Foi disponibilizado na Plataforma NAU, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, um curso intitulado “Eça de Queirós: romance e representação social” (ver aqui). O referido curso, proposto pela Fundação Eça de Queiroz, faz parte de uma oferta formativa muito alargada, seguindo a lógica da formação aberta e online (os chamados MOOCs: Massive Open Online Courses) e destina-se a públicos relativamente indiferenciados. Os cursos são gratuitos e, sendo completados com avaliação, dão direito a um certificado.
O curso “Eça de Queirós: romance e representação social” incidirá sobre alguns romances de Eça, enquadrados pelo trajeto literário do escritor. Indo desde os anos 70 até ao fim do século XIX, este trajeto envolve transformações observáveis em vários domínios: movimentos e doutrina literária, personagens relevantes, diálogos interartísticos, configuração narrativa de temas marcantes da sociedade oitocentista, entre outros. Para além de contextualizar, em termos gerais, a produção literária de Eça, o curso aborda grandes significados sociais deduzidos de três romances: O Crime do Padre Amaro (1875-80), Os Maias (1888) e A Ilustre Casa de Ramires (1900).
Por força da sub-representação do bailado como grande arte, na ficção e no pensamento estético de Eça, ganha um significado especial a proposta que nos é apresentada pela Companhia Nacional de Bailado, com coreografia e dramaturgia de Fernando Duarte, ambas decorrentes de um sofisticado processo de transcodificação. Ou seja, aquilo que era linguagem literária e narrativa, com os seus signos e com os seus protocolos, é agora recomposto noutra linguagem, noutro contexto e perante um público que vê e ouve o que antes era lido (se é que o foi) em silêncio e de forma prolongada no tempo – porque um relato com a extensão d’Os Maias não se lê de uma assentada.
Isto quer dizer, entre outras coisas, que um romance admirável de um autor individual reaparece como obra construída não apenas pelo trabalho do coreógrafo, mas também por aquele que foi desenvolvido por outros agentes: os que conformaram o movimento corporal, o desenho cénico, a indumentária, a iluminação, a música, as imagens videográficas e tudo o mais que contribui para uma nova narrativa. Nesta, a palavra não é já elemento central. Ela é tão-só a referência original para um desafio lançado a quem procede a uma verdadeira releitura, por assim dizer, orientada do texto, com o intuito de, noutra linguagem, reconfigurar um universo complexo. (…)
Um lugar-comum frequente, em estudos sobre o poder representacional de diferentes linguagens, é aquele que insiste nas dificuldades da narração, quando a palavra é substituída, de forma dominante ou exclusiva, pelo gesto e pela expressão corporal. A exemplo do que acontece no cinema mudo ou no mimo, também no bailado a função (digamos) subsidiária ou até nula atribuída à linguagem verbal não é um fator de menorização artística. Pelo contrário. Trata-se de uma difícil opção artística, estimulando a intervenção de mecanismos de compensação que salvaguardem a narratividade. Ou, de forma muito simples, a capacidade de dizer “era uma vez”.
Sem indagar a relevância conferida a dispositivos cénicos de apoio eventualmente colhidos noutras artes (por exemplo, no cinema), importa sublinhar que o reconhecimento do entrecho e dos seus atores emana, em boa parte, da memória de quem vê o bailado. Ou porque se leu o romance, ou porque se tem informação sobre ele, ou porque se atenta nos tais dispositivos de enquadramento (sejam imagens estáticas ou dinâmicas), tudo por junto predispõe a uma atitude recetiva de vocação narrativística. O que, evidentemente, não subalterniza os movimentos baléticos, a gestualidade e o histrionismo que dão uma outra e renovada vida às personagens e à atmosfera emocional que elas respiram.
Seja como for, sempre predomina (ou deve predominar) a autonomia da linguagem artística, ou seja, o bailado que refigura o romance e, não menos do que isso, a sua concretização pelo espectador. O vocábulo concretização é aqui deliberado. Ele reporta-se ao termo de chegada de uma proposta de fruição artística e de conhecimento narrativo que se completa na esfera de quem assiste ao bailado. De resto, o labor de recomposição coreográfica provém de outra e prévia concretização: a de quem assina, com ousada responsabilidade, a nova obra que dialoga com a que lhe deu origem. Por isso, no anúncio d’Os Maias, por Fernando Duarte e pela Companhia Nacional de Bailado, faz todo o sentido a expressão “a partir da obra homónima de Eça de Queirós”, em vez da convencional adaptação.
[Extrato do ensaio “Dançar Os Maias”, inserto no livro de sala composto e editado para a estreia do bailado Os Maias, em três atos, que teve lugar a 16 de outubro passado, no Teatro Camões, em Lisboa].
