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segunda-feira, abril 09, 2018

La Lys: uma mortandade há cem anos.


Há cem anos acontecia o desastre (quase anunciado) de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que eram sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos, apesar de se anunciar uma rendição de contingentes para as horas seguintes. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães, "a importância portuguesa no mundo" e até que Portugal seria invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas esfarrapadas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.

O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão. Houve alguns actos de heroísmo sobre-humano, como o do "soldado Milhões", outro de entre muitos que tinham sido levados da sua aldeia para as trincheiras, mas a maioria daqueles homens a quem chamaram soldados sem lhes ensinar esse estatuto debandou ou lá ficou.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares, violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas as menos aí defendíamos o que era nosso e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo, enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.

Paz às suas almas, desses pobres soldados tombados a 9 de Abril de 1918. Há cem anos.


* Texto escrito há dez anos neste mesmo blogue, e devidamente actualizado.











sábado, novembro 04, 2017

Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?


Uma das trivialidades que mais se tem repetido nos últimos tempos, a propósito da situação na Catalunha, é que Portugal "deve a sua independência" aos catalães, em razão da revolta que por lá estalou em 1640 ter permitido que as tropas espanholas se concentrassem naquele território e se desviassem deste rectângulo mais a oeste. Conceitos de independência à parte, os defensores desta tese nem notam que estão a reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados, e que circunstancialmente têm um grupo grande que o pretende formar um.

É bizarro que se considere sequer que os seguidores de Pau Claris tivessem pensado um segundo que fosse em Portugal. Mas e se a tese da gratidão que devemos aos catalães fosse correcta? Nesse caso, pecaria por defeito. É que seria mais fácil escolher quem é que não estava em guerra com a Espanha nesses anos quarenta do século XVII do que o contrário, incluindo (ou sobretudo) nos seus próprios domínios.

A década começou com a Guerra dos Trinta Anos contra a França, as Províncias Unidas (Holanda), um ex-domínio que procurava manter, e os adversários dos Habsburgos em geral, além de algumas batalhas navais com a Inglaterra. Os tercios espanhóis, uma máquina de guerra temível ao tempo, combatiam nos Pirinéus, na Flandres, nos Países Baixos e na Alemanha, e obtiveram alguns êxitos, como a tomada de Breda, imortalizada por Velasquez.

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Em 1640 rebentou a referida revolta catalã, ou "Guerra dos Segadores", que começou por ser uma revolta popular contra os abusos das tropas aí estacionadas, e que acabou por levar a Generalitat a proclamar a República e a aclamar posteriormente Luís XIII como soberano. A revolta e a perda de território para o inimigo levaram a que Espanha deslocasse mais tropas para a região, que seria recuperada (parte dela, já que Perpignan ficou para os franceses) apenas em 1659. É este o pretexto para se dizer que "Portugal deve a sua independência à Catalunha".

Mas ao contrário do que se pensa, a Catalunha não foi a única rebelião ibérica. Uma conspiração andaluza, encabeçada por Grandes de Espanha, começando pelo nobilíssimo Duque de Medina Sidónia  (irmão da já então Rainha de Portugal D. Luísa de Gusmão), impediu que tropas espanholas se concentrassem perto de Portugal. A conspiração acabou por ser descoberta e os seus autores punidos com o cárcere e perdas de bens e regalias, mas ficou na dúvida quais os reais motivos da conjura, havendo quem creia que se pretendia mesmo a secessão da Andaluzia com Medina Sidónia como novo soberano de Sevilha, com o auxílio do real cunhado.

Mais tarde, em 1648, outro grupo de conspiradores, estes em Aragão, veriam também os seus planos desfeitos. Aqui a conjura era ainda mais ambiciosa: pretendia, com auxílio de França e Portugal, separar o velho reino de Aragão de Castela, apoiando a Catalunha, oferecendo alguns territórios aos franceses e a Galiza a Portugal. Infelizmente para os galegos, também esta não conseguiu ir avante.

Por essa altura já tinha rebentado a revolta contra os vice-reis de Nápoles, na época também sob a coroa dos Habsburgos, chefiada pelo pescador guerreiro Manasiello. Num primeiro momento, as tropas no terreno sufocaram a revolta e liquidaram Manasiello, mas pouco tempo depois houve novo levantamento, que levou à proclamação da república "régia" de Nápoles, entregando o título de Doge a Henri de Guise. A situação durou menos de um ano, até que os espanhóis, comandados pelo Infante D. João José de Áustria, tomaram de novo a cidade sem grande resistência, depois de uma estratégia de paciência e de conquista gradativa. Só em fins do século XVIII Nápoles teria o seu primeiro rei nascido em sol italiano.

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Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu) são um bom guia da situação

Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos agradecer não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.

sexta-feira, setembro 29, 2017

O fenómeno dos dinossauros municipais


Continuando com o assunto das  autárquicas do último post, há um assunto que não deixa de me espantar, sobretudo pela magnitude que atingiu para estas próximas eleições: o regresso em massa dos "dinossauros" autárquicos. Não são apenas Isaltino Morais, Narciso Miranda (que muito oportunisticamente lançou a sua candidatura em dia do Senhor de Matosinhos, alcunha pela qual era conhecido quando estava à frente da câmara), Valentim Loureiro ou Avelino Ferreira Torres: temos também os regressos de Ana Cristina Ribeiro, a única autarca do Bloco, que volta à arena em Salvaterra de Magos; ou Fernando Costa, que depois de quase 30 anos na CM das Caldas da Rainha e de ser vereador em Loures, se candidata agora a Leiria; ou mesmo o prezado Gabriel Albuquerque Costa, antigo presidente da câmara de Penalva do Castelo pelo CDS e PPM (o último autarca que este partido teve), que depois de ser candidato pelo PS, recandidata-se novamente pelo PSD/CDS.

Exemplos não faltam, de norte a sul, de antigos presidentes de câmara que regressam, quase todos
pelo município que governaram, de Montalegre a Almodôvar, passando por Pombal, Covilhã e Golegã (há excepções, como Fernando Seara, Joaquim Raposo ou o antigo autarca de Castelo de Paiva que concorre agora ao Marco), e casos até de presidentes até 2013 que defrontam os seus substitutos (o referido caso de Salvaterra de Magos, Caminha, Elvas, etc). Normalmente concorrem pelo partido a que pertenciam, mas há, claro, a questão dos independentes. São esses os casos mais bicudos: postos à margem pelo partido, concorrem por listas próprias, muitas vezes com o seu nome e com alguns fiéis seguidores que trouxeram dos seus mandatos. Usam vulgarmente expressões como "muitos cidadãos anónimos têm-me vindo prestar apoio na rua", ou "ponderei durante largos meses e decidi candidatar-me", ou ainda aludem às famosas "ondas de fundo" (muitos surfistas há entre os dinossauros autárquicos).

