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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Forçar a nota



Constava que o intérprete preferido de Georges Simenon (1903-1989) para desempenhar o papel de Maigret, em cinema, era o actor Bruno Cremer. Pela minha parte, sempre achei Jean Gabin mais apropriado dentro da galeria dos artistas, que iam de Charles Laughton e Gino Cervi até Jean Richard e John Malkovich.
Mais recentemente, lembraram-se de Rowan Atkinson para personificar o Comissário.



Tenho grandes dúvidas que o actor cómico inglês convença o público. Mas às vezes há surpresas. Quem diria que Raul Solnado, escolhido por Fonseca e Costa, para desempenhar o papel de Elias Santana no filme A Balada da Praia dos Cães (1987) iria ser tão convincente e magnífico no seu trabalho de actor "sério" de chefe de brigada da Judiciária?


Esquecemo-nos, talvez, que Solnado era um homem e artista polifacetado.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Um Maigret

 

Alguns livros usados trazem-nos, por vezes, surpresas interessantes. O nº 1 da colecção Maigret da Bertrand, que comprei usado, há muito, trazia um carimbo de posse bem original, do seu anterior proprietário.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Divagações 192

 

Já uma vez por aqui referi que Maigret era bem frequentado, por alguns dos nossos escritores. Na colecção da Bertrand (49 volumes?) Georges Simenon foi traduzido, ao menos, por António Barahona da Fonseca (nº 9 e 39), Vasco Pulido Valente (nº 11), Maria A. Menéres (nº 26) e Ana Luísa Amaral (nº 27).
Pela colecção Vampiro, da Livros do Brasil, tinha já acontecido uma situação muito semelhante. Até Alexandre O'Neill traduziu Simenon. Sempre considerei este facto como uma hipótese de virem a existir versões portuguesas de melhor qualidade pelo trabalho destes escritores. Uma ou outra pequena dúvida no texto português, eu decidia-a a favor do tradutor e contra mim.
Embora as traduções de Simenon para alemão também não foram, na altura, bem apreciadas pela crítica, apesar do trabalho ter sido efectuado pelo poeta Paul Celan.
Mas a última discrepância deixou-me sem solução à vista. Tratava-se da palavra Strand (pgs. 115 e 147), traduzida no livro "O revólver de Maigret" (nº 39 da Bertrand) como masculino, por A. Barahona da Fonseca. Do meu ponto de vista, deveria ser feminina. Strand é, de significado base e linear: praia, margem, em português. Até justificável, em si, pela rua ser paralela ao Embankment do rio Tamisa, que corre nas proximidades. E, por sua vez, rua, em português, é também substantivo feminino. Daí a minha dúvida sobre esta versão portuguesa, masculina.
Mas lá afirma a sabedoria popular: No melhor pano cai a nódoa.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Para uma silhueta de Maigret



Tenho vindo a ler, paulatinamente, um grosso volume, com mais de mil páginas, em que o francês Pierre Assouline (1953) se debruça sobre a vida e obra do belga Georges Simenon (1903-1989). Sendo um trabalho importante e original de análise e investigação, achei por bem vir a fazer uma pequena selecção do que fui lendo, e traduzindo algumas passagens mais significativas, que por aqui deixo registadas:




"Nome (Maigret) engraçado. Como o teria ele (Simenon) encontrado? Quando o pequeno Sim era jornalista na Gazette, um elemento da polícia de Liége chamava-se Arnold Maigret, mas nada indica que os dois homens se tivessem conhecido. Em Paris, um tal Julien Maigret, que acabava de passar quinze anos no Congo, prepara-se para assumir o cargo de primeiro director do Poste Colonial, emissora de rádio do império francês, em maio de 1931, ou seja dois anos depois de ter surgido o patronímico pela pena do escritor. (...) E Simenon descobrirá ainda mais tarde com boa disposição, lendo no inglês Sainte-Beuve de Harold Nicholson, que na página 201 um certo «M. Maigret, director da Segurança geral» teve uma intervenção nos acontecimentos ocorridos em 1855, se não há mais tempo!
Bem como há que confessar: que se ignora como este nome lhe veio ao espírito, ainda que se possa especular infinitamente sobre a relação entre a sua raiz (maigre) e a silhueta volumosa desta personagem com 110 quilos e 1,80 m. de altura.
Jules Maigret nasce para a literatura aos 45 anos, que é praticamente a idade com que morreu o pai de Simenon. Está casado, sem filhos, tal como Simenon a princípio." (Pgs. 207/8)



