Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 6 de setembro de 2026

Abgar Renault - Tarde de domingo

Esta é a crônica de uma alma que se busca e somente encontra o eco de seu próprio nada, num “amplo domingo” a metaforizar o cenário silencioso onde a consciência enfrenta os seus próprios abismos, essência pura de ausência e negação, sem encontrar escapatórias por meio das artes – especialmente a da palavra –, da ação ou mesmo do sonho.

 

É a luta entre o desejo de felicidade e a frieza da realidade, entre a vida e a morte interior, num diálogo agônico entretecido em linguagens incompatíveis: preso a uma espécie de solipsismo desesperador, o falante encontra apenas burlas cruéis na paisagem dos dias, simples recordatórios do inalcançável que, por si sós, são insuficientes para poder fixar sentidos estáveis à sua existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Abgar Renault

(1901-1995)

 

Tarde de domingo

 

Para que escrever, se eu jamais acontecerei num verso?

Para que escrever, se a verde luz infinita

jamais se reverá no espelho de nenhuma das minhas palavras?

para que escrever, se meus olhos orvalham, neste preciso momento,

esta clara tinta cheia de tantas caladas cousas?

Para que escrever-me, se do horizonte perto e longe

nenhum raio de estrela descerá jamais para ler-me e interrogar-me?

Para que escrever tantas sílabas de sal e terra,

se nenhum grão de terra e sal responderá?

Vou vestir-me, sair, andar e encher de malfadado mim

este vazio céu e as caladas ruas deste amplo domingo.

Escurecerei o sol, e sentir-me-ei um com a minha escuridão,

e evocarei, no passado dos mesmos passeios, os passos

da estátua, a arquitetura do meu sonho andando,

desmanchando-se e reorganizando-se, cada momento,

em ritmos de águas embaladas de fácil vento,

o seu frio esplendor, a sua permanência cruel

dentro de cada meu minuto...

 

Para que sair? – A vida sou eu, apenas eu,

e eu sou amargo e antigo como tudo

e irei encontrar-me em todos os instantes de cada esquina,

de cada jardim,

de cada casa, de cada voz, de cada transeunte e nuvem,

e saberei como tudo se parece tristemente comigo.

Para que escrever? Para que qualquer cousa, mesmo fugir,

se até no território cavo do meu sono

dói o mesmo diálogo de silêncio, em línguas que uma à outra

não se compreendem,

entre a fatigada chama e a espessura da neve que não dorme?

Para que tanto dia adormecido sob o céu quase verde,

tão límpido, com apenas três ou quatro nuvens (que carregam

sonhos),

esta penosa sugestão de felicidade

solta nas colinas da cidade,

passeando sobre as folhas e os telhados,

para quê – se és o mais mim de mim e és ausência e nunca?

 

(29.3.53)

 

Uma tarde de domingo

(Tom Roberts: artista australiano)

 

Referência:

 

RENAULT, Abgar. Tarde de domingo. In: __________. Obra poética. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1990. p. 191.

sábado, 5 de setembro de 2026

Brasileirão 2026: 25ª Rodada - Projeções do Modelo Esotérico-Matemático (MEM)

Eis aqui as novas projeções do MEM para o final do Brasileirão 2026 – Série “A”: informe-se, de início, que tais projeções levam em consideração o fato de que há equipes que, de fato, totalizam 25 jogos disputados; e outras com um menor número de partidas do que o apontado no título desta postagem, vale dizer, 24 prélios.

 

Segue o campeonato em disputa aberta pelo título, com mais chances para Flamengo e Palmeiras, sendo que a equipe carioca, muito mais pelos sites que calculam probabilidades do que pelas projeções equiparadas do MEM para ambas as equipes, mantém-se no topo das apostas.

 

Na parte de baixo da tabela, aos poucos estabilizam-se as posições de Chapecoense e Clube do Remo como sérios candidatos ao descenso, sendo que as duas outras equipes do quarteto continuam indefinidas, com muita alternância entre os estipulados pelo modelo.

 

Voltaremos ao final da 28ª rodada, quando então o campeonato entrará na reta final das últimas dez braçadas e as projeções que resultam do MEM somente em algumas poucas posições deixam de espelhar o que, de fato, acaba por suceder ao término da disputa. Aguardemos!

 

Para ver com maior nitidez as tabelas abaixo, clique em cima de cada uma das imagens para ampliá-las.

 

Um abraço a todo(a)s.

 

J.A.R. – H.C.

 

P.s.: Ao(à)s internautas amantes do futebol, peço escusas pela ausência da prometida projeção ao final do primeiro turno (19ª rodada), por razões de ordem pessoal, que me impediram de realizá-la com a necessária tempestividade.

 

Fontes:

 

Chance de Gol

Infobola

UFMG Matemática


Gabriel Celaya - Sou um péssimo plagiário

Entre mostras de modéstia e despretensão em relação à sua obra e inflexões irônicas diante das expectativas – da crítica ou do público leitor – quanto à originalidade em seus trabalhos, Celaya tenciona nos externar a ideia de que todo escritor se baseia na tradição linguística e literária, do que resulta ser o plágio algo praticamente inevitável, uma vez que a própria linguagem é uma herança coletiva.

