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Mostrando postagens com o rótulo cinema e tv

O aniversário, um alerta anti-Trump

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Por Ernesto Diezmartínez  No início de O aniversário  ( Anniversary ,   Estados Unidos, 2025), o oitavo longa-metragem do diretor polonês Jan Komasa, a respeitada professora Ellen Taylor (Diane Lane), catedrática da Universidade de Georgetown, esclarece e declara, diante de um grande grupo de alunos que ouvem atentamente sua aula/ palestra, que não é “nem liberal nem conservadora”, algo como o equivalente estadunidense do “não sou nem de direita nem de esquerda” que vemos nas nossas redes sociais. A verdade é que, quando alguém afirma não ser nem liberal nem conservador, provavelmente está tentando esconder suas verdadeiras inclinações políticas, o que acaba sendo absurdo porque, mais cedo ou mais tarde, essa aparente “neutralidade” será questionada. No caso da professora Taylor, não demora muito para percebermos que, muito além de sua hipócrita posição centrista, a mulher madura, mãe de quatro filhos e esposa de Paul (Kyle Chandler), um chef de sucesso, é uma verdadeira ...

Os segredos do horror no filme O segredo da cabana

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Por Michel Goulart da Silva O filme O segredo da cabana  (2011) apresenta de forma bastante didática um conjunto de arquétipos característicos de um determinado tipo de filmes de terror, os slashers . Nesses filmes, é comum que um misterioso assassino persiga e mate um conjunto de pessoas, em grande medida jovens, podendo ser uma força sobrenatural ou não. Os crimes podem ocorrer em diferentes lugares, ainda que sejam frequentes os assassinatos que ocorrem em lugares distantes, como em florestas.   Essa cinematografia dominou por décadas o mercado de filmes de horror, se exaurindo em intermináveis e repetitivas franquias, entre as quais Halloween , Sexta-feira 13 , A hora do pesadelo e O massacre da serra elétrica . Como resposta ao esgotamento dessa cinematografia, foram realizadas reflexões que se utilizaram da metalinguagem, como a franquia Pânico e o filme O segredo da cabana . No filme de Drew Goddard um grupo de jovens vai passar alguns dias em uma cabana reclusa, em u...

As outras Odisseias

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Por Ernesto Diezmartínez Cena de L'île de Calypson , de Georges Méliès. Uma curiosidade inevitável: a primeira adaptação cinematográfica da Odisseia , o poema épico situado na fundação da literatura ocidental, foi realizada por Georges Méliès, não apenas verdadeiramente o primeiro diretor de cinema, mas um autêntico taumaturgo cinematográfico: o primeiro a compreender a nascente sétima arte como uma máquina de ilusões, truques e maravilhas. Em L'île de Calypso: Ulysse et le géant Polyphème (1905), realizado apenas dez anos após a invenção do cinema, Méliès funde dois episódios da epopeia de Homero em um filme imaginativo, em plano-sequência, no qual Odisseu — o próprio Méliès — rejeita a ninfa Calipso enquanto enfrenta Polifemo, o monstruoso Ciclope, filho de Poseidon. Desde essa primeira abordagem cinematográfica, houve pouco mais de trinta adaptações diretas de todo tipo e natureza, além de muitas outras abordagens à emblemática jornada do herói concebida pelo poema épico e ...

Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz

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Por Pedro Fernandes A obra cinematográfica de Karim Aïnouz é vasta e multifacetada. Inclui títulos como Abril despedaçado (2001), Madame Satã (2002), Cidade baixa (2005), Cinema, aspirinas e urubus (2005), O céu de Suely (2006) e Praia do futuro (2014), para referir os filmes mais conhecidos. É óbvio que existe um estilo próprio, como o interesse por personagens descentradas ou dilemas que as mobilizam individual ou mesmo coletivamente. Em alguns dos casos recorrentes é o horizonte de uma existência plena o que elas procuram entre os seus próprios escombros. Encontramos certa parte desse interesse em Rosebush Pruning (2026), que se beneficia do uso livre das várias expressões possíveis no cinema para construir um ensaio descarnado do hedonismo em tempos de alto capital. Diríamos que é a aposta mais ousada de um cineasta mobilizado por alguns interesses caros a cineastas como o Ruben Östlund de Força maior (2014), ou o de Triângulo da tristeza (2022) ou o Yorgos Lanthimos de O ...