"Maigret não é um intelectual nem um cerebral: não pensa nem reflecte. Bastante inteligente, mas não manhoso, é um intuitivo e instintivo puro. Como uma esponja, absorve, impregna-se, penetra numa atmosfera para melhor compreender os mecanismos desse meio. O seu faro, ainda mais do que a sua capacidade de reflexão leva-o às mais audaciosas deduções. (...) É um homem de rituais. Vai ao cinema uma vez por semana. À tarde quando regressa a casa, entre o segundo e o terceiro andar, desabotoa o casaco para tirar as chaves do bolso. Embora saiba que Louise, a sua mulher, lhe abrirá a porta mesmo antes de ele meter a chave na fechadura." (pg. 209)

com agradecimentos a H. N., pelo empréstimo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Uma louvável iniciativa 57


Com algum gosto, tenho vindo a acompanhar na RTP-Memória, nos dias úteis e às 21h00, a repetição da série norte-americana e policial Columbo. Apesar do cabotinismo de Peter Falk e da sua excessiva gesticulação, que  é cansativa, não me tenho dado mal... E até me lembrei de Maigret que tinha o princípio de tentar compreender e não julgar os criminosos. Princípio também respeitado por Columbo, quase sempre.
O penúltimo Le Monde (24/7/2020), para além de uma entrevista com John Simenon (1949), traz uma boa notícia para os amantes de leitura policial e, especialmente, para os admiradores de Maigret, o mesmo é dizer de Georges Simenon. Com o patrocínio do jornal francês, irão ser reeditados cerca de 50, dos 76 romances e 28 novelas Maigret. Com novas e competentes ilustrações de capa de Loustal.
Ao imbatível preço de 2,99 euros, cada livro.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Simenon, again


Um dos últimos TLS (nº 6115) noticia e dedica duas páginas à saída do último Maigret em versão inglesa. Trata-se da tradução de Maigret et M. Charles cuja edição primeira saiu em França, em 1972. Terá sido o último policial de Georges Simenon (1903-1989) escrito, tendo a figura do conhecido Comissário como protagonista. O primeiro, Pietr-le-Letton, datava de 1930. A Penguin completou assim a sua nova série de 75 novelas (número porventura total e rigoroso), com novas traduções feitas para o efeito. A nossa colecção Vampiro, da Livros do Brasil, abrange 73 volumes  de Maigret. A edição da Bertrand conta apenas 49. Creio que a totalidade, contos incluídos, em francês, chega aos 84 escritos. Mas há quem acrescente às 75 novelas  mais 28 contos. Assim perfaziam-se 103 títulos - é obra, seja como for!


Esta notícia oportuna do TLS vem comprovar, pelo que representa, a vitalidade da obra de Simenon.

domingo, 19 de julho de 2015

Manhã de domingo, com Maigret


A duas ou três páginas do fim da leitura do livro de Simenon, na varanda a leste, uma das minhas três rolas, vizinhas e outrabandistas, descreve um voo elegante, helicoidal, até pousar na antena de televisão mais alta das redondezas. Lá terá ficado uns bons cinco minutos. O calor, entretanto, ia subindo na manhã.
É um medo misterioso, o do título do romance de Simenon, que Maigret confessa, por mais de uma vez, mas que nunca chega a adjectivar. Não é físico, mais parece abstracto. Vago. Mas chega para pairar sobre essa manhã, passada na província, depois do acordar tranquilo, quase onírico, de Maigret:

"Ao tomar consciência de que era domingo, pôs-se a preguiçar. Já antes jogara a uma brincadeira secreta de infância. Ainda lhe acontecia jogá-la, deitado ao lado da mulher, tomando cuidado para nada deixar transparecer. E ela deixava-se enganar e perguntava, ao trazer-lhe o café:
- Com que é que sonhavas?
- Porquê?
- Sorrias como um anjo.
Nessa manhã, em Fontenay, antes de abrir os olhos, sentiu um raio de sol que lhe atravessava as pálpebras.
Entregou-se à sensação. Tinha a impressão de o ver através da fina pele que o picava e, indubitavelmente por causa do sangue que nele circulava, era um sol mais vermelho que o do céu, glorioso, como o que paira sobre as imagens.
Podia criar um mundo inteiro com este sol, milhares de faíscas, vulcões, cascatas de ouro fundido. Bastava-lhe mexer levemente as pálpebras como num caleidoscópio, sevindo-se das pestanas como grade.
Ouviu os pombos que arrulhavam num beiral por cima da sua janela, em seguida dois sinos soaram em dois lugares ao mesmo tempo e imaginou os campanários erguidos na direcção do céu azul. ..."

sábado, 19 de abril de 2014

Aceitar ou não aderir


Foi Samuel T. Colerige que, no início do séc. XIX, cunhou pela primeira vez o conceito de suspension of disbelief (suspensão da descrença) caracterizando-o como: a capacidade (ou não) de um escritor conseguir introduzir suficiente interesse humano e verosimilhança de realidade numa obra de ficção, de forma a que o leitor suspenda, em si, a atitude de desconfiança sobre a inverosimilhança de uma narrativa.
A cerrada marcação psicológica, e até o aspecto físico, que Georges Simenon imprimiu, subtilmente, à sua personagem Maigret, em quase uma centena de livros, torna extremamente difícil ao leitor aceitar o desempenho visual e de interpretação, em filme ou séries televisivas, de vários actores que encarnaram a figura do célebre comissário francês.
E, embora na maioria dos casos os actores tenham aparência tranquila e voz  pausada, alguma corpulência e robustez, algo escapa a uma sobreposição credível, que permita aceitar, por parte do espectador, a verosimilhança da personagem. De Jean Richard a Bruno Crémer, de Albert Préjean a Gino Cervi ou Michael Gambon, franceses ou não, todos eles falham em criar essa tal suspension of disbelief de que falava Coleridge.
Para mim, o único que quase conseguiu encarnar, parcialmente, o comissário Maigret, terá sido Jean Gabin.
E, mesmo assim...

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A eternidade da ficção


Entre o ulo enraivecido da agonia de Flaubert, injuriando a eternidade de Madame Bovary, e a placidez metálica e durável da Sereiazinha, de Andersen, em Copenhaga, na sua perenidade, vai o espírito do Homem, que usa a imaginação para tentar vencer a morte e a finitude dos corpos.
Não é nada frequente que uma personagem de ficção venha a ganhar os contornos e o direito estatuário de ficar, em detrimento de quem os criou e idealizou - mesmo que de forma exemplar - em palavras escritas.
Mas é o que realmente se passa, na verdade, com a simpática figura do comissário Jules Maigret, criada por Georges Simenon (1903-1989). A estátua, executada pelo escultor Pieter d'Hont (1917-1997), existe. E foi inaugurada, com pompa e circunstância, na presença de Simenon, a 3 de Setembro de 1966, em Delfzijl (Holanda).
Porque terá sido lá, nessa margem esquerda do rio Ems, que, por volta de 1930, terá sido escrito o primeiro policial da saga Maigret: "Pietr, o letão" - que viria a ser publicado em 1931.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Osmose (42)


