O mercado (pegando carona em Ana Paula Sousa). E o heroísmo dos ‘tirailleurs’, segundo Omar Sy e o diretor Mathieu Vadepied

Sei lá o que ocorreu. Escrevi o texto normalmente e, ao salvar o post, ficou desse jeito. Tentei retornar ao original, mas não consegui. Vou precisar de ajuda. Bora! Um amigo foi ver ontem Barbie na maior sala do Marquise e havia apenas 6 pessoas – 6 gatos pingados – na sessão das 3 da tarde. Havia mais gente na sessão do mesmo horário, na sala 4 do Itaú Augusta, onde assisti a Herói de Sangue. Está ocorrendo algo interessante. O longa da boneca está desacelerando nas bilheterias – quem queria ver já foi na primeira semana, quando Barbie virou um fenômeno de público, e não apenas no Brasil. Comparativamente, e claro que guardadas as proporções, Oppenheimer está agora atraindo mais gente, pelo menos em salas seletivas, frequentadas por cinéfilos, o que talvez indique que poderá ter uma vida maior nos cinemas, mesmo com números mais reduzidos. Tergiverso. Para mim o embate sobre Barbienheimer está encerrado. O filme de Christopher Nolan dá de dez no de Greta Gerwig – ponto final. E a questão, agora, foi muito bem colocada por Ana Paula Sousa numa matéria na Folha. Sem a cota de tela, os filmes brasileiros representam apenas 1% dos ingressos vendidos no País, e dentro de uma circunstância especial – as produções ocupam horários menos nobres, até as 16 h, e passam longe da marca de 1 milhão de espectadores. Tenho reclamado dos horários para ver determinados filmes, que não apenas ocupam os horários em que as salas ficam mais vazias, como estão sendo jogados para cinemas distantes.

Moro em Pinheiros, quando fui ver Os Aventureiros – A Origem, a sala mais próxima de minha casa era naquele shopping da Rua Pamplona. Até aí tudo bem. Fui à primeira sessão da tarde e era o único espectador na sala. Voltei como curiosidade e nesse outro dia não havia nenhum ingresso vendido para ver o filme de André Pellenz, que, mesmo assim, mantém o recorde de público do cinema brasileiro do ano. Os horários mais nobres, de fim de tarde e noite, são reservados para a produção hollywoodiana, que ocupa massivamente o mercado. Uma exceção é Capitu e o Capítulo, de Júlio Bressane, que ocupa todas as sessões de uma sala do Petra e horários noturnos de outros cinemas seletivos. Os blockbusters passam e Bressane permanece. São mais de 50 curtas e longas de uma carreira rigorosamente autoral, que começou em meados dos anos 1960, há quase 60 anos. Aliás, Bressane começou a fazer filmes em 1966, no mesmo ano em que comecei a escrever na imprensa gaúcha – sobre cinema.

Citei a reportagem de Ana Paula Sousa, cito a coluna de Ignácio Loyola Brandão. Batemos na ponta do iceberg? Loyola, meu vizinho aqui em Pinheiros – mas nunca o vi nas ruas do bairro – está há mais de um mês no interior de Minas. Fugiu dessa loucura que virou São Paulo, e Pinheiros, transformada em canteiro de obras, num processo de verticalização que não sei aonde nos levará. Qualidade de vida? Em São Paulo? Não com esses governos, o estadual como o municipal. Loyola escreve – “Cidade suja, dominada pela cracolândia, sem um governo que saiba o que fazer.” A coluna é anterior à explosão de violência em Santos e no Guarujá. Imagino que ele manifestaria sua inconformidade face ao que Tarcísio tenta fazer crer que é perfeitamente natural. Não é – uma vez bolsonarista, sempre. Tarcísio e o prefeito – a herança maldita de Bruno Covas – governam para seu eleitorado, já pensando em capitalizar a direita para a próxima eleição. Socorro!

Fui ver Heroi de Sangue, Tirailleurs/Atiradores, no original. Omar Sy virou o grande astro do cinema francês atual, após o estouro de Os Intocáveis, cujo diretor de fotografia, Mathieu Vadepied, agora dirige o novo longa. Filho de pai senegalês e mãe da Mauritânia, Sy tem feito filmes que abordam a herança africana na vida social e na cultura francesas. O colonialismo. O lendário palhaço preto, Chocolate, o Arsène Lupin, também negro, e agora os ‘tirailleurs’. As brigadas de atiradores africanos convocados à força para defender a ‘pátria’ na 1ª e 2ª Grandes Guerras. Cidadãos de segunda categoria, sem direitos, exceto o de morrer na frente de combate. Gostei de ter visto Herói de Sangue. Em inglês, chama-se Father and Soldier, Pai e Soldado. Sy faz esse senegalês que se alista para tentar proteger o filho na guerra. A relação familiar é colocada à prova quando o filho é promovido a ‘caporal’ e, sendo hierarquicamente superior ao pai, começa a lhe dar ordens. Há uma cena muito interessante, quando os soldados conversam, num intervalo dos combates. Falam de sexo – fazer sexo com as prostitutas brancas -, e o garoto antevê ali a possibilidade de construir uma nova vida na França, distante da aldeia. Sy percebe que está perdendo o seu garoto.

Ele tenta fazê-lo desertar, o filho resiste. O pai vira herói, malgré lui. O filme começa e termina com a exumação de ossos humanos que irão compor o túmulo do soldado desconhecido, no Panteão da Pátria, no Arco do Triunfo, em Paris. O heroísmo anônimo, a chama eterna – a história recuperada dos tirailleurs. Qual será o próximo movimento de Omar Sy? Na França, ao promover o filme, ele destacou o heroísmo dos senegaleses e a direita acusou-o de tentar distorcer a história, cuspindo na tradição branca que o acolheu. Curti muito um detalhe. Sy fala no dialeto que aprendeu com seu pai em casa, só o filho – Alassane Sy, muito bom – fala francês no filme. Heróis de sangue, Tirailleurs. Difícil, para um fordiano de carteirinha, como eu, não pensar em Sangue de Heróis. Cheguei a confundir o título, mas me corrigi a tempo. Fort Apache, de 1948. A versão do mestre para a história do lendário General Custer. A vida no forte sofre um sobressalto quando chega o novo comandante – Henry Fonda – com sua crença de que índio bom é índio morto. John Wayne – ele! – opõe-se, menos para defender os peles-vermelhas, mas porque sabe que a disciplina imposta por Fonda é suicida e coloca em risco a vida dos soldados. Sangue de Heróis é o filme que inicia a trilogia da Cavalaria. Apesar de todas as diferenças, Herói de Sangue e Sangue de Heróis no fundo falam sobre a mesma coisa. O que é o heroísmo, quem são os heróis?