Mas afinal qual é a razão de regresso destes representantes do Jurássico municipal? Uma real vontade de resolver os problemas da terra? O serviço de missão ao partido? Uma séria indignação com os sucessores? Ou o vício do poder e a vaidade própria de quem se julga um quase proprietário da terra e quer continuar a ser amado/temido no seu quinhão? A avaliar por algumas declarações de representantes da espécie, que falam da gestão municipal como "uma paixão" ou "um vício", a resposta deverá estar aí mesmo. O poder inebria, vicia, por vezes corrompe. Pode ser um "afrodisíaco" mais forte que o dinheiro. E depois, muitos destes antigos autarcas já não sabem fazer muito mais coisas quando se afastam da respectiva ex-câmara, ou simplesmente, como são normalmente pessoas de acção e de execução, não têm espírito para ficar parados. Daí que a possibilidade de regresso cative muitos. Para felicidade de muitos munícipes, mas nem sempre a bem do supremo interesse da terra.

quinta-feira, maio 18, 2017

13 de Maio de 2017


O dia 13 de Maio último, dia do centenário das Aparições de Fátima, vai ficar gravado na memória dos portugueses por muitos e bons anos. Afinal de contas, conjugaram-se os famosos "3 Fs", na sua melhor verão, e não na caricatura depreciativa com que normalmente são chamado à baila.

Mas essa conjugação só se tornou possível uns três dia antes. Se todos os momentos das comemorações de Fátima estavam previstos, e se não houvesse surpresas, tudo correria bem, já a possibilidade do Benfica conquistar o inédito tetra já neste Sábado, precisamente no 13 de Maio, só se colocou quando acabou o jogo em Vila do Conde, no Domingo anterior. E na quarta-feira, a meio da semana, Salvador Sobral qualificou-se para a final do Eurofestival da canção, com as apostas a darem-lhe boas hipóteses. Começou-se a prever que poderia ser um 13 de Maio especial, mesmo para além de Fátima.

Das celebrações pouco há a dizer, já que as palavras não descrevem suficientemente as emoções. As diversas manifestações de Fé, a chegada do Papa a Portugal, celebrada nos ecrãs espalhados no santuário como se fosse um golo marcado num estádio, a chegada ao recinto, o silêncio que se instalou por momentos quando Francisco se encontrava frente a frente com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, e que se repetiria à noite na feérica e lindíssima Procissão das Velas. E no dia 13, volvidos exactamente cem anos sobre os primeiros acontecimentos naquele local, a canonização de Jacinta e Francisco (com a feliz coincidência, mas só mesmo isso, de terem apelidos iguais aos do actual Bispo de Leiria-Fátima, o anfitrião e meu antigo professor de Mundividência Cristã), a a Procissão do Adeus, com o Papa visivelmente comovido, antes do regresso a Roma. a chuva, que tinha parado na véspera, voltou a cair mal sua Santidade deixou solo português.

À tarde, o nervosismo com a recepção ao Vitória de Guimarães. Sem razões para isso. Exibição imperial do Benfica e o inédito tetracampeonato. Mas disso falarei à parte.

À noite, ainda com as comemorações do título, a notícia do triunfo de Salvador Sobral, a primeira vez que uma música de Portugal ganhou a Eurovisão. Cinquenta anos de fiascos e ténues esperanças vingados com a maior pontuação de sempre. Confesso que há já largos anos que não ligava ao evento. Mais: a primeira vez que vi Sobral a cantar Amar pelos Dois não gostei nem da música nem da interpretação, e achei o intérprete estranhíssimo, com aquele visual homeless-chic e aqueles gestos que davam ideia de graves problemas motores. Ou seja, estive longe de "sempre ter acreditado que ele ia ganhar". Com o tempo, vieram as revelações sobre os seus problemas de saúde, as suas preferências musicais, e a sua ainda incipiente carreira, e aos poucos conciliei-me. Na noite da Eurovisão vi a sua entrada, mas já não assisti em directo à notícia da sua vitória, mais embrenhado nas comemorações do Tetra (consegui ver a tempo o seu dueto, aliás muito justo, com a irmã Luísa, autora da música). Obviamente não pude deixar de aplaudir e agora até ouço a música com gosto, vejam lá.
Mas houve um momento incrível que juntou as vitórias do Tetra e dos Sobrais: quando no Marquês de Pombal o speaker de serviço interrompeu a algazarra para anunciar que "o grande benfiquista Salvador Sobral" tinha grande a Eurovisão. e depois dos aplausos, puseram Amar pelos Dois como música de fundo. E o Marquês, mais habituado a manifestações ruidosas, e que ainda há dois anos testemunhou (tal como eu, aliás) cenas de pancadaria e violência, calou-se para ouvir aquela suave melodia. Minutos inolvidáveis, esses de ouvir uma música tão delicada a pôr em silêncio milhares e milhares de adeptos eufóricos.
 
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PS: outra coincidência: é que a estátua do Marquês de Pombal foi inaugurada precisamente a um 13 de Maio, de 1934. Algum adepto não benfiquista que passasse pela imensa praça naquela noite poderia repetir o velho queixume dos republicanos sobre o regresso dos jesuítas: " Desce daí, ó Marquês, que eles já cá estão outra vez".

sábado, maio 13, 2017

Pelos Caminhos de Fátima


Estive a ver a chegada do Papa a Fátima e a procissão das velas. Mesmo o mais empedernidos dos descrentes deve ter sentido uma pontinha de comoção ao ver toda aquela alegria e devoção. Não estou em Fátima, com pena minha, mas não estou especialmente treinado para fazer longos percursos em bicicleta em pouco tempo, como me propuseram, e combinações de última hora acabaram por não surtir efeito. Por isso, assisto às cerimónias pela televisão.
 
Todos os anos sucedem-se as peregrinações a pé até Fátima. A esmagadora maioria dos peregrinos segue pela estrada, com todos os perigos que isso acarreta. Mas não têm necessariamente de o fazer.
Têm caminhos alternativos, por troços secundários e mais seguros, tal como acontece como os que vão para Santiago.
Os Caminhos de Fátima são um projecto do Centro Nacional de Cultura e uma ideia original de Helena Vaz da Silva. Pretendem levar os peregrinos em segurança desde o ponto de partida, seja ele qual for, até ao santuário de Fátima. Para já não há muitos albergues e pontos de descansos. Mas há indicações, muitas, que mostram a quem por eles segue a direcção do seu destino. As setas azuis, em fundo branco ou não, indicam o rumo até à Cova da Iria.

 
Nas últimas semanas, e com a aproximação do Centenário de Fátima, várias equipas de voluntários, entre os quais o escritor destas linhas, entretiveram-se a desenhar ou redesenhar as setas do caminho. Boa parte do traçado é dividido com o Caminho de Santiago, aproveitado para fins idênticos, indo cada uma na direcção inversa do outro. Assim, as setas azuis "esbarram" nas amarelas.

