9.12.22

A nostalgia do passado e a confiança no futuro

Por Joaquim Letria

A redescoberta da ciência permitiu-nos ver com outros olhos a realidade que nos rodeia e traçar o caminho da renovação do pensamento.

A redescoberta da Antiguidade nunca nos fechou os olhos, como a prodigiosa criação das artes plásticas ficou para o provar, ao mesmo tempo que o sentido criador da palavra nos levou a estudar e a desenvolver, conhecendo novas línguas que forjaram uma literatura de imensa eficácia criadora, sem que por isso traíssemos a nossa devoção pelas línguas antigas, designadamente pelo latim e pelo grego.

O desenvolvimento do cisma religioso desencadeia novos tempos de guerras e de preocupações que nos arrastou para a modernidade que serviu de ante câmara ao mundo dos nossos últimos séculos.

É possível que o sonho dos humanistas contivesse erros fundamentais e fosse irrealizável, como a História o demonstrou. Mas tal não impede que se sinta um inenarrável prazer nas incursões que pelas passagens que por elas possamos fazer, e que nos façam acreditar em algo de harmonioso, inteligente, sensível e pleno, que  possamos sentir neste período o qual não podemos permitir que nos ponha a olhar para a História com nostalgia pelo passado em vez de com confiança no futuro.

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2.12.22

Calamidade Pública

Por Joaquim Letria

Nunca percebi se gostavam dele por ser muito bem educado e simpático, se por causa da mulher lhe ter fugido com um diplomata grego, deixando-o com três filhos por criar e um par de cornos que não havia cão nem gato que não comentasse.

A este meu vizinho só sucediam desgraças. Depois da mulher o ter abandonado veio a falência. O sócio fez um desfalque digno desse nome na empresa de representações de ambos, onde andara a roubar durante anos, e fugiu para o Brasil com uma professora de liceu.

Os filhos também não ajudaram. O mais velho, que era o orgulho do pai por ser muito bom aluno de economia, começou a derrapar e acabou conhecido pela alcunha de “Didi Maluca”. A menina, carinhosa e simpática, foi estudar para o Porto, arranjou um engenheiro e nunca mais quis saber do curso nem do pai. O mais novo, que queria ser baterista, foi viver com a mãe para a Grécia onde não tinha de trabalhar e o padrasto lhe oferecia muitos presentes.

Foi nesta fase de desencanto, por se sentir abandonado pelos filhos, que o meu vizinho colapsou. O tio, de quem falava muito por ser riquíssimo e ele ser seu único herdeiro, casou-se com uma apresentadora de TV 30 anos mais jovem. O solar brasonado no Norte, do qual mostrava sempre muitas fotografias, ardeu por causas não apuradas e sem seguro . E até o DS 21 de volante branco e estofos de couro caiu na Boca do Inferno enquanto comia marisco no Guincho com um cliente.

Tomou então a decisão drástica de se suicidar. A bala de 6,75 da pistola que guardava no cofre atravessou-lhe a cabeça e estoirou o Columbano pendurado na parede, deixando a obra que se orgulhava de possuir sem possibilidade de restauro. Um neurocirurgião operou-o com sucesso, dando-lhe alta sem mexer o braço e a arrastar a perna esquerda, com a boca ao lado e crivado de dívidas.

Quando puseram o seu andar à venda eu soube que ele fizera uma tentativa desesperada de o considerarem zona de “calamidade pública” mas a pretensão foi negada. Morreu pouco tempo depois, num lar de idosos onde passava o dia a jogar dominó.

Portugal hoje faz-me lembrar esta figura trágica da minha juventude, devastado por si próprio, desunido, corrompido, quebrado, democrata “dominus vobisco”.

Mas não se pode dizer mal! Não parece bem nem é politicamente correcto. A bem da Nação, assim foi decretado a tantos de tal.

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25.11.22

A TROPA

Por Joaquim Letria

Nasci e cresci no Alto de Campolide, numa confluência de quartéis que hoje já não existem. Eram Caçadores 5, Metralhadoras 1 e Artilharia 1 que, no tempo das golpadas da Primeira República, se opunham ao Quatro de Infantaria e ao Infantaria 16 de Campo de Ourique.

Naqueles tempos, ninguém roubava armas dos quarteis e as munições dos paióis caíam com abundância no jardim e quintal da casa onde nasci. Ainda me lembro de obuses por rebentar que o meu avô tornava inofensivos, fazendo com eles, em brilhante cobre, jarrões para flores ou bengaleiros para se guardar chapéus-de-chuva.

Recordo-me do aproveitamento que abertamente se fazia dos favores e privilégios dos oficiais. Tudo à vista de todos. Era a vida… os coronéis viviam em vivendas dentro dos quartéis, os impedidos iam às compras para as senhoras dos oficiais e iam esperar os meninos do comandante à escola, carregando-lhes as pastas de regresso a casa, enquanto os condutores levavam as senhoras ao cabeleireiro. Aquilo é que eram Exército e militares superiores!

O resto não existia, eram as praças a cheirar a cotim e botas cardadas, que se “faziam” às empregadas domésticas das redondezas e os sargentos carregados de sacrifícios para meterem os filhos a estudar. Era a prazenteira vida das “criadas e magalas” que o teatro levava em triunfo nas mais vistosas revistas do Coliseu e Parque Mayer, como no “fado do 31”.