E olha a MUBI de novo. O western de Almodóvar, em setembro

Mal havia salvado o post anterior, sobre agosto no streaming da MUBI, e me chegou novo e-mail de Márcia Campos, que faz a assessoria da operadora. A MUBI e a O2 Play anunciam para 14 de setembro, dois dias depois de meu aniversário – 78 anos! -, o lançamento nos cinemas do média-metragem de Pedro Almodóvar, Strange Way of Life. O título vem do fado de Amalia Rodrigues. Estranha Forma de Vida. O western queer do grande autor espanhol. Pedro Pascal e Ethan Hawke como os caubóis que tiveram um caso no passado e se reencontram. A pergunta que não quer calar – o que dois velhos caubois podem fazer isolados numa hacienda? Desde a sua apresentação especial no Festival de Cannes, em maio, Estranha Forma de Vida tem dividido a crítica. Não é unanimidade, mas quem gosta, como eu, gosta muito.

Omar Sy – sim! – e as atrações da MUBI para o mês. Jacques Rozier e o filme de terror de Agnès Varda

Ainda não consegui assistir, por uma questão de horários, a Herói de Sangue, o longa francês de Mathieu Vadepied com Omar Sy como o pai que se alista para lutar na 1ª Guerra para estar próximo do – e tentar proteger o – filho que foi recrutado. Também não vi Blue Jean, que encontrei grafado como Blue Jeans, e quanto a esse existe uma questão grave de identidade. Ao fazer uma pesquisa de horários encontrei um crédito de direção para Jacques Rozier. Quem? Rozier é um nome histórico da nouvelle vague francesa, autor de um filme com reputação de maldito – Adieu Philippine, de 1960 – e que é considerado referência, não apenas da estética do movimento, mas também na abordagem de um tema tabu, na época, a Guerra na Argélia. O Blue Jean, no singular – Jean triste -, que estreou na semana passada e me passou despercebido, tem direção de Georgia Oakley e participou dos festivais de Veneza e Sevilha do ano passado.

Passa-se na Inglaterra de Margaret Thatcher, em 1988, quando o governo da Dama de Ferro baixou uma tal Cláusula 28, acabando com a tolerância à homossexualidade em escolas públicas. O filme centra-se numa professora que reprime sua sexualidade, numa espécie de retorno à situação vigente até o começo dos anos 1960, quando o impacto provocado pelo filme Victim/Meu Passado Me Condena, de Basil Dearden, com Dirk Bogarde, levou à extinção, pelo Parlamento, de leis antigays que datavam da época da Rainha Vitória.

O curioso é que existe realmente um Blue Jeans, no plural, e esse é um curta de 1958, de Jacques Rozier, sobre a juventude dourada de Cannes. Blue jeans, a calça – da Levi’s? Poderá ser visto no streaming da MUBI a partir da quarta-feira, 8. Para prosseguir com a MUBI, a operadora anuncia uma extensa e diversificada programação neste mês de agosto, comemorando o Dia dos Pais – Pais e Filhos, de Hirokazu Kore-eda -, os 80 anos de Robert De Niro – Era Uma Vez na América, O Rei da Comédia e Fogo Contra Fogo – e muito mais. Filmes de David Lynch – o que talvez seja o menos característico do autor, mas é o meu favorito, História Real -, de Lucrecia Martel – O Pântano – e Agnès Varda. Uma palavra especial sobre essa última.

Varda virou referência de feminismo, e não apenas no cinema. Dela, a MUBI disponibilizará dois filmes, Cléo das 5 às 7, no dia 14, e Le Bonheur/As Duas Faces da Felicidade, dia 15. Por mais que admire o primeiro, o segundo é um dos mais belos filmes já feitos. Fotografia em cores luminosas de Jean Rabier e Claude Beausoleil, trilha de Mozart, aqueles campos floridos de girassóis. Varda e o hedonismo. Jean-Claude Drouot é casado e leva uma vida feliz em família. Surge na vida dele Marie-France Boyer. A felicidade, para aquele homem, é viver com as duas mulheres, mas as regras sociais o impedem. Após o desfecho – quem já viu o filme sabe o que ocorre -, uma espécie de sombra projeta-se sobre a felicidade de Jean-Claude. Mais de uma feminista de carteirinha já se referiu a Le Bonheur como um filme de terror. É raro uma mulher ter esse olhar sobre o desejo do homem. Mas é Varda, e a par de seu imenso talento ela foi sempre a sacerdotiza do culto ao marido, Jacques Demy.

A roça venceu? O agronegócio em Terra e Paixão. E aquela cena de Charles Bronson em O Grande Búfalo Branco

Na bolha em que vivo, nunca havia ouvido falar em Ana Castela, a Ana Boiadeira. De repente, ouvindo as chamadas da novela Terra e Paixão, descobri que ela seria a atração do puteiro convertido em templo evangélico graças à nova proprietária que quer promover uma cura gay no local. Surpresa maior tive ao ler a CartaCapital desta semana. A capa – A roça venceu. O avanço econômico, político e cultural do agronegócio. Lá dentro, outra chamada impactante. O agro não poupa ninguém. O setor que mais cresce no País busca exercer sua influência não apenas na política, mas também na cultura e na sociedade. É uma pena que a reportagem de Fabíola Mendonça omita a novela de Walcyr Carrasco. A Globo tem feito denúncias importantes sobre o avanço do agronegócio e do garimpo ilegal sobre reservas indígenas, mas continua afagando o agro. É tech, é pop. Adoro o que diz a historiadora Heloísa Starling, professora na UFMG e coautora do livro Brasil – Uma Biografia. A música sertaneja expressa um conjunto de imaginação e valores do interior, mas que também produz um caldo ideológico reacionário, vinculado ao mundo do agronegócio. “É como se a gente tivesse um novo recorte na música sertaneja, que não trata mais as dores de amor, nem o caipira, nem o trabalhador. O agronegócio não está preocupado com o bem comum, quer viabilizar o seu interesse.”

Agro ostentação. As letras que embalam o agronejo. Ana canta a patricinha que virou Boiadeira. Antony e Gabriel celebram – “Pro azar do playboy, a roça venceu.” E Léo e Raphael. “Cada dia é uma propriedade nova registrada. Quando alguém pergunta donde viene la plata, digo que soy boiadeiro. Gasto em dólar e euro.” No Fantástico de domingo, vimos que muitas dessas riquezas estão baseadas na ilegalidade e no trabalho escravo. É o Brasil do bolsonarismo. F…-se os outros. Chega de tergiversação. Volto ao cinema. Assisti agora pela manhã à cabine de imprensa de O Espaço Infinito, longa de Leo Bello com Gabrielle Lopes. Achei o filme esquisitíssimo. Durante boa parte da projeção, cerca de 80 min, o diálogo repete as mesmas frases.; “Tudo bem, mãe?”, “Tudo bem, filha?”, “Tudo bem, Nina?” Não, nada está bem para a astrofísica que se evade na contemplação do infinito, e vai perdendo o contato com a realidade. Na clínica em que está internada, ela desabafa – “Sinto que minha alma está sendo devorada por um cão de três cabeças.” O Espaço Infinito me lembrou Tinnitus pela pesquisa formal. Embora não de forma tão ostensiva quanto o longa de Gregório Graziosi – afinal, o próprio título refere-se ao zumbido no ouvido que desestabiliza a vida da protagonista -, O Espaço Infinito atribui grande importância ao som, à trilha. Confesso que tentei, mas não consegui entrar no filme. No final, havia gente questionando por que Nina/Gabrielle aparece nua durante pelo menos meio filme? Para expressar a vulnerabilidade da personagem? OK, entendi.

