sábado, maio 16, 2026

Diabetes


Vejam hoje, na RTP 2, o primeiro de três programas sobre a Diabetes e o centenário da APDP - Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal.

Ver aqui.

Um livro e uma mesa (1)


O livro de hoje é o "Aliados em Guerra", de Tim Bouverie, editado pela D.Quixote e o restaurante é o "Caneiro" (253 663 566), no Arco do Baúlhe, a dois passos da A7.


Letras & vitualhas


Tenho a intenção de, durante as próximas semanas, deixar aqui diariamente nota de um livro que li ou reli nos últimos meses, e que considero merecer algum destaque, assim como de um restaurante — algures pelo país, de mesas simples a lugares mais afiambrados — de que guardo uma memória positiva. Serão apontamentos ao acaso, sem qualquer ordem, sempre muito económicos nas palavras.

Com este "serviço público", espero estar a contribuir para ajudar a preparar as férias dos leitores deste blogue. 

João Abel Manta


Tenho uma profunda admiração pela figura de João Abel Manta. Ele foi o grande ilustrador da nossa Revolução, colocando a sua extraordinária qualidade artística ao serviço do entusiasmo popular daqueles dias. 

Um dia de 1975, com Carlos Eurico da Costa, fui visitar João Abel Manta ao seu atelier. Fomos pedir-lhe que desenhasse um cartaz para a Associação de Amizade Portugal-Polónia, de cuja direção ambos fazíamos parte. Embora nos confessasse estar a transbordar de trabalho, Abel Manta teve a amabilidade de construir um belo poster, em que se observa um camponês português abraçado a um polaco, um pouco ao jeito de uma outra imagem, muito conhecida, que celebra a "aliança povo-MFA". Não consegui encontrar o meu exemplar do cartaz da Associação (... mas um leitor atento sim).

João Abel Manta morreu agora, com 98 anos. 



sexta-feira, maio 15, 2026

Delicadeza


Por razões de segurança, toda a comitiva de Trump foi obrigada a deitar num caixote do lixo, à entrada para o avião de regresso, e à vista dos anfitriões chineses, todas as ofertas com que tinham sido homenageados. 

Gesto bem simpático, a bem da eterna amizade sino-americana! 

Davide Pinto


"Ó senhor doutor! Só telefona agora? Temos a casa cheia. Mas, para si, vou fazer os impossíveis! Era só o que faltava que não viesse cá jantar". 

O meu amigo senhor Pinto, um gentlemam de voz suave e ímpar no acolhimento, na chefia da sala no Café de São Bento, deixou-nos para sempre.

Fonética

Não me vai ser fácil, como sportinguista, habituar-me a berrar da bancada de Alvalade: "Força, Zalazar!" Mas, depois, lembro-me do Góis Mota e do Cazal Ribeiro e tudo passa...

Está assim

 


quinta-feira, maio 14, 2026

Barto


Bartolomeu Cid dos Santos, em 1988, representava-se assim: grave e façanhudo. Era não o conhecer!

O Bartolomeu era uma pessoa de alegria contagiante, com uma gargalhada generosa que a vida partilhada com a Fernanda só veio ampliar. Tinha um olhar adolescente sobre os dias e uma solidariedade natural para com o mundo e as suas criaturas.

O autorretrato que fez nesta gravura não é bem um autorretrato: é uma declaração de ironia, servida com o sorriso íntimo de quem não se leva demasiado a sério. Grave e façanhudo, o Bartolomeu! Pois, pois!

A partir de hoje, de terça a domingo, de maio a outubro, a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, acolhe uma exposição dedicada a esta figura genial da gravura portuguesa, que nos deixou em 2008 com 77 anos.

A iniciativa é da Fundação Dom Luiz, que teve o extremo bom gosto de adquirir parte importante da sua obra.

Vale a visita, garanto!



China / EUA, Irão e Reino Unido


São estes os temas analisados no podcast "A Arte da Guerra" desta semana.

Pode ver aqui.

Trabalhistas


Este extrato da carta de demissão do governo do ministro da Saúde britânico, Wes Streeting, ajuda a compreender melhor o sentimento que hoje marca grande parte do Partido Trabalhista. 

Manias


Há muito que faço parte de quantos, chegados a um parque de estacionamento, partem de imediato para os pisos inferiores, em busca de lugares com muito espaço. Raramente me acontece ficar no primeiro piso. Dizem-me que "bottom-level parker" é uma boa designação para gente como eu.

Postais de Gaza (2023 e 2026)

 


quarta-feira, maio 13, 2026

O lampião e a tília


Já por aqui falei algumas vezes do Álvaro Magalhães dos Santos, um amigo que me morreu há muito tempo e que era bem mais velho do que eu. 

O Álvaro – "Alvarito" era como a minha mãe lhe chamava, conhecendo-o de infância – era um vila-realense "exilado" em Lisboa, de onde escrevia umas crónicas para "A Voz de Trás-os-Montes" que, a certa altura, tinham o óbvio ante-título "De Lisboa, com saudades..."

