O homem é o animal que conta histórias. Não sei bem se será o único — os cantos das baleias podem perfeitamente ser longos épicos contados de geração em geração — mas é aquele que o faz de forma mais óbvia e permanente. E desde o início da espécie. E em todas as culturas.
E desde sempre, o fantástico é a forma preferida para contar histórias que lidam com os grandes mistérios. Foi de fantástico que se fizeram os mitos e é do fantástico que os contadores de histórias se servem para contar histórias, por exemplo, sobre o destino. Como esta.
Wu Cheng'em é chinês. Ou melhor: foi chinês, tendo vivido no século XVI, o que significa que foi praticamente contemporâneo de Camões. E apesar de tão antigo, este A Sentença (bibliografia) é um miniconto fantástico notavelmente moderno, no qual se conta uma história sobre um suplicante que vai ter com o imperador afirmando ser um dragão e ter tido a revelação de que um ministro do imperador lhe cortaria a cabeça no dia seguinte, suplicando-lhe que o impedisse. O imperador acede. Mas depois entra o destino em ação.
Esta é uma história que, não sendo nada de extraordinário se extraída do contexto temporal e cultural em que foi escrita, se torna mesmo muito interessante quando o contexto é tido em conta.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2020
domingo, 12 de janeiro de 2020
Ray Bradbury: A Cisterna
De volta ao terror ternurento, Ray Bradbury cria neste conto a que o tradutor brasileiro resolveu, vá-se lá entender porquê, intitular como A Cisterna (e não, segundo o que vi em dicionários brasileiros não é diferença dialetal) uma história de morte e perda muito poética, muito bem escrita e bastante memorável.
O conto pouco mais é que um diálogo entre duas irmãs, daquelas solteironas, e talvez mais ou menos velhas, que começa quando uma das duas tem uma epifania: existe uma cidade debaixo da cidade, composta pelos canos de escoamento das águas pluviais. É um tema curioso de conversa, mas mais curioso se torna quando a mulher começa a criar a história de dois mortos que vivem nessa cidade debaixo da cidade, e mais ainda quando nos vamos apercebendo de que ambos os mortos estão profundamente ligados a ela. Não direi como. Digo apenas que há na história que ela conta um elemento sobrenatural forte, ao passo que a outra serve como elemento cético que faz avançar a narrativa, mais uma vez através da incompreensão, da não aceitação daquela aparente loucura... que se vem a revelar inteiramente acertada.
Um conto bastante bom, este. Mais um.
Contos anteriores deste livro:
O conto pouco mais é que um diálogo entre duas irmãs, daquelas solteironas, e talvez mais ou menos velhas, que começa quando uma das duas tem uma epifania: existe uma cidade debaixo da cidade, composta pelos canos de escoamento das águas pluviais. É um tema curioso de conversa, mas mais curioso se torna quando a mulher começa a criar a história de dois mortos que vivem nessa cidade debaixo da cidade, e mais ainda quando nos vamos apercebendo de que ambos os mortos estão profundamente ligados a ela. Não direi como. Digo apenas que há na história que ela conta um elemento sobrenatural forte, ao passo que a outra serve como elemento cético que faz avançar a narrativa, mais uma vez através da incompreensão, da não aceitação daquela aparente loucura... que se vem a revelar inteiramente acertada.
Um conto bastante bom, este. Mais um.
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sábado, 11 de janeiro de 2020
Carlos Afonso Portela: Quatro Vidas Num Jardim
Há quem deteste de todo o coração contos oníricos, com o seu característico esquematismo e a sua frágil solidez narrativa. Eu sou algo ambivalente para com eles; muitos, a maioria, deixam-me frio, alguns desagradam-me profundamente, mas também já tenho gostado muito de uns quantos. Quatro Vidas Num Jardim, de Carlos Afonso Portela (bibliografia), é dos que me deixam frio.
Portela escreve melhor do que a média desta antologia, apesar de um ou outro tropeço, geralmente causados por tentativas menos bem sucedidas de "fazer estilo". E conta uma história onírica confusa, como é comum serem, baseada num jardim esquemático cujo significado o protagonista tenta compreender, servindo-se para isso da ajuda de uma personagem que ele próprio cria. A moral da história é clara: há coisas que são estragadas assim que se tenta explicá-las, por isso mais vale aceitá-las como são, sem tentativas de análise. E há coisas demasiado pessoais para serem compartilhadas até com personagens que nós próprios criamos. Não creio que concorde com nenhuma destas ideias, mas a verdade é que o conto me deixou demasiado indiferente para gastar nele o tempo necessário para pensar realmente sobre elas.
Não é mau; é apenas esquecível.
Textos anteriores deste livro:
Portela escreve melhor do que a média desta antologia, apesar de um ou outro tropeço, geralmente causados por tentativas menos bem sucedidas de "fazer estilo". E conta uma história onírica confusa, como é comum serem, baseada num jardim esquemático cujo significado o protagonista tenta compreender, servindo-se para isso da ajuda de uma personagem que ele próprio cria. A moral da história é clara: há coisas que são estragadas assim que se tenta explicá-las, por isso mais vale aceitá-las como são, sem tentativas de análise. E há coisas demasiado pessoais para serem compartilhadas até com personagens que nós próprios criamos. Não creio que concorde com nenhuma destas ideias, mas a verdade é que o conto me deixou demasiado indiferente para gastar nele o tempo necessário para pensar realmente sobre elas.
Não é mau; é apenas esquecível.
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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
João de Oliveiros: A Loja
João de Oliveiros não escreve propriamente mal. É essa a primeira coisa que se percebe quando se começa a ler este A Loja (bibliografia). Tem, ou tinha na altura em que escreveu esta história, algumas falhas no português, algum pendor para a adjetivação excessiva e para o dramalhão, salpica o texto de umas referências a ideias a atirar para o neonazi, ou pelo menos para o nietzcheano, mas não escreve propriamente mal. É uma vantagem face a alguns dos seus colegas de antologia.
Mas A Loja é um continho medíocre. Conto de horror, de vampiros, é demasiado previsível para chegar a ter algum do impacto pretendido. Oliveiros tenta usar a técnica do final surpresa, mas não consegue surpreender com o final que escolhe (pelo menos não me surpreendeu; talvez surpreenda outros leitores) e o resto do conto é demasiado descritivo, apesar de ser basicamente um diálogo, para fazer o leitor mergulhar mesmo na história. É provável que parte da razão para isso sejam as limitações na dimensão do conto, mas o facto é que esta história precisava de respirar um bom bocado mais do que respira.
O resultado? Não é dos piores contos que este livro inclui até ao momento, mas também não é dos melhores.
Textos anteriores deste livro:
Mas A Loja é um continho medíocre. Conto de horror, de vampiros, é demasiado previsível para chegar a ter algum do impacto pretendido. Oliveiros tenta usar a técnica do final surpresa, mas não consegue surpreender com o final que escolhe (pelo menos não me surpreendeu; talvez surpreenda outros leitores) e o resto do conto é demasiado descritivo, apesar de ser basicamente um diálogo, para fazer o leitor mergulhar mesmo na história. É provável que parte da razão para isso sejam as limitações na dimensão do conto, mas o facto é que esta história precisava de respirar um bom bocado mais do que respira.
O resultado? Não é dos piores contos que este livro inclui até ao momento, mas também não é dos melhores.
Textos anteriores deste livro:
Narayana: O Rato e o Eremita
Retirado de um antiquíssimo clássico hindu, neste livro identificado como sendo de autoria de Narayana mas sendo muito mais provável que a sua origem seja popular, este O Rato e o Eremita (bibliografia) é daquelas histórias que atestam a antiguidade dos contos populares. Porque é disso que se trata: um conto popular. Uma fábula que, não sendo tão antiga como as de Esopo, tem tudo em comum com elas. Incluindo a (quase sempre muito desnecessária) moral da história.