Naqueles tempos os oficiais superiores andavam fardados, os de cavalaria montados em reluzentes botas altas com esporas. Não era como agora que não vemos militares de uniforme, não sei se por vergonha, mas a verdade é que não se vê uma farda número um. E quando vemos os generais a assistir a um desfile ou numa reunião com o Governo, parecem mais bombeiros voluntários da Arrentela ou flautistas da Timbre Seixalense do que garbosos generais do  Estado Maior das Forças Armadas de um  país fundador da NATO.

Os brilhantes carros pretos eram guiados por condutores que cumpriam o serviço militar obrigatório. Tinham as matrículas MX ou ME, ministérios da Guerra ou do Exército, que não enganavam ninguém quando esperavam as senhoras à porta do Grandella, ou levavam os meninos ao liceu. E assim viveram felizes até ao eclodir da guerra colonial…

O meu pai nasceu na Porcalhota, que hoje se chama Amadora, porque o meu avô mandou a família para o campo, para a lhe poupar  os  sobressaltos dos golpes de Estado e não levar com os estilhaços duma  granada que sobrevoasse Campo de Ourique para aterrar em  Campolide, ou duma morteirada de Cavalaria 7. Ficaram todos ilesos para eu vir a nascer mais tarde, em plena II Guerra Mundial...

Nenhuma situação deixava prever o roubo de armas de guerra do exército, ou pistolas dos cívicos da Polícia de Segurança Pública daquela época. Havia sentinelas nas guaritas que se ouviam pelas noites dentro:” sentinela alerta!”,”alerta está!”,”passe palavra”…

Afinal de contas, mandavam-nos matar-se uns aos outros mas tinham muita graça.

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18.11.22

As fofas prisões dos sofás

Por Joaquim Letria

O que acontece num sofá não tem paralelo.

Verdade que se pode igualmente fazer noutro sítio mas não é a mesma coisa do que fazê-lo num sofá.

Pode-se amar, comer, dormir, ler jornais, reler livros, perder o slip, a virgindade ou a paciência, pensarmos que o mundo está louco, irmos à guerra, ouvirmos os marginais, visitarmos os bairros de lata, escutarmos o Presidente a falar só connosco, ganharmos o totoloto, acharmos que a vida está cada vez pior, pensarmos que temos muita sorte de vivermos aqui.

Tudo se encontra e se pode fazer num sofá. O problema é livrar-nos da sua dependência. Nada se perde num sofá. O problema é livrar-nos da sua dependência, a dificuldade reside na dificuldade que reside na capacidade necessária para deixar de ver, ou passar a ignorar, as coisas e loisas mais raras da realidade que escolhem e insistem em nos oferecer, de diversos ângulos e em câmara lenta, de modo a ficarmos só com a realidade alternativa  e virtual, que nos resta e, essencialmente, nos interessa.

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4.11.22

Deixa-te de fitas, pá!

Por Joaquim Letria

Foi Voltaire quem disse que, para o escritor, a maior desgraça era ter de se confrontar com o julgamento dos imbecis.

Escreveu ele que isso o afectava mais do que “ser invejado pelos seus pares, ser vítima das intrigas, ser desprezado pelos poderosos”.

Pior ainda o fazia sentir esse julgamento quando “partia de alguém em quem o fanatismo se unia à estupidez”.

Creio que este julgamento se deve ao facto de, no tempo de Voltaire, nem todos os estúpidos serem fanáticos nem os fanáticos serem estúpidos. Hoje, ambos os predicados são indissociáveis: não há fanático que não seja estúpido, nem estúpido que não seja fanático.

No que eu não acredito é na infelicidade de Voltaire perante a opinião dos imbecis, dos fanáticos e dos fanáticos imbecis.

É evidente que seria preferível que não existissem semelhantes seres. Mas já que existem por obra e graça do Criador, penso que Voltaire não seria excepção à regra que se aplica a todos que escrevem livros, artigos de opinião ou crónicas de jornal.

Custa-me acreditar que ele resistisse ao prazer de extorquir aos imbecis fanáticos bem como aos fanáticos imbecis a raiva destes ou as frustrações daqueles com as quais vão carregando de ódio o doce favor de nos detestarem.

Oh Voltaire, meu irmão! Então isso não te dava gozo, meu querido amigo!?

Deixa-te de fitas, pá!

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28.10.22

Humildes

Por Joaquim Letria

Para se tirar bom proveito daquilo que a curiosidade nos dá a saber, é indispensável  o uso da razão de modo a assimilarmos  os conhecimentos. 

O que chamamos de inocência é a infância , que Jean Jacques Rousseau comparava “com a luz da aurora que resplandece pela manhã ao nascer o sol sem nuvens”.

Inocência e razão, infância e maturidade compõem o binómio de que é formada a maravilha a que nós chamamos de “género humano”. Por  outro lado, é interessante observar como o homem sempre quis minimizar, ou mesmo apagar, os melhores exemplares de si próprio. Essa qualidade pode sintetizar-se , como convém para esta reflexão, num ponto  comum a que chamamos modéstia, seja esta verdadeira ou falsa, e que acabamos por classificar como se tratando de virtuosa .

