, ela ama, como eu, uma vida solitária que a livra de toda a obrigação..." Falava da sua criação, de Violetta? Não. Verdi falava da mulher com quem vivia, Giuseppina Strepponi, uma mulher livre, já com dois filhos, e com quem o compositor irá acabar os seus dias. La Traviata é um monumento da humanidade, beleza imensa mas também, só por existir, uma ópera que combate preconceitos e injustiças que são tenazes contra as mulheres. No fim do primeiro ato, naquela La Traviata, na Bastilha, os membros do coro viram o insulto que tapava a mulher do niqab. Alguns recusaram cantar - e o casal foi expulso (há uma lei francesa que proíbe o niqab em público). Isto é, houve dois lados. O costume é só o do niqab, com a sua propaganda - trapos ostensivos - da submissão da mulher. Por uma vez, uma cidade europeia entendeu que tem uma luta política e pública a travar. Os direitos iguais da mulher são a maior das nossas bandeiras. «DN» de 27 Out 14

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24.10.14

A realidade nas prateleiras de brinquedos

Por Ferreira Fernandes 
A série televisiva Breaking Bad (Rutura Total) passa-se no Novo México seco, duro e magnífico, como a série. O professor de Química Walter White, ao saber ter cancro, torna-se produtor de drogas (metanfetaminas) para deixar alguma coisa à família. Arregimenta um ex-aluno, Jesse, e é um dealer infeliz, numa história muito premiada. Um dia destes, uma mãe da Florida entrou numa loja de brinquedos Toys "R" Us e, em estantes com Barbies, viu também bonecos de Walter e Jesse com batas e máscaras de laboratório clandestino, com armas e sacolas, para os dólares do tráfico ou para os comprimidos ilegais... A mãe protestou, fez-se uma petição e o comediante Conan O"Brien, que tem um programa diário de TV, ironizou: "Se eu vivo na Florida e quero que os meus filhos tenham contacto com vendedores de droga, deixo-os brincar na rua, não os levo a uma loja de brinquedos..." A Toys "R" Us, cadeia de lojas legal, não querendo passar por cadeia com bandidos dentro, tirou os alucinados bonecos das suas prateleiras. Por falar em laboratório, esta história confirma as experiências contraditórias a que somos sujeitos. A mesma sociedade que tenta criar uma bolha protetora à volta das crianças (proíbe canções como Atirei o Pau ao Gato ou expurga os livros de Mark Twain dos seus termos antigos), estende-lhes brinquedos com o pior que a rua tem. Podem fazer--se várias teorias sobre isso. Mas nenhuma ensina mais do que saber que é assim e assim vai ser.
«DN» de 24 Out 14

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23.10.14

Matar conseguem mas a suicidar falham sempre

Por Ferreira Fernandes
Vi ontem que um jornal fez com o homem que matou a mulher um daqueles "sobe e desce" com setinhas. O homem, engenheiro e de Soure (digo isto porque, sendo tantos os homens que matam as mulheres, se não damos minúcias, perdemo-nos), além da mulher, matou uma filha de 16 anos e feriu outra, de 13. As setas são úteis para se entender rapidinho se é mau ou bom o que um sujeito fez. Por exemplo, o ministro poupou: seta para cima. O guarda-redes deu um frango: seta para baixo. As opiniões são controversas, difíceis de pesar. São como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo. Um homem que mata a mulher e uma filha, e fere outra, e tudo com várias facas, três ou quatro, porque iam-se partindo, esse sujeito, pois, foi colocado pelo jornal sob a dúvida: sobe ou desce? Desce, o jornal pô-lo a descer. Acho que foi uma decisão acertada. Outra coisa eu não esperaria de um jornal que narra estas coisas do quotidiano ordinário com cuidadas análises psicanalíticas: o homem tinha "pouca autoestima". No fim do artigo fui informado de que ele "depois de matar a família teve intenção de se suicidar mas não conseguiu." É sempre assim... Eu, que sou um bruto e dou pouca atenção às tais análises, já aqui propus numa que se fizesse uma campanha nacional para se inverter o método: explicar aos homens do meu país que devem, primeiro, suicidar-se, e só depois tentar matar as mulheres. Ah, se eu soubesse explicar isso com setinhas... 
«DN» de 23 Out 14