A história é sobre a (in)gratidão. Fala de um eremita com poderes mágicos que trava amizade com um rato, que vai transformando em animais sucessivamente mais poderosos à medida que ele vai sendo ameaçado por animais também eles cada vez mais poderosos. Até que o rato chega a tigre e acha não só que já não precisa do eremita, mas que a mera existência deste faz lembrar a todos os demais que por mais que hoje seja tigre começou sendo apenas rato. Ou seja, fala de animais para falar de homens e da forma como alguns destes homens tentam esconder origens humildes silenciando todos aqueles que as conhecem, mesmo que tenham (ou sobretudo se tiverem) ajudado a elevá-los à sua atual posição de poder. Um bom exemplo de fábula totalmente política.
Texto anterior deste livro:
A história é sobre a (in)gratidão. Fala de um eremita com poderes mágicos que trava amizade com um rato, que vai transformando em animais sucessivamente mais poderosos à medida que ele vai sendo ameaçado por animais também eles cada vez mais poderosos. Até que o rato chega a tigre e acha não só que já não precisa do eremita, mas que a mera existência deste faz lembrar a todos os demais que por mais que hoje seja tigre começou sendo apenas rato. Ou seja, fala de animais para falar de homens e da forma como alguns destes homens tentam esconder origens humildes silenciando todos aqueles que as conhecem, mesmo que tenham (ou sobretudo se tiverem) ajudado a elevá-los à sua atual posição de poder. Um bom exemplo de fábula totalmente política.
Texto anterior deste livro:
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
Livros de 2019
O Goodreads tem uma espécie de jogo que consiste em estabelecer um número de livros para ler durante o ano e depois, quando o ano chega o fim, "ganha" quem conseguir ler mesmo esse número de livros ou o ultrapassar. Há quem o jogue a sério, mas desconfio que a maioria das pessoas é mais como eu: usa-o como uma espécie de guia de progresso, uma forma de aferir se as leituras vão ou não progredindo à velocidade que se estabelece como desejável no início do ano. É que o "desafio" vai dizendo quantos livros se leva de avanço ou de atraso em relação à promessa. Eu costumo estabelecer como meta um livro por semana, 52 ao todo, e desde que comecei a participar naquilo nunca cheguei sequer perto.
Bem... este ano "ganhei".
A lista do Goodreads é um pouco diferente da minha, que eu conto coisas que eles não contam (alguns periódicos e um livro ainda não publicado) e vice-versa (livros em vários volumes, que aqui normalmente contam só como um e lá não, ainda que este ano não haja nenhum caso), mas seja lá qual for a lista, "ganhei". Por lá, contam-se 55 títulos, por aqui 58.
Claro que um motivo importante para isso foi ter lido este ano muitos contos em ebook, especialmente (mas não só) os da coleção de ebooks publicada pelo DN há alguns anos, o que também contribui para o predomínio da ficção lusófona, e muito especialmente portuguesa, sobre a não lusófona. Sem contar com os periódicos, foram 34 títulos lusófonos, dos quais apenas 2 são brasileiros e nenhum de outras nacionalidades, e 17 títulos não lusófonos, três dos quais li por trabalho. Os periódicos foram 7, dois deles compõem-se exclusivamente de material não lusófono, outros dois são de material brasileiro e os restantes são mistos.
A lista completa é a seguinte:
1. Contos Populares Portugueses, de Adolfo Coelho (contos populares, maioritariamente de fantasia);
2. A Idade da Ignorância, de Braulio Tavares (crónicas);
3. A Mina do Deus Morto, de João Barreiros (conto de ficção científica);
4. A Moeda, de Gonçalo M. Tavares (conto mainstream com uma certa pegada insólita);
5. A Musa Irrequieta, de Pedro Paixão (conto mainstream);
6. A Porrada, de Mário de Carvalho (conto mainstream);
7. A Princesa do Gelo, de Manuel João Vieira (conto de fantasia surrealista);
8. A Queda de um Anjo, de Afonso Cruz (conto fantástico);
9. A Terrível Criatura Sanguinária, de Nuno Markl (conto fantástico);
10. Memórias de uma Vida Inesperada, de Noor Al Hussein (memórias);
11. A.K.A., de Rob Swigart (romance satírico com elementos de ficção científica);
12. As Saudades que Tenho de Inácia, de Manuel Jorge Marmelo (conto mainstream);
13. Contos da Infância e do Lar, Volume I, dos Irmãos Grimm (contos populares ou baseados em contos populares, na sua grande maioria de fantasia);
14. Contos, de Eça de Queirós (contos mainstream e de fantasia);
15. Blindsight, de Peter Watts (romance de ficção científica);
16. Cães, de Ricardo Loureiro (conto mainstream);
17. Cidade Líquida, de João Tordo (conto de realismo mágico);
18. Aventuras do Vampiro de Palmares, de Gerson Lodi-Ribeiro (romance-colagem de ficção científica e história alternativa);
19. Defensor do Vínculo, de Pedro Mexia (conto mainstream);
20. O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges (contos fantásticos e mainstream);
21. E Tais Pancadas Tem a Costa da China, de Fernão Mendes Pinto (excerto de um livro de viagens);
22. Fábulas de Esopo Ilustradas, de Esopo (fábulas em prosa; minicontos e vinhetas, quase sempre fantásticos);
23. O Génio e a Deusa, de Aldous Huxley (romance mainstream);
24. Jean-Charles, Amor de Calções, de Onésimo Teotónio Pereira (conto mainstream);
25. Buick 8, um Carro Perverso, de Stephen King (romance de horror com elementos de ficção científica... ou vice-versa);
26. Fábulas do Tempo Presente... e do Tempo Futuro, de Carlos Couceiro (fábulas em verso);
27. Mania, de Luísa Costa Gomes (conto de mistério);
28. Missão Stardust, de K. H. Scheer (novela de ficção científica);
29. Monólogo do Oriente, de Patrícia Portela (conto mainstream);
30. Ninfas e Adamastores, de Raquel Ochoa (conto mainstream);
31. No Muro, de David Soares (conto de ficção científica);
32. Notas Soltas da Corda e do Carrasco, de Sérgio Godinho (conto mainstream);
33. O Filho do Pai Manel, de Pedro Santo (conto mainstream);
34. O Fim da Dívida, de Nuno Costa Santos (conto de humor mainstream);
35. O Castelo dos Destinos Cruzados, de Italo Calvino (coleção de contos interligados fantásticos, com elementos de horror e ficção científica);
36. O Galeão Enxobregas, de Francisco Maria Bordalo (noveleta de aventuras);
37. O Homem que Existia Demais, de Possidónio Cachapa (conto mainstream);
38. O Lado Oculto de Rose, de Ademir Pascale (contos de horror);
39. O Universo Extravagante, de Robert P. Kirshner (livro de divulgação científica);
40. Mensageiros das Estrelas, org. Adelaide Maria Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos (contos de ficção científica e fantástico);
41. John Carter, de Edgar Rice Burroughs (romance de ficção científica);
42. Histórias de Fantasmas, de vários (contos de horror, fantásticos e de humor);
43. Meg, de Steve Alten (romance de ficção científica);
44. 7 Contos Ilustr.s, org. Fernando Esteves Pinto (contos fantásticos, de ficção científica e mainstream);
45. Vou-me Embora, de José Conrado Dias (novela mainstream);
46. Avenidas sem Sentido, org. Pedro Sena-Lino (contos mainstream e alguns fantásticos);
47. O Progresso da Humanidade, de Rui Cardoso Martins (conto mainstream);
48. O Teclado Paranóico, de João Ventura (conto fantástico e de humor)
Como sempre, também marcharam uns quantos periódicos:
49. Fantasy & Science Fiction, nº 645, ed. Gordon van Gelder (contos de ficção científica e fantasia);
50. Bang!, nº 3, ed. Luís Corte Real e Rogério Ribeiro (contos de ficção científica e fantástico);
51. Dagon, nº 3, ed. Roberto Mendes (contos de fantasia e um bocadinho de ficção científica);
52. Isaac Asimov Magazine, nº 3, ed. Ronaldo Sergio de Biasi (contos de ficção científica);
53. Macondo, nº 6, ed. Francisco Mariani Casadore e Marcos Mariani Casadore (poesia e contos fundamentalmente mainstream);
54. Megalon, nº 1, ed. Marcello Simão Branco e Renato Rosatti (contos e artigos sobre ficção científica e fantástico);
55. Ficções, nº 10, ed. Luísa Costa Gomes (contos principalmente mainstream, mas também com fantástico e ficção científica)
E também li por dever laboral:
56. The Warehouse, de Rob Hart (romance de ficção científica);
57. (ainda não anunciado)
58. (ainda não anunciado)
Este ano, ao contrário do que costuma acontecer, não foi propriamente a ficção científica a predominar. De facto, de todos estes títulos só 19 incluem alguns elementos de FC, e são muito poucos os que são declaradamente FC. A variedade imperou nas minhas leituras de 2019, ainda que os contos do DN as tenham empurrado bastante para o lado do mainstream: são 25 as publicações que ou são inteiramente mainstream, ou incluem ficções mainstream. Mas mesmo este número é menos de metade de todos os títulos que constam destas listas. Lá está: variedade.
