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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Bem prega Frei Tomás.

 

    




            A propósito da entrevista do historiador económico Nuno Palma à revista Sábado, em torno do seu último livro – O Vício dos Fundos Europeus. As consequências da política de coesão e por que razão deve terminar –, algumas questões saltam à vista.

 

         A editora (Publicações Dom Quixote) está a vender a obra nos seguintes termos:

 

          "Durante décadas, os fundos europeus foram apresentados como motor de convergência, modernização e prosperidade. Nuno Palma, historiador económico com experiência internacional e atento observador do caso português, defende o contrário: criaram dependência, distorceram prioridades, premiaram a má governação e travaram reformas decisivas. Portugal é o exemplo-laboratório deste vício: milhares de milhões em investimento, estradas e programas, que coexistem com estagnação e divergência face à Europa. Com dados, estudos científicos e exemplos concretos colhidos em vários Estados-membros da União Europeia, este livro desmonta um dos maiores dogmas da integração europeia e lança uma pergunta incómoda: e se o dinheiro de Bruxelas for parte do problema, e não da solução?"

 

          Confrontado pela revista Sábado – "Já recebeu fundos europeus, mas defende o fim do Fundo de Coesão. Vê alguma contradição?" –, o entrevistado Palma nega ter-se candidatado directamente a quaisquer fundos europeus:

 

          "Ainda que tivesse esse direito. Recebi um empréstimo bancário no âmbito do IFRRU [Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas]. Quem me concedeu o empréstimo foi um banco português. À partida, nem precisava de saber qual a composição desse empréstimo. Logo, em rigor, nunca me candidatei a fundos europeus. Neste caso, estive na mesma posição da esmagadora maioria dos portugueses que 'beneficiam' dos fundos sem se candidatarem a eles, num país em que, como falámos, 90% do investimento público em anos recentes foi pago com esses fundos. Não seria possível sair de casa sem 'beneficiar'! É uma questão à parte de ser contra ou a favor da existência deles... e seria um incentivo absurdo à censura e ao clientelismo dizer que só pode criticar quem não 'beneficia'. Qualquer cidadão português recebeu fundos europeus. Basta sair de casa. Todos os que pagamos impostos, beneficiamos das escolhas que o Estado faz, dos investimentos que faz, das políticas que apoiam tudo isso. Concorde ou não com elas. Também beneficio dos investimentos públicos, como qualquer cidadão".

 

          Ora então vamos por partes.

 

          O IFRRU 2020 não concedia subsídios a fundo perdido, mas sim empréstimos em condições mais favoráveis do que as do mercado, com maturidades até 20 anos e taxas de juro reduzidas, e destinava-se à reabilitação integral de edifícios (habitação ou outras actividades) e incluía componentes de eficiência energética – tudo num único pedido de financiamento. Funcionava como um instrumento financeiro rotativo, combinando várias fontes: 1) Fundos europeus estruturais; 2) Banco Europeu de Investimento (BEI) e Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa (CEB), que alavancaram os fundos europeus com capital adicional.

 

          Estes recursos eram depois canalizados através de bancos comerciais seleccionados por concurso (Santander, Totta, BPI e Millennium BCP), que disponibilizavam os produtos financeiros aos beneficiários finais (como aconteceu com Nuno Palma). No total, o instrumento atingiu uma capacidade de financiamento de 1.400 milhões de euros, gerando um investimento estimado de cerca de 2.000 milhões de euros.

 

          Conclusão: Nuno Palma, historiador económico, diz que não concorreu directamente a nenhum fundo europeu, embora soubesse que o IFRRU era financiado pela União Europeia, por via dos juros bonificados. E sabia que este programa, em particular, dependia de fundos europeus.

 

                                                       IFRRU2020



          Palma pagou uma reduzida parte dos juros ao banco (talvez um quarto ou um quinto do que pagaria se não houvesse este apoio europeu). E portanto, em bom rigor, não recebeu dinheiro, embora tenha realizado uma poupança: em vez de uma transferência monetária, pagou menos do que teria de pagar caso não tivesse ficado ao abrigo do IFRRU (a parte dos juros que Palma não pagou ao banco foram garantidos pela UE).