O Álvaro morava algures na Linha, creio que em Paço de Arcos. Um dia, jantámos num pequeno jardim traseiro dessa sua moradia. Ali plantado em lugar de destaque, estava um candeeiro de rua, que me dizia alguma coisa. O Álvaro esclareceu: "Sabes de onde era este candeeiro? Da Avenida Carvalho Araújo" – a artéria mais conhecida de cidade. 

"Onde diabo arranjaste isso?", perguntei. Explicou-me que lhe fora oferecida por alguém da vereação da Câmara, por ocasião de uma renovação do material de iluminação urbana. "Que te foi oferecido, não tinha a mais pequena dúvida! Tu nunca comprarias o lampião!", disse eu, numa implícita referência à forretice histórica do Álvaro.

Porque é que agora falo do candeeiro do Álvaro? 

Foi ao olhar a jovem árvore de que deixo a imagem, que tenho num vaso na minha casa em Lisboa, que me veio à ideia esse marco de saudade do Álvaro. É que esta árvore também tem por detrás uma história de memória afetiva.

Nas noites quentes da primavera e do verão, na Vila Real da minha juventude, o cheiro das tílias, em especial no Jardim da Carreira, tinham esse bom odor em fundo. 

Há meses, pedi à empresa que me trata do jardim que me arranjasse uma tília para ter aqui em casa, em Lisboa. Queria recuperar aquele cheiro antigo. O processo foi demorado, protestei várias vezes e, finalmente, lá chegou a ansiada tília. Esteve nua durante o inverno, ganhou agora umas folhas, mas, para meu desespero, permanece inodora. E, claro, no aspeto, não lembra nada as tílias da minha juventude. 

O candeeiro do Álvaro tinha luz e recordava a esquina da Gomes. Cheira-me que esta minha pobre tília não vai convocar nunca quaisquer saudades de Vila Real. "Tens um bom remédio para matar saudades: vem cá acima!", já estou a ouvir alguns amigos dizerem.

O reino desunido


Em julho de 1990, cheguei a Londres, para ocupar o lugar de ministro-conselheiro da embaixada. 

Há muito que era um observador interessado na trama política britânica, mas passar a ter a responsabilidade de informar diariamente Lisboa obrigou-me a uma rápida imersão naquele mundo, servido por uma comunicação social de grande qualidade, que muito ajudava a melhor entender aquela realidade.

Viviam-se tempos de claro desgaste de Margaret Thatcher, que não dava mostras de admitir abandonar o lugar. No seio dos conservadores, tinha emergido a figura de Michael Heseltine, que viria a desafiar formalmente a sua liderança. Contudo, muitos dos que já tinham por inevitável que Thatcher saísse opunham-se a que Heseltine ascendesse a primeiro-ministro — temendo em especial o seu europeísmo, num tempo em que Bruxelas e a Comissão eram os culpados de serviço de muitos dos males do reino.

Thatcher, que ainda beneficiava de forte prestígio internacional — alimentado por uma relação estreita com os EUA e por uma leitura atenta da transformação em curso no bloco soviético — passeava então pelos fóruns mundiais uma força política cada vez mais aparente. (Às vezes, lembro-me da Thatcher desse tempo quando observo a agitação atual de um Macron hiper-impopular no seu país).

A resistência de Thatcher começou a ruir na tarde de 1 de novembro de 1990, quando o seu antigo “número dois”, Geoffrey Howe — figura respeitada até pela sua falta de ambição — fez nos Comuns um discurso devastador para a primeira-ministra. Anos antes, Denis Healey dissera que ser atacado por Howe era “like being savaged by a dead sheep”. A “dead sheep” acabou, porém, por abalar decisivamente a liderança da "dama de ferro".

Seguiu-se um rápido distanciamento de vários ministros. Perante o resultado inconclusivo da primeira votação para a liderança, a 20 de novembro, Thatcher acabaria por reconhecer, com relutância, que não tinha condições para continuar, demitindo-se dois dias depois. 

Tive o privilégio de assistir, na Câmara dos Comuns, àquele que foi o último discurso de Thatcher. Foi uma ocasião memorável, com ela, por uma última vez, bem-humorada e solta.

A maioria dos deputados conservadores afastou então a hipótese Heseltine (à época, eram apenas eles quem decidia o nome do novo líder, sem a menor intervenção das "constituencies" locais) e escolheu um apagado John Major, claramente o denominador comum possível. Thatcher ainda acalentou a ideia de manter alguma influência ("I will be a backseat driver", terá dito), mas rapidamente se tornou claro que o seu tempo político terminara.

Aquando da sucessiva rotação de líderes que os conservadores conheceram nos últimos anos (Cameron, May, Johnson, Truss, Sunak), lembrei-me muitas vezes dessa coreografia em torno do declínio dos líderes. A lógica subjacente à crueldade política é muito simples — e talvez compreensível: os deputados deixam de estar convencidos de que, com aquele líder, conseguirão ser reeleitos. Quando um primeiro-ministro adquire o rótulo de “loser”, o seu destino torna-se, em regra, inevitável.

