Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Crespo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Crespo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de março de 2017

António Lobo Antunes

Não sei se é o melhor. Ele tem-se como tal.
Aprecio o escritor António Lobo Antunes. É o mestre da metáfora e um artista sinfónico.
Guardo desde 1979 as entrevistas mais significativas na imprensa portuguesa. Julgo ter assistido a todas as que concedeu às rádios e televisões de cá, incluindo as conversas fraternas com Mário Crespo ou aquelas em que vem repetidamente professando funda admiração por Tony Carreira
Acompanho-o nos romances e na Visão
A entrevista longa mais recente deu-a a Cristina Margato no Expresso de 11.Fev.2017.
Diz sempre o mesmo, conta sempre as mesmas anedotas. Todavia, desta vez disse um pouco mais. Perpassa por ali um Lobo Antunes estagiado e amadurecido em pelo menos 35 anos de vigorosas barricas de caralho português e aviso já que não me responsabilizo por letras despencadas da árvore.

Vaidade de vaidades...
«eu era bonito que me fartava, bolas!
[...]
Comecei por perceber que estas folhinhas [onde escreve] valiam muita massa quando estava na Transilvânia. Havia uma feira do livro, e apareceu-me uma senhora com uma destas folhas. Perguntei-lhe: “Mas onde é que a senhora arranjou isto?” “Num leilão.” Como é que aquilo foi parar à Roménia? Eu dava capítulos inteiros a amigos. É como dar um quadro a amigo e ele ir vendê-lo.
[...]
Eu fui muito precoce e, segundo a minha mãe conta, aos dois anos falava espanhol.
[...]
- O que pensa sobre o Nobel da Literatura deste ano?
«Nem penso nisso. Pensava que o prémio fosse muito mais dinheiro.*
[...]
Acho a lista do Prémio Jerusalém muito melhor.**
[...]
O Prémio Jerusalém, que tem uma lista excelente**, começa com o Bertrand Russell. Tem Borges, de que não sou grande fã, mas ele é bom.
[...]
Havia uma cadeira de psicologia na faculdade e o professor fez-me os testes. Eu tinha 187 [QI]. Mas isto não quer dizer nada.
[...]
sou muito cagão.»***

Será que não sabe que se repete desde sempre?
«E depois se me começo a repetir? Se calhar já me repito agora e não me dou conta.
[...]
Tenho muito medo de começar a repetir-me.»

Todos? Que falácia! Se quiser faculto-lhe um rol de grandes físicos e matemáticos do século XX todos profundamente descrentes.
«Grandes físicos e matemáticos do século XX são todos profundamente crentes e falam sobre Deus.»

Sobre José Saramago. Desprezo, inveja, dor de cotovelo?
«O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.
- Nunca houve uma conversa?
«Como havia de ter? Não há tertúlias. Não nos encontrávamos muito. Nunca tive uma conversa com ele mas também não me interessava muito.»

António Lobo Antunes, por favor, não finja, não se menoscabe. As suas crónicas são pequenas pérolas, você sabe-o bem, investe nelas quanto pode e retira delas rico provento. Por favor!
«Espanta-me que as pessoas gostem das crónicas.»

Tendo para concordar.
«Os políticos são repugnantes, de uma maneira geral.»****

Que sobranceria, céus!
- Usa dicionários?
«Não, não tenho. Para quê?»*****
_____________________________________________
* Quem pensa António Lobo Antunes que endromina?
«Mas porque é que se há-de estar a dar importância a uma coisa que é só um prémio? […] Descanse que ele vai vir! […] É inevitável. Neste momento, com tudo isto que se passa à minha volta, acerca de mim, é inevitável. Nos próximos três anos, um destes anos vem. Não me dá uma alegria especial.
De qualquer maneira, se der alegria aos portugueses já fico contente.
»
Conversa com Fátima Campos Ferreira, "O meu tempo é hoje", gravada em sua casa na penúltima semana de Novembro de 2014; transmitida na RTP Informação em 23.Jan.2015.

** António Lobo Antunes ganhou o Prémio Jerusalém em 2005. Quando receber o Nobel veremos como se lhe referirá na cerimónia de entrega e entrevistas seguintes.

*** Nota-se.

**** Vendo melhor, talvez uns menos do que outros.

***** Para quê?, senhor doutor e escritor António Lobo Antunes? Olhe, para por exemplo não passar pela vergonha de, aos 74 anos e com obra do tamanho da sua, aviar em público «cinco quilos e quatrocentas gramas» de costeletas e miudezas. Ainda ontem...
Os dicionários costumam ser bom antídoto da ignorância.

