Marcelocsousa
Este livro começa antes de Sousa chegar ao rio.
Começa onde a maioria das histórias evita olhar: no meio. Não no colapso dramático, não na virada iluminada, não no momento em que tudo desmorona de uma vez e o personagem finalmente entende o que o leitor já sabe há páginas. Começa no lugar mais difícil de narrar, porque é o lugar mais difícil de perceber. O lugar onde tudo ainda funciona. Onde os números fecham, os pedidos saem, as reuniões acontecem, e ninguém, olhando de fora, consegue apontar o problema com precisão suficiente para que ele precise ser resolvido.
Começa no meio de um homem que ainda não parou.
Sousa não é herói. Também não é vítima, que seria mais simples. É algo mais incômodo: é alguém que aprendeu bem. Aprendeu as regras do ambiente onde trabalhou por anos, internalizou a lógica daquele lugar, adaptou-se com a competência silenciosa de quem nunca precisou ser o melhor, apenas o mais confiável. O que ninguém ensina, porque ninguém quer admitir, é que aprender bem dentro de um sistema errado tem um custo que não aparece de imediato. Aparece depois. Em doses pequenas. No corpo, antes que a mente aceite. No cansaço que não passa com descanso. Na irritação que surge em situações que antes não incomodavam. Na sensação crescente de estar presente e, ao mesmo tempo, levemente fora de lugar.