Olhando para aquilo que, nas últimas horas, parece desenhar-se em torno de Keir Starmer, fica a ideia de que alguns desses sinais começam a emergir.

terça-feira, maio 12, 2026

José Avillez

Há dias, em Estocolmo, o proprietário do restaurante "The Hills" — uma excelente opção para jantar, já agora — confessou-me a admiração que tem pelo trabalho de José Avillez. Disse-lhe que o acompanhava inteiramente nesse apreço.

Falámos da forma como ele tem vindo a multiplicar casas em Lisboa e arredores — e no Porto, em Macau e no Dubai — com uma oferta diferenciada e de qualidade sempre consistente. Uma expansão que impressiona pela escala e pela coerência.

Conheci José Avillez há muitos anos, num restaurante que tinha em Cascais. Depois, reencontrei-o quando teve a seu cargo a cozinha do "Tavares". E fui acompanhando, ao longo do tempo, a construção da sua verdadeira galáxia gastronómica. Estive em muitos restaurantes da "marca" Avillez, desde logo no renomado "Belcanto" (nos seus dois endereços próximos), mas não estou seguro de me ter sentado em todas as suas múltiplas mesas em Portugal.

Ao meu interlocutor sueco, que me disse visitar Portugal com regularidade, deixei uma sugestão para a próxima vez: o "Maré", no Guincho. Uma proposta diferente, com o mar à frente e a cozinha à altura.

A conversa fechou com uma observação minha: “Não sei como é que ele consegue sustentar esta atividade simultânea tão intensa, sempre sem perder a qualidade!"

Acabo de ver na imprensa a resposta à minha pergunta: José Avillez já chegou a ser hospitalizado por exaustão. O excesso de atividade cobra sempre a sua fatura.

José Avillez é alguém que tem feito imenso pelo prestígio da gastronomia portuguesa — detentor de duas estrelas Michelin pelo "Belcanto", há já vários anos — e a quem a Academia Portuguesa de Gastronomia, cuja direção integro, tem procurado fazer a justiça que entende merecida. 

segunda-feira, maio 11, 2026

Sectarismo

O sectarismo é a doença senil do comunismo português em decadência. A nota divulgada sobre a morte de Carlos Brito entristece quantos, como eu, mantêm um imenso respeito pela gloriosa luta do partido contra o fascismo, de que Carlos Brito fará para sempre parte, queira ou não o atual PCP.

domingo, maio 10, 2026

O barítono plenipotenciário


Entrou no Kämp com ar afogueado. Pareceu surpreendido quando o porteiro pediu para que deixasse a parka no vestiário, antes de aceder ao bar do hotel. "Regras de segurança", foi-lhe dito. Conversa! Em Helsínquia, onde o frio é uma segunda pele e ninguém abdica do seu casaco, a verdadeira razão é outra: evitar que o requinte do Kämp se dissolva num amontoado de anoraques e sobretudos, que transformaria num instante a elegância do mais refinado hotel da Finlândia num bengaleiro democrático e sem graça.

Olhou em volta, à minha procura. Sentado numa mesa, à distância, eu apreciava a coreografia algo desajeitada daquele finlandês, colega de profissão, antigo diplomata em Lisboa, reformado há bem mais tempo do que eu, com quem combinara encontrar-me nesta minha rara passagem pela capital finlandesa.

Viu-me, a cara abriu-se-lhe, atravessou o bar, deu-me um abraço e ficámos cerca de uma hora à conversa. Pedi mais uma vodka, ele optou por uma simples "verveine", inóqua para um fígado já castigado com muito álcool.

Falámos da Lisboa que ele conhecia bem, em outros tempos. Perguntou-me por gente que já não anda pela vida. "Lá por Portugal, nos últimos tempos, tem morrido gente que nunca tinha morrido", disse-lhe, sorridente, a testar a sua perceção da ironia. "Ah! Sim?", reagiu, não percebendo a minha graça pateta. O seu treino da língua portuguesa era insuficiente para captar o absurdo da frase.

Inevitavelmente, cedo veio à conversa o nome de Trump. Coincidimos na maioria dos adjetivos, com uma facilidade quase constrangedora. Gracejei com o facto de o seu país ter decidido entrar para a NATO no momento em que a organização está no estado em que está. Ele não sorriu. "Ouviu o discurso do Putin, hoje?", inquiriu, num tom que denunciava preocupação. Disse-lhe que estava de férias, desligado do mundo e das notícias, mesmo as de Moscovo. Ele não estava. E compreendi que não podia estar. Se Portugal tivesse uma fronteira com a Rússia como a do seu país, talvez eu também carregasse aquela inquietação nos ombros.

O bar do Kämp ia-se entretanto enchendo de muitas mulheres bonitas, que não pareciam captar a atenção do meu convidado, que nunca se mostrara sensível a essa vertente da beleza, como bem sabiam alguns dos seus velhos conhecidos da noite lisboeta.

"E ainda canta, meu caro?", perguntei, curioso do estado dos seus dotes líricos, os quais, um dia, no Ramalhete, levaram o João a qualificá-lo de "barítono plenipotenciário". Sem mais pormenores ou um mínimo de mágoa visível, disse-me que perdera a voz.