 
Os Caminhos de Fátima dificilmente alcançarão a importância cultural dos de Santiago. Há que recordar que os trajectos até à cidade do Apóstolo vêm desde tempos imemoriais, têm mais de mil anos, e durante séculos foram as únicas vias terrestres a servir esse importantíssimo ponto de peregrinação. Os Caminhos de Fátima nasceram na época do GPS, da net, das autoestradas e do transporte individual, e portanto nunca alcançarão a mesma notoriedade, nem são para já um "clássico" das peregrinações a pé. Mas cumprem o seu propósito, dando aos peregrinos uma segurança que não têm na estrada. Além disso, permitem-lhes conhecer melhor o país, observar mais atentamente a paisagem e descobrir pormenores singulares. No troço que coube à minha equipa, por exemplo, e que começava em Conímbriga, (a mais importante estação arqueológica romana de Portugal), passei por uma aldeia chamada Fonte Coberta que nem consta dos mapas, mas que em tempos acolheu o grão-duque da Toscana Cosme III de Médicis na sua ida para Santiago e o Marechal Soult na sua debandada da 3ª Invasão, por caminhos de floresta onde se praticava motocross, por vales de rios secos e perto de castelos no alto de penhascos aparentemente inacessíveis.
 
Fátima é um ponto de chegada, de fé e de devoção, mas pode ser também um caminho de esforço e de resiliência sem ser um tormento, e sobretudo sem ser um perigo latente que obrigue a caminhar na margem da estrada. Talvez os Caminhos não sejam ainda muito usados nem sejam ainda vistos como a alternativa aos mais conhecidos. Por isso mesmo, este Centenário pode significar não uma oportunidade menos aproveitada mas sim a alavanca para percursos mais seguros e interessantes e que dê  a quem os use uma nova perspectiva do país, até aí escondida pelas "ruas da estrada"e pelo trânsito incessante.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Mário Soares 1924 - 2017


Nunca é fácil resumir o epitáfio do político que representa o regime em que vivemos e o mais representativo do nosso país no último meio século. Mas para começar, Mário Soares é daquelas personalidades que faz parte do meu imaginário desde sempre e que não me lembro de não conhecer. Era ainda pequeno mas soletrava os políticos que conhecia e que eram na altura os mais relevantes do país: Soares (o "bochechas"), Eanes (o "rameanes"),  Balsemão (o "balsas"), o Freitas e o Cunhal. Destes cinco, três ainda estão vivos. Recordo-me ainda de outros, como Mota Pinto, mas os principais eram mesmo aqueles.

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Mário Soares era uma personagem de paixões, e que provoca ele mesmo paixões e ódios. E é, ao mesmo tempo, uma personagem atípica: foge à austeridade que caracteriza boa parte dos políticos portugueses (desde os da 1ª república e da "ética republicana", passando por Salazar, até Cunhal, Cavaco, Eanes e mesmo Passos Coelho), era um bon-vivant, um optimista, não era um mouro de trabalho nem nunca se preocupou em dar essa imagem, nunca se destacou como um aluno brilhante nem por trabalhos académicos e intelectuais, apesar de ter uma enorme bagagem literária, e teve sempre grande empatia com as massas.

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Todas essas características fazem dele uma personagem à parte na política portuguesa. A isso será sempre obrigatório juntar-lhe Maria Barroso, que esteve quase setenta anos ao seu lado, que se tornaria na Primeira Dama mais popular entre os portugueses, e cuja perda, há ano e meio, contribuiu visivelmente para o seu declínio.

Resumamos o seu percurso: filho de um ministro republicano católico, fundador do Colégio Moderno, ainda hoje pertencente à família, chegou a pertencer ao PCP, participou nas campanhas do MUD, conheceu Norton de Matos, Humberto Delgado e Jaime Cortesão, esteve preso várias vezes (casou-sena prisão, por procuração), chegou a ser deportado para S. Tomé e acabou por se estabelecer em Paris, onde conheceu inúmeras figuras internacionais ligados à Internacional socialista, como Mitterand, Willy Brandt, Felipe González e Olof Palme. Pelo meio fundou a Acção Socialista Portuguesa, que daria origem, em 1973, ao Partido Socialista. Voltou a Portugal na sequência do 25 de Abril, conseguiu tornar o PS num dos principais actores políticos do momento, e depois de algum tempo de manifestações comuns, dá-se o afastamento em relacção ao PCP, agravado com a radicalização da situação, o 11 de Março e o caso do jornal República, ligado ao PS. Realizam-se as eleições para a Assembleia Constituinte, que o PS ganha claramente, deixando o PCP e restantes satélites com resultados muito abaixo do esperado, mas nem por isso abrandando o PREC. Soares encarna a resistência na rua ao governo de Vasco Gonçalves e ao crescente domínio do PCP e dos militares esquerdistas, com grandes comícios como o da Alameda, em Lisboa, e das Antas, no Porto, que mostraram que nem todo o país pretendia uma "democracia popular", como aliás as urnas o demonstraram. Ainda em Novembro, com garantias de protecção dos Estados Unidos (onde Kissinger achava que Portugal seria a "Cuba da Europa"), Soares realiza novos comícios antes da tentativa de golpe da extrema-esquerda, sufocada pela reacção dos comandos e dos militares moderados a 25 de Novembro. com a situação normalizada, Soares assumiu o cargo de Primeiro-Ministro depois de ganhar as eleições de 1976. Com a economia de rastos e sem maioria parlamentar, teve chamar o FMI e de ensaiar várias soluções governativas, antes das iniciativas presidenciais o tirarem do governo. Seguiram-se os conflitos internos por causa da sua recusa em apoiar Eanes para novo mandato, a derrota perante a AD de Sá Carneiro, até ao regresso às vitórias em 1983, e a necessidade do acordo do bloco Central, de nova vinda do FMI e de dois anos de pesada austeridade, culminando na adesão à CEE, um dos grandes objectivos de Soares. A esse triunfo seguiu-se a derrota mais pesada, com o PS a obter apenas 20%, pouco mais que o novo PRD inspirado por Eanes, e que permitiram a Cavaco Silva e ao PSD formar o seu primeiro governo. Depois, o combate mais condenado à partida que já houve em Portugal nas últimas décadas: Soares lançou-se às presidenciais de 1986 com apenas 8% de intenções de voto, contra Freitas do Amaral, apoiado pelo CDS e PSD, que congregava toda a direita, o seu velho ex-amigo Salgado Zenha, apoiado por PCP e PRD, e Maria de Lurdes Pintassilgo, apoiada por parte da esquerda. Acabou por suplantar os dois últimos, obrigou Freitas a ir à segunda volta, obrigou Cunhal a engolir um "sapo" e a votar nele, e venceria com ligeiro avanço, transformando uma derrota certa numa vitória quase impossível. Vieram depois os dez anos presidenciais, a coabitação nem sempre fácil com Cavaco (a quem de certo modo deu a sua primeira maioria absoluta), o estilo régio combinando com à vontade nos meios populares, e uma imensa popularidade que levou a que o próprio PSD o apoiasse na reeleição onde ganhou com incríveis 70%. Acabada a presidência, Soares tornou-se um senador sempre interventivo, voltando ao combate político como cabeça de lista pelo PS ao Parlamento Europeu nas europeias de 1999, que venceria, e já mais tarde, depois de aos oitenta anos pronunciar um sonoro "basta de política", resolveu lançar-se numa inglória corrida de novo à presidência da república, aos 81 anos e contra o apoio da família e amigos, contra Cavaco Silva e o anteriormente amigo Manuel Alegre, culminando num modesto terceiro lugar. Seguiram-se anos de intervenção política, os últimos já penosos, em que verificou uma guinada à esquerda e severas contradições com o que tinha defendido em tempos. Mas a importância política de Soares tinha ficado lá atrás.

