Em 1966 "The Jimi Hendrix Experience" mudou a face da música para sempre. Até aquele primeiro assalto a música pop tinha
sofrido mudanças graduais, sob a influência dos Beatles e dos Rolling Stones. De qualquer maneira, as mudanças que esses
músicos trouxeram não foram tão dramáticas quanto um simples passo da JHE. De repente, a guitarra não era mais o precise
melodic pace setter que havia sido desde os anos 50. Ela havia se transformado num instrumento de expressão crepitante,
destorcido, entorpecente, que dispensava o canto para se comunicar com o ouvinte. Com o advento da expansão da mente através
de drogas psicoativas a música nunca seria a mesma novamente.
Deve ter sido uma experiência incrível escutar os primeiros acordes de "Hey Joe" em 1967. Ainda mais incrível deve ter sido a
primeiro aparição do JHE na televisão, na penúltima edição do "Ready Steady Go", Hendrix, o perfeito cavalheiro do ácido,
pirava enquanto cortava o ar com sua guitarra lânguida; Mitch Mitchell, castigava selvagemente os bumbos, sob uma moita de
cabelo e Noel Redding, com seu cabelo igualmente selvagem, sustentava a guitarra de Hendrix com sua firme pegada no baixo.
Essa foi a banda de Acid Rock arquetípica, que muitos pretenderam imitar sem sucesso. O Experience gravou três albuns, "Are
You
Experienced?'', "Axis Bold As Love'' and "Electric Ladyland'', certamente o melhor LP de toda a carreira de Hendrix.
Depois do rompimento do grupo Hendrix tentou, sem sucesso, redefinir a fórmula. Como o álbum recém lançado, "Radio One"
demonstra claramente, o melhor de Hendrix veio de seus dias com o Experience.
Noel Redding não foi somente o baixista no Experience. Ele também formou o soberbo "Fat Mattress", que, contrariando a crença
popular, fez dois excelentes álbuns. Ele também se envolveu com Road e com a "Noel Redding Band".
Atualmente vivendo numa pequena vila na Irlanda, Noel tem dado os toques finais em seu novo livro e foi ali que essa
entrevista para a revista "Freakbeat" foi realizada.
NR:- Com nove anos de idade, tocando violino na escola, e depois tocando
mandolin. Eu escolhi o violino porque meu melhor amigo o escolheu também, somente fiz como ele. Mudei para o Mandolin com
aproximadamente 12 anos e depois mudei para a guitarra aos 14 anos.
FB:- Qual foi sua primeira banda?
NR:- A minha primeira banda se chamava "The Strangers". Eu fui despedido pois era muito pequeno!!
FB:- Essa foi a primeira vez em frente a um público?
NR:- Bem, suponho que minha primeira aparição em público foi quando tinha cerca de 14 ou 15 anos no "Hythe Youth Club", com
dois de meus amigos. Tocamos algumas músicas de Eddie Cochran. Também fizemos uma apresentação na escola que frequentava, no
final de um período. No dia seguinte fomos chamados à diretoria, onde nos disseram - ok garotos, ontem foi muito legal mas
esqueçam essa porcaria, vocês tem que se concentrar em seus GCE's! (General Certification of Education).
FB:- Quais eram suas principais influências musicais naquela época?
NR:- Naquele tempo eu ouvia a Radio Luxemburgo e coisas óbvias como Lonnie Donnegan, Elvis Presley, Gene Vincent, Eddie
Cochran, Booker T, Cliff Richard & The Shadows, esse tipo de coisas.
FB:- O quê você estava fazendo antes de entrar para o Jimi Hendrix Experience?
NR:- Eu tinha me tornado músico profissional quando tinha 17 anos, tinha tocado principalmente na Escócia e na Alemanha, em
clubes. Era trabalho duro, pois tocávamos por horas a fio. Aprendíamos rapidamente, pessoal e profissionalmente falando.
Toquei lá por alguns anos com The Burnettes e com The Loving Kind. Eu me juntei ao Experience quando fui a uma audição com
Eric Burdon, que estava formando os The New Animals, pois o original havia encerrado suas atividades. Foi minha última
audição e eu já estava quase desistindo. Eu ia empenhar minha guitarra e meu amplificador para conseguir uma bateria, pois
não havia bateristas em Kent. Então eu fui a Londres, fui a essa audição com Eric Burdon, que eu já havia encontrado antes e
fiz um teste de guitarra para ele. Chas Chandler então apareceu e perguntou se eu tocava baixo, eu disse que não. Ele me
pediu para tentar, tentei e por alguma razão me deram o emprego.