Mais uma vez, também em 2019 não houve nenhum livro que me tivesse realmente enchido as medidas, apesar de ter havido uma lista de dezena e meia de que gostei bastante, o que dificulta muito a escolha do meu top-3 do costume. Mas depois de muito matutar, acho que vou mais uma vez fazer um top-3 integralmente de ficção científica: o Blindsight do Peter Watts em primeiro, A Mina do Deus Morto do João Barreiros em segundo e o Isaac Asimov Magazine, nº 3 em terceiro. Mas a distância entre estas três publicações e um pelotão inteiro de outras é bastante curta.
Por serem menos, é mais fácil decidir o trio de melhores leituras lusófonas. A Mina do Deus Morto, claro, foi a minha melhor leitura lusófona do ano. O segundo lugar vai para outro conto da coleção do DN, A Queda de um Anjo, do Afonso Cruz, e o terceiro vai para um clássico, os Contos do Eça de Queirós. Tudo português, sim, que este ano li pouco material brasileiro.
Com tanta coisa lida e com um top 3 dominado por FC, se calhar não é má ideia dar também um lamiré sobre as 3 melhores leituras sem ficção científica, ainda que seja uma lista cheia de títulos já vistos em outras. Aqui é A Queda de um Anjo a liderar, seguida pel'O Castelo dos Destinos Cruzados, do Italo Calvino, que é o único título novo porque em terceiro aparecem outra vez os Contos do Eça de Queirós.
E os piores do ano? Bem, aí a escolha é mais fácil porque a lista de candidatos é bastante mais curta. E de novo inclui contos do DN, tanto na lista de candidatos como nos três escolhidos. Estes são todos lusófonos, mas não todos portugueses. Decidi-me por O Filho do Pai Manel do Pedro Santo como o pior livro do ano. Outro Pedro, o Paixão, escreveu o segundo pior livro do ano: A Musa Irrequieta. E o Megalon nº 1 foi o terceiro pior, ainda que o único conto que contém leve provavelmente a taça de pior conto lido em 2019 (não, não vou passar a fazer essa lista; daria demasiado trabalho); o que salva esse número do fanzine é a entrevista.
Para o ano haverá mais, claro. Ainda tenho um punhado de ebooks do DN por ler, e mais uma porção de contos em ebook, alguns já bastante velhos, armazenados no disco rígido à espera de vez, pelo que as listas de 2020 também deverão ser extensas. Portanto se quiserem saber como foi o ano, voltem em 2021, mais ou menos por esta altura. Até lá.
Bem... este ano "ganhei".
A lista do Goodreads é um pouco diferente da minha, que eu conto coisas que eles não contam (alguns periódicos e um livro ainda não publicado) e vice-versa (livros em vários volumes, que aqui normalmente contam só como um e lá não, ainda que este ano não haja nenhum caso), mas seja lá qual for a lista, "ganhei". Por lá, contam-se 55 títulos, por aqui 58.
Claro que um motivo importante para isso foi ter lido este ano muitos contos em ebook, especialmente (mas não só) os da coleção de ebooks publicada pelo DN há alguns anos, o que também contribui para o predomínio da ficção lusófona, e muito especialmente portuguesa, sobre a não lusófona. Sem contar com os periódicos, foram 34 títulos lusófonos, dos quais apenas 2 são brasileiros e nenhum de outras nacionalidades, e 17 títulos não lusófonos, três dos quais li por trabalho. Os periódicos foram 7, dois deles compõem-se exclusivamente de material não lusófono, outros dois são de material brasileiro e os restantes são mistos.
A lista completa é a seguinte:
1. Contos Populares Portugueses, de Adolfo Coelho (contos populares, maioritariamente de fantasia);
2. A Idade da Ignorância, de Braulio Tavares (crónicas);
3. A Mina do Deus Morto, de João Barreiros (conto de ficção científica);
4. A Moeda, de Gonçalo M. Tavares (conto mainstream com uma certa pegada insólita);
5. A Musa Irrequieta, de Pedro Paixão (conto mainstream);
6. A Porrada, de Mário de Carvalho (conto mainstream);
7. A Princesa do Gelo, de Manuel João Vieira (conto de fantasia surrealista);
8. A Queda de um Anjo, de Afonso Cruz (conto fantástico);
9. A Terrível Criatura Sanguinária, de Nuno Markl (conto fantástico);
10. Memórias de uma Vida Inesperada, de Noor Al Hussein (memórias);
11. A.K.A., de Rob Swigart (romance satírico com elementos de ficção científica);
12. As Saudades que Tenho de Inácia, de Manuel Jorge Marmelo (conto mainstream);
13. Contos da Infância e do Lar, Volume I, dos Irmãos Grimm (contos populares ou baseados em contos populares, na sua grande maioria de fantasia);
14. Contos, de Eça de Queirós (contos mainstream e de fantasia);
15. Blindsight, de Peter Watts (romance de ficção científica);
16. Cães, de Ricardo Loureiro (conto mainstream);
17. Cidade Líquida, de João Tordo (conto de realismo mágico);
18. Aventuras do Vampiro de Palmares, de Gerson Lodi-Ribeiro (romance-colagem de ficção científica e história alternativa);
19. Defensor do Vínculo, de Pedro Mexia (conto mainstream);
20. O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges (contos fantásticos e mainstream);
21. E Tais Pancadas Tem a Costa da China, de Fernão Mendes Pinto (excerto de um livro de viagens);
22. Fábulas de Esopo Ilustradas, de Esopo (fábulas em prosa; minicontos e vinhetas, quase sempre fantásticos);
23. O Génio e a Deusa, de Aldous Huxley (romance mainstream);
24. Jean-Charles, Amor de Calções, de Onésimo Teotónio Pereira (conto mainstream);
25. Buick 8, um Carro Perverso, de Stephen King (romance de horror com elementos de ficção científica... ou vice-versa);
26. Fábulas do Tempo Presente... e do Tempo Futuro, de Carlos Couceiro (fábulas em verso);
27. Mania, de Luísa Costa Gomes (conto de mistério);
28. Missão Stardust, de K. H. Scheer (novela de ficção científica);
29. Monólogo do Oriente, de Patrícia Portela (conto mainstream);
30. Ninfas e Adamastores, de Raquel Ochoa (conto mainstream);
31. No Muro, de David Soares (conto de ficção científica);
32. Notas Soltas da Corda e do Carrasco, de Sérgio Godinho (conto mainstream);
33. O Filho do Pai Manel, de Pedro Santo (conto mainstream);
34. O Fim da Dívida, de Nuno Costa Santos (conto de humor mainstream);
35. O Castelo dos Destinos Cruzados, de Italo Calvino (coleção de contos interligados fantásticos, com elementos de horror e ficção científica);
36. O Galeão Enxobregas, de Francisco Maria Bordalo (noveleta de aventuras);
37. O Homem que Existia Demais, de Possidónio Cachapa (conto mainstream);
38. O Lado Oculto de Rose, de Ademir Pascale (contos de horror);
39. O Universo Extravagante, de Robert P. Kirshner (livro de divulgação científica);
40. Mensageiros das Estrelas, org. Adelaide Maria Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos (contos de ficção científica e fantástico);
41. John Carter, de Edgar Rice Burroughs (romance de ficção científica);
42. Histórias de Fantasmas, de vários (contos de horror, fantásticos e de humor);
43. Meg, de Steve Alten (romance de ficção científica);
44. 7 Contos Ilustr.s, org. Fernando Esteves Pinto (contos fantásticos, de ficção científica e mainstream);
45. Vou-me Embora, de José Conrado Dias (novela mainstream);
