A Gata Christie

  • A ponte

    A Lisboa não dava para vir de comboio.

    Na verdade, dali de Beja não se ia a muitos lados de comboio. O Alentejo foi esquecido pela ferrovia. Para ir a algum sítio havia sempre que fazer um transbordo, geralmente na Casa Branca. Em certos percursos apanhava-se a automotora, que era como se chamava ao comboio que ainda era pior do que os comboios normais, até porque para aqueles lados ainda hoje não há alfa pendular.

    Então, a Lisboa não dava para vir de comboio.

    Chegava-se ao Barreiro e tínhamos de deixar a carruagem para apanhar o barco. Lá íamos nós, carregados com as malas, que naquele tempo não tinham rodinhas. E depois vínhamos embalados nas ondas do Tejo, esperando que estivesse bom tempo e pudéssemos vir cá em cima, a levar com o vento na cara em vez de levar com o fumo do tabaco dos outros.

    Não fiz essa viagem muitas vezes. De onde eu vinha, dava mais jeito apanhar o autocarro. Viagem directa até à cave da Casal Ribeiro. Directa, mas comprida. Saíamos às seis da tarde de domingo e sabe-se lá a que horas chegaríamos, dependendo do trânsito que apanhávamos na Nacional 2, onde nos juntávamos aos carros que vinham do Algarve, vínhamos todos em passo de caracol, muito antes da A2 tornar tudo mais fácil. Odiávamos os fins-de-semana prolongados, quando as viagens poderiam demorar cinco ou seis horas, com uma breve paragem na Colmeia para ir à casa-de-banho e comer uma empada, e depois continuar, entretidas com os walkmans e as cassetes onde tínhamos as nossas músicas favoritas. Não havia telemóveis. Só quando chegávamos a casa da dona Idalina, outra vez acartando as malas às costas até ao segundo andar, é que telefonávamos a avisar: já chegámos. Não eram precisas mais palavras. Economizávamos palavras para poupar nos impulsos e não chatear a senhoria.

    Portanto, para Lisboa era necessário passar a ponte.

    Quando era pequena achava que a ponte que aparecia nos filmes era a nossa ponte. Depois percebi que não (deve ter sido na mesma altura em que percebi que quando na televisão falavam de Odivelas não estavam a referir-se à aldeia que eu conhecia). Apesar disso, a ponte 25 de Abril, vermelha, enorme, suspensa por cabos gigantes, sempre exerceu em mim um enorme fascínio. Seja quando entro em Lisboa, seja quando vou a caminho de algum lado, passar a ponte tem sempre algum significado e há sempre uma emoção, que bom, voltar a casa (porque agora a minha casa já é deste lado), que bom, aqui vamos nós, e, neste caso, é quando passo a ponte que começo a sentir verdadeiramente a liberdade das férias ou dos fins-de-semana ou de um simples dia de praia, o que seja, que bom sempre este para cá e para lá. Gosto especialmente quando não estou a conduzir e posso deter-me a olhar o que se passa lá em baixo, a espreitar pelas ruas de Alcântara, a ver os barcos no Tejo, a imensidão deste rio, desfrutar da luz do sol a pôr-se já no mar quando voltamos com os pés cheios de areia. Só é pena o trânsito e é por causa dele que não passo a ponte tantas vezes quantas me apetece.

    Há outras pontes. Mas para mim a ponte é esta ponte. A ponte sobre este rio que tanto me afasta como me aproxima das minhas memórias.

    *

    • Com intermitências, mas continuo a fazer parte do largo. E que boas leituras tenho feito por lá.
    • Da última vez partilhei umas fotos tiradas à espera do autocarro. Desta vez partilho a única foto que tenho tirada no barco do Barreiro, com a Fernanda e a Ana Vitória (espero que elas não se importem), quando vir a Lisboa ainda era uma emoção (na verdade, a foto foi tirada no regresso a casa e olhando agora para ela lembro-me tão bem de como estávamos contentes e cansadas, depois de dias de alegria e uma noite sem dormir).
    • Também me lembrei deste texto, que retrata uma fase um bocadinho anterior a esta.
  • Ali Asgari, uma voz do Irão

    Como é viver numa ditadura? Como é viver num país em guerra? Como se contorna a censura para fazer cinema no Irão? Ali Asgari não pode dizer tudo o que quer, mas vai contando a sua história em filmes que nos fazem rir e pensar ao mesmo tempo. Falei com ele, a propósito de Divina Comédia, o seu mais recente filme, que está agora nos cinemas em Portugal.