Dizia Boileau que a humildade se verifica quando o mais sábio é aquele que nem remotamente pensa  em vir a sê-lo.  Para os povos latinos, humildade é quando “ninguém é sábio em todas as ocasiões”. Humildade, sentenciava Séneca, é “quando se pode ser sábio sem vanglória nem inveja”. Sócrates, que também se deu ao trabalho desta reflexão, criou um “leit motiv” defensivo, mas que nos chega até hoje:  ”Só sei  que nada sei”.

Em síntese, e à luz da nossa tradição judaico -cristã, é a sabedoria que garante que “quem se humilhe será exaltado” e , como  profetizado no Livro de Job, “viverá em glória”.

Muita gente, como Afonso Karr, não acredita em nenhum sábio até o ouvir dizer três vezes “duvido” e duas “não sei”.  E pergunto eu num sobressalto: porque não fazer a vontade a esta gente se a Terra pertencerá aos humildes?!

Para já, brinquemos à razão do repouso, que é muito diferente e nada tem a ver com o repouso da razão. Assim poderíamos ser todos muito felizes ao guardarmos de outros muito do que sabemos.

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21.10.22

Entrevistas e entrevistadores

Por Joaquim Letria

Ao cabo de quase 60 anos de vida profissional creio ter feito centenas de entrevistas, para jornais, revistas, rádio e televisão.

Além disso, como professor de Ciências da Comunicação este foi um género que sempre muito estudei, observando talvez milhares  de entrevistas e estudando centenas de entrevistadores.

Em Portugal, a entrevista é um género muito mal tratado. Muitos entrevistadores procuram apenas chamar a atenção para si próprios, outros querem mostrar a sua independência contrariando o entrevistado a todo o custo e o resultado é mau para o público a quem a entrevista deve ser dirigida no sentido de o esclarecer, acabando por se assistir a uma algazarra desagradável que não entretém e donde é difícil tirar informação.

Não me refiro a nenhuma entrevista nem a nenhum entrevistador em particular. Apenas reflicto sobre um estado geral dum género jornalístico muito mal tratado, a maior parte das vezes por impreparação e por falta de reflexão quanto ao que perguntar, o estilo a utilizar e a perda de vista do objectivo essencial que é informar o público.

Vi e estudei dezenas de entrevistadores, quer em Londres ao trabalhar para a BBC que além do mais nos dava cursos de formação, quer nos Estados Unidos e Brasil a trabalhar para a Associated  Press. E aprendi a distinguir os estilos de cada um e a comparar os resultados.

Desde Sir Robin Day, talvez o maior entrevistador, mais respeitado pelo público e pelos entrevistados que punha a Grã Bretanha a ver televisão quando anunciavam uma entrevista sua a Michael Parkinson com o seu modo simpático e envolvente a David Frost que era o mais duro, seco e cujas entrevistas eram consideradas um castigo a quem a elas se submetiam.

Apreciei-os a todos antes de nos Estados Unidos ver Jonh Carson, Opprah Winfrey, Larry King, Susan Ammanpour, David Letterman, Walter Kronkite muito diferentes entre si, tal como diferentes eram Jay Leno, Stephen Colbert e Dick Cavett, assim como a equipa que hoje em dia alimenta o Hard Talk da BBC. Todos eles, de maneira diferente, visavam um objectivo quase sempre atingido: entreter, mas principalmente informar, esclarecer e fazerem aos entrevistados as perguntas que o público, de quem eram intermediários, gostaria de fazer se tivesse essa possibilidade. No Brasil, anos e anos a fio, Jo Soares fez um dos “talk Shows” mais interessantes do mundo, incluindo entrevistas das mais bem feitas que vi fazer. Curiosamente nenhuma desta gente era jornalista.

Não escrevo esta crónica motivado por alguma entrevista ou entrevistador em Portugal me darem esse pretexto. Temos, aliás, alguns bons entrevistadores que poderiam melhorar espectacularmente se estudassem e reflectissem mais, assim lhes dessem tempo para isso, como aconteceu no passado com Margarida Marante e Carlos Pinto Coelho. Apenas escolhi este tema para a minha crónica desta semana porque à minha volta ouço muita gente a dizer mal de entrevistas, muitas vezes sem motivo  para tal e outras vezes carregadinha de razão.

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14.10.22

Sempre finitos, sempre provisórios

Por Joaquim Letria

Embora sentindo a falta duma dimensão mais solidária, dificilmente toleraríamos voltar a viver em comunidades que sacrificassem a nossa independência, o nosso individualismo como pessoas.

É compreensível que pessoas insatisfeitas se sintam consternadas perante este quadro. No entanto, por maior que seja o seu desânimo, é necessário que permaneçam atentas e estudem os fenómenos que possam indicar novas tendências ou novas potencialidades interessantes.

A disponibilidade para observar com real interesse tudo o que se passa num vasto espectro de expressões culturais não significa que avalizemos tudo o que vemos nem concordemos, de maneira oportunista, com tudo o que ouvimos. Seria um  contra-senso fingirmos ou pretendermos não ter preferências, nem manifestar a nossa própria opinião.

Ao dialogarmos com todas as tendências, assumimos a nossa posição subjectiva e, naturalmente, manifestamos a nossa opção pelos valores que ultrapassam a fronteira da precariedade.