 

          O que, na prática, vai dar no mesmo: Palma beneficiou de fundos europeus, tal como 90% por portugueses. A diferença é que 89,9999% dos portugueses não escreveu um livro opondo-se aos fundos europeus, criticando-os duramente. E a grande maioria não se candidatou de facto a fundos europeus. Nuno Palma candidatou-se a um Fundo de Revitalização Urbana que sabia ser financiado, em grande medida, por fundos europeus. Assim, quando afirma na entrevista "Logo, em rigor, nunca me candidatei a fundos europeus” o que ele está a fazer é brincar com as palavras.

 

          Aqui chegados, as perguntas são inevitáveis.

 

          Será que Nuno Palma, em O Vício dos Fundos Europeus. As consequências da política de coesão e por que razão deve terminar, analisa as "consequências" do IFRRU?

 

          Ou o eventual impacto negativo do IFRRU e de outros subsídios equivalentes ("criação de dependências, distorção de prioridades, prémio à má governação e travão das reformas decisivas")?

 

          Desenvolve ele o mesmo tipo de argumentação que apresentou à revista Sábado, para justificar a "fatalidade banal" da sua própria incoerência?

 



          De facto, ainda ontem, na rede social X, Palma evocava o seu livro a propósito de uma notícia assinalando que o PRR tinha sido usado para financiar habitação a diversas famílias em Penafiel. Pelos vistos, os outros, mesmo que em situação de aparente necessidade, não beneficiam da complacência moral que Nuno Palma generosamente dispensa a si próprio.


        



          Acrescente-se que, há coisa de uns anos, Nuno Palma criticou, na mesma rede social X, o uso do PRR para construir casas em Oeiras, com o argumento falacioso de que o município presidido por Isaltino Morais é uma das zonas mais ricas do país. É a chamada lógica da batata: se Oeiras é uma das zonas mais ricas do país, todos aqueles que habitam em Oeiras são ricos, logo, o PRR não deve ser aplicado em Oeiras...

 

          (JÁ AGORA: sabem onde fica, por uma espantosa coincidência, a casa de Nuno Palma apoiada pelos fundos europeus? Quem disser OEIRAS, acertou.) 







          Entendamo-nos. O que está aqui em causa não é uma questão de legalidade, mas sim de ética, de moralidade e de coerência intelectual: um académico e historiador económico que apresenta como tese principal da sua última obra a ideia de que os fundos europeus são a principal causa do atraso e da pobreza em Portugal, afinal, beneficiou objectivamente desses mesmos fundos para reabilitar uma casa em Portugal, de que é proprietário, quando nela, aparentemente, não reside.

 

          A não ser que a casa esteja a ser utilizada com fins económicos, não se consegue perceber como poderá este uso de fundos europeus de alguma forma contribuir para o desenvolvimento do país. Sobretudo quando Nuno Palma, por exemplo, critica o investimento em habitação social ou estradas...

         

          Que Palma não reside em Portugal é o que se depreende, pelo menos, da informação constante na página do Ciência Vitae (sistema nacional de gestão curricular de ciência e tecnologia em Portugal, que funciona como uma plataforma única onde estudantes, investigadores e docentes podem criar, gerir e promover o seu currículo científico). Podem consultá-la aqui.

        

          Desde 1 de Agosto de 2017, Nuno Palma é professor de carreira (ou do quadro) na University of Manchester (Reino Unido), mais concretamente:

 

          1) Assistant Professor (University Teacher), entre 1 de Agosto de 2017 e Julho de 2020;

          2) Associate Professor (University Teacher), entre 1 de Agosto de 2020 e 31 de Maio de 2023;

          3) Full Professor (University Teacher), entre 1 de Junho de 2023 e a actualidade.

 

          Nuno Palma reside, portanto, em Inglaterra/Reino Unido.

 

          Isto conduz-nos a outra questão: Nuno Palma não beneficiou apenas uma vez de fundos europeus.