«Outro dia era um senhor, que já não é ministro, a dizer na televisão 'nunca tinha visto nem ouvisto'. Isto é um ministro? Falam assim, 'nunca tinha visto nem ouvisto'.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

«altos dignatários», *

ó doutor Alberto Martins!? Fica-lhe muito mal.
Chafarica do Crespo | SIC Notícias, 04.Set.2012 [minuto 19:59]
_____________________________
* dignitários, s.f.f.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Mário Crespo | Miguel Relvas

Com particular intensidade e porfiada perseverança de meados de 2007 aos idos de Março de 2011, em que o PCP e o BE ajudaram o PSD e o CDS a estender a passadeira do poder ao doutor Pedro Passos Coelho - sendo que  desde então, valha-nos isso, a vida dos portugueses não tem parado de melhorar -, Mário Crespo abriu quase todas as edições do seu "Jornal das 9" com um apontamento hostil ao governo do PS, malhando de modo impiedoso e militante, a propósito e a despropósito, no engenheiro Sócrates. *
Mário Crespo- Um ano a incidir sobre a mesma pessoa com episódios variados…
José Luís Arnaut- … é um massacre!
MC- … é uma campanha, não é possível não ser.
JLA- Ó Mário, é um massacre, um massacre! […] O Mário fez bem em frisar: há um ano que Miguel Relvas é diariamente massacrado, diariamente massacrado, isto já é um massacre!
________________________
* Por exemplo, no "Jornal das 9" de 13 de Janeiro de 2010, quando a atenção do Universo sensível estava siderada e centrada no sismo devastador ocorrido 23 horas antes no Haiti, o Mário Crespo só começou a falar do Haiti depois de despachar a ferroada no Sócrates. É certo que havia uma atenuante: o Haiti estava em escombros mas o doutor Fernando Nobre, médico da humanidade e amigalhaço do Crespo, ainda não tinha chegado lá...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Mário Crespo | Adriano Moreira

E ontem o Mário Crespo, a fazer de passista liberal austerista, surpreendido, não raro desgostado e às vezes agastado, ante um Adriano Moreira à sua esquerda, quase socialista, humanista, cristão…, viram?, ouviram?

Adriano Moreira, sobre o recém-eleito Hollande- … Ele tem uma grande parte de verdade no que diz […] De todos, até hoje, é aquele que não abandona a ideia do Estado Social, e é muito interessante esse aspecto em relação à Europa.
Mário Crespo, professoral, relvista- É preciso definir os limites e alcances desse Estado Social.
AM- O que não pode aceitar-se é que pura e simplesmente se ponha de lado [o Estado Social]. É como pôr de lado preceitos constitucionais. Os preceitos constitucionais não se põem de lado.
MC, como que sob procuração de Pedro Passos Coelho- Acha que a maneira como estamos a ser governados está a pôr de lado esse Estado Social?
AM- Eu acho que sim. […] Por exemplo, quando se diz que o ensino é tendencialmente gratuito, o que lá está escrito é que é tendencialmente gratuito […] Isso não pode ser substituído por uma linguagem, que começou a fazer carreira, em que realmente os estudantes deixam de ser estudantes e passam a ser clientes. […]
MC, pragmático, insensível, gaspar- No meio do vigor dessa contestação toda, apetece-me citar uma frase que eu julgo que foi o Francisco José Viegas que disse, num debate, “Que parte de Não há dinheiro é que o país não está a compreender?”.
AM - … Algumas das intervenções que o ministro do orçamento faz dizem exclusivamente respeito ao orçamento, e vai buscar a receita aonde estiver e não repara que, algumas vezes, a Constituição existe […] Já se verifica que se admite que o estado de urgência ou o estado de necessidade permite uma certa benevolência em relação a textos constitucionais. Isto não pode ser admitido!
MC, soletrando para que o professor não desaprenda- … o próprio professor Canotilho, e julgo que estou a citá-lo correctamente, disse que, numa urgência, a urgência é quem determina a interpretação final.
AM- Bom, eu acredito nisso, que a urgência muitas vezes determine a solução final,
MC, para quem a urgência é o valor soberano, interrompendo veemente- É o valor soberano!
AM- mas há um conselho que eu deixo constantemente: não se deixe dominar pela urgência. Em tantas circunstâncias da vida, não se deixe dominar pela urgência. […] O que está acima de textos legais é a concepção do mundo e da vida, porque é da concepção do mundo e da vida que depois se deduz o normativismo.
SIC Notícias, Jornal das 9 | 07.Mai.2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