Franz, de Agnieszka Holland

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Por Pedro Fernandes Numa certa passagem de Franz (2025), da cineasta polonesa Agnieszka Holland, uma guia explica a um grupo de turistas em língua francesa que visita o museu dedicado ao escritor localizado em Praga duas instalações colocadas uma ao lado da outra que explicitam por contraste parte significativa da bibliografia dedicada ao estudo da obra kafkiana e a pequena mala com a qual Max Brod conseguiu transportar os papéis do amigo, salvando-os do interesse de destruição recomendado pelo próprio Kafka e das mãos dos nazistas.  Nessa hiperbólica biblioteca acerca da obra, a seção de imagens é mais tímida. No nicho das cinebiografias, por exemplo, repousam o próprio filme de Holland e o do estadunidense Steven Soderberg, Kafka (1991). Se formos mais generosos com a catalogação, podemos acrescentar a minissérie austríaca de David Schalko, também intitulada Kafka (2024). É possível que, numa era de regresso ao culto do autor, as coisas mudem um pouco. As coisas talvez dependa...

Notas sobre Um poeta, de Simón Mesa Soto

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Por Aloma Rodríguez   A noite e você . Óscar Restrepo é um poeta, o poeta protagonista de Um poeta , o segundo longa-metragem do cineasta colombiano Simón Mesa Soto. Possui dois livros publicados há muitos anos e uma filha com quem mantém uma relação bastante irregular. Não tem emprego, dinheiro, carro ou casa; vive com a mãe, de quem pega o carro emprestado — apesar das suas constantes e explícitas proibições, “Não pegue meu carro” — e a quem pede dinheiro. Ele tem a promessa de um negócio milionário que envolve um investimento, mas com um retorno que acrescenta vários zeros, tudo certificado pelo governo do Zimbábue. Como Restrepo afirma no filme, ele lida muito mal com “o problema do álcool”: sua primeira vez bêbado o deixa desmaiado na rua — acordando ao som de “La luna en tu mirada”, de Los Zafiros — depois de proferir veementemente uma palestra para outro bêbado sobre a superioridade do poeta José Asunción Silva em relação a todos os outros, especialmente Gabriel García ...

Guerra civil e revolução no cinema de Ken Loach

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Por Michel Goulart da Silva No dia 17 de julho de 1936, ocorreu o levante militar liderado pelo General Francisco Franco, dando início à Guerra Civil na Espanha. Esse processo teve no filme Terra e liberdade (1995), premiados em Cannes, uma de suas melhores interpretações produzidas para o cinema. O diretor Ken Loach se baseou principalmente em relatos de pessoas que viveram o processo, como o escritor britânico George Orwell, em sua Homenagem à Catalunha .  Loach produziu, assim, uma obra épica emocionante, fazendo um debate entre tática e estratégia na luta política que se mostra relevante ainda na atualidade. O filme mostra desde a empolgação de vitórias em batalhas contra o franquismo até a tristeza de ver as traições das direções e a morte de numerosos combatentes da Revolução Espanhola. O centro da história narrada no filme é David Carr, membro do partido comunista inglês, que, ao se voluntariar para lutar na guerra civil, acaba sendo integrado a uma milícia comandada pelo P...

Reconstrução e a sombra de John Ford

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Por Ernesto Diezmartínez  2025 foi um ano dos sonhos para o consagrado ator britânico Josh O’Connor: ele estrelou a mais recente obra-prima de Kelly Reichardt, Mente maestra (2025), viveu um romance discreto com Paul Mescal no sutil drama romântico-musical A história do som (Hermanus, 2025) e até roubou a cena de Daniel Craig em Vivo ou morto: um mistério Knives Out  (Johnson, 2025). No entanto, seu trabalho mais interessante estreou no início do ano, naquele que talvez seja seu melhor filme até o momento. Refiro-me a Reconstrução (Estados Unidos, 2025), o segundo longa-metragem de Max Walker-Silverman, apresentado fora de competição no Festival de Sundance de 2025. O’Connor interpreta Dusty Fraser, um rancheiro do Colorado que acaba de sofrer um desastre natural que também é existencial: seu rancho foi destruído em um dos incêndios florestais recorrentes que assolam o Oeste americano, deixando-o arruinado financeira e emocionalmente. O que um rancheiro pode fazer sem seu r...