O homem moderno tem de se reconhecer provisório. Como dizia Marx, diante de nós tudo se volatiliza, tudo o que é sólido se pulveriza no ar. Todavia, através das nossas criações culturais, finitos como somos, reinventamo-nos sem cessar. É a nossa única forma de reagirmos contra a dissolução e a única maneira de, renovando-nos, podermos perdurar.

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30.9.22

Humildade

Por Joaquim Letria

Anatole France escreveu que “uma coisa que torna fascinante o pensamento humano é a inquietação”.

Da inquietação à curiosidade vai um pequeno passo. A curiosidade, no dizer de Catalina, é quando se ouve o que se quer saber, mas quando se escuta, chega-se a saber muitas vezes mais do que aquilo que inicialmente se propunha ouvir.

Para se tirar bom proveito daquilo que a curiosidade nos faz saber, a razão é indispensável, desde que se manifeste e utilize de forma viva, dinâmica, inquisidora e meditabunda, de modo a assimilar os conhecimentos de maneira a calar e conservar a sua intimidade cordial.

Inocência e razão, infância e maturidade compõem o binómio de que está formada a maravilha a que chamamos género humano. É curioso, por outro lado, como o homem sempre quis minimizar, ou até apagar, os melhores exemplares de si próprio.

Dizia Boileau que a humildade se verifica quando “o mais sábio é aquele que nem remotamente pensa em vir a sê-lo". Humildade, para os povos latinos, é quando “ninguém é sábio em todas as ocasiões”. Humildade, dizia Séneca, é "quando se pode ser sábio em todas as ocasiões”. Humildade, sentenciava Séneca, é quando “se pode ser sábio sem vanglória nem inveja”. Sócrates também se deu ao trabalho desta reflexão criando uma ideia defensiva mas que nos chega até hoje: ”Só sei que nada sei”!

Em síntese e à luz da nossa cultura judaico-cristã é a sabedoria que garante quem “quem se humilhe será exaltado". E como proferia o livro de Job, “viverá em glória”.

Muita gente não acredita em nenhum sábio até o ouvir dizer três vezes “duvido” e duas “não sei”.

Porque não fazer a vontade a esta gente se a Terra pertencerá aos humildes?! Poderemos ser todos felizes ao guardar o que sabemos de outros na nossa intimidade cordial.

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16.9.22

Tão frios como os meninos dizimados

Por Joaquim Letria

Mais de 40 mil crianças trabalham em Portugal para sobreviverem ou ajudarem a família.

São números que ninguém consegue disfarçar. Querem estes números dizer que se tivessem fins de semana e se pudessem organizar-se, estas crianças portuguesas encheriam o Estádio José de Alvalade.

Notícias que entretanto nos chegam de África também nos dão conta de milhares e milhares de outras crianças dizimadas pela fome, pela doença, pela guerra e abusadas para renderem com os seus miseráveis corpos descartáveis os lucros confortáveis de quem as explora na venda, no transporte e distribuição metódica da venda de drogas, corpos e armas.

Tudo isto faz parte do preço inaceitável de sobrevivência. Acabam por ser pagamentos por conta do abate puro, simples e eficaz de quem é capaz de, sistematicamente, exterminar crianças que, de outra forma, seriam uma praga que, de outro modo, não só não daria lucro como criaria despesa e ainda teria de ser alimentada.

Persistem em nos garantir que a criança que existe dentro de nós não morrerá nunca. Talvez assim seja. Mas com o passar dos anos, essas crianças ficarão cada vez mais frias, tão frias e tão duras como os adultos cujas almas habitam, tão mortas, afinal de contas, como os meninos da rua dizimados por quem os explora antes de os abater.

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9.9.22

Corrida sem parar

Por Joaquim Letria

Antigamente, quando as pessoas eram criteriosas em vez de serem só espertas, as coisas eram medidas de maneira diferente.

Hoje, tudo se mede pelo padrão do êxito.

O melhor programa é o que tem maior audiência, as pessoas são melhores à medida dos likes e do número de seguidores. A pessoa a deitar abaixo é aquela que atinge quotas elevadas de popularidade e o que importa, seja no que for, é chegar primeiro, e não interessa donde e é irrelevante como. Há muito tempo que a sociedade classificou de corridas de ratos esta atitude hoje glorificada e que com desempregados a espreitarem a cada esquina persiste sem alterações nem mudanças de sentimentos.

Dantes, as coisas mediam-se de maneira diferente. As pessoas compreendiam que o livro de maior sucesso não era necessariamente o melhor, o programa com mais audiência era invariavelmente o mais detestável, entendiam que o futebol, mau grado despertando grandes paixões e arrastando multidões pelo mundo era um jogo muito interessante embora o xadrez não deixar de ser um jogo inteligente e também apaixonante. Também não era preciso explicar que a opinião dum comentador, por muito popular e profissional que este fosse, não era mais acertada do que a dum especialista em matérias levianamente abordadas.

Tudo isto é uma questão de medida. Estabeleceu-se o êxito como metro-padrão, pois então se tratava da tradução mais correcta para dinheiro, partindo-se do princípio de que o melhor filme, melhor livro, melhor programa, melhor personalidade seriam sempre aqueles que mais lucros gerassem.