          De novo, vamos por partes.

                   

          Há alguns anos, Nuno Palma candidatou-se a um fundo público, o Programa de Estímulo ao Emprego Científico (CEEC), criado pelo Decreto-Lei n.º 57/2016 com o objectivo de combater a precariedade e promover a contratação de investigadores doutorados em instituições científicas e tecnológicas em Portugal.

 

          O objectivo era fazer face à situação de extraordinária precariedade que afecta o sistema científico nacional, entendido, quase unanimemente, como crucial para o desenvolvimento do país, e milhares de investigadores que viveram décadas em situações precárias e sem acesso ao 13º ou ao 14º meses, ao subsídio de desemprego e a tudo o que um contrato de trabalho oferece.

         

          Como outros programas geridos pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), também este é apoiado pela União Europeia, através de cofinanciamento por fundos comunitários. Embora o programa seja administrado, a nível nacional, pela FCT, as verbas europeias suportam uma parcela muito significativa dos custos com os contratos dos investigadores doutorados.

 

          Na prática, a FCT celebra contratos-programa com as instituições de acolhimento e os custos são pagos combinando verbas do Orçamento do Estado (fundos nacionais) e recursos financeiros europeus.

 

          Actualmente, as taxas de cofinanciamento europeu para contratos na região da Grande Lisboa (Região Mais Desenvolvida) oscilam entre os 40% e os 50% do total dos valores a atribuir a cada investigador (2.134,32 euros mensais). Bem mais no resto do país.

         

          O contrato de Nuno Palma teve início a 2 de Maio de 2019 e terminou a 1 de Maio de 2022 (pelo menos; mas note-se que em 2025 mantém a dupla afiliação ICS/Manchester como continua a agradecer o contributo da... FCT).

 

          Segundo o Relatório de Actividades 2022 do Instituto de Ciências Sociais (ICS), na página 47:

         

          "Prosseguiram também projetos individuais, no âmbito da sua afiliação ao ICS através dos 'Concursos Estímulo Individual' da FCT, quatro investigadores que integram este GI – Duncan Simpson, Renato Pistola, Valerio Torreggiani e Nuno Palma (este último em regime parcial)". Consultar aqui.

  

          Em regime parcial? Pode um professor universitário do quadro beneficiar do Programa de Estímulo ao Emprego Científico (CEEC)? Sim, mas apenas em duas situações:

 

          1) Em regime de suspensão (licença sem vencimento): Se tiver assinado um contrato definitivo (de carreira ou do quadro) numa universidade inglesa, terá de solicitar a suspensão do seu contrato do programa ou da sua bolsa junto da FCT, uma vez que estes contratos normalmente exigem exclusividade em Portugal e dedicação ao projecto.

 

          2) Através de comissão de serviço ou mobilidade: Pode negociar com a instituição de acolhimento em Portugal e com a FCT uma alteração temporária das condições do projecto, desde que essa estadia em Inglaterra reforce o plano de trabalhos aprovado.

 

          Seria importante, por uma questão de rigor (ele que é tão lesto a apontar o dedo e a falar do abuso dos dinheiros públicos) que Nuno Palma esclarecesse isto: solicitou licença sem vencimento em Manchester ou pediu ao ICS para o CEEC ser em tempo parcial (sempre, porém e apenas, temporariamente) ?

 

          Tanto quanto sei, raros são aqueles que, em Portugal, podem beneficiar do CEEC (mesmo sem dedicação exclusiva) e, simultaneamente, ocupar um lugar de professor do quadro (docente com vínculo permanente/contrato de trabalho por tempo indeterminado com a universidade, garantindo estabilidade de emprego).

 

          Desconheço também situações em que os beneficiários do CEEC têm um cargo permanente no estrangeiro. Repare-se, e por hipótese: se isto fosse possível, os grandes académicos internacionais podiam, sem qualquer dificuldade, vir a Portugal obter um reforço do salário (qualquer pessoa pode candidatar-se ao CEEC, só tem de desenvolver a sua actividade no país). Bastava, para isso, ter dupla residência fiscal (o que é ilegal). E, assim sendo, o propósito de ESTIMULAR o emprego científico em Portugal ver-se-ia defraudado.

