A Lisboa não dava para vir de comboio.
Na verdade, dali de Beja não se ia a muitos lados de comboio. O Alentejo foi esquecido pela ferrovia. Para ir a algum sítio havia sempre que fazer um transbordo, geralmente na Casa Branca. Em certos percursos apanhava-se a automotora, que era como se chamava ao comboio que ainda era pior do que os comboios normais, até porque para aqueles lados ainda hoje não há alfa pendular.
Então, a Lisboa não dava para vir de comboio.
Chegava-se ao Barreiro e tínhamos de deixar a carruagem para apanhar o barco. Lá íamos nós, carregados com as malas, que naquele tempo não tinham rodinhas. E depois vínhamos embalados nas ondas do Tejo, esperando que estivesse bom tempo e pudéssemos vir cá em cima, a levar com o vento na cara em vez de levar com o fumo do tabaco dos outros.
Não fiz essa viagem muitas vezes. De onde eu vinha, dava mais jeito apanhar o autocarro. Viagem directa até à cave da Casal Ribeiro. Directa, mas comprida. Saíamos às seis da tarde de domingo e sabe-se lá a que horas chegaríamos, dependendo do trânsito que apanhávamos na Nacional 2, onde nos juntávamos aos carros que vinham do Algarve, vínhamos todos em passo de caracol, muito antes da A2 tornar tudo mais fácil. Odiávamos os fins-de-semana prolongados, quando as viagens poderiam demorar cinco ou seis horas, com uma breve paragem na Colmeia para ir à casa-de-banho e comer uma empada, e depois continuar, entretidas com os walkmans e as cassetes onde tínhamos as nossas músicas favoritas. Não havia telemóveis. Só quando chegávamos a casa da dona Idalina, outra vez acartando as malas às costas até ao segundo andar, é que telefonávamos a avisar: já chegámos. Não eram precisas mais palavras. Economizávamos palavras para poupar nos impulsos e não chatear a senhoria.
Portanto, para Lisboa era necessário passar a ponte.
Quando era pequena achava que a ponte que aparecia nos filmes era a nossa ponte. Depois percebi que não (deve ter sido na mesma altura em que percebi que quando na televisão falavam de Odivelas não estavam a referir-se à aldeia que eu conhecia). Apesar disso, a ponte 25 de Abril, vermelha, enorme, suspensa por cabos gigantes, sempre exerceu em mim um enorme fascínio. Seja quando entro em Lisboa, seja quando vou a caminho de algum lado, passar a ponte tem sempre algum significado e há sempre uma emoção, que bom, voltar a casa (porque agora a minha casa já é deste lado), que bom, aqui vamos nós, e, neste caso, é quando passo a ponte que começo a sentir verdadeiramente a liberdade das férias ou dos fins-de-semana ou de um simples dia de praia, o que seja, que bom sempre este para cá e para lá. Gosto especialmente quando não estou a conduzir e posso deter-me a olhar o que se passa lá em baixo, a espreitar pelas ruas de Alcântara, a ver os barcos no Tejo, a imensidão deste rio, desfrutar da luz do sol a pôr-se já no mar quando voltamos com os pés cheios de areia. Só é pena o trânsito e é por causa dele que não passo a ponte tantas vezes quantas me apetece.
Há outras pontes. Mas para mim a ponte é esta ponte. A ponte sobre este rio que tanto me afasta como me aproxima das minhas memórias.
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- Com intermitências, mas continuo a fazer parte do largo. E que boas leituras tenho feito por lá.
- Da última vez partilhei umas fotos tiradas à espera do autocarro. Desta vez partilho a única foto que tenho tirada no barco do Barreiro, com a Fernanda e a Ana Vitória (espero que elas não se importem), quando vir a Lisboa ainda era uma emoção (na verdade, a foto foi tirada no regresso a casa e olhando agora para ela lembro-me tão bem de como estávamos contentes e cansadas, depois de dias de alegria e uma noite sem dormir).
- Também me lembrei deste texto, que retrata uma fase um bocadinho anterior a esta.