Este homem teve inúmeras qualidades, como a coragem, o optimismo, a determinação inquebrantável, o à vontade e a absoluta recusa em agradar a gregos e troianos, o apego à liberdade e a lealdade aos amigos. E também muitos defeitos, como a arrogância política e imenso sentido de superioridade (para não ir mais atrás recordo os debates com Cavaco em 2006), inabilidade executiva, desconhecimento de dossiers, desprezo pela coisa pública, com se viu com os montantes gastos na pós-presidência e na sua fundação, e...excessiva lealdade aos amigos, alguns deles de duvidosa credibilidade (Craxi, Sócrates, Andrez Perez, mesmo Mitterand). Este homem não deixou ninguém indiferente, e é talvez o político mais amado e odiado dos últimos cinquenta anos. Se por um lado teve inúmeros amigos, por outro arranjou outros tantos inimigos - Marcelo Caetano, Cunhal, Eanes (com quem faria as pazes), Cavaco, e, a mais dolorosa, Salgado Zenha, outrora um amigo inseparável e com quem nunca conseguiu reconciliar-se. O que significa que deixou uma forte marca e que era realmente um político total, em todo o sentido da palavra. Pôde-se ver agora, por um lado nas imensas cerimónias de estado, nas declarações de líderes estrangeiros e na imprensa internacional, na emoção das pessoas à passagem dos restos mortais; mas também nas redes sociais, com o seu habitual lavar de roupa suja, declarações de ódio e acusações de toda a sorte, algumas completamente absurdas - culpas totais na descolonização (coisa aliás desmentida por pessoas como D. Duarte de Bragança, que afirmou que Soares merecia ir para o Panteão Nacional, ou Ribeiro e Castro, no caso particular de Moçambique), morte de Sá Carneiro, e até uma verdadeira e feliz - o fim da revolução - e outras que provavelmente só com o tempo poderão ser validadas ou descredibilizadas.

Este homem com imensos defeitos é provavelmente o principal responsável por Portugal ser um país livre e pertencente por direito próprio à União Europeia. Mesmo por todas as questões em que discordei dele, e nos últimos anos foram quase todas, não deixarei de lhe agradecer. Se discordo dele publicamente, a ele sobretudo se deve.

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Soares entrou justamente na História de Portugal com um relevantíssimo papel. Está para a 3ª República como Afonso Costa para a 1ª e Salazar para o Estado Novo. Com uma diferença essencial, para além de outras também importantes: ganhou esse papel com o voto dos portugueses e não impondo-se a eles. Eis o que diferencia o "Bochechas" dos outros. E isso é realmente fixe.
 
Que descanse em paz.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Dois meses depois do Euro


Já lá vão dois meses desde que Portugal ganhou o Euro 2016. Quem hibernasse em Junho e Julho e nada soubesse jamais o adivinharia. Afinal de contas, as proezas desportivas dos portugueses depois disso foram escassas: os Jogos Olímpicos saldaram-se por uma magra medalha de bronze (vá lá que não repetimos o vergonhoso feito de zero medalhas de Barcelona e, 1992), um pecúlio muito pobre, digam o que disserem os defensores dos atletas, com mais ou menos razão. E a Seleccção voltou aos campos com uma derrota bisonha por 2-0 na Suíça, depois de uma falsa partida contra Gibraltar. Ou seja, a onda de euforia não se estendeu aos campos desportivos.
 
Mas não, não é motivo para perder o entusiasmo. A vitória nos campos de França é bem real, a taça é nossa e deve servir de exemplo, não de memória desgarrada. Por isso, e embora só acreditar não chegue, é bem possível que com mais algumas condições, num futuro próximo os jogos Olímpicos corram melhor. Quanto à classificação para o Mundial, este era em teoria o jogo mais difícil. além de que a caminhada que só acabou em Saint-Denis começou, como muitos se recordam, com uma inimaginável derrota caseira com a Albânia.
 
E não hão de ser esses percalços a fazer-nos esquecer uma prova que começou sem despertar grande entusiasmo, mas que cativou pelos seus participantes menos usuais, pela performance dos galeses, pela coreografia guerreira dos islandeses (e pela histeria dos seus locutores), pela quebra de tabus e de habituais bêtes noires (França vs Alemanha, Alemanha vs Itália, Portugal vs França), pelos golos de Griezmann, Modric e Shakiri, e claro, pelo ímpeto de Renato Sanches, pelos voos e pela lesão de Cristiano Ronaldo e pelo improbabilíssimo golo de Éder e pela maneira como os portugueses, nessa noite inesquecível de Julho e nos dias que se seguiram, saíram à rua, em verdadeira alegria, comemorando o fim definitivo das "vitórias morais" e do eterno triste fado.
 
Está tudo condensado neste magnífico resumo da BBC, com uma versão francesa de Heroes, de Davd Bowie, como banda sonora, e que só por si quase podia ser um pretexto para este post. "Quase" porque momentos assim merecem ser lembrados enquanto estão frescos.
 
Vive le Portugal, como anuncia orgulhosamente a coluna na imagem final.
 

segunda-feira, julho 18, 2016

O fim do triste Fado


Não exagero se disser que a vitória da Selecção no Stade de France, a 10 de Julho de 2016, e a conquista da Taça da Europa representam, se não o fim, pelo menos um enorme rombo no triste fado lusitano, no desgraçadinho, no "nunca conseguimos", na saudade do futuro que nunca chega. E há mais quem corrobore, como Eduardo Lourenço ou André Lamas Leite. Tal vitória, perante a nossa bête noire futebolística no seu próprio covil, com o Mundo inteiro a assistir, daquela forma heróica, em que o capitão e máxima referência é excluído maldosamente do jogo sob a complacência do juíz, e é o jogador mais subvalorizado de todos que aplica o pontapé de glória, é digna de uma epopeia de Camões ou de um épico à Cecil B. DeMille.

O futebol, como mobilizador de multidões, tanto nos recintos como nos ecrãs, é hoje talvez o maior expoente da globalização. Veja-se a título de exemplo os milhões que são pagos pela sua radiofusão, os custos da publicidade, a venda de camisolas por toda a parte, etc. Mesmo em países tradicionalmente pouco ligados à bola, o interesse é crescente - o investimento em jogadores nos Estados Unidos e na China, além do enorme aumento do número de espectadores e telespectadores dos jogos, é brutal. Por isso, e por muitas outras razões, não se pode reduzi-lo a um mero "jogo entre 22 pessoas para enfiar uma bola numa rede". Talvez não siga a máxima de Bill Shankly, mas a verdade é que nunca o futebol esteve tão mediatizado e globalizado como agora. Que eu me recorde, o único português que pôs espanhóis e ingleses em silêncio, antes de ser aplaudido, chamava-se Eusébio da Silva Ferreira.
 
