Na minha vida de arquiteta acontece bastante o seguinte: entro num apartamento nem tão apertado assim, mas entupido de móveis, com os estores a deixar passar apenas uma nesga de luz e um quase nada de ventilação, e imediatamente ponho-me a imaginar como o mesmo se transformaria se o mobiliário obsoleto saísse, uma ou outra parede fosse abaixo e as persianas subissem completamente deixando a claridade entrar a rodo. Se por vezes saio desses mesmos apartamentos para nunca mais lá voltar, de outras é-me dada a oportunidade de operar essas mudanças! E quando chego ao fim de meses de trabalhos, pontuados por alguns revezes, mas também por gratas surpresas, concluo inevitavelmente que o mérito nunca é meu e sim do próprio imóvel, que ali jazia, cheio de potencial, apenas à espera de alguém que suba os estores, derrube uma parede e ouse com alguma cor. Nas próximas imagens vão ver como um andar de três divisões tornou-se num 2 quartos com sala e cozinha integrada e para aqueles que, como eu, gostam MESMO deste tipo de assunto, deixo, no final do post, plantas muito simples do antes e depois das obras para uma melhor orientação. Como extra, sugiro que espreitem aqui e aqui duas peças transformadas de propósito para esta casa. Enjoy!
ANTES E DEPOIS DE UM ANDAR CENTENÁRIO
Passei semanas a pensar como proceder com esta publicação. Remodelar andares antigos, mantendo tudo aquilo que faz parte do seu caracter e da sua personalidade é das coisas que mais me dão prazer de fazer na vida. Vivo tão intensamente todo o processo que quando este chega ao fim tenho uma dificuldade imensa em me separar das casas. Desta vez, quando a obra ficou concluída, dei por mim com centenas de fotografias e dezenas de vídeos no telemóvel, um acervo importante e interessante que relata bem todo o trabalho que foi realizado neste andar centenário. Intervenções cirúrgicas que trouxeram esta casa para o século XXI sem no entanto despojá-la da sua essência e originalidade. Fiquei sem saber como partilhar tanto que tinha na manga, de uma forma que não se tornasse enfadonha. Como os meus conhecimentos tecnológicos não são muitos, recorri ao sobrinho, que conseguiu que eu fizesse upload para esta página de dois vídeos perdidos no telefone: um filmado durante as obras e o outro feito no dia em que entrei na casa pela última vez. São um pouco longos, reconheço, e quando os fiz foi sem intenção de os partilhar daí não terem um cunho profissional. Mas quando me vi com tantas imagens em mãos e comecei a organiza-las para esta postagem, acabei por achar que para os amantes do "antes e depois", os filmes fariam bem mais sentido. Para aqueles que não têm tempo, deixo algumas fotos, sendo certo que os vídeos falam por si e demonstram bem melhor aquilo que aconteceu nos meses que os trabalhos duraram. Conheci o último casal, já muito velhinho, que aqui habitou por longos anos, muitos mesmos. E conheci também a família que mudou-se para este andar há escassos 2 meses, e cada vez me convenço mais de que as casas têm fases e acolhem. Um ciclo terminou para uns mas uma página em branco se abriu para outros que ali criarão novos afetos e novas memórias.
VIDA NOVA PARA UM MÓVEL DE COZINHA #1
O DEPOIS E O ANTES DE UMA COZINHA
ARMÁRIO DE COZINHA
BELEZA SEM RETOQUES
CASAS DE BANHO E COZINHAS DO SÉCULO PASSADO
CASAS VELHAS FAZEM-ME SORRIR
Um detalhe que adoro é a janela da cozinha. Nada de abrir para um espaço lindo e cheio de luz, se espreitar por ali, são as escadas do prédio que vai ver! São estas surpresas, impensáveis nos dias de hoje, que me cativam. Para as fotos, trouxe alguns adereços de casa. Já expliquei aqui que o meu trabalho acaba no fim das obras, e que é muito raro eu ter acesso à casa depois de habitada. Então carrego objetos meus para que quem lê possa ter alguma noção do espaço. Aaaah, quando eu fechar pela última vez a porta desta casa de bonecas, vou ter saudades da mini cozinha, da pequena casa de banho e dos cómodos diminutos!
A COZINHA DOS VERHOVEN
De Lisboa, entre os mil afazeres das festas de Dezembro enviei-lhes uma almofada feita sem estudo prévio, apenas com o que tinha em casa e em que nem a camisa do marido escapou. Uma prenda modesta face ao que recebi.
SAÍDA DOS ANOS 50
É a oportunidade de devolver à casa, a atmosfera e o ambiente da época da sua construção.
E quem me acompanha nestas andanças, sabe que o original é sempre para manter, mesmo que isso acarrete mais trabalho, mais gastos, menos algum conforto futuro. No final, compensa.
São casas que depois de remodeladas, não servem para qualquer pessoa, e sim para quem sabe aceitar e até admirar, as imperfeições e as marcas do tempo.
Vou vos deixar com a cozinha desta casa dos anos 50, que é quase sempre a parte mais interessante de um antes e depois, e lá mais para baixo, verão outros ambientes do apartamento. Como já disse aqui, infelizmente, é raro eu ter acesso às casas depois de ocupadas, o que me impede de mostrá-las como eu gosto, já com cara de lar. Para fotografar a cozinha, ainda levei uma grande tigela de limões, tinham mos dado nesse dia, e eu achei que poderia trazer alguma cor e humanizar as imagens. Mas em termos de produção, foi o máximo que consegui fazer!
COZINHA PRONTA EM 3...2...1 !
Mas o tempo frio e húmido não ajudou à colagem do papel nem as pinturas em tinta de esmalte, então tudo tornou-se mais moroso.
Mas aí está, um espaço muito pessoal e quase intransmissível, reconheço.
Em 17 anos, a cozinha conheceu 3 fases.
Da primeira, apenas sobram as imagens abaixo, tiradas da revista Casa Cláudia de janeiro de 2000, em que a família era menos numerosa, e o estilo tinha um pézinho no rústico.
UMA CASA QUE TRANSBORDA
O verbo que me ocorre é transbordar.
HOJE,SÓ A COZINHA
ESTAVA ASSIM, MAS FICOU ASSIM
Foi só preciso manter tudo o que pudesse ser recuperado e adicionar alguns elementos -leia-se móveis- novos para que o espaço ganhasse vida novamente.
| única parede em que se conseguiu manter os azulejos. Reparem que todas as tomadas estão no rodapé. À direita, painel de aquecimento: um mal necessário! |
As casas são recuperadas para vender ou alugar -neste caso está arrendada- e só muito raramente acontece de eu lá entrar com as pessoas a morar.O que é uma pena, pois um exercício interessante é descobrir como é que outros "ocupam" e personalizam um espaço pensado por nós.
Mas enfim as bases estão lançadas:elementos novos e neutros, para fazer sobressair o antigo.