Nesta segunda à noite, o Telecine Cult dá uma folga aos spaghetti westerns de Sergio Leone e apresenta, em seu tradicional horário dedicado ao gênero, às 20h15, O Grande Búfalo Branco. J. Lee Thompson possui bons filmes no currículo – Os Canhões de Navarone, O Círculo do Medo -, mas meio que se perdeu ao virar homem de confiança do astro Charles Bronson. Na primeira parceria dos dois, o cara de pedra – Bronson – faz o lendário pistoleiro Wild Bill Hickok. Atormentado pos sonhos em que é perseguido pela fera do título, ele sai à caça do búfalo, até como forma de vencer seus medos. É um filme muito interessante, até pela dimensão psicanalítica. Se for ver, preste atenção numa cena. Em Terra Bruta/Two Rode Together, de 1961, John Ford retomou o tema do clássico Rastros de Ódio/The Searchers, de 1956. Richard Widmark e James Stewart rodam o Oeste procurando libertar brancos prisioneiros de indígenas. Na grande cena, os dois sentam-se ao pé do fogo para uma conversa que Ford filma num memorável plano-sequência, sem cortes. Em O Grande Búfalo Branco, Wild Bill/Bronson também se senta ao pé do fogo com Will Sampson, que faz outra figura mítica, o pele-vermelha Cavalo Louco. Conversam, mas Thompson não era Ford. Não acreditava que os fãs do astro de ação pudessem deglutir uma conversa longa. E o que ele faz para dinamizar a cena? Não apenas corta, como cria movimentos da lente zoom em direção ao rosto dos atores. Ficou bem interessante. Só para lembrar, dia 30 de agosto completam-se 20 anos da morte de Charles Bronson.

Para Sanjinés, no dia de seus 87 anos. E a dignidade dos ninguém. Solanas, Ford e Hank Worden naquela cadeira de balanço

Dei-me ontem – domingo, 30 – um dia sabático. Acordei tarde, chamei um táxi e corri ao Largo Paissandu, à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, para assistir à missa com música ao vivo. Senti-me transportado para uma daquelas celebrações em igrejas de pretos que o cinema norte-americano mostra tanto. Não foi só uma missa cantada. Dançada, também. As pessoas pareciam em transe. Entrei no clima. Saí passado do meio-dia, tinha de fazer hora para assistir ao longa de Jorge Sanjinés na mostra El Camino, do CCBB/SP. A sessão de Nação Clandestina estava marcada para 14h30. Resolvi dar uma passada pela feira da Praça da República. Há tempos queria comer um pastel de carne com ovo. Delicioso! Cheguei cedo ao Centro Cultural. Assisti, mais uma vez, à dança das flores, que tem sido a trilha enquanto espero pelas sessões de longas latinos. Sanjinés – nesta segunda, 31 de julho, ele festeja seu aniversário. 87 anos – nasceu em 1936. Sanjinés formou-se no Instituto Cinematográfico da Universidade Católica do Chile. Em 1963, assinou sua primeira direção e o curta Revolución recebeu o Prêmio Joris Ivens no Festival de Leipzig do ano seguinte. Sanjinés foi nomeado diretor do Instituto Boliviano de Cinema. Estreou no longa com Ukamau/É Assim, que provocou escândalo. O filme conta a história de um índio que se vinga do mestiço que estuprou e matou sua mulher. O governo do General Barrientos fechou o instituto e destituiu Sanjinés. Com a mulher – e produtora -, Beatriz Palácios, ele fundou o grupo Ukamau em 1966. Três anos mais tarde apresentou o segundo longa – Yawar Mallku/Sangue de Condor, sobre os programas de controle de natalidade que, na verdade, eram programas de esterilização em massa impostos às populações indígenas, com apoio do governo dos EUA.

O filme foi interditado, mas chegou aos cinemas graças à pressão da imprensa e da opinião pública. Sanjinés partiu para o terceiro longa, sobre a influência da CIA em sindicatos de mineradores bolivianos. Ocorreu algo muito estranho – o negativo de Los Caminos de La Muerte perderam-se num incêndio no laboratório da Alemanha Ocidental em que estava sendo tratado. O golpe militar do General Banzer levou Sanjinés a se exilar no Peru, onde realizou, com apoio da TV italiana, El Coraje del Pueblo, em 1971. Se a memória não está me traindo é sua obra-prima, sobre as lutas de mineradores de estanho e os massacres da categoria em 1942 e 67. Seguiu-se outro grande filme – O Inimigo Principal, de 1974. Um indígena protesta contra o senhor feudal que matou seu touro e tem a cabeça decepada. Sua mulher carrega a cabeça e promove um levante de camponeses. Guerrilheiros juntam-se ao movimento e explicam à população o que é o imperialismo. O que poderia ser um filme didático e simplista revela-se uma obra de grande potência lírica e riqueza visual. Filmado em preto e branco, talvez seja o mais belo filme de Sanjinés. Assisti a todos esses filmes durante minhas andanças pela América Latina com a Dóris, ao longo de toda a década de 1970. Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru. Nunca esqueci a emoção – o impacto? – de chegar a La Paz. Uma planície imensa – onde está a cidade? E aí, como uma fenda escavada na terra, a cidade cresce para baixo. Ficamos chapados com o traçado urbanístico. Doris e eu cursamos arquitetura, ela se formou, eu desisti, trocando a arquitetura pelo jornalismo (de cinema).

Em 1979, Sanjinés publicou no México um livro – Teoria y Practica de Un Cine Junto ao Pueblo. Editado dez anos mais tarde em inglês, só em 2020 ganhou edição no Brasil. No site da Fundación Grupo Ukamau, o cinéfilo encontra as ferramentas para assistir aos longas de Sanjinés. O ano está sendo de muita atividade para ele. Em maio, foi homenageado e recebeu dois prêmios em Cochabamba. Também em maio seu novo longa, Los Viejos Soldados, de 2022, competiu no Festival Internacional de Cine Político de Buenos Aires. No momento em que Barbie e Oppenheimer, ocupando 80% do mercado brasileiro, animam discussões sobre o colonialismo cultural – e a necessidade urgente da nomeação do novo Conselho Superior de Cinema, além da cota de tela -, tenho para mim que uma programação como a da mostra El Camino é, não apenas necessária, mas também fundamental. Adorei rever La Nación Clandestina. O índio aymará que renega sua origem, corrompe-se na cidade grande e retoma a tradição, vestindo a máscara – qhipa – para dançar até a morte, como forma de expiar seus pecados. Tomo emprestado, mais uma vez, o título de um dos longas de Fernando ‘Pino’ Solanas, La Dignidad de los Nadies. A mostra El Camino tem mostrado muito justamente essa dignidade dos ninguém. Ao chegar ontem em casa, liguei a TV. Não costumo ver o Programa de Luciano Huck, nem o Fantástico, mas no primeiro Alcione estava cantando – com a mãe de Paulo Gustavo, Dona Déa – e eu estacionei na Globo. No segundo, chamou-me a atenção uma reportagem sobre a reintegração social de ex-desempregados.