Dada a importância do futebol na visibilidade de uma comunidade, os triunfos transcendem a simples vitória desportiva. E Portugal mostrou-se muito ao mundo nos últimos vinte anos, depois do surgimento na década de sessenta, de alguns brilharetes nos 80 e da "geração de ouro". Em todo o mundo se vê gente com a camisola da Selecção, particularmente desde que Cristiano Ronaldo se tornou um supercraque e um ídolo à escala mundial. Lembremo-nos por exemplo daquele miúdo indonésio encontrado à deriva depois do tsunami de 2004, o Martunis, mais notícia pela camisola que envergava do que pelo salvamento em si. Daí a importância extraordinária desta conquista: uma equipa diminuída, privada do líder natural, desfeiteou outra dada como vencedora e arrebatou o troféu mais cobiçado que estava entalado na garganta desde 2004.
 
Há também o aspecto simbólico da coisa, remetendo para o futebol puro e simples, a começar pela primeira vitória oficial de sempre sobre a França, uma desforra particularmente saborosa por ser no seu "circo máximo", numa final, e com representantes das anteriores derrotas em cima do palco - Humberto Coelho pela selecção de 1984, João Vieira Pinto pela de 2000, e os próprios Ronaldo e Ricardo Carvalho (também únicos sobreviventes da equipa de 2004) pela de 2006. Sempre nas meias finais. Mas na final, o vencedor seria outro. E logo no país onde reside a maior comunidade portuguesa fora de Portugal, e que se mostrou avidamente. No dia a seguir ao triunfo, teriam um motivo a mais para andar de cabeça levantada. Repegando numa piada que já deixara no outro dia, este ano, o verdadeiro dia de Portugal e das comunidades foi não a 10 de Junho mas a 10 de Julho.
 
Como também se disse, no dia seguinte ao sonho tornado realidade, e apesar da festa imensa e da recepção triunfal à Selecção, a dívida pública não baixou, os serviços públicos não melhoraram, o desemprego não desapareceu, a classe política não se regenerou e até se soube que a Comissão Europeia prosseguido com processo de sanções a Portugal por falta de medidas contra o défice. Mas o que fica mesmo é o exemplo de organização, trabalho, fé, união e espírito de sacrifício que os jogadores e técnicos demonstraram, com um pouco de sorte pelo meio - mas a sorte aparece nestas ocasiões. Aquilo que nunca tinham conseguido, e que se dizia, particularmente após o Euro-2004, que nunca iriam conseguir, concretizou-se numa extraordinária vitória quando todas as circunstâncias indicavam o contrário. O impossível era afinal possível, e o triste fado não gemeria para sempre. Socorrendo-me da mitologia lusitana, pode-se dizer que o mito (da suplantação) do Adamastor sobrepôs-se ao do sebastianismo falsamente esperançoso e para sempre à espera de nada.
 
Para acabar, uma palavra sobre Fernando Santos. Em 2004, quando Portugal perdeu em casa, dizia-se que só com Mourinho a equipa nacional conseguiria alguma coisa; Fernando Santos fora despedido do Sporting, tivera um fim de época para esquecer e era dado como um loser, embora competente. A passagem pela Grécia deu-lhe como que uma nova raça. Apanhou a Selecção em cacos, depois de uma derrota caseira com a Albânia (sim, a aventura de Portugal neste Europeu começou da pior forma possível), e levou-a tranquilamente à qualificação. Geriu tudo com objectividade, humildade (apesar da declaração, no fim verdadeira, de que só voltaria no dia 11) e Fé, que aliás demonstrou publicamente e sem quaisquer pruridos nas declarações após a vitória. Deixou quase todos os louros para os jogadores. Provou que não é preciso ser muito mediático nem exuberante para se atingir o topo quando este mais parece inalcançável. Curiosamente, este parece ser o anos dos treinadores dados como losers: Rui Vitória, Claudio Ranieri, Fernando Santos, todos eles triunfaram quando nada o fazia prever. Mostraram trabalho, fé e resistência à descrença que os rodeava. Ganharam. E deram um valiosíssimo exemplo a todos.
 
Já lhes disse que o triste fado de Portugal acabou no dia 10 de Julho de 2016?




O mais comovente vídeo da final; golo de Éder, música "Acção" de Carlos Paredes, montagem de Cristiano Saturnino.

segunda-feira, julho 11, 2016

Campeões da Europa


 
Sim, a hora chegou. Eram dez e meia da noite, mais uns minutos, hora portuguesa, quando o apito final do árbitro nos deu a Taça que tanto e há tanto tempo queríamos. Ainda tenho as emoções de ontem cá dentro, não consigo deixar de ver imagens dos momentos mais importantes e sinto bem o cansaço da adrenalina liberta e das comemorações nas ruas do Porto, depois de ver o jogo com amigos, em casa de quem vi todos os "mata-mata". Como em todo o país, as ruas encheram-se de carros a apitar, de colunas de pessoas felizes e descontraídas, a baixa da cidade parecia reviver um fim de semana animado e colorido, e os Aliados estavam cobertos por uma multidão festiva e ordeira. O entusiasmo crescia quando nos ecrãs aparecia algum jogador como Éder, o herói da noite, cujo nome era ouvido e aclamado em toda a parte, e transformava-se em euforia quando o hino nacional era tocado, ou então uma música icónica da ocasião, como A Minha Casinha, versão Xutos.
 
É o culminar de um mês que começou com quase indiferença e falta de entusiasmo, que passou a ser de desespero, de aceitação, e por fim, de confiança numa vitória improvável. Nunca como agora vi as pessoas tão confiantes numa vitória da Selecção. Até eu, incorrigível pessimista, tinha uma enorme crença de que ia sair algo de memorável. A expectativa desceu, com a lesão indecente de Cristiano Ronaldo, o homem que mais queria pisar aquele relvado. Mas a sorte protege os audazes, e a glória os que têm decisões temerárias. e não podia haver escolha mais temerária do que lançar Éder; quando entrou em campo, dizia-se a brincar que o máximo seria ganhar com um golo de Éder. E aconteceu mesmo. Teve uma oportunidade, falhou, tentou de novo, e enfrentando sozinho a defesa francesa e a maioria dos espectadores do Stade de France, com um pontapé desengonçado, chutou um torpedo para a glória. O jogador cuja convocatória todos criticaram e zombaram tornou-se o herói de um país. Não mais o nome deste originário de Bissau que cresceu num lar nos arredores de Coimbra será esquecido. Nem o dos outros 22 companheiros, e muito menos de Fernando Santos. A Taça é deles, e consequentemente, nossa. Esta glória, esta alegria, ninguém nos tira.
 
 

domingo, julho 10, 2016

Que se dissipe o nevoeiro


É para dias como os de hoje que os poetas mais são necessários.


Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra...
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É A HORA!


sábado, junho 11, 2016

Um 10 de Junho despercebido


Quis o destino que o 10 de Junho deste ano, celebrado em Paris entre representantes da "comunidade portuguesa", calhasse no preciso dia da abertura do Europeu de futebol, no Stade de France, ali ao lado, em Saint-Denis. É certo que também houve uma majestosa cerimónia no Terreiro do Paço (e embora o modelo de comemorações descentralizadas seja justo e recomendável, a beleza cénica daquele espaço, com a parada militar no centro e o rio e os navios como fundo, é quase inigualável em Portugal), mas por causa do início do Campeonato da Europa precisamente em Paris, com toda a tensão reinante dos últimos tempos (inundações, greves, ameaças de terrorismo), talvez se tenha perdido muito do impacto inicialmente previsto. O que é pena, porque os portugueses em França e seus descendentes mereciam mais destaque local.



