Desde a estreia do filme Michael, no final de abril de 2026, o nome de Michael Jackson voltou a dominar as conversas. Grande parte do que circula nas redes sociais, especialmente em reels de influenciadores, retoma fatos já conhecidos — mas, a cada nova repetição, surgem camadas interpretativas que reforçam a ideia de que os anos posteriores ao lançamento de Thriller foram especialmente turbulentos para o Rei do Pop.
Em 1983, Michael Jackson chegou a se reunir com Freddie Mercury para uma possível colaboração inédita. As sessões, registradas em 16 pistas pelo engenheiro Brent Averill, envolveram gravações de “There Must Be More to Life Than This” e “State of Shock”. Porém, com o chamado de Joseph Jackson para o retorno aos The Jacksons e a produção de um novo álbum do grupo, o material acabou sendo engavetado.
Freddie Mercury posteriormente deu destino solo a “There Must Be More to Life Than This” em seu álbum Mr. Bad Guy. Décadas depois, as fitas originais foram revisitadas por William Orbit, que remixou o material com participação do Queen para a coletânea Forever. Os créditos da edição ainda preservam o nome de Brent Averill como responsável pelas gravações originais.
Já “State of Shock” acabou tomando outro rumo. A faixa recebeu finalização de Bruce Swedien — parceiro recorrente de Michael Jackson — e ganhou novos vocais de Mick Jagger, ampliando o impacto da gravação. David Williams participou na guitarra e no baixo, Michael contribuiu com palmas e bateria eletrônica, enquanto Paulinho da Costa assinou a percussão. Embora frequentemente tratada como uma faixa avulsa, a versão lançada oficialmente ainda inclui participações de Jackie e Marlon Jackson, além de Johnny Ray Nelson nos backing vocals.
Com a repercussão do filme, também voltaram à tona relatos envolvendo a Victory Tour. Na época, Joseph Jackson organizou um controverso sistema de reservas para ingressos baseado em sorteios pagos: o público enviava cheques pelo correio para participar de uma espécie de loteria que não garantia presença nos shows, apenas a chance de adquirir os ingressos.
O contexto tornava a situação ainda mais delicada. Michael Jackson vivia o auge absoluto de sua carreira solo com Thriller, lançado no final de 1982 e transformado rapidamente em fenômeno global de vendas, rádio e televisão. Ainda assim, precisou conciliar esse momento histórico com obrigações familiares que acabaram cercadas por críticas e controvérsias, especialmente em relação à condução comercial da turnê.
O que já era um período marcado por tensões familiares, pressões comerciais e desgaste emocional acabou se tornando ainda mais traumático após o acidente envolvendo Michael Jackson durante as gravações da campanha publicitária da Pepsi para a Victory Tour. Os efeitos pirotécnicos utilizados no set atingiram o couro cabeludo do cantor, causando queimaduras de segundo e terceiro graus e transformando definitivamente a percepção pública daquele período. Embora o episódio tenha recebido tratamento discreto na imprensa da época, o tema voltou a ganhar destaque com a cinebiografia recente.
Em meio às pressões físicas, emocionais e comerciais daquele período, membros da família Jackson — incluindo o próprio Michael — chegaram a anunciar cancelamentos de apresentações da turnê com devolução de valores pagos ao público, aprofundando ainda mais o desgaste em torno do projeto. Não por acaso, Victory acabou se tornando um álbum frequentemente associado a um dos períodos mais turbulentos da trajetória de Michael Jackson.
No que diz respeito ao álbum Victory, a sua distribuição das faixas revela uma lógica curiosa: o irmão que conduz a produção também assume os vocais, mas com algumas ressalvas: "Torture" é produção de Jackie Jackson, que deixou estruturada como um dueto entre Michael e Jermaine; "Wait" é conduzida por Jackie Jackson em parceria com Steve Porcaro e David Paich, "One More Chance" é uma produção assinada por Randy Jackson (que conduz a balada com uma voz suave e doce), Michael assume produção e canta na melancólica "Be Not Always" e na eletrizante "State Of Shock". Tito, por sua vez, produz e canta "We Can Change the World", uma canção com levada latina e vocal grave; o disco mergulha numa estética breakin’ dance em "Wait", produção coletiva entre os irmãos com Paich e Porcaro e vocal de Randy que faz uns falsetes incríveis na música e o álbum fecha com a entrega de "Body" de Marlon Jackson na produção e vocais.
Nesse momento, o álbum também chega a evidenciar a dificuldade de escapar da sombra criativa de Thriller. “Body”, de Marlon Jackson, por exemplo, carrega estrutura rítmica e condução vocal que remetem diretamente a “Wanna Be Startin’ Somethin’", mas os créditos técnicos deixam claro que a fórmula não resultou no deslocamento da mesma equipe de músicos da faixa. Paulinho da Costa, apesar de não tocar em "Body", viria incluir elementos percussivos em "One More Chance".
Na minha opinião, a canção “Wait” deveria abrir o disco! Construída dentro de uma estética post-disco/funk-pop com pegada synth-funk com a guitarra de Steve Lukather (aquele que divide com Eddie Van Halen em Beat It os solos de guitarra épicos) e praticamente trouxe todos os músicos da banda Toto para ela, além de ecos vocais de Michael pela canção.
Já "Body" deveria ser a penúltima faixa do Lado A, deixando "Be Not Always", como a transição para “State Of Shock” e reservando “Torture” para o encerramento do álbum, não porque o disco seja uma tortura — muito pelo contrário —, porque traz o dueto do Jermaine (convidado) e Michael (o astro pop) e tira a responsabilidade de "Body" ser a apoteose do álbum.
Aliás, faça uma escuta atenta – e se possível com leitura de tradução – em "Be Not Always", uma canção que Michael canta com voz embargada, nos conduzindo direcionalmente aos traumas que ele e seu irmão sofreram nas décadas anteriores. Por mais que não sejam explícitas ao pai na canção, o histórico dramático da família Jackson já exposto bem como o o choro e suspiros de Michael na canção deixam isso cristalino. Talvez tenha preferido deixar no LP e K7 a canção como faixa final do lado A para deixar um convite ao mergulho de sua dor interior e uma "virada de disco" pra um capítulo solar no Lado B. Foi intencional.
Além dos músicos do Toto e Paulinho da Costa, o disco traz participações mais que especiais de músicos John Barnes (programação eletrônica Farlight), Derek Nukamoto (programação de sintetizadores adicional), David Williams (guitarra), Louis Johnson e Nathan West (baixo), Lenny Castro (percussão), Greg Wright (guitarra solo), Jonathan Moffett (bateria Simmons), Greg Porée (violões), Robin Renee Ross (viola), Gayle Levant (harpa), além do engenheiro Bill Botrell – que no início assinava como Billy Butrell –, nas mixagens. É um timaço!
Esse disco, mesmo trazendo lembranças amargas e consequente sequela emocional e física, foi a melhor despedida de Michael Jackson neste capítulo com a família Jackson, deixando no álbum uma participação efetiva, autônoma e – mais do que isso – pavimentando o caminho para os irmãos seguirem o grupo sem ele em 2300 Jackson Street (1989), demonstrando clara sensação de dever cumprido.
01. Torture
02. Wait
03. One More Chance
04. Be Not Always
05. State of Shock (feat. Mick Jagger)
06. We Can Change the World
07. The Hurt
08. Body