A alegria daquele homem que agora consegue, como cozinheiro, o salário para pagar o pequeno apartamento em que mora. Disse que ainda tem pouca coisa. Um fogãozinho, o colchão para dormir – no chão – e um sofá para sentar-se. Tudo sempre gira em torno do cinema para mim. O sorriso do homem em seu sofá. Para quem tem muito, aquilo é nada. Para ele, é tudo. Lembrei-me de Hank Worden, o Mose de Rastros de Ódio/The Searchers, de John Ford, de 1956. O Homero de Hollywood. Em seus westerns e dramas sociais, Ford contou sempre a história da odisseia de grupos de desenraizados. Indígenas, pobres, pretos. Mostrou indivíduos que não se integram – a porta fecha-se sobre Ethan Edwards/John Wayne, que fica do lado de fora da casa em Rastros de Ódio. Justamente Rastros de Ódio. Mose talvez seja o mais patético dos personagens fordianos. Nada tem, mas serve a todos com seu sorriso bobo. No final de Rastros de Ódio, depois que Debbie/Natalie Wood já voltou para casa, ganha uma cadeira de balanço. Senta-se naquela varanda, sua odisseia chegou ao fim. Não pude deixar de pensar em Mose ao ver no show da vida aquele homem que recuperou a auto-estima, sentado naquele sofá. A dignidade dos ninguém. Pino Solanas talvez nunca tenha pensado em Ford, mas eu pensei. É fantástica essa capacidade que as pessoas têm de dar a volta por cima, recuperando sua visibilidade.

Barbie e o colonialismo cultural. E minha viagem pelos caminhos de Pino Solanas

Nem Freud deve explicar porque troco tanto o nome do Marquise, chamando o cinema do Conjunto Nacional de… Vitrine! Ocorreu de novo ao falar sobre Psicose, num post anterior. Faço o registro, mas meu tema será outro. Pego carona no Cláudio Leal, que levanta, na Folha, a questão de ordem. Claudio espanta-se com o que considera o pior de Barbie, e é. Ninguém mais parece espantado com a dominação cultural que o filme da boneca exerce no mercado brasileiro. Os números são astronômicos. Mais de 5 milhões de espectadores, a essa altura já devem ser 6. Barbie ocupa 2.056 salas de 767 cinemas. Só para efeito de comparação Oppenheimer está em 710 salas de 511 cinemas. Sem a cota de tela, os dois filmes ocupam 80% do mercado do País – segundo a Ancine, no final do ano passado o Brasil tinha 3.401 salas.

Vivo intensamente essa contradição. O Brasil precisa urgentemente de mecanismos de controle de tela para sobreviver no próprio mercado. Não compartilho do entusiasmo estético pelo novo filme de Greta Gerwig. Em compensação, não é de agora que fico eletrificado com a autoralidade de Christopher Nolan. Inception/A Origem, Dunkirk e agora Oppenheimer são grandes filmes. Concordo com o que diz o Weekly Film Bulletin da Sight and Sound desta semana – o boletim digital é editado às sextas. Sobre Barbie – “Você não encontra nenhuma mordida virulenta na crítica da Barbie de Greta Gerwig à Mattel, mas as atuações comprometidas de seus plastificados, fantásticos atores – Margot Robbie e Ryan Gosling – ajuda a vender a auto-ironia kitsch do filme.” E Oppenheimer – “O épico erudito de Christopher Nolan gira em torno de verborrágicos confrontos verbais em tribunais e comitês políticos, mas os toques – a ousadia visual – e a interpretação grave de Cillian Murphy colocam o filme entre os melhores do diretor.”

Por mais que Oppenheimer me fascine, minha prioridade tem sido a discussão sobre cinema e colonialismo cultural implícita na mostra El Camino. Voltei ontem ao CCBB/SP para (re)ver El Viaje/A Viagem, de Fernando Solanas, de 1992. O garoto que parte numa viagem iniciática em busca do pai, que desapareceu na América Latina. Argentina, Chile, Peru, Brasil, México. Conheço bem aquelas paisagens ao sul da Argentina e do Chile, já fui duas vezes a Cuzco e Machu Picchu, ao México – mas não a Oaxaca -, só não conheço a Amazônia. Minha passagem por Manaus foi meteórica – um dia apenas, para entrevistar Charlton Heston. Solanas! Ao contrário de Manuel Littín, Fernando ‘Pino’ Solanas foi sempre de uma gentileza exemplar comigo. Entrevistei-o muitas vezes. Em Cannes, no Brasil, na Argentina. La Hora de Los Hornos e o peronismo – em parceria com Octavio Getino -, Los Hijos de Martin Fierro -na contramão da abordagem de Leopoldo Torre-Nilsson -, Tangos, o Exílio de Gardel, Sur/Amor e Liberdade, o excepcional doc sobre o sucateamento da malha ferroviária – Ferrocariles Argentinos – pela ditadura militar e outro, sobre o empobrecimento da classe média, La Dignidad de los Nadies, título que me apaixona. O olhar de Solanas sobre a sociedade argentina – e a realidade latina, incluindo o Brasil – sempre foi elucidativo para mim.

Pino conjugou, no mesmo movimento, cinema e política. Chegou a ser candidato à presidência da Argentina. Morreu em novembro de 2020. Não me lembrava direito de A Viagem. Muitas cenas tiveram para mim sabor de novidade. Havia visto o filme no lançamento – há 30 anos. Achei muito interessante a forma como El Viaje incorpora o tema da inundação, e encantou-me o garoto Walter Quiroz como o protagonista. Quiroz também foi ator de Guilherme de Almeida Prado/Perfume de Gardênia e Hector Babenco/Coração Iluminado. Pretendo voltar amanhã ao CCBB para (re)ver A Nação Clandestina, de Jorge Sanjinés. Neste sábado, minha prioridade é a Cinemateca, e o Jodorowsky da mostra 1973 – 50 Anos Depois. A Montanha Sagrada! Lá vou eu lembrar Orson Welles. Ao receber uma homenagem, ele ironizou o reduzido público. Disse que ele era tantos, os espectasdores tão poucos. Alejandro Jodorowsky é outro artista múltiplo. Ator, diretor, poeta, psicomago, quadrinhista, romancista, tarólogo.