Não vale a pena ser nostálgico, recordar o antigamente, ter saudades do antes, pensar que dantes era melhor. Era só diferente. Por isso, nesta corrida para que muitos se deixam arrastar, depressa se descobre que não podem mais parar. Se abrandam, pisam-nos, se perguntam para onde vão ninguém lhes sabe responder. Só uma coisa se lhes afigura certa – a pressa de todos é muito grande, a vontade de perceber o labirinto que percorrem muito pouca ou nenhuma. Que alguém tenha pena deles quando não tiverem outro remédio senão parar sem ser por vontade própria nem esclarecimento pessoal.

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2.9.22

“Oh filho! Para chatices já basta a vida!”

Por Joaquim Letria

Se o meu avô Joaquim me tem criado hoje, eu era um pequeno monstro do politicamente incorrecto, porque ele ensinou-me que um homem, para ser homem, tem de:

1.- Gostar de mulheres;

2.- Conhecer e apreciar pelo menos duas óperas italianas, uma francesa e uma alemã;

3. - Ir ao Teatro vestido a preceito pelo menos uma vez por mês e chegar sempre a horas;

4.- Saber de cor uma tirada de Gil Vicente e uma fala de Garrett, mesmo que seja aquela do “Romeiro, quem és tu?”;

5.- Distinguir meia verónica duma  chicuelina e não se impressionar por dispensáveis adornos e desplantes;

6.- Não querer mais do que lhe pertence e defender o bom nome na praça pública.

Foi por mor destas regras antiquadas e duma esmerada educação que vi Palmira Bastos morrer de pé diversas vezes, Erico Braga faiscar o monóculo para as frisas da boca de cena, Amélia Rey-Colaço sucumbir ao vozeirão de Raul de Carvalho, Humberto Madeira tocar trompete sem instrumento, João Villaret parolar o fado falado, Irene Isidro pôr discípulas no seu lugar, a Callas render-se a Alfredo Kraus em São Carlos, Renata Scotto calar o Di Stefano no Coliseu, Carlos Arruza e Conchita Citron, Ordoñez e Dominguin disputarem voltas ao ruedo e cravos da barreira, Ribeirinho no Trindade à espera de Godot, João Guedes e Carmen Dolores a encherem o palco do Império muito antes da Igreja ser Universal e ainda estávamos todos nós horrivelmente longe do Reino de Deus.

Claro que Tony de Matos no Maxim e Mari Carmen no Nina também me ajudaram na difícil carreira de me tornar um homem aos olhos do meu avô Joaquim que me espreitava orgulhoso, apenas não escondendo o seu desagrado por eu não o acompanhar aos filmes da Esther Williams para antes ir ver um De Sicca ou um Rosselini, não porque ele se opusesse ao neo-realismo, mas porque “oh filho! Para chatices já basta a vida!”

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26.8.22

Que será feito do General Prado?

Joaquim Letria

Ignoro se o general boliviano na reserva e ex-dirigente destacado do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria, filiado na Internacional Socialista)) Gary Prado ainda comemorará o assassínio que cometeu enquanto capitão, há 53 anos.

Desconheço também em que  âmbito o fará. Não sei se ainda o homenageiam pelos ferimentos que recebeu numa “operação de limpeza” de trabalhadores revoltados em Santa Cruz de La Sierra, de onde só passaram a chegar-nos resumos de importantes jogos de futebol da Copa América…

É natural que o general Prado ainda hoje finja retirar importância à rajada célebre que o deixou na História e que disparou há 52 anos sobre aquele prisioneiro desarmado, indefeso, ferido, médico de profissão, revolucionário por convicção, utópico por coração, argentino por nascimento, Ernesto por baptismo, “El Che” por alcunha e Guevara por apelido. 

“O caso Guevara foi um pequeno episódio tornado famoso pela propaganda” diria modestamente, mais tarde, o general Prado que naquela altura não passava de capitão, tal como assim era quando pela primeira vez ouvi falar dele em La Higuera, quando aí me mandaram fazer reportagens, andava eu pela Bolívia, ainda antes de ter a oportunidade de entrevistar o Presidente da Bolívia, General René Barrientos.

Às vezes as utopias, os sonhos, os pesadelos, as mentiras e as verdades, e as vidas dos outros e a de nós próprios assaltam-nos de noite a memória, tal como me aconteceu agora com o general Prado. Que será feito dele?!

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19.8.22

Por Joaquim Letria

Portugal nasceu no Norte mas hoje é aqui, neste coração imperfeito, que alastra a sua vocação universal, de onde saíram caravelas, lugres, barcas, barcarolas e navios que se espalharam por onde hoje se estende a identidade  europeia desta cidade asiática, africana, indiana, mundial.

Lisboa é uma caldeirada de culturas, ponto de partida para a rota da vadiagem dum povo, prenhe de gente branca, escura, castanha, amarela e negra a vender especiarias e essências que podemos encontrar por toda a parte, a começar pela fascinante Rua do Bem Formoso, na Mouraria, onde se come apetecíveis petiscos chineses, indianos, vietnamitas, do Bangaladesh ou do Paquistão. Por aqui se convive com gente que escapou dos desesperos das suas terras para se refugiar neste porto antigo e abrigado de galegos, aguadeiros, carvoeiros e carroceiros, hoje cheia destes seus descendentes, ainda herdeiros dos sarracenos e dos judeus.