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22.10.14

As metáforas de Passos e chorar por mais

Por Ferreira Fernandes 
Antes das últimas eleições legislativas, em janeiro de 2011, Passos Coelho disse dos seus: "O PSD não está cheio de vontade de ir ao pote." Ontem, à espera das próximas eleições, Passos Coelho falou dos outros, "os que olham agora gulosamente para as eleições". Assinale-se a coerência lambareira da análise. Vamos a caminho de quatro anos e o pensamento do primeiro-ministro não sai da papila gustativa. A política externa? "Hummm, crepes Suzette..." E quanto à Defesa? "Brigadeiros, claro." E a dívida pública, senhor primeiro-ministro? "De comer e chorar por mais!" Não é que eu não goste, gosto. Mas não é a ideia que tenho de debate eleitoral, ver qual o político que mais passa a língua pelos lábios. Preferia que a política pusesse sobre a mesa mais ideias e menos sobremesas. Além de que, com a má fama que o açúcar começa a ter na política da Saúde, eu não entendo a insistência de Passos Coelho em ser acusado do aumento da diabetes. Ontem, frase completa usada para repetir a que já se vai tornando habitual política de faca e garfo era contra aqueles que "sabem alimentar-se da desgraça e que olham gulosamente para as eleições". Como veem, é uma preocupação com o dar ao dente própria de um país subalimentado. Já enjoa. A única justificação que vejo é a de lembrar que nem todo o setor bancário está em crise. O Banco Alimentar contra a Fome tem em Passos Coelho um propagandista incansável.
«DN» de 22 Out 14

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20.10.14

Enquanto o lobo não vem

Por Ferreira Fernandes 
Ontem, o El País tinha uma página sobre a enfermeira que está quase curada do ébola. Falando do marido dela, também isolado mas sem ter sido infetado pelo vírus, o jornal madrileno fez este destaque: "O trauma sofrido causará um stress - diz um psiquiatra". Ontem, também, o DN publicou uma página sobre um português que, suspeito de ter ébola (rebate falso), foi fechado durante duas horas numa sala do Hospital Francisco Xavier onde nem tinha uma cadeira. Os povos felizes (dos quais se diz que não têm História), são assim, têm a oportunidade de se assustar com tangentes. Não é que não tenham histórias, têm-nas. Ter sido isolado, mesmo só por precaução, e ter a mulher com ébola, mesmo que em recuperação, é traumatizante; febril e ter sido colocado numa sala hospitalar sem uma cadeira, é duro. Mas pertencem à categoria dos dramas que se ultrapassam. Não são tragédias, coisas definitivas de más. Esperemos ficar só por dramas e não cair nas tragédias. Mas era bom, entretanto, sabermos que estas, as tragédias, existem. Basta ver fotos da Libéria e da Serra Leoa. É a dimensão delas que nos leva a pensar que nos dramas de Madrid e de Lisboa, no isolamento de dias do marido da enfermeira e no isolamento de duas horas do português há um bom sinal. Significa que já há quem saiba que há, mesmo, o perigo de tragédias. Alguns já sabem. Mas saberemos todos que há tragédia quando os jornais não dedicarem uma página nem ao stress nem à falta de cadeira.
«DN» de 20 Out 14

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16.10.14

Mal-aventurados os que não têm ferrão, só incitam

Por Ferreira Fernandes
O zângão não trabalha, como a abelha operária, nem tem ferrão como ela para se defender. Só lá está para fecundar. Fica assim explicada a tradução: em inglês, zângão é drone. Para fecundar chatices, picar cizânia, parar um jogo de futebol nos Balcãs, nada como um zângão a arrastar uma bandeira de nostálgicos da "Grande Albânia", sobretudo se for num estádio de nostálgicos da "Grande Sérvia". Como todos que não têm ferrão nem trabalham, o drone que interrompeu, na quarta, o Sérvia-Albânia é perigoso. Acirra incêndios que não pode controlar. Eu vi kosovares albaneses a mostrar-me a foto da casa que deixaram para trás quando atravessaram a fronteira e ouvi um sérvio num convento a abarrotar de refugiados a implorar-me para ir buscar o irmão incapacitado que deixara em Pec, cidade abandonada. Não gosto de quem manipula aviõezinhos brincando com isto. Fazia sentido a primeira versão que apareceu do incidente: seria Edi Rama, irmão do primeiro-ministro albanês, Olsi Rama, a manipular o drone, sentado na tribuna de honra do estádio. Como Olsi vai a Belgrado em visita de estado para a semana, parecia-me lógico, caso o irmão quisesse resolver um problema de herança. Sabe-se, desde há exatamente um século, como certos estudantes sérvios recebem as visitas de estado. Mas não se confirmou nem a responsabilidade de Edi, nem o contencioso de heranças entre os irmãos. Resta a estupidez, simples. É ainda mais perigosa.
«DN» de 16 Out 14

