Nascida na Albânia de Estaline e espetadora de um
regime em ruínas:
Um relato épico sobre o custo da liberdade, uma peça
para a História
Confesso que beneficiei de ter lido
previamente outra obra maravilhosa de Lea Ypi, Indignidade, Uma Vida
Reimaginada, Casa das Letras 2026, esta em volta de uma investigação no
Arquivo dos Serviços Secretos Albaneses, uma busca para compreender a avó, e
então a Albânia surge como o lugar que envolve o leitor num tempo feroz. Livre,
Como Me Tornei Adulta No Fim Da História, também Casa das Letras 2024, é
marcado por uma narrativa quer mágica quer comovente de uma menina de onze anos
educada no socialismo albanês, tudo se inicia quando ela se agarra a uma
estátua de pedra de Estaline, decapitada pelos protestos dos estudantes,
naquele momento em que a utopia prometida entra em convulsão, e depois em
estilhas, um povo em fuga, um sistema financeiro em colapso, tudo cabe nestas
memórias prodigiosas em que a autora se questiona vezes sem conta sobre o custo
da liberdade.
Para aquela menina de onze anos,
Estaline sorria com os olhos, aparece despretensioso aquela estátua mutilada
que a menina observa no pequeno jardim perto do Palácio da Cultura, ela se
sentia tão segura, tão abrigada por aquele regime que profetizava o fim do
socialismo e o princípio do comunismo. “O socialismo dava-nos liberdade. Os
manifestantes estavam enganados. Ninguém estava à procura de liberdade. Já eram
todos livres, assim como eu, simplesmente ao exercerem essa liberdade, ou
defendendo-a.” Em estado de choque, corre para casa, vamos ser inseridos numa
atmosfera familiar, dela guardo reminiscências quando li o magnífico livro Indignidade,
uma comovente elegia à sua avó. Esta vai reaparecer novamente, e sempre em
termos luminescentes:
“Ela nasceu em 1918, sobrinha de um
paxá, segunda filha de uma família de destacados governadores provinciais do
Império Otomano. Quando tinha 13 anos era a única rapariga do Liceu Francês de
Salónica. Quando tinha 15, saboreou o primeiro whisky e fumou o primeiro
charuto. Quando tinha 18, recebeu uma medalha de ouro por ser a melhor da
escola. Quando tinha 19, visitou a Albânia pela primeira vez. Quando tinha 20,
tornou-se conselheira do Primeiro-Ministro, sendo a primeira mulher a trabalhar
na Administração Pública. Quando tinha 21, conheceu o meu avô, no casamento do
rei Zog. Quando tinha 23, casou-se com o meu avô. Ele era socialista, mas não
revolucionário. Ela era vagamente progressista. Ambos provinham de famílias
conservadoras de renome, e que se haviam espalhado pelo Império Otomano ao
longo de gerações (…) Quando tinha 28, o meu avô foi preso, acusado de promover
agitação e de fazer propaganda, e condenado, primeiro à forca e depois à prisão
perpétua, mais tarde comutava para 15 anos na cadeia. Quando fez 40 anos muitos
dos seus parentes tinham sido executados ou haviam cometido suicídio, e os que
sobreviveram dividiam-se entre o manicómio, o exílio e a prisão.”
São fundamentalmente os pais e a avó
que ocupam o espaço primordial da narrativa, Lea será educada sobre a gesta
heroica da luta contra as forças italianas e alemãs, a defesa da liberdade, a
intransigência da independência, a luta permanente contra os revisionistas
jugoslavos e soviéticos e, mais tarde, os vira-casacas chineses. A partir de
1990, no rescaldo dos acontecimentos do Muro de Berlim e das mudanças que se
estavam a operar em toda a Europa do Leste, o sopro da mudança chegava à
Albânia, havia discussões acesas em casa de Lea, no ambiente dos amigos.
A autora evoca o que lia e o que se
era inculcado no meio escolar e familiar, como as crianças viam os turistas e
os seus estranhos costumes. É uma narrativa que nos deslumbra no quadro mental
em que vivia aquele país, as conversas encriptadas para nunca mencionar o nome
das prisões, e assim chegamos ao fim da História, depois do 1º de maio de 1990,
a Albânia foi declarada oficialmente um Estado multipartidário, já tinham
passado quase 12 meses desde que Ceausescu fora fuzilado na Roménia, tinha
começado a guerra do Golfo, aparecia o maior partido de oposição; foi então que
a avó lhe contou toda a sua vida, isto enquanto ia desaparecendo o socialismo e
o ideal comunista, agora só sobrava a palavra liberdade.
Estamos na autora dos novos tempos,
atos eleitorais, governos instáveis e impotentes, tiros nas ruas, greves, era
como se estivesse a viver em terapia de choque. “A nossa economia planificada
era vista como sendo equivalente à loucura. A cura consistia numa política
monetária transformadora: equilibrar orçamentos, liberalizar preços, eliminar
subsídios governamentais, privatizar o setor público e abrir economia ao
comércio externo.”
Virá, entretanto, uma carta de Atenas
a anunciar que havia bens que pertenciam à família da avó, irão à Grécia, onde
Lea não se sentirá feliz, anseia rapidamente voltar a casa. Há multidões em
fuga na Albânia, os barcos atravessam o Adriático, as autoridades italianas
recambiam praticamente todos. Sucedem-se as falências em cadeia, aparecem
sociedades financeiras com os chamados empréstimos piramidais, muita gente
perdoará tudo. O pai encontrará emprego, irá mesmo ter uma malograda
experiência política, a mãe será ativista na oposição, a relação dos pais
conhecerá uma gradual deterioração, a mãe partirá para Itália, o pai será
finalmente um quadro com valor reconhecido.
É neste país estilhaçado que se ouve
em permanência a necessidade de reformas estruturais, as assimetrias na Albânia
agudizam-se. Lea conhecerá a sua paixoneta, não haverá reciprocidade. Haverá um
momento em que ela decidirá estudar noutros pontos da Europa. Dá-nos conta de
notas do seu diário em 1997, a Albânia está em perfeito transe. Lea pondera no
início da sua adultez quanto custa a liberdade, as escolas fechadas, tinham
chegado forças de manutenção da paz, havia ajudas internacionais, ela decidiu
ir estudar Filosofia, mais discussões acesas em casa, irá licenciar-se em Roma,
aqui vai começar a sua carreira académica que a vai levar à London School of
Economics. Rememora o que viveu e as mudanças que sonha: “A minha família
equiparava o socialismo à negação: a negação do que quiseram ser, do direito a
cometer erros e a aprender com eles. Eu equiparava o liberalismo às promessas
deixadas por cumprir, à destruição da solidariedade, ao direito de herdar
privilégios e de olhar para outro lado perante a injustiça. Voltei à casa de
partida. Lutar contra o cinismo e a apatia face à política transforma-se
naquilo a que se poderá chamar um dever moral; para mim, é mais uma dívida que
tenho para com todos os que sacrificaram tudo o que tinham. O meu mundo está
tão distante da liberdade quanto aquele de que os meus pais tentaram escapar.
Escrevi a minha história para explicar, para reconciliar, e para continuar a
luta.” Uma obra-prima.
Mário
Beja Santos