Entretanto, no relvado, a França começou com alguma dificuldade, mas lá conseguiu vencer uma bem organizada Roménia por 2-1. Veio-me à memória um outro jogo entre as duas equipas, no europeu de Inglaterra, em 1996, e vendo melhor, houve imensas semelhanças: também ocorreu num 10 de Junho (há vinte anos, portanto), o técnico romeno era o mesmo (Anghel Iordanescu), e até o golo com que a França venceu a Roménia, na altura, teve muito de semelhante com o primeiro de hoje, com um avançado francês a marcar de cabeça a uma saída precipitada go guarda-redes romeno (antes o "boxeur" Stelea, agora o comprido Tatarusanu). Espero que as semelhanças se fiquem por aí e que o Roménia, equipa que sempre teve a minha simpatia, se qualifique desta vez para a fase de grupos. E que já agora, não haja batalha campal entre russos e ingleses em Marselha, uma cidade já de si pouco pacífica.

sexta-feira, maio 27, 2016

Passagem pelo Colmeal


Há já muitos anos que tinha curiosidade de conhecer o Colmeal, a par de outros locais remotos e quase mágicos da Beira Alta sugeridos por velhos livros ou fotografias apelativas. Aqui tratava-se de uma aldeia abandonada perdida no meio dos vales, já quase esquecida, cujos únicos vestígios do passado eram as pedras que restavam dos edifícios. A oportunidade surgiu no último Verão, numa viagem entre a Guarda e Trás-os-Montes, e incluiu outras paragens, como Castelo Rodrigo ou Pinhel.
Estas duas antigas sentinelas de pedra que defendiam a raia das incursões leonesas estão ligadas por uma estrada às curvas apelidada, compreensivelmente, de "excomungada". Um pouco antes do alto da serra da Marofa, um desvio por um estradão, mais umas curvas, e chega-se à paisagem desolada do Colmeal.


As razões do completo abandono da aldeia devem-se a um caso estranhíssimo, e provavelmente único, no Portugal pós-absolutismo. Nos anos cinquenta, todo o território onde estava inserida a aldeia pertencia a uma herdeira dos proprietários que a tinham adquirido aos Condes de Belmonte (o título não aparece aqui por acaso, como se verá à frente), que sob pretexto dos seus habitantes não lhe pagarem a renda devida, moveu-lhes uma acção de despejo, ganha em Tribunal (que considerou ser aquilo uma quinta e não uma aldeia pública), e que seria cumprida coercivamente. Numa manhã de Julho de 1957, um grupo de guardas da GNR assaltou a aldeia e expulsou dali os habitantes e os seus haveres. Diz-se inclusivamente que chegou a haver mortes entre os que resistiram. Todos os habitantes tiveram de abandonar as casas e procurar outro sítio para morar.
Depois da tragédia, a farsa: para pagar os serviços do advogado, a proprietária teve de vender o terreno àquele causídico (outra ironia: um opositor ao regime vigente, que depois do 25 de Abril seria governador civil da Guarda) e a alguns sócios. A propriedade passou por várias mãos, incluindo a Portucel, até aos actuais donos, possuidores de um território que era a sede de uma freguesia e paróquia, e que foi considerado pelas instâncias judiciais não como tal, com os foros e direitos ancestrais da população reconhecidos em séculos anteriores, mas como uma propriedade privada, uma quinta pertencente a uma família e cujos habitantes seriam arrendatários.



A aldeia ficou ali perdida, estes anos todos, com a bizarria de dar nome a uma freguesia cuja sede obrigatoriamente estava noutro lugar. Mas quando lá cheguei esperava encontrar uma paisagem totalmente abandonada, salvo outros viajantes curiosos, como eu, e afinal havia traços de ocupação. Uma casa acima da igreja estava ocupada por uma família que vigiava as obras que ali se estavam a realizar, para um hotel, contaram-me. Um antigo solar que ali existia, comprovado pela dimensão de uma ruína bastante maior que as outras, modestas casas de xisto, estava a integrar no seu interior um novo edifício. A antiga construção pertencera à família dos Cabrais, de onde provinha Pedro Álvares Cabral, que ao que se diz ali residiu. O brasão assim o comprovava (não o vi na altura, só mais tarde em imagens), e daí a propriedade ter pertencido aos Condes de Belmonte, descendentes do descobridor do Brasil (e natural dessa vila beirã), até inícios dos séc. XX. Mas isso não impediu que tivesse escapado à ruína, como tudo o resto. O estado da igreja (do séc. XV, talvez) fazia particular impressão, há muito sem telhado, completamente escavacada, sem vestígios da função sacra que em tempos teve. Apesar das obras, paradas nessa dia, podia-se sentir o isolamento do lugar. Nos montes à volta não se viam outras construções humanas e poucos metros acima pairavam aves de rapina.

Lembrei-me desse desvio ao Colmeal por causa dos anúncios ao novo Countryside Hotel nalguma imprensa, em especial na última revista do Expresso. Os actuais proprietários resolveram formar aquele empreendimento turístico, aproveitando a tranquilidade do lugar, os apoios camarários e comunitários, e até a generosidade agrícola, que permite a plantação de vinha e de oliveiras e a criação de abelhas, cujo mel aparentemente terá dado nome à aldeia. Percebe-se a vontade de devolver a vida a uma povoação morta, com todo o potencial que esta tem. Mas pergunto-me se este afã turístico que aparentemente quer exibir a bucólica aldeia do Colmeal não acabará por torná-la antes num mero resort campestre, sem memória nem nada que a distinga. Há também a questão patrimonial; é muito duvidoso que construir uns monos de betão por cima de um solar antiquíssimo seja a melhor opção de reabilitação, esteticamente e ao nível dos materiais usados (mesmo que se possa pensar que se a aldeia nunca tivesse sido abandonada, hoje estaria repleta de casas de cimento de todas as cores e feitios, sem vestígios das habitações de xisto). E há sobretudo a questão da população que se viu escorraçada das suas casas por causa de um reconhecimento anómalo de uma propriedade e de uma interpretação no mínimo estranha do que é a propriedade pública e privada, e que não parece que vá gozar muito do novo estatuto de aldeia histórica do Colmeal. E assim corre-se o risco de transformar uma ruína de más memórias num conjunto de bungalows sem memória nenhuma. Um dia ainda hei de lá voltar para ver se a transformação acabou por ser positiva ou se mais valia não lhe tocar. Uma coisa é certa: com aqueles acessos, dificilmente se quebrará  isolamento. Valha-nos isto.