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15.10.14

Amanhã é sempre quando as coisas boas acontecem

Por Ferreira Fernandes 
O Citius atrapalhou-se mas, ontem, reanimou--se depois de ter desmaiado durante 44 dias (valor em linguagem judiciária correspondendo a 90 minutos mais cinco de prolongamento). Que aconteceu? Quaresma rasgou pela direita, centrou e Cristiano Ronaldo sentenciou. Mais cinco segundos e iam os processos todos para o maneta... 
O défice neste ano vai para 4,8 por cento - e upa, upa, quando for acrescentado todo o buraco do BPN e a fossa de Mindanau do BES - mas, ontem, o primeiro-ministro Passos Coelho anunciou um défice de 2,7 por cento para 2015. Que aconteceu? Quaresma rasgou pelo corredor, assistiu CR7, que acabou em lucro... 
As aulas começaram há um mês, falhou um algoritmo, milhares de alunos ficaram algo sem ritmo nem professores mas, ontem, o ministro Nuno Crato declarou: "Não vamos fazer experimentalismos na preparação do próximo ano letivo." Que aconteceu? Quaresma foi por ali fora, serviu Cristiano e este deu a lição do costume mesmo em cima da sineta do fim da aula... 
Temos assim que as coisas estão a compor-se. Às vezes parece tudo paradinho ou, pior, malparado, mas eis que nos últimos segundos tudo se resolve. Uma corrida. Um centro feliz. Uma cabeça maravilhosa. Pelo menos no futebol pode ser assim. Na gestão do país as coisas são um pouco diferentes: prognósticos felizes só antes do fim do jogo.
 «DN» de 15 Out 14

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14.10.14

Palavras por não haver nada a dizer

Por Ferreira Fernandes 
Extraordinária discussão. O banco público Caixa Geral de Depósitos teve de meter dinheiro na solução para o descalabro do BES. Quando o Novo Banco for vendido, se o for por menos do que os bancos lá meteram - e assim vai ser - haverá perdas para a CGD. Se calhar era essa a única solução, sou um boi a olhar para o palácio do Novo Banco. O que quero é ruminar o fluxo das palavras que nos vão dando. Então, quando apresentou a sua solução, aligeirando os problemas que ainda não tinham chegado (quem sabe se não aparecia entretanto um milagre?...), o Governo disse que não haveria "qualquer risco" para os contribuintes. Entretanto, não chegou o milagre. E as palavras foram mudando. 
Há dias, a ministra das Finanças admitiu que a CGD pode perder dinheiro com o Novo Banco. Oposição e jornais concluíram que sim, afinal iria haver custos para os contribuintes. Mas a ministra, depois de anunciar a pancada inevitável, não assumiu que os contribuintes sempre perderiam. 
A seguir, Passos Coelho confirmou a perda prevista para a CGD e abriu mais uma portinha: "Nesse sentido, de forma indireta pode haver algum prejuízo." Mas, reparem, nunca o sujeito, "contribuinte", está junto à ação, "vai perder". 
Ontem, esse jogo de claro-escuro foi iluminado por uma lição de Finanças de Cavaco Silva. Definiu a CGD e a sua atividade mercantil e nós, nada a ver. Às vezes a luz ofusca, e é essa a intenção. Quem me dera a explicação simples: paguem e calem-se
.«DN» de 14 Out 14