Abrigando tanta gente desta, Lisboa não poderia ser branca. Uma cidade como esta não pode ter a alvura das cidades das arábias ou do Norte de África. Terá de ser castanha, escura e colorida, mas nunca branca. Penso que esta insistência em lhe chamarem cidade branca, há inclusivamente um filme estrangeiro que assim a designa, vem não das suas cores mas de outra coisa muito importante e, a certas horas e em certos dias, absolutamente inigualável: a sua luminosidade, o seu sol único, a luz de Lisboa.

Todavia, lá por ser morena e escura, Lisboa não deixa de se apresentar garrida. Inegáveis as suas cores diversas, espalhadas por pincéis langorosos, que se estendem ao longo dum Tejo largo, longo e sensual. Podemos facilmente ver e sermos relembrados de tudo isso ao passear pelas suas ruas, ao ficarmos suspensos do lilás dos seus jacarandás que encontramos nos pincéis de Nikia Skapinakis, para depois nos perdermos em passeio pela policromia de Vieira da Silva, nos espantarmos com as telas de amarelos doces de Arpad e ficarmos presos aos rosas pálidos de Carlos Botelho, ou agarrados pelo azul turquesa de Pavia. Lisboa é uma enorme paleta de múltiplos grandes artistas.

Adoro o verde do Minho, o murmúrio dos seus rios, a frescura das suas sombras e o riso das suas gentes, tal como respeito e amo a planura do Alentejo, o cantar das suas cigarras, o canto dorido e belo das suas gentes. Mas nasci e cresci em Lisboa, apesar de passar anos longe dela roído de saudades de Portugal. Mas foi de Lisboa e do bairro onde nasci e cresci que mais falta senti.

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12.8.22

A discussão do politicamente correcto

Por Joaquim Letria

A cidadania assentou arraiais no politicamente correcto, transformando-se numa ideologia e ambicionando promover-se a pensamento único.

Em nome dela reescreve-se a História, destrói-se e nega-se o que aconteceu, apagam-se as circunstâncias, nega-se o passado, insulta-se e calunia-se pessoas, deitam-se estátuas abaixo, destroem-se monumentos, faz-se censura e apaga-se a verdade.

Aqueles que dizem que a cidadania abre-nos o futuro, não estão a ser sérios, porque o politicamente correcto estreita horizontes, limita o debate e impõe ideias uniformes. Muito disto se passa a todo o momento e à vista de todos, incluindo naturalmente o Estado.

Defendendo que a disciplina de cidadania seja facultativa e opcional e de modo nenhum obrigatória nos currículos do ensino, mais de 100 personalidades conhecidas e respeitadas vieram a público fazendo ouvir a sua voz. Todavia, note-se que aquilo que eles contestaram foi muito mais do que uma disciplina inserta nos programas escolares. Aquilo que eles recusaram foi a imposição e formatação dum pensamento único. Mais tarde ou mais cedo o politicamente correcto teria de ser posto em causa e contestado. 

Uma ideologia que reescreve a História, menoriza a família e se quer impor no ensino, imposta logo nos primeiros anos de escolaridade, não podia deixar de provocar reacções. É possível, e desejável, que esta polémica a que assistimos seja o início dum grande debate. Oxalá assim seja.

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5.8.22

Olhar para ontem acreditando no amanhã

Por Joaquim Letria

Penso eu que a melhor maneira de fugirmos a este mundo de hoje é mergulharmos de vez em quando nas realidades do antigamente e, através das mais diversas manifestações de fé nos homens, distrairmo-nos com a arte, com o pensamento filosófico, quer na ciência quer na política.

O tempo prodigioso que medeia entre o século XIV até ao princípio do século XVI foi, em todos os sentidos, uma verdadeira renovação através da qual o homem abandonou as tristes certezas da Idade Média para se lançar na mais bela aventura da criação.

Foi um tempo de renascimento, uma verdadeira Primavera, na qual o homem se redescobriu com surpresa e deleite sendo capaz de recuperar as emoções, os pensamentos e as esperanças na mais variada e pletórica plenitude.

Com espanto, o homem redescobre os antigos, ao mesmo tempo que o latim eclesiástico se transforma num espantoso instrumento de transformação, de novidade e de comunicação.

Com a redescoberta dos antigos cria-se um novo sentido de vida e do mundo. Mais tarde, o homem junta a toda a variedade e surpresa dos clássicos o novo mundo com requintes e profundezas orientais a que se somará mais tarde o novo mundo americano que transmite a ilusão duma herança sem limites.

A ciência deu-nos outros olhos para ver e compreender a realidade. As Artes Plásticas e a palavra viva levam-nos a estudar, a compreender novas línguas, sem trair a devoção pelo latim, e o entusiasmo de criar as literaturas.

O cisma religioso vai desembocar num novo tempo de guerras e de preocupações em muito semelhante ao que vivemos hoje num momento tão conturbado por tenebrosas razões de saúde e de fome.

É possível que os erros dos humanistas nos tivessem levado a situações irrealizáveis como a própria História em parte demonstra. Mas tal não apaga o inenarrável prazer nas escapadelas que por lá podemos experimentar e que ainda hoje podemos dar, acreditando em algo bem mais harmonioso, inteligente e sensível do que aquilo que hoje temos. Não é fácil. Mas temos de olhar para trás acreditando no futuro. Tirando o maior prazer daquilo que se nos oferece. Olhando para ontem acreditando no amanhã.