    Podem ler a entrevista na CNN Portugal: “Quando se decide fazer um filme fora do sistema, sabemos que há consequências”: para o realizador iraniano Ali Asgari o cinema e o humor são atos políticos

    Ou ouvi-la em inglês no nosso podcast(e ainda levam de bónus as palavras bonitas do Tiago Palma e um bocadinho dos Divine Comedy): “Se não há esperança, nós somos apenas corpos que se movem sem razão (entrevista ao realizador Ali Asgari)

  • Quando ninguém está a ver

    Lembro-me da sensação. Andar na rua sem distribuir bons-dias. Sem ser observada. Sem ser julgada. Nunca me senti tão livre como quando cheguei a Lisboa com 17 anos e parecia que podia fazer tudo, que podia ser tudo. Ser anónima era tudo o que queria quando morava na minha pequena terra onde todos me conheciam. Ser invisível. Tinha muita curiosidade em saber: quem sou eu quando ninguém está a ver?

    Depressa descobri que podia até ser invisível, apenas mais uma na multidão, mas haveria sempre alguém disposto a apontar-me o dedo, a fazer-me sentir insegura.

    Conseguirei eu ser eu mesmo quando os outros estão a ver-me? – esse é que é o objectivo supremo, afinal. Sermos tão completamente honestos que não temos o que temer. Sermos exactamente aquilo que somos, em todas as circunstâncias.

    Objectivo difícil neste mundo extremamente performático. Essa é a batalha. Ainda aqui estou. Tem dias.

    *

    • Atrasada, mas vim. Eu ando numa roda viva, mas o nosso largo continua a ser um lugar muito aprazível.
    • Reavivei as minhas memórias dos anos 90 por causa do livro LX90, da Joana Stichini Vilela. Que viagem! Parece que foi ontem e no entanto já passaram 30 anos.
    • Fica aqui o lembrete: tenho que imprimir fotografias! As dos últimos dois anos ainda estão espalhadas por dispositivos vários e isso não me deixa nada segura.

  • Fomos outra vez muito felizes no Tremor

    Recuperando ainda temas de março que ficaram por registar: voltámos ao Tremor.

    E foi novamente uma experiência incrível.

    Antes de mais, pelos amigos, claro. Estes dias em São Miguel foram, em primeiro lugar, de férias com amigos – os mesmos de há um ano e mais ainda, porque isto nos amigos é sempre a somar – e só isso já vale por tudo.

    Desta vez, fiquei uma semana inteira na ilha e, uma vez que já todos conhecíamos os cantos à casa, conseguimos desfrutar ainda mais. Fomos a banhos na Caldeira Velha e no Parque Terra Nostra. Explorámos o centro de artes Arquipélago. Comemos maravilhosamente. Repetimos os chicharros do Mané Cigano e o cozido do Tony’s. Enfardámos bolo lêvedo e queijo com pimenta da terra sempre que possível. Acrescentámos as queijadas do Morgado (em Vila Franda do Campo), a cerveja e a sidra da Azores Brewing Company, o peixe fresquinho do Cantinho do Cais (em São Brás) e do Faria (na Ribeira Grande), o bife do Alcides e do Galego (em Ponta Delgada), o bife de atum da Adega do Mestre André (Ponta Delgada). Dito assim até parece que passámos o tempo todo a comer, o que não é (totalmente) verdade.

    Também houve as experiências do Tremor.

    O TTT – Tremor Todo o Terreno levou-nos pelo parque natural das Furnas, montanha acima numa caminhada pelo meio da floresta onde Curro Rodriguez deu um breve mas muito impactante concerto a capella.

    O Tremor na Estufa levou-nos ainda mais para cima, até ao Miradouro do Pico dos Bodes, para ouvir a extraordinária Jup do Bairro, num sítio que parecia tirado de filme, com a melhor vista que alguém podia pedir (a única parte má foi mesmo conseguir chegar lá acima). E no dia seguinte “mergulhámos” no Complexo Municipal de Piscinas da Lagoa para descobrir os belgas Use Knife – e que boa descoberta foi.