A conversa entretanto esgotara-se, como muitas vezes ocorre neste tipo de encontros sem agenda, com poucos laços a sustentá-los. Levantámo-nos e despedimo-nos. Senti-o um pouco trémulo. Os anos marcam, caramba!

Deixou lembranças para eu transmitir aos seus escassos amigos lisboetas ainda vivos. E logo saiu pela Esplanade, de bengala na mão, à procura do elétrico, de regresso a casa, que me havia dito ser um andar simples, nas margens do Báltico. Voltarei a ver Steinbroken?

(A fotografia é da escadaria do Kämp, há minutos)

sábado, maio 09, 2026

Dia da Europa...


... há quase três décadas.

Humilhação patriótica

Não pode haver nada mais humilhante para uma liderança em Moscovo do que o facto de ser obrigada a deixar patente à população russa a sua incapacidade de garantir a segurança na Praça Vermelha durante o desfile do 9 de Maio. 

sexta-feira, maio 08, 2026

Britânicos

Depois de um "landslide" eleitoral espetacular, cavalgando o desastre conservador, Keir Starmer desbaratou, em muito pouco tempo, uma esmagadora maioria absoluta (onde já vimos isto?). O Reform, de Nigel Farage, capitaliza esse descalabro. Virá aí um bipartidarismo de novo tipo?

Soft power

A América é, a longa distância, o país militarmente mais poderoso do mundo. E, por hora, também o é economicamente. Contudo, com a agressividade arrogante que está a projetar, a todos os azimutes, os EUA estão a destruir com rapidez o seu "soft power" como potência democrática.

Gama


No Museu Nacional de Estocolmo descobri esta esplendorosa tapeçaria, parte de uma série encomendada em 1400 pelo rei d. Manuel I para comemorar a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama. A peça foi doada ao museu há mais de um século. A legenda avança com a sugestão de que a figura à direita, com amplas barbas e uma lança, seja o próprio Gama.

quarta-feira, maio 06, 2026

A ordem dos Serafins



Na Suécia, a Ordem dos Serafins, com um único grau, é uma distinção que, em regra, apenas é concedida a chefes de Estado e figuras de realezas estrangeiras.

Quando alguém recebe essa ordem, a corte sueca manda pintar um escudo com o brasão de armas desse novo Cavaleiro. 

Imaginem quem hoje fui descobrir como novo Serafim, com um brasão de armas à maneira.

As verdades do dia

O facto de Trump dizer e depois desdizer o que acabou de dizer, sem reconhecer que se está a contradizer, não retira importância àquilo que vai dizendo. Porém, quem o ouve já não toma nada do que ele diz por definitivo, porque sabe que a palavra de hoje não obriga a de amanhã.

Não necessariamente...


Um dia, no final dos anos 60, depois de atravessar de ferry o estreito de Öresund, da dinamarquesa Helsingør — a cidade de Hamlet — para Helsingborg, na Suécia, lancei-me à boleia para norte.

A tarde já não podia cair mais: era 21 de junho e, nessa data e por aquelas latitudes, o sol apenas finge que se põe. Por um capricho que não vem ao caso, eu tinha a ideia fisgada de passar essa midsummer night em Falkenberg, já a caminho da Noruega.

Não era fácil a boleia na Escandinávia, com o meu cabelame latino. Meia hora depois, já sob alguma angústia, um carro parou. Ao saber-me português, o condutor sorriu:

“Ah, português! Vem à procura das suecas, não é?”

E ali me vi eu, herdeiro involuntário dos Zézés Camarinhas das Albufeiras desse tempo, promovido a potencial dragueur naquele mar de loiras, quando eu pensava que as minhas origens nacionais haviam ficado consagradas na História universal por aventuras de outro calibre, em mares bem mais épicos. Afinal, Öresund substituía Ormuz.

Nem sei o que respondi ao meu amável transportador, no meu inglês hesitante de então. Deve ter sido um “not necessarily”, já ensaiando a ambiguidade criativa que viria a revelar-se útil à minha profissão futura.

Lembrei-me disto esta noite, também por aqui.

terça-feira, maio 05, 2026

Karl Marx


Com o mundo em trincheiras, com os algoritmos a caricaturarem o diferente como um inimigo, é seguramente uma ousadia, quase uma imperdoável inconsciência, trazer a terreiro, num registo sereno, com o seu quê de afetivo, uma figura que por aí anda amplamente diabolizada.

Mas é precisamente isso que faço, hoje, 5 de maio, dia em que, em 1818, nasceu Karl Marx.

Não são para aqui chamados quantos instrumentalizaram as suas ideias, no caminho para tiranias a que a História se encarregou de tirar futuro. Era só o que faltava que Marx tivesse de ser o eterno responsável por quantos o usaram, bem para além da sua morte, para projetos bem distantes do indiscutível humanismo que estava subjacente à sua filosofia. Colar a figura de um genial pensador económico do sec. XIX, filósofo e sociólogo antes do tempo, a experiências nefastas que dele se reivindicaram é próprio de um oportunismo desonesto, de quem deixou de pensar e apenas se alimenta de ódios históricos de pacotilha.

