Antologia de textos com cães dentro.

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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Bukowski

"É uma pena os cães não irem para o céu," disse o Frank.
"Porquê?"
"Tens que ser baptizado para ir para o céu."
"Devíamos baptizá-lo."
"Achas?"
"Ele merece uma hipótese de ir para o céu."
Peguei nele e entrámos na igreja. Levámo-lo à pia baptismal e peguei nele enquanto o Frank o borrifava na testa com água.
"Eu te baptizo," disse o Frank.
Levámo-lo para fora e colocámo-lo no chão outra vez.
"Até parece que está diferente", disse eu.

Charles Bukowski, Ham on Rye, Ecco: New York, 2002
versão de manuel a. domingos

quarta-feira, 7 de maio de 2008

adeus

adeus Hemingway adeus Céline (morrestes no mesmo dia)
adeus Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeusTennessee
Williams adeus cães mortos nas auto-estradas adeus todo o
amor que nunca foi adeus Ezra é triste é sempre triste quando
alguém dá e depois alguém tira eu compreendo
eu compreendo e dou-te o meu carro e o meu isqueiro
e o meu cálice de prata e o telhado que afasta
a maior parte da chuva adeus Hemigway adeus Céline adeus
Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeus Camus adeus Gorky
adeus equilibrista que cais enquanto rostos sem expressão
olham para cima depois para baixo e depois afastam a cara
zanguem-se com o sol, disse Jeffers, adeus Jeffers, eu só posso pensar
que a morte de gente boa e de gente má é igualmente triste
adeus D.H. Lawrence adeus à raposa dos meus sonhos e
ao telefone
foi mais difícil do que esperava
adeus Two Ton Tony adeus Flying Circus
fizeram o suficiente adeus Tennessee minha bicha alcoólica
esta noite estou a beber uma garrafa a mais de vinho
à tua saúde.

Charles Bukowski, War All the Time, 1984.
versão de
manuel a. domingos

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

cão

um cão
a andar sozinho pelo passeio num quente
verão
parece ter o poder
de dez mil deuses.

porquê?

Charles Bukowski
Love is a Dog from Hell
1977

versão de manuel a. domingos

terça-feira, 9 de outubro de 2007

mamã

aqui estou
debaixo de terra
com a minha boca
aberta
e
incapaz de dizer
mãe,
e os cães passam a correr e param para mijar
na minha campa; tenho tudo
menos o sol
e o meu fato começa a ficar
estragado
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo desapareceu
resta pouco, como uma harpa
sem cordas.

ao menos um bêbado
na cama com um cigarro
pode ser a causa para 5 carros
dos bombeiros e
33 homens.

eu não
faço
quase
nada.

mas p.s. – Hector Richmond na campa ao
lado só pensa em Mozart e
gomas.
ele é
muito má
companhia.

Charles Bukowski, Crucifix in a Deathhand , 1965
versão de manuel a. domingos

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