Dezenas de carruagens passam. Centenas ou milhares de troncos nus ou decepados - como se fosse o cortejo e funeral absurdo de uma floresta -, transformados, talvez mais tarde, em alvíssimas folhas A4, ou no cheiro insuportável à volta de Cacia.
A curiosidade é, por vezes, tão premente e obsessiva que nos faz perder de vista o essencial, inquinando, de forma cega e quase absoluta, o rumo natural da imaginação.
É sempre salutar e vantajoso, em função dos mistérios, convocar o bom senso de Maigret, ou o exemplo das deduções inteligentes de Sherlock Holmes, perante a morte incompreensível dos outros. Júlio Dantas não nos servirá de nada, porque será uma mera redundância, mesmo com o cruel Pim! de Almada.
É importante guardar uma lágrima cativa para o essencial. Às almas simples convém nunca perderem de vista a realidade, a crueza dos números, a eternidade da morte.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Um ex-libris


O ex-libris é, muitas vezes, a súmula de um ideal ou um programa de vida feito, normalmente, já a meio dela.
Recordo o de Aquilino Ribeiro, com a imagem de um cavaleiro a galope e a frase: "Alcança quem não cansa". Ou o de uma pessoa (M. R. de S.) de boa memória, para mim, e já falecida. Foi advogado, depois de ser capitão da marinha mercante. O seu pequeno ex-libris tinha a imagem de um barco de velas desfraldadas e a palavra: "Vercalfir". Eram as letras iniciais, explicou-me ele, das palavras: Verdade, Calma, Firmeza.
Apercebi-me, há dias, com maior atenção, do ex-libris de Georges Simenon. Na imagem, tem uma árvore e um homem (Adão?), em primeiro plano, e atrás, ao fundo, do lado direito, um segundo homem. E uma frase: "Comprendre et ne pas juger". Esta frase poderia aplicar-se por inteiro à maneira de ser do Inspector Maigret, que procurava sempre perceber as razões do crime, mas raramente julgava, do ponto de vista moral, a atitude do criminoso. Deixava isso ao livre arbítrio do leitor.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Simenon




Nascido em Liége, na Bélgica, a 13 de Fevereiro de 1903, Georges Joseph Christian Simenon veio a falecer na Suiça (Lausanne), em Setembro de 1989. Em 1922 fixa-se em Paris, como jornalista, chegando a entrevistar, na Turquia, Trotsky. Começa a intensificar a sua carreira de romancista. Entre 1945 e 1955, viveu nos Estados Unidos da América e, daí, o chamado ciclo de "romances americanos"muito prolífico, aliás. Simenon foi um grande criador de ambientes em tudo aquilo que escreveu; e as suas personagens, muito marcadas, são construídas, na sua obra, através de pequenos gestos que fazem, curtas frases de diálogo, apontamentos indirectos e, raramente, por descrições físicas ou psicológicas, ou adjectivos. O caso do inspector Maigret é um bom exemplo disso, nos 84 romances em que é a personagem principal. As histórias em que entra Maigret tiveram tanto sucesso que subalternizaram, injustamente, os chamados romances "duros" de grande qualidade, também, de que destaco, entre outros: "La neige était sale" de 1948, "Tante Jeanne"(1950) e "Le Président"(1958); ou ainda "La Maison des sept jeunes filles" que é um hino de alegria e frescura na arte de contar.

O primeiro Maigret foi editado em 1931, "L'affaire Saint-Fiacre", e o último, "Maigret et Monsieur Charles" (1972). Pelo meio ficou "Les Mémoires de Maigret", de 1951, brilhante exercício de estilo e desdobramento psicológico em que o célebre inspector pretende corrigir,com benevolência, as imprecisões do seu autor - Simenon. A quem tiver capacidade para digerir obras pesadas, no seu duplo sentido, (e ainda não conheça) aconselho, vivamente, a ler as "Mémoires intimes"(1978), escrito por Georges Simenon após o suicídio da sua filha Marie-Jo. E também a magnífica "Lettre à ma mére", de 1974, escrito três anos depois da morte de sua mãe, em Liége. É um livro-testemunho, de grande qualidade literária, em que o escritor trata e tenta clarificar, através da memória, as suas relações mãe-filho, ao longo da vida ("Nous ne nous sommes jamais aimés de ton vivant, tu le sais bien. Tous les deux, nous avons fait semblant...").

Simenon é um dos meus autores de referência. Nunca me cansei de o ler, ou reler.