Coração Acordeão

Um blogue de variedades. {Arquivo}
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«Los antiguos habitantes de Mesopotamia creían que los pájaros eran sagrados porque, en la arcilla todavía blanda, sus patas dejaban marcas que se parecían a la escritura cuneiforme. Descifrar esos signos suponía saber qué pensaban los dioses.»

— Vivian Abenshushan, Permanente Obra Negra.

«Pode perguntar-se […] para quê. A resposta da ciência é obvia: para saber. Em tempos como os nossos, pergunta-se muitas vezes o mesmo que perguntou o Califa Omar diante dos 500 000 rolos de papiro da Biblioteca de Alexandria que guardavam todo o conhecimento da Antiguidade Clássica: para quê? E frequentemente, hoje como há 14 séculos, uma tal pergunta é prenúncio de incêndio. A resposta “para saber” não chega. E suscita frequentemente nova pergunta: saber para quê? Por isso as universidades portuguesas, ou grande parte delas, deixaram hoje de ser lugares de saber para se tornarem em lugares do “saber útil”, e a mais das vezes apenas do “saber imediatamente útil”. Se dependesse de boa parte da Universidade Portuguesa actual, o Sol giraria ainda à volta da Terra, pois não se vislumbraria que “utilidade” imediata teria saber que é a Terra que afinal gira à volta do Sol.»

— Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura.

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Federico García Lorca sorridente, à esquerda, numa viagem com a companhia de teatro La Barraca. 1932. (Fotograma.)

«In fact to have no sense of humour is to be a seriously flawed human being. It’s not a minor shortcoming; it shuts you off from humanity.»

— Alan Bennett, Keeping On Keeping On.

PAVESEANA

«Há uns poucos adultos presentes, além de dezenas de meninas e meninos que riem, gritam, cantam e dançam. Um dj toca hits de funk e divas pop, enquanto a música que ouço é outra: a de uma história alternativa à que acabo de contar aqui. Nela há coisas que não cabiam nestas notas, momentos de leveza, humor, amizade e plenitude ocorridos comigo aos doze anos, e aos dezesseis, dezessete e demais idades até a que tenho hoje. Um dia talvez eu escreva sobre a beleza e a graça do passado e do presente. Talvez eu descubra que a angústia e a tristeza são bengalas narrativas, e desista de ver nelas mais apelos que os da felicidade.»

— Michel Laub, Verão na Névoa.

VOCÊ ACORDA MORTO

«Há uma pichação no cemitério da Cardeal Arcoverde pela qual guardo muito espanto. É bruta e ruidosa, são dois versos, um grito: acorda morto! Gosto porque não tem vírgula, só ponto de exclamação (mas o gesto verdadeiro não precisa de ponto de exclamação…!). Leio esse mandamento todo dia de manhã: acordamorto, acordamorto, acordamôr; acorda, amor; acorda, morto; acorda morto. Gosto porque é um chamamento à ressurreição e gosto porque, sem a vírgula, parece estar falando não com os mortos, mas com os passantes, os que espiam rapidamente pela janela do ônibus a caminho do trabalho: Você acorda morto, Você está acordado, mas não está vivo. Gosto dessa involuntária maldição ao trabalho sem alegria, trampo de mundo caduco, serviço.»

— Victor Heringer, Vida Desinteressante.

OFFCOLOR

When a white officer
was attacked
by a black inmate
fellow troopers
blasted the assailant
at such close range
that the officer
himself
was pinked.
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— Ken Mikolowski, Big Enigmas.

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Andy Warhol, David Hockney, Henry Geldzahler e Jeff Goodman. Anos 60. Fotografia de Dennis Hopper.