    Quanto a concertos, tenho ideia que este ano o programa não era tão interessante mas, ainda assim, teve vários momentos muito bons. O festival arrancou da melhor forma com o flamenco do Yerai Cortés. O concerto do egípcio Abdullah Miniawy com os dois trombones foi muito especial. Depois, tivemos a percussão dos Arsenal Mikebe, vindos do Uganda. O maestro e compositor brasileiro Itiberê Zwarg (que trabalhava com Hermeto Pacoal) esteve em residência com Escola de Música de Rabo de Peixe e o resultado foi, mais uma vez, muito emocionante. E, por fim, a grande sensação do momento – os canadianos Angine de Poitrine. Que privilégio poder assistir a esta misteriosa dupla mascarada de bolinhas brancas e pretas. Não é o tipo de música que costumo ouvir, mas em concerto resulta muito bem.

    Feitas as contas, voltámos para casa de coração cheio.

    Entretanto, já decidi que no próximo ano não irei ao Tremor (inserir aqui emoji choramingão). Por um lado tenho muita pena pois fui muito feliz nestes dois anos, mas, por outro, o tempo e o dinheiro não são ilimitados e há que fazer opções, por isso, vou tentar ter outros programas. Mas espero conseguir voltar em breve.

  • É urgente o amor

    Viva o 25 de Abril, sempre! Mal sinto as pernas, mas, em compensação, tenho o peito a rebentar de alegria.

    Começámos a festejar na sexta-feira à noite, no concerto de B Fachada a cantar José Afonso. O Fachada dá a volta às canções do Zeca e torna-as suas, algumas ficam muito parecidas ao original, outras nem por isso, o que é muito interessante. A energia na sala da Casa Capitão era muito boa, mas o concerto foi mais ou menos, talvez porque ele estivesse cansado (tinha feito o mesmo concerto à tarde), ou então apenas estava “desligado”, não sei, mas claramente não estava muito empenhado. Sei que aquele tom irónico, quase blasé, é uma das suas imagens de marca, mas, ainda assim, esperava um bocadinho mais.

    No sábado, 25 de Abril, desci a avenida rodeada de amigos e de muitos milhares de pessoas. Não sei dizer se estavam mais do que noutros anos, não consigo ter essa noção, mas sei que foi muito bom ver a avenida da Liberdade a rebentar pelas costuras de gente vinda de tantos sítios e ideias diferentes mas que se junta ali num grito claro: fascismo nunca mais! Nem fascismo nem fascistas nem nenhuma das suas declinações. É isto que estamos ali todos a dizer e é muito importante que o digamos, em alto e bom som, as vezes que forem necessárias. Foi uma tarde de luta e de muitos abraços, como sempre.

    Domingo, já bastante cansadita, fui ao concerto d’A Garota Não, no Palácio Baldaya, aqui em Benfica. Era ao ar livre e com entrada gratuita e foi realmente uma festa como se queria. A Garota trouxe o Coro das Mulheres da Fábrica e aquilo que ali vimos, durante uma hora e 40, foi absolutamente incrível. Um concerto de música de intervenção, de canções e gritos pela liberdade e pela democracia, em várias línguas e géneros musicais, interpretados por mais de 60 vozes. De Simone a Rage Against the Machine, passando por Sérgio Godinho, Patti Smith, José Afonso, John Lennon, Censurados ou Bob Marley, houve de tudo um pouco. A Garota está a cantar cada vez melhor e estava visivelmente feliz. Empunhámos os cravos e emocionámo-nos, claro. Mais uma vez.

    E já que falo da Garota, aproveito para deixar registado que março também foi mês dela: primeiro, vi “Uma Pina Colagem”, o espectáculo do Teatro Nacional de São João, no Porto, encenado por Victor Hugo Pontes, com músicas d’A Garota Não a partir da poesia de Manuel António Pina; depois, o concerto no CCB, que ela concebeu como uma homenagem, antes de mais, à sua mãe, e, depois, a todas as mães e a todas mulheres. Um palco cheio de convidados, textos muito bons, as canções que já sabemos que são extraordinárias, a vida da Cátia e da mãe da Cátia ali contada – que é, no fundo, a vida de todas nós. Foi muito emocionante e muito bonito.

    Começam a faltar as palavras para falar desta mulher. Cada concerto seu é um privilégio enorme.

  • Posso falar? Am I allowed do speak?