 

          Resumindo: tenho muitas dúvidas de que o CEEC sirva para financiar investigadores ou professores que têm posições no quadro. A ser possível, isso contraria o espírito e o propósito da lei, que é, evidentemente, fomentar o emprego científico (e não dar dinheiro a quem já tem emprego).

 

          Tudo indica, pois, que Nuno Palma terá acumulado, durante anos, duas fontes de rendimento: o salário de Manchester (o salário principal, presume-se) e o do CEEC (este último, nunca é demais sublinhar, apoiado por fundos europeus, segundo o próprio Palma causadores do nosso "atraso").

         

          Para beneficiar dessa espécie de "reforço salarial", o historiador económico Nuno Palma, crítico feroz e implacável dos fundos europeus, não apenas voltou a "mamar" na generosa teta dos fundos de Bruxelas, como ainda "roubou" uma vaga a um investigador precário, atirando-o para o desemprego (ou mantendo-o nele).

 

          Ou seja, e em direitas contas: alguém que vive em Portugal e aqui desenvolve a sua investigação científica não teve direito a um emprego e a um salário para que o doutor Nuno Palma pudesse receber um complemento do seu vencimento.


                                      "Pura hipocrisia"

          Outras questões poderiam ser levantadas: de que forma o investimento de Portugal em Nuno Palma, em detrimento de outro investigador, reverteu para o sistema científico nacional?

 

          A sua produção científica reverteu para o país ou para a Universidade de Manchester e o Reino Unido?

 

          E Nuno Palma desenvolveu a investigação no país, como estabelece o regulamento do CEEC?

 

          Se foi mesmo assim que as coisas se passaram, é isso justo e moral? No limite, será isso legal?

 

          Ficam as dúvidas, somente dúvidas. Agora, ele que responda.

 

 

À memória de Diogo Ramada Curto (1959-2026), 

a quem Nuno Palma chamou “desonesto”



                                                                        João Pedro George







 

 

 

 

 











terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Príncipe Maquiavélico?


 




“Todos vêem o que tu aparentas ser, poucos sabem realmente aquilo que tu és;

e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos.”

Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Capítulo XVIII, 1532

 

No 40.º aniversário do noivado de Carlos de Inglaterra

e Diana Spencer, a 24 de Fevereiro de 1981.

 



Numa recente visita virtual à KPMG para assinalar os 150 anos da empresa, a Rainha Isabel II falou através de uma plataforma electrónica com sócios e funcionários. Entre eles estava John McCalla-Leacy, ex-atleta olímpico, sócio da KPMG e o primeiro negro a chegar ao Conselho de Administração da empresa.

 

Nascido em Londres, filho de pais jamaicanos, cresceu num típico bairro operário com um ambiente duro. Durante a conversa, John McCalla-Leacy pediu à Rainha para transmitir o seu agradecimento ao Príncipe de Gales pela oportunidade que, através da sua fundação The Prince’s Trust, recebeu enquanto jovem e que lhe permitiu encontrar novos horizontes e chegar onde chegou.

 



 

Isabel II realçou o orgulho que o Príncipe de Gales tem na The Prince’s Trust, uma organização que ao longo da sua história de quase 45 anos ajudou centenas de milhares de jovens de ambientes desfavorecidos a encontrar a sua oportunidade de mobilidade social, de fazer com que o elevador social funcione.

 

Já há dois anos, a longeva Rainha, sublinhando o privilégio de qualquer mãe fazer um brinde nos 70 anos do filho, lhe fez o rasgado elogio de o considerar capaz de ombrear com qualquer herdeiro do trono da história, “um campeão da conservação das artes, um grande líder da caridade (...), entusiasta e criativo”.