46. Avenidas sem Sentido, org. Pedro Sena-Lino (contos mainstream e alguns fantásticos);
47. O Progresso da Humanidade, de Rui Cardoso Martins (conto mainstream);
48. O Teclado Paranóico, de João Ventura (conto fantástico e de humor)
Como sempre, também marcharam uns quantos periódicos:
49. Fantasy & Science Fiction, nº 645, ed. Gordon van Gelder (contos de ficção científica e fantasia);
50. Bang!, nº 3, ed. Luís Corte Real e Rogério Ribeiro (contos de ficção científica e fantástico);
51. Dagon, nº 3, ed. Roberto Mendes (contos de fantasia e um bocadinho de ficção científica);
52. Isaac Asimov Magazine, nº 3, ed. Ronaldo Sergio de Biasi (contos de ficção científica);
53. Macondo, nº 6, ed. Francisco Mariani Casadore e Marcos Mariani Casadore (poesia e contos fundamentalmente mainstream);
54. Megalon, nº 1, ed. Marcello Simão Branco e Renato Rosatti (contos e artigos sobre ficção científica e fantástico);
55. Ficções, nº 10, ed. Luísa Costa Gomes (contos principalmente mainstream, mas também com fantástico e ficção científica)
E também li por dever laboral:
56. The Warehouse, de Rob Hart (romance de ficção científica);
57. (ainda não anunciado)
58. (ainda não anunciado)
Este ano, ao contrário do que costuma acontecer, não foi propriamente a ficção científica a predominar. De facto, de todos estes títulos só 19 incluem alguns elementos de FC, e são muito poucos os que são declaradamente FC. A variedade imperou nas minhas leituras de 2019, ainda que os contos do DN as tenham empurrado bastante para o lado do mainstream: são 25 as publicações que ou são inteiramente mainstream, ou incluem ficções mainstream. Mas mesmo este número é menos de metade de todos os títulos que constam destas listas. Lá está: variedade.
Mais uma vez, também em 2019 não houve nenhum livro que me tivesse realmente enchido as medidas, apesar de ter havido uma lista de dezena e meia de que gostei bastante, o que dificulta muito a escolha do meu top-3 do costume. Mas depois de muito matutar, acho que vou mais uma vez fazer um top-3 integralmente de ficção científica: o Blindsight do Peter Watts em primeiro, A Mina do Deus Morto do João Barreiros em segundo e o Isaac Asimov Magazine, nº 3 em terceiro. Mas a distância entre estas três publicações e um pelotão inteiro de outras é bastante curta.
Por serem menos, é mais fácil decidir o trio de melhores leituras lusófonas. A Mina do Deus Morto, claro, foi a minha melhor leitura lusófona do ano. O segundo lugar vai para outro conto da coleção do DN, A Queda de um Anjo, do Afonso Cruz, e o terceiro vai para um clássico, os Contos do Eça de Queirós. Tudo português, sim, que este ano li pouco material brasileiro.
Com tanta coisa lida e com um top 3 dominado por FC, se calhar não é má ideia dar também um lamiré sobre as 3 melhores leituras sem ficção científica, ainda que seja uma lista cheia de títulos já vistos em outras. Aqui é A Queda de um Anjo a liderar, seguida pel'O Castelo dos Destinos Cruzados, do Italo Calvino, que é o único título novo porque em terceiro aparecem outra vez os Contos do Eça de Queirós.
E os piores do ano? Bem, aí a escolha é mais fácil porque a lista de candidatos é bastante mais curta. E de novo inclui contos do DN, tanto na lista de candidatos como nos três escolhidos. Estes são todos lusófonos, mas não todos portugueses. Decidi-me por O Filho do Pai Manel do Pedro Santo como o pior livro do ano. Outro Pedro, o Paixão, escreveu o segundo pior livro do ano: A Musa Irrequieta. E o Megalon nº 1 foi o terceiro pior, ainda que o único conto que contém leve provavelmente a taça de pior conto lido em 2019 (não, não vou passar a fazer essa lista; daria demasiado trabalho); o que salva esse número do fanzine é a entrevista.
Para o ano haverá mais, claro. Ainda tenho um punhado de ebooks do DN por ler, e mais uma porção de contos em ebook, alguns já bastante velhos, armazenados no disco rígido à espera de vez, pelo que as listas de 2020 também deverão ser extensas. Portanto se quiserem saber como foi o ano, voltem em 2021, mais ou menos por esta altura. Até lá.
Ray Bradbury: Havia uma Velha Senhora
Velhas que não admitem um «não» como resposta são daquelas personagens clássicas da literatura (e não só), que tendem a reaparecer com alguma regularidade um pouco por todo o lado. Mas neste conto, Ray Bradbury consegue refrescar a personagem, por assim dizer. É que a velha senhora deste Havia uma Velha Senhora (bibliografia) bate o pé até à própria morte. E com sucesso.
Este é um conto algo incaracterístico de Bradbury. É um conto de horror diluído, por assim dizer, o que nada tem de incaracterístico, bem pelo contrário, mas o que dilui aqui o horror não é a ternura e suavidade com que Bradbury costuma temperar as suas histórias macabras, ainda que estas coisas também estejam presentes aqui, mas algo que não é muito habitual encontrar nele: o humor. Esta é uma história francamente divertida, a começar pela ideia base da velha que morre mas não admite de forma alguma que possa estar morta e por isso vai fazer tudo para "pôr juízo" na cabeça das pessoas que têm o desplante de pegar no seu corpo e o levar para o enterrar, perante o choque, o protesto e por fim a resignação dos demais, até à concretização literária da ideia.
Não é um dos grandes contos de Bradbury, reconheça-se. Mas é um bom conto, criativo na forma como se serve da velha ideia fantasmagórica e interessante no contexto da obra do autor precisamente por se desviar um pouco do que é mais habitual encontrar nele.
Contos anteriores deste livro:
Este é um conto algo incaracterístico de Bradbury. É um conto de horror diluído, por assim dizer, o que nada tem de incaracterístico, bem pelo contrário, mas o que dilui aqui o horror não é a ternura e suavidade com que Bradbury costuma temperar as suas histórias macabras, ainda que estas coisas também estejam presentes aqui, mas algo que não é muito habitual encontrar nele: o humor. Esta é uma história francamente divertida, a começar pela ideia base da velha que morre mas não admite de forma alguma que possa estar morta e por isso vai fazer tudo para "pôr juízo" na cabeça das pessoas que têm o desplante de pegar no seu corpo e o levar para o enterrar, perante o choque, o protesto e por fim a resignação dos demais, até à concretização literária da ideia.
Não é um dos grandes contos de Bradbury, reconheça-se. Mas é um bom conto, criativo na forma como se serve da velha ideia fantasmagórica e interessante no contexto da obra do autor precisamente por se desviar um pouco do que é mais habitual encontrar nele.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
António Paulo da Costa: Rua Escura
Há mil e uma maneiras de destruir uma história. Umas são destruídas por um enredo desastrado, outras são destruídas por demasiada pretensão, outras são destruídas por falhas de lógica, outras são destruídas por uma pontuação desastrada, outras são simplesmente destruídas porque estão muito mal escritas.