Adenda: não faltam sites e blogues com referências ao Colmeal e à expulsão da população. Neste artigo recente há mais pormenores sobre a história da infeliz aldeia.

terça-feira, agosto 04, 2015

O(s) meu(s) primeiro(s) encontro(s) com a Volta a Portugal


Dois dias seguidos, dois encontros com a Volta a Portugal em Bicicleta em locais absolutamente distintos (Vila Real, a caminho do Alvão, e Caminha, na marginal, onde já não deviam passar desde os anos 80, segundo dizem), e acima de tudo sem contar com isso. Vale a pena dizer que nunca antes tinha visto a Volta à minha frente. Não há fome que não dê em fartura.

















sábado, maio 09, 2015

O povo que canta: a televisão portuguesa a gostar dela própria


A RTP-2 está um portento de canal, e isso já vem de antes da mudança de direcção da estação. Séries de qualidade, documentários, programas de história, como o de Fernando Rosas (que puxa um pouco a brasa à sua sardinha, mas em compensação tem imagens fabulosas colhidas por drones), espaços de debate e informação como o já clássico Sociedade Civil, programas de desporto, religião, literatura, natureza, etc. Em suma, um autêntico serviço público televisivo que eu só espero que não alterem.


Um dos programas mais sugestivos e originais do canal, e talvez o melhor que anda por aí, é O Povo que Ainda Canta, uma espécie de braço televisivo do projecto de recolha de música tradicional A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (o site está parado, mas tem imensas coisas dignas de ser vistas e ouvidas, e há sobretudo a página do Facebook). Sob a direcção do seu mentor, Tiago Pereira, e de um conjunto de incansáveis colaboradores, o programa corre o país de lés a lés, quais Giacomettis do século XXI (que tinha uma emissão chamado Povo que Canta, vendo-se aqui uma homenagem explícita no actual programa, e em que por acaso até são entrevistadas pessoas que tiveram contacto e que deram elementos preciosos ao célebre etnógrafo corso), gravando, filmando e entrevistando tudo quanto seja música tradicional portuguesa.


Desde o fado da Mouraria até às tradições musicais do Nordeste transmontano, das chamarritas do Faial e Pico ás concertinas e castanholas do Alto Minho (com grande destaque à romaria de são João d ´Arga e conversas com o sr. Joaquim Barreiros, de Âncora, pai do famosíssimo Quim Barreiros, e que não sabia se seria ainda vivo), passando pelos gaiteiros da região de Coimbra, os adufes da Beira Baixa, os grupos musicais da Beira interior, o fandango ribatejano, o cante alentejano, e o que ainda mais virá, é todo um país que se descobre nas suas riquíssimas e variadas facetas musicais, algumas quase desconhecidas e que poderiam estar condenadas à extinção não fosse este enorme trabalho de recolha e divulgação. Um povo que ainda canta e que se redescobre. Para ver na RTP-2, nas noites de Quinta-Feira, com repetição ao Domingo. E se perderem algum episódio, podem-no descobrir e ver aqui. Acima de tudo vejam e ouçam. É a expressão mais genuína e mais viva de Portugal que está contida nestes pequenos episódios de menos de meia hora.


sexta-feira, abril 03, 2015

Manoel Cândido Pinto de Oliveira 1908 - 2015



Sempre que morre uma pessoa de idade muito avançada, daquelas que parecem imemoriais e eternas, fico sempre com uma certa sensação de intranquilidade. Bem sei que a eternidade não é terrena, mas a longevidade transmite uma ideia de harmonia, de serenidade, decerto relacionada com as raízes e as memórias a que nos agarramos e que impedem que o Mundo tropece no caos, ou no mínimo na incerteza pessimista.

O dia da morte de Manoel de Oliveira é o exemplo perfeito dessa inquietude (remetendo a um dos seus filmes, um dos muitos baseados na obra da sua amiga Agustina). Sabíamos que chegaria, mas sempre achando que seria um dia longínquo. Aliás, Oliveira parecia não fazer caso e tinha algumas tiradas surpreendentes nesse sentido. Mas nos últimos tempos fraquejava, e o seu coração estava já muito fraco. Acabou normalmente, naturalmente, provavelmente sem concluir todos os trabalhos que previra. Ainda assim, conseguiu concretizar a grande maioria, mesmo que tivesse sempre novas ideias que queria levar à tela.

aqui referi o meu primeiro contacto com o cinema de Oliveira - e com o próprio: numa sessão especial de comemoração de Aniki Bobó, com a presença do realizador e de alguns dos acores, na Casa das Artes, onde também se exibiu Douro, Faina Fluvial, o seu primeiro filme (que voltei a ver há uns dois anos, com acompanhamento musical dos Mareantes do Rio Douro, numa sessão organizada pelo CNC do Porto). Mas nunca falei sequer com o realizador. Conheci netos seus, apresentaram-me à sua mulher, a Senhora Dona Isabel Carvalhais (a quem ele deve também boa parte da obra, quanto mais não seja assistência técnica), precisamente na igreja de Cristo Rei, que nunca como hoje terá tido tanto mediatismo. O meu avô conheceu-o e já nos anos sessenta apreciava muito a sua obra, então pouco reconhecida e até mesmo severamente limitada por questões políticas e financeiras. Mas a ele nunca o conheci.

Não sei se o respeito a Manoel de Oliveira se de apenas e só à sua obra ou se também à sua idade, com que continuava a filmar contra todas as probabilidades. Em todo o caso, este não era um pormenor de somenos. Relembre-se que para além de cineasta, era também um atleta de eleição, que ganhou provas de automobilismo e se sagrou campeã nacional de salto à vara (aliás é nesta condição que A Bola, na edição de hoje, anunciou a sua morte). Olhamos para A Canção de Lisboa, decanos dos filmes sonoros portugueses, com mais de oitenta anos, e lá está ele, auxiliando Vasco Santana. Com oitenta e tal anos, surge em Lisbon Story, de Wim Wenders, a parodiar Charlot, saltando e dançando. a idade e a energia inesgotável do cineasta atleta era uma coisa absolutamente espantosa (Clint Eastwood disse há tempos que pretendia seguir-lhe o exemplo).

Fica a sua obra, imensa, discutível, com altos e baixos, mas que revelava a sua visão de Portugal, as suas dúvidas, as suas obsessões e a sua estética muito particular e nem sempre compreendida. Fica a complicação com a sua casa que deveria guardar o seu espólio, jamais aproveitada, entretanto trocada por outra, complicação essa que não pode ser assacada a Oliveira. Fica seu exemplo de mente sã em corpo são, a sua afabilidade, até o mito dos seus planos longuíssimos.


E fica uma ironia e uma curiosidade. A ironia é que Manoel de Oliveira tenha tido exéquias fúnebres (mas não missa) numa Sexta-Feira Santa, o dia da Paixão de Cristo, o mesmo que lhe permitiu fazer um dos seus primeiros filmes, O Acto da Primavera. E a curiosidade é que a primeira (e última) imagem do seu primeiro filme, Douro, Faina Fluvial, de 1931, aquele facho do farol, tenha sido filmada a poucas centenas de metros do último, O Velho do Restelo (nos bancos dos Pinhais da Foz), com mais de oitenta anos de intervalo. Uma espécie de eterno retorno dentro da sua obra?


quinta-feira, julho 03, 2014

Sophia no panteão

 
Sophia de Mello Breyner Andresen repousa no Panteão, depois de uma das mais pacíficas e unânimes escolhas da transladação de um vulto nacional para Santa Engrácia - relembre-se as discussões a propósito de Aquilino, ou da possibilidade de Eusébio ir para lá. É mais que justo. A Poeta nascida no Porto, que passou a maior parte da vida na Graça, em Lisboa, e que se inspirava no mar e nas praia, como a Granja e a Meia-Praia, no Algarve castiço pré-massificação, no Egeu e a herança helénica deixou-nos um legado precioso e único em todo o século XX. A ela devo-lhe, mais do que qualquer outra coisa, a descoberta da leitura, nas primeiras letras, naquelas obras infantis mágicas, inspiradas nos locais que tão bem conheceu, como as praias supracitadas e a quinta Andresen, onde nasceu, e que por milagre ou simples bom senso pode ser vista por todos na sua actual missão de Jardim Botânico - ainda há lá algumas árvores de A Floresta, e o Rapaz de Bronze também lá se mantém.
 