 

Contudo, poucas pessoas associarão o Príncipe de Gales com estas características ou com estes elogios ou, sobretudo, com o extraordinário serviço que vem prestando ao longo dos anos, tal é a força mediática que consistentemente o oblitera, em detrimento dos revezes da sua vida matrimonial ou das roupas usadas pela sua mulher ou pelas suas noras.

 

O Príncipe de Gales será uma vítima precoce da ‘cancel culture’, destinado a ver vilipendiado nos média e nas redes sociais, diga o que diga – ainda que diga o que está certo.

 

* * *

 

Quando Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe, a obra que perpetuou o seu nome enquanto autor mas sobretudo enquanto adjectivo para qualificar a perfídia e a falta de princípios, já Henrique VIII reinava em Inglaterra com Catarina de Aragão, a primeira das suas seis mulheres, a seu lado.

 

Notável pela brutalidade da sua análise e pela forma crua como subjuga princípios morais à concretização dos objectivos de poder, O Príncipe parece falhar na previsão da importância da vida matrimonial dos príncipes na manutenção desse poder. Tivesse Maquiavel vivido mais vinte anos e faria certamente uma adenda às edições subsequentes.

 

De facto, de Henrique VIII e memória colectiva retém pouco mais que a mnemónica “divorced, beheaded, died, divorced, beheaded, survived” para memorizar a sequência prodigiosa de mulheres com que tentou, sem sucesso a longo prazo, perpetuar nos seus descendentes a linhagem dos Tudor.

 

Pouco importam os seus grandes feitos políticos e as suas notáveis vitórias diplomáticas. Foi, para memória futura, o rei obeso que, para se divorciar, originou uma cisão na Igreja que dura até aos nossos dias e que tratou cruelmente seis rainhas, sempre em busca de um herdeiro.

 

O actual Príncipe de Gales parece estar há mais de 30 anos enredado em problema semelhante: tudo o que faz de bem parece evaporar-se da memória colectiva. A menção do seu nome desperta nas pessoas apenas a reacção às suas desventuras matrimoniais. A quarta temporada da série The Crown, da Netflix, abusa dessa imagem, inventando e distorcendo factos sem pudor, nem piedade. De tão bem feita que está, os espectadores facilmente esquecem que estão a ver uma ficção, ainda por cima muito parcial.

 

Ao longo dos episódios é-nos mostrado um príncipe que apenas se incomoda com a sua mulher, sem que se lhe veja qualquer acção positiva – num contraste com o Carlos da temporada anterior, preocupado em sublinhar a sua identidade e em vincar diferenças com uma instituição que é mostrada com algum do seu arcaísmo. Sobretudo, num contraste absurdo com a realidade.

 

É inequívoco que as questões matrimoniais foram, ao longo dos séculos, fundamentais para a realeza – e para as nações. O Padre António Vieira sintetizou-o de forma crua ao dizer que “reino sem sucessor é despojo”, no sermão que pregou pelo nascimento da Infanta D. Isabel Luísa Josefa, futura Princesa da Beira, filha de D. Pedro II, então Príncipe Regente, e da sua primeira mulher.  

 

A escolha de uma futura rainha (ou de um sogro poderoso) foi uma arma política importantíssima desde os alvores das monarquias como as conhecemos. Até meados do século XX, a escolha de uma consorte foi condicionada por factores políticos ou dinásticos, e eram, nas dinastias reinantes, verdadeiras decisões de Estado.

 

Muito embora tenha perdido a importância para a sobrevivência das nações a que o Pe. António Vieira aludia no seu sermão, a vida matrimonial do príncipe, do rei, terá sempre relevância constitucional e dinástica, seja pela posição que  tributo  de Inglaterra  assiste nas rr, preocupado em sublinhar a sua identidader a sua oportunidade de fazerr o à consorte estará destinada, seja pelo objectivo habitualmente subjacente ao casamento de um herdeiro, que é o de garantir a sucessão e a continuidade da Casa.

 

Não deixa de ser uma ironia que, quando perdeu boa parte a relevância para a sobrevivência do Estado, seja uma questão matrimonial a pairar de forma tão persistente como avassaladora sobre um reinado por começar.