No dia de hoje, é apenas para aqui convocado o sonho de Marx, de um mundo de igualdade e fraternidade, produto natural do tempo de profundas injustiças em que viveu, dentro do qual procurou as soluções que, à época, tinha como desejáveis. Um sonho que veio a ser seguido por muitas gerações, entre as quais a minha, em outros tempos convulsos em que acreditávamos naquilo que tínhamos por generoso – e que nunca deixou de o ser, não obstante ser utópico e irrealizável.

Por isso, à minha maneira, também eu fui marxista. Hoje, porque continuo a admirar o génio de pensador de Karl Marx, sinto-me na obrigação de lhe ser reconhecido por me então ter obrigado a olhar as coisas de forma radical. O democrata que hoje sou, socialista nos valores e anti-liberal na economia, deve muito a Karl Marx. Estou-lhe bastante grato e não peço desculpa a ninguém por isso.

segunda-feira, maio 04, 2026

Uma segunda-feira

O dia está a acabar. Desde manhã, andei numa roda-viva. Muito para fazer, muito que ainda ficou por fazer. Algumas chatices pelo meio, mas a vida, sem elas, nem tinha a graça que tem. E também houve bons momentos no dia: uma excelente meia-desfeita ao almoço, em casa, uma conversa muito interessante no "Expresso", para um podcast, um belo espetáculo de música na Gulbenkian, a fechar o dia. Um dia que está a acabar, como a acabar estava a oportunidade de escrever aqui um post. Ou alguém julgaria que 4 de maio de 2026 seria o primeiro dia em branco deste blogue, desde que abriu portas, a 2 de fevereiro de 2009?

Não me apanham nessa.

domingo, maio 03, 2026

Cândido Mota


Na rádio portuguesa, houve vozes extraordinárias. Não faço a minha lista porque cada um tem a sua. Mas em todas elas surge sempre o mesmo nome: Cândido Mota.  

O outro Nuremberga


De quando em quando, fala-se do julgamento de Nuremberga, que levou ao banco dos réus os responsáveis nazis, no termo da Segunda Guerra. Lembro que 10 dos 24 indiciados foram enforcados no termo desse julgamento. EUA, URSS, Reino Unido e França formaram o tribunal, que vigorou por 10 meses.

Curiosamente, muito raramente vejo alguém recordar que, em Tóquio, os vencedores da guerra sobre o Japão montaram um tribunal idêntico, dessa vez com magistrados de 11 países (além dos anteriores, nele estiveram a Austrália, a China, o Canadá, as Filipinas, a Índia, a Nova Zelândia e a Holanda). Sete condenações à morte, por enforcamento, foram determinadas nesse julgamento que durou dois anos e meio. 

O "Nuremberga" de Tóquio iniciou-se em 3 de maio de 1946. Faz hoje precisamente 80 anos.

sexta-feira, maio 01, 2026

Dia do trabalhador

Contive-me – e arrependi-me. Uma parva, na estação de serviço da Domingos Sequeira, quando o empregado chamou o próximo cliente, passou descaradamente à frente de um entregador da Uber, como se esse fosse o seu direito natural. O nepalês, atarantado, não reagiu. No 1° de Maio!

Olá, Carlos

    

Esta é uma data de que gostavas muito, Carlos. Como tu dizias, era um dia que "chateava os fachos" — e picar essa gente era uma coisa que adoravas fazer. Tenho pena, temos muitos, de que já não estejas por cá, para um jantar com o Tone, na "Delícia" ou no "Raposo", as duas únicas mesas de Lisboa de que nunca te ouvi dizer mal — a ti, um cozinheiro e um crítico gastronómico implacável, tantas vezes injusto. (Mas até o "Raposo" fechou, imagina!)

Tenho saudades de ti, primo, de ouvir ao telefone o teu "Alô" pronunciado à francesa, um sotaque que talvez te tenha ficado da frequência do pequename gaulês que aportava por Viana, nos Verões da nossa juventude. Ainda te estou a ouvir a discutir, na cozinha da praia de Tróia, nesses memoráveis mano-a-mano com o Chico, sobre se o arroz de povo leva ou não coentros. Era um espetáculo de saudável mau feitio que, fosse como fosse, acabava sempre numa refeição de truz, com a Lena e connosco já abancados, usufrutuários do vosso labor culinário, nuns repastos que invariavelmente fechávamos com um álcoois irlandeses.

Estou agora a olhar uma jarra com cravos vermelhos que ficaram do último 25 de Abril e a lembrar-me ainda mais de ti, Carlos. E apetece-me dizer alto um sonoro palavrão de muita saudade.

Uma mulher em Belém


Não conheço a pessoa em causa, mas, em tese, é uma excelente notícia que António José Seguro tenha decidido escolher uma mulher para sua chefe da Casa Civil. 

Belém bem! 

Alea jacta est

Com o Chega a condicionar a aprovação do pacote laboral à aceitação da peregrina ideia de reduzir a idade da reforma, tudo se compõe: como esta proposta é irresponsável, fica assim inviabilizada a desnecessária alteração à legislação do trabalho. Tudo está bem quando acaba bem.  

