Esta é a crônica de
uma alma que se busca e somente encontra o eco de seu próprio nada, num “amplo
domingo” a metaforizar o cenário silencioso onde a consciência enfrenta os seus
próprios abismos, essência pura de ausência e negação, sem encontrar escapatórias
por meio das artes – especialmente a da palavra –, da ação ou mesmo do sonho.
É a luta entre o
desejo de felicidade e a frieza da realidade, entre a vida e a morte interior, num
diálogo agônico entretecido em linguagens incompatíveis: preso a uma espécie de
solipsismo desesperador, o falante encontra apenas burlas cruéis na paisagem
dos dias, simples recordatórios do inalcançável que, por si sós, são insuficientes
para poder fixar sentidos estáveis à sua existência.
J.A.R. – H.C.
Abgar Renault
(1901-1995)
Tarde de domingo
Para que escrever, se
eu jamais acontecerei num verso?
Para que escrever, se
a verde luz infinita
jamais se reverá no espelho
de nenhuma das minhas palavras?
para que escrever, se
meus olhos orvalham, neste preciso momento,
esta clara tinta
cheia de tantas caladas cousas?
Para que escrever-me,
se do horizonte perto e longe
nenhum raio de
estrela descerá jamais para ler-me e interrogar-me?
Para que escrever
tantas sílabas de sal e terra,
se nenhum grão de
terra e sal responderá?
Vou vestir-me, sair,
andar e encher de malfadado mim
este vazio céu e as
caladas ruas deste amplo domingo.
Escurecerei o sol, e
sentir-me-ei um com a minha escuridão,
e evocarei, no
passado dos mesmos passeios, os passos
da estátua, a
arquitetura do meu sonho andando,
desmanchando-se e
reorganizando-se, cada momento,
em ritmos de águas
embaladas de fácil vento,
o seu frio esplendor,
a sua permanência cruel
dentro de cada meu
minuto...
Para que sair? – A
vida sou eu, apenas eu,
e eu sou amargo e
antigo como tudo
e irei encontrar-me
em todos os instantes de cada esquina,
de cada jardim,
de cada casa, de cada
voz, de cada transeunte e nuvem,
e saberei como tudo
se parece tristemente comigo.
Para que escrever?
Para que qualquer cousa, mesmo fugir,
se até no território
cavo do meu sono
dói o mesmo diálogo
de silêncio, em línguas que uma à outra
não se compreendem,
entre a fatigada
chama e a espessura da neve que não dorme?
Para que tanto dia
adormecido sob o céu quase verde,
tão límpido, com
apenas três ou quatro nuvens (que carregam
sonhos),
esta penosa sugestão
de felicidade
solta nas colinas da
cidade,
passeando sobre as
folhas e os telhados,
para quê – se és o
mais mim de mim e és ausência e nunca?
(29.3.53)
Uma tarde de domingo
(Tom Roberts: artista
australiano)
Referência:
RENAULT, Abgar. Tarde de domingo. In: __________. Obra poética. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1990. p. 191.
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