 

Manifestamente prejudicado pela preponderância que a percepção da sua vida pessoal assumiu na opinião pública, o desempenho de Carlos enquanto herdeiro do trono – uma posição difícil, de esperar, pacientemente e certamente sem nunca o desejar, que a mãe morra, para se cumprir o destino que lhe estava reservado quando veio ao mundo – é totalmente ignorado. E, no entanto, destaca-se pelo acerto das causas que abraçou.

 

* * *

 

Mobilidade Social, Ambiente e Arquitectura serão os temas mais marcantes da acção desenvolvida pelo Príncipe de Gales desde que, tendo completado a sua educação universitária e militar, se estabeleceu como herdeiro do trono a tempo inteiro, há bem mais de 40 anos.

 

Com cerca de 7.400 libras esterlinas da indemnização que recebeu ao sair da Marinha, fundou a The Prince’s Trust, ou Fundação do Príncipe, porventura a sua mais notável criação. Através de uma rede de micro projectos e de ligações a empresas, constituiu uma rede para apoiar a formação e a empregabilidade de jovens oriundos de ambientes desfavorecidos.

 

Quase um milhão de jovens terão sido ajudados ao longo de quatro décadas, com um impacto económico enorme mas sobretudo com uma relevância social incalculável, através de apoio financeiro de talentos e de start-ups, de formação, de estágios.

 

São muitos os testemunhos de pessoas que, ao longo destes 40 anos, foram ajudados pela Fundação do Príncipe. De actores a músicos, passando por empresários que começaram com um apoio de 1000 libras da Fundação e acabaram a facturar 30 milhões anuais e a chegar à direcção de design da Coca-Cola.

 



Consciente do impacto da pandemia nos mais jovens, nos mais desfavorecidos e também nas instituições que vivem da angariação de fundos para os ajudarem, o Príncipe de Gales tem-se empenhado em encontrar novas formas de angariar fundos para o que o trabalho notável da sua organização não seja travado pelo Covid-19 e “a crise não defina as oportunidades de uma geração”.

 

Num vídeo publicado em Junho de 2020 refere o desafio de vencer em tempos do caos e da desordem económica, mas que “foi por isso que a minha Fundação foi fundada, para ajudar pessoas para um futuro melhor”. Mais do que boas intenções, a Fundação tem resultados concretos para apresentar.

 

Será porventura no Ambiente que a intervenção de Carlos de Inglaterra é mais constante ao longo do tempo. As primeiras intervenções sobre o assunto remontam ao início dos anos 70, quando o plástico ainda parecia a última maravilha e ninguém conseguiria convencer o mundo ‘moderno e promissor’ dos riscos que a poluição representava.

 

Ainda recentemente, falando com evidente paixão e conhecimento de causa, o Príncipe de Gales lançou mais uma iniciativa para sensibilizar o mundo para necessidade de para a destruição da natureza com efeitos permanentes, pondo em causa o futuro dos nossos filhos e netos. Mais do que alertar, a iniciativa pretende, sector a sector, analisar de forma concreta a forma como se pode descarbonizar a indústria e torná-la mais sustentável e amiga do ambiente.

 


 

Durante a polémica visita do polémico Presidente Trump a Londres em 2019, confrontou-o com o seu negacionismo das alterações climáticas, apelando à mudança de posição, mesmo sabendo de antemão a parede que tinha diante dele. Já este ano, representou o Reino Unido na cimeira virtual pelo ambiente que o Presidente Macron organizou e quase todos os meses incentiva os ingleses a fazerem algo positivo a pensar no Mundo em que vivemos.

 

A intervenção de Carlos de Inglaterra nos diferentes domínios e não apenas nos enumerados, mereceria uma análise mais exaustiva, que desiludiria porventura os que procuram o brilho de diamantes e de lantejoulas, mas que elucidaria sobre a utilidade, no século XXI, da Monarquia britânica.