Justamente, criador de HQs. Na ficção de Solanas, Quiroz é filho de um quadrinhista, sendo salvo, na estrada, mais de uma vez, por um personagem criado por seu pai – o motorista caribenho. Revi A Viagem com emoção. Aliás, a emoção prosseguiu nesta manhã com o jogo entre Brasil e França. Ainda não foi dessa vez que a seleção brasileira feminina de futebol venceu a francesa. Mesmo sabendo que não seria aquele passeio contra o Panamá – 4 a 0 -, esperava pelo menos o empate. Não veio, mas foi um jogaço.

A Santa Fé de Los Inundados. E olhaí Douglas. Paris, retratada em 100 filmes míticos

Volta e meia cometo meus erros. No automático, ao falar no outro dia sobre o doc de Bertrand Lira no Festival Aruanda, no Cinesesc – O Seu Amor de Volta (Mesmo Que Ele não Queira) -, creditei-o a outro Bertrand, o Duarte, ator de Edgard Navarro/SuperOutro e Carlos Reichenbach/Alma Corsária. Desculpei-me com o próprio Lira, quando fui ver seu filme. Cito esse caso, como poderia citar outros. Doris Monteiro. A sessão especial de Uma Agulha no Palheiro, de Alex Viany, foi realizada na Cinemateca, que retomara suas atividades presenciais, mas na verdade foi um evento da Mostra, que outorgou à cantora e atriz que morreu nesta semana o Prêmio Leon Cakoff de 2022. Precisava fazer essa correção. Fui ontem à tarde ver Los Inundados na mostra El Camino, no CCBB/SP. Pretendo voltar hoje à tarde ao Centro Cultural para (re)ver El Viaje, de Fernando Solanas. No sábado à tarde, pretendo ver A Montanha Sagrada, de Alejandro Jodorowsky, em outra mostra – 1973, 50 Anos Depois -, na Cinemateca. E, no domingo, de volta no CCBB, A Nação Clandestina, de Jorge Sanjinés.

 Ao pesquisar no Google sobre o longa de Fernando Birri, Os Inundados, encontrei o texto de Mônica Cristina Araújo Lima. Primeiro longa produzido pelo Instituto de Cinematografia da Universidade Nacional do Litoral, começou a ser pensado em 1956, foi filmado cinco anos mais tarde e finalizado em 1962. Sua forma de produção, temática e estética estavam associadas ao manifesto por Un Cine Nacional, Realista, Crítico y Popular, que acompanhou o lançamento. A trama refere-se às dificuldades enfrentadas por uma comunidade ribeirinha na cidade de Santa Fé, quando transbordam as águas do rio e a população precisa ser relocada. Pirucho Gómez, a mulher, Lola Palombo, chamada La Gorda, e os filhos são jogados para cá e lá. A inundação ocorre em pleno processo eleitoral, mostrando a manipulação dos pobres por políticos corruptos. A influência é do neo-realismo e o tom aproxima Los Inundados da comédia italiana e até da chanchada brasileira, que vivia seu ocaso no começo dos anos 1960. A trilha é de Ariel Ramirez, autor da célebre Misa Criolla.

Birri, que morreu em 2017, é considerado um dos grandes teóricos na (re)formulação de um novo cine latino-americano. Na época, o cinema argentino era dominado por uma figura mítica como Leopoldo Torre-Nilsson. Com a mulher, a romancista – e roteirista – Beatriz Guido, ele fazia um cinema europeizado, bebendo na fonte de autores como Ingmar Bergman. Não apenas – La Sombra del Angel deve muito a Jorge Luis Borges. A sombra de Juan Domingo Perón projeta-se sobre o cinema produzido na Argentina. Entre 1945 e 55, no período em que ele esteve à frente do poder, surgiram filmes como Las Aguas Bajan Turbias, do ator, cantor e diretor Hugo Del Carril, um peronista histórico. Comprometidos com o social, mas desvinculados do regime, os signatários do manifesto por Un Cine Nacional, Realista, Critico y Popular propunham algo novo e independente.

Estreiam novos diretores – Birri, Manuel Antín, Rodolfo Kuhn – e as revistas especializadas – Cinecritica e Tiempo de Cine – são decisivas no desenvolvimento de um pensamento autoral e crítico. Perón, na política, e Torre Nilsson, na estética, são colocados em questão. De volta para casa, passei ontem à noite pela Livraria da Travessa, na Rua dos Pinheiros. Desde a semana passada vinha namorando um livro – um álbum – que afinal comprei. Em 2012, nas Edições Flammarion, Antoine de Baeque já publicara, em inglês e francês, um volume sugestivamente intitulado Paris by Hollywood/Paris par Hollywood. Na capa, a icônica Audrey Hepburn numa cena de Charada, de Stanley Donen, de 1963. Na contra, a animação da Pixar, Ratatouille, o rato que sonhava ser chef. Como epígrafe, uma frase de Woody Alen – “Paris é maior clichê para os norte-americanos.” Em 2018, e foi o livro que comprei ontem, Philippe Lombard publicou, pela Parigramme, Paris – 100 Films de Légende. Na capa, Michel Poiccard/Jean-Paul Belmondo e Patriciá/Jean Seberg na avenue des Champs Elysées, onde ela vende o The New York Herald Tribune em À Bout de Souffle/Acossado, o manifesto da nouvelle-vague por Jean-Luc Godard, de 1960. Na contra, Simone Signoret em Casque d’Or/Amores de Apache, de Jacques Becker, de 1952.

Douglaspizza, que ama tanto o cinema francês, com certeza viajaria nas belas imagens desses 100 filmes lendários. O primeiro, Fantômas, de Louis Feuillade, de 1913 – há 110 anos. O mais recente, no livro, é Missão Impossível – Efeito Fallout, de Christopher McQuarrie, com Tom Cruise cavalgando aquela moto nas ruas da Cidade Luz, em 2018. Viajei! Paris Qui Dort e Sous les Toits de Paris, da fase vanguardista de René Clair, Le Roi des Champs-Elysées, o exílio parisiense de Buster Keaton, o homem que nunca ria – e que, em 1935, deixara de ser um astro em Hollywood -, o quai de Jemmapes, que Marcel Carné e seu produtor fizeram reconstruir em estúdio para a rodagem de Hotel du Nord, de 1938. Justamente as reconstituições. Paris, muitas vezes, parece bem real, mas é produto da criatividade de diretores de arte e cenógrafos que a recriam em estúdios nos mínimos detalhes – o Boulevard du Temple de Les Enfants du Paradis/O Boulevard do Crime, outro Carné, de 1945, o Marais de Maigret Tend Um Piège/Assassino de Mulheres, de Jean Delannoy, de 1958, Les Halles, onde Shirley MacLaine exerce a prostituição em Irma La Douce, de Billy Wilder, de 1963, o prédio de O Locatário e os tetos por onde fogem Harrison Ford e Emmanuelle Seigner em Frantic/Busca Frenática, ambos de Roman Polanski, de 1976 e 88, a ponte de Os Amantes do Pont Neuf, de Léos Carax, de 1991, etc.