Mário Crespo | Expresso

1- «[…] Não tenho dúvidas de que Luís Marinho continua fiel ao seu roteiro, tendo assim servido o governo Santana Lopes, o governo Sócrates e agora o governo Passos Coelho/Relvas – e sempre a subir. […]»

2- «Surpreendeu-me este teu tão oportuno "acesso de memória". Quando li o que escreveste sobre mim no último sábado, não quis acreditar. […] Como me consideras um jornalista menor, vou ter de te explicar o que fiz para verificar os factos e, obviamente, responder-te. E provar que estás a mentir. […]»


4- «[...] achei deplorável a maneira como este jornal não cumpriu o 'Dever de Resposta' a que Luís Marinho tinha direito. [...] É uma obrigação editorial. Sem ela, um jornal de referência transforma-se num blogue de maledicências e arruaça.»
- Mário Crespo, "Os comediantes"
«[...] A atitude de Mário Crespo revela má-fé e configura uma deslealdade surpreendente. [...]»
-  Direcção do Expresso, "Uma questão de rigor"

segunda-feira, 5 de março de 2012

Berardo e o secretário

Precisaria de instrumentos de medida mais sofisticados do que os de que disponho [ouvido, olho nu, etc.]  para afirmar, sem hesitação, que, na conversa que esta noite travou com o Mário Crespo, o comendador não disse mais vezes por minuto a palavra viegas do que as vezes por minuto que a jornalista Teresa de Sousa disse esta manhã a palavra narrativa. Mas estou capaz de apostar em como a jornalista Teresa de Sousa não consegue, por mais que se esmifre na política internacional, dizer tantas vezes por minuto a palavra narrativa quantas as vezes por minuto que o comendador diz a palavra cultura. O que jamais saberei, nem que dispusesse da ultra-sofisticada capacidade de contar da GfK, adquirida «num bazar oriental» é se, na conversa com o Mário Crespo, o comendador disse mais vezes cultura do que as vezes que não disse viegas. Citando a doutora Teresa de Sousa, há uma coisa que é certa: «secretário de estado da cultura, doutor francisco josé viegas» - cáspite! - é que o comendador nunca disse. O Joe é um rato. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

O último livro do Harry Porter

Mário Crespo- Aqui fica ...
Miguel Relvas- ...Tenho saudades, sabe de quê? Do minuto, pelo apelo à criatividade, em que nos permitia falar tanto da política internacional como do Harry Porter, do último livro do Harry Porter...
Hoje, na SIC Notícias, Jornal das 9 - a partir do minuto 32:10 

Criatividade é com ele.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Mário Crespo e Maria João Avillez,

18 minutos a masturbar Pedro Passos Coelho.

Minuto 3:55,
Maria João Avillez- ... indecente
Mário Crespo- boa palavra ...

Não, não foi no canal radical da SIC; foi no de notícias, pelas 21:00 de 01.Dez.2011.

sábado, 22 de outubro de 2011

9%

21:21 de ontem. O Mário Crespo acabara de diabolizar a "fast food", dando a deixa ao doutor Luís Paulino que desatou, severo e façanhudo, a esgrimir contra o colesterol - O colesterol é um problema grave; é o principal factor de risco da aterosclerose e da doença coronária e da doença cérebro-vascular … -, no preciso momento, juro!, no momento exacto em que assomou à ribalta um big mac, crescido e feliz, a lambuzar-se de lucro e a marimbar-se na conversa.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

«Desespero fértil»


Eu não conto histórias.

Temos tendência a julgar em vez de entender. A partir da altura que entendemos, deixamos de julgar.

Só escrevi o livro, não o li. Portanto, estou em desvantagem.

«Como é que você, que é tão novo, já fez tão pouco?» [ALA citando Robert Oppenheimer]

Descobri muito cedo que é muito simples darmo-nos com as outras pessoas. Basta tomá-las por aquilo que elas pensam que são e não por aquilo que eu penso que elas são.

Quando o desespero não é fértil, a nossa vida deixa de ter sentido.

Substituímos um horror por outro. Por exemplo, a vida dos casais. Quando vejo um casal num restaurante, uma refeição inteira sem sequer olharem um para o outro, isto é terrível; outra maneira de matar, mas matar pela usura.

O pai é uma instância que existe entre nós e a morte e que em certo sentido nos protege da morte. Depois do pai morrer, se a morte tocar à campainha somos nós que temos de ir abrir.