Autoras (AA): Em entrevista à Tânia Pinto Ribeiro, o professor afirmou o seguinte: “Sou discípulo constante do Eça no sentido em que encontro, a cada momento, a cada passo, resposta para aquilo que são as inquietudes, as dificuldades, as crises da nossa vida pública”. Para si, está lá – no Eça – tudo? Carlos Reis (CR): Nunca está tudo num escritor, se por esse tudo entendemos os temas e as situações marcantes das nossas vidas e do nosso mundo. Nem em Camões nem em Shakespeare está tudo, mas estão, neles e em Eça, partes de nós e daquilo que queremos encontrar e que, por outras vias, não encontramos. Por isso, o estar tudo tornaria desnecessária a procura incessante que fazemos nas obras dos grandes escritores. Lendo-as ou relendo-as. AA: Ainda como continuação da pergunta anterior, quando fala na “nossa vida pública”, refere-se a um caráter intrinsecamente português? Ou os perfis de personagem que Eça elabora e as mentalidades que expõe adequam-se também a outras culturas? CR: Há alguma coisa desses dois componentes. Primeiro, porque Eça conheceu a nossa vida pública oitocentista como poucos ou nenhuns, no seu tempo. Apesar de (ou talvez por isso mesmo…) ter vivido quase sempre fora de Portugal. Mas para além disso e do que existe de intrinsecamente português na nossa vida pública, Eça tematizou sentidos tão amplos e transcendentes como a fugacidade do tempo e a inevitabilidade da morte, a atração amorosa e a relação com Deus, o apelo da Natureza e os excessos da civilização. Esses, tal como outros sentidos, não são exclusivamente portugueses. E é porque foi capaz de escrever sobre o seu tempo e sobre aquilo que o transcende que Eça atingiu o estatuto de escritor universal e trans-histórico. AA: Construiu-se um mito de rivalidade entre Eça de Queirós e Machado de Assis que, em outras entrevistas, buscou demonstrar que não era a versão exata da história. A que propósito serve alimentar esta suposta rivalidade? CR: Não serve de nada, a não ser cultivar uma versão primariamente folhetinesca e anedótica da vida literária. AA: Numa passagem de Os Maias, a propósito de Carlos da Maia tornar-se médico, e não Doutor de Leis como supunham os amigos do avô, Afonso da Maia profere uma daquelas graves citações que só cabem a grandes personagens: “Num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é incontestavelmente curar”. Afinal, qual é a grande doença de Portugal (para além do próprio ato de adoecer)? O país ainda padece do mesmo mal na atualidade? CR: Infelizmente, o país ainda padece de alguns desses males e, entre eles, daquele de que Afonso a Maia falou e a que eu chamaria a “doença de estar doente”. Outras “doenças” portuguesas, no tempo de Eça: a resignação perante a decadência, a preguiça, a acomodação, o culto do lado sombrio das coisas, o provincianismo (a começar pelo lisboeta), a fixação no passado – e assim por diante. Assusta-me pensar que alguns destes males (ou todos eles) ainda nos atormentam.
Eça de Queirós, por Santiago.
Entrevista por Gabriella Mendes, Ana Marques e Ana Cláudia Pires, em ALEA, Rio de Janeiro, v. 27, n. 3, set.-dez. 2025.
O diretor artístico da Companhia Nacional de Bailado (CNB) não é recém-chegado aos bailados narrativos. A proposta de levar a CNB a dançar Os Maias, a partir de 16 de outubro no Teatro Camões, tem exemplos próximos em abordagens semelhantes a O Primo Basílio (2020) e Memorial do Convento (2022). A intenção é sempre criar elos entre a dança e a nossa forte herança literária.
O romance Os Maias, de Eça de Queirós, já foi adaptado ao teatro e ao cinema. O que viu nele suscetível de configurar um bom espetáculo de dança?
As personagens, acima de tudo. Um dos aspetos mais interessantes do universo queirosiano é a forma como cria personagens de um pormenor muito próprio deste autor, que não se resume a elas, mas que inclui os espaços e os sentimentos, e isso é muito estimulante em termos de suscitar uma proposta coreográfica. Como esses detalhes podem ser corporificados em gestos e respirações coreográficos, sem esquecer a própria música, porque existe um envelope musical que reveste a narrativa.
O seminário “Lógicas e figurações da personagem queirosiana” (21 a 25 de julho de 2025; Fundação Eça de Queiroz) tratará da representação, do significado, das mutações, das correlações comparatísticas e do potencial de sobrevida das personagens de Eça de Queirós, consideradas em diversas obras da sua produção literária. Pretende-se, assim, não só proceder a uma revisão crítica da existência ficcional desta relevante categoria, em vários tempos literários do autor, mas também lançar hipóteses de trabalho, com incidência pedagógica e com abertura, sempre que tal se justifique, a interações com outros escritores, coevos ou não, e com outras linguagens, em regime intermediático.