 

* * *

 

Maquiavel sublimou a imoralidade ao subjugar os princípios para privilegiar os fins, que tudo justificavam. O autor de O Príncipe defende a dissimulação, a mentira, a aparência, até evitar as boas obras – tudo como forma de manter o poder. Carlos de Inglaterra parece ter feito o contrário.

 

Escolheu admitir os seus erros privados em público. Quando podia ter esperado numa quietude cómoda, decidiu intervir. Fê-lo em nome dos princípios que considera relevantes para a sociedade – mesmo quando (ou sobretudo quando) a maioria, a opinião pública e a opinião publicada, vão em sentido contrário. O que é meio caminho andado para a impopularidade e para se tornar alvo do que se veio a designar a ‘cancel culture’.

 

Passou por defensor lunático do ambiente, quando ninguém via o ambiente em perigo. E, no entanto, há registos do Príncipe, há 50 anos!, a alertar para o perigo que os plásticos representavam para os oceanos.

 

Passou por retrógrado quando ainda nos anos 70 se insurgiu contra a destruição da construção tradicional e a devastação do campo britânico para construir bairros descaracterizados, sem alma e insustentáveis. E, no entanto, a realidade tem vindo a dar-lhe razão, com o abandono sistemático de prédios e bairros construídos nessa época ou com a constatação de que se transformaram em locais nada aconselháveis.

 

Escreveu a ministros e a Primeiros-Ministros, procurando usar a sua influência para mudar decisões que considerava erradas. Sucessivos governantes, especialmente trabalhistas, queixaram-se desse método de agir na margem (ou no vazio) da constitucionalidade – chegando a questionar no Parlamento o direito de o Príncipe fazer essa ‘pressão’.

 

O The Guardian, sempre muito pouco monárquico, procurou ter acesso aos memorandos que acabaram conhecidos por “Black Spider memos” e que, na opinião de alguns, mostravam um Príncipe a ultrapassar as barreiras constitucionais de intervenção nos assuntos de governação.

 

Os documentos acabaram por ser divulgados por ordem judicial e mostravam uma enorme latitude de intervenção política, mas sobretudo o entusiasmo que Carlos de Inglaterra colocava na defesa dos assuntos que abordava. A questão tornou-se de tal forma relevante que há dois anos o Príncipe teve de esclarecer que, enquanto rei, não actuaria da mesma forma.

 

* * *

 

A longuíssima era isabelina que a Inglaterra vive desde 1952 é inédita por muitos motivos. Não é apenas o reinado mais longo de sempre, assistindo sob o peso de uma mesma coroa à passagem solene de primeiros-ministros, papas e presidentes. É também aquele que é sujeito a um escrutínio mais exigente, não apenas da soberana, mas de toda a sua família, de cada gesto privado e público.

 

Se é verdade que o poder de Isabel I de Inglaterra (r. 1558-1603) era bastante maior do que o da sua homónima, não é menos verdade que as mudanças sociais, políticas, religiosas e tecnológicas nunca foram tão profundas como no actual reinado. O reinado que se segue começará num mundo radicalmente diferente daquele, ainda reverencial, que viu uma jovem de 26 anos tornar-se Rainha de Inglaterra.

 

Em  1992, para comemorar os seus 40 anos de reinado e num momento de enorme fragilidade pessoal, Isabel II pronunciou aquele que é certamente um dos mais relevantes discursos da sua vida. Para a história ficou conhecido como o discurso do “annus horribilis”, mas é na reflexão da Rainha sobre a importância do decurso do tempo e da retrospectiva no julgamento dos acontecimentos, que está a parte fundamental.

 

Usando palavras que pareciam ecoar as de Cristo – «Quem de vós estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra!» (Jo 8, 7) – Isabel II pediu compaixão, tolerância e gentileza, ainda que reconhecendo a necessidade de mudança e de adaptação de todas as instituições, incluindo o Monarca.

 

É inequívoco que a Monarquia tem procurado adaptar-se às novas circunstâncias – para permanecer relevante e útil a uma sociedade em que muitos procuram mostrá-la como desajustada.