MC- Que lágrimas são as suas?
ALA- Eu acho que choro para dentro, como as grutas.

---

E para resfriar um bocadinho, António Guerreiro sobre “Comissão das Lágrimas”:
«quando lemos “Comissão das Lágrimas”, defrontamo-nos, até à exasperação, com uma espécie de recitativo ou de litania caracterizada pela homogeneidade.
[…]
Aquilo que é prometido como polifonia não passa de uma algazarra de vozes indistintas.»

* Também num exercício de vaidade recíproca, mas isso é sempre e se calhar nem é pecado.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

João Cantiga Esteves

é um inoxidável economista cavaquista que acredita e confia em que este governo vai refundar o sentido da existência. Deus o oiça.
Eu ouvi-lhe ontem, com atenção empenhada, todas as palavras dos 13 minutos em que lhe tocou falar na conversa com o Mário Crespo.
Indo directamente ao que essencialmente conta, que isto nada como realmente, e descontando a palha intermitente, disse - afianço que disse - o senhor professor, ipsis verbis pela seguinte ordem sucessivamente:
Naturalmente claramente nomeadamente realmente claramente efectivamente completamente obviamente obviamente progressivamente evidentemente naturalmente praticamente actualmente naturalmente claramente claramente nomeadamente realmente completamente obviamente especificamente exactamente nomeadamente eventualmente eventualmente obviamente claramente absolutamente obviamente naturalmente precisamente nomeadamente completamente nomeadamente exactamente nomeadamente naturalmente minimamente tipicamente nomeadamente realmente nomeadamente exactamente frontalmente completamente sub-repticiamente exactamente nomeadamente precisamente provavelmente exactamente exactamente exactamente nomeadamente naturalmente novamente efectivamente efectivamente efectivamente eventualmente efectivamente nomeadamente provavelmente exactamente nomeadamente exactamente exactamente realmente.

Mais anunciou o professor, esconjurando o diabo, como se o Apocalipse tivesse ocorrido em 1995 e o Big Bang em 2011:
- estamos a falar de situações muito graves que têm 10, 15 anos*;
- temos um modelo económico que claramente esgotou nos últimos 10, 15 anos*;
- o que nós verificamos é que os últimos 10, 15 anos* foram completamente perdidos;
- tivemos os tais 15 anos* onde o Estado secou tudo à volta.

Todavia, o clímax dera-se pelo minuto 04:25, quando o inefável, sábio e profeta Cantigas proferiu de um fôlego o seguinte, condensando tudo o que estava dito e tudo o que estava por dizer:
- Eventualmente são três meses, obviamente é claramente. Fazer qualquer observação é absolutamente absurdo e prematuro.
Mário Crespo: Aqui fica a sua leitura.

* A memória RAM dos cavaquistas não dá para mais do que 15 anos certificados de desgraça. Lá para trás, uma difusa e encantada lembrança do professor Aníbal a alcatroar o paraíso.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Teresa Caeiro

Não há por aí alminha humanitária que explique à doutora Teresa Caeiro que não se diz «drama humanitário» nem «flagelo humanitário»? «Reposta humanitária», em que por acaso também falou, está bem, o que releva do baralhado sincretismo naquela cabeça loira.
Algo me sugere que o doutor Miguel Sousa Tavares, escritor barítono, talvez esteja em condição logística privilegiada para ensinar, devagarinho, a tia Teresa a falar um tudo-nada melhor.

domingo, 31 de julho de 2011

Concordo com a Fernanda Câncio

«Por que raio os homens de todas as idades, mas sobretudo os mais jovens e até os infantes, deram em andar na praia de calções largos até ao joelho, as mais das vezes com padrões e cores hipergritantes e saloios, fazendo dos areais uma parada de pintos calçudos incompreensivelmente orgulhosos da sua figura?»

Pena que - até a Câncio, habitualmente cuidadosa nestas coisas - tenha cedido ao despautério pestífero da narrativa* - um horror criado pelo meio social e pela narrativa circundante

* Repristinando...
[14.Mai.2011, sábado]
Henrique Raposo no Expresso: «Entre 1976 e 2011, o regime viveu agarrado à narrativa dos direitos adquiridos. Essa narrativa morreu na semana passada.»
O Luís Delgado, entre as 21:40 e as 21:45 de hoje, na SIC N, salivou narrativa por 9 vezes para comentar o debate Louçã/Passos Coelho.
Começa a ficar difícil ter respeito pelo que esta gente escreve ou diz.