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29.7.22

Disparates

Por Joaquim Letria

Hoje ouve-se e diz-se disparates com grande facilidade e impunidade. 

É natural. As palavras soletram-se à vontade do freguês sob o manto protector do malfadado acordo ortográfico, a memória transformou-se numa vaga ideia e o rigor da verdade é cada vez mais trémulo e, muitas vezes, jaze mesmo inanimado no ruído das vozes e pensamentos que se cruzam neste atoleiro, sem corresponder à verdade dos factos e em total ausência de raciocínio.

Durante anos combati organizadamente a ditadura mas nunca tive o descaramento de me intitular anti-fascista. Lutei apenas com milhares de outros pela liberdade e pela justiça, submetendo-nos consciente e clandestinamente a uma pena de dois a oito anos de cadeia nos Fortes de Caxias ou de Peniche se fôssemos apanhados. E quando veio a liberdade cheguei-me, feliz, para trás e fiquei a ver, a procurar ajudar e, por vezes, a quedar-me desiludido com o que veio por aí fora .

Agora os anti-fascistas são às dezenas, auto-intitulam-se, organizam-se e marcham pelas ruas não percebendo nós muito bem quem lhes faz o jeito de serem os fascistas contra os quais eles devem estar. Parece mal aproveitarem-se duns tontinhos a quem não se pode levar a sério, assim como não é bonito brandir umas supostas ameaças que não sabemos de quem vêm e que são muito difíceis de acreditar.

Devendo tudo isto, na minha modesta opinião, ser encarado, visto e investigado como um mero caso de polícia, oxalá não venham os investigadores e as secretas a descobrirem que tudo não passa, afinal, duma manobra propagandística que muito bem serve os dois lados e que bem pode ter sido lançada por um moderno Rui Pinto, criaturas agora muito na moda e de grande utilidade para os políticos de ocasião.

MUDANDO DE DISPARATE

Às 16 e 32 do passado domingo, dia 16 de Agosto, eu ouvia a Rádio Renascença pela qual tenho admiração profissional e ocasionalmente me dá a alegria de escutar a Graça Franco, uma das melhores jornalistas deste país. E foi então que escutei a voz fresca que conduzia a emissão acusar a Raínha Elizabeth II de Inglaterra de não precisar de carta para conduzir, o que era um privilégio da monarquia além dela ter muitos motoristas. É verdade. Além de que no Reino Unido aprende-se a guiar, não se tira a carta. Mas a menina é jovem e não tem quem a ajude a não dizer disparates, senão saberia que Elizabeth entre 1939 e 1945, durante a II Guerra Mundial, passou a vida a guiar ambulâncias sob os bombardeamentos nazis a Londres. Aqui fica um disparate que alguém na RR poderia ter evitado à simpática menina que está em muito boa idade para aprender. Se calhar a culpa é da raínha, que não diz a ninguém que foi anti-fascista… 

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22.7.22

O saque dos casamentos

Por Joaquim Letria

Nos três últimos casamentos para que fui convidado, os noivos não aceitavam prendas em géneros nem sugeriam artigos que gostassem de ter ou que lhes pudessem dar jeito ou lhes fizessem falta.

Disseram, descaradamente, que “a gente tem tudo, o que queremos é que nos dêem dinheiro vivo.” Agora mesmo me convidaram para outra boda destas em Outubro.

Num desses casamentos de que falo, o noivo que era engenheiro não teve mesmo pejo em me dizer:

— Eu dou-lhe o NIB e depois você manda-me o comprovante.

Já não podemos oferecer uma lua de mel requintada de que jamais se esqueçam, um faqueiro de prata ou casquinha “comme il faut”, um serviço de Vista Alegre, Sévres ou Limoge,  ou lençóis e almofadas de linho, seda e penugem de avestruz. Isso acabou, que nem eles sabem do que se trata nem apreciam.

Acabaram também as listas numa boa casa ou armazém, onde se podia consultar as necessidades dos noivos e aquilo que muito agradeceriam que lhes oferecessem, de electro-domésticos a tudo o que fizesse falta a uma casa a estrear. Agora é tudo resumido a “dinheiro, eu mando-lhe o NIB e não se esqueça do comprovante”.

Claro que o comprovante, julgo eu, é para que os ofertantes sejam generosos e tenham vergonha de dar pouco, ou sejam sem vergonha, como os noivos, e se pendurem num copo de água cada vez mais foleiro e mal servido. Ou seja, os actuais casamentos estão transformados num puro acto de extorsão suave.

Ao contrário da maioria, eu gosto de pagar impostos. Penso mesmo que pagar impostos é comprar a nossa felicidade – na saúde, na educação, nas casas, nos transportes, etc.. Aprendi a sentir e a pensar assim quando vivi no Reino Unido. O que não gosto é do que fazem e não fazem com o dinheiro dos nossos impostos. Mas isso é outra coisa de que todos nós temos muito justamente razões de queixa.

Perguntarão vocês com toda a justiça: que raio têm os impostos a ver com os casamentos?