António Paulo Cruz Alves da Costa (outro comprido) teve uma ideia interessante para um conto de terror. Rua Escura (bibliografia) tem um enredo razoavelmente bem concebido que não vou revelar pois trata-se de uma daquelas histórias que só funcionam se o final for surpreendente, e apesar de uma falha lógica que diminuiu significativamente o impacto.
Mas escreve mal. Escreve coisas como «... como se de um boneco amarrotado se trata-se...» (o que, mais uma vez, é tanto culpa dele como de quem editou o livro sem lhe fazer qualquer espécie de revisão), sim, mas sobretudo porque usa pessimamente a pontuação, parecendo ter uma noção no máximo nebulosa de como encadear frases ou como decidir entre o que deve ser frase e o que pode ficar como oração subordinada. O resultado é bastante mais tosco do que teria potencial para ser. E nem seriam precisas muitas mudanças para dar um conto razoável. Teria bastado revê-lo bem.
Textos anteriores deste livro:
António Paulo Cruz Alves da Costa (outro comprido) teve uma ideia interessante para um conto de terror. Rua Escura (bibliografia) tem um enredo razoavelmente bem concebido que não vou revelar pois trata-se de uma daquelas histórias que só funcionam se o final for surpreendente, e apesar de uma falha lógica que diminuiu significativamente o impacto.
Mas escreve mal. Escreve coisas como «... como se de um boneco amarrotado se trata-se...» (o que, mais uma vez, é tanto culpa dele como de quem editou o livro sem lhe fazer qualquer espécie de revisão), sim, mas sobretudo porque usa pessimamente a pontuação, parecendo ter uma noção no máximo nebulosa de como encadear frases ou como decidir entre o que deve ser frase e o que pode ficar como oração subordinada. O resultado é bastante mais tosco do que teria potencial para ser. E nem seriam precisas muitas mudanças para dar um conto razoável. Teria bastado revê-lo bem.
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domingo, 5 de janeiro de 2020
Pedro Maria d'Almeida: Maria da Porta
E de repente, um corpo estranho. Pedro Maria d'Almeida escreve muito melhor, mas muito melhor, do que a generalidade dos outros autores presentes neste livro. Não há aqui gafes, não há fragilidades, não há inconsistências entre a história que se quer contar e o espaço em que se quer contá-la... por outro lado também praticamente não há história.
Almeida não é ficcionista, é poeta. O seu interesse não reside em contar uma história, mas em brincar com as palavras. Está imbuído daquele conceito de literatura, tão caro a demasiada gente, que a vê pela metade, reduzindo-a ao mero artifício linguístico. E assim, este Maria da Porta (bibliografia) serve sobretudo para criar frases como «O tempo ia passando e o rio fluindo como a vida sem porta nem comporta, e não importa porque não importa a alquimia do jogo das palavras.» Tudo o resto é secundário ao ponto de se tornar irrelevante. E eu detesto esta abordagem à ficção.
Mas por outro lado, a média desta antologia é tão fraquinha que apesar do que ficou dito acima este conto que não é bem um conto é capaz de se contar entre os melhores.
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Almeida não é ficcionista, é poeta. O seu interesse não reside em contar uma história, mas em brincar com as palavras. Está imbuído daquele conceito de literatura, tão caro a demasiada gente, que a vê pela metade, reduzindo-a ao mero artifício linguístico. E assim, este Maria da Porta (bibliografia) serve sobretudo para criar frases como «O tempo ia passando e o rio fluindo como a vida sem porta nem comporta, e não importa porque não importa a alquimia do jogo das palavras.» Tudo o resto é secundário ao ponto de se tornar irrelevante. E eu detesto esta abordagem à ficção.
Mas por outro lado, a média desta antologia é tão fraquinha que apesar do que ficou dito acima este conto que não é bem um conto é capaz de se contar entre os melhores.
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sábado, 4 de janeiro de 2020
Neil Gaiman: Crupe dos Doenceiros
Falei aqui há muito pouco tempo do conto Crupe dos Doenceiros (bibliografia), de Neil Gaiman. Menos de um ano de separação entre leituras não é suficiente para ver as histórias com olhos substancialmente diferentes, ainda que uma história como esta, que vive muito do impacto da surpresa, perca sempre qualquer coisa quando essa surpresa já não existe, quando já sabemos o que vamos encontrar. Mas a admiração pela perícia literária que fazer algo como isto exige continua toda lá. É mesmo um conto excelente, como dizia em abril último.
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
Carla Ribeiro: Para Longe do Céu
Mais um conto de fundo cristão, ainda que talvez algo blasfemo, este Para Longe do Céu (bibliografia) passa-se no inferno e tem por tema a relação entre Deus e o Diabo. O pretexto para essa troca de ideias teológicas com o leitor é uma conversa ente o Diabo e um poeta daqueles bem soturnos, que vai parar ao inferno e se apresenta ao "mestre".
Este conto, todo ele muito gótico, é bastante melhor que a média desta antologia — pelo menos até onde ela está lida. Para começar, o texto em si, não sendo nada de extraordinário, é de uma qualidade significativamente superior à de muitos outros. Não há aqui erros de palmatória nem nenhuma sucessão de gralhas. E o conto está bem construído, não parecendo nem desconexo nem apressado.
É bom, então? Não, não creio que chegue a tanto. Mas está lá quase.
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Este conto, todo ele muito gótico, é bastante melhor que a média desta antologia — pelo menos até onde ela está lida. Para começar, o texto em si, não sendo nada de extraordinário, é de uma qualidade significativamente superior à de muitos outros. Não há aqui erros de palmatória nem nenhuma sucessão de gralhas. E o conto está bem construído, não parecendo nem desconexo nem apressado.
É bom, então? Não, não creio que chegue a tanto. Mas está lá quase.
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Franz Kafka: Investigações de um Cão
Vê-se um título como Investigações de um Cão, especialmente se o virmos escrito por um autor como Franz Kafka, e fica-se imediatamente curioso com a abordagem e a história a que tal título levarão. Depois, começa-se a ler o texto propriamente dito e rapidamente a curiosidade dá lugar à confusão. É que há aqui coisas que não parecem bater certo, mesmo no contexto de uma história kafkiana.
O texto é um longo fluxo de consciência de um cão com queda para a filosofia e para as ideias abstratas. Talvez demasiado abstratas, pois não parece dar-se conta de que no seu mundo, que aparentemente é o nosso, existem uns símios grandes e ruidosos chamados seres humanos, e por isso se dedica a investigar mistérios transcendentes como por que motivo a comida parece ao mesmo tempo brotar do chão e cair do céu. Vinda aparentemente do nada.
Esta ausência humana causa alguma confusão até que se percebe que sim, os cães desta história estão mesmo inconscientes da nossa existência, o que é algo que está absolutamente à revelia da verdadeira natureza dos cães, basicamente lobos que aprenderam a descodificar as pistas sociais que nós fornecemos. Mas a fonte principal de confusão foi, parece-me, outra. Foi tentar decidir se esta história é uma sátira, um texto de humor, um divertimento, ou foi escrita para ser levada a sério.
Alinho mais pela primeira hipótese, mas sem desprezar a segunda. Ao colocar o seu cão filósofo a escrever, e com um ponto cego tão fulcral como o que apresenta, Kafka, parece-me, está acima de tudo a fazer uma longa troça com um certo tipo de intelectual (humano, não propriamente canino) que, na sua sisudez, na sua auto-importância, deixa passar coisas básicas que qualquer pessoa compreende. Está a gozar com torres de cristal. Está, talvez, a divertir-se à custa das filosofias vãs de tanta gente. Mas ao mesmo tempo está a fazer um comentário bastante sério sobre as nossas limitações e a relação que estabelecemos com elas (ou não), aceitando-as e tomando-as em conta (ou ignorando-as, fingindo que não existem).