José de Bouza Serrano


Ontem, num belo fim de tarde, a Bucholz transbordava, por ocasião da sessão de lançamento do novo livro de José de Bouza Serrano, "Esta coisa da vida não é nada fácil - memórias inconvenientes de um diplomata de carreira". 

Dois colegas dessa mesma carreira, Paula Leal da Silva e eu, fizémos, cada um à nossa maneira, a apresentação da obra. 

Comprem e divirtam-se, porque as histórias valem bem a pena.

quinta-feira, abril 30, 2026

Parabéns, João!


João Gomes Cravinho acaba de ser escolhido para reitor do prestigiado Colégio da Europa, em Bruges, depois de vencer um concurso internacional. Académico e diplomata europeu, foi, em Portugal, ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.

A sua escolha é uma honra para Portugal e uma alegria para os seus amigos. 

Como o seu pai teria ficado orgulhoso, caro João! Um forte abraço de parabéns! 

quarta-feira, abril 29, 2026

25 de Abril, ainda e sempre


Lembro-me bem do nascimento deste livro. Num fim de tarde, há uns anos, na saudosa esplanada no Pereira, em Soltróia, entre duas cervejas, o José Maria Brandão de Brito falou-me do projeto que tinha de recolher e estudar os vários documentos que fizeram os momentos da Revolução, desde o dia 25 de Abril em diante.

Aí está agora o livro, "Memórias de Abril - um roteiro dos textos da Revolução", com contribuições do próprio, de Guilherme Oliveira Martins e de Maria Fernanda Rollo. 

Neste tempo em que se fecham aa comemorações do meio século da Revolução e da Constituição de 1976, esta é uma obra que se tornará essencial para melhor interpretar os debates e os combates que então tiveram lugar, a caminho da liberdade que hoje vivemos.

O lançamento é hoje, quarta-feira, 29 de abril, às 18.30 horas, na FNAC da Avenida de Roma (antiga Barata). O livro tem edição da "Tinta da China".

Nuno Júdice



Nuno Júdice morreu há pouco mais de dois anos. Pouco antes do fim, depois de um tempo em que deixou de escrever pela fragilidade da sua saúde, viria a retomar a escrita, como conta a sua mulher, Manuela, na introdução que faz ao livro "Primeiro Poema", editado pela D. Quixote, que hoje, quarta-feira, dia 29 de abril, é lançado na Livraria Buchholz, pelas 18.30. 

São poemas desse período e outros escritos em 2023 que constituem este volume, cujo título, com o seu quê de irónico, havia sido escolhido pelo próprio Nuno. 

GDCB


A Sala Oval passou a acomodar os troféus do GDCB (Grupo Desportivo da Casa Branca).

Triste

Fico espantado pela crença, que vejo espelhada nas redes e nos media, de que o discurso do rei inglês em Washington é da sua lavra e responsabilidade pessoal. Revela um triste desconhecimento de como funcionam as instituições britânicas.

terça-feira, abril 28, 2026

Chuva?

 


O meu pai dizia muitas vezes: "Céu sachado, chão molhado". Não sei se vai chover ao não, mas achei que não podia perder esta imagem de nuvens de fim de tarde.

José de Bouza Serrano

 


Eu, apagado


Sinto-me excluído. Numa sala de espera, trocam-se memórias épicas do apagão de há um ano. Há relatos que parece emularem o terramoto de 1755. Todos têm histórias. Olham de soslaio para mim, que me alheio da partilha. Snobão, devem pensar. Pobre de mim, que estava em Cabo Verde.

segunda-feira, abril 27, 2026

Adiar o cifrão

Até hoje, nunca gastei um tostão (devia dizer um cêntimo, eu sei) com nenhuma rede social, nem fiz nenhum "upgrading" nos sites de IA que utilizo. Mas cada vez mais desconfio de que, mais dia menos dia, vou acabar por ajudar à festa financeira dessa gente.

Conselho de ouro


A Galp e a Jerónimo Martins podiam fazer um anúncio: "Se até o governador do Banco de Portugal prefere as nossas ações, de que é que você está à espera?"

O amor liberal a Abril

 


A sala do baile que aí vem

 



domingo, abril 26, 2026

Abril no Rossio


Um dos grandes artistas nacionais da imagem, Luiz Carvalho, apanhou-nos ontem no Rossio, na manifestação do 25 de Abril. 

É um orgulho ficar com uma fotografia feita por ele.

Tiro ao Trump

Trump é o que é — e, já sabemos, com Trump e o seu pessoal, tudo é possível. Contudo, é capaz de ser sensato admitir a possibilidade do incidente de ontem ter sido mesmo uma tentativa de atentado. Pode não dar jeito à simpática narrativa anti-Trump, mas pode ser verdade...

Irão


Ver aqui.

sábado, abril 25, 2026

25 sempre!


É impressionante esta grande manifestação comemorativa do 25 de Novembro, agora no Rossio. 

O pessoal de Abril deve estar furioso!

Uma mão a Abril


Não fui um herói de Abril. Apenas dei uma mão a Abril. 