    Havia uma grande expectativa sobre Um Inimigo do Povo, o espectáculo do Marco Martins que se estreou no final do ano passado em Braga e foi eleito pelo Público como o melhor espectáculo de 2025. Os bilhetes para as poucas sessões no CCB, em março, esgotaram-se rapidamente, marcou-se uma sessão extra. As reacções que me chegaram, após a primeira noite, foram todas boas.

    Um Inimigo do Povo parte de uma imagem: a fotografia dos imigrantes encostados à parede durante uma rusga na rua do Benformoso, em Lisboa, a 19 de dezembro de 2024. Se não fosse essa fotografia, partilhada nas redes sociais e na comunicação social, provavelmente nem teríamos sabido daquela operação policial. Ou nem nos teria interessado. Seria apenas mais uma rusga. Mas assim ficámos a saber: mais de 60 de homens imigrantes foram encostados à parede por 100 polícias e revistados, full body search, sem qualquer motivo ou suspeita a não ser serem imigrantes e estarem naquela rua. Ficaram ao frio, de braços no ar, imóveis durante mais de duas horas.

    No final, não se descobriu nenhuma rede criminosa nem foram detectadas pessoas potencialmente perigosas para a sociedade. Eram apenas trabalhadores, vindos de outros países, maioritariamente da região da Índia, Bangladesh e Nepal, alguns sem os devidos documentos, mas não criminosos.

    O acontecimento deu origem a acaloradas discussões. Os fascistas do costume aproveitaram para dizer as coisas do costume. Por causa dessa operação policial, juntei-me na altura à manifestação “Não nos encostem à parede”. A vida mudou na rua do Benformoso. Há um antes e um depois da rusga, contam as jornalistas Raquel Moleiro e Joana Pereira Bastos, do Expresso, que fizeram toda a pesquisa para o espectáculo e falaram com alguns dos homens que foram resvistados, testemunhas oculares (incluindo a mulher que tirou a fotografia) e frequentadores habituais da rua.

    A criação do espectáculo começou com um grupo de 28 imigrantes, partindo das suas biografias e das razões que os trouxeram a Portugal. O grupo foi sendo reduzido até ficarem apenas 10, aos quais se juntaram os actores Rita Cabaço e Rodrigo Tomás. Marco Martins explica no programa distribuído à entrada que o texto foi sendo construído a partir destas entrevistas, de diários e correspondência, das conversas tidas durante os ensaios, das improvisações, e ainda fragmentos da obra de Ibsen, Um Inimigo do Povo, e outros.

    Tal como em espectáculos anteriores, Marco Martins pega em pessoas reais e leva-as para o palco, para que contem a sua história.

    A primeira vez que vi um espectáculo dele com este formato foi Todo o mundo é um palco, em 2017, que pretendia ser um retrato de Lisboa mas era o retrato de uma cidade de imigrantes. No ano seguinte houve Números Provisórios, que também partiu de uma investigação sobre emigrantes portugueses no Reino Unido. Depois, em 2023, vi Pêndulo, com oito mulheres imigrantes, trabalhadoras domésticas e cuidadoras informais, e, finalmente, em 2024, A Colónia, a partir das memórias dos filhos dos presos políticos.

    Gostei de todos eles e gostei deste Um Inimigo do Povo. São espectáculos muito bem feitos, muito bonitos e aos quais é impossível ficar indiferente. Emocionei-me sempre.

    É muito importante que todas estas histórias sejam contadas. Senti isso em todos, mas, concretamente em Um Inimigo do Povo, num momento tão difícil politicamente, é ainda mais importante que estas histórias sejam contadas. Que lutemos contra a desumanização do outro. Que olhemos estas pessoas e saibamos as suas histórias. “Posso falar?”, perguntam os intérpretes repetidamente. “Am I allowed do speak?” É importante que estas pessoas tenham oportunidade para falar, é importante que sejam ouvidas, que as saibamos ouvir.

    Imagino, pelos sorrisos deles no final, que estivessem felizes não só por poder contar a sua história mas também por participar na criação do espectáculo, até porque alguns deles eram ou tinham sido artistas, e também por terem esta experiência de trabalhar em conjunto e de se pensarem em conjunto. Imagino apenas. Espero que tenha sido uma boa experiência para eles, gostava mesmo de saber como se sentiram neste processo, o que levam destes meses de criação e das apresentações perante salas cheias.

