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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Porque não sorris?

 













A luminosidade vagueia plana no coração da Terra
anunciando a alegria
de estrelas azuis.
Nos ninhos aquecidos de peitos maternos,
dormem ondas de amor
nas marés do coração.
 
Porque não sorris com a translúcida cor dos olhos dos lírios?
Arruma as angústias,
sacode a poeira que embacia o teu Agora.
 
Há muito tempo que o sorriso é a muralha
que guarda a fortaleza no poema da tua alma.

 

 

Manuela Barroso

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sons

 




O teu som penetra na sombra dos bosques onde se 

difunde a harmonia. 

A tua luz côa-se pelo filtro espesso dos dedos da 

ramagem. 

Tudo se esquece neste vale onde a calma é o 

prelúdio da tua  música cujas notas penetram 

também no seio da terra. 

São ondas de êxtase acompanhando esta viagem 

no murmúrio do silêncio fresco que desperta as penas 

dos pássaros no terraço da manhã. 

A alegria esboroa-se no ar em poalha de reflexos de luz, 

na miragem de imagens ténues no jade do orvalho.

 

Cai o pano do olhar no veludo da erva vestida de vapores matinais. 

O aroma cresce por entre campos de amoras. 

 

Silencio o desassossego deste paraíso efêmero

e num sagrado deleite 

me distancio 

antes que outra sombra se deite.

E procuro outros vazios.



Manuela Barroso

 

 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Tempo

 

imagem- net






Correm em gotas os fios de luz   
no repouso da cama moribunda das folhas.
Não reparas no passeio do vento.
Sentes o borbulhar dos charcos e o balbuciar de ramos inquietos.
Olhas e perguntas por ti na sombra do musgo
colado à casca dos troncos.
Aquietas-te.
Fixas as tuas mãos.
Elas abrem-se olhando-te
e numa resposta tímida mostram-te  
o espelho de outros outonos
que lhe foram chegando devagarinho
depondo folhas amarelas sobre os regatos
que circulam por entre os dedos, sumindo.

Manuela Barroso
 


 


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Maio

 

                                                                

 Imagem -net



Fecho os olhos e percorre-me a música de maio.
É o êxtase inconfessável nos sons definidos e indefiníveis. 

É a cor divisível nas folhas e cambraias de flores,

no indivisível que se afunda na incapacidade cósmica 

que cinzela a perfeição. 

É o grito impotente de abraçar o abismo 

onde enterro a minha impotência. 

 

Uma enorme sensação de paz quase desumana, 

troca esta fome de alcançar o indivisível 

para morrer na alegria de estar aqui.

 

Abro então os olhos e sinto quão grande 

é a beleza deste cântico que sepulta a minha alma 

num leito verde e florido, num eflúvio  que abarca 

todos os sentidos e mata esta sede de abraçar os sons 

deste Poema feito Vida e Mundo, 

Terra e Flores e Pássaros .



Manuela Barroso, "Luminescências", 2019






terça-feira, 28 de abril de 2026

Hoje


 





Hoje, não cantes a primavera que nasce nos outeiros.
Chovem outonos em mim com folhas secas pelo meio.
As rosas perderam a cor, 
os lírios perderam asas,
as aves perderam chuvas de penas, na pena do desamor.
O sol emudeceu a luz, 
as nuvens já não cavalgam no céu.
 
Quero tréguas neste trepidar da calma 
que foge, que me arrasta.
Deixa uma vez, a solidão morar comigo 
na casa que construiu
nos marfins das noite sem estrelas.
 
Quero a paz da luz, a alegria da noite no refúgio 
da solidão.
Quero ninhos no silêncio das alvoradas,
acordar no linho dos lençóis 
despertar com  o sorriso do orvalho 
na frescura das  madrugadas.


Manuela Barroso, in Luminescências


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Quando

 












Quando te cansares do lago onde  
adormece o eco das sandálias, leva  
água nos bolsos.  rega a almofada  da lua
 
e frui da lentidão  opaca da luz
onde dormem os morcegos. sobrevoa
o cálice sonâmbulo dos narcisos 
 
onde o pólen é o anfiteatro interdito
à sede impaciente das fontes.
 E não te escondas na contraluz peregrina
 
da voz que ressoa nas mãos das árvores
e rios selvagens num incêndio roubado
à ansiosa inquietação do caminho que te resta.
 