Em compensação, a cena final do Napoleão de Sacha Guitry, de 1955, quando Raymond Pellegrin, a cavalo, desce solitário a Avenue des Champs Elysées, com o Arco do Triunfo ao fundo, foi filmada em locação, numa madrugada, com cerca de 200 mil parisienses escondidos atrás das câmeras para testemunhar a filmagem. Desafio maior ainda foi enfrentado por Eric Judor e Ramzy Bedia quando fizeram Sozinhos em Paris, em 2008. Um policial e um criminoso descobrem que são os únicos – últimos – sobreviventes de uma hecatombe em Paris. Como filmar em cenários reais, sem que mais uma alma apareça em cena? Correndo contra o tempo, e com mais de 200 bloqueios de circulação durante algumas horas, a equipe conseguiu. E ah, sim, Philippe Lombard lista, entre os 100, duas animações – Aristogatas, de 1970, e Ratatouille, de 2007, inclusive repetindo a foto do rato com a Torre Eiffel ao fundo, que também está no livro de Antoine de Baeque. Por falar em gato, quem conhece Paris – e o 11ème – terá um prazer especial em identificar os cenários reais, ao redor da Ópera da Bastilha, em que Cédric Klapisch filmou Chacun Cherche Son Chat/O Gato Sumiu, em 1996. Garance Clavel volta de viagem e descobre que seu gato – Gris-Gris – fugiu de casa. Enquanto o procura nas ruas do bairro, ela encontra todo tipo de gente. Faz tempo que não o (re)vejo, mas é um filme que possui um charme todo especial.

Para encerrar, Efeito Fallout. McQuarrie prepparava-se para filmar quando ocorreram os atentados de novembro de 2015 na capital francesa. Imediatamente ele propôs, e o astro/produtor Tom Cruise topou, filmar em Paris. O roteiro foi reescrito e Ethan Hunt desce de paraquedas no teto do Grand Palais, iniciando a perseguição de moto que o leva na contramão da Place de L’Étoile. Como sempre, superTom dispensou os dublês. Você sabe, você viu. A cena ficou espetacular.

Psicose nos clássicos do Marquise. O assassinato na ducha, um marco do cinema

Estou voltando da cabine de imprensa do doc de Gustavo McNair sobre o músico e capoeirista Mestre Môa. Sabia duplamente da existência dessa figura mítica, pela música gravada por Caetano Veloso e pela estada dele em Porto Alegre. Meus amigos documentaristas certamente farão suas objeções. Eu mesmo tenho a impressão de que o filme muitas vezes repete-se e poderia ser enxugado numa remontagem, mas o assassinato dessa figura ímpar por um bolsonarista FDP diz bem do clima de ódio instaurado no País pelos seguidores do Bozo. Emocionei-me – chorei – com o depoimento do negro que diz uma coisa linda. “Nós – pretos – não somos descendentes de escravos, mas de reis e rainhas africanos.” Negros altivos, conscientes da própria negritude. Black is beautiful. Folheei uma vez um livro daquele escroto que apoiava Bolsonaro, o autor de Jardim das Aflições, e ele justamente ridicularizava a frase – o slogan. Por que o negro seria belo?Volta e meia me pego pensando. Como uma mulher – e atriz – com a sensibilidade de Cássia Kiss embarcou naquela canoa furada, unindo-se a essa gente podre?

Depois do filme, almocei no Le Jazz de Pinheiros e agora estou em casa. Daqui a pouco vou sair para tentar ver Viagem Clandestina, de Jorge Sanjinés, na mostra El Camino, do CCBB/SP. A cabine de Môa, Raiz Afro Mãe foi no Vitrine. O cinema do Conjunto Nacional é uma loucura. Apresenta sempre vários filmes em diferentes sessões. Descobri até que existe uma tal sessão Clássicos do Marquise, às 18h15. Apresenta esta semana… Psicose! Outro dos filmes em cartaz nas salas do Marquise é Barbie. Corrigindo o post anterior, Neusa Barbosa me disse que o longa de Greta Gerwig ultrapassou 5 milhões de espectadores no Brasil. A força do marketing cultural. Não tenho muito apreço por Barbie. Em matéria de Greta Gerwig prefiro o longa anterior dela, Adoráveis Mulheres, baseado no livro de Louisa May Alcott que já havia sido filmado por George Cukor nos anos 1930 e por Mervyn LeRoy nos 40.

Já perdi a conta das vezes que vi Psicose. Acho até que é o filme que mais vezes vi na vida, mais até do que Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. Ambos, coincidentemente, são do mesmo ano – 1960. Ainda estudava no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Havia um mural livre, onde escrevia sobre filmes um cara chamado Valdir Enor Koch. Foi o meu primeiro modelo de ‘crítico’. Quando entrei na Faculdade de Arquitetura da UFRGS e descobri que lá também, logo após o golpe cívico/militar, havia outro Mural Livre, comecei a me exercitar nesse exercício de crítica. Creio que nunca encontrei Valdir Enor Koch para lhe agradecer por me haver aberto esse caminho. Não sei se está vivo, afinal, passaram-se mais de 60 anos. Mas se eu estou, ele também talvez esteja.

Ao contrário de Rocco, VEK não gostou muito de Psicose. Deu ao clássico de Alfred Hitchcock somente a cotação ‘Regular’. Em 1995, já estava em São Paulo, no Estadão, quando a editora gaúcha Artes e Ofícios me propôs um livro sobre o centenário do cinema. Escrevi rapidamente, bem ao meu feitio. Na época, estava impressionado pelo efeito Cães de Aluguel, e Pulp Fiction/Tempo de Violência. Intitulei o livro Cinema – Um Zapping de LUmiÉre a Tarantino. Mentira, o título foi da editora. Meu amigo Walter Hugo Khouri disse que iria arrepender-me. Quando a editora me propôs reeditar o livro, fiz uma contraproposta. Não estava mais na vibe Tarantino. Escrevi outro livro, Cinema – Entre a Realidade e o Artifício, em plena celebração de Baz Luhrmann e seu Moulin Rouge. Um dos capítulos – são livros que contam a história do cinema através de filmes, e autores – vchamou-se O homem que sabia filmar. Ora, quem? Alfred Hitchcock!