Quando escreve contos, Eça de Queirós revela um domínio pleno deste género narrativo; por isso, ele é, sem grande contestação, o nosso mais admirável cultor deste tipo de relato. Sendo mais complexo do que aquilo que poderia pensar-se, com frequência o conto impõe-se, na vida literária dos escritores, como género de iniciação ou de tratamento embrionário de temas e de personagens mais tarde eventualmente aprofundados em romances.
Antes de exemplificarmos esse procedimento expansivo (que Eça cultivou), sublinhe-se o seguinte: o conto é um relato relativamente breve, onde se narra, de forma concentrada, uma história que envolve um número em geral pequeno de personagens (como em “No Moinho” ou em “Um Poeta Lírico”), decorrendo num tempo também não muito alargado. Sendo caracterizado sobretudo por comparação com o romance, ele merece a designação, em inglês, de short story, assim se realçando a brevidade da história narrada e até o seu modo e lugar de publicação. O que se verificou com contos queirosianos foi que essa publicação podia ocorrer em revistas ou em jornais (é o caso dos primeiros contos, na Gazeta de Portugal; ou “A Perfeição” e “José Matias”, cada um deles em diferentes números da Revista Moderna). Também aconteceu, contudo, que a configuração material de um jornal obrigasse a seccionar o relato; foi assim com “O Defunto”, ao longo de 10 números da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, o que também contribuía, até pela feição da ação contada, para fidelizar os leitores.
No conto em geral e no conto queirosiano em particular, é muitas vezes visível uma espécie de unidade de efeito que se representa, paralelamente, no domínio temático. Como quem diz: um conto dificilmente contempla a pluralidade de temas que lemos num romance, justamente pelo princípio da concentração que o distingue. Acontece até que, nalguns dos contos de Eça, a unidade temática está, desde logo, anunciada no título: “Civilização” e “A Perfeição” dizem-nos, de imediato, ao que vêm, pelo vocábulo que os intitula. Por sua vez, “O Senhor Diabo”, “Onfália Benoiton” ou “José Matias” sugerem, por estas denominações, a evidência assumida por uma só personagem e não por um universo alargado de personagens, como acontece em muitos romances (caso significativo: a vasta galeria humana d’Os Maias). Coisa diferente é reconhecermos que a edição póstuma dos Contos de Eça, reunidos sem prévia intervenção do escritor, traduz os movimentos de uma certa evolução literária, mas não necessariamente unidade temática. As circunstâncias daquela publicação dificilmente poderiam resultar noutra coisa.
Entretanto, o contista Eça de Queirós não se manifesta apenas no quadro normal do género que aqui está em causa. Noutros termos: ele não contemplou o conto apenas como tal e circunscrevendo-se aos estritos protocolos deste género narrativo. Por vezes, a crónica obedece à lógica contística, do mesmo modo que esta atinge e penetra algumas cartas do escritor. Como se fosse inerente ao seu labor de escrita narrar histórias (histórias breves, entenda-se), Eça compõe um verdadeiro conto, quando, na crónica “No mesmo hotel” (inserta na Revista Moderna, em setembro de 1897), evoca o episódio sinistro do assassinato do político espanhol Cánovas del Castillo, às mãos de um anarquista italiano. Por outro lado, numa carta a Oliveira Martins (de 19 de setembro de 1888), cuja origem é a burlesca entrada (ou o seu impedimento…) do escritor-diplomata no consulado de Paris, o autor da carta não resiste a transformar os incidentes a que se refere num pequeno conto – e bem cómico, por sinal. Do mesmo modo, o epistolário ficcional que se encontra n’A Correspondência de Fradique Mendes inclui, num quadro de desenvolvimento marcadamente narrativo, aproximações contísticas tão evidentes como a que lemos na carta VI, a Ramalho Ortigão, incidindo sobre um caso de adultério.