E é boa, a história? É, mas não é para toda a gente. Quem goste de fluxos de consciência, de textos introspetivos, filosóficos, ou de humor ou ironia subtil, encontrará aqui um acepipe. Quem prefira ação é melhor que passe adiante, porque se há coisa que aqui praticamente não existe é ação. Eu estou algures no meio: prefiro a ação à introspeção, mas também me pelo por um bom texto irónico. E este está bastante bem escrito, portanto até gostei. Não é dos melhores textos de Kafka, mas é interessante.
Contos anteriores deste livro:
O texto é um longo fluxo de consciência de um cão com queda para a filosofia e para as ideias abstratas. Talvez demasiado abstratas, pois não parece dar-se conta de que no seu mundo, que aparentemente é o nosso, existem uns símios grandes e ruidosos chamados seres humanos, e por isso se dedica a investigar mistérios transcendentes como por que motivo a comida parece ao mesmo tempo brotar do chão e cair do céu. Vinda aparentemente do nada.
Esta ausência humana causa alguma confusão até que se percebe que sim, os cães desta história estão mesmo inconscientes da nossa existência, o que é algo que está absolutamente à revelia da verdadeira natureza dos cães, basicamente lobos que aprenderam a descodificar as pistas sociais que nós fornecemos. Mas a fonte principal de confusão foi, parece-me, outra. Foi tentar decidir se esta história é uma sátira, um texto de humor, um divertimento, ou foi escrita para ser levada a sério.
Alinho mais pela primeira hipótese, mas sem desprezar a segunda. Ao colocar o seu cão filósofo a escrever, e com um ponto cego tão fulcral como o que apresenta, Kafka, parece-me, está acima de tudo a fazer uma longa troça com um certo tipo de intelectual (humano, não propriamente canino) que, na sua sisudez, na sua auto-importância, deixa passar coisas básicas que qualquer pessoa compreende. Está a gozar com torres de cristal. Está, talvez, a divertir-se à custa das filosofias vãs de tanta gente. Mas ao mesmo tempo está a fazer um comentário bastante sério sobre as nossas limitações e a relação que estabelecemos com elas (ou não), aceitando-as e tomando-as em conta (ou ignorando-as, fingindo que não existem).
E é boa, a história? É, mas não é para toda a gente. Quem goste de fluxos de consciência, de textos introspetivos, filosóficos, ou de humor ou ironia subtil, encontrará aqui um acepipe. Quem prefira ação é melhor que passe adiante, porque se há coisa que aqui praticamente não existe é ação. Eu estou algures no meio: prefiro a ação à introspeção, mas também me pelo por um bom texto irónico. E este está bastante bem escrito, portanto até gostei. Não é dos melhores textos de Kafka, mas é interessante.
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Shinichi Hoshi: Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora!
O japonês Shinichi Hoshi é bem capaz de ser responsável, pelo menos parcialmente, pelo título mais bizarro de uma história de ficção científica já publicada em português, seja original lusófono, seja tradução como no caso. Se conhecerem um título mais esquisito que Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora! (bibliografia), sou todo ouvidos.
O conto, curto, é daquelas FCs topológicas, em que uma descontinuidade qualquer do espaçotempo gera efeitos bizarros. E é uma FC tão soft que pode ser vista como um exercício de realismo mágico ou fantasia, talvez até com mais propriedade do que como FC. Conta a história de um buraco aparentemente sem fundo que um belo dia se descobre numa terra no Japão. A descoberta atrai a ciência, claro, mas depressa os cientistas ficam frustrados por não haver realmente nada que se consiga estudar. Como estudar um buraco sem fundo?
Impossível. Portanto, vão-se embora, deixando o buraco e a terra onde o buraco foi descoberto um tanto ou quanto órfãos de atenção e utilidade. Bem... utilidade até existe. Um buraco sem fundo é ótimo para atirar lá para dentro as coisas que ninguém quer, não é? Pois. Portanto, toca a despejar. Mas eis que as coisas dão uma reviravolta daquelas boas. No fim, obviamente.
É um conto engraçado, este. E bom, ainda que seja mais engraçado que bom.
Contos anteriores desta publicação:
O conto, curto, é daquelas FCs topológicas, em que uma descontinuidade qualquer do espaçotempo gera efeitos bizarros. E é uma FC tão soft que pode ser vista como um exercício de realismo mágico ou fantasia, talvez até com mais propriedade do que como FC. Conta a história de um buraco aparentemente sem fundo que um belo dia se descobre numa terra no Japão. A descoberta atrai a ciência, claro, mas depressa os cientistas ficam frustrados por não haver realmente nada que se consiga estudar. Como estudar um buraco sem fundo?
Impossível. Portanto, vão-se embora, deixando o buraco e a terra onde o buraco foi descoberto um tanto ou quanto órfãos de atenção e utilidade. Bem... utilidade até existe. Um buraco sem fundo é ótimo para atirar lá para dentro as coisas que ninguém quer, não é? Pois. Portanto, toca a despejar. Mas eis que as coisas dão uma reviravolta daquelas boas. No fim, obviamente.
É um conto engraçado, este. E bom, ainda que seja mais engraçado que bom.
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Maria Manuel Lopes: Pedras da Lua
É curioso como quando lemos publicações de contos de diversos autores as expetativas com que encaramos as histórias mais avançadas no decorrer do volume são afetadas pelas histórias que ficaram para trás. Curioso e natural. Mas pode pregar algumas partidas. Se, por exemplo, as expetativas com que se começa a ler um volume são elevadas e os primeiros contos se revelam maus, se calhar acabamos a avaliar melhor um conto razoável que nos surja a meio do que um conto igualmente razoável que apareça no princípio.
Maria Manuel Mateus Marques Claro Lopes (não faz por menos, seis nomes!) escreveu um conto razoável. Pedras da Lua (bibliografia), como de resto o título já começa a sugerir, é uma fantasia urbana movida a ciúme, traição e paranormalidade, escrita de uma forma algo frágil mas nem por sombras tão má como alguns dos contos que ficaram para trás. A situação, uma mulher desconfiada de que está a ser traída que procura a ajuda de uma astróloga para perceber se aquilo de que desconfia é real, é um chavão antigo, a verdade que se revela é um chavão ainda mais antigo e previsível desde o terceiro parágrafo, mas a história está razoavelmente bem contada e o português não sai propriamente maltratado da empreitada.
Textos anteriores deste livro:
Maria Manuel Mateus Marques Claro Lopes (não faz por menos, seis nomes!) escreveu um conto razoável. Pedras da Lua (bibliografia), como de resto o título já começa a sugerir, é uma fantasia urbana movida a ciúme, traição e paranormalidade, escrita de uma forma algo frágil mas nem por sombras tão má como alguns dos contos que ficaram para trás. A situação, uma mulher desconfiada de que está a ser traída que procura a ajuda de uma astróloga para perceber se aquilo de que desconfia é real, é um chavão antigo, a verdade que se revela é um chavão ainda mais antigo e previsível desde o terceiro parágrafo, mas a história está razoavelmente bem contada e o português não sai propriamente maltratado da empreitada.
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Ana Paula Maia: A Pequena Fábrica de Sabão Artesanal do Senhor Chong
Para uma antologia que gira em volta do tema "cadeiras", o conto que a brasileira Ana Paula Maia apresenta tem pouco a ver com o tema. A Pequena Fábrica de Sabão Artesanal do Senhor Chong é uma história sobre um trabalhador, supõe-se que brasileiro, que se sente preso e infeliz no emprego que tem, a fazer sabão numa cave de um prédio, algures numa cidade brasileira, rodeado de chineses e coreanos, e dá voltas à cabeça para ver se consegue arranjar alguma maneira de se libertar daquilo.