    Eu senti um certo desconforto, devo dizer. Já não é a primeira vez. Tenho sempre tantas dúvidas nestas situações. Ali estamos nós, plateias brancas, confortáveis na nossa vida de classe média, bem pensantes, a emocionarmo-nos com a pobreza e a miséria daquelas pessoas, a derramar uma lagriminha, a aplaudi-los pela coragem de se exporem perante nós. A fazer daquelas vidas um entretenimento nosso.

    E depois? O que mudou na vida destas pessoas depois de as aplaudirmos tão efusivamente? Conseguiram os seus títulos de residência? Conseguiram trabalhos melhores? Uma casa em condições? Ordenados justos? Já não são discriminados na rua, nas instituições, em todo o lado? Alguém poderá garantir que não voltarão a ser encostados à parede? Fizeram amigos? Estão mais felizes com a sua vida?

    O que fica depois de tudo isto a não ser sairmos dali a dizer “que brutal”, a sentirmo-nos muito bem connosco próprios porque estamos do lado certo do mundo, do lado que vê o que se passa e sente compaixão (mas mantendo a distância, claro), depois de usarmos estas pessoas como pensos rápidos para apaziguar a nossa má consciência social?

  • Num abrir e fechar de olhos

    Uma das minhas amigas foi mãe há pouco tempo. No nosso grupo de amigas, somo seis, ela foi a última a ter filhos, e por isso estamos todas muito entusiasmadas por acolher esta bebé num momento em que algumas de nós já há muito tempo que não sabem o que é isso de ter bebés a gatinharem no chão ou crianças a brincarem no parque. A Emília acabou de fazer três meses (e está tão fofinha), o meu filho mais novo, Pedro, está a um mês de completar os dezoito anos. Glup. Como assim?

    Quando somos mães, dizem-nos muitas vezes: aproveita, que passa depressa. É verdade. Passa mesmo. Quando damos por nós eles deixam de nos caber no colo e depois já não querem dar-nos a mão na rua e não tarda nada estão a revirar os olhos a tudo o que dizemos. Num dia estamos a trocar-lhes as fraldas, no dia seguinte estamos a segurar-lhes a cabeça enquanto eles vomitam, depois de chegarem a casa bêbados às três da manhã. Olhamo-los de soslaio e são “uns homens feitos”, ou quase, vá.

    Aproveita, que passa depressa. A frase, na verdade, aplica-se a tudo. É preciso aproveitar a vida o melhor que pudermos, aproveitar as pessoas que nos rodeiam, aproveitar as coisas boas antes que se acabem. É o que sinto nos últimos tempos. Como se, passada a meta dos 50, tendo agora a certeza absoluta, sem margem para dúvidas, que estou mais perto do fim do que início, fosse absolutamente urgente não ter pressa. Parar. Pausar. Desfrutar de cada segundo como se fosse o último (mas desejando que não seja).

    Nunca gostei de shots. Ao contrário do Pessoa, não quero “beber a vida num trago”. Quero saboreá-la lentamente. Mas saboreá-la por inteiro.

    *

    Há uns tempos, os rapazes andaram divertíssimos a redescobrir as suas fotos de infância. E com as fotos vieram as memórias e as histórias de que se lembravam e outras de que não se lembravam. Que felicidade. Acho que aproveitámos muito e aproveitámos bem. Temos aproveitado, continuamos a aproveitar.

    *

    Temos Largo, iupi! Ainda está muito no começo, mas, agora, além dos espaços de cada uma, também já temos uma espaço comum. A ver se conseguimos cuidá-lo como merece. Estreio-me no Substack mas ainda não declarei oficialmente a morte dos blogues. Vou continuar por aqui (espero).

  • A Gorda – agora no teatro

    Nunca tinha ido ao teatro a Alverca. Tivemos que pôr a morada no GPS e, chegadas ao local, procurar nas traseiras do prédios o Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, um barracão pequeno e sem sofistificação, com cadeiras duras na plateia e parco aparato técnico. Durante o espectáculo ouvia-se um cão a ladrar na vizinhança. Não fez qualquer diferença. O importante no teatro não são as cortinas de veludo nem o cappuccino que se vende no bar, não é o chão alcatifado nem os dourados nos puxadores das portas. O importante no teatro é o teatro que ali se faz e as pessoas que o fazem. E nisso estávamos bem servidos. A celebrar os seus 40 anos, a Companhia Cegada ousou incluir no seu programa um monólogo construído a partir do excelente livro A Gorda, de Isabela Figueiredo, interpretado pela extraordinária Maria Rueff.