(Extrato da introdução a Eça de Queirós, Contos. Lisboa: Penguin, 2025; dia 8 de abril, 1.ª Sessão do Ciclo Conhecer os Clássicos: “Contos” de Eça de Queirós por Carlos Reis)
No que diz respeito à segunda parte do texto, esta, em 1901, dependeu do manuscrito encontrado por Ramalho em dezembro de 1900. Essas páginas manuscritas estavam então completas, numeradas de 1 a 298 pelo punho de Eça. Porém, para a edição crítica, apenas foi possível localizar as páginas 64 a 297, faltando as páginas 1 a 63 e as 296 e 298. Apesar desta limitação, esta edição conta com 41 páginas não consultadas pela edição de 1969, permitindo o cotejo dos fólios 64 a 103 com a edição princeps (da página 268 a 277) e a de 1969 (da página 176 à página 188), repondo-se, sempre que possível, a prosa de Eça que tinha sido deformada pelo alto número de “correções” ilegítimas de Ramalho, repetidas por Helena Cidade Moura, por esta não ter tido acesso a esse material. (…)
Das folhas que utilizámos, as numeradas de 64 a 66 e de 104 a 297, menos a 296 e a 298 (aparentemente perdidas, tal como as de 1 a 63), encontram-se no Espólio de Eça de Queirós na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP; E1/293); já as numeradas de 67 a 87 conservam-se no Gabinete Português de Leitura no Recife. As numeradas de 88 a 102 e a 103 foram generosamente facultadas por A. Campos Matos e Carlos Reis, respetivamente. O trabalho de correção que se observa nas páginas 64 a 87, pelo próprio Eça, sugere que toda a primeira parte do manuscrito já estaria em vias de revisão profunda, possivelmente logo antes da morte do autor. Aqui, sim, faz todo o sentido a descrição do manuscrito, feita por Ramalho, na já citada carta a Luís de Magalhães, de 29 de agosto de 1901, em que afirma ter tentado investir o seu melhor esforço de leitura do manuscrito queirosiano. A. Campos Matos, por sua vez, critica a caracterização do manuscrito feita por Ramalho, porque as páginas que possuía (88 a 102) de facto exibiam, tal como o resto do manuscrito até ao fólio 297, uma «ordenada caligrafia […] sob forma de superior acabamento, que nos permitiram analisar facilmente as alterações nelas introduzidas por Ramalho.» A verdade é que Ramalho teria tido razão, se apenas tivesse aplicado a sua descrição às primeiras 87 páginas do manuscrito, uma vez que, até aí, o manuscrito foi muito corrigido, com texto riscado e trechos eliminados definitivamente por cruzamento, surgindo nova escrita na margem à esquerda, além de emendas, desenvolvimentos e acrescentos nas entrelinhas e nas margens. Acresce que se pode imaginar tal tipo de revisão intensa desde o início do manuscrito, embora apenas tenhamos acesso aos fólios a partir do número 64. Ou seja, presumimos que a substancial revisão até ao fólio 87 tenha sido aplicada desde o primeiro fólio. No que respeita ao estádio de escrita em que se encontrava o manuscrito a partir do fólio 88, podemos concordar com a apreciação de Campos Matos acima.
(Frank F. Sousa, excerto da introdução; A Cidade e as Serras. Lisboa: Imprensa Nacional, 2025; abaixo: fólio 64 do ms. d’A Cidade e as Serras.)
A presente publicação do romance A Cidade e as Serras, vigésimo terceiro título da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, pode considerar-se um marco, no desenvolvimento de um projeto que leva já cerca de três décadas de trabalho. Com efeito, este é um texto, por um lado, problemático, do ponto de vista filológico, e, por outro lado, dos mais relevantes e significativos de toda a produção literária queirosiana.
Tendo aparecido pela primeira vez em 1901, pouco depois da morte do escritor, em 16 de agosto de 1900, este relato integra-se naquele subconjunto que, nos últimos anos, temos designado, com referência ao seu autor, como provindo do labor finissecular do último Eça. Para além disso, ele traz consigo uma história editorial atribulada, como aconteceu com os chamados semipóstumos (que incluem também A Ilustre Casa de Ramires e A Correspondência de Fradique Mendes), ou seja, aquelas obras que estavam em processo de edição, quando Eça morreu. Por isso mesmo, tornou-se necessária (e natural) a ajuda de quem pudesse terminar o que o romancista deixara inconcluso. Refiro-me, evidentemente, a Ramalho Ortigão, que assumiu, por encargo da família, a responsabilidade de preparar a edição princeps. Fê-lo, contudo, com hesitações e, não raro, com intervenções muito discutíveis, lidando com materiais desiguais, relativamente ao estádio de elaboração que eles traduziam.
Importa sublinhar, entretanto, que aquelas intervenções não atingiram, ainda assim, o nível nem a gravidade das que afetaram os títulos póstumos (A Capital! e O Conde de Abranhos, por exemplo). O que não significa que o trabalho de Ramalho, aceite sem reservas durante décadas, não careça de profunda revisão crítica, incidindo em especial sobre aquela parte do texto que pode ser fixada a partir de manuscritos. Alguma dessa revisão foi levada a cabo por Helena Cidade Moura, numa edição meritória (Livros do Brasil, 1969), mas que está longe de poder ser considerada irreversível. De tudo isto e de muito mais fala-nos Frank F. Sousa, na extensa introdução que preparou para esta edição.
(Extrato da Nota Prefacial a A Cidade e as Serras, edição de Frank F. Sousa.