A cadeira aparece apenas porque é a cadeira em que ele se empoleira para trabalhar, e que decide levar consigo quando é demitido do emprego, o que o leva a ser perseguido. Um adereço, nada mais. O resto é um relato de raiva surda e francamente racista (resta saber se o racismo é da autora, da personagem ou de ambos), com uma alusão a sexo com uma travesti, também ela asiática, que parece um bom bocado gratuita, servindo apenas para sublinhar a degradação pessoal do protagonista. Tudo somado, não foi conto que me tivesse agradado. Está escrito com competência, mas pouco mais de bom tenho a dizer sobre ele.
Conto anterior deste livro:
A cadeira aparece apenas porque é a cadeira em que ele se empoleira para trabalhar, e que decide levar consigo quando é demitido do emprego, o que o leva a ser perseguido. Um adereço, nada mais. O resto é um relato de raiva surda e francamente racista (resta saber se o racismo é da autora, da personagem ou de ambos), com uma alusão a sexo com uma travesti, também ela asiática, que parece um bom bocado gratuita, servindo apenas para sublinhar a degradação pessoal do protagonista. Tudo somado, não foi conto que me tivesse agradado. Está escrito com competência, mas pouco mais de bom tenho a dizer sobre ele.
Conto anterior deste livro:
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
Ray Bradbury: O Homem do Segundo Andar
Hoje em dia grita-se "plágio!" por tudo e por nada, ignorando-se com demasiada frequência que o conceito de plágio não se aplica a ideias mas sim à sua concretização. Não é plágio escrever uma história baseada num bruxo de óculos e com uma cicatriz na testa ou em elfos de orelhas pontiagudas, embora possa ser cliché e coisa derivativa e provavelmente pouco interessante; o que é plágio é repetir enredos, copiar excertos, usar as mesmas palavras, ou palavras muito semelhantes, para dizer as mesmas coisas. Por isso, se John Carpenter tivesse posto cá fora o filme They Live recentemente e não em 1988 provavelmente teria havido uma daquelas polémicas muito parvas e muito indignadas com acusações de plágio à mistura. É que o filme, que adapta um conto de Ray Nelson (Eight o'Clock in the Morning) de 1963, tem um detalhe fulcral de enredo que já tinha sido usado por Ray Bradbury neste conto. E O Homem do Segundo Andar (bibliografia) data de 1947.
Esse detalhe fulcral de enredo, e que me desculpem se acharem que o que se segue é spoiler, é o uso de uma superfície de material translúcido mas colorido para desvendar a verdadeira natureza de criaturas que de outra forma pareceriam inteiramente humanas. No filme de Carpenter, de ficção científica, essa superfície são uns óculos escuros cheios de estilo e as criaturas são invasores alienígenas; no conto de Bradbury, de horror, a superfície é um vitral e a criatura é um vampiro.
O protagonista é um miúdo, cujos pais gerem uma hospedaria, e que tem fascínio pelas vísceras, de ver a avó a preparar animais para cozinhar e faz, como qualquer miúdo curioso, o paralelismo entre os ossos e órgãos de uma galinha e os ossos e órgãos que sabe existirem dentro de si. E das outras pessoas. A história arranca no dia em que à hospedaria chega um homem com exigências estranhas, que aluga um quarto, e cujas exigências vão limitar a vida do miúdo, o que o leva a antipatizar intensamente com ele. O homem trabalha à noite e tem de dormir durante o dia, portanto não pode haver barulho. Ai o caraças, pá, já um miúdo não pode brincar?
E quando calha a espreitá-lo por uma janela de vidros coloridos que existe na casa e vê a sua verdadeira natureza, as coisas mudam de figura. Tornam-se perigosas. Mas o miúdo aprendeu algumas coisas com a avó, e o desfecho acontece. Bem. Este conto é muito bom, um daqueles contos de Bradbury que têm o ritmo certo, as personagens certas, o enredo certo e a forma de escrever certa para ficar na memória.
Contos anteriores deste livro:
Esse detalhe fulcral de enredo, e que me desculpem se acharem que o que se segue é spoiler, é o uso de uma superfície de material translúcido mas colorido para desvendar a verdadeira natureza de criaturas que de outra forma pareceriam inteiramente humanas. No filme de Carpenter, de ficção científica, essa superfície são uns óculos escuros cheios de estilo e as criaturas são invasores alienígenas; no conto de Bradbury, de horror, a superfície é um vitral e a criatura é um vampiro.
O protagonista é um miúdo, cujos pais gerem uma hospedaria, e que tem fascínio pelas vísceras, de ver a avó a preparar animais para cozinhar e faz, como qualquer miúdo curioso, o paralelismo entre os ossos e órgãos de uma galinha e os ossos e órgãos que sabe existirem dentro de si. E das outras pessoas. A história arranca no dia em que à hospedaria chega um homem com exigências estranhas, que aluga um quarto, e cujas exigências vão limitar a vida do miúdo, o que o leva a antipatizar intensamente com ele. O homem trabalha à noite e tem de dormir durante o dia, portanto não pode haver barulho. Ai o caraças, pá, já um miúdo não pode brincar?
E quando calha a espreitá-lo por uma janela de vidros coloridos que existe na casa e vê a sua verdadeira natureza, as coisas mudam de figura. Tornam-se perigosas. Mas o miúdo aprendeu algumas coisas com a avó, e o desfecho acontece. Bem. Este conto é muito bom, um daqueles contos de Bradbury que têm o ritmo certo, as personagens certas, o enredo certo e a forma de escrever certa para ficar na memória.
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terça-feira, 31 de dezembro de 2019
Maria Velho da Costa: Ó da Barca!
Como que para ilustrar o que disse quando falei de Alma, segue-se imediatamente na sequência desta antologia um excerto de romance que decididamente não funciona de todo como conto. Em parte, suponho, isso deve-se à forma de escrever adotada por Maria Velho da Costa, uma escrita algo saramaguiana na ausência de sinais identificativos de discurso direto, mas bastante mais intensa no uso que faz da linguagem popular do que qualquer coisa que Saramago tenha escrito. É também possível que o romance de Maria Velho da Costa de onde este Ó da Barca! é extraído (Casas Pardas) seja todo ele assim, um conjunto episódico de retalhos, sem um fio condutor óbvio, o qual só acabará possivelmente por ficar claro com o decorrer da narrativa, um pouco como quem pinta um quadro impressionista. Certo é que este texto assim isolado simplesmente não funciona.
Mas funcionará como chamariz para o romance? Provavelmente funcionará para alguns leitores, sim. Maria Velho da Costa escreve muitíssimo bem, especialmente — pelo menos aqui — na forma como integra literariamente os oralismos, e há neste excerto um experimentalismo que sugere que todo o romance seja igualmente experimental. Isso deve ser o bastante para muita gente. Para mim não foi. Apesar de ter lido o excerto com agrado, ele não me deixou curioso o suficiente para ir à procura do resto. É interessante, mas não me puxa muito.
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Mas funcionará como chamariz para o romance? Provavelmente funcionará para alguns leitores, sim. Maria Velho da Costa escreve muitíssimo bem, especialmente — pelo menos aqui — na forma como integra literariamente os oralismos, e há neste excerto um experimentalismo que sugere que todo o romance seja igualmente experimental. Isso deve ser o bastante para muita gente. Para mim não foi. Apesar de ter lido o excerto com agrado, ele não me deixou curioso o suficiente para ir à procura do resto. É interessante, mas não me puxa muito.
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
João: Apocalipse
É uma forma curiosa de dar o pontapé de partida a uma antologia de contos fantásticos, esta. Apocalipse, neste contexto, é um conjunto razoavelmente extenso de excertos do texto bíblico do Apocalipse, escritos por um autor que assina apenas como João e selecionados pelas suas qualidades literárias, porque, à sua maneira, contam uma história, e não pelas conotações religiosas que poderão ter.