FB:- Quais foram suas primeiras impressões de Jimi Hendrix?
NR:- Uma sobrecasaca engraçada e sapatos estranhos!
FB:- Você o havia encontrado antes de entrar na banda?
NR:- Não. Fui o primeiro a me juntar a ele na banda.
FB:- O quê aconteceu nas primeiras semanas do 'Experience?
NR:- Bem, no primeiro dia tocamos três músicas, bem básico, sem vocais. Em seguida fui ao Pub com Hendrix e ele me
perguntava sobre música inglesa e eu fazia perguntas sobre música americana. tivemos uma conversa bem agradável e ele
simplesmente disse "Você gostaria de se juntar à minha banda?", eu disse então, dê-nos o bilhete de trem e voltarei amanhã.
Em dois dias eu estava na banda.
FB:- Vocês logo começaram a ensaiar?
NR:- Não houve ensaios senão mais tarde. Hendrix ensaiou com diferentes bateristas, antes de encontrarmos Mitch Mitchell.
NR:- Em Londres, não havia de fato um lance psicodélico até 67. Obviamente veio de São Francisco. Em Londres, naqueles
dias,você podia fumar um baseado ocasionalmente ou tomar algumas cervejas, mas em 67 as experiências com drogas psicodélicas
chegaram à Inglaterra. De qualquer maneira, nós as encontrávamos mais na América do que na Inglaterra, até que voltamos.
FB:- A cena em Londres era realmente tão louca quanto as pessoas supunham?
NR:- A cena de maneira geral não era tão louca. Todo mundo era bem comportado.
Todos estavam deixando o cabelo crescer, usando roupas rosa e óculos roxos e coisa e tal, por isso, eu suponho, algumas
pessoas pensavam que éramos loucos, mas não éramos totalmente loucos, por sinal ainda estamos aqui!
FB:- Qual foi sua primeira experiência com drogas psicodélicas?
NR:- A primeira vez foi no avião, de Londres para Nova Iorque. Eu estava sentado ao lado de Brian Jones e ele me deu um
pequeno tablete e disse "Tome''. Então eu tomei porque foi o Brian Jones quem me deu, sabe como é! A próxima coisa de que me
lembrava era que estava num barco em New York e eu disse "Bem, isso não me fez nada'' em seguida eu me liguei que já estava
em São
Francisco (risos). Obviamente tinha batido!
FB:- O quê você diria à respeito de drogas psicoativas? Faria tudo de novo?
NR:- Eu não faria mais, nunca mais. Sunho que aqueles velhos lances mais naturais seriam ok, o velho e bom cogumelo, mas eu
não aconselharia ninguém a fazê-lo. Mas então, eu usei bastante. Eu tomei muito LSD durante vários anos. Eu não aconselharia
ninguém a fazê-lo, a menos que saibam o que estão fazendo. Mas provavelmente se eu me sentasse ao lado de Brian Jones
novamente e ele me desse um ácido, eu acho que tomaria (risos).
FB:- Você faria algo diferente se tivesse a oportunidade?
NR:- Eu acho que não, ainda estou por aqui, e sou grato por isso.
FB:- Você acha que o LSD pode servir para alguma coisa?
NR:- Pessoalmente eu acho que muitas pessoas com problemas mentais
poderiam se beneficiar, sob algum tipo de supervisão. Iria ajudá-los. O LSD é somente um catalizador para o cérebro, pois
toda a viagem já está no cérebro, porque é o subconsciente que vem para fora. Abre os mesmos canais que são abetros pela
Yoga, mas temos que ser mais cautelosos.
FB:- O quê você acha de (Timothy) Leary e todo o resto?
NR:- Bem, eu acho que o encontrei uma vez. Eles começaram em Yale - Leary e
Richard Alpert - porque eles tinham descoberto a Cannabis, mas eles queriam ficar mais loucos, e como psicólogos, eles
começaram a experimentar com LSD. Eu me lembro quando eles descreveram quando passaram um fim de semana numa casa, tomando
algo como 250 microgramas de LSD a cada hora e eles ficaram lá durante três dias, mas ninguém sabe o que aconteceu lá, pois
eles não conseguiam se lembrar. Eles estavam é para lá de Marakesh. Eu ainda digo, fiquem longe do LSD.
FB:- Qual era a atitude de Jimi com o ácido?
NR:- Ele o adorava.
FB:- Você acha que a música de Jimi poderia ter sido diferente sem o LSD?
NR:- Eu acho que o ajudou nas letras mais antigas. Ele curtia muito, portanto eu acho que o cara conseguia compor um bom
material.