    Uma mulher sozinha, no palco e na vida. Maria Luísa, uma mulher que foi gorda durante muito tempo. Que amou e foi amada. Mas que, apesar disso, viveu com muita vergonha do seu corpo. Sofreu muito. Perdeu o seu amor. Perdeu o pai e depois a mãe. Tem muitas memórias para encaixotar. E quer começar de novo. “Não é possível haver vida sem sofrimento”, diz Isabela Figueiredo, entrevistada no cuidado programa do espectáculo. “A esperança ajudou-me a sobreviver a tempos muito sombrios. O ser capaz de pensar ‘isto vai mudar, isto não vai ser sempre assim’. Tudo muda.”

    A adaptação de Marta Dias é eficaz. À encenação de Sofia de Portugal falta-lhe, ao mesmo tempo, a subtileza e a garra, se é que isso é possível. As músicas pareciam um pouco metidas a martelo. O som e a luz mereciam ser mais aprimorados. Mas, que sei eu?, o texto é incrível e a Maria Rueff poderia dizê-lo num palco vazio e tocar-nos bem fundo, não seria preciso mais nada.

    A sala estava cheia, mais mulheres do que homens, claro. As sessões esgotaram num ápice (mas pelo que percebi o espectáculo irá continuar em cena, circulando pelo país, fiquem atentos). Foi um gosto estar no teatro e não ver os rostos do costume, estar longe do hype e lembrarmo-nos que o país não é só Lisboa, que o teatro não está só nas instituições que aparecem nas notícias. É tão importante este trabalho.

    Estava um domingo de sol e vento. Fui a Alverca com uma amiga. E voltamos aconchegadas, a pensar na Maria Luísa e nisto de ser mulher. Foi um programa perfeito.

  • A felicidade nas coisas pequenas (LIV)

    Fazer coisas pelas primeira vez. Este ano completam-se 30 anos desde que entrei pela primeira vez numa redacção – para estagiar no Diário de Notícias. Os dias não são todos felizes, longe disso, mas posso dizer-vos que é muito entusiasmante continuar a aprender e poder, aos 51 anos, ainda fazer coisas pela primeira vez. Ontem foi para o ar a minha primeira peça televisiva. Como todas as primeiras vezes, esta também não foi perfeita. Mas foi mais um desafio superado e só isso já é uma alegria.

    (estar na televisão não era um sonho nem sequer um objectivo e até é uma coisa sem importância nos dias de hoje, mas não consigo deixar de pensar como a minha mãe ficaria feliz – e orgulhosa – de ver ali o meu nome)

    Podem ler e ver a entrevista na CNN Portugal: Kleber Mendonça Filho: Entre a alegria do Carnaval e as sombras da ditadura, “O Agente Secreto” “é um filme muito brasileiro, mas ao mesmo tempo universal”

    E ainda uma entrevista à atriz Isabém Zuaa: Isabél Zuaa é a atriz portuguesa de “O Agente Secreto”: foi só “fazer uma participação” e agora vai estar nos Óscares

  • Então e os Óscares?

    Este ano, confesso, não estou muito no mood dos Óscares. Não sei se é dos filmes, se é do mundo, se é de mim… mas vou dar o meu melhor para deixar aqui algumas impressões sobre os nomeados deste ano.

    Melhor Filme

    Dos dez filmes nomeados, não vi de todo F1, Frankenstein e Pecadores. Não vi porque não me apeteceu, não tive tempo, não tive motivação. É o que é. Comecei a ver o Bugonia e desisti. Tenham paciência, mas não é para mim. Comecei a ver o Sonhos e Comboios e adormeci – duas vezes. Admito que é um filme bonito e, pelo que me disseram, muito comovente, mas calhou na minha fase blhéc e não consegui.

    Vi cinco filmes, portanto.

    O meu preferido é Batalha Atrás de Batalha.

    No segundo lugar ex-aequo colocaria Hamnet e Valor Sentimental (não cheguei a escrever aqui sobre este filme, mas é mesmo muito especial).

    A seguir vem O Agente Secreto.

    E, por fim, a grande distância, Marty Supreme. Aborreceu-me um bocadinho, não consegui verdadeiramente ligar-me àquela história, mas é um filme muito bem feito e o Chalamet, sendo um puto parvo é também um óptimo actor, há que concordar nisso.