E talvez tenha sido essa mescla de vários portugais que a tornaram a Poeta e a autora que era. E daí a justa transladação e a correspondente cerimónia, solene e digna.  Pena mesmo o discurso do Presidente, o único que não se dirigiu à família, provavelmente ainda a remoer questões com Miguel Sousa Tavares; e também que a tenham posto junto de Aquilino, que não era pessoa que Sophia apreciasse particularmente. Como sempre, a falta de grandeza e de sensatez continuam a ser características indeléveis da "nossa" república.

sábado, junho 28, 2014

Oitocentos anos de uma língua (seja mito ou não)


Nunca me teria ocorrido comemorar o dia da Língua Portuguesa. E de facto, o pretexto parece ligeiramente forçado, ou no mínimo efabulado, similar às criações de todos os mitos. Mas antes um pretexto longínquo do que o esquecimento. E um texto do século XII, do reinado do rei que ficou conhecido como O Gordo, parece-me tão bom como outro qualquer. Se for importante para defender a língua portuguesa, a quinta mais falada no Mundo, e espalhar o seu ensino pelo globo, tanto melhor. O actual marasmo que se assiste nalgumas paragens, como a antiga Índia portuguesa, é que com certeza não ajuda nada.

segunda-feira, junho 23, 2014

Desconsolo e desperdício

 A quase eliminação de Portugal do Mundial não seria apenas uma desilusão: em termos de reconhecimento mundial seria uma tragédia. Digam o que disserem, Portugal quase só é conhecido no Mundo por causa do futebol. Não comparem o fado, as praias, o galo de Barcelos e o vinho com a popularidade de que goza Cristiano Ronaldo, como antes a tiveram Figo e Eusébio. Mas esta eliminação pré-anunciada é particularmente dolorosa por ser no Brasil (incrível como até aí os portugueses conseguem estar em minoria) e contra Alemanha e EUA. Contra este último, na única coisa em que poderíamos ser melhores do que eles, conseguimos até nisso ser suplantados. No caso da Alemanha, seria um tónico contra o país que efectivamente controla a UE, mas fomos completamente dominados pelos germânicos e motivo de gozo na imprensa brasileira. Em suma, desperdiçámos a única coisa em que somos efectivamente conhecidos contra países que não precisam do futebol para isso. Neste momento, infelizmente, Portugal é uma irrelevância em tudo.
 
Sempre temos o S. João, para aliviar mágoas.

segunda-feira, junho 16, 2014

Recado à equipa nacional

 

Cara Selecção, não te esqueças que não estás em território desconhecido: essa cidade onde mais logo vais jogar foi fundada e erguida por portugueses, bem como as suas centenas de igrejas e a sua cultura mestiça, e serviu como primeira capital do território brasileiro por ordem do seu primeiro governador-geral (e fundador) Tomé de Sousa, ainda antes do Rio. A arquitectura que vês no centro, as igrejas, o pelourinho, os palácios, são tudo obras de portugueses (o resto deixámos aos bahianos indígenas, embora tenhamos dado alguns empurrões, nem sempre muito exaltantes, como os escravos trazidos de África, antepassados dos muitos negros dessa cidade). Não te esqueças igualmente que a cruz de Cristo que figurava nas naus de Pedro Álvares Cabral é a mesma que trazes incrustada na tua camisola. Por isso, reflecte nisto antes de enfrentares uma mannschaft cujos adeptos têm mais a ver com as regiões lá de baixo, em Porto Alegre, e honra os teus símbolos e a tua memória em terras que os teus ajudaram a construir. Só te peço isso.


Adenda - das três, uma: ou não leram este recado, ou uma mãe-de-santo lançou um mau olhado (o que explica as lesões de Coentrão e Almeida, e outras coisas) ou a recuperação de Schumacker deu uma imparável energia aos teutões. é que ao fabuloso dia desportivo para os alemães corresponde uma desastre incrível para Portugal, que sofre a maior goleada de sempre em Mundiais, perde dois jogadores por lesão e outro por castigo, e fica dependente dos próximos resultados e até da combinação de jogos entre terceiros.




domingo, janeiro 05, 2014

Eusébio da Silva Ferreira 1942 - 2014

 
O Pantera deixou-nos. Definitivamente. Confesso que era uma notícia que temia quando se anunciava novo internamento do King. E fatalmente, teria de chegar. Agora, a pouco tempo de completar 72 anos, (curiosamente seria no dia em que passariam dez anos sobre a morte em campo de Miklos Feher).Causa muita estranheza e impressão ver o símbolo maior do nosso futebol deixar-nos, um homem que, apesar de nunca ter visto jogar, fazia parte do meu imaginário e de que sempre tinha ouvido falar. A lenda tornou-se um pouco mais terrena nos únicos segundos em que o vi, no corrupio daquele aeroporto alemão em dias de grande competição da bola, e em que fui cumprimentar o Pantera, que de repente ali estava à minha frente.
 
A notícia que acordou os portugueses neste triste Domingo deixou a maior parte chocada. Se ainda há alguém que não percebeu a importância de Eusébio, passo a explicar. Não era um mero jogador muito talentoso e um pouco ingénuo que ganhava títulos: era o português mais conhecido em todo um mundo, num tempo sem internet nem telemóveis, o homem que pôs o futebol português no mapa, o primeiro grande ídolo africano, quando moçambique era um colónia e a maioria dos novos estados de África um conjunto de propriedades de sobas que tinham estudado na Europa. Era um português africano que encantou o Mundo e pôs a Inglaterra de 1966, em plena ascensão dos Beatles, boquiaberta de espanto. Era o homem de quem, quando se falava em qualquer ponto do globo, criava um imediato sentimento de simpatia respeitosa para com Portugal. Era, enfim, alguém capaz de calar as armas da guerra colonial nas picadas de África com os seus golos, e que nunca, mas nunca, se queixou dos seu países, o de nascimento e o de sempre. Por tudo isso, o Benfica, e já nem falo dos países mencionados, devia colocar a bandeira a meia-haste durante todo o ano e os seus jogadores pensare nele antes de entrar em cada relvado.
 
Eusébio, o Pantera Negra, o português mais conhecido e admirado do século XX (que me perdoe Amália), era um mito e agora tornou-se definitivamente numa Lenda que nunca será esquecida. Que Deus o guarde pelo muito que nos deu.