FB:- Qual é sua memória mais querida de seu tempo com o Experience?
NR:- Talvez o último show que demos em Londres, no Albert Hall. Monterey também, obviamente. O fato de conviver com a banda e
seus altos e baixos. São todas boas memórias basicamente. Gostaria de ter sido pago!
FB:- Algumas pessoas esquecem que Jimi Hendrix Experience foi um grupo e não uma pessoa só. Isso o incomoda?
NR:- Sim! But people are now realising why I was playing bass with Hendrix.
FB:- Como o Experience funcionava no estúdio?
NR:- Entrávamos tarde no estúdio, normalmente. Hendrix dizia "Tenho essa música''. Eu dizia "Em que chave está?'' Mitch
perguntaria
"Qual o tempo?''. Nós aprendíamos as músicas no estúdio, porque de qualquer maneira não ensaiávamos muito, e as concluíamos
rapidamente.
Algumas vezes Jimi me mostrava alguns licks mas algumas vezes eu lhe mostrava alguns licks também, em suas próprias músicas,
eu eu nunca tive crédito algum por isso. Basicamente era tudo muito livre. Ensaiávamos, os técnicos ajustavam o som, e quando
tínhamos algo pronto eles o gravavam, algumas vezes sem sabermos!
FB:- Você conhecia Mitch Mitchell antes do Experience?
NR:- Não, de jeito nenhum.
FB:- Qual foi seu envolvimento com o Underground, se é que teve algum?
NR:- Havia um lugar em Covent Garden, o Arts Lab eu acho, e eu fui lá algumas vezes. Fizemos um show no Olympia em Londres e
foi quando tudo estava rolando em 67 com e
stroboscópios, luzes coloridas e todas aquelas coisas que haviam acabado de chegar
à Inglaterra.
FB:- Quão bem você conhecia os Beatles?
NR:- Bem o primeiro encontro que tive com os Beatles foi em 66, numa recepção para a imprensa, num lugar chamado Bag'O'Nails,
um pub em
Londres. Fizemos nosso show e depois nos camarins, que eram como um armário, Lennon apareceu, e eu pirei. Ele estava dizendo
"Demais!'', ele adorou, mas eu tinha 20 anos de idade, John Lennon tinha acabado de entrar em nosso camarim e dito "Foi
demais pessoal'' e então McCartney apareceu e eu pirei mais ainda. Mais tarde em 67 nós tocamos no Teatro Saville em Londres,
que pertencia a Brian Epstein, e rolou um lance. Fizemos um show por lá e fomos convidados para uma festa após o show. Eu
tinha um carro e então levei Mitch e Hendrix e aí chegamos no tal lugar, Próximo à embaixada irlandesa. Bati na porta e
McCartney a abriu, o quê me deixou impressionado novamente. Subimos e eles tinham até um enrolador de baseados profissional
lá!
FB:- E os Stones?
NR:- Bem, eu costumava sair com Brian no Speakeasy e ele me levava para casa em seu Rolls e me deixava no meu flat de £6 por
semana. Ele era bem legal. Brian era uma pessoa excelente.
FB:- O quê acabou com o Experience?
NR:- A banda tinha trabalhado por dois anos e meio de maneira sólida, na estrada,
viajando o tempo todo. Não dormíamos por dias a fio esse tipo de coisa, então quando a banda se tornou grande, Hendrix se
tornou uma estrela e começou a nos olhar de cima. A banda simplesmente se desfez em Outubro de 1968.
FB:- Você acha que o Experience poderia ter continuado?
NR:- Bem, ficamos juntos por outros seis meses depois do fim, mas então eu sai.
FB:- Como soaria o quarto álbum do JHE?
NR:- O quarto LP provavelmente será lançado em breve.
FB:- Você acha que Jimi estava sendo manipulado pela indústria musical?
quando o Experience terminou?
NR:- Eu acho que ele estava sob pressão, porque havia todos aqueles contratos, dos quais ninguém sabia coisa nenhuma. Hendrix
não tinha um material com a mesma qualidade, porque a gravadora dizia que ele deveria ter algo comparável a seu material já
consagrado. Eu realmente acho que o cara estava meio perdido e também acho que ele estava sendo manipulado no mundo dos
negócios. O pobre, que deus o abençoe, somente precisava de algum tempo. Ele deveria ter vindo para a Irlanda por um ano.
FB:-Vocêacha que a industria da música mudou ao longo dos anos?
NR:- Não realmente, eu ainda não fui pago.
FB:- Depois de deixar o Experience o quê você fez?