 

O Príncipe de Gales tem sido o líder desse objectivo de modernização e de adaptação à nova realidade, como qualquer análise séria e descomprometida permitirá verificar. Tem-no feito, contudo, sem evitar os temas difíceis.

 

A utilidade que procurou dar ao lugar que ocupa foi a resposta a um certo vazio funcional da sua posição. Sem fazer sombra à Soberana, procurar servir o povo britânico e cumprir a divisa que acompanha o seu título: Ich dien (Eu sirvo). Maquiavel ficaria desiludido.

 

Ademar Vala Marques







sábado, 28 de novembro de 2020

Pornhub.



 

https://sol.sapo.pt/artigo/716544/escritorio-de-arnaut-lidera-processo-de-despedimento-coletivo-na-ana






quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Liberdade de Amar e Direito de Morrer (Ensaio Criminalista), por L. Jiménez de Asúa.





Repilo imediatamente, com repugnância e tristeza, a organização, com todo o aparato de legalidade, do extermínio das pessoas atacadas de males incuráveis ou de demência irremediável. Essas comissões encarregadas de se pronunciarem sobre o aniquilamento dos doentes sem salvação e esses estabelecimentos em que se praticaria dificilmente a eutanásia, reclamados por Binet-Sanglé, Binding e Hoche, levantariam furacões de protesto na sentimentalidade do povo, que faria um paralelo entre tais medidas e as que se executam nas grandes cidades contra os cães vagabundos.





segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Amor mundi.

 
 
 
 
 
Ontem falei do livro Losing Earth¸ e é importante percebermos como chegámos aqui, o que poderia ter sido evitado e não foi. Para sabermos como devemos agir no presente, evitando erros pretéritos. Um debate interessante tem a ver com os comportamentos individuais de cada qual, e Bárbara Reis publicou há duas um belo texto sobre isso. Numa crónica da semana passada no Guardian, Oliver Burkeman citava um texto famoso de 2005, da autoria do filósofo Walter Sinnott-Armstrong. Vale a pena lê-lo, chama-se «It’s Not My Fault: Global Warming and Individual Moral Obligations». Sinnott-Armstrong não nega a existência de alterações climáticas, ao contrário de muitos idiotas e criminosos. Nega, isso sim, que cada um de nós tenha a obrigação individual, de um ponto de vista ético, de contribuir para o combate contra as alterações climáticas. A resposta de Burkeman é sintética, mas acertada: a questão não é tanto a de saber se o esforço individual de cada um faz, de facto, alguma diferença (quanto a mim, faz, quer pelo contributo que sempre dá, quer como expressão de preocupação e empatia com os outros e com o mundo envolvente). A questão, diz Burkeman e bem, não é racional, é acima de tudo emocional, tem a ver com o amor, o nosso amor à Terra. Mesmo que racionalmente não haja motivos para ter um comportamento amigo do ambiente, o amor mundi de que falava Hannah Arendt parece-me um bom argumento para mudar de vida. Antes que a vida acabe, de uma vez por todas.
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 30 de março de 2019

Sobreviventes de guerra.

 
 






 

Só agora vi o trabalho de Isa Leshko, devido à notícia da publicação do seu livro Allowed to Grow Old. Nem reparei que o PÚBLICO já tinha falado desta fotógrafa que capta imagens de animais velhinhos, de cãs brancas, que conseguiram chegar as idades provectas porque não os mataram entretanto – ao contrário do que sucede a milhões como eles. Pior ainda, mortos em condições bárbaras, depois de terem tudo vidas (curtas) em condições não menos bárbaras. Os animais que Isa Leshko fotografa são sobreviventes de uma guerra suja. Uns felizardos, portanto. Podemos comer carne, mas devemos saber que carne comemos, e como viveram e morreram os que nos dão a sua carne e o seu sangue. A partir do momento em que comemos animais, o bem-estar animal é uma preocupação também nossa, da nossa saúde de carnívoros, coisa que muitos teimam em não perceber. Aqui não há ideologia nem esquerda ou direita; há saúde pública, nossa e dos animais que comemos.