Eu explico: é que se o fisco investiga e cobra o crowd funding, se penaliza petições e ofertas a instituições, movimentos de solidariedade e doações a doentes necessitados, também devia ir aos noivos, investigarem os NIBS e as comprovantes e aplicar-lhes a pastilha. Não lhes ensinava boas maneiras mas explicava-lhes que é bonito partilhar a riqueza.

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15.7.22

A inesquecível Maria de Lurdes Modesto

Por Joaquim Letria

Maria de Lurdes Modesto, a inesquecível autora dos programas de televisão e de livros de culinária que ainda hoje ninguém igualou nem esqueceu, completou, no passado dia 1 de Junho, 92 anos de idade.

Foi em 1958 que Maria de Lurdes Modesto se estreou na televisão com um programa que de imediato se tornaria num dos mais vistos no país, atraindo com a sua simpatia e conhecimento tanto mulheres como homens.

A mais famosa gastrónoma do País, título que ainda hoje ninguém lhe arrebatou, depressa se converteu em concorrente de Berta Rosa Limpo, autora do fascinante livro de culinária, “O Pantagruel”, uma espécie de Bíblia dos gastrónomos.

Todavia, não foi como gastrónoma que Maria de Lurdes Modesto se estreou na televisão, meio que conquistaria até hoje. Foi como actriz numa Noite de Teatro da RTP que Maria de Lurdes Modesto enfrentou as câmaras pela primeira vez, ao representar em directo a peça “Monsieur de Pourcecaugnac” numa produção do Liceu Francês com encenação da RTP.

Maria de Lurdes saiu-se tão bem na sua estreia televisiva que depressa foi convidada a vir para Lisboa e  a participar  em programas televisivos, deixando a sua cidade natal de Beja. Como condição disse: “Só se for um programa para mulheres.” E foi dessa maneira que a professora de trabalhos manuais do Liceu Charles Lepierre se estreou a cozinhar em directo, sem teleponto e carregada de nervos que depressa se convertiam em experiência, conhecimento e saber do que mostrava e falava.

Por simples curiosidade, deixem-me que lhes diga que o seu primeiro prato seria algo de estranhar para a maioria do paladar tradicional dos espectadores: um prato de alcachofras que foi um estranho sucesso... Só passados anos de programas a seguir ao telejornal, naquela TV triste e a preto e branco é que Maria de Lurdes Modesto se atreveu a publicar o seu primeiro livro, “As Receitas da TV”. Maria de Lurdes Modesto recebia caixotes de cartas de espectadoras que se lhe dirigiam e nesse seu livro confessava com modéstia: “Ao preparar os meus programas não é difícil decidir-me por uma receita. Basta atender os numerosos pedidos das senhoras espectadoras”.

Simples, simpática, culta e conhecedora daquilo que fazia Maria de Lurdes Modesto nunca valorizou o seu valor como educadora, como estrela de TV e uma vez num jantar em que ficámos lado a lado disse-me  que “o meu programa não significa nada de importante”.

Maria de Lurdes Modesto é autora da “Grande Enciclopédia da Cozinha”, e de “Cozinha tradicional Portuguesa", o livro de culinária mais vendido de sempre em Portugal, além duma vasta obra onde sempre teve a preocupação da componente saudável da nossa alimentação. Faz compotas deliciosas e continua desperta e interessada por tudo que anima a nossa vida.

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8.7.22

GRALHAS

Por Joaquim Letria

Há, pelo menos, quatro categorias de gralhas.

As primeiras são as que se subtraem ao bom critério de quem lê, mas que carecem de importância ainda que molestem a vista. As segundas são as que trocam uma palavra por outra, correcta em si mesma, que são as mais perigosas porque podem induzir a desorientações e a alguns erros. As terceiras são aquelas gralhas que inventam uma palavra e são capazes de confundir filólogos e outros estudiosos da língua. Por fim, as quartas, que são aquelas que levam o ouvido a confundir duas noções diferentes, muito utilizadas nos meios audiovisuais e outros propagadores da cacofonia.

As primeiras são muito cordatas. Escrever, por exemplo, “choclate” em vez de chocolate, numa frase em que se refere o pequeno almoço com torradas, manteiga e geleia de laranja.

As segundas podem ser incómodas, uma vez que a leitura parece correcta. Por  exemplo, falar do open do pénis da Austrália em vez do desporto da Navratilova e do Federer.

Das terceiras dei uma vez notícia delas quando uma aluna minha leu um texto meu e me perguntou o meu propósito quando ali escrevi que “comer uma maca por dia mantém o médico à distância”. Só nesse momento conheci que tinha uma gralha no  texto e pude então esclarecer que onde o tipógrafo por lapso escrevera “maca” se devia ler maçã, o que fazia sentido e correspondia à correcta tradução do provérbio inglês que nos ensina que uma “apple a day keeps the doctor away”.

Quanto à quarta categoria de gralhas, todos nós temos experiência constante e surge com frequência nos actos solenes e nos rodapés dos noticiários dos audiovisuais e podem não ser mais do que  transcrições fonéticas da errónea conjunção copulativa “e” com o adjectivo “responsável”, tomando-se por certo o insulto que atinge o “experiente e responsável político” ao lhe chamar “experiente irresponsável”. Mas não faz mal. Desde que temos este acordo ortográfico já não se sabe bem o que se escreve, o que se lê e o que está certo. Por isso, há que manter sempre um sorriso e não lhes dar grande importância.

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