Atravessas a orfandade da aragem muda
para deparares com a transparência fluida do etéreo.
 

Manuela Barroso 




segunda-feira, 30 de março de 2026

No âmago

 



No âmago desta cor
de que minha alma é feita
sobressai este lilás
de violeta campestre
que com o lírio  se faz
o perfume e a cor perfeita.

Eu
Tu
violeta e lírio
a ternura e a natureza.

Longe de ser martírio
é o auge da beleza
escrita nas nossas mãos
conjugada com o delírio.

 Manuela Barroso in “ Luminescências”, 2019

sábado, 21 de março de 2026

Primavera

 

Tudo é POESIA




Ainda ontem te despias para
adormecer no longo inverno que te esperava...
Ainda ontem te deixavas morrer
dando lugar à renovação da vida...
Ainda ontem te deixavas cair,
dando o exemplo de que morrer, não é morrer,
é dar a vez, alternando...

...E a cor morria ou fundia-se na alegria
da essência de nós e das outras coisas!
Mas os dias vão crescendo e com eles
a essência escondida em tudo que é vida!

Voltem timidamente os ramos a intumescer-se
como os primeiros sorrisos de criança!
Voltem a rebentar os bolbos das tulipas
e das frésias do meu jardim!
Volte a surpreender-me o merlo malandro 
que salta prestes dentre a folhagem densa
soltando agressivos desafios

E no ventre da Terra,
a vida entorpecida, desperta,
estalando em movimento,
verdura e cor!
...E fico assim à espera, vendo, olhando, pasmando,
absorta numa quase total ausência de mim…

...Desperto, sorrio...
Vale a pena a vida?
Sim!


Manuela Barroso

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Despem- se



 



Despem-se as árvores, veste-se o chão,
vestem-se os rios de madrugadas.
Despe-se o dia de tantas aves,
veste-se a noite de sombras caladas.
 
De alegrias te vestes, sorrisos mansos
olhos de sal, de tantas  gotas
as mãos se abrindo em amor e remanso.
 
Veste-se a boca de tanta ofensa 
monólogos longos em sobressalto
nos gritos que ditam sua sentença.
 
Vestem-se os ouvidos de tanta injúria
palavras loucas, voz sem espaço
no cristal que fere com a maior fúria.
 
Veste-se o sol de alegria,
e as madrugadas de fresco orvalho,
veste-se de penumbras e sombras o dia-a-dia
Assim é a vida: uma manta de retalhos.

Manuela Barroso


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Cai Neve

 

Queridos/as  Amigos/as, depois de um tempo de convalescença, voltando à vossa companhia com um abraço!






Cai neve!
não digas que é mau tempo
porque
beijos de água em flocos
que pousam
tão mansamente
numa leveza dormente
traz a paz ao pensamento!
E o branco em arrepio
que enfeita a Natureza
com este ar seco e frio
e lhe empresta esta beleza,
também
é  cor de pureza.
Ah!
Não digas
que é mau tempo!
Deixa florir a neve
assim,
derretendo-se
em meu peito,
criando sulcos
em mim!
E,
deixa que as árvores pinguem
com o branco
que elas têm!
São as cores
com que se tingem!
Que se enfeitem
elas também!

 Manuela Barroso

(reeditado)

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Chamo-te

 





Chamo-te no timbre dos ventos, no som 
cavado das montanhas.
Respondem-me baladas de violinos no contrabaixo da serra.
Subo. Voo nas asas das aves emplumadas
de nuvens e arrasto o coro que sopra da terra
para os picos da serra.

Sou a gota sobrevoando os vales verdes, errante,
sou nascente e primavera,  sou voz que treme na
harpa, ecoando no sibilar límpido dos regatos.

Chamo-te no cântico sereno das cores onde a música da vida se funde nos olhos das flores.
Rodeiam-me os anéis do tempo, num contínuo caminhar,
ora lento ora sonolento, mas insisto com a mão leve deste
sopro sedento.

É noite na minha aurora, quero esperar pelo sol,
derreter a minha neve
ser água correndo lá fora.
E chamar-te-ei na liberdade do vento
na quietude que demora.