Werner Herzog: em busca de fantasmas

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Por Luis Reséndiz Poucos cineastas se expressam com tanta precisão quanto Werner Herzog. Talvez seja seu forte acento bávaro, seu constante distanciamento irônico ou a maneira brilhante como articula e estrutura seus pensamentos, mas o fato é que, desde os documentários em que sua narração é a espinha dorsal até suas palestras, entrevistas e apresentações, ouvir Werner Herzog falar é sempre uma experiência enriquecedora. Como prova, apresento uma entrevista de mais de quarenta anos atrás. No final de 1982, Herzog apareceu pela primeira vez em um talk show noturno, o Late Show with David Letterman , para promover um de seus dois épicos amazônicos, Fitzcarraldo (1982). Entrevistador implacável e persistente, Letterman, como dizemos por aqui, pressionou o diretor por diversos ângulos, incluindo os inúmeros contratempos enfrentados pela produção — relatados em Burden of Dreams  (1982), de Les Blank, sobre a tortuosa realização de Fitzcarraldo  —, os perigos aos quais Herzog se e...

O cinema e o tema da vingança

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Por Michel Goulart da Silva Bela vingança (no título original, Promising Young Woman ) recebeu o Oscar de Melhor Roteiro em 2021. Protagonizado por Carey Mulligan, o filme está centrado na vingança de uma jovem mulher (Cassie) contra as pessoas que teriam levado sua melhor amiga (Nina) ao suicídio, depois de ter sido estuprada e ver o responsável pelo crime sair impune. Essa parece ser a história de tantos outros filmes — como aquelas da franquia conhecida no Brasil como Doce vingança . Contudo, a produção de Emerald Fennell se distancia dessa possível comparação em muitos sentidos. No começo do filme, tomamos contato com Cassie, quando aplica “lições” em homens que se aproveitam de mulheres vulneráveis. Ela vai a bares, finge estar bêbada e, quando os homens começam a assediá-la, os surpreende mostrando estar lúcida, os assustando. Nesses momentos procura mostrar a fragilidade desses homens, cuja masculinidade parece acabar diante de ter a sua frente uma mulher lúcida e sob contr...

Godzilla Minus One: o símbolo revisitado

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Por Davi Lopes Villaça  Antes de assistir a Godzilla Minus One (2023), de Takashi Yamazaki, eu já havia assistido a dois filmes com o monstro, ambos americanos: Godzilla de 1998 e Godzilla de 2014. Um mais esquecível do que o outro (embora o primeiro, assistido aos seis anos de idade, tenha me impressionado bastante). Por um longo tempo imaginei que filmes de Godzilla eram, em essência, bobagem. Nalgum momento alguém me contou que o monstro tinha um significado profundo para os japoneses, que ele era uma metáfora para as armas atômicas, mas isso não me parecia melhorar muito as coisas. Então, depois de escutar vários comentários positivos sobre o novo filme, fui ao cinema com amigos na expectativa de me divertir com uma bobagem muito bem produzida. Saí da sala positivamente surpreso, tendo enfim compreendido que, se Godzilla se tornara um monstro tão icônico, isso tinha a ver com sua grande força simbólica, e não apenas com nosso gosto por ver lagartos gigantes quebrando coisas....

Razão e ceticismo em The Mentalist

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Por Michel Goulart da Silva Em 2008, no mês de setembro, o charmoso personagem Patrick Jane estreava sua série The Mentalist na televisão estadunidense. Nos primeiros episódios, mesmo sem saber naquele momento, os espectadores que assistiam à série foram apresentados ao perigoso serial killer Red John. O vilão, cuja identidade foi revelada apenas muitas temporadas depois, havia assassinado com crueldade a esposa e a filha pequena de Jane, que se dizia um vidente, à época ajudando a polícia em sua caçada por Red John. Em meio a uma pilha da cadáveres que foram se acumulando durante os muitos anos de atividade do perigoso assassino, Jane, deixando de lado o personagem do vidente que havia criado para ganhar dinheiro, passou a viver em função de perseguir seu grande oponente. Contudo, embora centrasse sua narrativa no embate entre Jane e Red John, a série sempre conseguiu levantar questões filosóficas de grande relevância tanto para seus personagens como para os espectadores. Logo na pri...