Nove entre dez, dez entre 11 críticos estarão dispostos a considerar Vertigo/Um Corpo Que Cai, de 1958, o melhor filme do chamado mestre do suspense. Eu, não. Prefiro a trilogia que começou com Psicose, prosseguiu com Os Pàssaros e terminou com Marnie, As Confissões de Uma Ladra, que François Truffaut, devoto de São Alfred, considerava a obra-prima doente de Hitchcock. Não fui eu o primeiro a dizer isso, mas invocar as chaves da psicanálise para ingressar no cinema do mestre é como chover no molhado. Hitchcock e Freud nasceram um para o outro. A trilogia – informal –  é toda construída sobre os complexos de Édipo, e Electra. Conheço gente que conhece Psicose somente da TV. Nunca viram o filme no cinema. Por favor, corram ao Marquise. Eu mesmo estou disposto a ir mais uma vez. Ver Psicose na tela grande é daquelas experiências que dão ao cinéfilo uma outra percepção do que é – do que deve ser – o cinema.

Hitchcock baseou-se num pulp de Robert Bloch. Tudo nesse filme é diferente de seus anteriores. Hitchcock abre Psiocose com informações precisas. Dia e hora. Janet Leigh e John Gavin estão no motel. Obviamente, um romance proibido. De volta ao escritório, o patrão a encarrega de fazer um vultoso depósito no banco. Janet/Marion Crane avalia sua vida. Aquele dinheiro poderia ser a sua alforria, e de Gavin. Ela foge. Dirige sob a chuva, e a partitura wagneriana de Bernard Herrmann é das melhores que ele compôs para Hitchcock.  Rica em sugestões dramáticas. Tensa, extenuada, Marion vê na estrada aquele anúncio. Bates Motel. Resolve passar a noite. Descansar, dormir. Tem um diálogo muito interessante com Norman Bates/Anthony Perkins, que administra o lugar. A sala onde conversam é cheia de bichos – aves – empalhadas. A conversa tranquiliza Marion. Ela resolve voltar, e arcar com a responsabilidade de seus atos. Antes de dormir, resolve tomar um banho de ducha – para purificar-se?

A cena de Marion na ducha é das mais famosas – e imitadas – da história do cinema, como a escadaria de Odessa, de Sergei M. Eisentein, em outro clássico, O Encouraçado Potemkin, de 1925. O assassinato de Marion – cerca de 70 cortes num total de 40 e poucos segundos de filme – não tem paralelo em nenhuma outra cena, em nenhum outro filme. A época, o escândalo foi grande, e não pela forma de filmar o crime, propriamente dita. Janet Leigh era uma estrela, e o público não estava acostumado a ver a presumível protagonista desaparecer logo no primeiro terço da duração. A trama prossegue com um investigador – Martin Balsam – seguindo a trilha de Marion. Ele vai parar no motel, descobre que há algo errado com Norman e resolve entrar na casa. A cena da escadaria é quase tão impactante quanto a da ducha. No terceiro movimento do filme, John Gavin e a irmã de Marion – Vera Miles – chegam ao motel. A essa altura já sabemos que Norman está apagando vestígios dos assassinatos. A solução do enigma – quem está matando? – está naquele esconderijo, debaixo da escada. Uma adega? Até Stanley Kubrick – em O Iluminado – bebeu na fonte de Hitchcock.

Nesse desfecho, a cena da ducha termina por ganhar outro significado. Marion, naquele banho, está querendo se purificar. Quando toda a verdade é revelada, fica claro, na visão trágica de Hitchcock, que não há segunda chance possível para quem já matou, e vai matar de novo, e de novo. Nesta semana de tantas atrações – as mostras El Camino e 1973 – 50 Anos Depois -, rever Psicose na tela grande do Marquise será um regalo para qualquer cinéfilo digno desse rótulo. Com exceção do fotógrafo – John L. Russell, substituindo Robert Burks -, o mestre conseguiu reunir seus colaboradores mais atilados, o músico Herrmann, o montador George Tomasini. A mudança de fotógrafo fazia sentido por que Hitchcock, inspirado em sua experiência na TV – Alfred Hitchcock Presents -, queria mudar seu jeito de filmar, e afinal era só um pulp, rodado rapidamente, em preto e branco, e a troco de nada. Baratíssimo. Para mim, Psicose é outro dos filmes de minha vida, mesmo que, na trilogia edipiana, meu favorito seja Marnie.

Estreias da semana. Ação, terror, terrir e… A Sinédoque de Bressane!

Na última aferição das maiores bilheterias nos cinemas brasileiros, A Pequena Sereia seguia na liderança, apenas alguns milhares de espectadores à frente de Barbie, e ambos com mais de 4 milhões de ingressos vendidos. A diferença é que A Pequena Sereia, que estreou em 25 de maio, demorou dois meses para atingir esse número, e Barbie apenas uma semana. O longa de Greta Gerwig tem fôlego para ir muito mais longe. Duas constatações – Oppenheimer ultrapassou os 500 mil, muito atrás de Barbie, e Os Aventureiros – A Origem tem a melhor colocação entre os brasileiros, com 350 mil espectadores. Por mais feliz que fique por André Pellenz, em busca por um cinema de público, tenho de admitir meu estranhamento. Assisti a Os Aventureiros como único espectador na sala vip de um shopping da Rua Pamplona, no fim de semana de estreia. Voltei à sala na semana seguinte para conferir e nenhum espectador havia comprado ingresso. Esquisito esse sucesso, não? Nesta quinta, 27, o grande destaque é um biscoito fino – Capitu e o Capítulo, de Júlio Bressane, autor que busca a essência do cinema e, como tal, destina-se a cinéfilos de gosto muito apurado. Para uma camada mais popular, tem terror – Mansão Mal-Assombrada e O Convento.

Capitu e o Capítulo. Não propriamente uma adaptação de Dom Casmurro, de Machado de Assis, mas uma transcriação feita pelo mais erudito dos diretores brasileiros, que já abordara o universo machadiano em Brás Cubas – e utiliza cenas daquele filme, as cartolas principalmente, no atual. O triângulo mais famoso da literatura brasileira. Capitu traiu Bentinho com o amigo dele, Escobar? Para falar sobre o próprio trabalho, Bressane usa uma figura de linguagem, a sinédoque, similar à metonímia, e às vezes confundida com ela. Ele se utiliza de cinco ou seis capítulos do livro, e explica que a compreensão do todo deve vir pelas partes. Com Vladimir Brichta, Mariana Ximenes e Djin Sganzerla. Atenção para o final, uma licença poética com as imagens de uma macumba carnavalesca.

O Convento. Na abertura da mostra 1973 – 50 Anos Depois, houve ontem, na Cinemateca, a exibição ao ar livre de O Exorcista, de William Friedkin. O diretor Christopher Smith – de Ritual, Presença Maligna -, retoma o tema do exorcismo, agora num convento. Jena Malone, de Jogos Vorazes, desconfia da versão oficial e investiga o suposto suicídio do irmão padre no convento do título. Descobre coisas estarrecedoras que dizem respeito à própria família. Quem viu, garante. É um filme que exige espectadores com nervos de aço.