Na verdade, a Bíblia é há muito usada como inspiração para ficções dos mais variados estilos, abordagens e matizes, mas só muito raramente é analisada ela própria como uma obra de ficção. Em parte, suponho, por preconceito — muitos dos que o poderiam fazer ou são religiosos e tendem a encarar aprioristicamente aquelas histórias como sagradas, e portanto inerentemente não ficcionais, ou não o são e tendem a ignorar o texto bíblico como um mero texto religioso, logo com pouco ou nenhum interesse para estudos literários. Fazer o contrário não é inaudito, obviamente, mas também está longe de ser comum. E isso reflete-se na raridade de se encontrar trechos bíblicos, mais ou menos selecionados, em publicações de ficção fantástica.
Daí que quando se encontra um texto como este numa antologia como esta, a primeira reação será quase inevitavelmente de estranheza. Mas se aceitarmos a premissa do antologista e desfrutarmos da leitura como desfrutaríamos de qualquer outra obra de ficção, não é difícil chegarmos à conclusão de que pelo menos estes excertos do Apocalipse formam uma espécie de noveleta de ficção fantástica bastante boa, em especial se tivermos em conta há quanto tempo a obra foi produzida.
O problema é quando as pessoas, em vez de lerem esta história como a ficção que é, a aceitam como verdade literal e surge todo o tipo de seitas, cada uma mais destrambelhada que a outra, todas convencidas de que o fim do mundo está aí ao virar da esquina ou, bastante pior, decididas a fazer tudo o que lhes for possível para o anteciparem porque eles, obviamente, são os escolhidos, aqueles para os quais há sobrevida ao fim do mundo, cometam os crimes que cometerem, e os outros que se lixem. Isso é que estraga tudo. As milhares de vidas que se perderam e continuam a perder-se por haver quem não saiba ler ficção como ficção!
À conta desta história e do que os outros dela fizeram, este João, seja ele quem for (há debates quanto à sua verdadeira identidade) e tenha sido essa a sua intenção ou não, ficará na História da humanidade como um assassino em série. É um destino terrível para um ficcionista. Absolutamente terrível.
Na verdade, a Bíblia é há muito usada como inspiração para ficções dos mais variados estilos, abordagens e matizes, mas só muito raramente é analisada ela própria como uma obra de ficção. Em parte, suponho, por preconceito — muitos dos que o poderiam fazer ou são religiosos e tendem a encarar aprioristicamente aquelas histórias como sagradas, e portanto inerentemente não ficcionais, ou não o são e tendem a ignorar o texto bíblico como um mero texto religioso, logo com pouco ou nenhum interesse para estudos literários. Fazer o contrário não é inaudito, obviamente, mas também está longe de ser comum. E isso reflete-se na raridade de se encontrar trechos bíblicos, mais ou menos selecionados, em publicações de ficção fantástica.
Daí que quando se encontra um texto como este numa antologia como esta, a primeira reação será quase inevitavelmente de estranheza. Mas se aceitarmos a premissa do antologista e desfrutarmos da leitura como desfrutaríamos de qualquer outra obra de ficção, não é difícil chegarmos à conclusão de que pelo menos estes excertos do Apocalipse formam uma espécie de noveleta de ficção fantástica bastante boa, em especial se tivermos em conta há quanto tempo a obra foi produzida.
O problema é quando as pessoas, em vez de lerem esta história como a ficção que é, a aceitam como verdade literal e surge todo o tipo de seitas, cada uma mais destrambelhada que a outra, todas convencidas de que o fim do mundo está aí ao virar da esquina ou, bastante pior, decididas a fazer tudo o que lhes for possível para o anteciparem porque eles, obviamente, são os escolhidos, aqueles para os quais há sobrevida ao fim do mundo, cometam os crimes que cometerem, e os outros que se lixem. Isso é que estraga tudo. As milhares de vidas que se perderam e continuam a perder-se por haver quem não saiba ler ficção como ficção!
À conta desta história e do que os outros dela fizeram, este João, seja ele quem for (há debates quanto à sua verdadeira identidade) e tenha sido essa a sua intenção ou não, ficará na História da humanidade como um assassino em série. É um destino terrível para um ficcionista. Absolutamente terrível.
domingo, 29 de dezembro de 2019
Diana Pereira: Em Busca da Felicidade
Era de esperar, mas é na mesma digno de menção: está a ficar claro que a fantasia domina por completo as ficções presentes neste livro. E este conto de mais um nome completo, Diana Rute Cardoso Pereira, é um conto de fantasia. Mais um.
«Surge pela parda encosta, o olhar da enigmática criatura» é como começa este Em Busca da Felicidade (bibliografia), e não desmente o que vem a seguir: um texto demasiado adjetivado, com pretensões a ser muito mais do que é, e muito, muito cliché, cheio dos chavões das fantasias derivadas de Tolkien. Um grupo heterogéneo parte numa demanda; tem de encontrar um mago para devolver a felicidade a um país mergulhado em trevas mágicas. E encontra e devolve, num enredo fraquinho, com uma escrita fraquinha e uma história sem grande interesse. Há neste livro histórias piores, até há estórias muito piores, mas mesmo assim esta deixa bastante a desejar.
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«Surge pela parda encosta, o olhar da enigmática criatura» é como começa este Em Busca da Felicidade (bibliografia), e não desmente o que vem a seguir: um texto demasiado adjetivado, com pretensões a ser muito mais do que é, e muito, muito cliché, cheio dos chavões das fantasias derivadas de Tolkien. Um grupo heterogéneo parte numa demanda; tem de encontrar um mago para devolver a felicidade a um país mergulhado em trevas mágicas. E encontra e devolve, num enredo fraquinho, com uma escrita fraquinha e uma história sem grande interesse. Há neste livro histórias piores, até há estórias muito piores, mas mesmo assim esta deixa bastante a desejar.
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Rhys Hughes: Cronochoque do Século XX
Já se tinha percebido que diferentes autores tinham abordado a proposta desta antologia de formas muito diferentes, com a seriedade clínica de alguns a levá-la mais para o lado dos pseudofactuais borgesianos, e a ironia de outros (apesar de Borges não ser de todo alheio à ironia, sublinhe-se) a trazê-la mais claramente para o lado do humor, umas vezes a atirar para o surrealista, de outras vezes a pender mais para o horror ou até a ficção científica. Rhys Hughes é surrealismo praticamente puro.
Cronochoque do Século XX (bibliografia), a doença que ele apresenta, é uma alergia. Peculiar, como todas as doenças aqui apresentadas. É uma alergia a um ano do século XX, a um período do século XX ou ao século XX como um todo, apresentando sintomas típicos das alergias. Hughes, longe, muito longe do sisudismo pelo menos aparente de outros autores, serve-se de trocadilhos e jogos de palavras e de uma informalidade que pode parecer algo deslocada, mas que a edição portuguesa resolve particularmente bem, com uma "nota do dr. Calamar Trindade" (o equivalente português do Thackery T. Lambshead, como se verá adiante) a... bem, a desancá-lo.
Este não é dos textos mais impressionantes que se poderão encontrar aqui, mas é divertido, o que no fundo é precisamente o que pretende ser.
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Cronochoque do Século XX (bibliografia), a doença que ele apresenta, é uma alergia. Peculiar, como todas as doenças aqui apresentadas. É uma alergia a um ano do século XX, a um período do século XX ou ao século XX como um todo, apresentando sintomas típicos das alergias. Hughes, longe, muito longe do sisudismo pelo menos aparente de outros autores, serve-se de trocadilhos e jogos de palavras e de uma informalidade que pode parecer algo deslocada, mas que a edição portuguesa resolve particularmente bem, com uma "nota do dr. Calamar Trindade" (o equivalente português do Thackery T. Lambshead, como se verá adiante) a... bem, a desancá-lo.
Este não é dos textos mais impressionantes que se poderão encontrar aqui, mas é divertido, o que no fundo é precisamente o que pretende ser.
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