 

Ainda que procure evitar certos modos poéticos, o poeta acaba por ser influenciado por eles, haja vista que exposto à influência de outras vidas, cujas vozes e experiências a Lírica tantas vezes absorve – num “roubo” compartilhado –, a exemplo dos versos pejados de intertextualidade, mediante os quais o verbo coletivo aflora como um tesouro artístico e sapiencial.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gabriel Celaya

(1911-1991)

 

Soy un pésimo plagiario

 

Me repiten y explican

que mis versos están llenos de defectos.

Escribo como puedo

y crean que lamento más que nadie

no haber nacido genio.

Escribo de prestado

pues que yo no he inventado el castellano.

Soy ya por eso un plagiario.

Tampoco escribiría como escribo si antes otros

no hubieran agotado ciertos modos.

Soy plagiario, en consecuencia, por rechazo.

Lo cierto es que me invaden otras vidas,

me poseen y hasta fuerzan a que diga

cosas que no son mías.

Soy plagiario pues también de esa manera.

¡Y con tanta riqueza acumulada,

tanta herencia, tanta lengua atesorada,

¿es posible que no logre salvar nada?

Hasta plagiar es difícil, ¡caramba!

 

En: “Operaciones poéticas” (1971)

 

O Escritor

(Rex M. Oppenheimer: artista franco-americano)

 

Sou um péssimo plagiário

 

Repetem-me e explicam-me

que meus versos estão cheios de defeitos.

Escrevo como posso

e eles creem que lamento mais do que ninguém

não ter nascido um gênio.

Escrevo de empréstimo,

pois não inventei o castelhano.

Sou já por isso um plagiário.

Tampouco escreveria como escrevo se antes outros

não tivessem esgotado certos modos.

Sou plagiário, em consequência, por rejeição.

O certo é que invadem-me outras vidas,

possuem-me e até forçam-me a que eu diga

coisas que não são minhas.

Sou plagiário, pois, também dessa maneira.

E com tanta riqueza acumulada,

tanta herança, tanta língua entesourada,

seria possível que nada devesse resgatar?

Até plagiar é difícil, caramba!

 

Em: “Operações poéticas” (1971)

 

Referência:

 

CELAYA, Gabriel. Soy un pésimo plagiário. In: __________. Trayectoria poética: antología. Edición, introducción y notas de José Ángel Ascunde. Madrid, ES: Editorial Castalia, 1993. p. 330-331. (Clásicos “Castalia”)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Melech Ravitch - Doze Linhas sobre a Sarça Ardente

Este exemplar de poesia yiddish pode ser lido mais amplamente do que num contexto circunscrito à sabedoria judaica, uma vez que reflete a angústia maior do homem contemporâneo, herdeiro de tradições religiosas milenares, mas que parece estar à mercê de forças diante das quais não obtém respostas, tampouco revelações como as de outrora recepcionadas.

 

No cerne da condição humana, sente-se a proximidade do ausente. Como reflexo, o problema da fé tornou-se um diálogo entrecortado, em meio ao qual a única teofania possível passou a ser a de uma “Sarça Ardente”, incrustada no coração mesmo da existência: a dor do absentismo divino é tão aguda que não se consegue esquecê-lo nem por um momento; de outra parte, a sua natureza é tão vasta, que redunda incompreensível para toda uma eternidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Melech Ravitch

(1893-1976)

 

Doze Linhas sobre a Sarça Ardente

 

Qual vai ser o fim de nós dois – Deus?

Você vai mesmo deixar que eu morra assim

e não me vai mesmo contar o seu grande segredo?

 

Devo mesmo virar pó, que é cinzento, cinza, que é negro?

E o grande segredo, mais perto de mim que a camisa, que a

pele do corpo,

continuará sempre segredo, embora mais fundo em mim que

o coração mesmo?

 

E foi mesmo em vão que no eito dos dias esperei, no ir das

noites aguardei?

E você continuará mesmo até o último instante divinamente

cruel e duro?

A face surda feito pedra muda, feito cimento, cegamente

obstinada?

 

Não é sem razão que um dos mil nomes seus é – espinho,

espinho é você em meu espírito, na carne, nos ossos,

pungente – não se pode arrancá-lo; ardente – não se pode

apagá-lo,

um momento não é esquecível – uma eternidade não é

compreensível.

 

A Sarça Ardente

(Darius Gilmont: artista inglês)

 

Referência:

 

RAVITCH, Melech. Doze Linhas sobre a Sarça Ardente. Tradução de Jacob Guinsburg. In: GUINSBURG, Jacob; TAVARES, Zulmira Ribeiro (Orgs.). Quatro mil anos de poesia. Desenhos de Paulina Rabinovich. Vários tradutores. São Paulo, SP: Perspectiva, 1969. p. 169. (Coleção “Judaica”)

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Manuel Bandeira - Autorretrato

O poeta se vê com honestidade e autoironia, utilizando o fracasso e a falta como materiais para construir a sua singular identidade poética: ao expor suas próprias limitações com tanta crueza e lucidez, quiçá impremeditadamente, universaliza-se, pois que se converte num espelho da condição humana, sempre contraditória em seus desejos – muitas vezes incumpridos.