[15.Mai.2011, domingo]
«Quase tão daninho quanto o estado das contas públicas é o uso, e brutal abuso, da "narrativa". De repente, no debate político nacional tudo é "narrativa". Candidatos, comentadores, repórteres e, se os deixarem, operadores de câmara, não tiram a "narrativa da boca". Ele é o partido X que carece de uma "narrativa". Ele é o partido Y que recuperou a "narrativa". Ele é a "narrativa" de Fulano que possui contradições. Ele é a "narrativa" de Sicrano que é convincente. Ele é a "narrativa" que Coisinho faz de Beltrano. Ele sou eu que já não aguento a palavra e, a fim de lhe narrar uma ou duas coisas, gostaria de descobrir o sujeito que assim a popularizou. 
Infelizmente, não só é difícil descobrir o primeiro responsável pela utilização destrambelhada da "narrativa" como, no meio de tamanha liberdade lexical, é impossível apurar a respectiva acepção. Significa estratégia? Discurso? Crítica? História? Falsidade? Do "Lorosae" dos timorenses à "Muqata" de Arafat, é conhecida a aptidão dos portugueses para, à imagem das crianças no infantário, repetirem até à exaustão a expressão "gira" que ouviram no dia anterior. Mas pelo menos sabia-se que "Lorosae" era o sol nascente e a "Muqata" um mamarracho de betão. Da "narrativa" sabe-se pouco, excepto o facto de que não se perceber o que alguém diz é um forte indício de que alguém não diz nada que mereça ser percebido.
Se adicionarmos a isto a recente tendência para começar as frases com verbos no infinitivo impessoal, confirma-se que o brilhantismo linguístico dos políticos e adjacências reflecte perigosamente o brilhantismo dos políticos e adjacências no resto. Acrescentar que a "narrativa", seja lá o que isso for, é um mero exemplo.»

[19.Mai.2011, quinta-feira]
Pacheco Pereira, ele próprio vigilante destas modas.

[21.Mai.2011, sábado]
Mário Crespo, Expresso:
«É assim que no País das Maravilhas “quem manda” domina as narrativas inventadas para justificar o passado, alterar o presente e disfarçar o futuro.»
Podia lá o patareco do Crespo escapar à pandémica narrativa? Claro que não podia. Honra lhe seja que não gosta do Aníbal Cavaco Silva, mas isso nem às anémonas está vedado um que outro epifenómeno de bom não-gosto.

[25.Mai.2011, quarta-feira]
«A narrativa, usada e abusada, que ensinava que a crise era resultado do chumbo do PEC IV já não convence ninguém e foi desamparada nos discursos socialistas.»

Concordo: “narrativa, usada e abusada".

[26.Mai.2011, quinta-feira]
A previsibilidade entedia-me. Daí, não ter de estranhar o enfado com que os meus leitores antevêem a razão do link para este pedacinho do Público de hoje.
Nem mais, doutora Teresa de Sousa, constante; uma imarcescível, como diria o outro, constante da vida.
O colunismo português está a ficar inenarrável.

[14.Jun.2011, terça-feira]
Eram exactamente cerca da 22:13 de hoje quando, confabulando sobre o governo que aí vem, o doutor Filipe Santos Costa, jornalista do Expresso, asseverou com ar sério para a lhaníssima doutora Ana Lourenço, na SIC Notícias: Porque há uma narrativa ... há essa narrativa.
Era o sinal. Atirei-me ao pequeno, obsoleto e tresloucado televisor da cozinha, desliguei-o, desumbiliquei-o das tomadas e de um fôlego transportei-o para a rua juntamente com o saco do lixo orgânico.
Chega de narrativa, foda-se!

[12.Jul.2011, terça-feira]
Nem a destravada nada parva da Ana Gomes escapa à contaminação.
Em telefonema dos E.U.A., assegurava ela esta manhã à Antena 1 e aos portugueses, num depoimento do maior interesse ajudando-nos a entender melhor como os américas estão a ver coisa [isto é mesmo «luta de classes», meus amigos]: 
Enquanto nós não percebermos que precisamos de facto de ter uma narrativa no plano europeu …  [minuto 08:05]
Agora, que sabemos finalmente do que de facto precisamos, não sobra desculpa: toca a narrar a todo o vapor nem que para isso, se ao Gonçalo M. Tavares acabar a bateria, o Alexandre Herculano - "Lendas e narrativas" - tenha de ser despertado daquela soneira que nunca mais se lhe acaba lá nos Jerónimos.