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13.10.14

Em tempos de peste não se limpam armas

Por Ferreira Fernandes
Enfim, uma vacina contra o ébola! Não, ainda não é daquelas que se injetam ou engolem e imunizam da doença. É só uma vacina tipo pequeno passo que começa a lavar-nos a cabeça do folclore com que esta possível catástrofe tem sido tratada. A Serra Leoa recebeu 750 soldados e centenas de voluntários médicos e enfermeiros britânicos. Na sexta-feira passada, o Departamento de Saúde e o Ministério de Defesa da Grã-Bretanha informaram esses militares e pessoal de saúde que não têm garantido avião de volta se contraírem a doença. Como noticiou o jornal The Daily Telegraph, os infetados serão tratados em hospitais locais e só serão repatriados "caso a caso". No combate a doenças é essencial a prevenção, certo? Pois aí estão os mais interessados devidamente prevenidos! Os povos iludidos podem ter um ministro aldrabão que, prometendo manter os lugares dos professores, diz, primeiro, "mantêm-se" e, dias depois, desdiz: "Eu não disse manter-se-ão." O problema de colocação dos professores portugueses é um resfriado que ainda admite truques de tempos verbais. Já o ébola não vai lá com gramática ardilosa. Daí o governo britânico ter sido claro e não prometer mais do que pode. Se ainda não é a cura da doença, é um cuidado primário de saúde mental notável: quando se deixa para trás soldados e enfermeiros (e há alturas, ao que parece, que tem de ser), compreendemos quão desproporcionadas são as manifestações por um pobre cão.
«DN» de 13 Out 14

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9.10.14

O vírus de não aguentarmos vírus nenhum

Por Ferreira Fernandes 
Dois missionários espanhóis, com ébola, são repatriados de África, internados no Hospital Carlos III, o centro de referência em Madrid para aquela doença, e morrem, o último a 26 de setembro. Portanto não foi ciclone que caiu sobre Madrid mas ação concertada e com tempo. Teresa, uma auxiliar de enfermagem, teve contacto, tal como 30 outros colegas, com os dois doentes. Não trago para aqui os equipamentos e procedimentos, deixo isso para os epidemiologistas. O que me interessa, aqui, é que Teresa foi limpar no dia 26 o quarto do segundo doente falecido e a 27 entrou de férias (e os colegas foram à sua vida). Ela foi a entrevistas de emprego, esteve com amigos, vizinhos e marido, foi depilar-se à cabeleireira, por ter febre chamou uma ambulância para o hospital do bairro, foi recebida nas urgências e a ambulância foi à sua vida buscar mais doentes de luxação no ombro. Onze dias na grande cidade, com o vírus de uma peste para a qual não se conhece a cura... Até voltar para de onde não devia ter saído, o Hospital Carlos III. 
A questão qual é? É esta: o pessoal dos Médicos sem Fronteiras, em África, depois do último dia de contacto com um doente de ébola, passa 21 dias isolado e só depois sai da zona de quarentena. A Europa não está preparada para guerra nenhuma e, naturalmente, para esta também não. Os do topo talvez não saibam mandar. Mas há mais grave. Todos já esquecemos esta condição: há coisas que têm de ser.
«DN» de 9 Out 14

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8.10.14

Um cão vivo não vale a hipótese de um homem morto

Por Ferreira Fernandes 
Um Todd qualquer da Carolina do Sul escreveu no Twitter que, em caso de aldeia infetada com ébola, arrasa-se com napalm. Estes casos (não falo de ébola, mas dos Todd) tratavam-se com o efeito profilático do par de bofetadas mas isso caiu em desuso. Mas a crise do ébola também tem o mérito de nos darmos a conhecer melhor. Ontem, nos comentários dos jornais El Mundo e El País, o assunto mais badalado era a sorte do cão da enfermeira infetada. O marido dela fez uma denúncia pública por as autoridades sanitárias de Madrid quererem sacrificar o animal. Dito isso, o dono exclamou: "Será que também me vão sacrificar a mim?" Segundo o tal Todd, sim, era o que lhe aconteceria - mas a opinião do americano maluco é muito minoritária. Já a opinião de que a vida do cão deveria ser tratada com igual obrigação que temos para com a vida dos homens teve muitos adeptos. Disseram centenas de comentários que há que defender a vida do cão mesmo à custa da hipótese de infetar pessoas. A confusão do dono, traçando uma igualdade de valor entre a sua vida e a do seu cão, é compreensível, afinal a incúria do hospital está a fazê-lo passar horrores. Já tanta gente a pensar o mesmo espanta. Espero, sinceramente, que essa gente continue a pensar assim. Será sinal de que a crise do ébola passou. Pois, caso ela aperte, estou a ver essa gente a aproximar-se mais da tese do Todd do que continuar tão amante de cães, custe o que custar.
«DN» de 8 Out 14

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