Na véspera, na biblioteca da Escola Prática de Administração Militar (EPAM), onde eu era o bibliotecário, reuniram-se cinco oficiais milicianos que integravam o quadro de instrutores da Escola.

Era esse o núcleo que, desde havia algumas semanas, conspirava em ligação com o movimento dos capitães. Em sua representação, o António Reis e eu tínhamos estado em algumas reuniões, realizadas em casas particulares de Lisboa, para troca de informações sobre a organização dos oficiais milicianos do Exército, na Região Militar de Lisboa. 

A biblioteca da EPAM era o nosso lugar de encontro. Haveria seguramente na unidade outros oficiais milicianos de confiança, instrutores como nós, que poderiam ter engrossado o grupo, mas alguma prudência conspirativa levou-nos a não alargá-lo. Paralelamente, no quadro permanente, a atitude detetada nos vários oficiais da unidade, aquando do falhado golpe das Caldas, pouco mais de um mês antes, havia permitido um separar de águas.

António Reis — homem com um passado político firmado na oposição democrática, mais tarde distinto historiador — era quem fazia a nossa ligação com os militares profissionais da unidade, em especial com o capitão Teófilo Bento e o alferes Manuel Geraldes, que viriam a revelar-se as figuras centrais do MFA na EPAM.

Nessa última conversa, no dia 24 de abril, ficou assente que nenhum dos restantes quatro oficiais milicianos — Otto Leichsenring, António Alves Martins, Carneiro e eu — pernoitaria na unidade. Por rotina, salvo se estivéssemos de serviço, todos íamos dormir a casa, ao contrário do que sucedia com a esmagadora maioria dos soldados-cadetes a quem dávamos instrução. Poderia causar estranheza se, nessa noite, por ali permanecêssemos sem qualquer motivo aparente, depois da hora normal de saída. Ficou então combinado que regressaríamos cerca das sete da manhã do dia seguinte.

Nenhum daqueles quatro oficiais foi informado da tarefa operacional que iria competir à EPAM nessa noite: a tomada das instalações da RTP, a algumas centenas de metros, na Alameda das Linhas de Torres. Nem tinha de o ser. A velha regra do "need to know" era respeitada. Hoje sou levado a presumir que António Reis estivesse no segredo dos deuses. Curiosamente, nunca lhe perguntei.

Nessa noite, depois de deterem os oficiais de dia e de prevenção, os conjurados tomaram a unidade e selecionaram um grupo de soldados-cadetes voluntários, que, chefiados por Bento, Geraldes e Reis, foi ocupar a RTP, onde chegaram às três horas da manhã. Integrou também o grupo de assalto o furriel José António Rosado. 

Quando eu e os restantes três oficiais chegámos à EPAM, quatro horas mais tarde, o oficial de dia já era outro — o capitão Carlos Gaspar — e encontrámos a unidade sob completo controlo do movimento. Da RTP, entretanto, chegavam-nos notícias sossegantes: depois da ocupação, tudo continuava tranquilo.

Hoje todos conhecemos bem a saga das tropas de Salgueiro Maia, que por essas horas se encontravam no Terreiro do Paço, mais tarde no Carmo. Toda aquela valente e arriscada coreografia, que hoje faz parte da nossa História visual, só a viemos a conhecer depois. Na EPAM, na manhã desse dia a que ninguém ainda se referia como "o 25 de Abril", o nosso mundo era muito mais pequeno.

Por volta das oito, António Alves Martins e eu viemos a ter de acolitar o capitão Gaspar na tarefa de deter o comandante da unidade, o coronel Caldas Fidalgo, que inopinadamente tinha irrompido na parada, um episódio que acabou por ter alguns aspetos bizarros e divertidos. Pouco depois, fui incumbido de explicar ao segundo comandante, major Nogueira da Silva, a inconveniência de permanecer na Escola durante esse dia: tratava-se de uma pessoa que suscitava alguns anticorpos, pelo que estava a tornar-se difícil conter as palavras que alguns soldados lhe dirigiam, cavalgando a pontual fragilização da autoridade instituída que inevitavelmente se vivia nesse dia.

Depois da hora de almoço, fui reforçar o pessoal que estava na RTP. Integrei ali o grupo de oficiais que recebeu, já na madrugada de 26 de abril, a Junta de Salvação Nacional — que veio ler, pela voz de António de Spínola, a sua proclamação ao país. Deitei-me para umas horas de sono ao final da manhã de 26.

Durante toda a semana seguinte estive destacado na RTP. O papel da EPAM na televisão acabaria por se esgotar ao fim de alguns dias. Quase simultaneamente, foi determinada a minha saída da EPAM. 

Sucessivamente, estive então colocado na Comissão de Extinção da PIDE e da Legião Portuguesa, pela qual representei o Exército na comissão de inquérito ao motim dos "pides" na Penitenciária de Lisboa, de que fui relator; estive como adjunto do gabinete do general Galvão de Melo, na Junta de Salvação Nacional; fui depois colocado na 2ª Divisão (Informações) do Estado-Maior General das Forças Armadas; fui indicado pelo EMGFA para a comissão de inquérito para investigar o "28 de Setembro"; assisti a algumas Assembleias do MFA (de dezembro de 1974 a julho de 1975, inclusivé a de 11 de Março de 1975); e integrei o grupo fundador do SDCI (Serviço Director e Coordenador de Informações), do Conselho da Revolução. Em agosto de 1975, depois de dois anos e meio fardado, saí da tropa para a diplomacia.