Sou a prisão do meu peito
na voz muda do pensamento.

Manuela Barroso,in  “ Luminescências “ Seda Editora




quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Fugiram os pássaros

 


Fugiram os pássaros na invernia do desassossego.
Canta agora a música sozinha na sombra nua
escorrendo nas tendas da terra onde hibernam
as notas do solstício. 













Fugiram os pássaros na invernia do desassossego.
Canta agora a música sozinha na sombra nua
escorrendo nas tendas da terra onde hibernam
as notas do solstício. 
Acordarão com Vivaldi
nos rebentos de primavera
vivendo no coração dos trópicos.
A alegria ainda balouça em folhas secas tardias
no soluço dos galhos descarnados,
na erva fresca,
no regadio dos prados.

Firmes e solenes, as árvores ensinam
paciência
e resiliência
à pressa dos Homens.

Fixo a casca dura de um caracol.
Acompanho a sua excursão lenta na
inclinação das pedras.
E no contraste entre a fragilidade e resiliência,
os dois se irmanam: tudo o que existe são moléculas
que se complementam.

E naquele jardim, vi assim, 
que também faziam parte de mim.

 Manuela Barroso “ Luminescências”







segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Foges de ti









 Foges de ti para te encontrares. Mas só encontras solidão.
A tua casa enche-se de muros que não deixam penetrar
os teus murmúrios
E quero-te aqui.

Voa como os pássaros e encontra a leveza das penas
na alegria do manto das estrelas.
Caminha e varre o chão com o Amor dos teus pés.
Fixa o horizonte e traz-me candeeiros de purpurina
para celebrar a tua chegada.
A luz será a tua porta algures na neblina.
A música, o teu caminho com revoadas de andorinhas meninas.
Traz-me rosas para colorir os teus olhos
incenso de violetas para perfumar a tua casa.
Nas mãos, o pão de cada dia.
E mais flores nas tuas asas, para mim.
Eis tudo.
Só. Assim.

Manuela Barroso. "Luminescências", Cap.Da Essência 
Imagem-pixabay

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Outonocendo

 





Vão-se evaporando brandas claridades à sombra das rosas.
Soltam-se em auréolas ao ritmo cadenciadamente
sonolento dos perfumes pálidos deste barco a adormecer
a caminho do cais.
Torneio os fragmentos de nuvens e interrogo o porquê dos
seus contornos ambíguos e indistintos numa aguarela
timidamente abstrata, quase estática.

O sol filtra os braços que vão murchando
e a minha alma canta
acompanhando o bailado amarelado das folhas
que estreitando-se,
partilham o seu lento adormecer.

Na solidão das casas abandonadas,
os gorjeios dormem agora
nos sorrisos intensamente sentidos,
nos braços deste cansaço
outonal.
Adormecido.


Manuela Barroso

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

O Sol

 







O sol vai-se anulando
acariciando a copa branda do jardim.
Uma espera dormente veste-se de inquietudes longínquas
neste sono de folhas caídas.
Uma sombra de júbilo entrelaça-se
com uma íntima angústia,
numa miscelânea de cores intensamente
sentidas.
Cai o tempo, e a tarde e o vento e o sol
murcham o perfume da alegria das
flores.
Vénus caminha, abrindo sonhos e fechando o dia.
Eu
anseio pela distância do meu silêncio
e adormecer com fragrância desta noite inacabada
no dossel das tintas crepusculares, com alegria.


Texto e Imagem

Manuela Barroso


terça-feira, 2 de setembro de 2025

Sopra

 






Sopra agudo 
um vento de leste.
Saltam as agulhas acesas
dos pinheiros mansos
costurando a música dos pardais e das gaivotas.
Correm cordeiros no mar ,
na lã branca de espuma.
 
No convés  da erva orvalhada,
foguetes de pegas azuis,
coloridas,
alegres,  
sadias.
 
Atormentam-se as nuvens.
 
Algures,
o porão da inconsciência dos homens,
cospe foguetes de gás
fundindo-se
com os escombros  acesos do silêncio.
Pétalas
caem nos braços exauridos,
já murchas,
sem cor,
sem espaço,
sem vida.
 
Onde já não existem pegas azuis.



manuela barroso
Imagem-Internet