NR:- Bem, eu tive o "Fat Mattress" anteriormente, como uma saída para minhas composições. Quando deixei o Experience, o "Fat
Mattress"
fez uma turnê na Alemanha e na América, então tudo terminou também, e eu estava vivendo em Los Angeles. Tive outra banda,
chamada "Road". Um power trio de Heavy Metal e em 1972 e me mudei para a Irlanda.
FB:- Fale-nos sobre o "Fat Mattress".
NR:-O "Fat Mattress" consistiu em pessoas com quem havia tocado antes de entrar para o JHE, e foi formado para que as
composições fossem executadas. Havia Neil Landon nos vocais (que agora está em Hamburgo), Jimmy Leverton, de Dover, que
tocava baixo, flauta e compunha - agora ele está tocando com Steve Marriott - e Eric Dillon, o baterista, que veio de Swindon
e agora é barman em LA, eu acho.
FB:- Quem formou a banda?
NR:- Eu formei.
FB:- Por quê você acha que abanda nunca fez sucesso na Inglaterra?
NR:- Eu não sei!
FB:- Qual dos dois LP's é seu favorito?
NR:- O primeiro.
FB:- Alguma música favorita?
NR:- Bem, há uma música chamada "Highway'', que escrevi na America.Neil Landon voltou para a Europa, depois de deixar o "Fat
Mattress", e ele a gravou no Fat Mattress II. Ele não se lembrou como era, então fez uma letra diferente e usou os acordes
errados, eu não gosto da gravação de jeito nenhum.
FB:- Por quê você deixou a banda?
NR:- Eles trouxeram um cara no palco em Long Island para fazer uma jam e não haviam me falado nada à respeito. Atitude.
FB:- Você acha que os LP's serão relançados?
NR:- Espero que sim! Poderia ganhar alguns royalties, não é mesmo! Depois do interesse gerado na America, com a turnê dos
últimos meses, eu acho que possivelmente a Polydor poderia lançar uma coletânea ou algo assim.
FB:- Há algum material que foi gravado mas não lançado?
NR:- Algumas coisas. Tenho as fitas aqui em algum lugar.
FB:- Em quais bandas você tocou depois de 1972?
NR:- Bem, formei uma banda com Eric Bell do Thin Lizzy, com Dave
Clark nos teclados e com Leslie Samson na bateria, foi chamada de "The Noel Redding Band" o que eu detestei,porque eu queria
chamá-la de "The Clonakilty Cowboys". Gravamos dois álbuns pela RCA, fizemos três turnês na Holanda, duas na England, uma na
Irlanda e uma turnê de dez semanas na America. Depois de tudo isso nós processamos nosso empresário, pois ele estava nos
roubando.
FB:- Você ainda está envolvido com a indústria musical?
NR:- Bem, eu ainda toco!
FB:- Então por quê você se mudou para a Irlanda?
NR:- É uma lugar maravilhoso para se viver!
FB:- Você ainda anseia pela vida agitada da estrada, pelas mulheres, pelas drogas?
NR:- Não. Não. Eu tenho uma mulher. Não uso mais drogas. Pelo "Air jet limusine" eu ainda poderia sair em turnê, se for bem
pago para isso, é claro!
FB:- O quê você acha que teria salvado Jimi Hendrix?
NR:- Se ele tivesse se movido para a Irlanda....
Não...eu acho que a pessoa que estava lá, que saiu para comprar cigarros enquanto alguém estava vomitando na cama. Quero
dizer, você não sai para comprar cigarros, não é mesmo? Sabe? Você pega a pessoa que está vomitando e a leva para o banheiro
e lá você enfia o dedo em sua garganta. Isso poderia ter salvo Jimi Hendrix. mais ainda, poderia ser algo que deram para ele
sem que soubesse, nunca se sabe.
FB:- O que você acha dos lançamento póstumos de Jimi Hendrix?
NR:- Um monte de porcaria. Uma pilha de merda para ser mais preciso. Só fizemos três ábuns bons.
FB:- Você estava envolvido no projeto McGough & McGear?
NR:- Yeah, eu apareci e toquei um tambourim eu acho, ou cantei sozinho, no estúdio Kingsway, em Londres. Nunca escutei o LP!
É isso aí! Aqueles que quiserem saber mais podem gostar de saber que Noel
escreveu um livro com sua mulher, Carol Appelby, que fez uma compilação abrangendo dez anos de diários e outros arquivos. Foi
publicado recentemente por uma pequena livraria de Londres, chamada "Fourth Estate Books", inclui também algumas fotografias
nunca publicadas. É chamado "Are You Experienced?'' e Noel
o descreve como "a primeira visão correta do Experience''.