Mansão Mal-assombrada. Há 20 anos, Eddie Murphy já havia estrelado uma versão da Haunted Mansion, considerada um dos brinquedos de maior sucesso nos parques temáticos da Disney. Na nova versão, Rosario Dawson muda-se com o filho para uma mansão em New Orleans, onde ambos são perseguidos por todo tipo de fantasmas (e entidades do mal). Ela pede socorro ao padre Owen Wilson. Claro que se trata de um terrir – terror em ritmo de comédia. Da trama dirigida por Justin Simien participam também Jared Leto, Danny DeVito e Jamie Lee Curtis.

Missão de Sobrevivência. Sobrevivente mesmo é Gerard Butler, que segue como um dos últimos heróis de ação do cinemão, com Liam Neeson e Jason Statham. Todos os demais, e eu estou falando do ex-The Rock, Dwayne Johnson, estão numa vibe de misturar ação e humor. O diretor Ric Roman Waugh é o mesmo de Invasão ao Serviço Secreto, também com Butler. Dessa vez, ele faz agente cuja identidade é descoberta durante a Guerra do Afeganistão. Na companhia de seu tradutor, Butler atravessa o país batendo, arrebentando – e explodindo -, na tentativa de chegar a território seguro.

Alma Viva. Esse não deixa de ter certa originalidade. Afinal, quando foi que você assistiu a um terror português? Cristèle Alves Meira dirige a história da garota que viaja à casa da família, nas montanhas. A morte da avó é o ponto de partida para que a menina seja atormentada por um espírito. Lua Michel, que faz o papel, tem parentesco com a diretora. Chama-se Lua Meira Michel.

No Belas, a pré-estreia de Capitu e o Capítulo. Os enigmas na transcriação de Bressane

Há um mito sobre a rapidez de Júlio Bressane. Numa entrevista, Maria Gladys contou que, na Belair, Julio e Rogério (Sganzerla) faziam filmes em uma semana. “Com Júlio, mal começava e ele me dizia amanhã é o último dia.” E Vladimir Brichta, na entrevista que fiz com ele na semana passada – “Filmamos em duas semanas, não, em uma.” Brichta refere-se a Capitu e o Capítulo, que terá pré-estreia gratuita hoje à noite, no Petra Belas Artes, às 19h30. O filme estreia amanhã. O próprio Bressane, também numa entrevista por telefone, do Rio, minimiza essa lendária rapidez. Ele pode filmar rápido, mas a gestação é longa. Capitu e o Capítulo começou a nascer há 40 anos. “Já pensava em Dom Casmurro. Era muito próximo de Haroldo de Campos e foi ele quem me chamou a atenção para a importância dos capítulos nos maiores livros de Machado. Haroldo fez um poema concreto, Capitu capítulo. Terminou sendo minha bússola no projeto.” 40 anos! Em 1985, ele fez a sua versão de Memórias Póstumas de Brás Cubas. É difícil, senão impossível, falar de adaptação, a propósito de Bressane. Ele não adapta – transcria. E no caso do novo Machado, faz uma distorção do texto original.

Nos primeiros livros, Machado não tem muitos capítulos. Eles aumentam muito de número nas grandes obras – Dom Casmurro, Memórias Póstumas, Quincas Borba, etc. Mesmo assim, Bressane conta que usou apenas uns cinco ou seis para construir a sua Capitu. De cara, ele filma os belos olhos de Mariana Ximenes. Fala de um dos enigmas do livro, os olhos de ressaca. Esse, ele esclarece em seguida por uma figura de montagem que tem respaldo no texto do próprio Machado. O escritor compara aqueles olhos à ressaca do mar, Bressane, eisensteinianamente, filma os olhos e o movimento das ondas. O maior enigma, porém, é outro – Capitu traiu Bentinho, o Dom Casmurro, com o melhor amigo dele? O filho do casal e, na verdade, de Escobar? Numa cena decisiva, diante do berço do bebê – no livro, Bentinho pensa em matar o filho já crescidinho -, Brichta, que faz o papel, pensa em voz alta que aquela criança não é dele. Capitu/Mariana entra no quadro para contestá-lo. Diz que não existe essa questão, o adultério. Quem tem fixação em Escobar é Bentinho. Ela acrescenta que, na cama, virava-se de costas e se oferecia ao marido como se fosse Escobar.

Essa sugestão de homoerotismo está no texto. Bentinho refere-se ao braço vigoroso de Escobar, que pratica o remo. O ciúme, Bressane evoca Freud, liga-se a fixações homossexuais. É um belo filme, ao mesmo tempo conciso e complexo. Bressane elogia o aporte do elenco, do diretor de fotografia. “Sempre fui muito feliz com todos os meus diretores de fotografia. Lucas Barbi me deu nesse filme uma luz que faz parte do mistério.” E Brichta e Mariana – “Para mim não existe essa coisa de direção de atores. Mariana tem feito coisas notáveis em sua carreira. A minha Capitu é uma criação dela.” Brichta conta – “Júlio não mostra como a gente deve fazer a cena. E quase sempre usa o primeiro take. Numa cena, ele veio cheio de tato me pedir que refizesse o plano. Houve um problema, mas não foi comigo”, esclareceu. As parcerias. Bressane trabalha com o mesmo montador – Rodrigo Lima – desde Cleópatra, de 2006. Nesses 17 anos, Lima digitalizou, e armazenou, todos os 58 filmes do autor. De um total de 80 horas – por aí -, fizeram um filme de 7h20. Bressane descarta que A Longa Viagem seja um filme síntese.

“As obsessões e elos sintáticos deram origem a uma outra coisa.” Entram segundos de alguns filmes, planos maiores – sequenciais – de outros. Um filme dessa duração não se enquadra nas normas do mercado. No Rio, houve uma sessão na Cinemateca do MAM. E em São Paulo? “Espero que o filme também encontre seu espaço aí.” Alô/alô, Adhemar de Oliveira, André Sturm. Nós, cinéfilos, estamos no aguardo. Bressane está numa fase de muita atividade. Lança Capitu e o Capítulo, na semana passada recebeu a primeira cópia – o filme pronto – de O Leme do Destino, que fez com Simone Spoladore, e não estará esta noite na pré-estreia porque atualmente monta um terceiro filme que fez no sertão do Cariri. Bressane fala muito sobre a relação do cinema com a pintura. Reflete sobre a figura fora de cena, que não faz parte da sintaxe do cinema, mas faz-se presente em seus filmes. E tem aquela definição – o cinema fornece chaves para o conhecimento. Não é preciso nem dizer, mas vamos lá. Capitu e o Capítulo prossegue com uma busca que vem de décadas, do autor, sobre o essencial do cinema. Ninguém vai ver Bressane esperando uma história com começo, meio e fim. Sendo um filme de época, não busca a reconstituição, mas parte do princípio de que todo filme é sempre sobre a época em que foi feito. Quem entra nas imagens certamente sai recompensado.

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