    Filme Internacional

    Esta é sempre uma das minhas categorias preferidas.

    Não vi o Sirat (Espanha). Já está no Filmin e quero vê-lo, mas li algumas coisas e ouvi os comentários de amigos e já percebi que será um filme que vai mexer comigo, então estou à espera do momento certo.

    Dos que vi, penso que A Voz de Hind Rajab (Tunísia)será o mais fraco. A história é incrível. Hind Rajab era a menina palestiniana de cinco anos que estava a fugir da zona ocupada em Gaza, com a família, quando o carro em que seguiam foi atingido pelas Forças de Defesa de Israel. Quando a menina começou a falar com os assistentes de emergência do Crescente Vermelho os outros seis familiares que estavam no veículo já tinham morrido. O filme usa os sons reais dessa chamada telefónica. Depois de três horas de negociações, a organização conseguiu finalmente uma rota segura para enviar uma ambulância e resgatar a criança. Mas um novo ataque israelita matou Hind Rajab e os dois paramédicos que seguiam na ambulância. Apesar do impacto de ouvirmos a voz de uma criança a pedir ajuda (e do impacto ainda maior quando deixamos de ouvi-la), o filme, cuja acção se passa totalmente na central de ajuda do Crescente Vermelho, acaba por ser um pouco falhado. [Em vez deste, talvez tivesse nomeado o filme sul-coreano No Other Choice, de Park Chan-wook, um desses filmes que com o seu humor negro demorou a conquistar-me mas que se foi entranhando em mim e acaba por ser um dos meus preferidos da temporada]

    Os outros três nomeados são todos bons, mas entre O Agente Secreto (Brasil), Foi Só um Acidente (França) e Valor Sentimental (Noruega), a minha escolha muito pessoal vai para este último. O filme de Joachim Trier é um tratado sobre a família e as relações familiares, como nos moldam, como nos fundam, sobretudo a relação entre um pai ausente que tenta reatar a ligação às duas filhas. A mim tocou-me muito a relação entre as duas irmãs. Aquelas cumplicidades que existem e que quase não precisam de palavras. A ideia da família como casa, ou da casa como ninho seguro. Isto tudo contado com as palavras estritamente necessárias, filmado com uma clareza e depuração que talvez só seja possível num filme nórdico.

    Documentário

    Fiquei muito contente por ver que Come see me in the good light estava nomeado para melhor documentário. É um filme muito especial. Mas a concorrência é de peso.

    O favorito deverá ser Mr. Nobody Against Putin, um filme sobre um professor na Rússia de Putin. Escrevi sobre esse filme na CNN: De armas na mão e a cantar o hino. “Mr. Nobody Against Putin” mostra como a Rússia está a doutrinar as suas crianças para a guerra.

    The Perfect Neighbor é um documentário da Netflix que tem a particularidade de quase só usar material das câmaras de videovigilância e das bodycams dos agentes da polícia. É um filme interessante, sobretudo pela forma como mostra como uma pessoa “normal” se pode transformar numa assassina, mas não me parece que seja material para Óscar.

    The Alabama Solution, que está na HBO, documenta a violência policial no sistema prisional do estado do Alabama. Também aqui se usam muitas imagens da videovigilância e vídeos filmados, furtivamente, com telemóveis, pelos próprios prisioneiros. A investigação é muito importante, até porque este é um problema que está longe de estar circunscrito àquela prisão. [porque este é um assunto que me interessa, aproveito para aconselhar um outro documentário, Malqueridas, sobre as mulheres e mães prisioneiras no Chile, que está no Filmin]

    Não vi o Cutting Through Rocks, mas estou muito curiosa. O filme acompanha Sara Shahverdi, a primeira mulher eleita para a assembleia da sua aldeia e uma ativista pelos direitos das mulheres no Irão.

    Das curtas de documentário, penso que só vi Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud, sobre o jornalista Brent Renaud, morto na Ucrânia em 2022. Está na HBO e falou directamente ao meu coração de jornalista.

    E ainda

    Não tenho preferidos para os Óscares de interpretação, mas queria aproveitar para dizer que não acharia nada mal entregar o prémio ao Ethan Hawke que faz um papelão em Blue Moon, num registo que não é aquele a que nos habituou. Não adorei o filme do Richard Linklater, mas penso que é uma daquelas situações em que “o problema não és tu, sou eu” e prometo dar-lhe uma segunda oportunidade.

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