 

Sendo o poeta um homem vocacionado à palavra, resta-lhe a linguagem para esquadrinhar despojadamente, embora de modo preciso, os seus próprios paradoxos, falhanços, a sua falta de sofisticação, a sua distância em relação aos centros culturais hegemônicos, nomeando-os como atributos de sua personalidade pacífica, introspectiva, presa a um corpo mórbido que teima em ser amante da arte, a despeito de – a seu ver – mostrar-se inábil ou incompleto para bem expressá-la.

 

De resto, vê-se Bandeira como um ser desprotegido, sem teto, a céu aberto, privado de todas as certezas que, tradicionalmente, tutelam-nos do frio da dúvida existencial, como se náufrago fosse a flutuar num mar de espaventos, sem jangada – uma religião – ou bússola – uma filosofia de vida – a lhe indicarem um rumo, até mesmo sem vínculos sociais que lhe façam as vezes de uma família.

 

J.A.R. – H.C.

 

Manuel Bandeira

(1886-1968)

 

Autorretrato

 

Provinciano que nunca soube

Escolher bem uma gravata;

Pernambucano a quem repugna

A faca do pernambucano;

Poeta ruim que na arte da prosa

Envelheceu na infância da arte,

E até mesmo escrevendo crônicas

Ficou cronista de província;

Arquiteto falhado, músico

Falhado (engoliu um dia

Um piano, mas o teclado

Ficou de fora); sem família,

Religião ou filosofia;

Mal tendo a inquietação de espírito

Que vem do sobrenatural,

E em matéria de profissão

Um tísico profissional.

 

Em: “Mafuá do Malungo” (1948)

 

Retrato do Poeta

(Cândido Portinari: artista paulista)

 

Referência:

 

BANDEIRA, Manuel. Autorretrato. In: __________. Bandeira de bolso. Organização e apresentação de Mara Jardim. 1. ed., 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, 2013. p. 149. (L&PM Pocket; v. 675)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Erich Fried - Advertência diante das Concessões

A advertência levada à frente nestas linhas por Erich Fried – poeta e comentarista político austríaco de ascendência judaica – é suficientemente clara e bastante válida para o momento que estamos vivendo em Pindorama e em diversas partes do mundo: as concessões abusivas que se façam a pretexto de defesa ao direito à liberdade são um caminho perigoso que pode levar à sua própria destruição.

 

Veja-se a elocução sublinhada pelo autor, constante na segunda estrofe do infratranscrito poema, aplicável bem mais além das lindes de seu contexto histórico imediato, alusivo à Alemanha: a verdadeira liberdade reside no equilíbrio precário entre a defesa inquebrantável dos próprios direitos (o “para mim”) e o compromisso com o bem comum (o “não somente para mim”), e deve ser exercido com uma urgência implacável (“agora”).

 

J.A.R. – H.C.

 

Erich Fried

(1921-1988)

 

Warnung vor Zugeständnissen

 

Ich habe mich

in Deutschland

gefragt

ob Freiheit

Zugeständnisse machen kann

und gefragt

was aus ihr wird

wenn sie Zugeständnisse macht

und ob die

die Zugeständnisse

von ihr verlangen

sich dann mit ihnen

zufriedengeben und

der Freiheit die Freiheit lassen

die sie sich so

wenn auch nur eingeschränkt

zu bewahren hofft

 

Mir fiel dabei immer

nur Rabbi Hillel ein

der Lehrer der Sanftmut

und der Geduld

der gesagt hat:

“Wenn ich nicht

für mıch bin

wer dann?

Doch wenn ich nur

für mich bin

was bin ich?

Und wenn nicht jetzt

wann sonst?”

 

Liberdade

(Lelaine Liebenberg: artista sul-africana)

 

Advertência diante das Concessões

 

Na Alemanha,

indagava-me

se a liberdade

poderia fazer concessões,

questionando-me

o que seria dela,

caso as fizesse;

se aqueles

que lhe exigissem

tais concessões

se dariam então por satisfeitos,

assegurando-lhe

o correspondente espaço

necessário

para que pudesse preservar

a sua essência,

ainda que de forma limitada.

 

Sempre me vinha à mente

o rabino Hillel,

o mestre da brandura

e da paciência,

que dizia:

“Se eu não for

por mim,

quem o será?

Mas se eu for apenas

por mim,

o que serei?

E se não for agora,

quando então?”

 

Referência:

 

FRIED, Erich. Warnung vor zugeständnissen. In: __________. Liebesgedichte. Berlin, DE: Verlag Klaus Wagenbach, 1995. s. 39.