Foi assim o meu 25 de Abril e o tempo que se lhe seguiu. Olhando para trás, posso dizer que dei uma mão a Abril, e fiquei muito contente por ter tido esse privilégio.​​​​​​​​​​​​​​​​ Mas devo mil vezes mais a Abril do que Abril me deve a mim.

sexta-feira, abril 24, 2026

Corri o risco


"Não arrisques pôr o cravo no táxi a caminho do jantar do 25 de Abril na Estufa Fria. É que a probabilidade do motorista ser do Chega é elevada..." O meu amigo, ao telefone esta tarde, era um homem avisado. 

Mas, confesso, é um pouco estranho este tipo de reação, 52 anos depois.

"A Arte da Guerra"


Trump e as suas guerras, o novo belicismo retórico do Japão e as perspetivas em redor da mudança de liderança na Bulgária são os três temas selecionados para o "A Arte da Guerra", o meu podcast semanal para o "Jornal Económico" com António Freitas de Sousa. 

Pelo meio, fala-se da Europa e da duplicidade de Von der Leyen, dos objetivos de Israel no Líbano, do "bom comportamento" internacional da China e da razão da falta de "notícias" de Kiev. 

Ver aqui.

Ai Portugal


Há um obra na minha rua. É numa casa antiga, estreita mas alta. Conservaram-lhe a fachada e o miolo foi substituído. Nada de novo. O que é estranho é que já leve quase quatro anos de construção! E, a olhar o estado da arte, a conclusão da obra não está para breve. Agora, rebentaram com todo o passeio. 

Caramba, tanto tempo? Aquilo não é o CCB! Há tempos comentei o assunto com a vizinhança. Alguém disse: "A obra teve muitas paragens. Parece que é falta de pessoal!" Pensando bem, a falta de pessoal para as atividades é, apesar de tudo, um pouco melhor do que a falta de emprego para quem o não tem.

Há uns anos, numa rua de Vila Real, eternizou-se um buraco, com gradeamento à volta, impedindo a passagem. Foram muitas semanas. Alguém inquiriu junto da Câmara da razão do atraso e a resposta foi: "O pessoal foi para as vindimas.." 

"Ai Portugal, Portugal,", como canta o Jorge Palma.

quinta-feira, abril 23, 2026

Falar claro

Biblioteca Municipal de Tavira
Há mais de meio século, ouvi um sociólogo comentar que a sua ciência tivera dificuldade em se impor pelo facto de lidar com temáticas que tinham a ver com vida corrente, assuntos sobre os quais toda a gente emitia opiniões. Na sua perspetiva, foi essencial criar algum hermetismo no vocabulário utilizado, com vista a conseguir dignificar o discurso científico da Sociologia.

Achei muito estranha essa abordagem, algo snobe e elitista, e dei comigo a pensar que se um qualquer ramo do conhecimento necessita desse tipo de artificialismo para se impor é mau sinal para a sua verdadeira dignidade.

Porque refiro agora isto? Porque as questões internacionais, com a eclosão das recentes guerras, e as muitas horas a elas dedicadas nas televisões, levaram esses temas, de forma quase obsessiva, para as conversas do dia-a-dia. Qualquer pessoa tem opinião (quase sempre bem adjetivada) sobre Trump, sobre a situação no Golfo Pérsico ou a ocupação russa da Crimeia.

Ora isso exige a quem é chamado a falar, em público ou nas televisões, sobre questões desta natureza que, naquilo que diz, tente aportar um valor acrescentado ao discurso impressionista do cidadão comum. Na minha opinião, deve sempre fazê-lo de forma simples, sem chavões e palavreado especializado. As ideias têm de valer por si, não pela roupagem de vocabulário "difícil" utilizado.

Tenho-me lembrado disto ao olhar as dezenas de pessoas que fizeram o favor de me ouvir em três fóruns em que, em menos de uma semana, fui chamado a intervir sobre o estado do mundo e as suas perspetivas de evolução. Procurei falar de modo simples, com vocabulário comum, embora as mensagens fossem diferentes, porque diferentes eram os lemas das palestras, bem como a natureza dos auditórios. Não sei se tive êxito.

Quando falo em público, não ambiciono nunca suscitar de quem me ouve uma expressão idêntica à daquela senhora "do povo" que, inquirida um dia pela Emissora Nacional, no Terreiro do Paço, depois de um discurso de Salazar a um comício nacionalista, comentou assim a alocução do Presidente do Conselho: "Não percebi o que ele disse, mas falou muito bem..."

Universidade Fernando Pessoa

Ordem dos Economistas / Casa da Música

Diabetes

Vejam hoje, na RTP 2, o primeiro de três programas sobre a Diabetes e o centenário da APDP - Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal...